Todos os Nomes (Errados)

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O fait divers taxonómico já o havia escrito há meses.
O texto, de sua gra√ßa “Todos os Nomes”, jogava com a aproxima√ß√£o mundana aos nomes cient√≠ficos dados a novas esp√©cies animais e vegetais.
A dessacraliza√ß√£o onom√°stica passava por baptizar os rec√©m incorporados seres vivos no Olimpo cient√≠fico com nomes de comuns mortais. Comuns n√£o seriam, j√° que os padrinhos involunt√°rios eram pessoas ou institui√ß√Ķes conhecidas.
Ainda assim, o encontro entre a terminologia científica e os nomes plebeus era bonita de analisar.
Hoje, no DN, é publicado artigo semelhante.
Louvo o escriba, já que o filão todos os dias é engrossado pelo labor dos cientistas, mas também pela assombrosa diversidade de vida na Terra.
Menos bem, desta vez, esteve o desesperado jornalista, que na √Ęnsia de levar aos leitores tamanha novidade, foi contaminado por um s√≠ndrome tipo valter hugo m√£e, mas em vers√£o taxon√≥mica.
Desrespeitando as regras b√°sicas da nomenclatura taxon√≥mica, o autor do artigo grafa todas (!) as esp√©cies com letra min√ļscula.
Bem visto, bruno abreu!
Errata:
Para al√©m da falta de mai√ļscula na primeira palavra do nome das esp√©cies, ainda est√£o mal grafadas as seguintes esp√©cies:
“metrarapdotus teixeirai” deve ser “Metrarabdotos teixeirai”
“nepenthes attenbogoughii” deve ser “Nepenthes attenboroughi”
“aghatidium cheneyi” deve ser “Agathidium cheneyi”
Das quatro primeiras que verifiquei, três estavam erradas.
Fico por aqui…e n√£o as coloquei em it√°lico para n√£o baralhar ainda mais…
Imagem:
daqui

Todos os nomes*

Nomear e classificar são actos intrinsecamente humanos. Chamamos as coisas pelos nomes para as discriminar, mas esse acto acrescenta algo mais do que a mera nomeação da coisa.
“N√£o me chames nomes!”, dizia-me um colega de escola para n√£o ser ofendido; “Isso n√£o se diz!”, corrigia a minha m√£e quando eu apelidava, com v√°rias inten√ß√Ķes, algu√©m de quem n√£o gostava.

A classificação dos seres vivos, quer actuais quer os do registo fóssil, obedece a regras precisas com o objectivo de não gerar equívocos e mal-entendidos na comunicação científica.
Utilizando v√°rias fontes online, todas baseadas na “b√≠blia” da nomenclatura dos animais – o ICZN (International Code of Zoological Nomenclature), dediquei algum tempo √† pesquisa de nomes inusitados com que alguns animais t√™m sido nomeados

N√£o poderia deixar de come√ßar com uma personagem f√≥ssil que tem estado ligada √† minha vida profissional – o Apatosaurus louisae. Este dinoss√°urio saur√≥pode americano foi dos primeiros a ser descoberto e montado numa exposi√ß√£o, nos finais do s√©c. XIX. O mecenas das escava√ß√Ķes e trabalho cient√≠fico, Andrew Carnegie, tinha como esposa a senhora Louise, sendo esta a musa inspiradora para o nome do grande animal.

Mas a homenagem dos paleont√≥logos n√£o se ficou pela patroa; tamb√©m o senhor Carnegie teve direito ao seu quinh√£o – Diplodocus carnegii – outro saur√≥pode, sendo assim apelidado para preservar o nome do chefe. N√£o morder a m√£o que nos alimenta e aben√ßoar o seu nome devia ser a moral da hist√≥ria…

Ainda no mundo dos dinossáurios de referir o Masiakasaurus knopfleri, um carnívoro descoberto em Madagáscar. A história do baptismo é conhecida mas foi-me contada na primeira pessoa por um dos autores, Catherine Foster.
Justificou-me ela que ouviam a m√ļsica dos Dire Straits, cujo vocalista √© Mark Knopfler, quando descobriram o s√°urio.
Espero estar ouvir Am√°lia da pr√≥xima vez que estiver a escavar, pensei eu na altura. E n√£o √© que existem pelo menos 13 animais com o nome “amalia”, entre aves, moluscos e insectos?

Outro dos ícones portugueses, o Pantera Negra, entra no nome científico de dois animais РLibellula eusebioi (uma libélula fóssil) e um ácaro das Filipinas, Dolicheremaeus eusebioi.

Passou o importuno Dia dos Namorados mas nada como relembrarmos o Bela eva, um gastrópode de Moçambique. Que nome bonito e adequado para a nossa cara-metade. Bem, a menos que ela seja uma malacologista Рestudiosa de gastrópodes e bivalves Рpois nesse caso não achará grande originalidade ao nosso piropo conjugal.
Mas podemos sempre atirar-lhe com Amoraster Рouriço-do-mar do Miocénico da Austrália. Quem feio escuta, bonito lhe parece, pelo menos nesta situação.

H√° 470 milh√Ķes de anos, quando fossilizou, o equinoderme primitivo Delgadocrinus oportovinum mal imaginava que teria o seu baptismo cient√≠fico associado ao produto agr√≠cola mais famoso de Portugal – o Vinho do Porto.
Pois foi isto que a equipa liderada por um paleont√≥logo da UTAD fez; a justifica√ß√£o para a designa√ß√£o da nova esp√©cie assenta na sua morfologia j√° que esta faz lembrar um c√°lice do n√©ctar duriense, sendo a primeira parte do nome uma “v√©nia” ao ge√≥logo Nery Delgado, respons√°vel pelas primeiras recolhas de material.
Se os paleont√≥logos puderem ter algum apoio do sector vin√≠cola, √© ouro sobre…um Porto de Honra!

” ****, seu **** “, s√£o nomes que n√£o posso repetir e que apelidam o senhor do apito que corre de cal√ß√Ķes, com outros senhores que pontapeiam uma bola; mas quando “joga” o Taedia benfica – insecto pertencente √† fam√≠lia Miridae e descrita por cientistas brasileiros, n√£o me parece que haja muitos protestos, salvo se estivermos para os lados das Antas ou Alvalade.
O prémio para nome contraditório poderia perfeitamente ser atribuído à Boa canina Рum réptil da ordem Serpentes; esta besta, que mata por estrangulamento, de boa não tem nada, pelo menos para as suas vítimas; e de canino, talvez apenas a fidelidade ao seus instintos.

J√° o Turanogryllus mau – um grilo africano – pode invocar que tem a reputa√ß√£o manchada pelo nome cient√≠fico que lhe calhou na rifa…
O mundo da Internet j√° serviu igualmente de inspira√ß√£o ao “neg√≥cio” de alcunhar animais.
A Proceratium google é uma formiga de Madagáscar, descrita em 2005 e, justificam os investigadores, tem a particularidade de saber procurar muito bem as suas presas, tal como o seu homónimo informático.
A lista de nomes é imensa, mas finalizo com Libellago finalis Рuma libelinha.
Assim, acho que ainda tenho tempo para agarrar La cerveza – uma tr
aça norte-americana.

*Uma sincera homenagem à obra homónima de José Saramago.

(Publicado no jornal O Primeiro de Janeiro a 15/2/2007)

Imagens
Luis Azevedo Rodrigues – duas primeiras
Amoraster paucituberculata – McNamara, K. J. & Ah Yee, C. 1989. A new genus of brissid echinoid from the Miocene of Australia. Geological Magazine 126.
Proceratium google – Brian Fisher

Todos os Nomes*

Nomear e classificar são actos intrinsecamente humanos. Chamamos as coisas pelos nomes para as discriminar, mas esse acto acrescenta algo mais do que a mera nomeação da coisa.
“N√£o me chames nomes!”, dizia-me um colega de escola para n√£o ser ofendido; “Isso n√£o se diz!”, corrigia a minha m√£e quando eu apelidava, com v√°rias inten√ß√Ķes, algu√©m de quem n√£o gostava.
A classificação dos seres vivos, quer actuais quer os do registo fóssil, obedece a regras precisas com o objectivo de não gerar equívocos e mal-entendidos na comunicação científica.
Utilizando v√°rias fontes online, todas baseadas na “b√≠blia” da nomenclatura dos animais – o ICZN (International Code of Zoological Nomenclature), dediquei algum tempo √† pesquisa de nomes inusitados com que alguns animais t√™m sido nomeados.

N√£o poderia deixar de come√ßar com uma personagem f√≥ssil que tem estado ligada √† minha vida profissional – o Apatosaurus louisae. Este dinoss√°urio saur√≥pode americano foi dos primeiros a ser descoberto e montado numa exposi√ß√£o, nos finais do s√©c. XIX. O mecenas das escava√ß√Ķes e trabalho cient√≠fico, Andrew Carnegie, tinha como esposa a senhora Louise, sendo esta a musa inspiradora para o nome do grande animal.
Mas a homenagem dos paleont√≥logos n√£o se ficou pela patroa; tamb√©m o senhor Carnegie teve direito ao seu quinh√£o – Diplodocus carnegii – outro saur√≥pode, sendo assim apelidado para preservar o nome do chefe. N√£o morder a m√£o que nos alimenta e aben√ßoar o seu nome devia ser a moral da hist√≥ria…
Ainda no mundo dos dinoss√°urios de referir o Masiakasaurus knopfleri, um carn√≠voro descoberto em Madag√°scar. A hist√≥ria do baptismo √© conhecida mas foi-me contada na primeira pessoa por um dos autores, Catherine Foster. Justificou-me ela que ouviam a m√ļsica dos Dire Straits, cujo vocalista √© Mark Knopfler, quando descobriram o s√°urio. Espero estar ouvir Am√°lia da pr√≥xima vez que estiver a escavar, pensei eu na altura. E n√£o √© que existem pelo menos 13 animais com o nome “amalia”, entre aves, moluscos e insectos?

Outro dos ícones portugueses, o Pantera Negra, entra no nome científico de dois animais РLibellula eusebioi (uma libélula fóssil) e um ácaro das Filipinas, Dolicheremaeus eusebioi.
Aproxima-se o importuno Dia dos Namorados mas nada como relembrarmos o Bela eva, um gastrópode de Moçambique. Que nome bonito e adequado para a nossa cara-metade. Bem, a menos que ela seja uma malacologista Рestudiosa de gastrópodes e bivalves Рpois nesse caso não achará grande originalidade ao nosso piropo conjugal. Mas podemos sempre atirar-lhe com Amoraster Рouriço-do-mar do Miocénico da Austrália. Quem feio escuta, bonito lhe parece, pelo menos nesta situação.

H√° 470 milh√Ķes de anos, quando fossilizou, o equinoderme primitivo Delgadocrinus oportovinum mal imaginava que teria o seu baptismo cient√≠fico associado ao produto agr√≠cola mais famoso de Portugal – o Vinho do Porto. Pois foi isto que a equipa liderada por um paleont√≥logo da UTAD fez; a justifica√ß√£o para a designa√ß√£o da nova esp√©cie assenta na sua morfologia j√° que esta faz lembrar um c√°lice do n√©ctar duriense, sendo a primeira parte do nome uma “v√©nia” ao ge√≥logo Nery Delgado, respons√°vel pelas primeiras recolhas de material.

Se os paleont√≥logos puderem ter algum apoio do sector vin√≠cola, √© ouro sobre…um Porto de Honra!
” ****, seu **** “, s√£o nomes que n√£o posso repetir e que apelidam o senhor do apito que corre de cal√ß√Ķes, com outros senhores que pontapeiam uma bola; mas quando “joga” o Taedia benfica – insecto pertencente √† fam√≠lia Miridae e descrita por cientistas brasileiros, n√£o me parece que haja muitos protestos, salvo se estivermos para os lados das Antas ou Alvalade.

O prémio para nome contraditório poderia perfeitamente ser atribuído à Boa canina Рum réptil da ordem Serpentes; esta besta, que mata por estrangulamento, de boa não tem nada, pelo menos para as suas vítimas; e de canino, talvez apenas a fidelidade ao seus instintos.

J√° o Turanogryllus mau – um grilo africano – pode invocar que tem a reputa√ß√£o manchada pelo nome cient√≠fico que lhe calhou na rifa…

O mundo da Internet j√° serviu igualmente de inspira√ß√£o ao “neg√≥cio” de alcunhar animais. A Proceratium google √© uma formiga de Madag√°scar, descrita em 2005 e, justificam os investigadores, tem a particularidade de saber procurar muito bem as suas presas, tal como o seu hom√≥nimo inform√°tico.
A lista de nomes é imensa, mas finalizo com Libellago finalis Рuma libelinha.

 

La cervezaAssim, acho que ainda tenho tempo para agarrar La cerveza Рuma traça norte-americana.

*Uma sincera homenagem à obra homónima de José Saramago.
(Publicado no jornal O Primeiro de Janeiro a 15/2/2007)