Nova marginal e a obviedade do paradoxo

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“Tr√™s anos depois da amplia√ß√£o da marginal Tiet√™, a mais importante via de S√£o Paulo, o efeito positivo sobre o tr√Ęnsito acabou –e a lentid√£o na cidade voltou a subir” [Nova marginal Tiet√™ j√° n√£o alivia o tr√Ęnsito paulistano, Folha, 24/03/2013]

Quando a amplia√ß√£o da marginal foi anunciada, comentamos o Paradoxo de Braess: mais estradas podem por vezes significar mais congestionamento. Com novas estradas motoristas coletivamente alteram seus trajetos buscando, individualmente, diminuir seu tempo de viagem. O resultado paradoxal √© que coletivamente o resultado pode ser que todos perder√£o mais tempo. N√£o basta adicionar mais e mais estradas para reduzir congestionamentos, n√£o √© uma fun√ß√£o linear, mais estradas podem piorar o tr√Ęnsito. E uma vers√£o um tanto mais complexa, mas ao mesmo tempo mais previs√≠vel do paradoxo foi observada no grande experimento involunt√°rio da amplia√ß√£o da marginal.

‚ÄúAt√© quem n√£o pegava mais a marginal voltou a usar, e ent√£o j√° excedeu a capacidade da via‚ÄĚ, diz Hor√°cio Figueira, mestre em transportes pela USP. Exatamente o Paradoxo de Braess. E somado a isto, o foco em investimentos de infra-estrutura e cr√©dito baixo, incluindo descontos em impostos, para autom√≥veis teve outro resultado nada paradoxal. ‚ÄúA frota cresceu 35% de 2005 para 2011, chegando a 7,1 milh√Ķes de ve√≠culos — √≠ndice de 63,4 para cada 100 habitantes‚ÄĚ [Crescimento da frota fez tr√Ęnsito piorar em SP, afirma CET].

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Somos ref√©ns do autom√≥vel, porque o autom√≥vel √© f√°cil de ser medido economicamente. √Č um bem de consumo dur√°vel de grande valor, que gera empregos e movimenta diversos setores da economia. O impacto de um autom√≥vel na economia √© muito mais f√°cil de ser percebido do que, digamos, o de uma bicicleta. Uma bicicleta tem uma fra√ß√£o do valor de um autom√≥vel, gerando uma fra√ß√£o dos empregos e movimentando uma fra√ß√£o de setores econ√īmicos. Voc√™ n√£o v√™ anunciantes de bicicleta nos intervalos do Jornal Nacional.

O combust√≠vel que a bicicleta ir√° consumir n√£o √© medido pelo governo, felizmente. A energia vem da alimenta√ß√£o do ciclista. Mas sendo assim, como voc√™ acompanha quantas bicicletas de fato circulam em S√£o Paulo diariamente? √Č uma tarefa complicada, ser√° preciso lidar com v√°rios indicadores ‚Äúproxy‚ÄĚ, estimativas e tudo mais. Com autom√≥veis, ministros podem ter prontamente dados sobre o consumo de combust√≠veis, sobre multas, impostos e toda uma infra-estrutura criada para estimar n√£o s√≥ a frota como onde e qual a extens√£o dos congestionamentos minuto a minuto.

Esta infra-estrutura para monitorar autom√≥veis teve um custo, √© claro. A duplica√ß√£o da marginal teve um custo. Voc√™ pode ter estes custos √† m√£o‚Ķ contudo porque o autom√≥vel √© um elemento econ√īmico f√°cil de ser medido em seus impactos positivos na economia, e √© um impacto muito expressivo, estes custos s√£o sempre tomados como marginais.

H√° ent√£o os custos associados a autom√≥veis muito mais dif√≠ceis de serem estimados. Mais de 40.000 pessoas morrem ao ano em acidentes de tr√Ęnsito. Qual √© o custo disso? S√£o quase R$2 bilh√Ķes pagos anualmente em indeniza√ß√Ķes pelo DPVAT, mas uma indeniza√ß√£o do DPVAT certamente n√£o equivale ao real valor de uma vida perdida. √Č apenas uma indeniza√ß√£o definida pelos recursos que podem ser alocados de um fundo de seguro obrigat√≥rio pago por propriet√°rios de autom√≥veis. Quanto maior √© o custo ‚Äď econ√īmico! ‚Äď das vidas ceifadas? Qual √© o custo da polui√ß√£o? Quanto custa o estresse?

N√£o temos esses n√ļmeros, ou ainda que tenhamos estimativas, elas n√£o se traduzem em indicadores t√£o diretos e considerados t√£o urgentes para a economia quanto n√ļmero de empregos, impostos pagos e tanto mais. Temos os n√ļmeros dos carros, e eles guiaram a l√≥gica simples da pol√≠tica p√ļblica de investir em autom√≥veis. Isso, deixando a parte toda a quest√£o de lobbies da ind√ļstria automobil√≠stica, que amplificam o poder de influ√™ncia e decis√£o em favor do autom√≥vel, e a facilidade com que a corrup√ß√£o pode ser praticada com grandes obras vi√°rias.

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‚ÄúQuando uma medida se torna uma meta, ela deixa de ser uma boa medida‚ÄĚ, diz a Lei de Goodhart. ‚ÄúA lei de Goodhart √© um an√°logo sociol√≥gico do princ√≠pio da incerteza de Heisenberg na mec√Ęnica qu√Ęntica‚ÄĚ. Em economia, a Lei de Goodhart traduz o fato de que para alcan√ßar qualquer meta atrelada em um indicador, √© muito mais f√°cil que os fundamentos desse indicador sejam distorcidos do que realmente mudar ‚Äď e melhorar ‚Äď o que esse indicador realmente pretendia medir para in√≠cio de conversa.

√Č mais f√°cil maquiar a infla√ß√£o, congelando pre√ßos, do que controlar o que a infla√ß√£o realmente significa, que √© a eros√£o do valor dos sal√°rios. Na Uni√£o Sovi√©tica, grandes planos econ√īmicos estabeleciam metas de crescimento que levavam em conta o n√ļmero de quil√īmetros rodados por trens. Para alcan√ß√°-las, diz a lenda que trens andavam milhares de quil√īmetros vazios.

√Č mais f√°cil criar e administrar pol√≠ticas relacionadas a autom√≥veis para melhorar indicadores econ√īmicos do que tentar abordar indicadores muito mais complexos e dif√≠ceis de quantificar como qualidade de vida. Mas mesmo confiando em indicadores, todos mostram que o tr√Ęnsito em S√£o Paulo voltou a piorar, a despeito de bilh√Ķes de investimento de v√°rias esferas do governo. E quando a realidade confronta abertamente o absurdo de indicadores h√° muito inadequados, algo precisa ser feito.

Para diminuir a quantidade de congestionamentos em São Paulo, para melhorar a qualidade de vida do paulistano, deve estar claro que a solução não é simplesmente criar mais vias.

Ateísmo Humano

No Congresso Humanista 2012, com a mestre de cerimônias Shirley Galdino

No início de setembro de 2012, a Liga Humanista Secular (LiHS) realizou o I Congresso Humanista Secular em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Reunindo pela primeira vez ateístas, humanistas e secularistas de todo o país e do mundo em um grande evento no Brasil, eu estive lá, e uma palavra que pode resumi-lo é que foi histórico!

O termo pode parecer um tanto exagerado para o que, à primeira vista, pareça apenas uma série de palestras feitas lá no Sul. Para expressar e compartilhar melhor a satisfação que tive em acompanhar e participar desse evento, vou contar um pouco de minha história me aventurando como parte destes grupos de pessoas-que-não-acreditam-em-certas-coisas.

A ‚ÄúSociedade da Terra Redonda‚ÄĚ

H√° mais de dez anos, existia no pa√≠s um grupo significativo de ateus, agn√≥sticos, humanistas, c√©ticos, racionalistas e tantos mais unidos pela internet em todo o Brasil e pelo mundo para trocar ideias e promover a√ß√Ķes defendendo seus direitos e ideais para transformar a sociedade como um todo para melhor.

Era a ‚ÄúSociedade da Terra Redonda‚ÄĚ (STR), criada em 1999 por ‚ÄúL√©o Vines‚ÄĚ. Como muitos ateus √† √©poca, tenho orgulho de ter feito parte deste grupo, ajudando a produzir como co-editor tr√™s n√ļmeros da ‚ÄúRevista Terra Redonda‚ÄĚ. Entre os outros editores volunt√°rios da STR encontramos nomes que podem ser reconhecidos ainda hoje neste mesmo ativismo: Daniel Sottomaior, que viria a fundar a ATEA, e Asa Heuser, hoje presidente da mesma LiHS. Outro co-editor da revista Terra Redonda era o professor Renato Zamora Flores, um dos palestrantes no CHS2012 e a quem tamb√©m tive o privil√©gio de enfim conhecer pessoalmente e fechar um ciclo.

Se h√° mais de dez anos j√° existia um grupo como a STR, se ele reunia algumas das figuras que hoje defendem esses ideais atrav√©s de organiza√ß√Ķes formais com a√ß√Ķes concretas, indo de campanhas de conscientiza√ß√£o a eventos com luminares internacionais, o que aconteceu com a STR?

Bem, ela n√£o aconteceu. Justamente quando os esfor√ßos eram para que se formalizasse ‚Äď em maio de 2004! ‚Äď, indo al√©m de um grupo de pessoas unidas pela rede para se tornar uma institui√ß√£o formalizada na sociedade, a figura central no grupo, seu criador, deixou-o de lado. O grupo ficou no limbo por anos, sem estar certo sobre se o presidente ainda retornaria, se delegaria responsabilidades para permitir a continuidade do projeto, ou se o barco deveria ser mesmo abandonado. Em retrospecto, hoje √© claro que o barco deveria ter sido abandonado prontamente e o momentum de colaboradores preservado. Mas se passaram oito anos. Foi um fim ‚Äún√£o com um estrondo, mas com um suspiro‚ÄĚ. Um longo e incerto suspiro.

Limbo e Renascimento

Ao longo destes anos do limbo da STR, grupos de pessoas-que-n√£o-acreditam-em-certas-coisas, mas acreditam firmemente em outras, continuaram formando grupos e subgrupos pela internet unidos seja pela cren√ßa ou descren√ßa. Por√©m o rubic√£o de ‚Äúgrupos de internet‚ÄĚ continuou n√£o sendo cruzado. Aqui se inclui o pr√≥prio CeticismoAberto, projeto que mantenho desde 2001 e ainda n√£o √© uma associa√ß√£o formalizada.

Por algum tempo em sua evolu√ß√£o o s√≠tio online CeticismoAberto foi hospedado como uma √°rea da STR, e durante o limbo da STR, percebi o valor e a necessidade que havia em auxiliar outras iniciativas na rede a encontrar algo t√£o b√°sico quanto uma hospedagem fixa, para que seus respons√°veis pudessem concentrar seus esfor√ßos em criar e divulgar conte√ļdo. Com o estabelecimento do CeticismoAberto de forma independente, desde agosto de 2006 ele passou a sustentar o chamado projeto HAAAN, uma incubadora de projetos de divulga√ß√£o do pensamento cr√≠tico pela rede. O nome foi escolhido pela sonoridade (‚Äúh√£√£√£n‚ÄĚ) e por n√£o ter associa√ß√£o direta a nada, de forma que cada site hospedado possa firmar sua pr√≥pria identidade e ao final estabelecer-se sozinho.

Atrav√©s do projeto HAAAN hospedamos iniciativas eletr√īnicas selecionadas, com um foco em iniciativas analisando de forma cr√≠tica temas extraordin√°rios, na linha do CeticismoAberto. Apesar de n√£o ter o ate√≠smo ou o laicismo dentro do foco, o HAAAN tamb√©m j√° hospedou na rede a iniciativa ‚ÄúBrasil para Todos‚ÄĚ, que foi uma das a√ß√Ķes que Sottomaior levou √† frente depois da STR e antes de fundar a ATEA, com a bandeira do Estado laico. Hospedamos, registramos e ajudamos a criar ainda o site da ‚ÄúUni√£o Nacional dos Ateus‚ÄĚ (UNA) e mesmo o ‚ÄúBule Voador‚ÄĚ, lan√ßado na rede em 2008.

E foi em 2008 que o rubic√£o foi finalmente cruzado. Em agosto de 2008 a Associa√ß√£o Brasileira de Ateus e Agn√≥sticos, ATEA, foi fundada por um trio incluindo Daniel Sottomaior. A associa√ß√£o logo p√īs em pr√°tica a√ß√Ķes concretas de destaque al√©m do mundo virtual, incluindo a√ß√Ķes jur√≠dicas e campanhas de divulga√ß√£o em outdoors.

Por sua parte, e ao longo do tempo o Bule Voador, de suas origens como um blog, passou a ser mantido como canal de comunicação pela LiHS, que assim como a ATEA, foi muito além do que o próprio HAAAN ou o CeticismoAberto alcançaram. Esses grupos cruzaram o rio e se estabeleceram formalmente: se o limbo da STR durou anos, eles foi superado pelo estabelecimento formal primeiro da ATEA e então da LiHS.

Depois de praticamente uma d√©cada desde que come√ßaram a se organizar atrav√©s da tal de Internet, grupos de pessoas-que-n√£o-acreditam-em-certas-coisas no Brasil finalmente sa√≠ram da rede e solidificaram sua posi√ß√£o na sociedade. S√£o institui√ß√Ķes.

Pouca Fé

Entetanto, minha f√© em grupos de pessoas-que-n√£o-acreditam-em-certas-coisas n√£o durou tanto. Ao longo deste ativismo, de editor da STR, j√° fui um associado da ATEA, diretor da UNA e membro-em√©rito da LiHS. Hoje n√£o sou formalmente associado a nenhum desses grupos ou associa√ß√Ķes. Para explicar essa posi√ß√£o, mais hist√≥ria.

Apoiar e participar de iniciativas promovendo ci√™ncia, com foco na an√°lise cr√≠tica de alega√ß√Ķes extraordin√°rias, ao longo de mais de uma d√©cada tem sido extremamente gratificante. N√£o me lembro de qualquer conflito ou diverg√™ncia que n√£o valesse a pena, n√£o me recordo de nenhuma frustra√ß√£o que n√£o fosse compensada por uma grande satisfa√ß√£o. Ter respondido a duas a√ß√Ķes judiciais movidas por um suposto ‚Äúpremonitor‚ÄĚ, apesar do inconveniente e do preju√≠zo financeiro, √© mais do que compensado pelo apoio recebido de todas as formas de todos amigos e colegas, o que permitiu atravessar essa pendenga jur√≠dica com duas vit√≥rias judiciais. Meu amigo e advogado, Alexandre Medeiros, aceitou a causa pelo CeticismoAberto. Foi um de v√°rios apoios fundamentais que recebi. Ser ofendido por certas figuras √© de certa forma um elogio, receber o apoio de outras √© um dos pr√™mios mais valorosos que se pode receber. O ‚Äúativismo c√©tico‚ÄĚ, se o chamarmos assim, abriu-me muitas portas, permitiu que aprendesse e ganhasse muito, inclusive profissionalmente. Nada foi em v√£o.

Infelizmente o mesmo n√£o se pode dizer do ativismo ateu. Para mim, sempre foi n√≠tida a diferen√ßa na pr√°tica entre a luta por estas duas causas t√£o pr√≥ximas. No ativismo ateu, desde o in√≠cio de meus contatos, desde a STR, diverg√™ncias internas tendem a fragmentar grupos j√° pequenos e quantidades absurdas de esfor√ßos s√£o dedicadas a tarefas pouco produtivas ou mesmo contra-produtivas ‚Äď incluindo fomentar mais diverg√™ncias internas. A STR n√£o implodiu, ela definhou antes de implodir, mas v√°rios grupos contempor√Ęneos ou mesmo posteriores implodiram ou mesmo explodiram em tempestades intern√©ticas durante o per√≠odo do limbo. N√£o que tempestades intern√©ticas fa√ßam qualquer barulho fora da Internet.

Mesmo ap√≥s o limbo, com o estabelecimento da primeira organiza√ß√£o formal para defesa de direitos de ateus e outras causas relacionadas, os desentendimentos continuaram, e em certos pontos se acentuaram. A UNA teve como um de seus germes a dissid√™ncia da ATEA, e a LiHS em sua g√™nese compartilhou tamb√©m muito com a UNA, embora por fim tamb√©m acabasse por haver diverg√™ncias entre esta e a pr√≥pria UNA. N√£o que isso a aproximasse da ATEA, pelo contr√°rio. O epis√≥dio duplo da s√©rie South Park, ‚ÄúGo God Go‚ÄĚ, satirizando o neo-ate√≠smo, pode ser simplesmente bobo ao retratar Richard Dawkins apaixonado por um Senhor Garrison transexual, mas na apresenta√ß√£o da guerra absurda entre grupos ate√≠stas sobre a ‚Äúquest√£o final‚ÄĚ irrelevante a s√°tira √© praticamente um document√°rio.

Profundamente decepcionado com a capacidade de ateus organizarem-se em torno de ideais comuns para promover a√ß√Ķes efetivas que mudem a sociedade para melhor, vendo esfor√ßos serem perdidos e erros repetidos desde o in√≠cio com a STR, acabei por solicitar meu desligamento de todos esses grupos e associa√ß√Ķes de pessoas-que-n√£o-acreditam-em-deus.

Al√©m da decep√ß√£o, enquanto estava envolvido diretamente nesses grupos eu tamb√©m me envolvi em diverg√™ncias que consumiam esfor√ßos e n√£o levam a nada de positivo. O v√≠rus da necessidade de vencer o √ļltimo debate da Internet √© contagioso, e eu certamente n√£o estou imune a ele. Se a Internet fomentou o surgimento de in√ļmeros grupos de minorias, ateus inclu√≠dos, ela tamb√©m infecta aqueles em sua √Ęnsia pela raz√£o e ret√≥rica, pela ilus√≥ria e breve ‚Äúfama‚ÄĚ de internet, a discuss√Ķes sem fim pela rede. Em nome da raz√£o, mas em verdade sob seu disfarce, argumentos secos s√£o disparados para servir ao que s√£o claramente desentendimentos pessoais mesquinhos.

A Internet, sua impessoalidade, seu imediatismo, desperta um lado negativo da discuss√£o racional. Se como ferramenta a Internet fomentou o surgimento de in√ļmeros grupos, ela trouxe tamb√©m o cavalo de tr√≥ia que tem destru√≠do e atrasado grupos ateus h√° mais de uma d√©cada. Este n√£o √© um fen√īmeno exclusivo do Brasil, tampouco um v√≠rus no qual o √ļnico vetor seja a rede eletr√īnica, mas se h√° uma an√°lise que possa arriscar do (n√£o) desenvolvimento dos grupos ateus por aqui ao longo de uma d√©cada, √© esta.

Fé Renovada

√Č aqui, finalmente, que chegamos ao I Congresso Humanista Secular do Brasil em Porto Alegre. Descrente, penso que posso confessar hoje que n√£o esperava muito do evento. H√° um limite para o que um pequeno grupo de pessoas consegue fazer, ainda que algumas dediquem esfor√ßos heroicos. E grupos de pessoas-que-n√£o-acreditam-em-coisas, como havia me desiludido, nunca conseguem ficar muito grandes. Minha falta de f√© significou que, com pouco tempo antes do evento, n√£o preparei como deveria as palestras que fui convidado a apresentar. Ningu√©m deveria reparar muito, imaginei, n√£o esperando muito seja de mim, seja do evento.

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Eu estava errado. A imagem acima traduz como estava errado. Esses n√£o s√£o os palestrantes. Esses s√£o mais de uma dezena de organizadores presentes, ao final do evento, boa parte dos quais vieram de quase todos os cantos do Brasil. E boa parte dos organizadores n√£o p√īde estar presente, mas tamb√©m colaborou para concretizar um evento espetacular, n√£o s√≥ por si mesmo como tamb√©m pela forma como foi concretizado.

No momento em que me desiludia e me afastava do ativismo ateu e ainda prestava atenção a algumas velhas novas tempestades internéticas, se consolidava um grupo grande e organizado de pessoas centradas e dedicadas a realmente fazer coisas. Fora da Internet. E o mais importante, que descobri durante o congresso e pude acompanhar após ele: é uma instituição sólida, que não depende exclusivamente de um punhado de pessoas. Depende de um grande grupo de pessoas, suficiente para dar segurança institucional à associação.

A Liga Humanista Secular concretiza hoje não apenas o que sonhava ao participar da STR há dez anos, mas vai além. Seu escopo é amplo, sua visão é clara, sua execução tem sido muito eficiente. O evento equilibrou bem todos os eixos do humanismo secular, apresentados pelo então presidente da LiHS, Eli Vieira.

Os v√≠deos das palestras ainda devem ser divulgados pela LiHS, toda e cada apresenta√ß√£o foi espetacular. Ainda me centrando nesta vis√£o mais ampla do evento e do movimento ateu, se h√° uma palestra que gostaria de comentar, √© a palestra do fil√≥sofo portugu√™s Desid√©rio Murcho, sobre o sentido da vida para ateus. Em linguagem e abordagem acess√≠veis, o professor exp√īs ideias e argumentos profundos condensados no pequeno espa√ßo temporal da palestra. Na resposta √†s perguntas da plateia, o fil√≥sofo se colocava no lugar daqueles que lhe faziam perguntas e procurava a melhor forma de efetivamente transmitir sua resposta. Uma palestra de filosofia imensamente prazerosa e empolgante, de um tema central a todos que l√° estavam, proferida por um experiente professor.

O t√≠tulo deste texto, ‚Äúate√≠smo humano‚ÄĚ, √© um certo contraponto a um texto anterior publicado aqui, ‚Äúate√≠smo halsenflugel‚ÄĚ, em que criticava a abordagem feroz que Eli Vieira e um dos participantes do Bule Voador faziam sobre a defini√ß√£o ‚Äúcorreta‚ÄĚ de ‚Äúate√≠smo‚ÄĚ, apoiados largamente no que seria a abordagem filos√≥fica do tema. Pois se aquilo representava um erro e ainda outro retrocesso contraprodutivo na hist√≥ria do movimento ateu no pa√≠s, bem, Eli Vieira, ainda como presidente da LiHS, foi um dos respons√°veis pelo equil√≠brio de abordagens e tamb√©m pela participa√ß√£o brilhante do fil√≥sofo Desid√©rio Murcho.

Assistir ao espetáculo proporcionado pelo ateísmo humanista renovou minha fé e orgulho em ser humano e ateu.

Um Movimento sobre Nada ‚Äď e Tudo

O ate√≠smo, por si s√≥, √© literalmente nada, √© a aus√™ncia de cren√ßa em deus. A vertente do ate√≠smo mais popular, e a que √© tida autom√°tica e orgulhosamente como sin√īnimo de ate√≠smo, √© o ate√≠smo racionalista, aquele a que se chega ap√≥s uma an√°lise racional dos argumentos sobre deus e a conclus√£o de que n√£o haveria raz√£o para aceitar esse conceito. Que √© uma quest√£o de f√©, e uma que ateus racionais escolheram descartar.

Este ainda √© um conjunto de valores bem t√™nue, e um tanto confuso. Se √© a raz√£o o valor comum que une ateus racionalistas, n√£o deveriam se centrar em associa√ß√Ķes racionalistas, ao inv√©s de ate√≠stas, sendo este mero detalhe? Se, por outro lado, a causa mais urgente pela qual devem lutar √© pela aplica√ß√£o de direitos e liberdades definidas constitucionalmente, n√£o deveriam se centrar em associa√ß√Ķes de direitos humanos e constitucionais?

As duas e novas associa√ß√Ķes formais no pa√≠s oferecem escolhas, n√£o necessariamente excludentes. A ATEA, Associa√ß√£o Brasileira de Ateus e Agn√≥sticos, tem como foco o ate√≠smo, a congrega√ß√£o de ateus, a defesa de seus direitos. A LiHS, Liga Humanista Secular, tem como foco o humanismo secular, uma posi√ß√£o filos√≥fica mais ampla e ao mesmo tempo mais estrita.

Mais ampla e mais estrita? Mais ampla porque o humanismo secular promove valores indo da razão à ética, pela qual o Congresso Humanista Secular de 2012 contou com a participação de acadêmicos, jornalistas e defensores de direitos humanos. Sua ação na rede tem se destacado ultimamente na defesa de direitos LGBT e pelo feminismo. Essa amplitude angariou a contribuição e participação de ativistas de um amplo espectro.

H√° contudo um posicionamento pol√≠tico estrito nos valores do humanismo secular. Em retrospecto, n√£o √© surpresa que isso cause repulsa daqueles que discordam de um ou outro destes aspectos promovidos ‚Äď ou simplesmente discutidos! ‚Äď pela LiHS. O humanismo secular √© amplo em sua abordagem, e pode ser um tanto estrito em suas conclus√Ķes. Apenas a toler√Ęncia pode estender e abrigar neste espectro opini√Ķes divergentes sobre assuntos espec√≠ficos quando a concord√Ęncia em temas mais relevantes deve ter prioridade. Esta toler√Ęncia nem sempre √© exercida como deveria seja por pessoas de fora ou de dentro da LiHS.

Como não é surpresa que haja aqueles que se sintam inconformados com o foco estrito da ATEA, que por vezes permite em silêncio discursos de ódio entre suas fileiras tão condenáveis quanto o mesmo ódio do qual procura defender ateus. Afinal, congregar e defender ateus é sua prioridade maior.

Fundamentalmente, tanto a LiHS quanto a ATEA s√£o associa√ß√Ķes irm√£s. A defesa dos direitos de ateus √© um dos objetivos do humanismo secular, por sua parte a ATEA declara explicitamente entre seus objetivos a promo√ß√£o de sistemas √©ticos seculares. Uma anedota ilustra bem essa congru√™ncia de valores: o presidente da ATEA, Daniel Sottomaior, √© pessoalmente um defensor ferrenho do vegetarianismo como conclus√£o √©tica racional. O ex-presidente da LiHS, Eli Vieira, recentemente tamb√©m passou a defender no √Ęmbito pessoal, com √™nfase, o vegetarianismo como conclus√£o √©tica racional.

A diferen√ßa na abordagem e √™nfase destes dois grupos, assim como seus eventuais conflitos, adv√©m mais das prioridades e caracter√≠sticas de seus dirigentes e seu hist√≥rico do que de uma incompatibilidade de princ√≠pios. Como s√£o institui√ß√Ķes formalizadas e democr√°ticas, √© minha esperan√ßa que estes conflitos ainda sejam solucionados, se n√£o pelos volunt√°rios de hoje, pelos de amanh√£. Foi uma pena n√£o ver a ATEA representada no Congresso Humanista Secular.

Encontrando Nada, e Tudo

E, como a hist√≥ria se repete, por pouco a LiHS n√£o se viu representada como apoiadora do II Encontro Nacional de Ateus (IIENA), coordenado pela Sociedade Racionalista, um novo grupo articulado nas redes sociais e que conta j√° com mais de 130.000 seguidores no Facebook. Ap√≥s um desentendimento em outra tempestade virtual contraproducente, os √Ęnimos por fim se acalmaram e ultimamente valores comuns prevaleceram.

Depois do Congresso Humanista, e ap√≥s um primeiro encontro bem-sucedido no ano passado, o segundo encontro nacional de ateus neste fim-de-semana (17/02) promete. Com minha f√© renovada em grupos de pessoas-que-n√£o-acreditam-em-coisas, participarei de mais um evento, e j√° contribu√≠ com a ‚Äúvakinha‚ÄĚ para ajudar a cobrir os custos locais. Ser√° fabuloso encontrar outras pessoas-que-n√£o-acreditam-em-coisas, incluindo a√≠ uma palestra do procurador Jefferson Dias, autor da a√ß√£o que levou √† condena√ß√£o do canal de TV Band, ap√≥s declara√ß√Ķes proferidas pelo apresentador Jos√© Luis Datena reconhecidas pela Justi√ßa como impr√≥prias, a esclarecer a popula√ß√£o sobre a diversidade religiosa e a liberdade de consci√™ncia e de cren√ßa no Brasil.

Resultados concretos est√£o sendo alcan√ßados. A Internet tamb√©m pode favorecer e alavancar o que h√° de melhor em n√≥s, eventos em escala nacional ou internacional como os que est√£o sendo promovidos seriam imposs√≠veis, com os escassos recursos de que se disp√Ķe, sem a rede eletr√īnica. E a not√≠cia da vit√≥ria judicial sobre o discurso de √≥dio de Datena na TV acompanha o enorme sucesso que o v√≠deo-resposta de Eli Vieira, o mesmo ex-presidente da LiHS, alcan√ßou refutando as fal√°cias pseudocient√≠ficas de um pastor condenando a homossexualidade ‚Äúcientificamente‚ÄĚ.

Ainda me preocupa que a nova Sociedade Racionalista não seja uma associação formalizada, já adentrando o segundo ano organizando um evento em escala nacional. Ainda preocupa que as rixas entre os grupos por vezes se aprofundem ao invés de serem remediadas. Ainda preocupa que os mesmos erros continuem sendo repetidos. Mas já estou há algum tempo afastado de tudo isto, sentado agora confortavelmente como espectador, apenas mais um ateu na multidão, e se antes o que me restava era descrença e decepção, o que há agora é esperança e, como um termo que não me canso de repetir, fé.

As vit√≥rias e conquistas recentes s√£o espetaculares. Os √ļltimos meses t√™m sido quase inacredit√°veis ap√≥s uma d√©cada de esfor√ßos pouco produtivos. Ateus t√™m salva√ß√£o, e pessoas-que-n√£o-acreditam-em-certas-coisas podem criar coisas fant√°sticas e concretas para beneficiar toda a sociedade. Aos poucos, a sociedade muda, para melhor, com a participa√ß√£o de ateus, em nome de deus algum, pela sociedade em si mesma.

***

[Agrade√ßo especialmente a Daniel de Oliveira e C√≠ntia Brito dos Santos pela acolhida, compartilho a honra que me foi ser palestrante acompanhado de figuras t√£o ilustres, e parabenizo todos da LiHS, em especial √† comiss√£o organizadora que vi correndo por horas seguidas, em um evento de tirar o f√īlego e inspirar √Ęnimos.]

O arranha-c√©u e o caminh√£o de coc√ī

Menos de uma d√©cada depois que John F. Kennedy anunciou que ir√≠amos √† Lua e far√≠amos outras coisas ‚Äún√£o porque s√£o f√°ceis, mas porque s√£o dif√≠ceis‚ÄĚ, Neil Armstrong deu seu pequeno passo e seu grande salto para a Humanidade.

Em apenas 10 anos, imagens a√©reas registram o progresso espetacular de Dubai neste v√≠deo criado para promover o TEDxDubai 2011. Sobre a areia do deserto onde no s√©culo 19 mal viviam pouco mais de 1.200 habitantes, hoje floresce uma cidade moderna rumo a duas milh√Ķes de pessoas em torno dos mais altos arranha-c√©us do mundo.

Moderna, sim, mas assustadoramente moderna: Kate Ascher, autora de um livro sobre os arranha-céus de Dubai, contou em uma entrevista à NPR:

burjtrucks“TERRY GROSS: Então você escreveu que em Dubai eles não têm uma infra-estutura de saneamento que suporte arranha-céus como esse. Então o que eles fazem com o esgoto?

KATE ASCHER: Alguns pr√©dios por l√° podem acessar o sistema municipal, mas muitos deles em verdade usam caminh√Ķes para levar o esgoto dos pr√©dios individuais e ent√£o esperam em fila para jog√°-lo na usina de tratamento. Ent√£o √© um sistema bem primitivo.

GROSS: Bem, esses caminh√Ķes podem esperar horas e horas na fila.

ASCHER: √Č verdade. Disseram-me que podem esperar at√© 24 horas antes que cheguem ao final. Agora, h√° um sistema municipal que est√° sendo desenvolvido e presumo que ir√£o conectar todos esses pr√©dios altos em algum ponto no futuro, mas eles certamente n√£o est√£o sozinhos. Na √ćndia muitos pr√©dios s√£o respons√°veis por fornecer seu pr√≥prio sistema de √°gua e remo√ß√£o de esgoto. Ent√£o √© realmente ‚Äď somos muito afortunados neste pa√≠s [EUA] de que podemos contar com o fato de nos conectarmos a um sistema urbano que possa lidar com qualquer esgoto que um pr√©dio produza. Esse n√£o √© o caso por todo o resto do mundo.

GROSS: Bem, ele realmente ilustra um dos paradoxos da vida moderna, que temos essas estruturas que alcan√ßam o c√©u e ent√£o em um lugar como Dubai voc√™ tem uma fila de 24 horas de caminh√Ķes esperando para jogar for o esgoto desses pr√©dios.

ASCHER: Isso. √Č preciso lembrar que um lugar como Dubai realmente emergiu nos √ļltimos 50 anos. Era uma sonolenta cidade bedu√≠na h√° meio s√©culo. E o que voc√™ faz quando traz os mais sofisticados arquitetos e engenheiros, voc√™ pode literalmente construir qualquer coisa, incluindo um pr√©dio de 140 ou 150 andares. Mas projetar uma rede municipal de tratamento de esgoto √© de algumas formas mais complexo. Certamente requer mais dinheiro e tempo para ser feito, ent√£o um pulou √† frente do outro.‚ÄĚ

A situação no Brasil está muito mais próxima de Dubai do que dos EUA, onde mais da metade do país não possui saneamento básico e mesmo nas maiores metrópoles urbanas vêem-se luxuosos empreendimentos milionários sendo construídos sem um tratamento adequado de seu esgoto.

O Brasil n√£o surgiu h√° 50 anos, e sim h√° 500 anos, e os motivos para este paradoxo s√£o outro ponto em comum com Dubai: a desigualdade social e a disponibilidade de m√£o-de-obra quase escrava.

Somos já há praticamente uma década líderes mundiais na reciclagem de alumínio, com taxas se aproximando de 100%. Um feito fabuloso se fosse resultado da conscientização popular sobre a redução do impacto ambiental e um sofisticado sistema de seleção de coleta de lixo.

Mas nosso recorde de reciclagem √© resultado da conscientiza√ß√£o da camada mais desfavorecida da popula√ß√£o de que revirar o lixo em busca de latas de alum√≠nio jogadas no meio de lixo org√Ęnico, vidro e mesmo em sarjetas √© uma das √ļnicas formas dispon√≠veis de subsist√™ncia. Uma multid√£o de catadores da latinhas que todos vemos ao andar pelas ruas responde pelo nosso recorde.

O futuro moderno onde vivemos √© aquele onde temos arranha-c√©us quase quilom√©tricos que dependem de filas quilom√©tricas de caminh√Ķes cheios de coc√ī, dirigidos por motoristas de coc√ī pagos para ficar quase um dia inteiro esperando sua vez de despejar o coc√ī de pessoas mais ricas. Onde celebramos o recorde de reciclagem de alum√≠nio, gra√ßas a uma multid√£o de catadores dispostos a revirar todos os lixos da cidade para coletar as preciosas latas que jogamos fora.

Deve estar claro que o recorde de arranha-c√©u mais alto do mundo ou o de taxa de reciclagem de alum√≠nio n√£o s√£o indicadores muito confi√°veis de desenvolvimento, de fato podem ser exatamente o oposto. E enquanto celebramos o t√≠mido progresso econ√īmico de nosso pa√≠s e seu posicionamento entre as maiores economias do mundo, √© bom lembrar que estes s√£o apenas outros indicadores que vistos mais de perto podem revelar um caminho muito mais longo pela frente. [via BoingBoing]

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