Ateísmo Humano

No Congresso Humanista 2012, com a mestre de cerimônias Shirley Galdino

No início de setembro de 2012, a Liga Humanista Secular (LiHS) realizou o I Congresso Humanista Secular em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Reunindo pela primeira vez ateístas, humanistas e secularistas de todo o país e do mundo em um grande evento no Brasil, eu estive lá, e uma palavra que pode resumi-lo é que foi histórico!

O termo pode parecer um tanto exagerado para o que, à primeira vista, pareça apenas uma série de palestras feitas lá no Sul. Para expressar e compartilhar melhor a satisfação que tive em acompanhar e participar desse evento, vou contar um pouco de minha história me aventurando como parte destes grupos de pessoas-que-não-acreditam-em-certas-coisas.

A ‚ÄúSociedade da Terra Redonda‚ÄĚ

H√° mais de dez anos, existia no pa√≠s um grupo significativo de ateus, agn√≥sticos, humanistas, c√©ticos, racionalistas e tantos mais unidos pela internet em todo o Brasil e pelo mundo para trocar ideias e promover a√ß√Ķes defendendo seus direitos e ideais para transformar a sociedade como um todo para melhor.

Era a ‚ÄúSociedade da Terra Redonda‚ÄĚ (STR), criada em 1999 por ‚ÄúL√©o Vines‚ÄĚ. Como muitos ateus √† √©poca, tenho orgulho de ter feito parte deste grupo, ajudando a produzir como co-editor tr√™s n√ļmeros da ‚ÄúRevista Terra Redonda‚ÄĚ. Entre os outros editores volunt√°rios da STR encontramos nomes que podem ser reconhecidos ainda hoje neste mesmo ativismo: Daniel Sottomaior, que viria a fundar a ATEA, e Asa Heuser, hoje presidente da mesma LiHS. Outro co-editor da revista Terra Redonda era o professor Renato Zamora Flores, um dos palestrantes no CHS2012 e a quem tamb√©m tive o privil√©gio de enfim conhecer pessoalmente e fechar um ciclo.

Se h√° mais de dez anos j√° existia um grupo como a STR, se ele reunia algumas das figuras que hoje defendem esses ideais atrav√©s de organiza√ß√Ķes formais com a√ß√Ķes concretas, indo de campanhas de conscientiza√ß√£o a eventos com luminares internacionais, o que aconteceu com a STR?

Bem, ela n√£o aconteceu. Justamente quando os esfor√ßos eram para que se formalizasse ‚Äď em maio de 2004! ‚Äď, indo al√©m de um grupo de pessoas unidas pela rede para se tornar uma institui√ß√£o formalizada na sociedade, a figura central no grupo, seu criador, deixou-o de lado. O grupo ficou no limbo por anos, sem estar certo sobre se o presidente ainda retornaria, se delegaria responsabilidades para permitir a continuidade do projeto, ou se o barco deveria ser mesmo abandonado. Em retrospecto, hoje √© claro que o barco deveria ter sido abandonado prontamente e o momentum de colaboradores preservado. Mas se passaram oito anos. Foi um fim ‚Äún√£o com um estrondo, mas com um suspiro‚ÄĚ. Um longo e incerto suspiro.

Limbo e Renascimento

Ao longo destes anos do limbo da STR, grupos de pessoas-que-n√£o-acreditam-em-certas-coisas, mas acreditam firmemente em outras, continuaram formando grupos e subgrupos pela internet unidos seja pela cren√ßa ou descren√ßa. Por√©m o rubic√£o de ‚Äúgrupos de internet‚ÄĚ continuou n√£o sendo cruzado. Aqui se inclui o pr√≥prio CeticismoAberto, projeto que mantenho desde 2001 e ainda n√£o √© uma associa√ß√£o formalizada.

Por algum tempo em sua evolu√ß√£o o s√≠tio online CeticismoAberto foi hospedado como uma √°rea da STR, e durante o limbo da STR, percebi o valor e a necessidade que havia em auxiliar outras iniciativas na rede a encontrar algo t√£o b√°sico quanto uma hospedagem fixa, para que seus respons√°veis pudessem concentrar seus esfor√ßos em criar e divulgar conte√ļdo. Com o estabelecimento do CeticismoAberto de forma independente, desde agosto de 2006 ele passou a sustentar o chamado projeto HAAAN, uma incubadora de projetos de divulga√ß√£o do pensamento cr√≠tico pela rede. O nome foi escolhido pela sonoridade (‚Äúh√£√£√£n‚ÄĚ) e por n√£o ter associa√ß√£o direta a nada, de forma que cada site hospedado possa firmar sua pr√≥pria identidade e ao final estabelecer-se sozinho.

Atrav√©s do projeto HAAAN hospedamos iniciativas eletr√īnicas selecionadas, com um foco em iniciativas analisando de forma cr√≠tica temas extraordin√°rios, na linha do CeticismoAberto. Apesar de n√£o ter o ate√≠smo ou o laicismo dentro do foco, o HAAAN tamb√©m j√° hospedou na rede a iniciativa ‚ÄúBrasil para Todos‚ÄĚ, que foi uma das a√ß√Ķes que Sottomaior levou √† frente depois da STR e antes de fundar a ATEA, com a bandeira do Estado laico. Hospedamos, registramos e ajudamos a criar ainda o site da ‚ÄúUni√£o Nacional dos Ateus‚ÄĚ (UNA) e mesmo o ‚ÄúBule Voador‚ÄĚ, lan√ßado na rede em 2008.

E foi em 2008 que o rubic√£o foi finalmente cruzado. Em agosto de 2008 a Associa√ß√£o Brasileira de Ateus e Agn√≥sticos, ATEA, foi fundada por um trio incluindo Daniel Sottomaior. A associa√ß√£o logo p√īs em pr√°tica a√ß√Ķes concretas de destaque al√©m do mundo virtual, incluindo a√ß√Ķes jur√≠dicas e campanhas de divulga√ß√£o em outdoors.

Por sua parte, e ao longo do tempo o Bule Voador, de suas origens como um blog, passou a ser mantido como canal de comunicação pela LiHS, que assim como a ATEA, foi muito além do que o próprio HAAAN ou o CeticismoAberto alcançaram. Esses grupos cruzaram o rio e se estabeleceram formalmente: se o limbo da STR durou anos, eles foi superado pelo estabelecimento formal primeiro da ATEA e então da LiHS.

Depois de praticamente uma d√©cada desde que come√ßaram a se organizar atrav√©s da tal de Internet, grupos de pessoas-que-n√£o-acreditam-em-certas-coisas no Brasil finalmente sa√≠ram da rede e solidificaram sua posi√ß√£o na sociedade. S√£o institui√ß√Ķes.

Pouca Fé

Entetanto, minha f√© em grupos de pessoas-que-n√£o-acreditam-em-certas-coisas n√£o durou tanto. Ao longo deste ativismo, de editor da STR, j√° fui um associado da ATEA, diretor da UNA e membro-em√©rito da LiHS. Hoje n√£o sou formalmente associado a nenhum desses grupos ou associa√ß√Ķes. Para explicar essa posi√ß√£o, mais hist√≥ria.

Apoiar e participar de iniciativas promovendo ci√™ncia, com foco na an√°lise cr√≠tica de alega√ß√Ķes extraordin√°rias, ao longo de mais de uma d√©cada tem sido extremamente gratificante. N√£o me lembro de qualquer conflito ou diverg√™ncia que n√£o valesse a pena, n√£o me recordo de nenhuma frustra√ß√£o que n√£o fosse compensada por uma grande satisfa√ß√£o. Ter respondido a duas a√ß√Ķes judiciais movidas por um suposto ‚Äúpremonitor‚ÄĚ, apesar do inconveniente e do preju√≠zo financeiro, √© mais do que compensado pelo apoio recebido de todas as formas de todos amigos e colegas, o que permitiu atravessar essa pendenga jur√≠dica com duas vit√≥rias judiciais. Meu amigo e advogado, Alexandre Medeiros, aceitou a causa pelo CeticismoAberto. Foi um de v√°rios apoios fundamentais que recebi. Ser ofendido por certas figuras √© de certa forma um elogio, receber o apoio de outras √© um dos pr√™mios mais valorosos que se pode receber. O ‚Äúativismo c√©tico‚ÄĚ, se o chamarmos assim, abriu-me muitas portas, permitiu que aprendesse e ganhasse muito, inclusive profissionalmente. Nada foi em v√£o.

Infelizmente o mesmo n√£o se pode dizer do ativismo ateu. Para mim, sempre foi n√≠tida a diferen√ßa na pr√°tica entre a luta por estas duas causas t√£o pr√≥ximas. No ativismo ateu, desde o in√≠cio de meus contatos, desde a STR, diverg√™ncias internas tendem a fragmentar grupos j√° pequenos e quantidades absurdas de esfor√ßos s√£o dedicadas a tarefas pouco produtivas ou mesmo contra-produtivas ‚Äď incluindo fomentar mais diverg√™ncias internas. A STR n√£o implodiu, ela definhou antes de implodir, mas v√°rios grupos contempor√Ęneos ou mesmo posteriores implodiram ou mesmo explodiram em tempestades intern√©ticas durante o per√≠odo do limbo. N√£o que tempestades intern√©ticas fa√ßam qualquer barulho fora da Internet.

Mesmo ap√≥s o limbo, com o estabelecimento da primeira organiza√ß√£o formal para defesa de direitos de ateus e outras causas relacionadas, os desentendimentos continuaram, e em certos pontos se acentuaram. A UNA teve como um de seus germes a dissid√™ncia da ATEA, e a LiHS em sua g√™nese compartilhou tamb√©m muito com a UNA, embora por fim tamb√©m acabasse por haver diverg√™ncias entre esta e a pr√≥pria UNA. N√£o que isso a aproximasse da ATEA, pelo contr√°rio. O epis√≥dio duplo da s√©rie South Park, ‚ÄúGo God Go‚ÄĚ, satirizando o neo-ate√≠smo, pode ser simplesmente bobo ao retratar Richard Dawkins apaixonado por um Senhor Garrison transexual, mas na apresenta√ß√£o da guerra absurda entre grupos ate√≠stas sobre a ‚Äúquest√£o final‚ÄĚ irrelevante a s√°tira √© praticamente um document√°rio.

Profundamente decepcionado com a capacidade de ateus organizarem-se em torno de ideais comuns para promover a√ß√Ķes efetivas que mudem a sociedade para melhor, vendo esfor√ßos serem perdidos e erros repetidos desde o in√≠cio com a STR, acabei por solicitar meu desligamento de todos esses grupos e associa√ß√Ķes de pessoas-que-n√£o-acreditam-em-deus.

Al√©m da decep√ß√£o, enquanto estava envolvido diretamente nesses grupos eu tamb√©m me envolvi em diverg√™ncias que consumiam esfor√ßos e n√£o levam a nada de positivo. O v√≠rus da necessidade de vencer o √ļltimo debate da Internet √© contagioso, e eu certamente n√£o estou imune a ele. Se a Internet fomentou o surgimento de in√ļmeros grupos de minorias, ateus inclu√≠dos, ela tamb√©m infecta aqueles em sua √Ęnsia pela raz√£o e ret√≥rica, pela ilus√≥ria e breve ‚Äúfama‚ÄĚ de internet, a discuss√Ķes sem fim pela rede. Em nome da raz√£o, mas em verdade sob seu disfarce, argumentos secos s√£o disparados para servir ao que s√£o claramente desentendimentos pessoais mesquinhos.

A Internet, sua impessoalidade, seu imediatismo, desperta um lado negativo da discuss√£o racional. Se como ferramenta a Internet fomentou o surgimento de in√ļmeros grupos, ela trouxe tamb√©m o cavalo de tr√≥ia que tem destru√≠do e atrasado grupos ateus h√° mais de uma d√©cada. Este n√£o √© um fen√īmeno exclusivo do Brasil, tampouco um v√≠rus no qual o √ļnico vetor seja a rede eletr√īnica, mas se h√° uma an√°lise que possa arriscar do (n√£o) desenvolvimento dos grupos ateus por aqui ao longo de uma d√©cada, √© esta.

Fé Renovada

√Č aqui, finalmente, que chegamos ao I Congresso Humanista Secular do Brasil em Porto Alegre. Descrente, penso que posso confessar hoje que n√£o esperava muito do evento. H√° um limite para o que um pequeno grupo de pessoas consegue fazer, ainda que algumas dediquem esfor√ßos heroicos. E grupos de pessoas-que-n√£o-acreditam-em-coisas, como havia me desiludido, nunca conseguem ficar muito grandes. Minha falta de f√© significou que, com pouco tempo antes do evento, n√£o preparei como deveria as palestras que fui convidado a apresentar. Ningu√©m deveria reparar muito, imaginei, n√£o esperando muito seja de mim, seja do evento.

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Eu estava errado. A imagem acima traduz como estava errado. Esses n√£o s√£o os palestrantes. Esses s√£o mais de uma dezena de organizadores presentes, ao final do evento, boa parte dos quais vieram de quase todos os cantos do Brasil. E boa parte dos organizadores n√£o p√īde estar presente, mas tamb√©m colaborou para concretizar um evento espetacular, n√£o s√≥ por si mesmo como tamb√©m pela forma como foi concretizado.

No momento em que me desiludia e me afastava do ativismo ateu e ainda prestava atenção a algumas velhas novas tempestades internéticas, se consolidava um grupo grande e organizado de pessoas centradas e dedicadas a realmente fazer coisas. Fora da Internet. E o mais importante, que descobri durante o congresso e pude acompanhar após ele: é uma instituição sólida, que não depende exclusivamente de um punhado de pessoas. Depende de um grande grupo de pessoas, suficiente para dar segurança institucional à associação.

A Liga Humanista Secular concretiza hoje não apenas o que sonhava ao participar da STR há dez anos, mas vai além. Seu escopo é amplo, sua visão é clara, sua execução tem sido muito eficiente. O evento equilibrou bem todos os eixos do humanismo secular, apresentados pelo então presidente da LiHS, Eli Vieira.

Os v√≠deos das palestras ainda devem ser divulgados pela LiHS, toda e cada apresenta√ß√£o foi espetacular. Ainda me centrando nesta vis√£o mais ampla do evento e do movimento ateu, se h√° uma palestra que gostaria de comentar, √© a palestra do fil√≥sofo portugu√™s Desid√©rio Murcho, sobre o sentido da vida para ateus. Em linguagem e abordagem acess√≠veis, o professor exp√īs ideias e argumentos profundos condensados no pequeno espa√ßo temporal da palestra. Na resposta √†s perguntas da plateia, o fil√≥sofo se colocava no lugar daqueles que lhe faziam perguntas e procurava a melhor forma de efetivamente transmitir sua resposta. Uma palestra de filosofia imensamente prazerosa e empolgante, de um tema central a todos que l√° estavam, proferida por um experiente professor.

O t√≠tulo deste texto, ‚Äúate√≠smo humano‚ÄĚ, √© um certo contraponto a um texto anterior publicado aqui, ‚Äúate√≠smo halsenflugel‚ÄĚ, em que criticava a abordagem feroz que Eli Vieira e um dos participantes do Bule Voador faziam sobre a defini√ß√£o ‚Äúcorreta‚ÄĚ de ‚Äúate√≠smo‚ÄĚ, apoiados largamente no que seria a abordagem filos√≥fica do tema. Pois se aquilo representava um erro e ainda outro retrocesso contraprodutivo na hist√≥ria do movimento ateu no pa√≠s, bem, Eli Vieira, ainda como presidente da LiHS, foi um dos respons√°veis pelo equil√≠brio de abordagens e tamb√©m pela participa√ß√£o brilhante do fil√≥sofo Desid√©rio Murcho.

Assistir ao espetáculo proporcionado pelo ateísmo humanista renovou minha fé e orgulho em ser humano e ateu.

Um Movimento sobre Nada ‚Äď e Tudo

O ate√≠smo, por si s√≥, √© literalmente nada, √© a aus√™ncia de cren√ßa em deus. A vertente do ate√≠smo mais popular, e a que √© tida autom√°tica e orgulhosamente como sin√īnimo de ate√≠smo, √© o ate√≠smo racionalista, aquele a que se chega ap√≥s uma an√°lise racional dos argumentos sobre deus e a conclus√£o de que n√£o haveria raz√£o para aceitar esse conceito. Que √© uma quest√£o de f√©, e uma que ateus racionais escolheram descartar.

Este ainda √© um conjunto de valores bem t√™nue, e um tanto confuso. Se √© a raz√£o o valor comum que une ateus racionalistas, n√£o deveriam se centrar em associa√ß√Ķes racionalistas, ao inv√©s de ate√≠stas, sendo este mero detalhe? Se, por outro lado, a causa mais urgente pela qual devem lutar √© pela aplica√ß√£o de direitos e liberdades definidas constitucionalmente, n√£o deveriam se centrar em associa√ß√Ķes de direitos humanos e constitucionais?

As duas e novas associa√ß√Ķes formais no pa√≠s oferecem escolhas, n√£o necessariamente excludentes. A ATEA, Associa√ß√£o Brasileira de Ateus e Agn√≥sticos, tem como foco o ate√≠smo, a congrega√ß√£o de ateus, a defesa de seus direitos. A LiHS, Liga Humanista Secular, tem como foco o humanismo secular, uma posi√ß√£o filos√≥fica mais ampla e ao mesmo tempo mais estrita.

Mais ampla e mais estrita? Mais ampla porque o humanismo secular promove valores indo da razão à ética, pela qual o Congresso Humanista Secular de 2012 contou com a participação de acadêmicos, jornalistas e defensores de direitos humanos. Sua ação na rede tem se destacado ultimamente na defesa de direitos LGBT e pelo feminismo. Essa amplitude angariou a contribuição e participação de ativistas de um amplo espectro.

H√° contudo um posicionamento pol√≠tico estrito nos valores do humanismo secular. Em retrospecto, n√£o √© surpresa que isso cause repulsa daqueles que discordam de um ou outro destes aspectos promovidos ‚Äď ou simplesmente discutidos! ‚Äď pela LiHS. O humanismo secular √© amplo em sua abordagem, e pode ser um tanto estrito em suas conclus√Ķes. Apenas a toler√Ęncia pode estender e abrigar neste espectro opini√Ķes divergentes sobre assuntos espec√≠ficos quando a concord√Ęncia em temas mais relevantes deve ter prioridade. Esta toler√Ęncia nem sempre √© exercida como deveria seja por pessoas de fora ou de dentro da LiHS.

Como não é surpresa que haja aqueles que se sintam inconformados com o foco estrito da ATEA, que por vezes permite em silêncio discursos de ódio entre suas fileiras tão condenáveis quanto o mesmo ódio do qual procura defender ateus. Afinal, congregar e defender ateus é sua prioridade maior.

Fundamentalmente, tanto a LiHS quanto a ATEA s√£o associa√ß√Ķes irm√£s. A defesa dos direitos de ateus √© um dos objetivos do humanismo secular, por sua parte a ATEA declara explicitamente entre seus objetivos a promo√ß√£o de sistemas √©ticos seculares. Uma anedota ilustra bem essa congru√™ncia de valores: o presidente da ATEA, Daniel Sottomaior, √© pessoalmente um defensor ferrenho do vegetarianismo como conclus√£o √©tica racional. O ex-presidente da LiHS, Eli Vieira, recentemente tamb√©m passou a defender no √Ęmbito pessoal, com √™nfase, o vegetarianismo como conclus√£o √©tica racional.

A diferen√ßa na abordagem e √™nfase destes dois grupos, assim como seus eventuais conflitos, adv√©m mais das prioridades e caracter√≠sticas de seus dirigentes e seu hist√≥rico do que de uma incompatibilidade de princ√≠pios. Como s√£o institui√ß√Ķes formalizadas e democr√°ticas, √© minha esperan√ßa que estes conflitos ainda sejam solucionados, se n√£o pelos volunt√°rios de hoje, pelos de amanh√£. Foi uma pena n√£o ver a ATEA representada no Congresso Humanista Secular.

Encontrando Nada, e Tudo

E, como a hist√≥ria se repete, por pouco a LiHS n√£o se viu representada como apoiadora do II Encontro Nacional de Ateus (IIENA), coordenado pela Sociedade Racionalista, um novo grupo articulado nas redes sociais e que conta j√° com mais de 130.000 seguidores no Facebook. Ap√≥s um desentendimento em outra tempestade virtual contraproducente, os √Ęnimos por fim se acalmaram e ultimamente valores comuns prevaleceram.

Depois do Congresso Humanista, e ap√≥s um primeiro encontro bem-sucedido no ano passado, o segundo encontro nacional de ateus neste fim-de-semana (17/02) promete. Com minha f√© renovada em grupos de pessoas-que-n√£o-acreditam-em-coisas, participarei de mais um evento, e j√° contribu√≠ com a ‚Äúvakinha‚ÄĚ para ajudar a cobrir os custos locais. Ser√° fabuloso encontrar outras pessoas-que-n√£o-acreditam-em-coisas, incluindo a√≠ uma palestra do procurador Jefferson Dias, autor da a√ß√£o que levou √† condena√ß√£o do canal de TV Band, ap√≥s declara√ß√Ķes proferidas pelo apresentador Jos√© Luis Datena reconhecidas pela Justi√ßa como impr√≥prias, a esclarecer a popula√ß√£o sobre a diversidade religiosa e a liberdade de consci√™ncia e de cren√ßa no Brasil.

Resultados concretos est√£o sendo alcan√ßados. A Internet tamb√©m pode favorecer e alavancar o que h√° de melhor em n√≥s, eventos em escala nacional ou internacional como os que est√£o sendo promovidos seriam imposs√≠veis, com os escassos recursos de que se disp√Ķe, sem a rede eletr√īnica. E a not√≠cia da vit√≥ria judicial sobre o discurso de √≥dio de Datena na TV acompanha o enorme sucesso que o v√≠deo-resposta de Eli Vieira, o mesmo ex-presidente da LiHS, alcan√ßou refutando as fal√°cias pseudocient√≠ficas de um pastor condenando a homossexualidade ‚Äúcientificamente‚ÄĚ.

Ainda me preocupa que a nova Sociedade Racionalista não seja uma associação formalizada, já adentrando o segundo ano organizando um evento em escala nacional. Ainda preocupa que as rixas entre os grupos por vezes se aprofundem ao invés de serem remediadas. Ainda preocupa que os mesmos erros continuem sendo repetidos. Mas já estou há algum tempo afastado de tudo isto, sentado agora confortavelmente como espectador, apenas mais um ateu na multidão, e se antes o que me restava era descrença e decepção, o que há agora é esperança e, como um termo que não me canso de repetir, fé.

As vit√≥rias e conquistas recentes s√£o espetaculares. Os √ļltimos meses t√™m sido quase inacredit√°veis ap√≥s uma d√©cada de esfor√ßos pouco produtivos. Ateus t√™m salva√ß√£o, e pessoas-que-n√£o-acreditam-em-certas-coisas podem criar coisas fant√°sticas e concretas para beneficiar toda a sociedade. Aos poucos, a sociedade muda, para melhor, com a participa√ß√£o de ateus, em nome de deus algum, pela sociedade em si mesma.

***

[Agrade√ßo especialmente a Daniel de Oliveira e C√≠ntia Brito dos Santos pela acolhida, compartilho a honra que me foi ser palestrante acompanhado de figuras t√£o ilustres, e parabenizo todos da LiHS, em especial √† comiss√£o organizadora que vi correndo por horas seguidas, em um evento de tirar o f√īlego e inspirar √Ęnimos.]

KONY 2012, MENGISTU 1985

√Ä esquerda, um dos maiores fen√īmenos da nova m√≠dia. Em cinco dias, ‚ÄúKony 2012‚ÄĚ j√° foi visto mais de 70 milh√Ķes de vezes. √Ä direita, um outro fen√īmeno de m√≠dia, h√° uma gera√ß√£o: o final do concerto ‚ÄúLive Aid‚ÄĚ, transmitido ao vivo para 150 pa√≠ses, com uma audi√™ncia estimada em quase 2 bilh√Ķes de pessoas, na m√ļsica tema ‚ÄúWe are the World‚ÄĚ.

Ambos buscam comover e conscientizar espectadores sobre trag√©dias na √Āfrica e como essa como√ß√£o pode ser convertida em a√ß√£o. Ambos se centram em crian√ßas em sofrimento e como cada um de n√≥s pode fazer a diferen√ßa e ajud√°-las com atitudes a nosso alcance.

Com tanto em comum, um deles, promovido h√° 27 anos, pode fornecer li√ß√Ķes sobre aquele que acabou de atingir seu cora√ß√£o. Porque enquanto ‚ÄúLive Aid‚ÄĚ em 1985 seguramente salvou milhares de crian√ßas famintas de uma morte agonizante, talvez seja surpreendente descobrir que a a√ß√£o tamb√©m desempenhou um papel na morte de milhares de outras crian√ßas e adultos.

Odeio Segundas-Feiras

Em fim dos anos 1970, o m√ļsico Bob Geldof fez sucesso com m√ļsicas como ‚ÄúI Don‚Äôt Like Mondays‚ÄĚ. Pouco depois, comoveu-se com a cobertura da BBC sobre o estado urgente da fome na Eti√≥pia, e em 1984 comp√īs e organizou uma a√ß√£o beneficiente em torno da m√ļsica ‚ÄúDo They Know It‚Äôs Christmas?‚ÄĚ (Elas sabem que √© Natal?), com a colabora√ß√£o de alguns dos maiores pop stars de seu tempo, o ‚ÄúBand Aid‚ÄĚ. O single foi um dos maiores sucessos da hist√≥ria da m√ļsica.

No ano seguinte, o ‚ÄúBand Aid‚ÄĚ levou ao maior concerto da hist√≥ria, com a mesma causa humanit√°ria. ‚ÄúLive Aid‚ÄĚ comoveu bilh√Ķes e arrecadou centenas de milh√Ķes de d√≥lares. Um enorme sucesso.

Ao final, mais de 400.000 pessoas morreram com a Grande Fome entre 1983 e 1985 na Eti√≥pia. Algumas estimativas chegam a um milh√£o de v√≠timas. Sucesso? Sim, o pesquisador Alexander de Waal estima que Live Aid amenizou o n√ļmero de mortes de um quarto a at√© metade. Este foi um sucesso, mas descobrir que na melhor das hip√≥teses este estrondoso sucesso tenha sido apenas o al√≠vio parcial de uma trag√©dia que ao final matou centenas de milhares j√° √© descobrir como salvar o mundo atrav√©s do ativismo beneficiente est√° um tanto longe de realmente salvar o mundo.

Nem o maior concerto beneficiente da hist√≥ria p√īde acabar com a fome em uma pequena regi√£o espec√≠fica do planeta, nem mesmo por um per√≠odo limitado. Live Aid n√£o chegou nem perto do objetivo declarado e apelativo de ‚Äúacabar com a fome‚ÄĚ mesmo por um breve momento. E este foi o sucesso. Houve tamb√©m o fracasso.

MENG 1985

O que as m√ļsicas, o concerto e a como√ß√£o n√£o promoveram foram uma das principais raz√Ķes para a Grande Fome. Segundo o mesmo de Waal:

‚ÄúHoje n√£o √© mais seriamente disputado que a maci√ßa quantidade de ajuda ap√≥s o Band-Aid contribuiu mais para a sobreviv√™ncia do governo et√≠ope, cujo ex√©rcito era a principal raz√£o para a fome, que para a dos famintos‚ÄĚ.

O governo etíope à época era o Dergue, uma junta militar liderada por Mengistu Haile Mariam. Como outros governos revolucionários comunistas, e à semelhança de figuras como Stálin e Mao, Mengistu e seu comitê pretendiam transformar radicalmente seu país, e isso envolveu políticas radicais de mudanças na agricultura. Exatamente como nos Grandes Saltos de Stálin e Mao na União Soviética e China, as mudanças foram desastrosas e levaram a Grandes Fomes, com a morte de parte significativa de sua população.

Live Aid n√£o foi um movimento pol√≠tico, e sim humanit√°rio, promovido por organiza√ß√Ķes n√£o-governamentais. N√£o tinha o objetivo de interferir politicamente na regi√£o, muito pelo contr√°rio, apenas de ajudar os famintos em necessidade extrema. Ao faz√™-lo, contudo, inevitavelmente auxiliavam o governo corrente a se manter no poder e a promover suas pol√≠ticas. √Č imposs√≠vel mudar o mundo sem envolver-se politicamente.

‚ÄúGrandes quantidades de comida internacional foram desviadas para mil√≠cias do governo. O fluxo de ajuda permitiu manter postos de guarda que teriam do contr√°rio se rendido e manteve estradas abertas que permitiam aos militares reabastecer suas linhas. A distribui√ß√£o de comida envolvia jovens que eram ent√£o alistados √† for√ßa. Provavelmente a maior parte da ajuda para a √Āfrica por mais de uma d√©cada tenha contribu√≠do para a institucionaliza√ß√£o da viol√™ncia‚ÄĚ, avalia de Waal.

In√ļmeras organiza√ß√Ķes n√£o-governamentais associadas passaram a colaborar diretamente com os planos de realoca√ß√£o de Mengistu, motivados em parte justamente pela aten√ß√£o que a fome no pa√≠s estava recebendo internacionalmente. ‚ÄúO governo de Mengistu tornou-se mestre em manipular a propaganda humanit√°ria. Ele reconheceu que a imprensa internacional est√° mais preocupada com a contribui√ß√£o marginal feita √† sobreviv√™ncia dos agricultores. Em geral n√£o mais que 10% da ra√ß√£o m√©dia di√°ria era provida pela ajuda internacional enquanto mais de 90% era derivada do esfor√ßo pr√≥prio dos agricultores. Este √ļltimo podia ser destru√≠do sem protesto internacional, fornecendo uma conveniente popula√ß√£o cativa aos militares, e uma popula√ß√£o necessitada para as ag√™ncias de ajuda‚ÄĚ.

As agências de ajuda ajudaram a produzir pessoas necessitadas. Se as imagens de crianças famintas são tocantes, mais imagens foram produzidas. Estima-se que os planos de realocação forçada de Mengistu, onde a ajuda internacional contribuiu diretamente, tenha vitimado adicionalmente dezenas ou até centenas de milhares de pessoas.

Este foi um fracasso, mas um ignorado, relativizado ou justificado pelos apologistas do Live Aid. Segundo a cr√≠tica de David Rieff, uma √ļnica ONG, a se√ß√£o francesa dos M√©dicos Sem Fronteiras se recusou a apoiar Mengistu direta ou indiretamente, e foi expulsa da Eti√≥pia.

N√£o se sabe exatamente quantos morreram na Grande Fome Et√≠ope. N√£o se sabe exatamente quantas vidas Live Aid salvou, nem se sabe quantas contribuiu para que n√£o fossem salvas. Tais vidas sempre estiveram em risco, com ou sem a interfer√™ncia ou ‚Äúajuda‚ÄĚ internacional. √Č muito prov√°vel que o saldo final tenha sido positivo. Entretanto, ele com certeza n√£o foi apenas positivo.

Devia então Geldof ter centrado sua campanha em uma ação mais política contra o Derg? Contra Mengistu e seu regime em 1985? Estaria Kony 2012 fazendo algo melhor?

MUSEVENI 2012

Avance vinte anos, e Joseph Kony √© um criminoso, n√£o h√° d√ļvida. Individualmente √© um criminoso mais cruel que o oficial Mengistu. E para det√™-lo, a campanha Kony 2012, organizada pela ONG ‚ÄúInvisible Children, Inc.‚ÄĚ, bem ao contr√°rio do Live Aid, defende a√ß√Ķes intervencionistas diretas, como advogar pela a√ß√£o de tropas americanas na regi√£o.

Mas, bem similar ao Live Aid na prática, a Invisible Children também trabalha com grupos como o Exército Popular de Libertação do Sudão (SPLA). Aqui está uma fotografia dos três fundadores da ONG em uma brincadeira, portando armas ao lado do SPLA:

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As armas são do SPLA, na direita está o narrador do vídeo Kony 2012.

A ONG colabora ainda com o ex√©rcito ugand√™s, liderado por Yoweri Museveni. Como notam os cr√≠ticos, tanto o SPLA quanto o ex√©rcito ugand√™s tamb√©m s√£o acusados de crimes contra a popula√ß√£o, como estupros e saques. Eles tamb√©m j√° chegaram a sequestrar crian√ßas para compor seus ex√©rcitos ‚Äď exatamente o mote da campanha KONY 2012. Suas viola√ß√Ķes de direitos humanos n√£o s√£o, ao menos hoje, t√£o atrozes como as de Kony ou Mengistu. Ambos s√£o ex√©rcitos do governo, com maior legitima√ß√£o popular, nenhum √© condenado como criminoso por tribunais internacionais. Mas Museveni e seus oficiais, um dos quais √© apresentado no v√≠deo, n√£o s√£o figuras de m√£os limpas. Como deve estar claro, esta n√£o √©, nem jamais foi, uma quest√£o simples.

Em sua resposta √†s cr√≠ticas, a Invisible Children deixa claro que nenhum recurso √© direcionado ao governo ugand√™s, e que ‚Äúa √ļnica forma plaus√≠vel e apropriada de deter Kony e proteger os civis que ele ataca √© coordenar esfor√ßos com governos locais‚ÄĚ. Na pr√°tica, nada diferente do que as ONGs beneficientes na Eti√≥pia fizeram.

Falando em recursos, a Invisible Children tamb√©m deixa claro que apenas 37% dos U$8,9 milh√Ķes de d√≥lares arrecadados no ano passado foram direcionados a programas diretos de ajuda na √Āfrica Central. Os outros 63% foram gastos na cria√ß√£o de m√≠dias, administra√ß√£o e programas de conscientiza√ß√£o. O filme que o comoveu, de uma qualidade cinematogr√°fica impressionante, n√£o foi um acidente, quase um milh√£o de d√≥lares foram gastos para produzir tais filmes apenas no ano passado. Mais de 1,4 milh√£o de d√≥lares foram gastos administrativos.

Boas inten√ß√Ķes

‚ÄúN√£o √© melhor fazer algo ao inv√©s de ceder ao cinismo e n√£o fazer nada?‚ÄĚ, pergunta David Rieff. ‚ÄúO ditado de Edmund Burke de que para que o mal triunfe, tudo que √© preciso √© que ‚Äėos homens de bem n√£o fa√ßam nada‚Äô encapsula esta vis√£o. Mas se pode argumentar tamb√©m que no neg√≥cio de altru√≠smo global, por vezes √© melhor n√£o fazer nada. √Č claro, aqueles que acreditam que √© sempre melhor fazer algo tendem a acreditar que quaisquer consequ√™ncias negativas de suas a√ß√Ķes derivam de n√£o terem feito o bastante‚ÄĚ.

A quest√£o da ajuda humanit√°ria √† √Āfrica √© um tema pol√™mico, e que devia ser muito mais pol√™mico. √Č extremamente positivo que venha √† tona. Aqui em 100nexos, costumamos citar o trabalho de Adam Curtis, que abordou as hist√≥rias desastrosas da usina de Volta em Gana, da interven√ß√£o da CIA no Congo, ou mais extensamente da influ√™ncia de ideias liberais e humanit√°rias no genoc√≠dio na Ruanda. As melhores inten√ß√Ķes, os sonhos mais belos do que √© certo podem ter resultados terr√≠veis.

H√° mais de dez anos tento fazer algo promovendo o pensamento cr√≠tico, e no ano passado participei de um evento de conscientiza√ß√£o, a ‚ÄúOverdose Homeop√°tica‚ÄĚ. N√£o s√£o, de longe, quest√Ķes t√£o delicadas ou urgentes quanto aquelas enfrentadas na √Āfrica Central. Estamos mais pr√≥ximos dos EUA do que da Eti√≥pia. Por√©m algo dos dilemas entre a a√ß√£o e a ina√ß√£o, sobre abordagens, conscientiza√ß√£o e consequ√™ncias, bem como um tanto das cr√≠ticas recebidas a qualquer ativismo, guardadas as enormes diferen√ßas em propor√ß√£o, t√™m um tanto em comum.

Kony 2012, como Live Aid, já é um sucesso. E em novos tempos, é fabuloso ver a rapidez com que não só a comoção se disseminou, como também o aprofundamento e a análise da questão, incluindo as críticas. Tudo isso, incluindo as críticas, foi despertado pela organização Invisible Children.

Se em 2011 apenas pouco mais de um ter√ßo de seus recursos foram investidos em a√ß√Ķes diretas na √Āfrica, talvez em 2012 e em anos futuros, com mais recursos e economias de escala, possam investir uma propor√ß√£o e quantia maior em tais a√ß√Ķes. Talvez tais a√ß√Ķes realmente se integrem com as comunidades locais, que sejam capazes de utilizar a ajuda de forma sustent√°vel para solucionar seus pr√≥prios problemas de maneira duradoura. Talvez Kony seja capturado e seja mais um de muitos criminosos genocidas a serem detidos e julgados. A a√ß√£o de volunt√°rios pode fazer com que esses muitos ‚Äútalvez‚ÄĚ se tornem sucessos concretos.

Em meio √† apatia e cinismo, ao medo paralisante de errar, a vontade e a coragem de de mudar o mundo s√£o sentimentos valiosos. A atitude de fazer algo para mudar o mundo √© louv√°vel. √Č preciso lembrar, apenas, que por vezes, com as melhores inten√ß√Ķes, podemos acabar por mudar o mundo para pior.

Joseph Kony e Mengistu Mariam, afinal, também são revolucionários. Ambos continuam livres.

Ramanujan e 11/11/11 11:11:11

‚ÄúO Twitter divulgou um v√≠deo que mostra uma visualiza√ß√£o global de todos os Tweets mencionando 11:11 no dia 11/11/11. Depois h√° uma segunda onda que seriam os tweets √†s 23h11, ou 11:11 PM‚ÄĚ ‚Äď Ren√™ Fraga

O v√≠deo √© curioso pela onda que acompanha o fuso hor√°rio, e porque a segunda onda que comenta o 11:11 PM se destaca mais nos EUA, onde de fato se usa a conven√ß√£o AM/PM e n√£o algo como 23h11. Talvez melhor do que qualquer texto longo isso ilustre como o momento √© resultado de uma s√©rie de conven√ß√Ķes arbitr√°rias, indo do fuso hor√°rio √† forma como registramos as horas ao longo do dia.

√Č o n√£o t√£o velho dilema de que determinar a data e hora exatas do Fim do Mundo deve lidar hoje com quest√Ķes de fuso hor√°rio, e mesmo do hor√°rio de ver√£o. Foi-se o tempo em que o Sol parar no c√©u era um fen√īmeno universal.

Enquanto uma pequena parte da popula√ß√£o mais cr√©dula esperou algo acontecer ansiosamente nesse momento, outra parte da popula√ß√£o mais c√©tica desdenhou da supersti√ß√£o ‚Äď enquanto imagino que quase todos tenham visto o evento apenas como uma curiosidade.

unic

O que ele revela tamb√©m √© nossa fascina√ß√£o por reconhecer padr√Ķes. O padr√£o 11/11/11 √© √≥bvio, mas o √≥bvio √© muito relativo. Uma famosa anedota matem√°tica conta que o matem√°tico ingl√™s G.H. Hardy foi visitar o g√™nio indiano Srinivasa Ramanujan no hospital, mas Ramanujan n√£o era um g√™nio qualquer: era um g√™nio matem√°tico, considerado por muitos um dos maiores que j√° existiu.

‚ÄúEu havia pegado um t√°xi de n√ļmero 1729 e comentei que o n√ļmero parecia bem mon√≥tono‚ÄĚ, contou Hardy, ‚Äúe esperava que isso n√£o fosse um mau agouro‚ÄĚ.

‚ÄúN√£o‚ÄĚ, respondeu Ramanujan de pronto, ‚Äú√© um n√ļmero muito interessante; √© o menor n√ļmero que pode ser expresso como a soma de dois cubos [positivos] em duas formas diferentes‚ÄĚ.

As duas formas s√£o 1^3 + 12^3 = 9^3 + 10^3 = 1729.

Se para n√≥s 11/11/11 √© um padr√£o interessante evidente, para Ramanujan n√£o s√≥ 1729, como praticamente todos os n√ļmeros possu√≠am e eram parte de padr√Ķes interessantes. E como se v√™, mesmo entre matem√°ticos como Hardy e Ramanujan tais padr√Ķes podem ser vistos como sinais.

‚ÄúTodo positivo inteiro √© um dos amigos pessoais de Ramanujan‚ÄĚ ‚Äď J.E. Littlewood

A prova de que todos os n√ļmeros s√£o interessantes √© mesmo um paradoxo divertido: se houvesse n√ļmeros que n√£o fossem interessantes, ent√£o o menor desses n√ļmeros se tornaria automaticamente interessante por ser o menor n√ļmero n√£o-interessante. E assim por diante.

Um guia r√°pido para o novo Google Reader

greader_1000

Com as mudanças colocadas em prática hoje, as funcionalidades sociais do Google Reader foram extintas. E agora?

O bot√£o +1 substitui o antigo ‚ÄúLike‚ÄĚ, voc√™ clica e estar√° promovendo a popularidade do item que est√° lendo. Importante: ao clicar neste bot√£o voc√™ n√£o estar√° compartilhando o item que est√° lendo com ningu√©m. Veja o pr√≥ximo item.

Para onde foi o bot√£o de ‚ÄúShare‚ÄĚ, para compartilhar posts? Ele est√° no topo do Reader! Do lado superior direito:

readershare

√Č preciso selecionar o item que voc√™ quer compartilhar e ent√£o clicar em ‚ÄúShare‚ÄĚ no topo, escolher os c√≠rculos com que deseja compartilhar e ent√£o finalmente em ‚ÄúShare‚ÄĚ outra vez.

Tamb√©m √© poss√≠vel compartilhar um item no Google+ dentro do item, clicando no bot√£o +1, passando o mouse sobre ele para ver a op√ß√£o de ‚ÄúShare on Google+‚ÄĚ, selecionando os c√≠rculos e compartilhando.

Screen shot 2011-10-28 at 2.01.30 PM

Anteriormente, ao compartilhar um item voc√™ o compartilhava com todos seus amigos ou mesmo com toda a rede. Agora, para compartilhar com o mesmo n√≠vel de abertura ser√° preciso escolher os ‚ÄúExtended Circles‚ÄĚ. Do contr√°rio, apenas as pessoas nos c√≠rculos que voc√™ escolheu ver√£o seu item, e mesmo que algu√©m destes c√≠rculos queira ‚Äúre-compartilhar‚ÄĚ o item com mais pessoas, poder√° ter problemas.

Sim, são no mínimo três cliques, talvez mais, para substituir uma funcionalidade que na versão anterior do Google Reader necessitava de apenas um clique ou tecla.

E o bookmarklet para compartilhar qualquer p√°gina? O Google Reader se integrava com o Notes para permitir compartilhar p√°ginas com um bookmarklet. Ele n√£o funciona mais, mas h√° o bookmarklet do Google+. Ele permite compartilhar a p√°gina atual no G+ com um clique.

Para onde foram meus amigos? Quem eu seguia, quem me seguia? Todos est√£o no Google+ e a √ļnica forma de ler os itens deles, e deles lerem os seus, ser√° atrav√©s dos streams de c√≠rculos no Google+.

Mas onde est√£o os meus amigos do Reader no Google+? Para descobrir todos a quem voc√™ seguia e quem lhe seguiam, ser√° preciso acessar as configura√ß√Ķes do Reader. Dentro do Reader, no canto superior direito h√° uma engrenagem, acesse ‚ÄúReader Settings‚ÄĚ, e ent√£o a tab ‚ÄúImport/Export‚ÄĚ.

L√° voc√™ encontrar√° tanto a ‚ÄúList of people that you follow‚ÄĚ quanto a ‚ÄúList of people that follow you‚ÄĚ para fazer o download no formato JSON. O nome e endere√ßo dos perfis deles est√£o l√°, nos arquivos exportados following.JSON e followers.JSON.

E o que faço com esses JSON? O formato JSON foi feito para ser mais amigável e compreensível, mas se você abrir mesmo a pequena lista de amigos que acabou de baixar nesse formato em um editor de texto, pode não entender nada.

Thiago Avelino criou um app que filtra os arquivos JSON e lista o endereço dos perfis: http://readertogplusfriends.appspot.com/

Ainda será preciso visitar cada um dos perfis e adicioná-los um a um aos círculos do G+.

E agora? Se você se antecipou à mudança e já criou um círculo com todas as pessoas que você seguia no Reader, ou se os criou agora, basta acessar o stream desse círculo no G+ e basta que todos nesse círculo passem a compartilhar os itens no G+ e basta que aqueles que o seguiam também tenham criado seus círculos incluindo você e você também compartilhe tudo no G+ e nenhuma das pessoas tenha se confundido ou esteja compartilhando com círculos fechados para que tudo fique quase como era antes.

O Google Reader era, e continua sendo, a forma mais pr√°tica de consumir conte√ļdo da rede. Os sites disponibilizam o feed RSS de seu conte√ļdo, e o Reader, em um aplicativo completamente na nuvem, permite que voc√™ organize e acompanhe esses feeds em tempo real a partir de uma √ļnica interface focada no conte√ļdo. Lamentavelmente, esta atualiza√ß√£o pouco (ou nada) adicionou de funcionalidade no Reader como leitor de feeds.

O Google Reader também era, e não é mais, uma rede social distinta focada nos usuários desse aplicativo.

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