Dilemas

…de extin√ß√£o, na vis√£o do Criacionismo.

Imagem – daqui

FRACASSO CHINÊS

“China reassures scientists not to fear failure
(Reuters) – China will tolerate experiment failures by its scientists to ease pressure, encourage innovation and cut the chances of fraud, a top official said on Thursday.”

Sempre pensei que o erro e o fracasso constituiam componentes fundamentais do “processo cient√≠fico”.
Agora o governo chinês vem descansar os seus cientistas para que não temam o falhanço e o fracasso.
Esta desculpabiliza√ß√£o institucional visa fomentar a “criatividade”, aliviar a enorme “press√£o” bem como evitar a “fraude cient√≠fica”.

Quando por lá trabalhei e contactei com diversas realidades de investigação paleontológica, verifiquei a enorme tensão produtiva em que viviam os meus colegas chineses.

Parecia-me que esse comportamento semi-obsessivo se devia mais ao car√°cter laborioso t√≠pico dos asi√°ticos do que, mais pragmaticamente, aos enormes “incentivos” financeiros concedidos pelo governo sempre que, por exemplo, uma nova esp√©cie de dinoss√°urio √© descoberta ou um paper na Nature √© publicado.
Por respeito e pudor não avançarei valores.

Agora constato que não era nenhuma produtividade típica dos asiáticos.
A press√£o oficial devia ser tanta que, oficialmente, tiveram que a conter.

Fonte da notícia Рaqui

Candidatura Ibérica a Património Mundial da UNESCO Рjazidas de dinossáurio

Em rela√ß√£o a esta not√≠cia ‚Äď aqui ‚Äď s√≥ poderei, para n√£o ser acusado de opinar excessivamente sobre assuntos que me s√£o t√£o pr√≥ximos, acrescentar o seguinte:
faltou falar do papel absolutamente fundamental da investiga√ß√£o feita nos √ļltimos 15 anos por Vanda Faria dos Santos e que culminou na sua tese de doutoramento Cum Laude.
Este trabalho é um dos exemplos de investigação que sai da esfera do conhecimento puro e entra na aplicação quotidiana, por intermédio da divulgação do património Natural (como eu gostaria de ver comentada esta frase por Desidério Murcho ou Ludwig Krippahl!).
Sem esse trabalho, não teria sido possível levar à preservação e musealização in situ da Pedreira do Galinha ou o conhecimento das jazidas de Vale de Meios, Carenque ou Pedra de Mua (no cabo Espichel).
√Č um trabalho que n√£o √© vis√≠vel a olho nu mas que est√° l√°.
√Č um trabalho feito quer no contacto com os pol√≠ticos, quer no contacto com o grande p√ļblico.
Mas, acima de tudo, √© um trabalho de divulga√ß√£o e protec√ß√£o do patrim√≥nio natural feito contra os bem pensantes ou apenas contra a ignor√Ęncia, sejam da casa ou de fora dela.

Parabéns Vanda!

Imagens – National Geographic Portugal; gr√°fico de Carlos Marques da Silva e Vanda Faria dos Santos

Na China – I

A “hist√≥ria” chinesa foi bastante complicada – ver post com outra das hist√≥rias.

O contacto inicial foi feito com Xu Xing do IVPP. Ele é responsável por mais 20 espécies novas de dinossáurios e publicou mais de 10 artigos na Nature.
Para al√©m de me receber, prop√īs-me tamb√©m iniciar trabalho de an√°lise morfol√≥gica 3D de cr√Ęneos de Psittacosaurus, em conjunto com um aluno seu de doutoramento (foto).

Durante a primeira semana de estadia em Pequim, Dong Zhi-ming, um dos “pais” da Paleontologia de dinoss√°urios na China, encontrava-se em Pequim de visita. Falei com ele, contei-lhe o meu projecto e ele convidou-me para, passados 4 dias, nos encontrarmos no sul da China, em Lufeng. Comecei logo a tratar das coisas (arranjar avi√£o pois Lufeng, na prov√≠ncia de Yunnan, fica pr√≥ximo da fronteira com o Vietname e do Laos) e a improvisar os meus planos iniciais.
Passados esses dias aterrava em Kunming onde tinha colaboradores de Dong Zhi-ming à minha espera, para uma viagem de carro de cerca de duas horas até Lufeng.
Estive cerca de uma semana trabalhando sobretudo em prossaurópodes, o mais famoso dos quais é o Lufengosaurus (do nome da cidade), mas também em diversos saurópodes, alguns dos quais ainda não descritos.
Fiz também prospecção no campo em conjunto com Dong Zhi-ming nas famosas jazidas do Triásico desta região.
Este investigador ficou t√£o impressionado com o meu trabalho que me prop√īs que regressasse para descrever novos materiais (provavelmente novas esp√©cies, das centenas de ossos que eles t√™m em prepara√ß√£o), mas essa hist√≥ria fica para mais tarde…

Em Lufeng fui brindado com os manjares entomológicos que os meus colegas me tinham reservado Рsou extremamente alérgico à picada de abelhas e vespas e quando me puseram à frente um prato de larvas e vespas adultas ia caindo para o lado!
Neste jantar, para além de Dong Zhi-ming e colaboradores, estavam também quatro colegas da Mongólia Interior, conhecidos, entre outras atributos, por serem resistentes aos efeitos do álcool. Para os chineses, quem aguenta bem a bebida é porque é bom líder, disseram-me.
Para al√©m de convidado, era estrangeiro, e nisso os chineses s√£o muito formais, de maneira que de 5 em 5 minutos levantava-se um chin√™s, fazia-me um brinde e beb√≠amos ambos um trago de aguardente de arroz. Como eles eram dez e eu o √ļnico convidado, tive que efectuar v√°rios brindes com aguardente…
Dong Zhi-ming contou-me, no dia seguinte, que os colegas mongóis tinham ficado impressionados comigo porque nunca abandonei as boas maneiras nem alterei o tom de voz, e isso para eles é sinal de força interior. Não sei se é ou não, o certo é que nesse dia tinha uma certa dor de cabeça!

Lufeng √© uma cidade muito pequena, mesmo para os standards chineses, semi-rural e onde quase nunca v√£o estrangeiros – √© impressionante como estavam sempre a olhar para mim quando andava na rua…!
Recordo-me de sair um dia √† noite e num restaurante (o mais pr√≥ximo que se pode dizer daquele espa√ßo…) onde entrei para me aventurar nas surpresas gastron√≥micas, estar vazio. Passada meia-hora, j√° quase n√£o haviam mesas para chineses que apenas tinham dois objectivos: beber ch√° e mirar o ocidental que pensava em dinoss√°urios saur√≥podes, enquanto tentava adivinhar o que lhe tinham colocado no prato!

Foi tamb√©m em Lufeng que ao sair de um riquex√≥ motorizado (basicamente uma moto com uma cobertura atr√°s – foto) me deixaram √† porta de uma pens√£o que n√£o era a minha. Era de noite, n√£o tinha o nome do s√≠tio onde estava nem t√£o pouco sabia minimamente onde me encontrava. Para al√©m de n√£o esperar que algu√©m soubesse falar ingl√™s, e o meu ultra-b√°sico mandarim n√£o dar para me safar daquela situa√ß√£o, foram uns minutos de completa impot√™ncia. Senti-me ao mesmo tempo como uma crian√ßa perdida no supermercado e como um adulto imbecil. Depois de ter recuperado a calma abordei o condutor do riquex√≥ com as palavras “Kong long, kong long!” que significam “dinoss√°urio, dinoss√°urio”, uma das poucas que sei em mandarim.
Após o ter repetido várias vezes e o chinês ter recuperado das gargalhadas iniciais, lá deduziu que eu queria que ele me conduzisse ao Museu dos Dinossáurios.
√Č que a partir do Museu sabia eu o caminho!
Terminei a noite, com a cabe√ßa de fora da caixa motorizada a gesticular “esquerdas e direitas” at√© ao meu hotel no sul da China.
J√° andei por grande parte do mundo e nunca me tinha sentido t√£o “perdido” como naqueles cinco minutos…

A bela e o fémur do Monstro

Apenas um trocadilho, das profundezas da pesquisa bibliogr√°fica.
Procurava uma referência de Prosauropoda do Lesotho e dei de caras com esta imagem.
A bela não está identificada; o fémur direito é de um plateosaurídeo indeterminado.

A escala humana é sempre aconselhável, até em fotos de campo.

Referências:
Primeira foto, tirada em 1955, em Maphutseng, Lesotho.


Knoll, F. 2004. Review of the tetrapod fauna of the “Lower Stormberg Group” of the main Karoo Basin (southern Africa) : implication for the age of the Lower Elliot Formation. Bulletin de la Soci√©t√© G√©ologique de France. v. 175 no. 1 p. 73-83 DOI: 10.2113/175.1.73
Segunda foto – f√©mur esquerdo de Plateosaurus engelhardti, Museum f√ľr Naturkunde, Berlin
Luís Azevedo Rodrigues, 2006

Apanhados no radar

(interrupção esporádica do pousio)

O suor corre-lhe pela cara, vendando-o quase por completo. Corre, tentando escapar aos sons ensurdecedores que, atr√°s de si, est√£o cada vez mais perto. As pernas n√£o lhe respondem, indo atr√°s e √† frente como p√™ndulos de um rel√≥gio acelerado. Atr√°s de si, as patas do perseguidor n√£o param, mas a sua amplitude √© maior do que a da presa. A dist√Ęncia entre ambos √© cada vez menor, n√£o havendo tempo para fugas ou oculta√ß√Ķes na vegeta√ß√£o.

Esta cena podia ser de um qualquer filme, mas n√£o √©. √Č parte do imagin√°rio que se pode fazer a partir dos dados cient√≠ficos publicados a 22 de Agosto.
Bi√≥logos e paleont√≥logos da Universidade de Manchester prop√Ķem velocidades diferentes das at√© aqui propostas para os s√°urios extintos.
Utilizando modelos computacionais Рalgoritmos evolutivos Рbaseados em dados de animais actuais (como, por exemplo, a ave corredora australiana Ema), foram propostas novas velocidades máximas para algumas espécies de dinossáurios. Segundo esta modelação, o Compsognathus, com apenas 3 kg de peso, podia atingir uma velocidade de mais de 60 km/h, ou seja superior a qualquer animal bípede actual.
Tal como os atletas de alta-velocidade ou os jogadores de futebol, tamb√©m a velocidade m√°xima atingida pelos dinoss√°urios √© um factor de extrema import√Ęncia. A fuga da presa ou o sucesso do predador est√£o dependentes da velocidade e contribuem para um maior ou menor sucesso evolutivo dos animais envolvidos.
Mas como calcular a velocidade de animais que nunca cruzaram uma meta?
Desde há mais de um século que os paleontólogos têm tentado estimar as velocidades atingidas pelos dinossáurios.
Estas estimativas t√™m sido propostas a partir de medi√ß√£o de pegadas e do passo obtido na pista, do estudo da estrutura (forma e tamanho) anat√≥mica dos dinoss√°urios e destas com as de animais actuais, c√°lculos das for√ßas suportadas pelos mat√©rias envolvidos (leia-se ossos), localiza√ß√£o das inser√ß√Ķes musculares, entre outros m√©todos.

Pressente-o. Imagina o toque, tentando olhar de soslaio. Apesar de correr sente-se gelado. Muda de direc√ß√£o subitamente. Ganha alguma dist√Ęncia.

Trabalhos de John Hutchinson e colegas da Royal Veterinary College em Londres tinham sugerido, em 2002, para a impossibilidade de o T. rex poder atingir velocidades superiores a 40 km/h. Apesar de n√£o muito estimulante, quando comparada com as velocidades atingidas nas nossas auto-estradas, √© de referir que Francis Obikwelu atinge “apenas” id√™nticos 40 km/h.
Animais grandes n√£o se deslocam necessariamente mais velozmente que animais pequenos. Veja-se por exemplo os elefantes. Segundo Hutchinson, os elefantes n√£o correm; apenas aumentam a cad√™ncia do seu andar, adquirindo uma maior velocidade. Este investigador calculou ainda que para um T. rex atingir uma velocidade de 70 km/h necessitaria possuir 86% do seu peso total em m√ļsculo – um aut√™ntico Schwarzenegger, biologicamente pouco vi√°vel!
Para al√©m destas impossibilidades na ligeireza, tamb√©m as mudan√ßas s√ļbitas de direc√ß√£o necessitariam de segundos para serem efectuadas, impossibilitando o grande dino de s√ļbitas mudan√ßas de direc√ß√£o.

O terreno era agora lamacento. Escorregou, ficando prostrado no meio do lodo e sedimentos. Atrás de si, o ruído das passadas diminuiu de cadência.

As velocidades, inferidas a partir das medi√ß√Ķes feitas nos rastos de pegadas, s√£o normalmente baixas. Estas medi√ß√Ķes tradicionalmente deixavam entender que os dinoss√°urios eram animais lentos.
Em Portugal a velocidade m√°xima inferida a partir de pegadas √© de cerca de 14 km/h num trilho de ter√≥pode (dinoss√°urio carn√≠voro e b√≠pede) do Cabo Espichel. Rastos de dinoss√°urios saur√≥podes, como o dos da Pedreira do Galinha, apresentam velocidades m√°ximas de 5 km/h. No entanto estes dados n√£o significam que os dinoss√°urios eram animais lentos. O que os paleont√≥logos explicam √© que as condi√ß√Ķes geol√≥gicas para a preserva√ß√£o das pegadas (icnitos) s√£o diferentes das necess√°rias √° preserva√ß√£o dos ossos. Os sedimentos favor√°veis √† preserva√ß√£o daquelas marcas s√£o os de ambientes lamacentos ou semelhantes. Nestes ambientes a movimenta√ß√£o √© mais dif√≠cil pois existe o risco de o animal escorregar. Assim, √© natural que as velocidades de desloca√ß√£o calculadas a partir de pegadas de dinoss√°urios sejam, na sua maioria, velocidades baixas.

Por algum motivo o som abrandava atr√°s de si. Estava cada vez mais distante. Escapara, no meio da lama.
Referências

Hutchinson, J. & Garcia, M. 2002. Tyrannosaurus Was Not a Fast Runner. Nature 415: 1018-1021.

Hutchinson, J.R., D. Schwerda, D. Famini, R.H.I. Dale, M. Fischer, R. Kram. 2006. The locomotor kinematics of African and Asian elephants: changes with speed and size. Journal of Experimental Biology 209: 3812-3827

Sellars, W.I. & P.L. Manning. 2007. Estimating dinosaur maximum running speeds using evolutionary robotic. Proceedings of the Royal Society B. DOI: 10.1098/rspb.2007.0846

Santos, V. Person. Commun.

Auto da Ocorrência

PEGADA VALE MEIOS(Publicado no jornal O Primeiro de Janeiro a 28/06/2007)

Tr√Ęnsito parado. Avan√ßamos. Pol√≠cias. Medem algo na estrada. Mais √† frente, carros batidos. Os peritos continuam a medir e a escrever. Finalmente conseguimos passar, apenas retendo na mem√≥ria o resultado final do que aconteceu.

A familiar cena de cidade poderia ser um qualquer dia de um paleontólogo que estude pegadas de dinossauro.
T
al como os pol√≠cias e os mirones, tamb√©m os cientistas procuram saber o que se passou. Medem os vest√≠gios do acontecimento ocorrido algures num passado mais ou menos remoto. Os elementos da autoridade medem o rasto da travagem para inferirem o tempo de dura√ß√£o da mesma e a velocidade prov√°vel a que se deslocava o carro. Os paleont√≥logos medem o espa√ßo entre pegadas para deduzirem a velocidade do animal. Esta medi√ß√£o permitiu, por exemplo, constatar que, no Cabo Espichel, o trilho de um¬†dinossauro¬†carn√≠voro apresentava um passo (s√©rie de duas pegadas) irregular; por outras palavras, o animal coxeava. As raz√Ķes para este comportamento podem ser v√°rias: ferimento numa das patas ou, motivo mais dif√≠cil de comprovar, poderia estar a transportar uma presa.
Os paleont√≥logos conseguem inferir uma s√©rie de informa√ß√Ķes biol√≥gicas a partir da “cena do crime”: p.e., com base no tamanho e forma da pegada, conseguem concluir a altura do animal at√© √† anca e assim ter uma ideia geral do tamanho do animal.
No caso da maior jazida portuguesa de pegadas de dinossauroPedreira do Galinha, na zona de F√°tima – podem observar-se centenas de pegadas de saur√≥podes –¬†dinossauros¬†herb√≠voros quadr√ļpedes. Este local apresenta os maiores rastos de¬†dinossauros¬†do Jur√°ssico m√©dio (sensivelmente h√° 165 milh√Ķes de anos) a n√≠vel mundial, dois dos quais com mais de 140 metros de extens√£o.
N√£o s√≥ os rastos permitem deduzir informa√ß√Ķes sobre a velocidade e comportamento do animal.
A partir da forma das pegadas individuais, os paleont√≥logos obt√™m informa√ß√Ķes sobre o seu autor: √† semelhan√ßa de um CSI natural, deduzem, com maior ou menor rigor, o retrato-rob√ī de quem andou (literalmente) num determinado local.
As pegadas de dinossáurio também exerceram fascínio na produção literária.
A descoberta em 1909 de pegadas de Iguanodon, em Inglaterra, originou uma enorme excitação em Sir Arthur Conan Doyle, o criador do detective Sherlock Holmes.

Alguns autores apontam este motivo, bem como a publica√ß√£o da “Origem das Esp√©cies” de Darwin, como os principais factores de inspira√ß√£o para que Conan Doyle escrevesse “O Mundo Perdido”, relato de aventuras num pa√≠s da Am√©rica do Sul povoado de criaturas perigosas e pretensamente extintas.
Ao contr√°rio do que se passa nos acidentes de autom√≥vel, em que os respons√°veis materiais normalmente ficam junto do local da “ocorr√™ncia”, no caso das pegadas de¬†dinossauro¬†estes nunca l√° est√£o para soprar no bal√£o. Uma das perguntas mais frequentes que me s√£o feitas refere-se ao motivo pelo qual os ossos de¬†dinossauro¬†nunca s√£o encontrados perto das jazidas de pegadas. As raz√Ķes s√£o essencialmente duas: a maioria das pegadas √© produzida em momentos de actividade biol√≥gica habitual, isto √©, quando o animal se encontrava em movimento para pastar ou ca√ßar, n√£o sendo prov√°vel, assim, que tivesse deixado a√≠ o seu esqueleto…

O segundo motivo diz respeito √†s condi√ß√Ķes de preserva√ß√£o – tafonomia – dos vest√≠gios. Pegadas e ossos necessitam de condi√ß√Ķes geol√≥gicas diferentes para fossilizar, ou seja, os ingredientes para a fossiliza√ß√£o s√£o distintos para o registo icnol√≥gico (pegadas) e o registo osteol√≥gico (ossos).

Tal como os √≠ndios norte-americanos, que perseguiam os seus advers√°rios ou as presas numa ca√ßada, tamb√©m os paleont√≥logos seguem os rastos, embora nunca consigam alcan√ßar os seus autores… ao contr√°rio daqueles, apenas ficam com peda√ßos duma ocorr√™ncia do tempo passado.

Foto: Luís Azevedo Rodrigues Рjazida de Vale de Meios

Os Ossos do meu Ofício

9 Mitos/Confus√Ķes sobre Dinoss√°urios/Paleontologia


Tal como temos ideias pr√©-concebidas em rela√ß√£o √† pol√≠tica, ao futebol e √† vida em geral, tamb√©m no campo da Paleontologia √© habitual termos concep√ß√Ķes que n√£o correspondem ao que a Ci√™ncia conhece.
Porque a literacia científica é importante.
1-Os dinoss√°urios eram animais “est√ļpidos” – este conceito √©, erroneamente, apoiado pelo facto de que se extinguiram. A paleontologia sabe que o grupo de animais designados de dinoss√°urios foi, em maior ou menor grau, dominante em diversos ecossistemas durante mais de 170 milh√Ķes de anos; em termos comparativos o Homem, como esp√©cie, habita o nosso planeta h√° uns m√≠seros milh√Ķes de anos…est√ļpidos?
N√£o.
Cumulativamente conhecem-se hoje restos fossilizados de dinoss√°urio – Troodon – em que a rela√ß√£o tamanho corporal/tamanho craneal √© bastante elevada levando os paleont√≥logos a especular se aquele grupo de animais n√£o possuiria padr√Ķes de comportamento bastante desenvolvidos.
2-Steven Spielberg no “Parque Jur√°ssico” foi o primeiro a “utilizar” os dinoss√°urios no cinema – ao contr√°rio do que geralmente se pensa, a utiliza√ß√£o dos enormes animais do Mesoz√≥ico n√£o foi uma ideia original de Hollywood. O primeiro filme de anima√ß√£o tinha como personagem principal um dinoss√°urio saur√≥pode, ou melhor uma “menina” saur√≥pode de nome Gertie. Foi realizado em 1914 por Winsor McCay (tamb√©m autor da famosa obra “O pequeno Nemo); McCay foi influenciado por uma visita que efectuou ao Museu de Hist√≥ria Natural de Nova Iorque, tendo ficado t√£o impressionado com o Brontosaurus (hoje designado Apatosaurus) em exposi√ß√£o que o decidiu “utilizar” no primeiro filme de anima√ß√£o.
Ao longo da hist√≥ria do cinema contam-se imensos exemplos que integram como personagens os dinoss√°urios; apenas dois exemplos: “O Mundo Perdido” de 1925 e “Quando Os Dinossauros Dominavam a Terra” de 1970.
3- Os arque√≥logos estudam os dinoss√°urios e os f√≥sseis – tal como n√£o s√£o os paleont√≥logos que estudam os vest√≠gios da Humanidade em Foz C√īa ou no Egipto, tamb√©m n√£o s√£o os arque√≥logos que estudam as formas de vida preservadas sob a forma de f√≥sseis – esse √© o trabalho do paleont√≥logo.
4- Na linguagem do dia-a-dia a utiliza√ß√£o das palavras “dinossauro” e “f√≥ssil” est√£o associados a conceitos ultrapassados – televis√£o, r√°dio, jornais e mesmo nas conversas quotidianas veiculam as palavras dinoss√°urio e f√≥ssil associadas a conceitos de objectos, ideias ou pessoas que est√£o ultrapassadas, velhas e antiquadas. Apesar de nalguns contextos aquela associa√ß√£o fazer sentido, na maioria dos casos √© errada, pois os dinoss√°urios foram animais excelentemente adaptados aos seus ambientes e constitu√≠ram um grupo de sucesso durante muitos milh√Ķes de anos (ver ponto 1).
5- Homem e dinoss√°urios foram contempor√Ęneos – nos exemplos cinematogr√°ficos atr√°s referidos, em obras liter√°rias (“O Mundo Perdido”, “Lost World” no original, de Sir Arthur Conan Doyle) e s√©ries televisivas (“Os Flinstones”, por exemplo), o Homem e os dinoss√°urios coexistem em ambientes mais ou menos remotos.
Sob um ponto de evolutivo e da Hist√≥ria da Vida, esta perspectiva, obviamente, n√£o est√° correcta. Entre os dois grupos de seres vivos existem um “fosso” temporal de mais de 60 milh√Ķes de anos! Os antepassados do Homem moderno, num sentido amplo, ter√£o surgido h√° cerca de 4 ou 5 milh√Ķes de anos, tendo os grandes s√°urios desaparecido h√° 65 milh√Ķes de anos.
Mas para efeitos ficcionais o devaneio art√≠stico √© bem tolerado…
6- Todos os grandes r√©pteis do Mesoz√≥ico eram dinoss√°urios – embora os dinoss√°urios dominassem um grande n√ļmero de ecossistemas n√£o eram o √ļnico tipo de fauna.
Dimetrodon, Pteranodon (pteross√°urio), e Megalneusaurus (r√©ptil marinho) n√£o eram dinoss√°urios e s√£o alguns exemplos de outros r√©pteis contempor√Ęneos dos grandes s√°urios. Tal como hoje n√£o existem unicamente mam√≠feros em diversos ecossistemas, tamb√©m no Mesoz√≥ico n√£o existiam s√≥ dinoss√°urios…
7- Os dinoss√°urios eram voadores e habitavam tamb√©m os mares – os dinoss√°urios eram animais exclusivamente terrestres. R√©pteis como os pteross√°urios (voadores) s√£o normalmente confundidos com os dinoss√°urios; embora parentes pr√≥ximos, n√£o pertencem ao mesmo grupo. Tendo em aten√ß√£o que os dinoss√°urios s√£o os antepassados das aves, ent√£o podemos dizer que existiram dinoss√°urios voadores; mas tendo em aten√ß√£o essa ressalva…
De maneira semelhante, existiram e desapareceram no mesmo momento grupos de r√©pteis parentes dos dinoss√°urios que habitavam o meio aqu√°ticos – os ictioss√°urios, os plesioss√°urios e os mosassa√ļrios.
8- Todos os dinossáurios eram enormes Рembora uma das estratégias evolutivas desenvolvida pelos dinossáurios fosse o aumento de tamanho, conhecem-se actualmente algumas espécies de pequeno porte. Exemplos como Procompsognathus e Echinodon apresentavam tamanho que variavam entre o 1,20 e 1,50.
9- Os mam√≠feros s√≥ apareceram depois de os dinoss√°urios se extinguirem – os √ļltimos anos t√™m permitido reformular esta ideia; foram descobertos mam√≠feros fossilizados na China que transformaram a ideia que os nossos antepassados long√≠nquos eram de tamanho muito reduzido e viviam em poucos ambientes.
O Repenomamus foi descoberto recentemente e permitiu saber os mam√≠feros apresentavam tamanhos maiores do que se pensava e, mais surpreendente, se alimentavam, sempre que podiam, de dinoss√°urios! Este facto foi provado quando se descobriu este animal com restos fossilizados de um dinoss√°urio no seu interior. Podemos, desta forma, perceber que os mam√≠feros ancestrais n√£o eram inofensivos como se suponha, aproveitavam as oportunidades que a Natureza lhes oferecia…
P.S.- para quem estiver interessado aprofundar os conhecimentos sobre a influência dos dinossáurios na cultura popular pode tentar obter o excelente livro Starring T-Rex: Dinosaur Mythology and Popular Culture publicado pela Indiana University Press e, infelizmente, sem edição em português. Escrito pelo catedrático de Paleontologia e cinéfilo José Luís Sanz, da Universidad Autónoma de Madrid.

(Publicado no jornal O Primeiro de Janeiro a 02/03/2006)