Aos Professores meus


Retomo um post e, atrasado, dedico um post aos (meus) Professores…

Ao Professor Matos, que me obrigava a fazer c√≥pias e ditados, enquanto nos falava de m√ļsica cl√°ssica (que eu achava chata, mas tamb√©m com 7 anos…) e de como ir√≠amos gostar de a ouvir quando tiv√©ssemos a idade dele; de como eram importantes as frases curtas; que a fazer algo, o dever√≠amos fazer bem feito; e, sobretudo, de tudo aquilo que ainda vou retirando das suas idas palavras da Escola Prim√°ria…

Ao Professor Jos√© Fernando Monteiro que me fez sonhar com mundos passados e long√≠nquos – apesar de n√£o ter “merecido” a mai√ļscula no professor, a merece mais do que outros catedr√°ticos que por a√≠ se pavoneiam de barriga inchada…),

A todos os professores, bons e menos bons, que me ensinaram algo, como colegas e mestres…

Voltei…ap√≥s oito anos de pausa

Imagem – Nikos Economopoulos/Magnum Photos

O Czar e o dinoss√°urio

Grande parte do trabalho de um paleontólogo é passado dentro, à volta e em torno de Museus de História Natural.
√Č neles que est√£o depositadas (ou deveriam estar) as colec√ß√Ķes de f√≥sseis que fazem parte do trabalho de qualquer investigador que tenha como referencial a Hist√≥ria da Vida na Terra.
Tenho feito visitas de carácter científico a alguns museus, estando actualmente em visita científica de recolha de dados no Carnegie Museum of Natural History, em Pittsburgh.
Cada Museu de História Natural, para além do material de estudo e capital em investigadores, tem atrás de si várias histórias humanas ligadas quer ao conhecimento gerado quer à aos próprios intervenientes (humanos e não-humanos).
O Carnegie Museum of Natural History (CM) “nasceu” da vontade Andrew Carnegie, milion√°rio do s√©c. XIX da ind√ļstria americana do a√ßo e um enorme filantropo das artes e ci√™ncias.
Carnegie tomava o pequeno almo√ßo em Nova Iorque e lia, como habitualmente, o seu jornal, que nesse dia relatava um achado impressionante – restos de um animal gigantesco tinham sido descobertos no Wyoming. A not√≠cia era acompanhada de perturbadora descri√ß√£o do animal – o Brontosaurus (agora classificado como Apatosaurus) – assente nas patas traseiras e a olhar para o 11¬ļ andar de um pr√©dio!
Carnegie imediatamente escreveu uma nota a W.J.Holland que dizia “Caro Director, compre imediatamente este animal para Pittsburgh!” tendo-a enviado para o na altura Carnegie Institute. Juntamente enviou um cheque de 10000 d√≥lares.
Estava iniciada a “ca√ßa” aos dinoss√°urios em Pittsburgh!
Durante os anos seguintes a equipa do CM procedeu a expedi√ß√Ķes no continente americano tendo descoberto in√ļmeras esp√©cies (Stegosaurus, Camarasaurus, Apatosaurus, etc).
Um dos exemplos (tão de agrado do espírito heróico norte-americano) é a descoberta no dia 4 de Julho de 1899 (dia da independência americana) do que viria a ser classificado como Diplodocus carnegii (em honra do patrono e fundador do CM).
Carnegie possuía um castelo na sua Escócia natal, onde recebia com frequência individualidades e a própria realeza.
Numa dessas visitas, o Rei Eduardo VII notou uma das gravuras de Diplodocus tendo imediatamente pedido ao milion√°rio que comprasse um igual para Inglaterra.
A equipa do CM contratou escultores italianos para iniciar o processo de feitura de réplicas bem como a criação da estrutura de suporte (método ainda actualmente utilizado.
Em 1904 estava feita a primeira réplica de Diplodocus tendo no ano seguinte sido enviada uma para Inglaterra.
A moda iria espalhar-se pelo resto da realeza europeia tendo sido feitas r√©plicas para o Kaiser Wilhelm da Alemanha, Rei Vittorio Emanuele III de It√°lia, Czar Nicolau II da R√ļssia e o Rei Afonso XIII de Espanha (curiosamente nenhuma r√©plica para Portugal) e instaladas nos respectivos museus de Hist√≥ria Natural.
Holland, o director do CM, fora destacado para a montagem do Diplodocus no Museu de Hist√≥ria Natural de Moscovo. Como j√° foi dito aqueles animais tinham dimens√Ķes da ordem das dezenas de metro.
Encontravam-se Holland e os seus colaboradores atarefados com a montagem da réplica quando, atraído pelo fascínio pelos dinossáurios , irrompe pela sala o Czar e respectivo séquito.
Os trabalhadores russos, perante tal importante visita, largam literalmente tudo o que tinham em m√£os para manifestarem o seu respeito pelo czar.
√Č ent√£o que os republicanos americanos v√™em o desabar de toda a estrutura jur√°ssica perante as suas cabe√ßas. Felizmente nada de grave sucedeu exceptuando o retomar da constru√ß√£o da estrutura paleontol√≥gica que havia desabado.
Em 1910, o √ļltimo czar da R√ļssia, Nicolau II j√° podia admirar a sua r√©plica de Diplodocus.
O Diplodocus que surgira numa notícia de jornal em Nova Iorque espalhava-se agora pelos Museus do Velho Continente.

Publicado no jornal O Primeiro de Janeiro em 2005

Imagens Рfoto de jornal que despertou em Carnegie a paixão pelos dinossáurios РLuís Azevedo Rodrigues;
Andrew Carnegie – da Wikipedia;
notíca do arquivo do New York Times;
trabalho em Diplodocus, em 2005, no CArnegie Museum of Natural History РLuís Azevedo Rodrigues

Deixar de ser ilha*

Traços e traços.
Linhas que unem tipos e formas.
As ilhas imutáveis e isoladas que eram as espécies, criaram laços.
As mais próximas e as mais afastadas, todas unidas pelas pontes de Darwin.

Imagem* – a primeira √°rvore evolutiva desenhada por Darwin, em 1837. A √ļnica ilustra√ß√£o de “A Origem das Esp√©cies” √© uma √°rvore evolutiva.
Referência РGregory, T.R. 2008. Understanding Evolutionary Trees. Evolution Education Outreach 1: 121-137.

Ir

O trabalho cient√≠fico, para o p√ļblico em geral, √© feito no recato de laborat√≥rios e gabinetes. Um trabalho rotineiro, de pequenas ou grandes pr√°ticas, em ambientes id√™nticos, dia ap√≥s dia.

No caso da Paleontologia de Vertebrados esses procedimentos podem ser iguais ao de qualquer investigador ou mesmo de qualquer profissional.

Mas também podem ser totalmente distintos.

Uma das componentes de um paleontólogo de vertebrados (mas não só) envolve a recolha de amostras dos animais que estudamos (ossos, na maioria das vezes, mas também dentes, pele, são analisadas pegadas, entre outros vestígios fossilizados).

A prospecção e recolha dos fósseis implica que o paleontólogo se tenha que deslocar às jazidas rochosas onde previamente já foram descobertos vestígios ou novas jazidas que, pelas características rochosas (litologia, idade, etc.), apresentem boas possibilidades de se mostrarem produtivas.

Em termos práticos os paleontólogos têm que ir para o campo!

Esse é uma dos elementos que a maioria dos paleontólogos mais aprecia e anima.

Para além do potencial profissional que pode implicar (novas espécies ou melhor e maior quantidade de material fossilizado) existe um lado inerente à sua actividade, e partilhado por outros cientistas das Ciências Naturais, que os enriquecem como pessoas.

Falo do contacto implícito com a Natureza.

Apesar de todas a contrariedades inerentes – por vezes estamos sem contactar a fam√≠lia v√°rias semanas, sem nada de parecido sequer com um chuveiro, frios nocturnos e can√≠cula insuport√°vel diurna, comidas nem sempre com os standards gastron√≥micos… – existem experi√™ncias inolvid√°veis.

Apenas alguns exemplos.

No segundo ano que estive na prov√≠ncia de Neuqu√©n, na Patag√≥nia argentina, cheguei ao acampamento, a cerca de 150 km da povoa√ß√£o mais pr√≥xima, durante a noite (o di√°rio da expedi√ß√£o foi j√° publicado n’O Primeiro de Janeiro).

Cerca das tr√™s da manh√£ e por motivos fisiol√≥gicos tive que deixar a tenda. Mal sa√≠ fui “assaltado” pela enormidade do c√©u estrelado que ao mesmo tempo me atra√≠a e assustava. O c√©u parecia abarcar tudo, provocando quase uma sensa√ß√£o f√≠sica de t√£o intenso e grande. Senti-me de uma pequenez extrema… S√≥ pela vista deste c√©u a terr√≠vel viagem j√° havia valido a pena.

Durante o tempo que permaneci na Patag√≥nia fui diversas vezes “atacado” pela beleza da paisagem, ao mesmo tempo in√≥spita e terrivelmente atraente; o nunca acabar da plan√≠cie, o percebermos que somos t√£o pequenos…

Aliado a este lado atraente, que a maioria das pessoas facilmente entende e deseja, existe um outro – a camaradagem. Como referi, as condi√ß√Ķes de trabalho e de vida em expedi√ß√Ķes paleontol√≥gicas s√£o as mais b√°sicas que se pode imaginar. Apesar disso, surgem rela√ß√Ķes humanas de camaradagem e amizade que, noutros enquadramentos mais sofisticados, dificilmente poderiam nascer.

Em especial à noite, à volta de uma fogueira readquirem-se hábitos ancestrais esquecidos -contam-se histórias em grupo, fazem-se silêncios enquanto crepita o fogo, esquecem-se hierarquias académicas, ouvem-se pequenos desabafos pessoais.

Quis apenas relembrar e celebrar um dos aspectos envolvidos no processo científico da Paleontologia Рo trabalho de campo.

N√£o vem nos relat√≥rios nem nas publica√ß√Ķes cient√≠ficas. N√£o existem tratados nem comp√™ndios que o analisem e sistematizem. Apesar de tudo isso tenho constatado que √© das coisas que colocam um sorriso sincero na cara de cada paleont√≥logo – “Vais para o campo?”

Esquecem-se labutas diárias de obtenção de fundos, de preenchimento de formalidades burocráticas, da falta de perspectivas profissionais de futuro.

E vai-se…

P.S.:Este texto é um agradecimento pelo outro lado do trabalho científico a que me dedico.

E que, tendo a sorte de o ter, o gostaria de partilhar.

(Publicado no jornal O Primeiro de Janeiro a 5/3/2007)

Imagens РLuís Azevedo Rodrigues

Falsifica√ß√Ķes naturais

Os Executivos s√£o todos iguais.
Estejamos onde estivermos, conseguimos identificar um quadro importante de uma empresa Рo vestuário, o calçado e os adereços são semelhantes. Independentemente das diferentes empresas a que pertencem, percursos de vida, educação e anos de carreira, um executivo transmite uma imagem perfeitamente identificável, estejamos em Nova Iorque, Tóquio ou na Bolsa de Lisboa.
Mas para que utilizo eu uma das imagens de marca do capitalismo?
Tal como os executivos adoptam uma imagem semelhante, a Natureza reproduz formas e fun√ß√Ķes semelhantes em organismos muito diferentes.
Tubar√Ķes e golfinhos, ao n√≠vel do seu plano corporal, s√£o muito semelhantes, apesar de um ser um peixe e o outro um mam√≠fero, e estarem separados evolutivamente por 400 milh√Ķes de anos.
Tubar√Ķes e golfinhos podem ser apontados como exemplos de Evolu√ß√£o Convergente – aquisi√ß√£o independente de caracter√≠sticas f√≠sicas semelhantes por parte de seres vivos muito diferentes.

Existem outros exemplos de Evolu√ß√£o Convergente: os membros anteriores das aves, dos morcegos e dos pteross√°urios (r√©pteis voadores, parentes e contempor√Ęneos dos dinoss√°urios) apresentam formas seme lhantes. Embora de grupos diferentes, separados por milh√Ķes de anos de evolu√ß√£o, possuem estruturas anat√≥micas que lhes permitem (ou permitiam, no caso dos pteross√°urios) uma mesma fun√ß√£o: voar. A locomo√ß√£o b√≠pede (somente nos dois membros posteriores) evoluiu de forma convergente nos humanos e nas aves – nestas surgiu h√° mais de 200 milh√Ķes de anos, nos seus dinoss√°urios antepassados; nos seres humanos, a transi√ß√£o para a locomo√ß√£o b√≠pede, h√° uns meros milh√Ķes de anos…
Os leitores e os pombos partilham, convergentemente, este tipo particular de locomoção com alguns roedores, com os cangurus e com alguns lagartos Рfacultativamente nestes.
Mas qual o “motivo” da Natureza para organismos t√£o afastados, em termos evolutivos, apresentem estruturas e fun√ß√Ķes t√£o semelhantes?
A primeira justifica√ß√£o passa pelos condicionamentos de design e de efici√™ncia org√Ęnica.
Quem não tem muita paciência para cuidar de plantas em casa conhece os cactos. Estas plantas apresentam formas características, adaptadas aos climas desérticos Рforma alongada ou arredondada, sem folhas (para não perderem água) e as folhas que possuem estão transformadas em espinhos e tecidos internos capazes de retenção de água. Mas, onde ia eu?
A maioria dos amantes de cactos n√£o sabe √© que… est√° a ser “tra√≠da”! N√£o possuem cactos (fam√≠lia Cactaceae e origin√°rios da Am√©rica do Norte) mas sim plantas da fam√≠lia Euphorbiaceae. Mas a “trai√ß√£o” √© justific√°vel… As plantas que consideramos cactos desenvolveram, pelo fen√≥meno de evolu√ß√£o convergente, formas id√™nticas √†s plantas dos westerns. Vivendo em climas igualmente √°ridos, mas em √Āfrica, as Euphorbiaceae necessitaram de adaptar a sua estrutura para evitar perdas de √°gua e…”imitaram” os cactos!

A segunda razão, por detrás da evolução convergente, envolve o sucesso da imitação.
Podemos utilizar um exemplo da cultura humana – a m√ļsica. J√° todos n√≥s constat√°mos que quando um grupo musical tem sucesso logo aparecem v√°rios outros a o imitar. As condi√ß√Ķes do mercado e do gosto musical num determinado momento s√£o as certas, de maneira que os imitadores tamb√©m vingam, por se aproveitarem de um modelo vencedor.
Na Natureza, a “imita√ß√£o” estrutural tamb√©m funciona de maneira equivalente. Por exemplo quer os veados quer os cavalos desenvolveram membros finos e esguios, assentes no desenvolvimento do dedo III (central) e redu√ß√£o dos restantes.
Estas adapta√ß√Ķes permitiam a optimiza√ß√£o da corrida. Quer uns quer outros tinham o mesmo tipo de predadores e, ao longo de milh√Ķes, desenvolveram anatomias semelhantes.
A Selec√ß√£o Natural conduziu esp√©cies competidoras de um mesmo ecossistema por trilhos evolutivos paralelos, pois o sucesso evolutivo estava dependente da economia da forma, da fun√ß√£o e do design. Todos n√≥s j√° constat√°mos que quando um determinado produto tem sucesso comercial, logo aparecem imita√ß√Ķes.
√Č o ritmo da sociedade de consumo.
Ainda bem que n√£o existem patentes na Natureza!

(Publicado no jornal O Primeiro de Janeiro a 16/02/2006)

Imagens – daqui, daqui e daqui
(a primeira n√£o me recordo…)

No fun

“Paleontology can then be done without ever having to go in the field, without ever having to touch those nasty, dirty old fossils, without having to hold them in your hand to measure them. So much cleaner and…. well – just plain scientific!
Just a computer – one would never have to leave one’s nice neat office – no field work, no books, no fossils….no fun.

And when science stops being fun, I will stop doing it.”

Richard S. White, Jr.
Director
International Wildlife Museum
(adaptado de mailing list Vertpaleo)

Imagens РLuís Azevedo Rodrigues, província de Santa Cruz, Patagónia argentina, 2004

Mulher e girafa

Peter Beard – fot√≥grafo, artista (seja l√° o que isto for) e, acima de tudo, amante da hist√≥ria natural, com longos per√≠odos da sua vida em √Āfrica.
Amigo de Truman Capote, Francis Bacon e Andy Warhol.

As minhas manh√£s ficam mais belas com a imagem da girafa e da mulher.

Site oficial – aqui
Entrevista (1996) – aqui

Imagens – do site oficial √† excep√ß√£o de “Maureen and Late-Night Feeder, Hog Ranch, Kenya, 1987″, do site da entrevista

PRENDA(S)

A (minha) primeira prenda de hoje…
ūüôā

P.S. – a bela Scarlett Johansson, num inesquec√≠vel karaoke no filme “Lost in Translation”.

FRACASSO CHINÊS

“China reassures scientists not to fear failure
(Reuters) – China will tolerate experiment failures by its scientists to ease pressure, encourage innovation and cut the chances of fraud, a top official said on Thursday.”

Sempre pensei que o erro e o fracasso constituiam componentes fundamentais do “processo cient√≠fico”.
Agora o governo chinês vem descansar os seus cientistas para que não temam o falhanço e o fracasso.
Esta desculpabiliza√ß√£o institucional visa fomentar a “criatividade”, aliviar a enorme “press√£o” bem como evitar a “fraude cient√≠fica”.

Quando por lá trabalhei e contactei com diversas realidades de investigação paleontológica, verifiquei a enorme tensão produtiva em que viviam os meus colegas chineses.

Parecia-me que esse comportamento semi-obsessivo se devia mais ao car√°cter laborioso t√≠pico dos asi√°ticos do que, mais pragmaticamente, aos enormes “incentivos” financeiros concedidos pelo governo sempre que, por exemplo, uma nova esp√©cie de dinoss√°urio √© descoberta ou um paper na Nature √© publicado.
Por respeito e pudor não avançarei valores.

Agora constato que não era nenhuma produtividade típica dos asiáticos.
A press√£o oficial devia ser tanta que, oficialmente, tiveram que a conter.

Fonte da notícia Рaqui

Na China – I

A “hist√≥ria” chinesa foi bastante complicada – ver post com outra das hist√≥rias.

O contacto inicial foi feito com Xu Xing do IVPP. Ele é responsável por mais 20 espécies novas de dinossáurios e publicou mais de 10 artigos na Nature.
Para al√©m de me receber, prop√īs-me tamb√©m iniciar trabalho de an√°lise morfol√≥gica 3D de cr√Ęneos de Psittacosaurus, em conjunto com um aluno seu de doutoramento (foto).

Durante a primeira semana de estadia em Pequim, Dong Zhi-ming, um dos “pais” da Paleontologia de dinoss√°urios na China, encontrava-se em Pequim de visita. Falei com ele, contei-lhe o meu projecto e ele convidou-me para, passados 4 dias, nos encontrarmos no sul da China, em Lufeng. Comecei logo a tratar das coisas (arranjar avi√£o pois Lufeng, na prov√≠ncia de Yunnan, fica pr√≥ximo da fronteira com o Vietname e do Laos) e a improvisar os meus planos iniciais.
Passados esses dias aterrava em Kunming onde tinha colaboradores de Dong Zhi-ming à minha espera, para uma viagem de carro de cerca de duas horas até Lufeng.
Estive cerca de uma semana trabalhando sobretudo em prossaurópodes, o mais famoso dos quais é o Lufengosaurus (do nome da cidade), mas também em diversos saurópodes, alguns dos quais ainda não descritos.
Fiz também prospecção no campo em conjunto com Dong Zhi-ming nas famosas jazidas do Triásico desta região.
Este investigador ficou t√£o impressionado com o meu trabalho que me prop√īs que regressasse para descrever novos materiais (provavelmente novas esp√©cies, das centenas de ossos que eles t√™m em prepara√ß√£o), mas essa hist√≥ria fica para mais tarde…

Em Lufeng fui brindado com os manjares entomológicos que os meus colegas me tinham reservado Рsou extremamente alérgico à picada de abelhas e vespas e quando me puseram à frente um prato de larvas e vespas adultas ia caindo para o lado!
Neste jantar, para além de Dong Zhi-ming e colaboradores, estavam também quatro colegas da Mongólia Interior, conhecidos, entre outras atributos, por serem resistentes aos efeitos do álcool. Para os chineses, quem aguenta bem a bebida é porque é bom líder, disseram-me.
Para al√©m de convidado, era estrangeiro, e nisso os chineses s√£o muito formais, de maneira que de 5 em 5 minutos levantava-se um chin√™s, fazia-me um brinde e beb√≠amos ambos um trago de aguardente de arroz. Como eles eram dez e eu o √ļnico convidado, tive que efectuar v√°rios brindes com aguardente…
Dong Zhi-ming contou-me, no dia seguinte, que os colegas mongóis tinham ficado impressionados comigo porque nunca abandonei as boas maneiras nem alterei o tom de voz, e isso para eles é sinal de força interior. Não sei se é ou não, o certo é que nesse dia tinha uma certa dor de cabeça!

Lufeng √© uma cidade muito pequena, mesmo para os standards chineses, semi-rural e onde quase nunca v√£o estrangeiros – √© impressionante como estavam sempre a olhar para mim quando andava na rua…!
Recordo-me de sair um dia √† noite e num restaurante (o mais pr√≥ximo que se pode dizer daquele espa√ßo…) onde entrei para me aventurar nas surpresas gastron√≥micas, estar vazio. Passada meia-hora, j√° quase n√£o haviam mesas para chineses que apenas tinham dois objectivos: beber ch√° e mirar o ocidental que pensava em dinoss√°urios saur√≥podes, enquanto tentava adivinhar o que lhe tinham colocado no prato!

Foi tamb√©m em Lufeng que ao sair de um riquex√≥ motorizado (basicamente uma moto com uma cobertura atr√°s – foto) me deixaram √† porta de uma pens√£o que n√£o era a minha. Era de noite, n√£o tinha o nome do s√≠tio onde estava nem t√£o pouco sabia minimamente onde me encontrava. Para al√©m de n√£o esperar que algu√©m soubesse falar ingl√™s, e o meu ultra-b√°sico mandarim n√£o dar para me safar daquela situa√ß√£o, foram uns minutos de completa impot√™ncia. Senti-me ao mesmo tempo como uma crian√ßa perdida no supermercado e como um adulto imbecil. Depois de ter recuperado a calma abordei o condutor do riquex√≥ com as palavras “Kong long, kong long!” que significam “dinoss√°urio, dinoss√°urio”, uma das poucas que sei em mandarim.
Após o ter repetido várias vezes e o chinês ter recuperado das gargalhadas iniciais, lá deduziu que eu queria que ele me conduzisse ao Museu dos Dinossáurios.
√Č que a partir do Museu sabia eu o caminho!
Terminei a noite, com a cabe√ßa de fora da caixa motorizada a gesticular “esquerdas e direitas” at√© ao meu hotel no sul da China.
J√° andei por grande parte do mundo e nunca me tinha sentido t√£o “perdido” como naqueles cinco minutos…