Carneiros, pardais e Copérnico

Sistema solar JoePlockiPelo Natal, um salto de pardal.
Em Janeiro, salto de carneiro.

A minha avó Rosa, mulher rija do Douro e de quem herdei a cor dos olhos e algum mau-feitio, contava-me este provérbio.
De memória, que de outro registo não sabia.
Sempre me socorri desta frase para explicar os dias tristes de Inverno, com longas noites e curtos dias, na esperança de que o tempo das tardes grandes finalmente chegasse.
De há uns anos para cá, o mantra da avó Rosa começou a intrigar-me: porque é que do Natal para Janeiro o crescimento dos dias é tão notório?

A avó Rosa, tenho a certeza, sabia muito da vida e de contar histórias (motivo pelo qual eu gostava de ficar em casa doente …mas isso é outro rosário), mas desconhecia a forma da órbita da Terra, bem como a inclinação do eixo do nosso planeta.

Os dias crescem e decrescem, todos n√≥s observamos o fen√≥meno ao longo do ano. Mas ser√£o essas varia√ß√Ķes uniformes, at√© que ponto est√° o prov√©rbio da dura√ß√£o dos dias est√° correcto?

A dura√ß√£o dos dias est√° dependente sobretudo da inclina√ß√£o do eixo da Terra relativamente ao seu plano de √≥rbita. O nosso planeta n√£o est√° perfeitamente verticalizado relativamente √† sua √≥rbita em torno do Sol, sendo a inclina√ß√£o de aproximadamente 23.5¬ļ.
Se a avó Rosa fosse viva, dir-lhe-ia que a Terra era como um carrossel a girar em redor do Sol mas que os animais e os bancos de madeira estavam inclinados. A avó Rosa responderia apenas que o carrossel estava mal feito. Eu refilava: para além de inclinado, o girar do carrossel também não era perfeito.
crochetNesse momento agarrava-a pelo avental, porque a avó Rosa estaria já farta da minha história, e completava que a torre que costuma estar no centro do carrossel também não estaria bem no centro. Assim, as crianças que andam neste carrossel ora passam mais próximo da torre, ora se afastam dela, a cada volta que dão.
Mas que raio de carrossel mais estranho pensaria a Rosa Correia de Galafura.

E que tem isto que ver com os dias e os carneiros de Janeiro?
Esta história, que gostaria ter contado à minha avó, ilustra as duas condicionantes da variação da duração dos dias e das noites ao longo do ano.
A soma destes dois efeitos Рefeito da órbita elíptica da Terra (ou ligeiramente elíptica) e a inclinação do seu eixo relativamente ao plano de órbita, são os motivos dos dias crescerem e decrescerem ao longo do ano.
Dirão os mais atentos que até agora nada de novo, tirando a avó Rosa que desconheciam.

Pois foi ela mesmo, e o dia de Copérnico, que me fizeram acabar este simples texto que perdurava na gaveta digital de textos inacabados.
A Rosa de Galafura sabia de histórias e muitas me contou.
Copérnico sabia apenas o seu lugar no Universo, o que não é nada mau.

(texto publicado no P3)

Imagens:
JOE PLOCKI/FLICKR
e
Daqui

Podcast Ciência Viva À Conversa | 24 Jan Р14 Fev

Os quatro mais recentes podcasts do Ciência Viva À Conversa Рduas conversas; uma sobre a alfarroba e a produção de energia; a outra, sobre a Ciência e a Instrução no Algarve dos séculos XVIII e XIX.

maria emília costaMaria Emília Costa, professora da Universidade do Algarve e líder do projecto Alfaetílico, no laboratório onde a sua equipa investiga.

patricia de jesus palmaPatrícia de Jesus Palma, investigadora da Universidade Nova de Lisboa, na palestra que deu no Centro Ciência Viva de Lagos.

Fotos: Luís Azevedo Rodrigues

Darwin e o leite

a3a5163e3a54b8db90074c456115b7af_hEsta terça-feira, dia 12 de Novembro, Charles Darwin faria 204 anos.

Escrever sobre um dos mais importantes homens de Ci√™ncia √© t√£o dif√≠cil como tentar desvendar a morte de Kennedy: todas as perspectivas e √Ęngulos foram j√° explorados.

O tema com que lembrarei Darwin faz parte do nosso dia-a-dia: o leite. De t√£o familiar, nunca par√°mos para pensar que o seu aparecimento poderia ser visto sob a perspectiva da Biologia Evolutiva.

Como surgiu o leite?

Seria óbvio justificar o aparecimento do leite como estando ligado apenas à alimentação das crias durante a evolução dos mamíferos. Mas os percursos evolutivos nem sempre são os mais lineares.

O leite inclui lisozima, enzima com propriedades anti-bacterianas, e, assim, uma das possibilidades evolutivas para o seu aparecimento √© que este fosse um antibi√≥tico natural para os ovos dos antepassados dos mam√≠feros. Estes seres utilizavam essa secre√ß√£o para manterem um ambiente incubador desinfectado e h√ļmido, hip√≥tese evolutiva actualmente mais consensual – aumentar as possibilidades de sobreviv√™ncia das crias √© um trunfo essencial do jogo da Evolu√ß√£o.

Ao longo da história evolutiva dos mamíferos, e seus antepassados, a função higiénica do leite parece ter sido ultrapassada pela nutritiva. Darwin lamentava que o registo fóssil não apresentasse as evidências directas da lactação, mas estudos posteriores dar-lhe-iam razão.

A enorme variabilidade composicional do leite dos v√°rios mam√≠feros actuais revela ainda diferentes percursos evolutivos, quer ao n√≠vel das estrat√©gias de reprodu√ß√£o, quer ao n√≠vel das diferentes adapta√ß√Ķes ambientais. Entre as esp√©cies actuais de mam√≠feros a composi√ß√£o varia, por exemplo, entre a quase inexist√™ncia de gordura no leite dalgumas esp√©cies de cangurus e os 60%¬† de gordura no das focas.

As primeiras gl√Ęndulas mam√°rias?

Darwin referiu que as gl√Ęndulas secretoras das bolsas incubadoras de alguns peixes poderiam ser as estruturas primitivas das gl√Ęndulas mam√°rias. Antes de gozarem com a ideia pensem nas bolsas com que os cavalos-marinhos macho incubam as crias‚Ķ Hoje sabemos que as gl√Ęndulas mam√°rias evolu√≠ram a partir de gl√Ęn


Afinal, porque bebem leite os mamíferos?
dulas da pele, mais concretamente gl√Ęndulas pilosas. Estas gl√Ęndulas produzem secre√ß√Ķes e estiveram na g√©nese do leite primitivo. Darwin j√° havia referido a gl√Ęndula mam√°ria do ornitorrinco como forma interm√©dia do percurso evolutivo das gl√Ęndulas mam√°rias – o ornitorrinco alimenta as suas crias a partir de gl√Ęndulas produtoras de leite, embora estas sejam desprovidas de mamilos.

Permitir aos mam√≠feros uma maior independ√™ncia perante as condi√ß√Ķes ambientais necess√°rias √† sua reprodu√ß√£o ter√° sido o impulso evolutivo que conduziu ao aparecimento do leite enquanto subst√Ęncia nutritiva das crias.

Os antepassados dos mamíferos eram hipoteticamente endotérmicos e de pequeno tamanho. Assim, os seus ovos teriam que ter um tamanho reduzido, o que implicaria que as crias se tivessem de desenvolver mais após a eclosão, necessitando então de uma fonte de alimento como o leite.

Estas hip√≥teses s√£o atestadas pelo registo f√≥ssil de cinodontes, grupo de animais extintos e antepassados dos mam√≠feros de h√° cerca de 200 milh√Ķes de anos, que apresentavam tamanho reduzido e ovos pequenos, bem como estruturas anat√≥micas reveladoras de lacta√ß√£o ‚Äď ossos epip√ļbicos e um tipo especial de denti√ß√£o.

Beber leite em adulto?

√Ä medida que os beb√©s crescem v√£o perdendo a capacidade de produzirem a enzima que degrada a lactose – o a√ß√ļcar do leite. Existem popula√ß√Ķes mais intolerantes √† lactose e outras que desenvolveram a capacidade de continuar a produzir aquela enzima ao longo da vida ‚Äď cerca de 90% dos suecos e dinamarqueses, por exemplo. Esta mudan√ßa biol√≥gica √© explicada em termos evolutivos, pela muta√ß√£o no gene ligado √† toler√Ęncia √† lactose. H√° cerca de 7000 anos, muta√ß√Ķes da toler√Ęncia √† lactose surgiram de forma independente em tr√™s popula√ß√Ķes africanas e, curioso, este processo biol√≥gico ocorreu na mesma altura do in√≠cio da domestica√ß√£o de gado bovino, parecendo assim ter havido um processo de converg√™ncia evolutiva entre cultura e genes.

Brindemos ent√£o √† sa√ļde de Darwin com um shot de leite!

Embora seja avesso ao culto da personalidade e me interessem mais as ideias, quero partilhar o fascínio que sinto por este homem do século XIX que influenciou o modo como nos vemos e vemos a Natureza de que fazemos parte.

Parabéns!

(texto publicado no P3)

Referências:

1 The Mammary Gland and Its Origin During Synapsid Evolution (PDF gratuito)
2 The origin and evolution of lactation (PDF gratuito)

Imagens:

A   daqui
B   Traduzida e adaptada de 2
C   daqui

Os meus dias j√° foram mais pequenos

Actualizado com artigo de 2020 em 18 de Fevereiro de 2021.

Aproveito-o agora para para ser publicado aqui e também no jornal Sul Informação).

Quando crianças os dias parecem durar e durar, havendo tempo para (quase) tudo. Há tempo de sobra para brincar, rir e fazer tudo e mais alguma coisa.
À medida que ganhamos rugas e dores nas costas, a divindade do tempo infinito encolhe e parece que o tempo já não é o que era.
Ele n√£o chega para nada, que est√° cada vez mais curto, que o tempo corre mais que a gente.
Quantas vezes j√° escut√°mos ‚ÄúO meu dia deveria ter 25 horas‚ÄĚ ou ‚ÄúS√≥ queria mais umas horas por dia‚ÄĚ.
As mudanças de percepção que a idade traz à duração dos dias são isso mesmo, mudanças na percepção.

Mas os dias já foram mesmo mais pequenos. Por outras palavras, a Terra já demorou menos tempo a efectuar o seu movimento de rotação.
O nosso planeta j√° teve dias mais pequenos do que as 24 horas a que estamos habituados.
A responsabilidade pelo aumento dos dias cabe às marés, sendo estas provocadas pela atracão gravitacional da Lua sobre o nosso planeta.

De forma breve: a atrac√£o da Lua sobre a Terra origina acumula√ß√£o de √°gua do mar no lado que est√° diante dela (mar√© alta) e tamb√©m do lado terrestre oposto*. Simultaneamente existir√£o locais onde essa √°gua ‚Äúfaltar√°‚ÄĚ, observando-se nestes locais a mar√© baixa.

Como o sentido da rota√ß√£o da Terra √© o mesmo que o da transla√ß√£o da Lua, mas muito mais r√°pido, gera-se um efeito de fric√ß√£o da √°gua do mar com os fundos oce√Ęnicos, que, aliado √† in√©rcia da pr√≥pria √°gua, abranda a rota√ß√£o da Terra.
Um efeito semelhante também é exercido pela Terra sobre a Lua. Como a Terra tem muito mais massa do que o nosso satélite, o nosso planeta já conseguiu deter o seu movimento de rotação, motivo pelo qual vemos sempre a mesma face da Lua.

N√£o entrarei em maiores detalhes sobre a mec√Ęnica celeste deste processo, mas refiro apenas que a Terra sofre actualmente um aumento nos seus dias de cerca de 1.8 milissegundos por s√©culo ‚Äď alguns autores referem 2.3 milissegundos por s√©culo.
Obrigado pela ajuda, dir√£o os mais necessitados de dias maiores, em tom de sarcasmo.

A estes responderei que simula√ß√Ķes feitas por computador permitiram deduzir que os dias tinham, quando a Terra estava no seu in√≠cio, apenas 6 horas. Aquilo que a maior parte de n√≥s passa hoje a dormir era a dura√ß√£o de um dia inteiro h√° cerca de 4.5 mil milh√Ķes de anos.
Mais: a an√°lise do ritmo do crescimento di√°rio de corais fossilizados, por exemplo, permitiu deduzir que a dura√ß√£o dos dias h√° 400 milh√Ķes de anos era de 22 horas.

E agora, caros desejosos-de-dias-maiores, estão satisfeitos com a vossa situação actual? Dias com 24 horas?
Era muito pior h√° milh√Ķes de anos.
Sim, porque, ao contrário de nós à medida que envelhecemos, os dias da Terra vão ficando cada vez maiores. Literalmente.

* por motivos de simplificação para o caso que se descreve omite-se o efeito do Sol.

Referências:

Williams, George E. (2000). Geological constraints on the Precambrian history of Earth’s rotation and the Moon’s orbit.¬†Reviews of Geophysics, 38 (1) pages 37‚Äď59.

Imagens:

1 РLa Voyage dans la Lune de Georges Méliès
2 – Daqui
3 – Daqui

4 Рatualização com artigo de 2020 e informação paleontológica.

5 Рartigo de divulgação que resume o artigo 4.

Luís Azevedo Rodrigues 

¬†(Este texto foi escrito como a minha colabora√ß√£o para a a√ß√£o interCi√™ncia, em que eram trocados de forma an√≥nima textos entre blogs. Este texto foi a minha “oferta” para o blog Curioso Realista, onde foi publicado originalmente.

Em algum lugar do passado… molecular.

Texto de autoria de um blogger que desconhe√ßo e como resultado do interc√Ęmbio de divulga√ß√£o cient√≠fica InterCi√™ncia.

[Saiba mais e participe em: http://scienceblogs.com.br/raiox/2013/01/interciencia/]

Mammuthus
Os tecidos recuperados de mamutes enterrados em permafrost possibilitam a observação inédita de fragmentos da pré-história molecular.

O mamute lanoso Mammuthus primigenius n√£o √© apenas um dos animais pr√©-hist√≥ricos mais simp√°ticos ‚Äď seus ca√ßadores provavelmente discordam de mim nesse ponto ‚Äď e de grande reconhecimento popular.
Recentemente, a aplicação de técnicas avançadas aos espécimes recuperados do permafrost talvez tenha feito de mamutes e mastodontes os objetos de estudo mais ricos da Paleontologia.
O permafrost é um solo que nunca descongela ou fica constantemente congelado por milhares de anos. Com esse frio todo, de vez em quando os pesquisadores são presenteados com animais em ótimo nível de preservação.
Desses mamutes congelados podem ser coletadas amostras de tecidos moles como pele e m√ļsculos, al√©m de sangue e conte√ļdo estomacal. E o estudo desse material com t√©cnicas como clonagem, amplifica√ß√£o/sequenciamento de DNA e espectrometria de massas abre uma janela in√©dita para o seu passado molecular!
Em 2009, uma equipe japonesa aparentemente conseguiu ‚Äúressucitar‚ÄĚ c√©lulas de um mamute congelado h√° 15 mil anos. Por transfer√™ncia nuclear de c√©lula som√°tica (SCNT, na sigla em Ingl√™s), a mesma abordagem utilizada na clonagem da ovelha Dolly, eles relatam a recupera√ß√£o do material nuclear de m√ļsculo e pele com sucessos de 55% e 67%, respectivamente. N√£o √© nada mau quando lembramos de onde vieram esses n√ļcleos e por quanto tempo ficaram congelados.

Infelizmente não consegui acesso mais detalhado à pesquisa, mas é importante ressaltar que não houve comunicado de avanços desde então. Isso é ao mesmo tempo um sinal ruim e uma grande pena, pois seria fantástico cultivar células de mamute in vitro.
Mesmo sem tecidos moles, hoje os ossos fornecem material para muito mais que estudos morfológicos. Pesquisadores alemães publicaram em 2005 o primeiro sequenciamento completo de um genoma mitocondrial ancestral que usou DNA extraído do osso congelado de mamute lanoso.
Já em 2012 ocorreu a primeira identificação positiva de proteínas desses animais. Do osso de um mamute de 43 mil anos foram extraídas e analisadas por espectrometrial de massas mais de 100 proteínas diferentes. O sequenciamento dessas moléculas revelou semelhanças grandes com os elefantes africano, indiano e também com amostras mais recentes de outra espécie de mamute (Mammuthus columbi).
√Č claro que estudar biomol√©culas separadas por milhares de anos e compar√°-las ao nosso conhecimento atual j√° √© incr√≠vel, mas ao mesmo tempo √© imposs√≠vel n√£o ficar ansioso pelo futuro.
Estamos discutindo a possibilidade ‚Äď remota, admito ‚Äď de se recuperar fragmentos celulares funcionais e talvez at√© reestabelecer essas c√©lulas mortas h√° dezenas de milhares de anos.
Tem como pensar nisso e n√£o abrir um sorriso ao perceber que convivemos com situa√ß√Ķes mais avan√ßadas que muita obra de fic√ß√£o cient√≠fica?
***
[Este texto √© parte da primeira rodada do InterCi√™ncia, o interc√Ęmbio de divulga√ß√£o cient√≠fica. Saiba mais e participe em: http://scienceblogs.com.br/raiox/2013/01/interciencia/]

Referências:
Cappellini et al. Proteomic Analysis of a Pleistocene Mammoth Femur Reveals More than One Hundred Ancient Bone Proteins. J. Proteome Res. 2012, 11, 917‚Äď926. dx.doi.org/10.1021/pr200721u – Published: 21 November 2011.
Kato et al. Recovery of Cell Nuclei from 15 000-Year-Old Mammoth Tissues and Injection into Mouse Enucleated Matured Oocytes. Reproduction, Fertility and Development. 22 (5305) 189‚Äď189 http://dx.doi.org/10.1071/RDv22n1Ab62 – Published online: 08 December 2009
Krause et al. Multiplex amplification of the mammoth mitochondrial genome and the evolution of Elephantidae. Nature, 439, 724-727. doi:10.1038/nature04432 – Published online: 18 December 2005.

Devaneios evolutivos…

394952_530625956958420_24964258_nEsta imagem/post, retirado e mais do que partilhado pela p√°gina de Facebook ‚ÄúI fucking love science‚ÄĚ √© uma excep√ß√£o √†s suas excelentes e divertidas imagens-mensagem.

E porquê?

1¬† ‚ÄúYou are the result of 3.8 billion years of evolutionary success‚ÄĚ
O aparente topo evolutivo ocupado pelo ser humano, de alguma forma reflectido no texto desta imagem, não é verdadeiro, já que a nossa espécie é um acaso da História Evolutiva da vida na Terra.
Ao contr√°rio do que est√° impl√≠cito, a Evolu√ß√£o da vida n√£o tem o ser humano como o pin√°culo evolutivo, o seu porto de chegada, o seu mais perfeito representante, o final do caminho da vida sobre a Terra, isto apesar da nossa exist√™ncia actual ser fruto de um sem n√ļmero de sucessos interm√©dios.
Seremos t√£o pin√°culo evolutivo da Hist√≥ria da Terra como outros seres vivos actuais ‚Äď representantes no presente de v√°rias linhagens de seres vivos que singraram ao longo do tempo.
2 Outra mensagem que poderá induzir em erro, e subjacente neste texto, é que a Evolução é sinónimo de um cada vez maior aperfeiçoamento e complexidade dos organismos, sendo o representante deste conceito nesta imagem/texto o ser humano.
Isto não é de todo verdade.
Embora existam casos de incremento de complexidade, a Evolu√ß√£o conduz* tamb√©m a redu√ß√£o de complexidade biol√≥gica, √† diminui√ß√£o de estruturas, entre outras altera√ß√Ķes morfol√≥gicas e/ou fisiol√≥gicas.
Evolu√ß√£o biol√≥gica n√£o √© sin√≥nimo de maior complexidade ‚Äď pode ou n√£o s√™-lo.

3 Ainda outra mensagem subjacente é a de cariz moral/comportamental. Devemos actuar em função do sucesso obtido pelos nossos antepassados, sejam eles mais ou menos distantes.
O que não me agrada nesta mensagem é a mistura entre sucesso evolutivo e a matrizes de comportamento moral/ético. Isto talvez possa justificar parte do sucesso evolutivo recente dos nossos antepassados, mas não justifica a esmagadora maioria do tempo geológico.
O singrar de um organismo e o sucesso de um c√≥digo de conduta, embora possam estar interligados, s√£o quest√Ķes distintas, sendo perigoso generaliz√°-los.
Se nos focarmos no comportamento humano e na diversidade de valores √©ticos e morais existentes, ent√£o estaremos de certeza a misturar alhos com bugalhos quando afirmamos que nos deveremos comportar em fun√ß√£o do sucesso biol√≥gico de um passado t√£o long√≠nquo como o de h√° centenas ou milhares de milh√Ķes de anos.

Apenas alguns devaneios evolutivos…já há muito debatidos e analisados por outros muito melhores do que eu.

* a utilização deste vocábulo é exagerada, sendo aqui utilizada por simplificação na leitura.

Podcast Ciência Viva À Conversa 2013

CIENCIA VIVA A CONVERSA LOGO√Č o regresso do espa√ßo de r√°dio e podcast Ci√™ncia Viva √Ä Conversa.

Depois dos 23 programas que gravei, com a excelente e indispensável edição do Director de antena da Rádio Universitária do Algarve, Pedro Duarte, retomamos este programa semanal.

Para além da difusão na Rádio Universitária do Algarve à 5ª feira (8h15, 12h15 e 15h15), o programa pode ser ouvido e descarregado nos sites dos Centros Ciência Viva no Algarve (Faro, Lagos e Tavira), no site do jornal Sul Informação, no site da RUA e e também no sítio de arquivo, para além deste blog (na barra lateral).

 

ADELINO CANARIOO primeiro programa Ciência Viva À Conversa de 2013 é com Adelino Canário do Centro de Ciências do Mar (CCMAR) e que será concluído na próxima 5ª feira.

 

Os C√£es do Estado

O risco parece ser o tempero principal do prato que nos servem nos dias em que nos assam.
As elites governativas apelam a que cada um de nós largue o gatinhar seguro e se atire, sem medos, para a iniciativa própria.
Arriscar e aguentar, dizem eles, que o Estado j√° fez o que devia e todos devemos largar o consolo a que nos habitu√°mos por direito.
Devemos arriscar mais, fugindo da segurança que o Estado nos deveria proporcionar.

01ladies CARPACCIO (Large)A hist√≥ria evolutiva dos c√£es apresenta, como explica√ß√Ķes para o seu aparecimento, duas alternativas. A mais comummente aceite √© a de que os seus ancestrais lobos foram seleccionados artificialmente pelo Homem e, assim, adquiriram as caracter√≠sticas comportamentais, primeiro, e f√≠sicas, depois, que interessam e agradam ao ser humano.
Uma segunda alternativa, defendida por Raymond Coppinger [1] envolve, para al√©m da selec√ß√£o artificial dos nossos antepassados de alguns lobos, a selec√ß√£o natural. Em resumo, os lobos, como outros animais, apresentam graus distintos do que se designa por ‚Äúdist√Ęncia de fuga‚ÄĚ, ou seja, a dist√Ęncia m√≠nima que um animal est√° disposto aceitar √† aproxima√ß√£o de um ser humano, ou outro perigo, antes de iniciar a fuga. Intuitivamente compreendemos este conceito de ‚Äúdist√Ęncia de fuga‚ÄĚ, tanto mais que j√° todos vimos, pelo menos na televis√£o, que diferentes animais apresentam ‚Äúdist√Ęncias de fuga‚ÄĚ distintas e, mesmo dentro da mesma esp√©cie, esta dist√Ęncia variar√° de indiv√≠duo para indiv√≠duo. Se n√£o acreditam, experimentem alimentar pombos ou gaivotas‚Ķ
A ‚Äúdist√Ęncia de fuga‚ÄĚ est√° relacionada com a sobreviv√™ncia do animal, seja por permitir que obtenha alimento f√°cil arriscando mais, seja por poder ser ferido ou morto caso se aproxime do eventual perigo que est√° entre ele e o alimento.
O autor referido apresenta como motivo para a domestica√ß√£o do lobo e consequente aparecimento do c√£o que a dist√Ęncia de fuga dos lobos que circundavam os acampamentos humanos primitivos se ter√° reduzido. Por outras palavras, alguns lobos arriscavam mais e seriam esses que despertaram o esp√≠rito de domestica√ß√£o dos nossos antepassados. No surgimento do c√£o parece ter estado um aumento do esp√≠rito de risco ou a diminui√ß√£o da dist√Ęncia de fuga por parte de alguns lobos.

Ora o risco e empreendedorismo, bandeiras que se devem aplicar à Banca mais do que a nenhum outro sector da economia, parecem ter ficado na gaveta.
Verdadeiros lobos, os bancos arvoram-se, historicamente, como basti√Ķes do risco e da independ√™ncia face √† protec√ß√£o.
Mas o que verifica recentemente é que o espírito protector e paternalista parece ter assolado as mentes de quem nos governa. Só uma mãozinha, que eles são pequeninos, justificam. Era mesmo só o que lhes faltava, este naco de carne dado à boca, que os bancos de pedigree não singram sem esta ajuda, carpem os que mandam no Estado.
Do que me ensina a evolução dos lobos e dos cães resta-me adivinhar que os bancos, protegidos e esquecidos do risco, saltem para ao colo dos seus donos.
4892685898_ef8ed1d949_b (Large)E para quê?
H√° que tomar conta dos rebanhos, especulo.
H√° que fazer companhia financeira, quando dela precisarem os futuros ex-governantes.
E quem melhor para estas tarefas?
Estes novos cães do estado, amansados e alimentados à mão.
Pena é que quem manda se esqueça que por vezes os cães mordem a mão de quem os alimenta.
E estes, ao contr√°rio dos c√£es de quatro patas, j√° deram provas de que o far√£o.
Mais tarde, ou mais cedo.
E a nós, o que nos resta?
Voltar à selva, que o canil do Estado, que todos pagámos, já está ocupado.

 

 

Referências:
[1] Dawkins, R. 2009. O Espect√°culo da Vida – A Prova da Evolu√ß√£o. P√°ginas: 430. Casa das Letras. ISBN: 9789724619354 ‚Äď p√°ginas consultadas 75-78.

‚ÄúEstado injecta 1 100 milh√Ķes de euros na recapitaliza√ß√£o do Banif‚ÄĚ jornal i 31 de Dezembro de 2012

‚ÄúInjec√ß√Ķes de dinheiro no BPN ascendem a 8,5 mil milh√Ķes‚ÄĚ jornal DN 25 de Outubro de 2011

Imagens:
Vittore Carpaccio ‚ÄúTwo Venetian Ladies‚ÄĚ (1510)

Daqui

 (PUBLICADO NO JORNAL SUL INFORMAÇÃO)

Beatas no Ninho

Embora o título possa parecer um pouco reles, o teor deste texto é tudo menos provocador.
Bem, talvez o seja para alguns seres vivos.
As beatas de que falamos são as pontas dos cigarros depois de fumados ou, em português do Brasil, as bitucas ou guimbas de cigarro.
animals,nature-214cf02b3e5291e0ec0b6c33eea85cad_hMas porqu√™ falar da terminologia de um produto t√£o nocivo √† sa√ļde e, pior, mistur√°-lo com ninhos?
√Č que por vezes a natureza d√° voltas por onde menos se espera. Neste caso, verificou-se que algumas aves da cidade do M√©xico utilizam as beatas de cigarros na constru√ß√£o dos seus ninhos.
O comportamento foi observado e avaliado por investigadores da Universidad Nacional Autónoma de México, que utilizaram um procedimento experimental para comprovarem a influência das guimbas de cigarro sobre parasitas que atacam as crias de aves.

Os cientistas verificaram que ninhos com pontas de cigarros fumados apresentavam menos parasitas externos do que aqueles construídos com pontas de cigarros não fumados.
Bem, nada de especial, escarnecerão os mais radicais, acrescentando que o tabaco é tão mau que nem os parasitas o aguentam.
cigarette-butt-bird_V√≠ctor ArgaezOs investigadores verificaram que as aves que utilizam as beatas nos seus ninhos, pardais (Passer domesticus) e a esp√©cie de tentilh√£o Carpodacus mexicanus, o poder√£o fazer como recurso a um insecticida natural, j√° que as pontas dos cigarros preservam quantidades de nicotina e outras subst√Ęncias qu√≠micas.
Um amigo meu ingl√™s j√° me havia descrito que infus√Ķes frias de beatas de cigarros quando vertidas nos vasos de plantas ornamentais as tornam mais saud√°veis. Ou assim diz ele.
Estes investigadores não descartaram a hipótese de que as aves utilizem as beatas como um revestimento térmico para os ninhos, uma vez que estas têm celulose. Tão pouco afastam que as vantagens de as aves utilizarem a nicotina como desparasitante sejam anuladas pelos efeitos tóxicos dos químicos tabágicos.
art-016Ainda que n√£o totalmente esclarecidos, os autores prop√Ķem duas hip√≥teses para o comportamento das aves: as subst√Ęncias qu√≠micas presentes nas pontas de cigarro poder√£o estimular o sistema imunit√°rio das crias e, assim, favorecer as suas hip√≥teses de sobreviv√™ncia. A segunda hip√≥tese aponta para que os qu√≠micos presentes nas bitucas de cigarros possam ter um papel mais directo, evidente e j√° referido: as beatas seriam um insecticida natural, que desinfectaria os ninhos de parasitas externos.

Esquecendo as infus√Ķes de nicotina e desejando que as hip√≥teses levantadas sejam testadas, o que as aves urbanas parecem ter descoberto √© a reutiliza√ß√£o do arsenal qu√≠mico dos cigarros a favor das suas crias.
Ao contrário do que escreveu Tchekov, estas aves mexicanas descobriram os benefícios do tabaco.

Aparentemente.

 

ResearchBlogging.orgReferências:

Suárez-Rodríguez M, López-Rull I, & Macías Garcia C (2012). Incorporation of cigarette butts into nests reduces nest ectoparasite load in urban birds: new ingredients for an old recipe? Biology letters, 9 (1) PMID: 23221874

Imagens:

1 – daqui

2 – de Vitor Argaez – daqui

3 – daqui

 (PUBLICADO NO JORNAL SUL INFORMAÇÃO)

O mais antigo dinossauro?

Imagine que descobria fotos antigas e que estas eram de um antepassado seu.

O que pensaria?

Iria procurar semelhanças na fisionomia entre si e a fotografia, seguramente.
Não foram fotos mas fósseis que permitem agora apresentar à grande família dos dinossauros o seu mais antigo familiar (ou muito próximo disso).
O Nyasasaurus parringtoni [1] foi escavado em 1930, no que √© hoje a Tanz√Ęnia, tendo sido estudado na d√©cada de 50, tendo nessa altura permanecido como material inconclusivo. Recentemente uma equipa de paleont√≥logos americanos e ingleses retomou o estudo deste material e verificou a sua import√Ęncia. O Nyasasaurus, em homenagem ao lago Niassa, tamb√©m chamado Malawi, tinha um tamanho de 2 a 3 metros e pesava entre 20 a 60 kgs (par√Ęmetros estimados). Este animal viveu no Tri√°sico m√©dio, h√° aproximadamente 235 milh√Ķes de anos, o que faz dele o mais antigo dinossauro que se conhece.

Dinossauro?

Úmero de Nyasasaurus e estrutura microscópica de secção deste osso (Nesbitt et al. 2012)

A an√°lise morfol√≥gica e filogen√©tica dos vest√≠gios de Nyasasaurus (√ļmero e v√°rias v√©rtebras) permitiram apontar para que este animal seja o mais antigo dinossauro que se conhece ou um representante primitivo de um grupo-irm√£o dos dinossauros.
A anatomia dos ossos encontrados permitiu identificar a presen√ßa de caracter√≠sticas √ļnicas dos dinossauros, nomeadamente a presen√ßa de uma crista deltopeitoral alongada no √ļmero* [2], zona do osso do membro anterior (bra√ßo) onde se inseriam m√ļsculos, bem como outras particularidades anat√≥micas na cintura p√©lvica.
Para al√©m destas evid√™ncias exteriores, a an√°lise microsc√≥pica aos tecidos √≥sseos tamb√©m permitiu descobrir que este animal apresentava padr√Ķes r√°pidos de crescimento √≥sseo, t√≠pico tamb√©m dos dinossauros.
Apesar destas evidências, muitas das características anatómicas presentes nos dinossauros, a equipa de paleontólogos que o descreveu ainda não está totalmente segura de posicionar o Nyasasaurus como um verdadeiro dinossauro ou, em alternativa, como pertencendo a um grupo irmão dos dinossauros.

√ömeros de v√°rios sauropodomorfos com algumas estruturas anat√≥micas destacadas (Rodrigues 2009). Comparar com √ļmero de Nyasasaurus.

O aparecimento dos dinossauros

Para al√©m de ser mais um elemento para a hist√≥ria da vida na Terra, o Nyasasaurus aumenta o conhecimento do aparecimento e diversifica√ß√£o do grupo de animais de enorme import√Ęncia ecol√≥gica no Mesoz√≥ico ‚Äď os dinossauros. Este animal faz recuar em 15 milh√Ķes de anos o surgimento dos dinossauros, caso se verifique ser o Nyasasaurus um verdadeiro dinossauro, como tudo leva a apontar.
Nos √ļltimos anos os paleont√≥logos que se dedicam aos estudos dos dinossauros t√™m investido muito quer na prospec√ß√£o, quer no estudo e descri√ß√£o de vest√≠gios de vertebrados no Tri√°sico. Este per√≠odo da hist√≥ria da Terra assistiu ao conjunto de fen√≥menos biol√≥gicos que ter√° levado √† diversifica√ß√£o e prolifera√ß√£o do grupo Dinosauria, grupo que viria a proliferar nos milh√Ķes de anos que se seguiram.
Há assim uma enorme vontade científica em descobrir e perceber a origem dos dinossauros.

 

Tri√°sico, Tanz√Ęnia e Portugal

Al√©m desta tend√™ncia de escava√ß√£o em sedimentos do Tri√°sico, tamb√©m se tem verificado uma outra vertente da investiga√ß√£o em dinossauros: come√ßar a olhar para as cole√ß√Ķes de f√≥sseis escavados no s√©culo passado. H√° assim uma re-escava√ß√£o dos sedimentos, sendo que desta vez a prospe√ß√£o √© feita nas caves e dep√≥sitos dos Museus de Hist√≥ria Natural.
De referir que foram alem√£es, em particular Werner Janensch, que efetuaram diversas campanhas de escava√ß√£o na Tanz√Ęnia logo a partir de 1909** do s√©culo passado. N√£o √© este o caso j√° que o Nyasasaurus foi escavado por Francis Rex Parrington, paleont√≥logo ingl√™s da Universidade de Oxford.

Em Portugal existem vários locais com rochas sedimentares de idade triásica sendo os potencialmente mais interessantes, do ponto de vista paleontológico de vertebrados, os localizados no Algarve, num conjunto de sedimentos de ambiente continental que se designam genericamente de Grés de Silves.
Mas do Tri√°sico falaremos um destes dias.
Agora é o momento de comemorar a chegada de um parente antigo dos dinossauros…ou próximo deles.

* compare-se o √ļmero de Nyasasaurus com os v√°rios √ļmeros de saur√≥podes [2] e as respetivas cristas deltopeitorais.

** algum do material procedente da Tanz√Ęnia est√° nas cole√ß√Ķes do Museu de Hist√≥ria Natural de Londres e no Museu de Hist√≥ria Natural de Berlim.

A segunda parte desta hist√≥ria (link) descreve o que se passou com material f√≥ssil da Tanz√Ęnia e que era…radioativo.

Referências:

[1] Nesbitt SJ, Barrett PM, Werning S, Sidor CA, Charig AJ. 2012 The oldest dinosaur? A Middle Triassic dinosauriform from Tanzania. Biol Lett 9: 20120949. http://dx.doi.org/10.1098/rsbl.2012.0949

[2] Rodrigues, L.A. Sauropodomorpha (Dinosauria, Saurischia) appendicular skeleton disparity: theoretical morphology and Compositional Data Analysis. Ph.D. Thesis. Universidad Aut√≥noma de Madrid, Madrid ‚Äď Spain, Supervised by Professor Angela Delgado Buscalioni and Co-supervised by Professor Jeffrey A. Wilson, University of Michigan, Ann Arbor. December 2009. ISBN 978-84-693-3839-1.

Imagens:

A – Natural History Museum, London/Mark Witton / SL.

B –¬†Natural History Museum / SL

C – Rodrigues 2009

(PUBLICADO NO JORNAL SUL INFORMAÇÃO)