Sara Ahmed
Sara Ahmed
(1969-)
Por Fernanda Alt,
Professora do departamento de filosofia da PUC-Rio

Sara Ahmed é uma filósofa feminista lésbica de origem britânico-paquistanesa que se destaca atualmente por suas contribuições originais que unem filosofia, teoria queer, estudos feministas e reflexões políticas. Ahmed é reconhecida tanto por sua luta efetiva contra a violência institucional na área acadêmica quanto por suas teorizações inovadoras, em especial nos estudos em fenomenologia, tendo recebido o prêmio Phenomenology Roundtable Award em 2010 em virtude de seu “trabalho excepcional”. Falar sobre a sua vida é, ao mesmo tempo, falar de sua obra, pois suas teorizações partem sempre da experiência vivida (lived experience), termo frequentemente utilizado por autoras e autores da tradição fenomenológica em filosofia, que assume a inseparabilidade entre experiência e teorização.
Filha de Maureen, uma mulher inglesa branca enfermeira, e Saeed, seu pai paquistanês marrom (brown) médico, irmã de Tanya e Tamina, Sara Ahmed teorizou sobre as experiências de migração, racismo e de não pertencimento relacionadas à sua configuração familiar e aos contextos dos lugares em que habitou e trabalhou. Nascida em 30 de agosto de 1969 na cidade de Salford, Inglaterra, vivenciou logo cedo sua primeira experiência de deslocamento entre países ao ser enviada por volta de um ano de idade aos cuidados da família paquistanesa, devido ao adoecimento de sua mãe. Suas primeiras palavras foram na língua Urdu, embora não se falasse mais as línguas do Paquistão (além da língua oficial Urdu, menciona o Punjabi) em suas casas futuras, apenas o inglês. Um ano depois, após a recuperação de sua mãe, volta brevemente à Inglaterra para logo se mudar, com toda a sua família, para a cidade de Adelaide, na Austrália, então com 4 anos de idade (Ahmed, 2000). O fato de habitar e pertencer (ou não) afetivamente a três países – Inglaterra (onde nasceu e posteriormente retorna para lecionar e viver), Austrália (onde cresceu) e Paquistão (onde mora sua família) – torna-se fonte de referências teóricas utilizadas em suas reflexões filosóficas e políticas, bem como material para suas análises sobre o que significa “sentir-se em casa”, “ser estranha” ou “estrangeira” e “fora de lugar”. Essas questões relacionadas ao “habitar” os espaços, sempre atravessadas por marcadores raciais, de gênero e de sexualidade, exemplificam como, em sua obra, vida e teoria encontram-se intrinsecamente entrelaçadas.
Em seu trabalho filosófico voltado para a compreensão da experiência vivida, Ahmed trabalha conceitualmente com a imagem das “linhas”. Assim como falamos em “linhagem familiar” e utilizamos expressões cotidianas como “andar na linha” ou “perder a linha”, as linhas aparecem neste contexto como conceitos que indicam tanto caminhos normativos pelos quais somos pressionadxs a seguir em nossas vidas, quanto “dispositivos de alinhamento” (straightening devices), isto é, o modo pelo qual as forças normativas operam para regular e/ou interromper a movimentação de corpos no espaço, pressionando-os à adequação às normas e valores sociais vigentes (Ahmed, 2006, p. 66). O sobrenome Ahmed, herdado de seu pai, é então descrito como um fator que “estende a linha paternal” e a conecta com seu lado paquistanês. O fato de este nome levantar a suspeita de que “pode ser muçulmano” faz com que ela experimente o desconforto de portá-lo no mundo ocidental, o que se manifesta concretamente na possibilidade de ser barrada em controles de passaporte nas fronteiras entre países e, corporalmente, na tendência a “sempre olhar para trás” – evidenciando como o movimento corporal constitui um traço fundamental de sua filosofia (idem, p. 143). A linha paternal também se encontra encarnada no fato de ser uma pessoa marrom (brown), assim como seu pai. Ao estudar as questões raciais na configuração familiar, Ahmed compreende retrospectivamente que, durante sua adolescência, as tentativas de aproximação da linhagem da mãe – mesmo que fossem simplesmente o gesto de andar “mais ao seu lado” na rua – representavam o desejo de pertencer ao mundo da branquitude e, com isso, adquirir seus privilégios e proteções. Ahmed descreve como esse desejo se manifestava também em suas relações com os objetos familiares, desenvolvendo uma análise fenomenológica da relação corpo-espaço no ambiente doméstico. Em suas palavras: “O desejo de ser branco para a criança mestiça tem a ver com a experiência vivida de não ser branco, mesmo quando a branquitude está ‘em casa’” (idem, p. 146).
A situação de nascer e crescer em uma família interracial e de habitar a todo tempo contextos “muito brancos” (Ahmed, 2022, p. 62) na Austrália – passando por abordagens policiais na rua, que a interpelavam a respeito de sua origem, e posteriormente em sua experiência institucional nas universidades em que trabalhou na Inglaterra –, marcou-a profundamente e orientou suas análises sobre a experiência vivida do racismo. Um tipo de consciência racial e também de conflitos de classe e de cultura que demorou para se desvelar aos seus olhos como um fator estruturante de seu mundo. Sua mãe e seu pai se uniram inicialmente sem a aprovação da família paquistanesa devido a tensões familiares atravessadas por questões de raça, classe e diferenças culturais – situações que Ahmed vivenciou repetidamente e que pôde aos poucos compreender através de uma lente interseccional.
Com relação ao tema da sexualidade, também trabalhado teoricamente por ela, “andar na linha” significa, neste contexto, perpetuar a linhagem familiar da heterossexualidade. O traço que remete à espacialidade presente no termo “orientação sexual” não passa despercebido para a filósofa ao analisar linhas e movimentos corporais. Afinal, o desejo definido como “hétero” ou “homo” é compreendido pelo senso comum como uma orientação dos corpos em direção ao “mesmo” sexo ou ao diferente (ideia que é também problematizada pela autora) (Ahmed, 2006). Encontramos em Queer Phenomenology [Fenomenologia queer] análises sobre a straight line, que, em sua tradução polissêmica, indica tanto a linha reta ou correta quanto “hétero”. “Andar na linha” da heterossexualidade pressupõe assim um movimento reto ou “correto” em direção ao “sexo oposto”, movimento já facilitado pela movimentação repetitiva e normativa de corpos no espaço, fazendo com que estes mesmos corpos apareçam “alinhados” aos caminhos pré-traçados. O mundo informado pela repetição das linhas, dos movimentos e pela formatação de caminhos que compõem assim um “mundo hétero”. Durante muitos anos de sua vida, Sara Ahmed habitou o mundo heterossexual, sentindo em seu corpo a experiência de viver o “bom casal” – um homem e uma mulher segundo a lógica da cisheteronormatividade –, sentindo o habitar dos espaços públicos como uma fluidez, através do conforto e da facilidade de circulação e visibilidade (Ahmed, 2006, p. 101). Posteriormente, ao desviar (ou poderíamos dizer “queerizar”) para o caminho da sexualidade lésbica, passa a teorizar sobre o “tornar-se lésbica” como uma experiência de desorientação radical do corpo no espaço, como se “habitasse um corpo novo”, mais hesitante e atento aos arredores e olhares, uma transformação global do habitar no mundo, de modo que “é necessário tempo e esforço para habitar um corpo lésbico” (idem, p. 102).
Quanto ao seu caminho na vida acadêmica, Ahmed realiza uma luta política extremamente importante, seja através dos temas abordados nas pesquisas, seja em suas atuações políticas institucionais. Após se formar em Inglês, Filosofia e História na Universidade de Adelaide na Austrália, obteve seu doutorado no Centre for Critical and Cultural Theory da Universidade de Cardiff, no País de Gales, com uma tese sobre o estudo crítico da relação entre feminismo e pós-modernismo, publicada em 1988 pela Cambridge Press com o título Differences that matter: feminist theory and postmodernism [Diferenças que importam: teoria feminista e pós-modernismo]. Em 1994, tornou-se professora e codiretora do Instituto para os Estudos das Mulheres (Women’s Studies) na Universidade Lancaster, no noroeste da Inglaterra. Posteriormente, passa a lecionar na área de estudos culturais e da raça na Goldsmiths, University of London.
Pode-se dizer que o auge da força política que une suas análises sobre violência institucional e sua prática feminista, que consiste em “viver” aquilo pelo qual se luta, foi seu gesto de renúncia ao cargo de professora da universidade Goldsmiths em 30 de maio de 2016, devido à incapacidade da instituição de enfrentar as denúncias de assédio sexual. Essas denúncias se tornam posteriormente objeto de reflexão filosófica através da realização de uma fenomenologia da instituição, publicada sob o título de Complaint! [Denuncie!] pela Duke University Press em 2021.
Atualmente, Sara Ahmed se define como escritora feminista e pesquisadora independente. Vive com sua companheira Sarah Franklin, antropóloga feminista norte-americana e professora de sociologia na Universidade de Cambridge, junto com seus dois cachorros em uma pequena cidade de Cambridgeshire, Inglaterra.
1. A feminista “estraga-prazeres” (killjoy)
O primeiro contato que Ahmed teve com o feminismo ocorreu em sua esfera familiar. Por um lado, a experiência feminista surge da relação afetiva e de profunda admiração por sua tia mais velha, Gulza; por outro, emerge de sensações desagradáveis decorrentes de ser uma menina não conformada às normas e crítica em relação aos valores transmitidos tanto na família quanto nos ambientes sociais.
Sua tia Gulzar Bano, nascida em Lahore, no Paquistão, foi sua primeira “professora feminista”. Mulher muçulmana, poeta e ativista de direitos humanos, ensinou à sobrinha sobre o poder das mulheres na sociedade através do afeto e da generosidade. Ao aprender sobre feminismo com as mulheres de sua família paquistanesa, a tia Gulzar em especial, Ahmed teve como ponto de partida uma formação que já de início se distinguia de início do feminismo branco ocidental:
Pode-se supor que o feminismo viaje do Ocidente para o Oriente. Pode-se supor que o feminismo é o que o Ocidente dá ao Oriente. Essa suposição é uma suposição que viaja e conta uma história feminista, a seu modo, uma história repetida à exaustão; uma história de como o feminismo se fez útil na forma de um presente imperial. Essa não é a minha história. Precisamos contar outras histórias feministas. O feminismo viajou até mim, que cresci no Ocidente, vindo do Oriente (Ahmed, 2022, p. 18, tradução minha).
Por outro lado, em casa, e mais especificamente na cena familiar de se sentar à mesa de jantar (veremos que a mesa é um objeto central de suas reflexões), Ahmed vivencia desde muito jovem o desconforto de se colocar como uma pessoa crítica às normatividades e valores sociais dominantes. Em Viver uma vida feminista (2022), ela conta que se tornou feminista em torno da mesa familiar: a distribuição dos lugares é sempre a mesma e, em meio às conversas “educadas”, frequentemente alguém diz algo problemático. O sentimento de irritação (as emoções são protagonistas em suas análises) é o sinal de que “a feminista estraga-prazeres aparece: quando ela fala, parece irritada. Eu apareço aqui. Esta é minha história: irritada” (idem, p. 69). A experiência é ainda descrita em termos de solidão, do sentimento de “viver em outro mundo” e de conexão à distância com a tia feminista, com quem compartilhava este outro mundo. Se ser feminista é uma experiência de habitar o mundo questionando-o incessantemente, Ahmed faz dos incômodos frequentemente sentidos na vida familiar e social uma fonte de afirmação ao defender a atitude “estraga-prazeres” (killjoy) enquanto sustentação de posições éticas e de não consentimento em confronto com os dispositivos de alinhamento.
Neste sentido, a autora elabora materiais para que as feministas “estraga-prazeres” não se sintam isoladas e compartilhem seus recursos: escreve um livro-manual (The Feminist Killjoy Handbook), no qual propõe um “kit de sobrevivência” (Ahmed, 2022) e inaugura um blog com o mesmo nome a fim de difundir suas ideias para um público mais amplo do que o acadêmico e assim estabelecer uma rede contra a solidão experimentada por mulheres de pensamento crítico.
2. Obras e movimentos conceituais
Sara Ahmed tem se destacado no campo dos estudos feministas, nas teorias críticas da raça, nos estudos pós-coloniais e na luta contra a violência institucional. Suas obras apresentam ricas interlocuções com pensadoras feministas como Audre Lorde, Adrienne Rich, Donna Haraway, Patricia Hill Collins, Judith Butler, entre outras. Encontramos ainda desenvolvimentos filosóficos em diálogos críticos com a psicanálise e o marxismo, além de criações de conceitos a partir de fontes literárias. Na área de estudos da fenomenologia, em especial no campo que tem sido denominado atualmente de fenomenologia crítica (Weiss; Murphy; Salamon, 2020), seu trabalho é frequentemente citado como uma referência importante. Além disso, seus desenvolvimentos teóricos sobre as emoções e seu livro que toma a “felicidade” como tema (The promise of happiness [A promessa da felicidade]) se tornaram referência incontornável para o movimento conhecido como “giro afetivo”. No campo de estudos sobre os afetos, o “giro afetivo” é descrito como um “campo de experimentação teórico-reflexivo” que, nos últimos 30 anos, afirma cada vez mais a relevância política dos afetos e das emoções para a compreensão dos aspectos emocionais da vida social (Cuéllo, 2019).
Em geral, as obras de Sara Ahmed são construídas de forma criativa e envolvente, como se seguíssemos os caminhos desviantes propostos através de seus conceitos de orientação e de sua contrapartida, a desorientação. Ao fazer uso de imagens e objetos, seus textos nos propõem uma experiência quase visual e, evidentemente, sempre corporal: nos são apresentadas linhas, direções, movimentos, aproximações e distanciamentos, giros e reorientações. Ahmed se utiliza ainda muito frequentemente da ideia de “seguir” algo, como um objeto – a mesa, por exemplo; ou um sentimento, tal como a felicidade; um conceito, como a “vontade” (Willfull subjects [Sujeitos voluntariosos]) ou mesmo o próprio ato de “uso” (What’s the use? [Pra que serve?] ). Destacando este ponto guia, que é múltiplo, ela nos convida não somente a seguí-lo, mas ainda a girar em torno dele, traçar sua história, entender de onde viemos e para onde podemos partir ou mesmo vislumbrar um campo de possibilidades nos caminhos que se abrem. Ahmed inevitavelmente nos faz sentir nosso próprio corpo ao teorizar: “virar os olhos” como pedagogia feminista (Living a feminist life [Viver uma vida feminista]); aguçar o ouvido para ouvir histórias não contadas (Complaint! [Denuncie!]), olhar para trás e identificar o que está nos bastidores da mesa de trabalho (Queer Phenomenology [Fenomenologia Queer]); encarar os muros da instituição e sentir o peso de seus tijolos (On being included; Complaint!). Sua escrita nos atenta para a relação que temos com o nosso próprio ambiente e, com isso, para a não neutralidade entre o que aparece como figura e o que se mostra como o fundo que a sustenta.
Em seu trabalho, encontramos um modo muito original de teorizar sobre a relação entre corpo e espaço relacionada às questões de gênero, raça e sexualidade. Neste sentido, a obra Queer phenomenology de 2006 é exemplar, ao propor uma reapropriação de conceitos da fenomenologia clássica, como a ideia husserliana de orientação, para o desenvolvimento de uma teoria inteiramente inovadora. Assim, o seu gesto é o de “queerizar” a fenomenologia mais do que o de aderir ao movimento fenomenológico, ou seja, torná-la desviante. Neste campo específico, para além de Husserl, Ahmed mobiliza conceitos importantes de Merleau-Ponty – em especial suas análises sobre os hábitos corporais, articuladas com a repetição performática de Judith Butler – e também de Heidegger, com suas contribuições sobre a espacialidade fenomenológica. Além disso, Ahmed articula de forma original as teorias feministas do “ponto de vista” – destacando-se as influências de Donna Haraway e Patricia Hill Collins, que evidenciam a importância epistemológica do lugar de quem produz conhecimento – com a ideia de orientação husserliana, elaborando uma política situada que procura pensar corporalmente como se dão efetivamente essas localizações.
Sara Ahmed se dirige para a fenomenologia seja no intuito de interrogar o conceito de orientação, seja para questionar as próprias direções para as quais as fenomenologias se dirigem. Filósofos (é proposital aqui o uso do masculino) em geral utilizam-se de objetos semelhantes para filosofar e este uso não é neutro. Ahmed nota a predominância de “mesas” nos exemplos filosóficos, o que demonstra a proximidade de quem filosofa com certos objetos ao redor ou a partir dos quais se faz filosofia. Neste caso, a mesa é um “dispositivo de orientação” (Ahmed, 2006, p. 3) para a escrita na elaboração filosófica, o que tem implicações no tipo de filosofia que ali se produz. A filosofia está repleta de exemplos que tomam a mesa sobre a qual se escreve como tema, o que a torna um objeto próximo ao corpo de quem faz filosofia, de modo a orientar a direção da reflexão. É assim que Ahmed chama a atenção para o ambiente de elaboração da fenomenologia por Husserl, utilizando seus próprios conceitos de orientação e suas análises sobre a percepção. Ao se perguntar sobre quais são os objetos próximos e familiares ao filósofo, e quais são os distantes, ou que nunca figuram em seus exemplos, é possível analisar a produção filosófica por via de um recorte de gênero: Husserl está diante da mesa e em um ambiente de escritório; mas, o que está atrás dele e que ele não vê? Os objetos que não aparecem e que ocupam a parte de trás da casa, para os quais ele dá as costas, são muito provavelmente o espaço feminino da reprodução, ou seja, a cozinha e os ambientes em que circulam as crianças. Este tipo de análise leva Ahmed a se perguntar sobre a filosofia em geral, em que medida esta depende da “ocultação do trabalho doméstico e do tempo de trabalho necessário para reproduzir os próprios “materiais” da casa” (Ibid., p. 31). O conceito husserliano de orientação permite à autora “repensar a fenomenalidade do espaço”, ou seja, como o “espaço é dependente da habitabilidade do corpo”. A fenomenologia mostra que o espaço não é exterior aos corpos, mas é como “uma segunda pele” (idem, p. 9). Assim, Ahmed realiza o trabalho de mostrar como os corpos são generificados, sexualizados e racializados pela forma como se estendem no espaço e pela forma como se dirigem aos objetos e aos outrxs, e como o espaço é do mesmo modo moldado pelos movimentos dos corpos.
Anteriormente, na obra Strange Encounters: embodied others in post-coloniality [Encontros estranhos: outros encarnados na pós-colonialidade] (Ahmed, 2000), a relação corpo-espaço já estava em cena como ferramenta para se pensar a experiência de migração, novamente através das memórias de seu contexto de família imigrante. A ideia do espaço como “segunda pele” e como uma superfície que é “impressionada” por linhas que moldam o corpo, já estava presente e permanece atuante em Queer phenomenology. Neste primeiro trabalho, Ahmed investiga o processo de “stranger making”, ou seja, como alguns outros “tornam-se estranhos” enquanto um processo de racialização, que contrasta o que não é identificável ou o que é estrangeiro com aquilo que é “familiar”. Ahmed inverte, no entanto, a consideração habitual do estranho, que seria a de um outro “totalmente estranho”, ao defender a tese de que tal processo de estranhamento compõe justamente a configuração do que é familiar. Todas estas análises irão servir de base, ao longo de seus desenvolvimentos teóricos, para se pensar os espaços de branquitude e a produção dos “outros”, dos que estão “fora de lugar” e do que significa se sentir em casa em um país, ou se sentar na “cadeira confortável” do mundo dos valores hegemônicos (Ahmed; Schmitz, 2014) já moldada por e para certos corpos em meio à família ou no espaço institucional.
As obras The cultural politics of emotion [A política cultural da emoção] e The promise of happiness [A promessa da felicidade] são referências para o campo dos estudos das emoções e para o movimento teórico citado acima, chamado de “giro afetivo” (Cuello, 2019; Solana, 2020). Seu livro sobre a felicidade, que é um livro crítico à promessa de “ser feliz”, obteve o prêmio Feminist and Women’s Studies Network (FWSA [Rede de Estudos Feministas e de Mulheres]) em 2012. Em ambas as obras, Sara Ahmed utiliza a via fenomenológica para considerar as emoções enquanto intencionais, ou seja, sempre como um movimento em direção a algo, o que já se encontra na própria etimologia da palavra. Seguindo a ênfase típica de suas elaborações, ela mantém a ideia de orientação como ponto de partida para então realizar uma análise sobre o modo de aparição dos objetos em um campo fenomenal afetivo: quais objetos podem aparecer aos sujeitos como “felizes”, “certos”, “corretos” ou mesmo “hétero” (straight) já que esta aparição mesma é sempre valorada a partir de um mundo social. Assim, as emoções são compreendidas na relação corporal com os objetos e com xs outrxs, não pressupondo um modelo de interioridade afetiva, isto é, como se houvesse uma esfera emocional interna que se exteriorizasse. Ao se contrapor a uma visão substancialista ou subjetivista das emoções, Ahmed propõe uma teoria política de circulação afetiva: as emoções trafegam, deslizam ou “grudam” em superfícies que se moldam a partir dessa mesma dinâmica. Além disso, os sentimentos são frequentemente mobilizados socialmente como forma de regular comportamentos, impedir determinadas ações ou provocar reações específicas para fins políticos. A “felicidade” pode ser utilizada como argumento para evitar conflitos ou temas difíceis, em especial quando se busca a união do grupo familiar. O ódio pode ser uma via extremamente eficaz para a produção política do “estrangeiro” a fim de unir um país em torno da ideia de nação.
No âmbito de sua luta institucional destacam-se as obras On Being Included: Racism and Diversity in Institutional Life [Sobre ser incluído: racismo e diversidade na vida institucional] (2012) e Complaint! [Denuncie!] (2021). Esta última pesquisa, que trata das denúncias de assédio sexual na universidade, teve início antes de sua renúncia ao cargo em Goldsmiths, pela mesma razão. O seu gesto político de saída da universidade fez com que cada vez mais pessoas a procurassem para contar casos de assédio na universidade, o que a fez apurar o método de escuta que ela identifica como “ouvido feminista” (the feminist ear). Em seu trabalho sobre a “diversidade” na instituição, Ahmed aponta para as hipocrisias dos discursos e práticas presentes nas propostas de diversidade universitária, assim como analisa a experiência de ser designada como a “pessoa da raça” (the race person), que é em geral uma pessoa não branca contratada para realizar este tipo de trabalho na instituição, o que acaba por reforçar estereótipos. Entre 2003 e 2006, Ahmed coletou dados sobre o trabalho de diversidade no ensino superior, apresentados pela primeira vez em On Being Included. O início dessa pesquisa se deu logo após uma mudança na legislação inglesa referente à igualdade: a emenda à “Lei das Relações Raciais” em 2000, que exigia que todas as organizações públicas desenvolvessem e disseminassem políticas de igualdade racial (Ahmed, 2012).
Suas análises sobre violência institucional mostram como operam as dinâmicas de poder. Denunciar os abusos e violências da universidade é um gesto que resulta, na maioria das vezes, em um aumento da violência contra a própria pessoa que denuncia. No breve texto Cutting yourself off, traduzido para o português pela Zazie Edições em 2018 com o título “Excluir-se”, Ahmed demonstra como denunciar a violência acarreta frequentemente a exclusão ou o isolamento da denunciante de seu grupo: “Você pode se destacar só por sentir a violência como violência. E, então, a violência que você não consegue deixar de sentir como violência é redirecionada a você; a violência que já está no ambiente é canalizada na sua direção” (Ahmed, 2018, p. 10). Em Complaint! Ahmed realiza ainda uma “fenomenologia da instituição”, analisando a própria materialidade da opressão presente nas portas fechadas e nas paredes de concreto; nos corredores labirínticos e, principalmente, nos arquivos onde as denúncias repousam esquecidas sem o devido tratamento. A imagem de capa da edição original da Duke University Press é significativa para este tipo de análise: duas portas se apoiam em uma parede de concreto, ou seja, onde parece que deveria haver uma porta – o que significaria a possibilidade de uma “entrada”, ou seja, um acesso efetivo a outro espaço –, há uma parede. Mas é preciso haver a porta que esconde a parede, de modo que, assim como o estranho faz parte da construção do familiar, é preciso que haja máscaras – os discursos que pretendem apoiar o trabalho de diversidade e as instâncias que prometem apurar as denúncias – para que a cultura da instituição permaneça a mesma, o que se concretiza nos tijolos das paredes institucionais que continuam a representar o “endurecimento da história” (Ahmed, 2012).
Apesar da notável relevância teórica das contribuições de Sara Ahmed e da experiência fascinante de leitura que suas obras nos proporcionam, as traduções e o conhecimento de seus livros em português ainda são bastante limitados. Atualmente, encontramos em português apenas Viver uma vida feminista pela Editora UBU, publicado em 2022, o texto “Excluir-se” publicado pela Zazie Edições e o ensaio “Estraga-prazeres feministas (e outras sujeitas voluntariosas)”, publicado na revista Eco-Pós da UFRJ.
Bibliografia
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Ahmed, S. (2014). The cultural politics of emotion. 2ª ed. Edinburgh: Edinburgh University Press.
Ahmed, S. (2014). Willful subjects. Durham: Duke University Press.
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Em português: Ahmed, S. (2022). Viver uma vida feminista. São Paulo: Ubu. (Trad. Jamille Dias; Sheyla Miranda; Mariana Ruggieri).
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Ahmed, S. (2023). The feminist killjoy handbook: the radical potential of getting in the way. London: Allen Lane.
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- Outros materiais relevantes
Ahmed, S. (s.d.). Feminist killjoys. Recuperado de https://feministkilljoys.com/.
Ahmed, S. (s.d.). Sara Ahmed – official website. Recuperado de https://www.saranahmed.com/.
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