3- Eu te darei o céu, meu bem, e o meu amor também…

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Obtida em: www.malawi.cichlids.ru

Uma boa forma da fêmea escolher o macho ideal é saber que ele está disposto a fazer sacrifícios por ela. Este sacrifício pode ser algo que será útil à fêmea, como um bom ninho para morar ou deixar seus ovos. Machos do peixe Gasterosteus aculeatus constroem ninhos com pedaços de plantas aquáticas e o enfeitam com objetos coloridos para a fêmea. Quanto mais colorido o ninho, mais a fêmea se agrada daquele macho. Outra medida interessante é provar o valor de seus genes através de atos hercúleos, mas sem muita utilidade para a fêmea. Um exemplo disso vem de mais um peixinho, Mchenga conophoros do Lago Malawi na África, nesta espécie o macho constrói castelos de areia no fundo dos cursos d’água, quanto maior o castelo mais interessadas ficam as fêmeas. O curioso é que estes castelos não são usados em nada além da corte, seja pela fêmea seja por seus filhotes, apenas prova que um bichinho de 10 cm pode construí-lo.

2- And take it, take another little piece of my heart now baby…

This is the english version of this post

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Obtained from: www.flickr.com

Some males are decided to forbid their babes to try other guys. Male snakes, crickets and butterflies leave after mating a lid on the genital opening of the female. But some spiders like Nephila fenestrata go further, since they don’t have this plug, they leave a part of the copulatory organ inside the female genitalia, obstructing it and avoiding competitors in a process called emasculation.

2- And take it, take another little piece of my heart now baby…

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Obtida em: www.flickr.com

Alguns machos são muito decididos em evitar que suas parceiras experimentem outros parceiros sexuais. Serpentes, grilos e borboletas machos depositam após a cópula uma tampa na abertura genital da fêmea. Mas algumas aranhas como Nephila fenestrata vão além, como não têm esses plugues o macho deixa um pedaço do órgão que penetra a fêmea na abertura genital dela, obstruindo-a e evitando concorrentes num processo chamado emasculação.

Crazy of love

This is the english version of this text.

In nature the males do their best to please their ladies. This includes elaborates dances, complex structures and songs. Sexual selection resulted in the evolution of the most strange things with the single goal of having sex. In evolutionary terms there is no meaning in living ten thousand years, if we don´t leave an offspring. In the next five posts we will see my favourite examples of what organisms do to get there.
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Obtained from: www.butterfliesandmoths.org

1- Love is in the air everywhere I look around…
Pheromone is the name given to the chemical substances that act on animal communication. It works like our talks, a sender produces a message that reaches a receiver able to comprehend its meaning. Only in this case the message smells, doesn’t sound.
Many animals use pheromones for mating: dogs, snakes, bugs and termites are just a few examples. But perhaps no animal gets to the extreme of the Actias luna moths. This moth inhabits North America and releases its perfume on the air. The male is capable of sensing the female 5 km away, even with obstacles like the trees of a forest. For this the moth uses its special ramified antennas.

Loucuras de amor

Na natureza o macho em geral se desdobra da melhor forma possível para agradar a Fêmea. Isso inclui danças elaboradas, estruturas espalhafatosas, cantos. Enfim, a seleção sexual levou à evolução das coisas mais estranhas com uma única finalidade, acasalar. Em termos evolutivos de nada vale viver dez mil anos, se no final não deixamos descendentes. Veremos nos próximos textos meus cinco exemplos favoritos do extremo a que os organismos chegam para fazer sexo.
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1- Como se eu fosse flor você me cheira…
Feromônio é o nome dado às substâncias químicas que atuam na comunicação entre animais. Funciona igual à nossa comunicação com sons, um emissor produz uma mensagem que atinge um receptor capaz de compreender seu significado. Só que nesse caso a mensagem tem a forma de aroma, não de som.
Diversos animais usam feromônios no acasalamento: cães, serpentes, percevejos e cupins são apenas alguns exemplos. Mas talvez nenhum animal leve ao extremo das mariposas Actias luna. Essa mariposa habitante da América do Norte libera seu perfume no ar, o macho é capaz de perceber o feromônio da fêmea a 5 km de distância, mesmo que haja obstáculos como as árvores de uma floresta. Para isto os machos usam suas antenas ramificadas.

Migração, enfim!

Bem vindos ao novo Ciência à Bessa. Há quase um mês postei um texto sobre migrações, especialmente esperando anunciar uma migração que estava para ocorrer. Essa migração, porém, só foi acontecer agora, um mês depois. De fato, migrações pelo mundo todo têm atrasado por um motivo já bem conhecido, as mudanças climáticas.
A migração deve-se à fuga de condições extremas do ambiente. Se essas mudanças não ocorrem no momento esperado, as migrações podem ser reprogramadas para um momento mais oportuno. Com o aquecimento global houve um deslocamento do início do inverno, permanece quente por mais tempo nas regiões temperadas, as aves migratórias deixam para viajar mais tarde e chegam atrasadas aqui ao pantanal.
Um mês após o alarme falso da migração do Ciência à Bessa para o ScienceBlogs Brasil, finalmente chegamos. Podem não ter sido as mudanças climáticas as responsáveis por este atraso, mas o importante é que estamos no ar pelo ScienceBlogs Brasil. Com muito orgulho!
Acho que ainda nem sei o significado dessa mudança, será muito bom para o blog e, certamente, também para a divulgação científica no Brasil. Estou muito feliz por mais este passo e por fazer parte de um grupo tão seleto de pensadores e divulgadores.

Piracema prorrogada na Bacia do Paraguai

Os municípios que compõem a Bacia do Paraguai estão sofrendo mais um golpe econômico este mês. A economia local chega a aumentar em 30% com o dinheiro que vem do turismo para a pesca. Muitos dos pacotes turísticos são montados para o período imediatamente posterior à época reprodutiva, devido à grande quantidade de peixes desse período. Este ano, porém, o período de proibição da pesca foi estendido por mais um mês, passando do dia 28 de fevereiro ao dia 30 de março. Os turistas movimentam a economia em hotéis, restaurantes e através do aluguel dos barcos. Pacotes que já haviam sido vendidos para o período ficaram incompletos, gerando grande frustração nos turistas.

A época de proibição pesqueira, também chamada de defeso ou piracema, coincide com o pico de atividade reprodutiva de diversas espécies de peixes, inclusive aquelas com maior interesse econômico, como o dourado, a cachara e o pacu. Neste período os peixes sobem os rios em direção às cabeceiras para desovar num ambiente onde haja menor pressão de predação dos filhotes e maior quantidade de nutrientes na água. A subida do rio é o ápice comportamental de um processo fisiológico que vem ocorrendo há mais tempo para os peixes. Nos meses que antecedem a piracema os peixes desenvolvem suas gônadas e se preparam para a reprodução. Neste sentido, proibir a pesca dos indivíduos que irão dar origem aos novos peixes é primordial para a preservação das espécies, especialmente as de interesse comercial.

A piracema está pareada na fisiologia dos peixes com um evento ambiental: o aumento do nível dos rios devido às chuvas. Ora, se chove muito a água que cai irá varrer o solo, levando muita matéria orgânica para o leito do rio e enchendo-o de nutrientes. Com alimento de sobra os filhotes poderão desenvolver-se melhor e sobreviverão mais facilmente. Portanto, faz todo o sentido que a desova ocorra no período de maior quantidade de chuvas. Quando a marinha registrou os efeitos do fenômeno climático La Niña, que levou a um atraso nas chuvas, um relatório foi encaminhado às autoridades e a Justiça Federal decretou a extensão do defeso por mais um mês. Até aí tudo faz muito sentido, sem as chuvas os peixes não devem ter desovado, já que não iriam ter ainda as vantagens necessárias aos seus filhotes.

Mas há um problema aí. Análises encomendadas pela SEMA, a Secretaria de Meio Ambiente do Mato Grosso, a um colega de UNEMAT, o Prof. Claumir César Muniz, indicam que os peixes já haviam desovado dentro do período esperado, mesmo com o baixo volume de chuvas. Isso acontece porque a desova não é um produto direto das chuvas, mas é controlado antes pelo relógio biológico dos animais. Secundariamente, os relógios biológicos são aferidos por mecanismos ambientais, como a duração dos dias ou o chegada das chuvas, são os chamados zeitgebers ou marcadores temporais. Os marcadores temporais ajudam a ajustar o relógio biológico, mas não é a alteração deles uma única vez que irá desregular o relógio biológico para sempre. É preciso que haja um padrão que se repita para o relógio biológico ser reprogramado. Como o La Niña só ocorreu este ano, isto não afetou o relógio biológico dos peixes, que continuaram desovando no período de novembro a fevereiro, não indo março adentro.

A SEMA-MT já enviou um relatório à justiça solicitando a suspensão da liminar e levando alívio aos que dependem do turismo para encher a geladeira. É a Ciência auxiliando o cidadão comum e a economia a progredir de forma sustentável. Enquanto não sai a revogação da liminar, melhor manter os anzóis na caixinha. O fiscal do IBAMA não vai querer saber do Blog que você leu dizendo que foi um erro estender o defeso.

Vamos mostrar quem é que manda

à minha e a todas as mulheres em homenagem (meio atrasada) ao seu dia

 

 

É certo que o machismo anda meio em baixa. Pelo menos da boca para fora, nós homens já não nos vangloriamos mais de sermos os donos do lar. Até porque os tempos mudaram e a participação da mulher na economia familiar é indispensável. Mas entre nós ainda mantemos o orgulho masculino, esse ar de superioridade talvez, de supridores, protetores. A impressão de que somos nós que mandamos. Doce delírio! Não é exclusividade da espécie humana, mas em todos os seres vivos as mulheres têm um direito garantido: o direito de escolher.

 

De fato, a definição de macho e fêmea refere-se diretamente a esse direito. Por definição machos são aqueles indivíduos que produzem gametas pequenos e numerosos. Fêmeas, por outro lado produzem gametas grandes, caros e raros.

 


obtido em www.correios.com.br

obtido em www.correios.com.br


 

Quando eu era moleque tinha uma coleção de selos enorme e adorava ir a locais em que colecionadores se reuniam para trocar, comprar e vender selos. Logo descobri que alguns selos tinham uma história única e uma tiragem bastante limitada. Havia poucos em circulação. Isso os tornava extremamente caros e desejados. Os meus, na grande maioria, eram bastante comuns e sem grande valor. Precisaria reunir quase toda minha coleção para obter o selo comemorativo do milésimo gol do Pelé, por exemplo. Quem tinha um olho de boi podia escolher à vontade o que queria em troca e quantos selos queria. Quem tinha selos comuns não. É exatamente o que acontece com nossos gametas. Os óvulos das mulheres são pouco numerosos e muito custosos, suas donas podem fazer exigências. Nossos espermatozóides são baratos e numerosos. Ninguém lhes dá muito valor e precisamos adicionar promessas às nossas negociações.

 

A essa diferença entre os gametas damos o nome de anisogamia. É por culpa dela que existem tantas diferenças entre machos e fêmeas, inclusive homens e mulheres. Quer ver? Na negociação por um óvulo, nós homens temos que investir, além dos espermatozóides, a promessa de proteção de nossas fêmeas. Em tempos remotos a proteção era abrigar contra um tigre dente-de-sabre ou prover a fêmea de comida. Ambos só eram conseguidos se nosso longínquo avô tivesse força muscular, por exemplo, no músculo peitoral. Talvez por isso nós homens tenhamos um peito mais largo e mais massa muscular que as mulheres.

 


obtido em: www.hstern.net

obtido em: www.hstern.net


 

Em tempos modernos segurança é muito mais uma questão de ter recursos para adquirir uma casa ou pagar as compras do mês. Não admira que muitos dos comportamentos de corte modernos envolvam demonstrações de posses e dela ser tão abundante que podemos destinar nossas economias a produtos relativamente inúteis só para impressionar a fêmea. Que utilidade tem um anel de ouro branco cravejado de brilhantes? Apenas demonstrar para a mulher que temos tanto dinheiro que podemos torrar mil reais com isso sem ir à bancarrota. Que dirá dinheiro para as compras ou a casa?

 

Já as fêmeas fazem propaganda dos gametas preciosos que têm e de sua habilidade em dar-lhes uso, isto é, serem boas reprodutoras. Mesmo que o homem nem tenha interesse em ser pai, nada como um quadril largo ou seios generosos para fazer testosterona jorrar dos nossos poros. Assim persiste essa contínua guerra de interesses chamada sexo. Com seus ardis irresistíveis. Ainda bem!

Adendo aos produtos de limpeza

Um dos comentários sobre o Ciência Cotidiana, enviado pelo Marão, pedia dicas de como compreender melhor os rótulos dos produtos de limpeza. Fui pedir mais uma ajuda ao Adley, meu assessor em química e chegamos a pelo menos duas. Primeiro, os surfactantes são de dois tipos: cadeia simples e cadeia ramificada. Os de cadeia ramificada são bem mais difíceis de serem degradados pelos decompositores. Portanto, para ajudar o meio-ambiente, compre produtos com surfactantes de cadeia simples, como o lauril éter sulfato de sódio, um dos mais comumente usados. Esta molécula foi relacionada ao câncer, mas esta correlação nunca foi comprovada. Talvez mais uma daquelas lendas urbanas da química industrial.

Lauril Éter Sulfato de Sódio, um surfactante de cadeia longa e simples. Portanto, biodegradável.

Lauril Éter Sulfato de Sódio, um surfactante de cadeia longa e simples. Portanto, biodegradável.


Por outro lado, vale atentar para a neutralidade do pH dos produtos de higiene pessoal e detergentes de lavar louça. Por ficar muito em contato com a pele o pH destes produtos deve ser o menos agressivo possível. Daí a importância de usar os neutros.

Manchetes comentadas 13- Deu urubu no Sudoeste

visitantes inconvenientes

visitantes inconvenientes

 

Na manhã de ontem vi no Bom dia Brasil enquanto perdia a fome pelo meu café da manhã a invasão dos urubus num bairro residencial de Brasília. As aves usam os prédios como poleiro para ficar de olho em um aterro sanitário a alguns quilômetros esperando pelo lixo fresco levado pelos caminhões. Na verdade já conhecia a história já que meu pai mora em um dos prédios dali, tendo por ocasião escrito o poético texto que transcrevo abaixo em sua homenagem.

A ave preta e de maus agouros é lancinante não pela sua periculosidade mas pela representação da sujeira – símbolo do fúnebre.  Os urubus eram meus conhecidos nos primórdios de minha infância no velho Piauí. Lá estavam elas voando em círculos a mais de mil metros de altura. Rondava o velho bairro do matadouro onde se abatiam animais para abastecerem a população teresinense. O vôo em círculo daquelas aves de rapina era sinal de que em baixo havia vísceras não aproveitáveis. Se presentes em algum outro local significavam haver por lá algum bicho morto, cuja carne em decomposição atraía moscas azuis onde depositavam seus ovos.

Recordo-me também dos velhos filmes de faroestes com John Wayne, xerife e paladino da justiça, e também do imbatível Kirg Douglas, ora como vilão ora como homem da lei. Eram esses os nossos heróis, o “Rambo” da criançada dos anos 1950. E em qualquer cowboy que se prezasse, onde predominava a matança, lá estavam essas aves repulsivas sobrevoando em círculo e em perseguição, junto com o xerife e seu parceiro, os foragidos, sempre à espreita de saboreá-los tão logo fossem mortos. Alguns dos bandidos seriam levados para a delegacia e julgados a morrer na forca; outros, baleados,  ficavam caídos pelo caminho, para serem comidos pelos carnívoros.

 O menino e tantos outros pirralhos as observavam de longe e meio amedrontados porque tais aves representavam a morte e o luto.  No cemitério, sempre algum urubu pousava sobre sepulturas. Esses símbolos nos remetem às fantasias que habitam o imaginário da criança: o medo da perda dos pais e da impotência perante o mundo assustador. Os urubus sempre simbolizaram o que mais nos assusta: a morte!

Na medida em que fomos crescendo também os assustávamos com nossas baladeiras e espingarda de ar comprimido. Ah! Pobre de nós que tentamos nos livrar dos urubus tal qual fazemos quando reprimimos uma angústia.

Para manter afastadas as angústias despendemos tanta energia em reprimi-las que nos tornamos presos desta manobra. No entanto, quando podemos enfrentá-las, isso nos liberta. Só conseguimos mudar o que aceitamos, e não nos livramos tão-somente evitando o que rejeitamos. É como tentar afundar uma rolha. O sentimento de aversão aos urubus nos remete a nossas histórias, às nossas tentativas encobridoras de experiências dolorosas. Também essas estão sempre por perto, rondando, à espera de pousarem sobre nossos “corpos” ou sobre nossas consciências. Continuam denunciando a sujeira e o doentio de uma sociedade em decadência onde o “lixo” está cada vez mais próximo. 

Por tudo isso, as leis nos amparam tanto e a tantos, inclusive as indesejáveis aves de rapina, que paradoxalmente algumas vezes nos sentimos desamparados. Até quando essas carnívoras “peçonhentas” vão nos incomodar?

Nossa maior tristeza é que não temos a visão dos urubus e não enxergamos de longe nem de tão perto. Plagiando o carnavalesco Joãozinho Trinta, ainda não percebemos o que nos traz uma sociedade que sobrevive: “o luxo e o lixo”.
Por José Renato.

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