Medicina N√£o-Humanista

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O humanismo tem significados diferentes dependendo da l√≠ngua que voc√™ fala [1]. Basicamente, se voc√™ √© um angl√≥fono identificar√° o humanismo com um tipo de “ate√≠smo esclarecido”, popular entre cientistas e “leigos de mente aberta” [2]. O “resto do mundo”, em especial a Fran√ßa, tem uma vis√£o algo negativa do que seria o humanismo. Por isso, n√£o √© de se surpreender que as rea√ß√Ķes a ele difiram entre os dois grupos. Um¬†anti-humanismo teria, assim, ao menos duas acep√ß√Ķes fundamentais de acordo com as correspondentes leituras propostas. Nesse sentido, cito a professora Kate Soper [1] em livre tradu√ß√£o

Se ‘falamos Ingl√™s’, ent√£o, o ‘anti-humanismo’ equivale √† rejei√ß√£o dogm√°tica de uma √©tica mediadora e conciliat√≥ria que os auto-intitulados¬†humanistas sempre consideraram um componente essencial de seu esclarecimento. Se ‘falamos franc√™s’, por outro lado, [o anti-humanismo] constitui-se em um novo tipo de esclarecimento a partir do qual toda forma de pensamento humanista √© revelada como t√£o ofuscante e mitol√≥gica quanto a teologia e a supersti√ß√£o que o movimento humanista tradicionalmente rejeita.

Essa dicotomia, pasmem, foi importada para o Brasil. Grosso modo, cientistas naturais tendem a adotar o “humanismo do tipo anglo-americano”, fundando, inclusive, associa√ß√Ķes ativistas aos moldes de seus colegas ultramarinos e norte-continentais. J√° os “cientistas” das Humanidades, larga e longamente influenciados pelo pensamento franc√™s, rejeitam o humanismo como o diabo √† cruz (n√£o resisti, perdoem).

A essa altura, algu√©m j√° est√° perguntando “Mas e a medicina?”. De fato, a eterna ambival√™ncia da medicina a coloca em rela√ß√£o sempre dif√≠cil com dicotomias simplificadoras. Sua rela√ß√£o com o humanismo ser√° subsidi√°ria da forma como a consideramos dentro do espectro acad√™mico. Se a tomarmos, a exemplo de alguns cientistas com quem tive aula na faculdade, como “nada mais do que uma discret√≠ssima subse√ß√£o da Biologia que se ocupa das mazelas de uma √ļnica esp√©cie‚ÄĚ e/ou como um ramo “patol√≥gico” da Antropologia, tenderemos esposar √† medicina um humanismo necess√°rio. Se, por outra via, a entendermos como a rela√ß√£o do paciente com seu m√©dico acrescida de tudo que envolve tal intera√ß√£o entre¬†sujeitos assim postos, a vis√£o continental, anti-humanista da medicina,¬†nos ser√° mais coerente.

Isso porque as cr√≠ticas continentais ao humanismo passam a fazer sentido tamb√©m como cr√≠ticas a uma medicina que tem, ultimamente, se esfor√ßado em ser humana. A lista √© grande mas a n√≥s basta entender que o humanismo ao colocar o Homem como o centro a partir do qual parte todo o seu entendimento do mundo, faz dele o natural sujeito de todas as coisas e tudo, portanto, o que n√£o √© Homem passa, naturalmente, a ser seu objeto. Inclusive o pr√≥prio Homem que, entretanto, veja s√≥, n√£o pode ser tomado na forma una e indivis√≠vel¬†que caracteriza as abordagens “human√≠sticas” dado que ele n√£o pode ser, ¬†a um s√≥ tempo,¬†sujeito e objeto. S√≥ √© poss√≠vel por esse m√©todo tomar o Homem em suas partes n√£o-humanas ou, melhor seria dizer, desumanizadas. E vejam se n√£o chegamos assim √† principal queixa que se faz √† medicina contempor√Ęnea! Se, por outra via, tentarmos reduzir a medicina a seu n√ļcleo duro – a intera√ß√£o m√©dico-paciente – e quisermos trabalhar com um outro modelo que n√£o a rela√ß√£o sujeito-objeto – por exemplo, uma rela√ß√£o sujeito-sujeito – vamos precisar de uma outra matriz conceitual que d√™ conta de explicar quais as condi√ß√Ķes de possibilidade de tal rela√ß√£o, mas para isso ser√° preciso deslocar o “eixo humanista” de modo a abrigar um cerne compartilhado de, ao menos, dois indiv√≠duos em igualdade de condi√ß√Ķes de fala. Seria preciso desarticular a medicina de sua face humanista. Seria preciso ent√£o, e vejam que ir√īnico falar desse modo nos dias de hoje, desumanizar a medicina.

O fato de o conceito de humano dividir o mundo em entes humanos e n√£o-humanos n√£o se constitui exatamente em um problema. “S√≥ √© preciso saber do que estamos dispostos a abrir m√£o em busca de nossa humanidade”, como escreve Vladimir Safatle [3], glosando o pr√≥prio Freud. Para Safatle, o que temos descartado como “inumano” se constitui em parte fundamental de nossa pr√≥pria humanidade e √© fonte de sofrimento social e tamb√©m cl√≠nico – da√≠ sua import√Ęncia para a medicina. O desafio dos humanistas √© construir um conceito inclusivo de humanismo que possa abrigar outras formas de ser do humano que n√£o se encaixem, ainda, no que √© considerado “humano” hoje. Uma medicina n√£o-humanista¬†poderia surgir, ent√£o, a partir da velha medicina que sempre se quis humana, mas que vem necessitando, recentemente, de estranhos e cada vez mais prevalentes “processos e protocolos de humaniza√ß√£o”.

 

[1] Soper, K. Humanism and Anti-humanism (Problems of modern European thought). Ed. Hutchinson. 1986.

[2] Apesar de haver quem pregue no Reino Unido o ateísmo não (ou anti)-humanista. Ver artigo no Guardian.

[3] Safatle, V. Grande Hotel Abismo РPor uma reconstrução da teoria do reconhecimento. Ed. WMF Martins Fontes РSão Paulo, 2012.

Arte com Papel

Via Street Anatomy.