Perguntinha Hemodin√Ęmica

Noah Ark at Swipnet

Qual a semelhan√ßa entre as press√Ķes arteriais de um cavalo, de um canguru, de um rato e de um pardal sabi√° com a press√£o arterial de um homem adulto?

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A Junção Angular/Supramarginal e as Viagens Astrais

From N Engl J Med 2007;357:1829-33.
Copyright © 2007 Massachusetts Medical Society. All rights reserved.

Quando eu era adolescente, minha m√£e, uma das maiores mentes m√≠stico-sincr√©ticas que j√° conheci, assinava um tipo de clube do livro que mudava a capa de alguns bestsellers e os entregava a domic√≠lio. Um dia, ela me deu um livro de capa dura e laranja e disse “voc√™, que fica questionando tudo, deveria ler isso!”. (Imagine o quanto eu n√£o devia ter torrado a paci√™ncia dela!) O livro era de um autor com nome bastante esquisito: Ter√ßa-Feira Lobsang Rampa. Li a “Terceira Vis√£o”. Depois, li “O M√©dico de Lhasa”. Achava interessante as narrativas com detalhes da vida no Tibete pr√©-ocupado. Posteriormente, descobriram que o tal Lobsang Rampa era um baita de um charlat√£o, um encanador na Inglaterra chamado Cyril Hoskins, mas at√© a√≠, ele j√° era um blockbuster com 20 livros publicados, uma legi√£o de seguidores e uma anota√ß√£o no Guinness de fraudes e cafagestagem em geral. At√© as mulheres que viveram com ele tiraram uma casquinha editorial (ver San Ra’ab Rampa e Sheelagh Rouse). Morreu negando as acusa√ß√Ķes e dizendo ter sido sequestrado espiritualmente pelo tibetano de quem assumiu o nome.

O que eu mais achava legal nos livros eram as tais viagens astrais. O indiv√≠duo sa√≠a do corpo e ficava olhando seu “inv√≥lucro” inerte, extendido em uma cama. Da√≠, poderia embarcar para os mais variados e long√≠quos logradouros, inclusive, no caso de nosso her√≥i, o planeta V√™nus (sim, est√° publicado!). Confesso que tentei, conforme as t√©cnicas descritas com extremo detalhe, realizar viagens astrais mas, o m√°ximo que consegui numa madrugada foi enfiar a cabe√ßa no estrado do beliche e ser mandado enfaticamente para “um local bem longe” pelo meu irm√£o, que dormia na cama de cima.

Mas não é que as viagens astrais são mesmo possíveis!! Um artigo do New England descreve um paciente que, após anos de tratamento ineficaz contra um torturante zumbido, foi submetido a uma estimulação estereotáxica (procedimento no qual são colocados eletrodos para estimulação em áreas cerebrais mapeadas e posicionadas com um sistema semelhante ao utilizado pelos GPS). Os médicos não conseguiram tratar o zumbido, mas ao estimular a junção dos giros cerebrais de nomes angular e supramarginal, o pobre (ou felizardo) paciente sentiu que saía de seu corpo! Foi uma viagem, digamos, curta: apenas 50 cm para trás. Também um pouco frustrante: o paciente não teve o que se convencionou chamar autoscopia Рa visão do próprio corpo! Mas já é alguma coisa.

O interessante dessas “desincorpora√ß√Ķes” √© que elas podem ser desencadeadas por crises epil√©pticas e at√© por enxaquecas. S√£o, segundo o conhecimento atual do problema, causadas por estimula√ß√£o de √°reas onde existe a integra√ß√£o de informa√ß√Ķes multissensoriais (visuais, proprioceptivas, etc). A estimula√ß√£o e algumas doen√ßas podem desconectar essas informa√ß√Ķes de modo que haja um descolamento entre as sensa√ß√Ķes dando uma impress√£o de desincorpora√ß√£o. Ainda n√£o existem relatos de que medita√ß√£o ou estados de transe (como em sess√Ķes esp√≠ritas) possam desencadear o processo, mas √© poss√≠vel. Drogas psicoativas teoricamente tamb√©m poderiam, mas h√° pouca literatura sobre isso. Depois, os m√©dicos fizeram resson√Ęncias funcionais para ver qual √°rea cerebral estava trabalhando mais intensamente durante a experi√™ncia de desincorpora√ß√£o e o resultado √© a foto acima. Um frenologista diria que encontrou-se o “centro da mediunidade”. Minha progenitora fatalmente diria “viu, viu?”. Mas ainda n√£o contei isso para ela…

√Č isso que d√° torrar a paci√™ncia de m√£e!

Agradecimento especial a T.A.

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Ainda a MBE

este post é a continuação deste

O julgamento de Paris

Qualquer artigo, aula ou texto que pretenda ensinar os princípios básicos da Medicina Baseada em Evidência (MBE) começa com o seguinte checklist: Tome um paciente; Faça uma pergunta relevante; Procure a melhor evidência para responder à questão; Critique as evidências; Aplique as evidências; Monitorize as mudanças.

Um m√©dico bem intencionado, mesmo antes de 1991 – ano em que as bases racionais da MBE foram lan√ßadas – faria exatamente isso ao defrontar-se com um paciente um pouco mais complexo. Qual a inova√ß√£o trazida pela MBE, ent√£o? Em primeiro lugar, houve uma sistematiza√ß√£o da procura num momento extremamente favor√°vel que foi a explos√£o da internet. (Lembro-me de procurar artigos no falecido Index Medicus – livr√Ķes enormes e cheios de p√≥ que ficavam expostos nas bibliotecas. Depois de marcar cada artigo, solicitava as revistas, uma por uma, ao bibliotec√°rio que as mandava pelo elevador a um outro funcion√°rio. Vinha a pilha de revistas e os artigos interessantes eram xerocados.)

Em segundo lugar, veio uma hierarquiza√ß√£o dos artigos, ou como queiram, das evid√™ncias. Alguns artigos valem mais que outros e o m√©dico precisa saber disso para tomar suas decis√Ķes. Isso at√© que n√£o foi dif√≠cil de entender, mas o que pouca gente sabe √© que a hierarquia dos artigos √© a seguinte, no caso de tratamento, do mais importante ao menos: Ensaio N-de-1; Revis√Ķes sistem√°ticas de ensaios randomizados; Ensaio randomizado; Revis√Ķes sistem√°ticas de estudos observacionais; Estudos observacionais; e por √ļltimo, observa√ß√Ķes cl√≠nicas n√£o-sistem√°ticas. O ensaio N-de-1 √© um ensaio onde podemos utilizar placebo ou tratamento ativo em apenas um √ļnico paciente, √© considerado um aperfei√ßoamento do processo informal de tentativa e erro t√£o usado na pr√°tica cl√≠nica. E aqui, somando o primeiro par√°grafo com esse, creio termos chegado a uma reposta √† pergunta deixada no post anterior: a MBE foi criada para ser uma atividade m√©dica PRIVADA.

Entretanto, n√£o sei se por ser oriunda da epidemiologia (ou at√© por m√° f√© de algumas medicinas de grupo), h√° uma invers√£o da aplica√ß√£o da MBE. Ningu√©m faz a pergunta que inicia todo o processo de busca sistem√°tica pela informa√ß√£o que levar√° o m√©dico finalmente, √† sua tomada de decis√£o. A informa√ß√£o vem primeiro e tem a inten√ß√£o de sobrescrever o m√©dico; impedi-lo de perguntar e pensar. O m√©dico deve se render “√†s evid√™ncias” e fazer o que se espera que algu√©m racional fa√ßa: obedecer perante a for√ßa das informa√ß√Ķes geradas pelo m√©todo cient√≠fico. A profus√£o de guidelines, consensos e diretrizes de tratamento e diagn√≥stico das mais variadas formas de perecimento humano √© sintom√°tica. As sociedades m√©dicas, quando perguntadas se n√£o estariam “legislando” sobre a Medicina, respondem que “n√£o, de forma alguma, isso √© apenas um guia, tendo o m√©dico autonomia para n√£o segui-lo”. Na pr√°tica, isso infelizmente n√£o ocorre. O sequestro da MBE – de seus resultados pragm√°ticos e de suas consequ√™ncias l√≥gicas na forma de gera√ß√£o de diretrizes m√©dicas – pelas medicinas de grupo, fontes pagadoras dos m√©dicos, transforma diretrizes em leis. Isso vem bem de encontro √† onda padronizante que os servi√ßos hospitalares v√™m sofrendo nas √ļltimas d√©cadas. Mas os m√©dicos tamb√©m t√™m sua parcela de responsabilidade nesse processo.

Se pensarmos um pouco melhor, veremos que a MBE √© uma ferramenta de aplica√ß√£o de conhecimentos p√ļblicos em pacientes individuais (privados). Eterna tens√£o da Medicina. Numa sociedade tecnologizada, diretrizes e comportamentos padronizados, de prefer√™ncia hiperespecializados, s√£o requeridos pelos pr√≥prios membros da sociedade e tamb√©m pelos m√©dicos pois aliviam a tens√£o causada pela tomada de decis√£o.

N√£o se pode atribuir a decis√£o de tratar ou n√£o, operar ou esperar, observar ou intervir a um artigo ou conjunto de artigos m√©dicos. A decis√£o final caber√° sempre ao m√©dico do paciente. A a√ß√£o do m√©dico deve, sem d√ļvida, ser guiada pela melhor evid√™ncia existente. “Seguir ou n√£o, ou adaptar tal recomenda√ß√£o vai depender exclusivamente de circunst√Ęncias que estar√£o presentes apenas naquele paciente, naquela determinada situa√ß√£o que dever√° ser julgada por aquele m√©dico espec√≠fico.” Essa decis√£o depende do poder de julgamento, bastante em falta hoje em dia.

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Medicina baseada em evid√™ncias: o p√ļblico e o privado

A medicina baseada em evid√™ncias (MBE) surgiu em 1991 , com o prop√≥sito inicial de, a partir do paciente, estabelecer a melhor conduta investigativa e/ou terap√™utica, baseando-se exclusivamente no melhor da literatura m√©dica publicada. Fundamentalmente, este √© um debate sobre epistemologia pois aborda de onde o conhecimento m√©dico vem ou, pelo menos, de onde deveria vir. Duas vis√Ķes m√©dico-cient√≠ficas polarizam esse campo epistemol√≥gico: uma vis√£o identifica o conhecimento m√©dico com expertise, atribuindo credenciais a uma autoridade reconhecida. √Č tamb√©m, uma vis√£o que refor√ßa um certo personalismo, pois o processo que produz o conhecimento √© centrado numa experi√™ncia pessoal. O sistema da autoridade/experi√™ncia do m√©dico como fonte de saber √© antiq√ľ√≠ssimo e extremamente arraigado na medicina; √© excludente (pois inibe opini√Ķes contr√°rias), autorit√°rio e baseado nas conclus√Ķes de um indiv√≠duo apenas ou, quando muito, um servi√ßo ou escola. Quando o conhecimento m√©dico entretanto, √© baseado nas melhores evid√™ncias dispon√≠veis, nada disso pode ser defendido. De certa forma, isso democratiza o conhecimento e, no m√≠nimo, o abre √† discuss√£o.

Com esse tipo de “compartilhamento comunicativo”, nada mais natural ent√£o, que a MBE tenha se tornado um paradigma da racionalidade m√©dica. Mais que isso, tornou-se quase um imperativo √©tico, pois n√£o se pode admitir um m√©dico que n√£o forne√ßa o melhor dispon√≠vel na literatura m√©dica para seu paciente. O apelo desse tipo de abordagem foi t√£o poderoso, que a pr√≥pria rea√ß√£o da sociedade m√©dica a ela j√° foi, em si, um sinal de sua pr√≥pria necessidade. A tal ponto que a sociedade leiga, ao ver o entusiasmo como foram acolhidos os conceitos e os princ√≠pios da MBE, vem propondo abordagens baseadas em evid√™ncias para educa√ß√£o e outras √°reas das ci√™ncias.

Mas como quase sempre o entusiasmo leva a certos exageros, uma maliciosa confus√£o ocorre desde quando foram lan√ßadas as bases racionais para a MBE em 1991. Muito j√° se escreveu e debateu sobre isso, mas acredito que uma outra abordagem seja √ļtil para entendermos o problema. √Č a confus√£o (eterna) entre o p√ļblico e o privado.

Se aceitarmos que um m√©dico det√©m um saber-poder, esse saber-poder poder√° efetuar-se na esfera privada ou p√ļblica. A figura acima mostra as principais poss√≠veis √°reas de atua√ß√£o do m√©dico. Um m√©dico pode atuar de forma coletiva em popula√ß√Ķes, seja atrav√©s de estudos epidemiol√≥gicos, seja atrav√©s da atua√ß√£o em uma institui√ß√£o. Pode tamb√©m trabalhar em um laborat√≥rio, com c√©lulas ou peda√ßos de c√©lulas. E, por fim, pode exercer sua fun√ß√£o em seu pr√≥prio consult√≥rio. Nesse momento, √© √ļtil formularmos a pergunta: o saber, suas consequ√™ncias e as responsabilidades que advir√£o de cada intera√ß√£o em cada √°rea pertencem a qual esfera? P√ļblica ou Privada? Ao aplicarmos a f√≥rmula √†s rela√ß√Ķes da figura, fica claro que a √ļnica atividade privada √© o consult√≥rio particular de cada m√©dico.

Ent√£o, cabe a pergunta: A Medicina Baseada em Evid√™ncias pertence a esfera p√ļblica ou privada?

Ver a continuação desse post aqui

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Deus e o Diabo

Ao Kentaro

H√° v√°rias formas de encurralar um te√≠sta em uma discuss√£o religiosa. Uma das mais batidas √© falar sobre a presen√ßa do Mal no mundo. Qualquer te√≠sta que se preze deve dar um sorriso amarelo nesse momento e, cheio de gestos e express√Ķes, desfilar um conte√ļdo complexo de explica√ß√Ķes, algumas bem mirabolantes. O problema surge quando o te√≠sta admite quatro afirma√ß√Ķes, a saber: 1) Deus √© onipotente (todo-poderoso); 2) Deus √© onisciente (sabe de tudo); 3) Deus √© infinitamente benevolente (s√≥ deseja o Bem); 4) O Mal existe. Posto isso, o pobre te√≠sta ter√° de rebolar um pouco para fugir da incoer√™ncia dessas afirma√ß√Ķes, pois elas n√£o podem ser verdadeiras ao mesmo tempo. Ora bem, se o Mal existe ou a) Deus n√£o pode evit√°-lo; b) Deus n√£o sabe como evit√°-lo; e/ou c) Deus n√£o deseja evit√°-lo; contradizendo as afirma√ß√Ķes 1, 2 e 3, respectivamente. O assunto √© coisa para Santo Agostinho e outros te√≥logos de grande erudi√ß√£o, da√≠ as dificuldades de nosso interlocutor.
Mas, no melhor estilo Deus e o Diabo na Terra do Sol, lendo Hannah Arendt (A Condi√ß√£o Humana) encontrei o correspondente dessa “saia justa te√≠sta” para os ateus. Se l√° o problema era o Mal, aqui a quest√£o √© a Bondade no mundo. Sen√£o, vejamos. Arendt, na p√°gina 85, come√ßa por afirmar que “a bondade s√≥ pode existir quando n√£o √© percebida, nem mesmo por aquele que a faz; quem quer que se veja a si mesmo no ato de fazer uma boa obra deixa de ser bom; ser√°, no m√°ximo, um membro √ļtil da sociedade ou zeloso membro da Igreja”. Repare aqui que bondade √© bem diferente de caridade. Continua, concluindo que nenhum homem pode portanto, ser bom. Da√≠, compara a bondade com a sabedoria: “Isso nos lembra a grande vis√£o de S√≥crates de que nenhum homem pode ser s√°bio, de onde resulta o amor √† sabedoria, ou filo-sofia; toda a vida de Jesus parece atestar que o amor √† bondade resulta da compreens√£o de que nenhum homem pode ser bom. O amor √† sabedoria e o amor √† bondade, que se resolvem nas atividades de filosofar e de praticar boas a√ß√Ķes, t√™m em comum o fato de que cessam imediatamente – cancelam-se, por assim dizer – sempre que se presume que o homem pode ser s√°bio ou ser bom”.
Acho que até este momento, não temos dificuldades em aceitar esses argumentos, não é mesmo? Continuemos, então.
As semelhan√ßas, entretanto, param por aqui. As diferen√ßas entre o amor √† sabedoria e o amor √† bondade, entre o fil√≥sofo e o homem bom, podem ser entendidas por meio da compreens√£o dos conceitos de isolamento e solid√£o. Um fil√≥sofo √© solit√°rio. Entretanto, para Plat√£o (G√≥rgias), estar em solid√£o significa estar consigo mesmo; e, portanto, o ato de pensar, embora possa ser a mais solit√°ria das atividades, nunca √© feito inteiramente sozinho. J√° o amante da bondade n√£o se permite viver uma vida solit√°ria – quem faz o bem o faz a algu√©m – e no entanto, a vida que passa na companhia dos outros e por amor aos outros deve permanecer essenciamente sem testemunhas – para poder ser bom de verdade, deve lhe faltar inclusive a companhia de si pr√≥prio. Ele √© isolado. “O fil√≥sofo sempre pode contar com a companhia dos pensamentos, ao passo que as (boas) obras n√£o podem ser companhia para ningu√©m: devem ser esquecidas a partir do instante em que s√£o praticadas, porque at√© mesmo a mem√≥ria delas destr√≥i sua qualidade de ‘bondade'”. Ou seja, a Bondade transmutaria-se em Orgulho.
O portador desse tipo sublime de bondade tem como produto de suas a√ß√Ķes obras que devem ser intang√≠veis a ele. Ele n√£o pode falar delas (seria Arrog√Ęncia) e nem mesmo lembrar delas (seria Soberba). √Č um ser com um grau de isolamento tal que √© incompat√≠vel com a condi√ß√£o humana da pluralidade. Esse estado n√£o pode ser suportado durante muito tempo; e a conclus√£o de Arendt √© que tal estado “requer a companhia de Deus, a √ļnica testemunha admiss√≠vel das boas obras, para que n√£o venha a aniquilar inteiramente a exist√™ncia humana.”
Isso é de uma crueza incomum em Hannah, mulher-filósofa, de raciocínio claro, delicado (como quando vai criticar Marx) e brilhante. Confesso que fiquei dias pensando sobre isso e resolvi compartilhar no blog.
Seria esse estado de bondade suprema incompatível com a inexistência de uma divindade?

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Animação Suspensa

Com essa express√£o, cientistas de 3 d√©cadas atr√°s descreviam o estado bastante procurado e pesquisado, onde um indiv√≠duo estivesse com o metabolismo celular reduzido a fun√ß√Ķes estritamente b√°sicas (manuten√ß√£o de membrana celular, equil√≠brio osm√≥tico, etc) a ponto de poder ser resgatado e restituir plenamente suas fun√ß√Ķes normais. Seria a imortalidade, m√°quina do tempo! Poder conservar-se e ver o futuro…
A anima√ß√£o suspensa n√£o est√° mais na moda (apesar de existirem pesquisas rolando) mesmo na fic√ß√£o cient√≠fica e, hoje, sabemos que algumas situa√ß√Ķes s√£o de fato, irrevers√≠veis. Mas um blog pode realizar v√°rios sonhos. Inclusive este.
Este blog entrará em um pequeno recesso, nas próximas 2 semanas. Uma animação suspensa que, tomara, traga uma visão de futuro mais otimista.

Luz no T√ļnel

Com uma iniciativa conjunta entre o Minist√©rio da Sa√ļde, Funda√ß√£o Oswaldo Cruz e a Biblioteca Regional de Medicina (Bireme),¬†o Brasil se junta a pa√≠ses como Gr√£-Bretanha, Jap√£o, Austr√°lia, pelo menos, no que se refere ao registro dos ensaios cl√≠nicos que s√£o realizados¬†dentro de suas fronteiras. Qual √© a relev√Ęncia desse registro?
Primeiro precisamos entender o que √© um ensaio cl√≠nico. Como descreve a profa. Isabela Bense√Īor: “Ensaio cl√≠nico √© qualquer tipo de estudo que avalie os efeitos cl√≠nicos, farmacol√≥gicos ou colaterais de medicamentos ou qualquer tipo de tratamento em seres humanos. Existem normas muito precisas para condu√ß√£o desse tipo de estudo. No Brasil, os estudos em seres humanos t√™m que ser aprovados pelo Comit√™ de √Čtica das Institui√ß√Ķes e est√£o sujeitos a v√°rias regulamenta√ß√Ķes do CONEP (Conselho Nacional de √Čtica em¬†Pesquisa) e da ANVISA (Ag√™ncia de Vigil√Ęncia Sanit√°ria).” Pelo seu poder de resolu√ß√£o, o ensaio cl√≠nico √© um dos estudo de maior peso em um decis√£o m√©dica.
Exatamente pela mesma raz√£o, o ensaio cl√≠nico √© utilizado por ind√ļstrias farmac√™uticas para demonstrar os efeitos de uma determinada medica√ß√£o sobre uma doen√ßa ou estado patol√≥gico qualquer. Quando o resultado √© positivo, o estudo, normalmente¬†publicado em alguma revista de impacto, √© divulgado √† exaust√£o. S√£o¬†milhares de c√≥pias distribu√≠das (e, naturalmente, pagas ao per√≠odico) e traduzidas aos m√©dicos, num verdadeiro bombardeio no intuito de demonstrar que a prescri√ß√£o do medicamento faz parte da melhor pr√°tica poss√≠vel para aquele determinado paciente.
At√© a√≠, tudo bem. A coisa come√ßa a ficar interessante quando o estudo n√£o resulta naquilo que os autores pr√©-determinaram. J√° discutimos aqui o que se convencionou chamar¬†vi√©s de¬†divulga√ß√£o.¬†Os estudos negativos s√£o menos badalados, divulgados e lidos que os positivos. Mas al√©m disso, muitas ind√ļstrias farmac√™uticas de fato “escondem” os estudos que fornecem resultados que n√£o interessam a elas (ver o exemplo do¬†ENHANCE e o blog do Paulo Lotufo para informa√ß√Ķes mais detalhadas).
Um registro como esse que agora o Brasil tem, impede que pesquisas nas quais se gastam milh√Ķes, sejam abandonadas no fundo de uma gaveta ao sabor de estrat√©gias de mercado. Mesmo estudos considerados negativos podem trazer informa√ß√Ķes importantes sobre os pacientes e no m√≠nimo s√£o um banco de dados interessante. Luz nas trevas.

Doctors Talk: Ceasefire

 Gaza’s Children at PMRS site

Two humanitarian organizations deserve mention for occasion of the attacks that occur in Gaza. The Palestinian Medical Relief Society (PMRS) is the largest non-governmental healthcare agency in Palestine. PMRS “carries out a variety of programs from organizing village health committees to offering community-based first aid training to establishing mobile clinics. PMRS is a leading advocate for national health care delivery”.

The second, Physicians for Human Rights-Israel “was founded in 1988 with the goal of struggling for human rights, in particular the right tho health, in Israel and the Occupied Territories. Human dignity, wellness of mind and body and the right to health are at the core of the world view of the organization and direct instruct our activities and efforts on both the individual and general level”.

Together, they publish alerts about population conditions at occupied territories. The last yesterday at Palestine Monitor and  PHR-Israel site. The dramatic alert is the following:

“The most recent escalation of the Israeli attack against the Gaza population has led to further chaos and destruction and to rising numbers of casualties. The Palestinian Medical Relief Society and Physicians for Human Rights-Israel call for urgent and immediate intervention by the international community, and especially the Quartet, for the enforcement of an immediate ceasefire.

In addition to total closure of all crossings and destruction of essential infrastructures including electricity, running water, communications and roads, hospitals are on the verge of collapse due to overload and the inability to provide adequate intensive care to the high numbers of casualties. External evacuation of the sick and wounded is completely prohibited. Due to telephone and mobile communication failures, dangerous conditions, and the limited number of foreign press on the ground, there are growing difficulties reporting the situation to the outside world. The Palestinian Medical Relief Society and Physicians for Human Rights-Israel call for urgent and immediate intervention by the international community, and especially the Quartet, for the enforcement of an immediate ceasefire.”

Doctors sit together at the same table, talk about their problems, seek for solutions to suffering people at this dramatic situation. That this example could be followed by politicians and leaderships of both sides of the conflict in order people stop suffer and die.

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A Dádiva da Doença

A Sindrome da Imunodefici√™ncia Adquirida (SIDA ou AIDS) √© causada por um retrov√≠rus, o HIV, que provoca uma redu√ß√£o dr√°stica na popula√ß√£o de linf√≥citos CD4 (c√©lulas brancas important√≠ssimas na imunidade do organismo) causando o espectro bastante conhecido da doen√ßa. A epidemia que acomete a humanidade desde suas primeiras descri√ß√Ķes na d√©cada de 80, provocou uma explos√£o de artigos sobre o assunto, o que culminou com o pr√™mio Nobel de Medicina de 2008. O sequenciamento do v√≠rus, uma simples fita de RNA, e o sequenciamento de nosso genoma trouxeram √† luz uma enorme surpresa quando descobriu-se que a correspondente sequ√™ncia em DNA do genoma viral estava muito bem integrada ao genoma humano, os chamados retrov√≠rus end√≥genos ou ERVs. As melhores cabe√ßas do mundo come√ßaram a procurar explica√ß√Ķes.

Desde a descoberta do DNA, havia uma enorme dificuldade em se explicar a grande variedade de caracter√≠sticas e complexidade dos seres vivos. Bi√≥logos insistiam que a complexidade resultava de pequenos erros (muta√ß√Ķes) que ocorriam quando o genoma era copiado e passado para gera√ß√Ķes futuras. Mas essas pequenas varia√ß√Ķes n√£o davam conta das altera√ß√Ķes observadas nem da velocidade com que elas ocorreram. Perguntas inc√īmodas como: Como nosso genoma aumentou tanto em t√£o pouco tempo? Por que temos tanto “lixo” gen√©tico nele? Por que tantos genes n√£o-funcionantes? Surgiu ent√£o, uma hip√≥tese de que os v√≠rus pudessem ter um papel na evolu√ß√£o dos seres vivos.

Hoje, essa linha de pesquisa já está consolidada. Há evidências para supormos que os vírus de RNA estariam presentes mesmo antes do aparecimento dos LUCA (termo proveniente da sigla em inglês para Last Universal Cellular Ancestor) Рexpressão que indica a primeira célula precursora dos três domínios celulares atuais, a saber Archea, Eucariotas e Bactérias.


Phylogenetic tree showing the relationship between the archaea and other forms of life. Eukaryotes are colored red, archaea green and bacteria blue. Adapted from Ciccarelli et al. at Wikipedia.

Mais ainda, h√° ind√≠cios de que os v√≠rus de RNA podem de fato, ter proporcionado a diferencia√ß√£o celular nos tr√™s tipos b√°sicos de c√©lulas. Uma teoria sugere que o DNA apareceu primeiro em estruturas virais por ser mais est√°vel e por replicar-se de forma mais confi√°vel. A partir disso, foi injetado por interm√©dio dos v√≠rus em c√©lulas primitivas – da mesma forma como ainda hoje ocorre – que se adaptaram a essa “doen√ßa” de v√°rias formas, restando tr√™s, que seriam as formas primordiais dos tr√™s reinos atuais. Essa √© a chamada ‚Äúthree viruses three domains hypothesis‚ÄĚ (Ver Forterre).

Mais interessante ainda seria a origem do n√ļcleo dos eucariotas. Talvez esse seja um dos grandes mist√©rios da evolu√ß√£o dos seres primordiais. O aparecimento do n√ļcleo tem sido explicado pelo endocitose de um archaeon ancestral por uma “paleo”-bact√©ria, processo denominado endo-simbiose e utilizado para explicar o aparecimento de outras organelas celulares. Entretanto, essa hip√≥tese n√£o explica diferen√ßas proteicas existentes entre os reinos. De fato, o n√ļcleo produzido dessa forma n√£o d√° conta do aparecimento de poros em sua membrana, al√©m do que esta √ļltima deveria ser dupla (uma de cada indiv√≠duo de origem). Em 2001, foi sugerido que o n√ļcleo se originaria de um v√≠rus de DNA com dupla fita que infectou organismos procariotas. Essa hip√≥tese resolve o problema dos poros e da duplicidade da membrana nuclear. Realmente, existem v√≠rus com a capacidade de produzir estruturas assim: os poxv√≠rus.

S√≥ para lembrar, pertence √† fam√≠lia dos poxv√≠rus o v√≠rus causador da var√≠ola (al√©m do repons√°vel pelo molusco contagioso), praga que assolou a humanidade desde a antiguidade e que foi a primeira doen√ßa considerada extinta pela OMS por interm√©dio da vacina√ß√£o em massa. N√£o existe almo√ßo gr√°tis. Quando adquirimos uma complexidade, adquirimos junto, uma doen√ßa. Os v√≠rus s√£o o exemplo cl√°ssico disso. S√£o subprodutos do projeto de vida vigente nesse planeta. S√£o “c√≥digos de m√°quina” e por isso mesmo podem incrementar ou acabar com ela de vez.

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Davi e Golias


Davi e Golias na Wikipedia

Enquanto na Palestina, Davi enfrenta Golias com sua funda, a imprensa internacional racionaliza o massacre, e o mundo se cala. O conceito de ra√ßa predomina. A ci√™ncia dos homens n√£o aumenta a toler√Ęncia, muito menos Yahweh.

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