A Febre Hemorr√°gica do Ebola

Em 1976, no antigo Zaire, hoje Rep√ļblica Democr√°tica¬†do Congo (RDC), uma estranha e desconhecida doen√ßa caracterizada por febre alta, hemorragias na pele e nos √≥rg√£os internos, come√ßou a acometer os moradores de uma pequena cidade¬†ribeirinha chamada Yambuku. A mortalidade chegou a¬†quase 90% e chamou a aten√ß√£o das autoridades. Ap√≥s aux√≠lio internacional, um grupo de pesquisadores descobriu que o agente causador era um v√≠rus filamentoso da mesma fam√≠lia do Marburg descrito na Alemanha, quase uma d√©cada antes. O v√≠rus foi batizado como Ebolavirus (pronuncia-se √©bola) dado que a doen√ßa j√° era conhecida como Febre Hemorr√°gica do Ebola, segundo o rio que banhava a cidade, tribut√°rio do Mongala¬†que, por sua vez, desemboca no grande rio do Congo.

No mesmo ano, nas cidades de Maridi e¬†Nzara, Sud√£o do Sul, a mais de 1000 km em linha reta ao norte de Yambuku, uma epidemia com caracter√≠sticas muito semelhantes tamb√©m eclodiu. Pesquisadores encontraram uma variante do mesmo v√≠rus do Ebola nos pacientes acometidos. Outras epidemias surgiram no final da d√©cada de 70, n√£o s√≥ na √Āfrica, o que, ao fim e ao cabo, permitiu a identifica√ß√£o de 5 sorotipos da fam√≠lia Ebola:¬†1. Bundibugyo ebolavirus (BDBV);¬†2. Zaire ebolavirus (EBOV); 3.¬†Reston ebolavirus (RESTV); 4.¬†Sudan ebolavirus (SUDV); 5.¬†Ta√Į Forest ebolavirus (TAFV). O RESTV foi encontrado em macacos importados de Mindanao, nas Filipinas, para Reston, Virginia, nos Estados Unidos e n√£o √© considerado causador de doen√ßa humana.

O comportamento epidemiol√≥gico estranho do Ebola n√£o parou por a√≠. Ap√≥s ter aparecido na √Āfrica em 1976 – 1979, ele simplesmente sumiu¬†das estat√≠sticas at√© 1994. Acredita-se que permaneceu oculto, circulando em seus reservat√≥rios naturais. Um reservat√≥rio natural de um pat√≥geno √© um hospedeiro, animal ou inseto, que por n√£o apresentar as caracter√≠sticas da doen√ßa, “convive” com o agente de forma pac√≠fica. No Brasil, tatus s√£o reservat√≥rios para doen√ßa de Chagas e morcegos podem abrigar o v√≠rus da raiva. O problema √© que, no caso do Ebolavirus, esse reservat√≥rio, at√© hoje pelo menos, n√£o foi confirmado, suspeitando-se de roedores e morcegos j√°¬†que seu primo, o Marburg, tem como reservat√≥rio um morcego de caverna (o¬†Rousettus aegyptiacus).

A Febre Hemorr√°gica do Ebola √© o prot√≥tipo de uma¬†zoonose. Uma zoonose √© uma doen√ßa transmitida por animais (e.g. Raiva), e tamb√©m n√£o foram¬†encontrados vetores para a doen√ßa. Um vetor √© um bicho (pode ser animal ou inseto) que transmite determinada doen√ßa (e.g. o mosquito da Dengue, Aedes aegypti). O comportamento esquivo das epidemias poderia ser explicado por situa√ß√Ķes que alterariam o ecossistema dos reservat√≥rios proporcionando altos √≠ndices de infec√ß√£o nos humanos de tempos em tempos.

Quadro Clínico

O per√≠odo de incuba√ß√£o da doen√ßa √© de 4 a 10 dias (variando de 2 a 21). √Č, logo de in√≠cio, uma doen√ßa sist√™mica¬†(como s√£o por exemplo, os casos de infec√ß√£o generalizada por bact√©rias – sepse -, as vasculites de causas imunol√≥gicas, a pancreatite aguda necro-hemorr√°gica, grandes queimados e politraumatismos extensos), o que dificulta seu tratamento e aumenta sua gravidade. O paciente sente-se extremamente indisposto, com dor abdominal, n√°useas e v√īmitos (que podem conter sangue), diarreia (com ou sem sangue), falta de ar, tosse, press√£o baixa, dor de cabe√ßa, confus√£o mental e coma. Podem ocorrer hemorragias cut√Ęneas e viscerais e a pele costuma descamar para cicatrizar ad integrum nos sobreviventes. Um quadro chamado de coagulopatia intravascular pode ocorrer e √©, em geral, fatal. Virtualmente, todos os vasos sangu√≠neos do organismo podem sangrar e o quadro √© realmente dram√°tico. Tal problema n√£o √©, infelizmente, incomum em casos graves causados por outras doen√ßas e n√£o √© uma exclusividade do Ebola. A Dengue, por exemplo, √© a febre hemorr√°gica mais comum do planeta.

Mortalidade

A virul√™ncia¬†do Ebola parece depender do sorotipo causador. A mais letal parece ser a EBOV seguida pela SUDV, com¬†60‚Äď90% e 40-60% de case-fatality (porcentagem de pessoas que contra√≠ram a doen√ßa e que vieram a falecer dela, direta ou indiretamente), respectivamente, o que √© muito. Devemos lembrar, entretanto, que tais epidemias ocorreram em locais onde os cuidados m√©dicos estavam longe de ser ideais o que pode falsear as estat√≠sticas. De qualquer forma, √© uma doen√ßa muito grave.

Modo de Infecção

O Ebolavirus parece penetrar no organismo humano atrav√©s de superf√≠cies mucosas, les√Ķes cut√Ęneas, ferimentos ou pelo sangue. Muitas das infec√ß√Ķes causadas em humanos, em especial o grande contingente de agentes da sa√ļde, parecem ter ocorrido pelo contato direto com pacientes infectados. Part√≠culas de RNA vital foram encontradas no esperma e secre√ß√Ķes vaginais de pacientes, bem como em outros fluidos como secre√ß√Ķes nasais. Ferimentos acidentais por agulhas e material contaminado s√£o importantes rotas de infec√ß√£o. As epidemias africanas da d√©cada de 70 foram atribu√≠das ao consumo de morcegos e macacos. N√£o √© confirmada, at√© o momento, a transmiss√£o por aeross√≥is.

Ebola

Copyright The Lancet, 2011

Precau√ß√Ķes e Tratamento

O isolamento dos pacientes é uma eficiente medida de proteção já que o tratamento específico ainda é objeto de pesquisas. Medidas de suporte precoces como hidratação e cuidados intensivos são muito importantes e fazem grande diferença na mortalidade. Entretanto, há que se chamar a atenção para o caso dos dois agentes sanitários americanos recentemente submetidos a uma terapia experimental para o tratamento da doença contraída em campo. Kent Brantly e Nancy Writebol contraíram a Febre Hemorrágica do Ebola na Libéria trabalhando em uma organização cristã de auxílio às vítimas da doença. Apesar do protesto absurdo de alguns sobre a repatriação de americanos infectados, o fato é que, baseados em um relato de caso no qual o soro de pacientes sobreviventes conseguira reverter a doença, um consórcio de pesquisadores conseguiu desenvolver uma solução com anticorpos monoclonais contra determinados antígenos imunogênicos do vírus e curar os dois missionários, fato amplamente divulgado na mídia.

Futuro

N√£o √© imposs√≠vel que a Febre Hemorr√°gica do Ebola desembarque no Brasil.¬†Contam¬†a nosso favor,¬†seu modo peculiar de transmiss√£o, seus poss√≠veis reservat√≥rios (ausentes aqui?), nossa experi√™ncia em tratar¬†a dengue hemorr√°gica e nosso sistema de sa√ļde, que se n√£o √© a segunda maravilha do mundo, √© bastante superior e estruturado comparado ao da maioria dos pa√≠ses africanos. Contra n√≥s, pesa nossa eterna inefici√™ncia sanit√°ria e as grandes conglomera√ß√Ķes nas cidades.

De vez em quando, uma epidemia qualquer com “potencial” de exterm√≠nio da humanidade “aporta” neste blog. Gosto de¬†citar como exemplo minha pior experi√™ncia com tais epidemias que foi com a S√≠ndrome de Weil, a forma hemorr√°gica da leptospirose humana, na epidemia ocorrida em S√£o Paulo no final dos anos 90. Naquela √©poca, de enchentes, diga-se de passagem, a doen√ßa transmitida pela conviv√™ncia prom√≠scua com roedores, atingiu em cheio a parte mais pobre da popula√ß√£o. Ver homens, mulheres e crian√ßas em macas sangrando por quase todos os orif√≠cios foi das minhas piores viv√™ncias que tive como m√©dico. Passou. Estamos aqui. No caso do Ebola, j√° temos at√© o caminho a seguir para conseguir a cura. Resta saber se as institui√ß√Ķes envolvidas na descoberta do “soro m√°gico” contra a doen√ßa possibilitem sua oferta¬†para quem mais necessita. Isso sim, a possibilidade de me decepcionar uma vez mais com a esp√©cie humana, me d√° um medo desgra√ßado.

Bibliografia

ResearchBlogging.orgFeldmann, H., & Geisbert, T. (2011). Ebola haemorrhagic fever The Lancet, 377 (9768), 849-862 DOI: 10.1016/S0140-6736(10)60667-8

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