O Bumbum de Gisele

http://images.askmen.com/galleries/model/gisele-bundchen/pictures/gisele-bundchen-picture-4.jpgNormalmente, as doen√ßas s√£o associadas ao feio ou mesmo √† repugn√Ęncia. Essa semana, me fizeram uma pergunta muito interessante. Haveria alguma doen√ßa ou anomalia que pudesse causar um efeito esteticamente mais agrad√°vel? Que desafio! Pensei v√°rias coisas. A doen√ßa de Addison e a hemocromatose d√£o uma colora√ß√£o bronzeada √† pele – a la √ćndia – que me pareceu interessante, mas insuficiente para um efeito est√©tico de impacto. A anorexia nervosa perdeu muito de seu apelo est√©tico na era p√≥s-AIDS. Mesmo as modelos, mudaram o prot√≥tipo de seus corpos depois dela. A pr√≥pria Gisele B√ľndchen… ops, sim, Gisele! Acho que tenho uma resposta!

Gisele B√ľndchen √© a top model mais badalada do mundo. Quando surgiu, me lembro de avalia√ß√Ķes dizendo que seu sucesso era devido ao fato de n√£o ser t√£o magrela quanto as outras e ter, digamos, seios e gl√ļteos mais fartos que suas concorrentes. Quanto aos bel√≠ssimos seios, nada a dizer (s√≥ a suspirar…). Quanto aos gl√ļteos, bem, acho que podemos revelar alguns segredos da top.

Gisele tem uma pequena deformidade da coluna lombar chamada lordose. A lordose e a cifose s√£o acentua√ß√Ķes de curvaturas normais da coluna vertebral, como mostra a figura ao lado. (Ver interessante post sobre as vantagens evolutivas da lordose nas mulheres no RNAm). Al√©m disso, para desfilar e posar, ela exagera essa curvatura, dando ao seu quadril e bumbum um aspecto, digamos, bastante agrad√°vel ; ), como mostra a figura. Repare (se conseguirem), que a coluna lombar desenha um sulco bastante profundo nas costas da modelo. Os ombros jogados para tr√°s facilitam essa postura e, sua viradinha na passarela, uma de suas marcas registradas, √© cl√°ssica nessa posi√ß√£o.

Entretanto, a lordose √© uma deformidade que se for muito acentuada √© pass√≠vel at√© de corre√ß√£o cir√ļrgica pois pode dificultar a marcha. Essa foto ao lado (), mostra uma menina anormalmente magra com uma acentuada lordose. Note como, mesmo sendo muito magra, o bumbum fica empinado. O inconveniente dessa postura √© que, mesmo a menor gordurinha abdominal, faz aparecer uma barriguinha indesej√°vel. Mas, convenhamos. No caso de Gisele, √© dif√≠cil prestar aten√ß√£o nesses detalhes.

Com essa est√≥ria, acabei por refletir sobre a rela√ß√£o entre deformidades anat√īmicas e beleza. As formas curvas e sinuosas sempre foram associadas √† feminilidade e a beleza. Ao avaliar a primeira foto de Gisele acima lembrei de uma outra, tamb√©m um modelo feminino. Numa √©poca em que as mulheres bonitas eram bem mais rechonchudas do que os padr√Ķes de beleza exigem hoje, Sandro Botticelli pintou o quadro “O nascimento de V√™nus” (mais ou menos em 1485). Quem v√™ o quadro todo, a leveza dos tecidos, a harmonia das figuras e a extrema beleza da V√™nus, n√£o se d√° conta de seu pesco√ßo extremamente alongado e do descaimento absurdo de seus ombros. Esse tipo de deformidade √© visto em pacientes que se submeteram a um antigo procedimento para tratamento de tuberculose – a toracoplastia – e, garanto-lhes, n√£o √© nada bonito. De onde Botticelli tirou esse tipo de postura? Baseado no que, p√īde ele combinar a anatomia levemente deformada de v√°rias partes do corpo para criar um padr√£o de beleza √ļnico? E por que achamos que uma mulher de pesco√ßo comprido e ombro ca√≠do, e outra, com uma deformidade na coluna, s√£o t√£o belas?

O Nascimento da Vênus РSandro Botticelli (cerca 1485)

Conclus√£o: se nem todas as doen√ßas e/ou deformidades s√£o associadas a fei√ļra; o imperfeito, o anormal, o incomum tamb√©m podem gerar o belo. Se √© poss√≠vel ver o belo na imperfei√ß√£o √© porque “beleza” √© diferente de “perfei√ß√£o anat√īmica”. Ent√£o, √© isso que Gisele me ensina como deusa est√©tica que √©! Pe√ßo ent√£o, que os deuses e deusas da medicina me ensinem sempre a ver o ser humano para al√©m da doen√ßa. Me ensinem tamb√©m j√°, se n√£o for pedir muito, a desfocar meus olhos das repeti√ß√Ķes supernormais da vida de modo que eu possa compreender a f√ļria luxuriante de uma reden√ß√£o est√©tica da humanidade e n√£o me deter na sua an√™mica e total falta de sentido.

Atualização

Tive que trocar a foto da menina porque o site original saiu do ar (2x)

Battisti, Lula e a Prática Médica

O Ecce Medicus n√£o √© um blog sobre pol√≠tica. Entretanto, o caso Battisti se desenrolou de tal forma que gostaria de us√°-lo como exemplo para discutir o car√°ter das decis√Ķes m√©dicas. O leitor dever√° estar pensando “mas o que isso tem a ver?” Eu digo que bastante, como tentarei mostrar nas pr√≥ximas linhas. Um resumo da hist√≥ria pode ser encontrado aqui e cada um pode tirar suas pr√≥prias conclus√Ķes sobre a legitimidade da extradi√ß√£o.

Cesare Battisti participou de um grupo armado h√° 30 anos ao qual s√£o atribu√≠das 4 mortes. Tem um hist√≥rico de fugas para Fran√ßa e Brasil onde foi detido em 2007. O estado italiano o considera um assassino. Foi julgado em condenado √† pris√£o perp√©tua sem exposi√ß√£o √† luz solar. A It√°lia solicitou sua extradi√ß√£o e o governo brasileiro vem resistindo a essa decis√£o, que foi parar no Supremo Tribunal Federal. O Supremo, depois de meses de avalia√ß√£o, optou pela extradi√ß√£o em decis√£o bastante apertada (5×4) e deixou a decis√£o final ao presidente Lula. A Lula, portanto, caber√° decidir agora, praticamente, sozinho, sobre o futuro de Cesare Battisti. Alguns devem estar pensando que √© uma decis√£o bastante dif√≠cil, essa de definir o destino e mesmo a pr√≥pria vida de um ser humano. E √© mesmo. Como Lula deve proceder? Que tipo de arcabou√ßo te√≥rico Lula deveria utilizar-se para tomar essa decis√£o espec√≠fica? Grosso modo, se levar em conta sua ideologia, por exemplo, n√£o o libera. A It√°lia de Berlusconi est√° mais √† direita que nunca. E se estiverem ca√ßando as bruxas de um “comunismo” que j√° n√£o existe? A pr√≥pria Fran√ßa, tradicionalmente abrigou Battisti por um per√≠odo. Por outro lado, se tomar por base o fato de a It√°lia ser um pa√≠s com o qual o Brasil mant√©m rela√ß√Ķes diplom√°ticas importantes, ser um estado soberano, ter elegido um primeiro-minstro democraticamente e ter um sistema judici√°rio confi√°vel, deve-se respeitar a dor das fam√≠lias que perderam seus membros e a decis√£o do tribunal italiano, extraditando Battisti. N√£o importam os argumentos aqui. Importa a decis√£o de um homem sobre a vida de outro homem.

De que adiantaria demonstrar cartesianamente o envolvimento de Battisti nos assassinatos? Que tipo de ideologia poderia justificar um crime? A discuss√£o √© intermin√°vel. Nos interessa o caminho que ser√° necess√°rio para chegar a uma decis√£o baseada em algum tipo de racionalidade, e n√£o simplesmente, a opini√£o e as idiossincrasias da arbitrariedade. Qual guideline, diretriz, recomenda√ß√£o poderia ajudar Lula a tomar uma conduta como essa? O direito tem uma figura de racionalidade chamada jurisprud√™ncia que pode basear uma decis√£o em decis√Ķes tomadas anteriormente. Mas Lula, n√£o √© um juiz! Estes por sua vez, j√° deram seu veredito. Cabe a Lula decidir e decidir baseado no cora√ß√£o ou no medo, n√£o me parecem formas racionais de decis√£o.

Quando digo que me sinto só e que a ciência é um luxo com o qual não se pode contar sempre é sobre isso que estou falando. Deve ser o mesmo sentimento do presidente Lula agora.

Um Pouco da Pós-Graduação em Medicina

Para publicar de forma regular e sustentada no Brasil, em geral √© preciso estar vinculado a um servi√ßo de p√≥s-gradua√ß√£o. Esses servi√ßos t√™m uma avalia√ß√£o da CAPES que √© muito respeitada. A CAPES dividiu a ci√™ncia m√©dica em 3 grandes √°reas. Medicina I, II e III, conforme as especifica√ß√Ķes abaixo.

Essa divis√£o tem por base a forma como √© conduzida a pesquisa em cada √°rea. Notemos pois, que as √°reas cir√ļrgicas, para dar um exemplo, ficaram todas reunidas na Medicina III. A CAPES classifica os cursos de p√≥s-gradua√ß√£o na grande √°rea da sa√ļde de acordo com os seguintes crit√©rios e respectivos pesos: corpo docente (30%), corpo discente (30%), produ√ß√£o intelectual (30%) e inser√ß√£o social (10%). A produ√ß√£o intelectual √© a que nos interessa nesse momento. Constitui 30% da nota de uma p√≥s-gradua√ß√£o e √© constitu√≠da pelo n√ļmero de publica√ß√Ķes qualificadas do Programa por Docente Permanente (50%), pela distribui√ß√£o de publica√ß√Ķes qualificadas em rela√ß√£o ao corpo docente do programa (40%) e por outras produ√ß√Ķes, exceto √† art√≠stica (t√©cnica, patentes, produtos, etc) (10%).

Nesses quesitos, para atingir o conceito excelente (7,0) √© necess√°rio que o docente publique 6 ou mais artigos em Qualis internacional A ou B, sendo que pelo menos 03 sejam em Qualis A. Mas que √© Qualis Internacional? “Qualis √© o conjunto de procedimentos utilizados pela CAPES para estratifica√ß√£o da qualidade da produ√ß√£o intelectual dos programas de p√≥s-gradua√ß√£o”. Para isso, a CAPES hierarquizou os meios de divulga√ß√£o da pesquisa da p√≥s-gradua√ß√£o (ou seja, os jornais cient√≠ficos). “A classifica√ß√£o de peri√≥dicos √© realizada pelas √°reas de avalia√ß√£o e passa por processo anual de atualiza√ß√£o. Esses ve√≠culos s√£o enquadrados em estratos indicativos da qualidade – A1, o mais elevado; A2; B1; B2; B3; B4; B5; C – com peso zero”. Obviamente, o fator de qualidade de cada revista √© o seu fator impacto.

O problema √© que a divis√£o das revistas √© desigual de acordo com as sub√°reas, medicina I, II e III. Por exemplo, em levantamento realizado por um professor e apresentado em Porto de Galinhas – PE no III Encontro Nacional de P√≥s-Gradua√ß√£o na √°rea de Ci√™ncias da Sa√ļde em outubro de 2009, a Medicina III tem o seguinte Qualis e respectivos fatores impacto conforme a tabela abaixo.

Já a Medicina I tem a seguinte classificação de periódicos (tabela abaixo):

Como √© f√°cil notar, as revistas de √°reas cl√≠nicas para serem classificadas no n√≠vel A1, necessitam de um fator impacto bem maior. A que se deve essa diferen√ßa? Ao tipo de ci√™ncia que serve de base a cada especialidade, provavelmente. Algumas √°reas sofrem per√≠odos de expans√£o r√°pidos, em especial quando se criam novas ferramentas e tecnologias. Nesses per√≠odos, os jornais est√£o propensos a aceitar determinados assuntos. Pesquisadores experientes detectam essas ondas, aproveitando para “encaixar” papers em revistas de impacto maior. Mas h√° outras fontes de desigualdades. Um docente tem uma classifica√ß√£o de publica√ß√Ķes de acordo com a tabela abaixo.

Mas isso n√£o depender√° apenas da compet√™ncia do pesquisador m√©dico. Depende, como vimos, da sub√°rea a qual ele pertence (se medicina I, II ou III) e tamb√©m da facilidade que ele tem para publicar. Podemos imaginar que quanto mais peri√≥dicos tivermos com fator impacto A1, mais f√°cil ser√° a esse pesquisador divulgar seus resultados. Mas quem √© que disse que o n√ļmero de peri√≥dicos obedece a essa classifica√ß√£o da CAPES? Vejamos a tabela abaixo.

No caso da medicina III que, como vimos, tem o n√≠vel A1 com revistas de fator impacto maior que 2,85, temos uma diferen√ßa enorme entre as especialidades. A Urologia tem 26% de suas revistas com a classifica√ß√£o A1, enquanto que a Otorrino tem ZERO! Eu pergunto, como um docente da Otorrino pode ganhar o conceito muito bom e assim melhorar o conceito do pr√≥prio programa de p√≥s-gradua√ß√£o ao qual √© vinculado? S√≥ se publicar seus dados em outras revistas de fator impacto maior, mas isso n√£o √© nada f√°cil! A linguagem de cada revista √© pr√≥pria pois ela se dirige a um p√ļblico-alvo que √© relativamente espec√≠fico. Os pesquisadores reclamam da dificuldade em publicar em revistas de outras √°reas, como por exemplo, um cirurgi√£o publicar os resultados de um tratamento cir√ļrgico inovador para o c√Ęncer g√°strico em uma revista de Oncologia (que t√™m, em geral, elevado fator impacto). Se pensarmos que as verbas de fomento √† pesquisa tamb√©m s√£o distribu√≠das de acordo com regras parecidas, ou no m√≠nimo, s√£o levados em considera√ß√£o todos esses conceitos CAPES, temos um sistema que n√£o √© assim, um primor de igualdade.

Futebol, Shopping e Medicina

http://www.gilsoncamargo.com.br/blog/uploads/2008/10/futebol_de_varzea_foto_gilsoncamargo_piraquara_brasil1.jpg“Quando eu era crian√ßa pequena”, morava no Butant√£, bem ali, na entrada do campus da USP. O tr√Ęnsito da regi√£o era bem outro e costum√°vamos jogar bola no asfalto da Rua Catequese. Mas esse “est√°dio” era para embates de pequeno porte. Os grandes cl√°ssicos eram disputados no “Arei√£o”, pois era a √ļnica cancha que comportava um “11×11” ou mesmo “12×12”. Mas, isso era um evento raro. Eram necess√°rios muitos moleques e o que acontecia apenas de vez em quando. Al√©m do que, para irmos ao “Arei√£o”, era preciso atravessarmos a ponte Eus√©bio Matoso que cruza a Marginal do Rio Pinheiros e depois a pr√≥pria Eus√©bio, o que mesmo para essa √©poca, j√° n√£o era muito simples.

Aos fins-de-semana, o “Arei√£o” era imposs√≠vel para n√≥s. Os campos, num total de nove, eram tomados por legi√Ķes de times amadores, marmanjos, que jogavam at√© acabar a ilumina√ß√£o natural. Fic√°vamos olhando e, como eles punham redes nos gols, aproveit√°vamos os intervalos para chutar bolas e bater alguns p√™naltis, com intuito √ļnico de “estufar o barbante”, at√© sermos enxotados pelos grandalh√Ķes, e voltar a nossa posi√ß√£o de espectadores.

Eis que, um belo dia, depois da aula, resolvemos bater uma bolinha no “Arei√£o”, n√£o t√≠nhamos um time completo mas, mesmo assim, optamos pelo “est√°dio” para nos acostumarmos ao gol oficial. Bicicletas, bola, o Rog√©rio foi em casa pegar as luvas, tudo pronto. Alguns iam na garupa da Caloi, em p√©; outros “tabelando” pela cal√ßada. Atravessamos a ponte, depois a Eus√©bio Matoso, que n√£o tinha passarela e come√ßamos a notar uma movimenta√ß√£o anormal. Ao nos aproximarmos, a surpresa. O “Arei√£o” estava tomado por tratores, m√°quinas escavadeiras e caminh√Ķes. Os gols haviam sido arrancados e jaziam, empilhados num canto. O Edvaldo cogitou levar um. Perguntamos na casa de quem ia ficar e ele desistiu. A m√£e dele era muito brava. Sa√≠mos cabisbaixos, com o Edvaldo praguejando contra as poderosas m√°quinas e contra quem as mandara destruir nossa querida pra√ßa esportiva.

Logo um enorme shopping center foi constru√≠do e inaugurado no ano seguinte (1981). Ficamos sem os campos de futebol mas, ganhamos cinema, sorveteria. Restou, por√©m, uma enorme nostalgia dos campos do “Arei√£o”.

X – X – X – X – X – X

A secretária colocou o seu Manuel, 88 anos com sua cuidadora no consultório. Muito bem vestido, de terno e gravata, apesar das sequelas motora à direita e de fala, contou, com um identificável sotaque português, toda sua história com detalhes impressionantes. Fora dono de uma grande rede de supermercados, bastante famosos em São Paulo. No final da década de 70, entrou num empreendimento revolucionário e bastante ambicioso. Devagar, foi me contando de sua vida, o estresse enorme que passou na época, até que, finalmente, disse que teve um derrame 15 dias após a inauguração de seu maior projeto: um shopping na zona sul, às margens da Marginal Pinheiros! Eu não aguentei e disse: РSeu Manuel, desculpe, mas o Edvaldo não teve a intenção!

Foto de Gilson Camargo.

Barclipo S√£o Paulo

No dia 6 de Novembro, finalmente fizemos um Barclipo, para come(bebe)morar os pr√™mios do II Ewclipo e nos revermos pessoalmente. Foi muito interessante, pois pude conhecer o Igor Santos do 42 e rever o Jo√£o e a Maria do Ci√™ncia & Ideias, a Claudinha do Ecodesenvolvimento, o Rafa do RNAm (o Gabriel n√£o foi, acho que n√£o estavam bem, sei l√°), o Igor Zolnerkevic do Universo F√≠sico e a chefia, √Ātila do Rainha Vermelha. Aproveitei para receber meu diploma e dar boas risadas. Acabaram tirando uma foto minha, contra a minha vontade, mas que disponibilizo aqui, a pedidos.

Ops. Esqueci de agradecer ao Igor Santos pela foto. Valeu Igor.

Chocolate: Pecado ou Remédio?

ResearchBlogging.orgTodo mundo gosta de saborear uma boa barra de chocolate. Infelizmente, essa atitude, em geral, √© acompanhada de uma boa dose de culpa. N√£o seria muito bom se descobr√≠ssemos que chocolate √© bom para sa√ļde, ao inv√©s de apenas engordar? Os efeitos do chocolate sobre o sistema circulat√≥rio t√™m sido sugeridos por v√°rios estudos dos quais, poucos s√£o bem conduzidos.  Recentemente, uma prestigiosa revista de coagula√ß√£o e trombose (Journal of Thrombosis and Thrombolysis) publicou uma revis√£o dos efeitos circulat√≥rios e antitrombog√™nicos do chocolate amargo (dark chocolate). √Č essa revis√£o que comentamos abaixo.

Os efeitos benéficos do chocolate são provenientes de polifenóis chamados flavonóides que estão presentes em quantidades significativas no alimento com biodisponibilidade suficiente para causar o efeito farmacológico. Acredita-se que o potencial benefício do chocolate amargo ao sistema cardiovascular seja causado por um aumento da capacidade antioxidante dos flavonóides, em especial das catequinas, epicatequinas e procianidinas no sangue. Esses efeitos são divididos em metabólicos, anti-hipertensivos, moduladores da função endotelial, anti-inflamatórios e anti-trombóticos, como mostra a figura abaixo (retirada do original).

Dark chocolate.jpg

Desde a primeira descri√ß√£o dos efeito antioxidantes dos polifen√≥is do cacau contra a oxida√ß√£o da LDL (o colesterol de baixa densidade cujo n√≠vel s√©rico √© altamente associado √† aterosclerose) em 1996, estudos v√™m se acumulando sobre seus efeitos cardiovasculares, principalmente associados ao uso do chocolate amargo (dark chocolate). Dada a gigantesca penetra√ß√£o do chocolate em nossa cultura, √© importante estabelecermos os efeitos de sua ingesta. Numerosos estudos, epidemiol√≥gicos e biol√≥gicos, agora d√£o conta de um efeito complexo, multifacetado e consistente dos polifen√≥is presentes no chocolate sobre o sistema cardiovascular. Esses estudos ainda necessitam ser confirmados por ensaios cl√≠nicos randomizados, controlados, com m√ļltiplas dosagens diferentes de modo a definir qual a propor√ß√£o mais vantajosa de polifen√≥is mono, oligo e polim√©ricos. E, ent√£o, o simples prazer associado ao consumo do chocolate pode tamb√©m ser justificado sob uma perspectiva saud√°vel e por seus efeitos psicol√≥gicos (funcionamento cognitivo e melhora do humor). Entretanto, como √© demonstrado no artigo, o chocolate amargo tem n√≠veis bem mais elevados de flavon√≥ides do que o chocolate ao leite, al√©m do que, as prote√≠nas l√°cteas podem inibir a absor√ß√£o dos polifen√≥is. Por essa raz√£o, e por raz√£o diet√©ticas, √© prefer√≠vel consumir chocolate amargo do que ao leite. Sempre em quantidades “civilizadas”.

Lippi, G., Franchini, M., Montagnana, M., Favaloro, E., Guidi, G., & Targher, G. (2008). Dark chocolate: consumption for pleasure or therapy? Journal of Thrombosis and Thrombolysis, 28 (4), 482-488 DOI: 10.1007/s11239-008-0273-3

Homens

http://www.mlahanas.de/Greeks/Arts/Images/ManEv.jpg
Os gregos tinham pelo menos tr√™s palavras para dizer “homem”. Quando queriam dizer “homem” em oposi√ß√£o a mulher, dizia-se andr√≥s. Andr√≥s √© o homem viril e her√≥i, de onde v√™m os nomes Andr√©, Alexandre (Alexandrus), Leandro e outros. “Homem” com o sentido de humanidade e em oposi√ß√£o aos animais era anthropos, de onde v√™m as palavras antropologia e misantropo (o “anti-social”). Quando “homem” estava em oposi√ß√£o aos deuses, a palavra mais correta era brot√≥s, ou thnetos, o que morre, cuja raiz gerou a tanatologia – o estudo da morte e do morrer.

Quem √© o “homem” que adoece e ao qual o m√©dico deve dispensar seus cuidados √© uma pergunta interessante dentro desse contexto. Nas trag√©dias gregas √© explorado justamente o aspecto finito do homem perante aos deuses e o brot√≥s, predomina. Mas h√° refer√™ncia a todos, dependendo de cada situa√ß√£o. Em que pese o fato de haver m√©dicos andrologistas, aqueles que cuidam de fertilidade e disfun√ß√Ķes sexuais masculinas, acho que o m√©dico em geral cuida mesmo, ou pelo menos deveria, do brot√≥s/thnetos. Qualquer doen√ßa desperta a consci√™ncia de que n√£o somos eternos e podemos morrer a qualquer momento. Um m√©dico n√£o pode nunca esquecer-se disso, mesmo quando trata de doen√ßas banais.