O Estranhamente Familiar e a Doença

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Foto de Silvia Giordani, 2011

Há várias portas de entrada para a filosofia de Heidegger. Uma delas, que é a que me diz respeito, é a via do binômio saúde-doença. Heidegger, na verdade, nunca escreveu nada sobre saúde ou doença. Para ele, era muito mais prioritária a relação do que ele chamava de ser-no-mundo com a finitude, última de nossas possibilidades, e, talvez por essa razão, nunca chegou a relacionar isso ao significado existencial de estar doente ou sentir cronicamente uma dor. (Talvez, nos Seminários de Zollikon, mesmo assim, de forma ainda indireta). Mas, segundo Svenaeus[1], uma análise da saúde e seu caráter enigmático sob a fenomenologia do Heidegger de Ser e Tempo poderia abrir caminho para o entendimento do adoecer sob o ponto de vista existencial. Para Svenaeus, ficar doente sob a luz da fenomenologia existencial poderia ser comparado a um “não-estar-à-vontade” com o seu ser-(Da-sein, no caso de Heidegger)-no-mundo. Ao deixarmos de nos ‘sentir-em-casa’, a existência humana torna-se própria ou autêntica, já que é vista tendo como pano de fundo nossa finitude. A doença, então, traria à tona uma sensação de abandono e estranhamento (e a palavra que Svenaeus toma de Heidegger é: umheimlichkeit ). Ficar doente faz parte de nosso ser-no-mundo e tem, por que não?, propriedades cognitivas. Heidegger considera toda disposição do ser-no-mundo uma forma de entendimento, o que permite interpretar o adoecimento não apenas como um sentimento – muito ruim, no mais das vezes -, mas, ao mesmo tempo, como um modo de compreensão do mundo. Ficar doente, sob esse ponto de vista puramente existencial, significaria experimentar uma constante e intrusiva sensação de estranhamento em nosso ser-no-mundo que nos remete a nós mesmos, nos arrancando, muitas vezes de forma abrupta e violenta, do mundo dos outros (Das Man) e constituindo-se, assim, em uma experiência de individualização bastante especial.

Não por acaso, Sigmund Freud tem uma análise etimológica deste termo em um ensaio de 1919 (Das Umheimliche). Uma das formas de tentarmos apreender o significado geral da palavra é cotejar as traduções do título do ensaio. No italiano, o ensaio de Freud é Il Perturbante, no espanhol é Lo Ominoso. Em francês, foi traduzido pela expressão L’Inquiétante Étrangeté por Marie Bonaparte e E. Marty em 1933, algo mais adequada. Bernardo Carvalho propôs “O Estranhamente Familiar”, com o que concordo, mas em português, o título foi dado como “O Estranho” ou “O Inquietante (“O Estranho. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas, v. XVII. Rio de Janeiro: Imago, 1990” e “O Inquietante. Obras completas. Trad. de: Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010”). Em inglês, a tradução de Alix Strachey ficou com The Uncanny, que ao optar pela correspondência unívoca entre os idiomas, deixa de lado, assim como todas as outras, com exceção da francesa e a sugerida por Carvalho, a ambivalência do termo original em alemão. A dialética de seu duplo significado em alemão – a saber, tanto o que é estranho e assombroso, como aquilo que não é familiar, costumeiro -, não poderia deixar de ser utilizada por vários autores quando o objetivo é descrever determinada “pane cognitiva” onde uma sensação de familiaridade é súbita e assustadoramente substituída por um certo estranhamento, um desconhecimento repentino e perturbador daquilo que nos deveria ser habitual. (Aliás, “hábito” no sentido de hexis grega, já é em si, um termo tomado à medicina).

Entender o mecanismo da fenomenologia existencial heideggeriana permite abordar o binômio saúde-doença sob o aspecto ontológico o que possibilitaria outras formas de acolhimento, segundo Svenaeus. Eu diria, por que não? Se tudo der errado no final, terá sido, ao menos, mais uma aventura intelectual e, no mínimo, um jeito diferente de ver os pacientes…

1. Svenaeus, F. The Hermeneutics of Medicine and the Phenomenology of Health: Steps Towards a Philosophy of Medical Practice (International Library of Ethics, Law, and the New Medicine) – 2010. ISBN-13: 978-9048156320 ISBN-10: 9048156327.

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Raízes do Plátano – Tecnologia

Galeno

Cláudio Galeno (129 – 217)

Esta série de posts inicia-se aqui.

Cláudio Galeno (129- 199 ou 217) foi o médico mais famoso do período romano. Há relatos de que era um grande cirurgião[1] e acrescentou aos conhecimentos médicos de sua época, fortemente embasados nos escritos hipocráticos, uma relevante contribuição pessoal, em especial, relacionada à teoria humoral. Dizia não pertencer a nenhuma das escolas médicas de seu tempo que se diferenciavam mais por suas bases filosóficas (empiristas, dogmáticos, metódicos, entre outros) que por seus resultados, em geral, muito ruins. O método de Galeno era mais próximo de um “empirismo crítico aristotélico fundamentado em cuidadosas observações e com uma coerente base teórica que lhes dava suporte“. Com isso, Galeno logrou fama em todo o mundo antigo o que, associado a sua habilidade e disposição como escritor, transformou-o na referência médica da antiguidade por nada menos que quatorze séculos (do século II ao XVII d.C.!) A influência de Galeno foi de tal magnitude e se deu por tanto tempo que historiadores apelidaram a forma de fazer e ensinar medicina a partir de suas diretrizes de Galenismo. O galenismo se constitui, portanto, no arcabouço teórico-prático da medicina na Antiguidade. Era caracterizado, em especial em seu momento mais tardio, por um marcado autoritarismo e culto aos antigos. As aulas nas faculdades de medicina do período medieval constituíam-se basicamente em leituras dos originais, em latim ou grego, dos clássicos do Corpus Hippocraticum e das obras galênicas. Autópsias não eram realizadas no mundo ocidental, seja por receio de represálias da Igreja, seja por mera falta de interesse; esta última hipótese a mais provável já que, numa medicina humoral, o estudo do cadáver inanimado pouco poderia acrescentar à compreensão da crásis (mistura de humores) dos vivos.  (Galeno, talvez, não tenha dissecado cadáveres humanos ele mesmo. Conta-se que observou dissecções de outros mestres em suas viagens ao Oriente próximo).

No final do século XVI e início do XVII, as teorias de Galeno começam a ser questionadas em várias frentes. Para citar apenas alguns “focos” de corrosão do grande sistema galênico temos: Paracelsus (1493 – 1541), iatroquímico, que, dizia-se, queimava livros de Galeno em demonstrações públicas, defendendo que o uso de substâncias químicas poderia suprir deficiências orgânicas. Introduziu o zinco e o laudanum (opiáceo) na medicina; Andreas Vesalius (1514 – 1564) que publicou uma obra monumental de anatomia humana totalmente baseada em dissecções, vejam só, humanas, chamada De Humanis Corporis Fabrica (isso tudo aos 28 anos de idade), com conceitos anatômicos válidos até hoje e mostrando várias contradições nos ensinamentos de Galeno; Girolamo Fracastoro (1476 – 1553) fez várias contribuições[2], mas em seu livro de 1546 – De contagione – lança as bases para a teoria infecciosa das doenças: como explicar tantas “discrasias” humorais em determinadas localidades num espaço tão curto de tempo?; William Harvey (1578 -1657), do qual ainda falaremos um pouco mais, que deduziu a circulação do sangue a partir de seus cálculos e publicou seu famoso De Motu Cordis et Sanguinis in Animalibus em 1628, mostrando ser impossível a fisiologia galênica na qual o sangue venoso era produzido no fígado e o arterial, no coração, com o pulmão representando o papel secundário (e isso é totalmente inadmissível!) de resfriador do processo todo; e, finalmente, para ficar apenas em alguns, Marcello Malpighi (1628-1694) que posteriormente descobriu, entre várias outras estruturas, os capilares em animais e, assim, a ligação entre as artérias e as veias, comprovando os trabalhos de Harvey.

Com isso, as teorias e, principalmente, o modo de fazer e ensinar medicina baseado no galenismo foram se tornando obsoletos e progressivamente cederam lugar a novas formas de pensar o ser humano enfermo e também de ensinar a arte médica. Mas, consideremos agora a parada intencional de nossa viagem em Malpighi para, a partir dele, seguirmos por um caminho que, apesar de muito simples e estreito em seu início, vai tomar corpo e transformar-se em uma grande e moderna via do pensamento médico contemporâneo. Malpighi era físico, biólogo, médico, óptico, inventor e um desenhista talentoso. Discutiu longamente com filósofos peripatéticos e galenistas que dominavam a academia à época. Cansado das polêmicas infrutíferas, saiu e voltou de várias universidades por essa razão. Queria a prática. E seu microscópio. Ensinou medicina ao seu modo, porém, na Universidade de Bolonha e lá formou um indivíduo chamado Antonio Valsalva (1666 – 1723). Valsalva, conhecido pela manobra que leva seu nome, tornou-se um grande anatomista e estudioso das estruturas do ouvido, mas não escreveu muitas obras tendo sido um aluno seu quem as compilou e publicou postumamente. Esse aluno era Giambattista Morgagni (1682 – 1771).

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Giambattista Morgagni (1682 – 1771)

Em 1761 (ou 1760), Morgagni publica o De sedibus et causis morborum (Da sede e causas das doenças), obra monumental em cinco volumes, decorrente de suas observações em autópsias e identificou os órgãos internos como os focos patológicos das doenças. A importância desse estudo é que ele representa a primeira tentativa de localização anatômica das doenças. Apesar de grande anatomista, Morgagni não tinha a clínica como gabarito para seus achados. Assim, escreve Foucault, “o princípio diretor da análise nosológica era a dispersão anatômica: o frenesi fazia parte, como a apoplexia, das doenças da cabeça; asma, peripneumonia e hemoptise formavam espécies próximas, por estarem localizadas no peito. O parentesco mórbido se baseava em um princípio de vizinhança orgânica: o espaço que o definia era local. A medicina das classificações e, em seguida, a clínica haviam retirado a análise patológica deste regionalismo e constituído para ela um espaço ao mesmo tempo mais complexo e mais abstrato, que dizia respeito a ordem, sucessões, coincidências e isomorfismos”[3]. A medicina, lenta e silenciosamente, vai então deixando para trás a história para concentrar-se numa geografia das doenças, para usar a bonita analogia do próprio Foucault.

Em Foucault encontramos ainda a apreensão desta mudança do pensamento médico cristalizada em seu inconfundível e dramático estilo: “Anatomia e clínica não têm o mesmo espírito: por mais estranho que possa parecer, agora que a coerência anátomo-clínica está estabelecida e enraizada no tempo, foi um pensamento clínico que durante 40 anos impediu a medicina de ouvir a lição de Morgagni. O conflito não é entre um saber jovem e velhas crenças, mas entre duas figuras do saber. Para que, do interior da clínica, se esboce e se imponha o apelo da anatomia patológica, será preciso uma mútua reorganização: nesta, o aparecimento de novas linhas geográficas, naquela, um novo modo de ler o tempo. No final desta litigiosa estruturação, o conhecimento da viva e duvidosa doença poderá se ajustar à branca visibilidade dos mortos” (Foucault, p. 144).

O aparecimento das tais “novas linhas geográficas” que permitirão a reorganização dos saberes médicos vai ocorrer em Paris. No século XIX. E se desdobrará até os dias de hoje, como tentarei mostrar adiante, nos ajudando a entender a maneira ambivalente como a medicina contemporânea lida com a tecnologia.

 

Notas e Referências

[1] Conta uma lenda que em longa viagem de estudos para a Ásia Menor, onde julgava existir as melhores escolas de medicina, Galeno indispôs-se com os médicos de uma localidade. Para desafiá-los, eviscerou um macaco, animal que estudou profundamente, e solicitou a eles que o salvassem. Totalmente sem ação e horrorizados com o ato, os médicos da corte observaram, então, Galeno suturar o abdome do animal com destreza e mantê-lo vivo muitos dias depois. Com isso, o rei local o nomeou seu médico particular, cargo que ocupou por tempo suficiente apenas juntar dinheiro e engajar-se em nova jornada. As habilidades cirúrgicas de Galeno passaram para história da medicina sendo atribuída a ele técnicas hemostáticas como ligar (amarrar) pequenas artérias sangrantes.

[2] Fracastoro é o autor do famoso poema de 1530, publicado em três volumes: Syphilis sive morbus gallicus e que deu nome à doença.

[3] FOUCAULT, M. O nascimento da clínica. Rio de Janeiro: Editora Forense Universitária, 1a Edição, 1977. Todo o capítulo VIII.

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