Infinito e Definições

GSV

Gravura de Renoir Santos – clique na figura para o original

O inferno é um sem-fim que nem não se pode ver.

Mas a gente quer Céu é porque quer um fim:

mas um fim com depois dele a gente tudo vendo.

Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas

 

Para o Sérgio.

 

Quando alguém pede por uma definição em qualquer discussão, sem dúvida, isso pode ser bastante produtivo se os debatedores não se dão conta de que falam coisas diversas. Uma definição, nesse contexto, tenta estabelecer o ponto exato sobre o qual se deseja discutir. Cientistas gostam disso porque é uma abordagem reducionista e específica, criando um terreno mais firme ao seu modo de raciocínio. Contudo, há a possibilidade de, ao solicitarmos a formalização de um significado, a delimitação certeira de uma ideia, restringirmos demasiadamente nosso horizonte conceitual num ante-olhos argumentativo limitador e empobrecedor de certos tipos de debate. Minha aversão a esse tipo de, chamemos de definitio postulatione (por que é que essas coisas ficam mais bonitas em latim? hehe), frisemos, nessas condições, só fez aumentar quando entendi que algumas abordagens fenomenológicas ou mesmo linguísticas poderiam fazer mais pela compreensão de determinados conceitos que as respectivas próprias definições, permitindo o que seria uma abordagem algo mais expansionista do tema, digamos. Filósofos (que não os analíticos) tendem a preferir estas últimas mas, concedo que elas podem, por vezes, confundir mais que explicar em determinadas situações. Passarei minha existência óssea a aprender como utilizar essas “coisas” adequadamente. En-fim…

Com essa mania de ficar futricando as palavras sadicamente, percebi que “definição” é “de-finição”. “Finição” seria a propriedade de quem é finito. Mas, por que razão a finitude (o termo correto em português) – que, por sua vez, pode tanto ser aquilo que não é eterno, quando no âmbito do tempo, quanto aquilo que não é infinito, se tratarmos do espaço -, dizia, por que a tal finitude estaria relacionada ao que uma coisa é ou deixa de ser para nós? Isso, infelizmente, é metafísica. E começou, claro, na Grécia Antiga.

Quando um filósofo grego se via numa “saia-justa” em algum debate ou mesmo em um raciocínio sobre algo, ele dizia estar em aporia (ἀπορία); de “a”- não, “póros”- travessia, viagem, caminho, estrada. Portanto, “aporia” é um beco-sem-saída, um sem-caminho. Sigamos agora Ernildo Stein[1]. “Póros, entretanto, vem [do verbo] peiro que quer dizer atravessar, percorrer de um extremo a outro; e este verbo origina o adjetivo apeiros: infinito, sem fim, inextricável, sem termo marcado, indeterminado. Substantivado, (…) significa o infinito, o indeterminado: apéiron (άπειρος). Há, portanto, um vínculo estreito entre aporia e apéiron.” Ficar no “sem-caminho”, na aporia, é estar diante do indeterminado, do infinito, do indefinível e ficar sem resposta para o problema que se persegue. Ápeiros, para os gregos, não por acaso, pode também querer dizer ignorância, inexperiência. Para Platão e Aristóteles, o infinito, o indeterminado e o indefinível são uma e a mesma coisa: o que não pode ser pensado e, por isso, não se pode produzir um discurso sobre. “Para eles o finito é o único campo em que se pode movimentar o pensamento”. É na relação entre os conceitos de infinito e “aquilo que se permite pensar de um lado a outro”, do começo ao fim, por uma rota, um caminho, que se instaura a dialética grega. O “ser” e o “finito” vão juntos na filosofia grega porque o “ser mesmo é pensado como consumação e completude”. O ser como forma manifesta das coisas à nós só se dá a conhecer como um todo. O oposto disso é o que não se compreende, não se abarca com a razão. O infinito. O não-ser.

A relação do ser com a finitude põe uma pulga gigantesca atrás da orelha de toda a tradição filosófica ocidental. Isso porque ela deixa uma avenida especulativa quanto à origem do ser, coisa que, para os gregos, era irrelevante dado que o mundo deles era eterno. A teologia cristã foi perspicaz e hábil em captar esse vácuo, aliás. Se o infinito é muito difícil de ser pensado e dito (lógos), ao colarmos seu conceito ao “verbo” teremos um ser invencível que, além das vantagens imateriais de sua impronunciabilidade, será a origem e a causa de tudo que pode ser dito e pensado.

Por tudo isso, a solicitação de definições é carregada de uma grande carga metafísica. Se por um lado, uma definição fica longe de esgotar determinado assunto, por outro, é clara e simplesmente uma escolha de método. A relação grega entre o infinito e a aporia, o “sem-caminho” do pensamento, sobrevive ainda hoje, apesar da instituição do Deus cristão. Ele não foi capaz de matar a “grande pulga” atrás dos ouvidos céticos.

Às vezes, um ante-olhos é muito bom. Outras, não.

 

[1] Stein, E. Melancolia. Ensaios sobre a finitude no pensamento ocidental. Coleção Dialética. Vol 4. Ed. Movimento. Porto Alegre. 1976.

A Fotografia e o Cachecol

– Essa foto sua é linda, mas eu não gosto dela…
– ??? – com os dedos juntos das duas mãos, ao modo dos paulistalianos.
– Não gosto. Acho que é porque não fui eu quem tirou.
– Mas o que tem a ver? Se a foto é bonita, é bonita, oras!!
– Não é isso. Não sei explicar. Quem tirou mesmo essa foto?
– O Bráulio…
– Nossa! Odeio esse cara…
– Por que, meu deus? Você nem conheceu o coitado!
– Não sei. Mas, odeio. Como ele pôde?…
– Quer parar?! Você tá começando a me assustar. Pôde o quê?! Que coisa mais sem pé, nem cabeça… Eu, hein – e virou as costas, a fazer alguma coisa.

Ele ficou pensativo, olhando a fotografia dela de quase trinta anos atrás, longamente. Era uma foto em branco e preto de uma menina séria, com a franja a recobrir parcialmente os olhos castanhos semicerrados. Os lábios entreabertos e o rosto quase de perfil. Recomeçou, sem tirar os olhos da foto.

– Acho que já sei.
– O quê?! – virando-se, com uma meia na mão.
– Porque eu acho a foto linda e não gosto dela.
– Por quê?! – sem a menor paciência.
– Porque o tal Bráulio viu uma coisa que só eu havia visto até então. E pior, fotografou. Ele não tinha esse direito…
– Como assim?!
– Essa foto é de uma imagem que eu tenho de você. Algo que captei em algum momento logo quando nos conhecemos. Logo que vi a foto, a reconheci.
– Mas a foto sou eu!! Imagino que você deveria me reconhecer, não?

Ele ainda olhando a foto.

– A foto é de você. Mas estou falando de uma das imagens que formei e não de você, especificamente. Fiquei surpreso ao ver que meus sonhos idealizados e platônicos, eróticos até, se materializaram nessa fotografia. É como se minha intimidade tivesse sido violada. Como se alguém me espiasse dentro do meu aposento mais íntimo e secreto. É como se outra pessoa a visse nua… No fundo, acho que tenho ciúmes da foto. É muita loucura isso?

– Não. Continue – o olhar arrefecera. Ele continuou.

– Acho que a foto é isso. Não sei explicar direito, mas é como se fosse uma força feminina bruta que me arremessou contra meus instintos mais egoístas. Ela me faz querer você. Quando, ainda hoje, vejo os traços da foto em algum gesto, tipo um take seu, te desejo. Parece uma coisa meio determinista, biológica, sei lá… O Bráulio jamais poderia ter visto isso! Era um segredo – só então levantando os olhos da foto e sorrindo meio sem graça.

Ela se enrola no pescoço dele tal como um cachecol e diz:

– Ele não viu, mané. Relaxa… – e tasca-lhe um beijo.

dia-do-fotografo

Mané, tentando tirar “aquela” foto – Flickr de K. Werfeldein.

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