Carta-Resposta do Prof. Maurício Rocha e Silva

5548-revistas_800

Segue a carta do prof. Maur√≠cio Rocha e Silva sobre a suspens√£o de revistas m√©dicas brasileiras pelo JCR, conforme publicado neste blog. As opini√Ķes do autor n√£o s√£o necessariamente as mesmas do editor do blog. Esperamos, entretanto, que isso possa fomentar um debate salutar sobre as publica√ß√Ķes cient√≠ficas brasileiras, debate de import√Ęncia maior para amadurecermos no nosso papel de relev√Ęncia cient√≠fica que conquistamos a duras penas. Todas as perguntas dirigidas ao autor do texto lhe ser√£o encaminhadas por email e me comprometo a publicar integralmente, tanto as quest√Ķes, quanto suas respostas. (Me reservarei, contudo, no direito de editar eventuais textos ofensivos e em “caps lock” abusivo).

Ainda a propósito da suspensão de revistas pelo JCR

Mauricio Rocha e Silva

Editor, Clinics

Clinics foi suspensa por um ano do Journal Citation Reports (JCR) 2012. A suspens√£o foi provocada por dois artigos publicados em 2011. A suspens√£o significa que CLINICS n√£o teve Fator de Impacto divulgado para 2012 pelo JCR. Este √© respons√°vel pela publica√ß√£o do fator de impacto de 8.841 peri√≥dicos cient√≠ficos mundiais. Mas n√£o √© a √ļnica ag√™ncia avaliadora no mundo, como veremos adiante.

O Hospital das Clínicas e a Editoria de Clinics estão examinando determinados aspectos do ato de suspensão e entendem que não existem fundamentos dentro das regras JCR em vigor que justifiquem esse ato.

H√° que notar que, at√© hoje, o site JCR continua a afirmar que ‚ÄúSuppressed titles were found to have anomalous citation patterns resulting in a significant distortion of the Journal Impact Factor.‚ÄĚ (T√≠tulos suprimidos apresentaram padr√Ķes an√īmalos de cita√ß√£o, que resultam numa distor√ß√£o significativa do Fator de Impacto da Revista). Isto s√≥ pode significar que a condi√ß√£o obrigat√≥ria para suspens√£o √© uma distor√ß√£o significativa do Fator de Impacto.

E qual foi a distor√ß√£o significativa provocada em nosso fator de impacto? Clinics foi suspensa pela publica√ß√£o de dois artigos na Revista da Associa√ß√£o M√©dica Brasileira sobre pesquisa cient√≠fica brasileira em √°reas espec√≠ficas do conhecimento: aparelhos cardiorrespirat√≥rio e locomotor. Estes artigos citam 330 artigos brasileiros, dos quais 127 publicados pela CLINICS. Estas 127 cita√ß√Ķes representam apenas 18% de todas as cita√ß√Ķes recebidas pela CLINICS em 2011 (total 704 cita√ß√Ķes) Como consequ√™ncia, o Fator de Impacto de Clinics elevou-se em 22% (de 1,687 para 2,058). Como √© que esta distor√ß√£o de fator Impacto √© comparada com outras no sistema ISI? Para isso realizamos uma avalia√ß√£o por amostragem pesquisando 200 revistas n√£o suspensas pelo JCR e escolhidas randomicamente. Convidamos qualquer leitor a fazer o mesmo: escolha o seu m√©todo de randomiza√ß√£o e veja o que aparece. Esta an√°lise revelou 31 revistas (15,5%) com eleva√ß√Ķes de Fator de Impacto iguais ou superiores aos 22% da Clinics. Estendendo esta amostragem para o universo de 8841 revistas pode-se esperar encontrar cerca de 1300 revistas com ‚Äúdistor√ß√Ķes‚ÄĚ iguais ou superiores √†s da CLINICS. Nenhuma dessas foi suspensa. Entenda-se: n√£o estou acusando de distor√ß√£o estas revistas semelhantes √† CLINICS e n√£o suspensas. Estou simplesmente mostrando que o que n√£o √© infra√ß√£o √©tica para tantas, subitamente virou infra√ß√£o para Clinics.

Como notei, o JCR n√£o havia institu√≠do essa modalidade de impropriedade de cita√ß√£o em 2011, quando os artigos foram publicados. As primeiras revistas suspensas por stacking o foram em Junho de 2012. Tr√™s revistas foram suspensas por cita√ß√Ķes circulares. S√≥ ent√£o √© que se ficou sabendo que esta modalidade passara a existir. Consequentemente, a nova regra foi aplicada retroativamente √† Clinics. Mesmo agora, junho de 2013, as regras continuam obscuras e d√£o a JCR margem para a√ß√Ķes discriminat√≥rias.

Vale repetir: o JCR n√£o det√©m monop√≥lio mundial de avalia√ß√£o de impacto. Duas outras grandes institui√ß√Ķes tamb√©m o fazem. (1) A editora cient√≠fica Elsevier, a maior do mundo, sediada na Holanda, possui um site¬† www.scimagojr.com, que divulga um impacto entendido pela CAPES, pela FAPESP e pelo CNPq como equivalente ao da JCR. Continuamos ali representados e quem quiser saber quanto ser√° o nosso impacto Scimago 2012 s√≥ precisa esperar at√© o pr√≥ximo m√™s de julho. (2) SCIELO, uma das mais importantes experi√™ncias de cataloga√ß√£o cient√≠fica do mundo, sediada em S√£o Paulo, publica tamb√©m um Fator de Impacto. Continuamos ali representados. A suspens√£o de Clinics no JCR choca de frente com a n√£o suspens√£o no Scimago e na SCIELO.

Mesmo que comentaristas inseridos neste e noutros blogs prefiram discordar de nossa posi√ß√£o, seria muito mais conveniente evitar a indecorosa e an√īnima pressa de criminalizar um evento entendido pela pr√≥pria JCR como mera decis√£o t√©cnica. CLINICS foi apenas exclu√≠da do JCR em 2011. Tudo o mais referente a ela continua inclu√≠do no sistema JCR e decorre normalmente.

Aproveito para reafirmar e renovar nosso compromisso com a informação ética e verdadeira da ciência, dentro do conceito de dignidade da atividade científica.

Ainda sobre as Revistas Suspensas

Este texto √© a continua√ß√£o desse e, de certa forma, tamb√©m um esclarecimento sobre alguns conceitos que, ou foram colocados de forma err√īnea no anterior, ou ficaram amb√≠guos. Ent√£o, vamos l√°.

BlockedAparentemente, no dia 19/06/13, a Thomson Reuters publicou uma nota na qual suspendia 4 revistas brasileiras de sua principal metapublica√ß√£o: o Journal Citation Reports¬ģ¬†(JCR). Isso¬†significa que as publica√ß√Ķes ficar√£o sem o fator impacto do ano de 2012, conforme esclarece carta enviada pelos editores a assinantes e revisores das revistas, publicada no post anterior. As revistas, mais uma vez, s√£o, em ordem alfab√©tica:¬†Acta Ortop√©dica Brasileira,¬†Clinics, Jornal Brasileiro de Pneumologia e Revista da Associa√ß√£o Brasileira de Medicina.

A raz√£o alegada para suspens√£o parece ter sido a pr√°tica de stacking,¬†mas a nota da Thomson Reuters n√£o deixa isso claro, falando apenas “em padr√Ķes de cita√ß√£o an√īmalos que resultaram em distor√ß√£o dos respectivos fatores impacto”. Entretanto, os editores das revistas devem ter recebido uma notifica√ß√£o mais espec√≠fica, dado que a pr√°tica de stacking¬†foi citada na carta e tamb√©m pelo prof. Maur√≠cio Rocha e Silva em coment√°rio neste blog.

Autocita√ß√£o e stacking s√£o pr√°ticas condenadas pela Thomson Reuters porque aumentam o fator impacto das publica√ß√Ķes artificialmente, dando a elas uma relev√Ęncia irreal. Segundo Paul Jump¬†do portal brit√Ęnico¬†THE (Times Higher Education)¬†sobre educa√ß√£o superior, a¬†Thomson Reuters come√ßou a procurar no ano de 2012 o que ela chamou de “citation stacking“. Marie McVeigh, diretora do¬†JCR, definiu a pr√°tica como “um espec√≠fico e an√īmalo padr√£o de troca de cita√ß√Ķes entre dois jornais”, ou seja, “O Jornal A cita excessivamente um Jornal B” durante o per√≠odo do c√°lculo do impacto. Naquele ano,¬†tr√™s revistas –¬†Cell Transplantation, Medical Science Monitor¬†e¬†The Scientific World Journal¬†– foram exclu√≠das do JCR referente a 2011 devido a tais comportamentos. Em 2012, a lista aumentou para 66 publica√ß√Ķes de pa√≠ses como Espanha, China, EUA e Brasil. A¬†Autocita√ß√£o √© uma pr√°tica considerada mais grave e √© punida pela ag√™ncia com dois anos de banimento.

Os editores das quatro revistas brasileiras¬†contestam a validade da suspens√£o, talvez por interm√©dio de recurso enviado √† Thomson Reuters; n√£o sei. Do ponto de vista √©tico, tudo isso √© muito desagrad√°vel. O Brasil teve uma ascens√£o grande no cen√°rio cient√≠fico mundial nos √ļltimos anos e nossas revistas ganharam muito em import√Ęncia. Situa√ß√Ķes como essa s√≥ v√™m confirmar o preconceito¬†que sofremos quando tentamos publicar nossos estudos em revistas internacionais, em especial, as angl√≥fonas. Nesse caso, o melhor √© esclarecermos tudo, doa a quem doer. Por isso, aguardo ainda manifesta√ß√Ķes dos editores das revistas, a quem ofere√ßo o espa√ßo deste humilde blog, de pessoas envolvidas nas publica√ß√Ķes ou de qualquer um que possa nos ajudar jogar um pouco de luz nessa escurid√£o desconfort√°vel.

 

PS. Agradeço aos leitores Sibele Fausto, Raptor e Suzana Silva pelos esclarecimentos.

Suspensão de Revistas Médicas Brasileiras

Bandeira Vermelha

Em um documento datado de 18/06/2013 (n√£o consegui checar a data com certeza), a Thomson Reuters, propriet√°ria de √≠ndices cientom√©tricos como o Fator Impacto (FI), por meio do seu¬†Journal Citation Reports¬ģ, divulgou uma lista de jornais suspensos de sua principal indexa√ß√£o. A lista pode ser vista aqui, no item Editorial Information, Title Suppressions. Uma apresenta√ß√£o em pdf (de onde tirei a foto acima) que explica as raz√Ķes da “supress√£o” pode ser baixada aqui e por qualquer um que digitar “suppression journals” no or√°culo buscador. A explica√ß√£o para a puni√ß√£o vai abaixo, em tradu√ß√£o livre do ingl√™s.

As m√©tricas para os t√≠tulos listados abaixo n√£o s√£o publicadas no JCR 2012. Foram encontrados padr√Ķes de cita√ß√Ķes an√īmalos resultando em uma signifante distor√ß√£o do Fator Impacto de revistas, de modo que o rank n√£o reflete precisamente a performance da respectiva publica√ß√£o na literatura. O fator impacto proporciona uma medida importante e objetiva da contribui√ß√£o da revista na comunica√ß√£o acad√™mica e sua distor√ß√£o e concentra√ß√£o excessiva de cita√ß√Ķes √© uma quest√£o s√©ria. A equipe do JCR monitorar√° tais revistas que poder√£o ser inclu√≠das em edi√ß√Ķes vindouras quando o problema das cita√ß√Ķes for resolvido. A cobertura das revistas na Web of Science e outros produtos da Thomson Reuters n√£o ser√° imediatamente afetada pela suspens√£o no JCR entretanto, o t√≠tulos podem ser objeto de revis√£o no intuito de determinar se os padr√Ķes de qualidade e publica√ß√£o necess√°rios para inclus√£o na Web of Science s√£o atingidos.

Em outras palavras, as revistas foram suspensas por auto-cita√ß√£o. Uma estrat√©gia que faz com que o FI aumente artificialmente. No exemplo da apresenta√ß√£o, uma revista teria FI 10, caso fossem consideradas as auto-cita√ß√Ķes. Ao retir√°-las, o FI cai para 2. A tabela abaixo (clique para aumentar) mostra as 4 revistas brasileiras “suspensas” do reposit√≥rio (CLINICS, J BRAS PNEUMOL, ACTA ORTOP BRAS e REV ASSOC BRAS MED).

tabela clinics

A primeira delas é a antiga revista do Hospital das Clínicas da FMUSP, agora denominada CLINICS, cujo FI é maior que 2. Na lista há ainda outras revistas brasileiras importantes na área médica como os Arquivos Brasileiros de Cardiologia e o Jornal Brasileiro de Pneumologia. O texto ficou ambíguo e devo enfatizar que os Arquivos Brasileiros de Cardiologia não foram suspensos do repositório, caso não tenha ficado claro.

Ainda n√£o localizei manifesta√ß√Ķes das revistas defendendo-se ou justificando-se, nem sei quantificar o quanto isso prejudicar√° a imagem delas e a nossa. Tamb√©m n√£o sei se d√° para colocar todas as revistas no mesmo balaio.¬†Vou monitorar isso e se houver novidades, publicarei. Se algum leitor mais bem informado tiver algo a acrescentar, por favor, fa√ßa-o. Se precisar sigilo, √© s√≥ pedir.

Atualização 24/06/13 23:15

Publico, na íntegra, carta dos editores das 4 revistas que acabei de receber.

24-Jun-2013

Dear Dr,

As you may know, Acta Ortopedica Brasileira, Clinics, Jornal Brasileira de Pneumologia and Revista da Associação Médica Brasileira have been suspended for one year from the Journal Citation Reports (JCR) 2012. This means these journals have no published Impact Factor for 2012. However, they continue indexed in the ISI Web of Science and consequently, all citations to and from articles in these journals continue to be counted by ISI. The suspensions do not affect the Impact Factor of any other JCR periodical. It should also be noted that we are indexed in Scimago (www.scimagojr.com) with impacts similar to those normally posted in JCR. A new edition of Scimago is scheduled for July, 2013.
According to information provided by Thomson Reuters, the four journals have been suspended for allegedly performing ‚Äústacking‚ÄĚ, defined by Thomson Reuters as an accumulation of citations to one journal in articles published in a different journal. This was instituted by ISI as a form of inappropriate usage of citation in 2012. The alleged breach occurred in 2011. Therefore, ISI has used this retroactively to suspend the four journals.¬†We confirm that we published articles to highlight specific aspects of Brazilian Science in 2011. These articles covered topics in the highlighted theme published by a large number of different Brazilian Science Journals. This is a common practice in the entire world and comes under the name of review articles.¬†Unfortunately this new modality of ISI policy prevents us from continuing to perform this service to the community, namely the reporting of information relating to recently published Brazilian Science. We regret the inconvenience caused by this new ISI policy.¬†Acta Ortopedica Brasileira, Clinics, Jornal Brasileira de Pneumologia and Revista da Associa√ß√£o M√©dica Brasileira wish to take this opportunity to reaffirm and renew their commitment with ethical and truthful reporting of science, within the dignified concept of scientific activity.

Olavo Pires de Camargo
Editor, Acta Ortopedica Brasileira

Mauricio Rocha e Silva
Editor, Clinics

Carlos Roberto Ribeiro de Carvalho
Editor, Jornal Brasileiro de Pneumologia

Bruno Caramelli
Editor, Revista da Associacao Medica Brasileira

Parece que o problema s√£o os artigos de revis√£o e/ou de coment√°rios sobre artigos publicados por/em revistas brasileiras¬†que, na nova pol√≠tica, s√£o considerados auto-cita√ß√Ķes. Aguardaremos os novos desdobramentos.

Transplante de Fezes

Parece* que nascemos mesmo livres, ao menos dos germes. Estéreis ou, como os cientistas gostam de dizer, gnotobióticos. Logo após o nascimento, entretanto, no período neonatal, somos já colonizados. O tipo de colonização é bastante influenciado pelo contato materno mas é, sob alguns aspectos, uniforme. Há mais de cinquenta filotipos de bactérias mas apenas quatro nos adotaram como lar. São eles os Firmicutes, os Bacteroidetes, as Actinobacterias e as Proteobacterias (parece Game of Thrones, né?). Mas, por que só quatro? Essa especificidade sugere uma interação de poderosas forças seletivas que permitiram eliminar algumas e manter outras espécies em co-evolução.

microbiota11

Fig. 1 ‚Äď Esquema de distribui√ß√£o dos filos bacterianos em um ser humano saud√°vel. A √°rea de cada setor do gr√°fico est√° relacionada ao n√ļmero de diferentes esp√©cies bact√©rias do filo no determinado s√≠tio do hospedeiro. (copiado com permiss√£o do Meio de Cultura)

Apesar de seguirmos esse padr√£o geral, cada ser humano parece ter uma combina√ß√£o pr√≥pria de bact√©rias desses filos, tornando a microbiota quase uma assinatura microbiol√≥gica de cada pessoa. As regras que governam a co-exist√™ncia de humanos e bact√©rias de acordo com esse modelo ainda n√£o s√£o bem elucidadas, mas o fato √© que alguns estudos em animais de laborat√≥rio gnotobi√≥ticos mostraram que tais bact√©rias n√£o s√£o fundamentais para o desenvolvimento normal desses bichos. Por outro lado, a gnotobiose n√£o ocorre de forma espont√Ęnea na natureza. Ent√£o, parece realmente que obtemos alguma vantagem de nos deixar ocupar. No nosso caso espec√≠fico, a microbiota que nos habita facilita a incorpora√ß√£o de vitaminas e nutrientes, ajuda no desenvolvimento e manuten√ß√£o da integridade dos tecidos, em especial da mucosa intestinal, al√©m de estimular em muitos aspectos as defesas contra invasores causadores de doen√ßas, para citar alguns exemplos. Um desses invasores tem tirado o sono de m√©dicos e microbiologistas: o Clostridium difficile. Vamos conhec√™-lo mais de perto.

Clostridium difficile (C diff)

Fig. 2 ‚Äď Fotografia de microscopia de popula√ß√£o de Clostridium difficile no intestino sem microbiota nativa. (Copiado do The Guardian Foto de¬†Dr David Phillips/Getty Images). Clique na foto para ver o original.

O Clostridium difficile¬†√©¬†um bacilo (forma de bast√£o) anaer√≥bio obrigat√≥rio (n√£o utiliza oxig√™nio), gram-positivo, que faz parte da microbiota intestinal e produz duas toxinas (A e B). A toxina A √© uma enterotoxina que causa aumento da permeabilidade intestinal e secre√ß√£o de fluidos, enquanto a toxina B √© uma citotoxina que causa intensa inflama√ß√£o dos c√≥lons. Por isso, o clostr√≠dio causa uma colite que chamamos de pseudomembranosa devido ao seu aspecto macrosc√≥pico √† colonoscopia. O¬†Clostridium difficile¬†pode provocar at√© 20% dos casos de diarreia associada a antibi√≥ticos e √© uma das causas mais comuns de diarreia adquirida em hospitais, em geral, em pacientes j√° debilitados o que al√©m de dificultar o tratamento, aumenta o n√ļmero de complica√ß√Ķes. O tratamento¬†para a colite por C. difficile consiste na administra√ß√£o oral de antibi√≥ticos (metronidazol ou vancomicina). Al√©m disso, a taxa de recidivas √© muito alta (15 a 26% dos pacientes). Nenhum tratamento efetivo contra as recorr√™ncias est√° dispon√≠vel e o que¬†temos √© a prescri√ß√£o de vancomicina prolongadamente. Isso, al√©m de diminuir progressivamente sua¬†efic√°cia, pode tamb√©m ser a causa do problema. O que fazer?

Cascao ideia

Foi quando alguém teve a brilhante ideia que dá título a esse texto.

Ora, se o problema √© um desbalan√ßo na microbiota intestinal, vamos tentar restabelec√™-la. Inicialmente, foram tentadas bact√©rias como os pr√≥bi√≥ticos (lactobacilos, etc). N√£o deu certo. Quando se tem pacientes morrendo e n√£o se disp√Ķe de terapias adequadas, a necessidade cria alternativas, muitas vezes desesperadas ou mesmo inusitadas.

“Por que n√£o passamos as bact√©rias de um indiv√≠duo saud√°vel para um doente?” – pensou algum m√©dico desesperado. “Sim. Mas como faremos isso?” – respondeu seu amigo pragm√°tico. “Ora, infundimos um lavado de fezes do intestino do saud√°vel para o doente… Simples!”. ¬†Foi o que fez o grupo de pesquisadores holandeses liderados por Els van Nood, citados abaixo. Por mais nojento que possa parecer, a coisa funcionou. E muito bem. O estudo teve que ser interrompido em sua an√°lise interina pois, com apenas 43 pacientes randomizados, foi poss√≠vel demonstrar uma n√≠tida melhora no grupo tratamento com 16 pacientes. Qual tratamento? O intestino dos indiv√≠duos com clostr√≠dio era lavado e ap√≥s isso, infundia-se, por meio de uma sonda nasog√°strica, 500 ml de solu√ß√£o constitu√≠da de material fecal de um doador saud√°vel (ver metodologia original no final do texto). Paralelamente a isso, foi tentado o tratamento convencional com vancomicina e ainda, uma mistura dos dois. A figura 3 mostra a taxa de cura de cada tratamento.

van Nood

Fig. 3. Gr√°fico mostrando a taxa de cura de acordo com os tratamentos institu√≠dos com as respectivas signific√Ęncias (p) de cada grupo comparado com os outros. Para mais explica√ß√Ķes, ver o texto.

O primeiro grupo, representado na coluna mais a esquerda, mostra a taxa de cura com uma infus√£o √ļnica. Se isso n√£o resolvesse, era tentada uma nova infus√£o com fezes de um doador diferente. Esses resultados s√£o agrupados na segunda coluna do gr√°fico da figura 3. A vancomicina sozinha ou associada √†s infus√Ķes parece realmente ser inferior. Interessante tamb√©m avaliar a diversidade da microbiota dos pacientes ap√≥s as infus√Ķes.

microbiota

¬†Fig. 4. Gr√°fico mostrando a varia√ß√£o da microbiota intestinal nos pacientes antes e ap√≥s a infus√£o de fezes, comparando com os doadores de acordo com o √≠ndice de rec√≠proco de Simpson. Para mais explica√ß√Ķes, ver o texto.

A microbiota intestinal foi avaliada por an√°lise de DNA usando microarray filogen√©tico (Human Intestinal Tract Chip – HITChip) e a diversidade das comunidades bacterianas antes e depois da infus√£o de fezes usando uma escala chamada de Simpson’s Reciprocal Index of Diversity, que vai de¬†1 a 250, com os maiores valores indicando maior diversidade. √Č n√≠tida a mudan√ßa ap√≥s a infus√£o, ficando os pacientes com uma microbiota t√£o diversa quanto a dos doadores.

A conclus√£o √© que o tal transplante de fezes funciona para o tratamento de infec√ß√Ķes recorrentes pelo Clostridium difficile. Dito isto, podemos come√ßar a imaginar algumas coisas. Muitas afec√ß√Ķes atuais, que v√£o desde a obesidade at√© doen√ßas card√≠acas¬†passando por fibromialgia, pancreatite¬†e autismo, est√£o sendo atribu√≠das a altera√ß√Ķes da microbiota (figura 5).

Microbiota2

Fig. 5 ‚Äď Esquema de possiveis doen√ßas e/ou complica√ß√Ķes associadas a altera√ß√Ķes da microbiota intestinal.¬†Clique na foto para ver o original.

Ser√° que os futuros tratamentos v√£o ser…? Sei l√°. Melhor nem pensar… Espero que algu√©m imagine uma c√°psula deglut√≠vel que nos traga colonizadores saud√°veis e nos livre de tais procedimentos pouco apraz√≠veis. Seria o caso de instituirmos um tipo de¬†microhiperneocolonialismo do bem? Sim, porque a abordagem convencional de partir pra porrada e dar “veneno” para as bact√©rias, dividindo-as entre boas e m√°s, parece n√£o surtir mais efeito (como em tudo, ali√°s).

*Atualizado em 23/06/2013

 

Referências

Blaser, M., & Falkow, S. (2009). What are the consequences of the disappearing human microbiota? Nature Reviews Microbiology, 7 (12), 887-894 DOI: 10.1038/nrmicro2245

van Nood, E., Vrieze, A., Nieuwdorp, M., Fuentes, S., Zoetendal, E., de Vos, W., Visser, C., Kuijper, E., Bartelsman, J., Tijssen, J., Speelman, P., Dijkgraaf, M., & Keller, J. (2013). Duodenal Infusion of Donor Feces for Recurrent New England Journal of Medicine, 368 (5), 407-415 DOI:10.1056/NEJMoa1205037

Apêndice

Infusion of Donor Feces – methodology

Donors (>60 years of age) were volunteers who were initially screened using a questionnaire addressing risk factors for potentially transmissible diseases. Donor feces were screened for parasites (including¬†Blastocystis hominis¬†and¬†Dientamoeba fragilis),¬†C. difficile,¬†and enteropathogenic bacteria. Blood was screened for antibodies to HIV; human T-cell lymphotropic virus types 1 and 2; hepatitis A, B, and C; cytomegalovirus; Epstein‚ÄďBarr virus;¬†Treponema pallidum;¬†Strongyloides stercoralis; and¬†Entamoeba histolytica. A donor pool was created, and screening was repeated every 4 months. Before donation, another questionnaire was used to screen for recent illnesses.

Feces were collected by the donor on the day of infusion and immediately transported to the hospital. Feces were diluted with 500 ml of sterile saline (0.9%). This solution was stirred, and the supernatant strained and poured in a sterile bottle. Within 6 hours after collection of feces by the donor, the solution was infused through a nasoduodenal tube (2 to 3 minutes per 50 ml). The tube was removed 30 minutes after the infusion, and patients were monitored for 2 hours. For patients who had been admitted at referring hospitals, the donor-feces solution was produced at the study center and immediately transported and infused by a study physician.

Eu, Procarioto

Certa vez atendi uma paciente no ambulat√≥rio do hospital e solicitei a ela, entre outros exames, um protoparasitol√≥gico de fezes. No retorno, os resultados n√£o mostravam nada digno de nota, exceto a presen√ßa de Entamoeba coli¬†detectada no fat√≠dico exame. Como se sabe, esse protozo√°rio vive de forma amistosa no organismo humano e n√£o √© causador de doen√ßas (diferentemente de seu primo a Entamoeba histolytica). Disse a ela, ent√£o, que estava tudo bem e que poderia continuar com a medica√ß√£o atual. Ela, indignada, perguntou se eu n√£o iria tratar “aquilo”, apontando o exame com o indicador e uma cara de nojo. Eu repeti que n√£o era necess√°rio. Ela insistiu: “Dr. Eu n√£o quero¬†isso dentro de mim. Pode tratar…”

E. coli

Escherichia coli

Mal sabia ela – e eu tamb√©m – que h√° muito mais coisas nos intestinos – e no nosso organismo, de forma geral -, do que todo nosso conhecimento recente poderia supor. N√£o s√≥ amebas boazinhas, mas tamb√©m uma infinidade de bact√©rias vivem em n√≥s. Muitas bact√©rias. Ali√°s, mais bact√©rias que c√©lulas constituintes (sim, algu√©m j√° fez essa conta!): em um indiv√≠duo normal, existem aproximadamente 10 bact√©rias para cada c√©lula humana. Isso significa que 90% das c√©lulas presentes em nosso organismo pertencem a outro dom√≠nio biol√≥gico ou super-reino chamado procariotas. N√ļmero certamente suficiente para causar uma crise de identidade em minha “insegura” paciente e me fazer lembrar de Asimov no t√≠tulo do post.

Os estudos prosseguiram. A quantidade de bact√©rias abrigadas no corpo humano era t√£o supreendentemente gigantesca que os cientistas come√ßaram a utilizar o nome microbioma ou microbiota, aludindo a uma poss√≠vel intera√ß√£o ecol√≥gica entre os seres envolvidos e¬†isso virou um projeto do Instituto Nacional de Sa√ļde dos EUA em 2007. Ao estudar pessoas de v√°rios lugares do mundo, descobriu-se que os respectivos microbiomas tinham diferen√ßas significativas, tanto de pessoa para pessoa, como entre pessoas nas diversas regi√Ķes do globo. Isso lembrou os estudos “ecogen√īmicos” iniciados no final da d√©cada de 90. Ecogen√īmica, Gen√īmica Ambiental ou Metagen√īmica¬†foram nomes dados para o sequenciamento gen√©tico e identifica√ß√£o de microrganismos em seu habitat natural, permitindo a identifica√ß√£o de v√°rias esp√©cies que n√£o eram vistas nas culturas clonais realizadas at√© ent√£o.

A presen√ßa de um “meta-organismo” geneticamente distinto dentro de nosso organismo come√ßou a gerar perguntas sobre como seria a intera√ß√£o, leia-se troca de informa√ß√£o, entre os dois sistemas gen√©ticos bastante diferentes e passamos a ser considerados seres¬†metagen√īmicos (ou superorganismos, como preferem alguns autores) no sentido ecol√≥gico mesmo do conceito. Mas, se a “distin√ß√£o galtoniana entre a gen√©tica e o meio ambiente como mecanismos geradores de nossas caracter√≠sticas fenot√≠picas √© considerada hoje uma dicotomia simplista e (…) o meio ambiente e os genes podem interagir de m√ļltiplas maneiras diferentes desafiando a no√ß√£o de que possam agir indepententemente um do outro”, como afirma Joseph Loscalzo, editorialista do New England Journal, ent√£o, a presen√ßa desse riqu√≠ssimo material gen√©tico interagindo com o nosso deve provocar algum tipo resposta. Para descrever esse novo modo de intera√ß√£o, o modelo de rela√ß√£o hospedeiro/parasita j√° n√£o parece ser suficiente porque as mesmas bact√©rias que nos ajudam em determinados momentos, podem nos prejudicar em outros.

Surge ent√£o, um novo mecanismo fisiopatol√≥gico. Algo com o qual n√£o nos t√≠nhamos defrontado antes e que, para al√©m de quaisquer dualismos, reside na intera√ß√£o entre duas “for√ßas” viventes. Antes de vencer o inimigo √© preciso, agora mais do que nunca, aprender a conviver com ele.

 

Pflughoeft, K., & Versalovic, J. (2012). Human Microbiome in Health and Disease Annual Review of Pathology: Mechanisms of Disease, 7 (1), 99-122 DOI: 10.1146/annurev-pathol-011811-132421

Loscalzo, J. (2013). Gut Microbiota, the Genome, and Diet in Atherogenesis New England Journal of Medicine, 368 (17), 1647-1649 DOI: 10.1056/NEJMe1302154

Recomendo os textos do Meio de Cultura sobre o assunto. Superorganismos 1, 2 e 3. E o especial da Nature (em inglês, para assinantes).

Agradecimentos ao Luiz Bento do Discutindo Ecologia pela revis√£o do manuscrito.