Sexo e Progresso

Cézanne – Afternoon in Naples with a Black Servant – 1875-1877

O último post me deixou um pouco encafifado e, procurando em meus alfarrábios virtuais, achei um ensaio de Zygmunt Bauman de 10 anos atrás sobre o uso pós-moderno do sexo. Segue um parágrafo do começo:

“Sex, eroticism and love are linked yet separate. They can hardly exist without each other, and yet their existence is spent in the ongoing war of independence. The boundaries between them are hotly contested – alternatively, but often simultaneously, the sites of defensive battles and of invasions. Sometimes the logic of war demands that the cross-border dependencies are denied or suppressed; sometimes the invading armies cross the boundary in force with the intention of overpowering and colonizing the territory. Torn between such contradictory impulses, the three areas are notorious for the unclarity of their frontiers and the three discourses that serve (or perhaps produce) them are known to be confused and inhospitable to pedantry and precision.”
Dos três campos em guerra, para usar a metáfora baumaniana, o sexo é o menos humano, o que menos progrediu com a espécie e o que tem laços mais tênues com a cultura. Para aqueles que acreditam na história do sexo, rebate dizendo que  temos na verdade uma história da manipulação cultural do sexo.
E eu que pensava que a tecnologia do corpo pudesse ser vista como um “progresso” sexual…

O Ponto G da Medicina

Paul Cézanne – 1867

Uma reportagem na Folha de São Paulo (28/09/08) sobre um procedimento que visa aumentar o desempenho sexual das mulheres vem comprovar uma das afirmações que este blog vem repetindo há meses. Trata-se de uma injeção de colágeno (proteína fibrosa constituinte de tendões e ligamentos) numa região bastante mal definida conhecida como ponto G. Com isso a área aumentaria e o prazer proporcionado por sua estimulação, também.

A reportagem, escrita por uma mulher, tem opiniões balanceadas numa primeira passada d’olhos, esclarecendo sobre os benefícios e possíveis efeitos colaterais do procedimento. Uma leitura mais atenta entretanto, faz surgir a pergunta: por que tanta ênfase sobre um procedimento que não é aprovado pela ANVISA, não é consenso entre os médicos, sobre uma parte, ou seria um orgão (?), que muita gente acha que não existe, com o objetivo de otimizar um comportamento sexual presumivelmente alterado em comparação sabe-se lá com quê ?
Esse tipo de assunto está numa fronteira entre o que chamamos Medicina e o que pode ser chamado de tecnologia do corpo. Não por acaso, são cirurgiões plásticos e não ginecologistas, os vetores iniciais do procedimento. Digo isso, porque a especialidade juntamente com a psiquiatria, trabalha no limite entre o normal e o patológico e muitas condutas, tanto de uma quanto de outra, não resistiriam a uma reflexão mais elaborada sobre se o que se está fazendo pode ou não ser chamado de medicina. Isso de alguma forma contribui para a cirurgia plástica ser a campeã em processos no Cremesp.
As áreas de fronteira como essa, são especialmente úteis para identificar pontos de atrito. São excelentes para tentarmos saber o que é e o que não é determinada atividade humana. O médico, versado nos segredos, reentrâncias e arquiteturas do corpo, acostumado a tecnologias inovadoras, pode ser presa de valores que não pertencem diretamente à sua profissão. Valores dizem respeito a moral. Quem cuida desse tipo de reflexão são filósofos. E o ciclo se fecha. O cientista/médico não pode se pensar.

Bloguerização II

Interessantíssimo artigo da Plos sobre bloguerização da ciência, assunto já tratado aqui no Ecce Medicus e no Ciência e Idéias. Fala sobre a forma como a ciência evolui e de como os blogs podem fazer (e já fazem) parte disso:
“Scientific discovery occurs in the lab one experiment at a time, but science itself moves forward based on a series of ongoing conversations, from a Nobel Prize winner’s acceptance speech to collegial chats at a pub. When these conversations flow into the mainstream, they nurture the development of an informed public who understand the value of funding basic research and making evidence-based voting decisions. It is in the interests of scientists and academic institutions alike to bring these conversations into the public sphere.”
Acabam por propor uma forma de enquadrar blogs científicos nas atividades acadêmicas:
“We propose a roadmap for turning blogs into institutional educational tools and present examples of successful collaborations that can serve as a model for such efforts. We offer suggestions for improving upon the traditionally used blog platform to make it more palatable to institutional hosts and more trustworthy to readers; creating mechanisms for institutions to provide appropriate (but not stifling) oversight to blogs and to facilitate high-quality interactions between blogs, institutions, and readers; and incorporating blogs into meta-conversations within and between institutions.”
O artigo não comenta entretanto, uma idéia que me é extremamente cara: a da razão compartilhada. Como escrevi em outro lugar, um post não é nunca uma obra acabada. É uma criação, um objeto linguístico que o autor não sabe se é bom ou não, até que chega alguém e escreve um outro texto que se encaixa, põe uma referência ou intertextualiza. Por isso, acredito que um post é o melhor exemplo de intersubjetividade.
No mais puro estilo do “duas cabeças pensam melhor que uma”, que melhor maneira existiria atualmente para debater e construir argumentos com valor de verdade?

O Hospital Mais Antigo do Mundo?

O propósito do Stonehenge tem sido um mistério para cientistas de várias gerações. De santuário de adoração a calendário, de aeroporto de discos-voadores a centro de magia negra, O Stonehenge só não havia sido ainda um hospital. Não havia. Escavações recentes mudaram a data em 300 anos (ficou mais velho) e, pelo enorme número de corpos ali enterrados, levantaram a suspeita de que a enorme construção poderia ser um tipo de policlínica, ou um Healing Center, como os novos pesquisadores resolveram chamar, como mostra a reportagem da BBC. (detalhe, essa reportagem saiu ontem – 21 de Setembro na BBC, mas já tinha gente ligada bem antes. Para uma excelente revisão sobre os mistérios ver o português Sais de Prata num post de 7 de Abril deste ano).
“Professors Darvill and Wainwright believe that Stonehenge was a centre of healing – a “Neolithic Lourdes”, to which the sick and injured travelled from far and wide, to be healed by the powers of the bluestones. They note that “an abnormal number” of the corpses found in tombs nearby Stonehenge display signs of serious physical injury and disease. And analysis of teeth recovered from graves show that “around half” of the corpses were from people who were “not native to the Stonehenge area”. “Stonehenge would attract not only people who were unwell, but people who were capable of [healing] them,” said Professor Darvill, of Bournemouth University. “Therefore, in a sense, Stonehenge becomes ‘the A & E’ of southern England.”
Interessante a planta de 2300 A.C. O Panopticon já estava na moda…

O Médico – Cientista ou Moralista?

Shaxmd’s photostream at Flickr

Em 1950, George Simpson escreveu logo na introdução de seu artigo THE SCIENTIST-TECHNICIAN OR MORALIST? que a “aparente bifurcação entre ciência e moralidade decorre do status social da própria ciência e dos cientistas, envolvendo uma aceitação acrítica dos valores sociais dominantes”. A ciência não seria amoral, mas se apropriaria da moralidade convencional, ou seja, funde-se a uma moralidade mainstream modificando-a e sendo modificada por ela. Na visão tardo-capitalista onde a tecnociência ocupa posição fundamental, são forjados conceitos morais dentro de uma ótica que tem como objetivo final o lucro, a apropriação, o domínio e o controle de variáveis que poderiam interferir com a caminhada do “progresso”.
Mas se a ciência tem uma convivência nada pacífica com a moralidade, como foi ocorrer essa apropriação da moralidade convencional pelos cientistas contemporâneos? Para G. Simpson, essa situação resulta de uma disjunção da auto-consciência do cientista, ele, figura importantíssima no quadro social atual; e também ele, demasiado humano, que necessita de uma rede social de outros humanos; que cotidianamente toma decisões não-baseadas em fatos científicos, mas cujo raciocínio não se desvencilha dos formalismos do método. O artigo caminha por esses argumentos, mas esse ponto merece uma parada.
E o médico é técno-cientista ou moralista? Digo que em algumas situações um, em outras, o outro. Como ser o mesmo em todas? Pelo menos é assim que deveria ser. Mas isso gera uma tensão insuportável quando se está a frente de um paciente e seus familiares! Quando se está a frente de outros médicos! É possível justificar uma ação moral pela ciência? Pelo parágrafo 25 da 3a Dissertação da Genealogia da Moral de Nietzsche, parece que não…

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Quem vai ficar com Wilma?

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Last of the Neanderthals

Você “ficaria” com a moça da foto?
Ela foi batizada de Wilma e é a reconstrução de um rosto de uma mulher (ou seria femêa?) neandertal feita por cientistas e artistas para a revista da National Geographic. Há fortes indícios de que neandertais tivessem cabelos ruivos, mas talvez isso não tenha sido suficiente.
Enfim, como quase ninguém se habilitou, ela foi a última e a espécie se extinguiu…

Quociente de Inteligência e Orientação Política

Turn_Left.jpg Some political advice for conservatives. By Sam Wilkinson.

Em tempos de eleição é sempre importante darmos uma checada nas nossas escolhas. Principalmente se pudermos fazer uma escolha “inteligente”. Por anos, psicólogos, sociólogos, antropólogos e cientistas das mais variadas áreas têm tentado demonstrar uma relação entre “inteligência” e “orientação política”. Seriam os liberais mais inteligentes, ou seriam os conservadores?

Um artigo in press da revista Personality and Individual Differences tenta abordar esse assunto. O título é direto: “Is there a relationship between political orientation and cognitive ability? A test of three hypotheses in two studies. O autor é Markus Kemmelmeier, sociólogo da Universidade de Nevada. (para o abstract, clique aqui). Segundo o resumo:

“Two studies tested one linear and two curvilinear hypotheses concerning the relationship between political conservatism-liberalism and cognitive ability. Study 1, focusing on students at a selective US university (n = 7279), found support for the idea that some dimensions of conservatism are linked to lower verbal ability, whereas other dimensions are linked to higher verbal ability. There was also strong support for political extremists both on the left and right being higher in verbal ability than centrists. Study 2 employed aggregate data pertaining to the 50 US states and demonstrated that conservatism was linked to lower cognitive ability in states with high political involvement, but found conservatism to be correlated with higher average ability in states with low political involvement. The discussion addresses potential implications and criticisms of this research.”

O assunto é complexo. Até Theodor Adorno deu os seus pitacos em 1950! (ver aqui e aqui). Fico pensando se o QI é um bom método para medir tais variáveis. Na verdade, o estudo utiliza o SAT que pode, em algumas situações, ser comparado ao QI (ver aqui e aqui). Será que não existe um bias de publicação e se ser de “esquerda” nos EUA é a mesma coisa que ser de “esquerda” na França ou no Brasil, são questões não respondidas. Não consigo desvincular tais publicações de tentativas de legitimação, mas vindo de um país como os EUA, tudo fica muito confuso. Gostaria de ouvir a opinião dos leitores.

Crenças Filosóficas e o Sarampo

Willem De Kooning’s “Police Gazette” at Crucial Talk

Interessante notícia da American Association of Family Physicians (AAFP). A epidemia de sarampo nos EUA caminha a passos largos. O mais incrível é a causa das não-imunizações:

“Of the 131 total cases reported to the CDC, 123 occurred in U.S. residents. Five of these residents had received a single dose of measles-mumps-rubella, or MMR, vaccine; six had received two MMR doses; and 112 were unvaccinated or had unknown vaccination status. Of those 112 cases, 16 occurred in patients who were too young to be vaccinated and one occurred in a patient who was born before 1957 and, therefore, was presumed to have immunity. Finally, of the 95 remaining patients eligible for vaccination, 63 had not been immunized because of their parents’ philosophical or religious beliefs.”

Pelo que andei lendo, algumas religiões acham falta de fé vacinar os filhos pois estariam subestimando a proteção divina. Não li nada, entretanto, sobre crenças filosóficas. Fico pensando que tipo de “crença filosófica” impediria alguém de tomar vacina.

Para um boletim atualizado da MMWR do CDC clique aqui.

O Risco

Photo by Ivan Makarov

Na Epidemiologia do Risco, a “velha” epidemiologia observacional das doenças infecciosas, com “inveja” das ciências médicas experimentais, abandona sua antiga metodologia da exposição e passa “a tratar principalmente das doenças crônicas não-transmissíveis, para as quais os métodos observacionais ainda não foram completamente explorados. Através do estudo das circunstâncias sob as quais essas doenças experimentam uma prevalência incomum, espera-se identificar áreas nas quais o trabalho experimental laboratorial possa se concentrar para a identificação dos agentes causais específicos.”
No Risco, a especulação causal é a razão de ser da investigação biomédica e deve sugerir vínculos causais para que as ciências biomédicas experimentais explorem “adequadamente” tais associações. Uma das principais críticas desse tipo de atitude é sua inerente “rarefação teórica”. Se quer dizer com isso que a validação das proposições geradas na epidemiologia do risco não vem de “dentro”, mas de “fora”, ou seja, das ciências biomédicas, ditas “duras”. Ao terceirizar seu discurso de verdade, a epidemiologia ficou refém da doença e de seus correlatos.
Essa situação abre caminho, na minha maneira de ver, para as deformações do pensamento médico da atualidade. Hoje a Epidemiologia do Risco (com toda sua rarefação teórica) substitui a Anatomia Patológica na racionalidade médica contemporânea! A validação do discurso da Anatomia Patológica era dada através da própria experimentação e análise post-mortem. A Epidemiologia do Risco não valida seu discurso, remete essa tarefa às ciências biomédicas que, por não terem o norte do bem-estar do indivíduo nem o conceito de saúde ou produção de felicidade, tecnologizam a relação médico-paciente, dando a exata sensação de caminhar em círculos (ora uma conduta é válida, ora não!). Ao transferir esse raciocínio para a esfera do mundo acadêmico, entendemos o porquê das “máquinas de publicação”, fator impacto, medicina baseada em evidências, medicalização, tecnologização e todos os fatores que tornam a medicina contemporânea tão estranha e assustadora aos olhos dos pacientes, médicos e fontes pagadoras. A impossibilidade da razão instrumental em se pensar. Quão distante estamos da fronésis aristotélica…

Epidemiologia da Exposição

Paramixovírus. From Linda Stannard’s Virus Ultrastructure, at the Department of Medical Microbiology, University of Cape Town.

A grande marca das ciências modernas é a sua estruturação num modo de argumentar baseado na experimentação, ou apoiado na dedução lógica e/ou na matemática. A forma de se fazer perguntas sobre o mundo e a obtenção de respostas com valor de verdade apóiam-se fundamentalmente nas relações formais entre hipóteses e conclusões, retiradas das ciências chamadas “duras”.
A Epidemiologia não queria ficar para trás. Por isso, William Heaton Hamer, personagem importante do período, na década de 30 construiu as curvas epidêmicas do sarampo na Inglaterra. Com elas, os períodos de aumento e diminuição dos casos ao longo dos anos não precisavam mais de teorias miasmáticas e metafísicas para sua explicação. Sigamos Ayres:
“Embora Hamer tenha construído seu raciocínio ainda muito influenciado por conceitos e concepções da epidemiologia da constituição, esse epidemiologista fornece uma base bastante interessante para a sua sucedânea, a epidemiologia da exposição. Isto porque, por um lado, abriu um importante espaço para a quantificação, o que viria a ter enorme importância na década de 30, após os significativos avanços que a estatística alcançou na década de 20. Por outro lado, o equacionamento dos diversos fatores envolvidos nos fenômenos epidêmicos e a elaboração de seus potenciais desdobramentos em função de suas relações matemáticas, confere aos fenômenos epidêmicos possibilidades de manipulação e preditibilidade extremamente interessantes para o ambiente pragmatista que passava a dominar a cena da época.”

Mais quantificação, mais “cientificação”. Incorporação da Estatística, tão cara a nós hoje em dia. A Epidemiologia em busca de um lugar nas bases do pensamento médico. E devagar, chegamos à Epidemiologia do Risco.

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