Efeitos Colaterais da Vacinação contra o HPV

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Poucas ações na área da Saúde mexem mais com a cabeça das pessoas do que a vacinação. É, de certa forma, incompreensível que pessoas se submetam a procedimentos estéticos de alto risco, usem suplementos sem nenhum tipo de comprovação em busca de melhores performances, tomem xixi em busca de tratamentos improváveis, mas questionem de modo tão agressivo e leviano os benefícios das vacinas. E não é de hoje. Há algo no processo de vacinação que desperta um certo terror irracional e primitivo e talvez a única forma de combater esse medo obscurantista seja por meio das luzes da informação.

Com a relativamente nova (~ 2004) vacina para o vírus da papilomatose humana, conhecido por sua abreviatura em inglês HPV, não foi diferente. A partir do anúncio de que o governo brasileiro distribuiria tais vacinas gratuitamente para população vulnerável (no caso, meninas que ainda não entraram em contato com o vírus transmitido por intermédio de relações sexuais e nas quais a infecção pode levar, anos depois, a um tipo de câncer do cérvice uterino) houve uma saraivada de protestos. Desde teorias conspiratórias sobre o capitalismo selvagem exercido pelas indústrias farmacêuticas interessadas em vender vacinas para a totalidade da população terrestre, passando por histórias de efeitos colaterais terríveis escondidos da população em nome do lucro, até o mais completo delírio psicodélico-onírico e desvairado de que o objetivo é nos transformar todos em zumbis de modo a podermos ser facilmente dominados por meio da inoculação de um vírus maligno que derreteria nossos cérebros e nossa vontade própria. Ou algo assim. No caso da vacina para o HPV, houve ainda a questão de que ela teria um efeito de liberação sexual precoce nas meninas havendo quem a defendesse que ela funcionaria como um tipo de “certificado de sexo livre”. Esse assunto já foi comentado pelo Discutindo Ecologia e pelo Carlos Orsi em textos altamente recomendáveis. Também já foram oferecidos argumentos racionais à vacinação para rebater reportagens sensacionalistas na mídia leiga. Não produziria aqui um texto melhor que estes citados.

Vamos tentar falar aqui dos efeitos colaterais da vacina contra o HPV. Sim, claro que eles existem, mas para isso é preciso alguma noção básica de como funcionam as vacinas. O princípio básico de qualquer vacina vem da observação clínica de que algumas doenças só são contraídas uma única vez devido a produção de anticorpos que duram, em geral, a vida toda. O melhor dos mundos seria adquirirmos a imunidade sem ficarmos doentes, não é? Isso é mesmo possível. Em algumas situações clínicas, quando achamos que o risco de alguém infectar-se é muito grande, administramos aos pacientes anticorpos contra determinado agente infeccioso e isso funciona muito bem (exemplo, hepatites virais, tétano). Entretanto, esses anticorpos conferem uma proteção de curta duração, são caros e por essa razão, utilizados, como eu disse, em situações bastante específicas. O melhor jeito é realmente “ensinar” o organismo a produzí-los, mas para isso é preciso “simular” uma doença mais fraquinha. É isso que a vacina faz. Existem vários tipos. Em alguns, matamos o agente infeccioso e administramos apenas os seus “cadáveres” para que o nosso organismo os reconheça da próxima vez que eles vierem, no caso, vivos e perigosos. Funciona bem. Outras vezes, domesticamos os agentes (a palavra que usamos é “atenuar”) para que, mais bonzinhos, eles não causem exatamente a mesma doença e nos protejam para sempre. Por fim, às vezes são retirados apenas pedaços principais da cápsula de alguns agentes de maneira que, tal como uma digital de um criminoso, nossas células de defesa possam identificá-los tão logo invadam nosso organismo. As vacinas mais modernas são desse último tipo e a vacina contra o HPV não foge à regra. Ela é dita “recombinante” porque “solicitamos gentilmente” a uma bactéria, veja só, que fabrique os pedacinhos de HPV que descobrimos serem os mais importantes e, depois de tratados e conservados, administramos nas pessoas. Com isso, os riscos de reações alérgicas diminuem muito e são exatamente as reações alérgicas os principais efeitos adversos desta e de qualquer vacina.

A lista abaixo, retirada daqui, enumera os principais efeitos colaterais da vacina quadrivalente, ou seja, que contém os quatro principais tipos de vírus HPV causadores do câncer uterino e que está sendo distribuída pelo SUS. Vamos a eles:

Efeitos Muito Comuns

Mais que uma em cada dez pessoas que tomam a vacina (ou seja > 10%) têm:

  • vermelhidão no local da injeção, hematomas, prurido (coceira), inchaço e dor local. Pode ocorrer uma inflamação local chamada celulite e nesse caso, um serviço de saúde deverá ser procurado.
  • Dor de cabeça

Efeitos Comuns

Mais do que uma em cada cem pessoas (ou seja > 1%) têm:

  • febre
  • náuseas
  • dores nos braços, pernas, mãos e pés

Efeitos Colaterais Raros

Por volta de uma em cada dez mil pessoas (ou seja > 0,01%) têm:

  • erupções cutâneas pruriginosas (tipo urticária, com “vergões”)

Efeitos Muito Raros

Menos que uma pessoa a cada 10.000 (ou seja < 0,01%) têm

  • Dificuldade de respirar, chiado no peito (broncoespasmo)

Efeitos Colaterais de Frequência Desconhecida

Tais efeitos não são possíveis de ser contabilizados porque são relatos individuais de pessoas que os reportaram a centros especializados e não dados provenientes de testes clínicos controlados.

Frequência desconhecida:

  • problemas sanguíneos que levaram a hematomas ou sangramento
  • calafrios
  • desmaio ou perda da consciência
  • tonturas
  • sensação de mal-estar
  • Sindrome de Guillain Barré
  • dor articular
  • aumento dos linfonodos (gânglios)
  • dor muscular ou aumento da sua sensibilidade
  • convulsões
  • cansaço
  • vômitos
  • fraqueza

Reações Alérgicas

Em raros casos, é possível que após a vacinação para HPV reações alérgicas mais graves conhecidas como reações anafiláticas ocorram. Os sinais de uma reação anafilática são:

  • falta de ar e chiado no peito
  • inchaço nos olhos, lábios, genitais, mãos, pés e outras áreas (chamados de angioedema)
  • coceira pela corpo
  • gosto metálico na boca
  • ardência, vermelhidão e coceira nos olhos
  • coração acelerado
  • perda da consciência

Tais reações foram computadas como extremamente raras, na ordem de 1 em 1.000.000 de vacinas aplicadas. Por isso, as vacinas devem ser aplicadas em local apropriado com pessoal treinado para diagnosticar e tratar essas raríssimas complicações que, apesar de graves, têm reversão completa, sem deixar qualquer tipo de sequela. A página específica da vacina no FDA (órgão norte-americano semelhante à nossa ANVISA) pode ser checada aqui.

É isso. A vacinação é a melhor prevenção para doenças e esta é a primeira vacina contra um tipo específico de câncer, sem dúvida, um enorme avanço. Aproveito para perguntar: onde estariam os críticos da vacinação do H1N1 que há 5 anos espalharam os mesmos boatos sobre a vacinação contra a gripe suína? Por falar nisso, já tomei a minha este ano. E você?

Referência

ResearchBlogging.orgKlein, N., Hansen, J., Chao, C., Velicer, C., Emery, M., Slezak, J., Lewis, N., Deosaransingh, K., Sy, L., Ackerson, B., Cheetham, T., Liaw, K., Takhar, H., & Jacobsen, S. (2012). Safety of Quadrivalent Human Papillomavirus Vaccine Administered Routinely to Females Archives of Pediatrics & Adolescent Medicine, 166 (12) DOI: 10.1001/archpediatrics.2012.1451
Atualização (06/05/2014)

Não deixem de ver o sensacional vídeo sobre vacinas do Nerdologia.

Paris, Século XIX

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Hotel Dieux, Paris, França (1860). Por trás, sim, ela mesma, a Catedral de Notre Dame.

Honoré de Balzac – naquele que viria a ser o terceiro livro da primeira parte dos Estudos do Costume e o décimo-primeiro volume de sua monumental Comédia Humana, o romance de nome “A Casa Nucingen” – inicia sua narrativa com uma conversa de quatro jornalistas em um restaurante parisiense. Em determinado momento da discussão, que, a propósito, girava em torno da felicidade humana, Balzac coloca na boca de Émile Blondet a seguinte frase (em livre tradução): “A medicina moderna, cuja maior glória é ter, de 1799 a 1837, passado do estado conjectural ao estado de ciência positiva, muito pela grande influência da escola analista de Paris, demonstrou, sem dúvida, que o homem periodicamente renova-se por completo”[1]. O livro foi escrito em 1837 e publicado, inicialmente, na forma de folhetim nos jornais da época.

Deixemos – com Georges Canguilhem [2] – a questão da tal “renovação humana” de lado até porque, no livro de Balzac, tal observação não deixa muito claro seus objetivos. Canguilhem, ele mesmo médico e filósofo, tomou dois aspectos dessa frase de Balzac para analisar o que ele chama de “estatuto epistemológico da medicina”[2]: as datas e o sintagma “estado de ciência positiva”. Balzac era um grande cronista de sua época e não escolheria tais datas gratuitamente. Canguilhem identifica então alguns acontecimentos marcantes: em 1799, aconteceu o Golpe de Estado do 18 Brumário e a publicação da “Nosographie philosophique ou la methode de l’analyse applique à la médicine” de Pinel. [lembrar que a obra máxima de Xavier Bichat foi publicada em 1799/1800: Traité des membranes général et de diverses membranes en particulier]. Se, por um lado, 1837 não tem nenhum fato político relevante, do ponto de vista médico “é o ano da publicação do terceiro volume das ‘Leçons sur les phenomenes physiques de Ia vie’ de Magendie e também da quarta edição do ‘Traité d’ auscultation médiate’  de Laennec, revisado por Andral”. Entre as duas datas, ainda segundo Canguilhem, Xavier Bichat inventou a anatomia patológica, Pierre Louis instituiu as estimativas numéricas concernentes à tuberculose (1825), febre tifóide (1829) e aos efeitos do tratamento das pneumonias com sangria (1835), tudo isso sem esquecer que foi em 1830 que o primeiro dos seis volumes do “Curso de Filosofia Positiva” de Auguste Comte foi publicado. Eu ainda apontaria, na frase de Balzac, um terceiro elemento que mereceria atenção especial, apesar de Canguilhem não o destacar em seu texto: “escola analista de Paris”. Por que Paris? As transformações radicais que a prática médica sofreria nos anos seguintes à Revolução Francesa não foram ocasionadas por uma repentina descoberta científica ou por um avanço tecnológico súbito, nem tampouco tiradas da cartola de ninguém.

A mudança radical ocorrida na medicina foi uma revolução conceitual. A Revolução Francesa (1789-1799) fechou todos os serviços públicos de saúde para reabrí-los posteriormente. O Hotel Dieu (acima) tinha dependências insalubres e abrigava até 5 pacientes para CADA LEITO! [3]. Pessoas convalescentes, misturavam-se com as doentes, pessoas vivas misturavam-se aos cadáveres. Os quartos superlotados não tinham ventilação adequada. O pós-operatório (ainda não existia a anestesia) era ao lado da ala psiquiátrica onde “gritos eram ouvidos à noite toda”, são descrições comuns da época. Após a reabertura dos hospitais não foi permitido mais que um paciente por leito, mas a situação não melhorou muito. As clínicas médicas particulares foram praticamente extintas e os médicos passaram a exercer suas funções nesses hospitais. Alguns recebiam salários dos próprios hospitais (muito baixos, diga-se de passagem), mas o movimento aumentou muito. Os médicos tinham a oportunidade de ver centenas de pacientes nos ao invés de alguns poucos em suas clínicas privadas. Com isso, houve uma mudança na relação médico-paciente, com o primeiro ganhando poderes quase ilimitados sobre o segundo. Além disso, o órgão responsável pela saúde criado no período revolucionário e atuante também depois dele – Conseil Générale d’Administration – centraliza e expande a Saúde Pública determinando o acesso de todos. Por meio desse órgão, foi promulgada a “Lei das Autópsias” (art. 25 do decreto de Marly) que cobrava uma quantia para enterrar pessoas falecidas nos hospitais que a grande maioria da população não tinha condições de pagar. Os corpos então iam para sala de autópsias, permitindo “material” praticamente inesgotável de estudo para os médicos ávidos de conhecimento. Tal situação levou muitos médicos de outros países a estagiarem em Paris com objetivo de aprender as técnicas de autópsia e também a nova Anatomia Patológica [3].

A reviravolta epistêmica ocorrida nos mal-falados e escuros hospitais de Paris no século XIX repercute até hoje em todo o edíficio fulgurante da prática médica contemporânea. No novelo complexo dessa reviravolta é possível destacar quatro fios-de-meada, quatro “vertentes fundacionais” de conceitos formadores (e também deformadores, como veremos) do pensamento médico atual. Vertentes que, de certa forma, já estavam presentes em dispersos antecessores dos franceses e que, transformadas por estes, vieram tornar-se caudalosos rios nos quais os médicos navegam hoje. Se conhecer a nascente de um rio talvez não seja importante para navegá-lo, é ao menos prudente estudar a geografia de seu leito para que saibamos onde (e como vamos chegar a sua foz). Tentarei mostrar nos próximos posts de onde vêm e para onde vão quatro das principais ideias surgidas na Paris de Balzac e Canguilhem.

 

[1] de Balzac H, de Carvalho A. A casa Nucingen. Companhia Nacional Editora; 1891. Fac-símile em francês no site da Biblioteca Nacional da França. A referida passagem se encontra na página 13 da obra.

[2] ResearchBlogging.orgCanguilhem, Georges (1988). Le statut epistémologique de Ia médecine. Hist. Phil. Life Sci., 10 (Suppl), 15-29.

[3] ResearchBlogging.org Waddington, I. (1973). The Role of the Hospital in the Development of Modern Medicine: A Sociological Analysis Sociology, 7 (2), 211-224 DOI: 10.1177/003803857300700204

Figuras retiradas do bonito blog Dittrick Museum.

 

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