Hollywood e a Dissolução do Sujeito

‚Äú (…) se por acaso n√£o olhasse pela janela homens que passam pela rua, √† vista dos quais n√£o deixo de dizer que vejo homens da mesma maneira que digo que vejo a cera; e, entretanto, que vejo desta janela, sen√£o chap√©us e casacos que podem cobrir espectros ou homens fict√≠cios que se movem apenas por molas? Mas julgo que s√£o homens verdadeiros e assim compreendo, somente pelo poder de julgar que reside em meu esp√≠rito, aquilo que acreditava ver com meus olhos‚ÄĚ.

René Descartes Р2a Meditação

 

Em conversa com um menino hoje, surgiu a quest√£o filos√≥fica do sujeito cognoscente e a realidade conhecida. As velhas perguntas de como conhecemos o que conhecemos e se o que conhecemos √© realmente a realidade. Fiquei pensando em um jeito de explicar isso sem recorrer aos c√Ęnones filos√≥ficos chatos e me lembrei de alguns filmes.

√Č interessante notar, como nota introdut√≥ria, que a no√ß√£o de EU surgiu no s√©culo V, na Gr√©cia de P√©ricles.¬†Descartes, muitos anos depois deu a esse EU poderes quase sobrenaturais e o fez sin√īnimo de racionalidade. Kant colocou o sujeito como princ√≠pio determinante do mundo do conhecimento e da a√ß√£o. O sujeito kantiano √©¬†o fundamento da verdade. Esse foi o modelo adotado pelo ocidente apesar de muita gente avisar dos perigos¬†decorrentes dessa vis√£o. Quando analisamos a constitui√ß√£o desse EU vemos que h√° um “esp√≠rito” que raciocina, sente e interpreta; e um corpo, sede de desejos, doen√ßas e outras caracter√≠sticas animais. Nada disso faz sentido se n√£o tiv√©ssemos um mundo, pressupostamente intelig√≠vel e oxal√° pr√©-planejado, acess√≠vel ao EU, doravante denominado sujeito, pois que ir√° interagir neste mundo dado.¬†Hollywood ama dualismos¬†– no caso, corpo e esp√≠rito, bom e ruim, etc – e isso √© um prato cheio para roteiristas espertos. Vamos ver como os diferentes diretores e roteiristas jogaram com esses elementos, mas antes, um aviso: √© riqu√≠ssimo o objeto de an√°lise e o leitor pode encontrar v√°rias outras interpreta√ß√Ķes diferentes. A ideia aqui √© despertar a aten√ß√£o para algumas simetrias e discutir, mesmo superficialmente, um pouco de filosofia.

Podemos analisar os blockbusters¬†Matrix¬†(1999), Avatar¬†(2009),¬†a Origem (Inception/2010) e Sem Limites (Limitless/2011) porque quase todo mundo viu.¬†Em Matrix, os humanos viviam em casulos tendo seus respectivos sistemas nervosos conectados diretamente a uma realidade virtual (a tal Matrix) onde passavam a vida toda sem poder tocar em algo real. Na Origem, uma m√°quina de sonhos possibilitava a grupos de pessoas sonhar o mesmo sonho (ali√°s, um antigo desejo humano). Em Avatar, um planeta paradis√≠aco, mas in√≥spito aos humanos, era o palco de uma guerra entre a gan√Ęncia e o amor a natureza. Em Sem Limites, um escritor mal-sucedido descobre uma droga que aumenta seus poderes mentais e ganha fama e dinheiro. Feito esse resumo mega-resumido, totalmente sujeito a cr√≠ticas, vejamos o esquema abaixo:

Podemos imaginar 2 eixos de an√°lise sendo um o sujeito e o outro o mundo¬†onde o sujeito atua conforme a figura. Em Matrix, o mundo e o sujeito atuante s√£o virtuais, tanto que o sujeito precisa ser “libertado” para o mundo real. Na Origem, o mundo √© virtual mas o sujeito que sonha √© real, at√© porque o autor do sonho que √© invadido pelos ladr√Ķes faz a maior diferen√ßa na hist√≥ria. Em Avatar, o mundo √© real, mas inacess√≠vel aos humanos sendo necess√°ria a incorpora√ß√£o ou conex√£o neural com um boneco semelhante aos N’avi criado geneticamente. No Sem Limites, tudo √© real, exceto a “intui√ß√£o” que o sujeito tem do mundo, amplificada por uma droga sint√©tica.

Varia√ß√Ķes sobre um mesmo tema, nenhuma pel√≠cula abordou a dilacera√ß√£o do sujeito que ocorreu a partir do s√©culo XIX. Todas elas creem no sujeito cl√°ssico transcendental. Sujeito que Nietzsche, Marx e Freud demonstraram estar sob o jugo de outros fatores. Com o risco da imprecis√£o da s√≠ntese, Nietzsche considerou o sujeito e a consci√™ncia como m√°scaras da vontade de poder; Marx, o colocou sob o jugo da influ√™ncia das classes e das rela√ß√Ķes de produ√ß√£o e Freud, o p√īs sob a influ√™ncia dos subterr√Ęneos da consci√™ncia, a psique como m√°quina desejante, todos manipulando nossos ju√≠zos e interpreta√ß√Ķes da realidade. Filmes que abordam esses assuntos n√£o costumam ser sucesso de bilheteria. Dos in√ļmeros existentes, alguns que vi e que recomendaria s√£o:¬†Martin Scorsese e Ingmar Bergman.¬†Talvez o Hotel Ruanda, pelos v√°rios conflitos √©tico-morais.¬†Godard, Ken Loach¬†(esse √ļltimo indica√ß√£o do D. Christino. Talvez a Fabiana pudesse indicar alguns tamb√©m!)

Cabe uma refer√™ncia ao excelente “O Show de Truman“. N√£o soube como classific√°-lo segundo o esquema acima. O sujeito √©, com certeza, real, mas o mundo em que ele atua √© d√ļbio: fict√≠cio, dado que h√° uma realidade externa a ele que o compreende, por√©m com pessoas reais, que at√© entram em conflito por participar da enorme farsa. Chama a aten√ß√£o o fato do filme utilizar a linguagem dos reality shows para falar sobre simula√ß√£o o que j√° diz muito sobre esse tipo de reality. De qualquer forma, o filme mostra o sujeito em uma grande tomada de consci√™ncia e busca pela liberdade. Emancipa√ß√£o¬†√© um bom nome para isso.

Sonho de Memória

Sob a história, a memória e o esquecimento.

Sob a memória e o esquecimento, a vida.

Mas escrever a vida é outra história.

Inacabamento.

Paul Ricoeur

Como a memória se relaciona com o real?

~ o ~

Dona Alzira tem 84 anos e nenhum problema grave de sa√ļde, exceto um Alzheimer avan√ßado. Bebe sua cervejinha e dorme a sesta durante o dia. √Č capaz de entabular uma conversa na qual, apenas ap√≥s uns 5 minutos de papo, o interlocutor come√ßa a perceber que alguma coisa n√£o se encaixa muito bem. √Č divertida e adora um palavr√£o.

Precisamente hoje, Dona Alzira recebeu, no caf√© da manh√£, a not√≠cia de que um grande amigo seu, Vic√© (pronuncia-se Vitch√©), veio a falecer. Olhou para baixo e ficou triste. “Morreu de infarto, dormindo. Pelo menos n√£o sofreu, n√£o ficou numa cama…” Ela n√£o chorou e terminou o caf√© em sil√™ncio.

Foi para seu quarto, tomou banho, trocou de roupas e chamou a filha. Ap√≥s alguns segundos de insuport√°vel sil√™ncio, come√ßou a chorar bem baixinho. “Que foi, M√£e?” “N√£o sei. Tive um sonho ruim. Sonhei com o Vic√©…”

Carta da Lu ou Sobre como o Mito de Tritão-Sereia influencia a Vontade de Salvar da População Médica Brasileira

O Ecce Medicus pretende, quem sabe um dia, ser um espa√ßo para reflex√Ķes sobre a profiss√£o m√©dica. Por essa raz√£o, h√° algum tempo, venho convidando pessoas, m√©dicos ou n√£o, a escrever sobre suas pr√°ticas e viv√™ncias relacionadas √† profiss√£o de Hip√≥crates. Hoje, publico uma carta da Dra. L√ļcia, m√©dica infectologista e intensivista do Paran√°.¬†

“Querido Karl,

Queria te contar como foi a minha semana passada!¬†Faz tempo que n√£o batemos papo, e, devo confessar, faz tempo que mal tenho tempo pra ler o seu blog, que sempre alimenta os olhos e a alma… E p√Ķe meu cerebro pra funcionar tamb√©m! Afinal, nesta nossa correria di√°ria, vivemos embotados, no autom√°tico, mantendo a cabe√ßa acima da linha d’√°gua… Ops!¬†√Č bem esse o assunto! Protocolos e √°gua!

A Secretaria de Sa√ļde do Estado do Paran√°, numa parceria com o Corpo de Bombeiros do Estado, patrocinou um curso de Salvamento Aqu√°tico. O coordenador foi o Dr Ten Cel David Szpilman, autoridade mundial em afogamento. Tirando o fato de estar na frente de um dos mestres, a emo√ß√£o estava em nivelar a todos, socorristas, guarda vidas, t√©cnicos de enfermagem, enfermeiras e m√©dicos, desde o √≠nicio do curso. As estat√≠sticas s√£o impressionantes, caro Karl. Cerca de 7000 √≥bitos por afogamento todo ano no pa√≠s, dimens√Ķes continentais, n√£o? Pessoas jovens, com grande expectativa de vida, produtivos. N√≥s nos acostumamos a enxergar o que chega ao hospital, que s√£o os mais graves e mais dif√≠ceis de recuperar. N√≥s acostumamos a pensar que afogamento √© coisa de mar grande e rio bravo. Quem se afoga e morre hoje? ¬†S√£o mais de 100.000 acidentes n√£o-fatais no BRASIL! Nos pacientes de 1-14 anos, o afogamento √© a segunda causa de morte. Na aula de acolhimento com estat√≠sticas, a surpresa: as crian√ßas morrem em casa, na banheira, na piscina, no tanque! Cerca de 70% das pessoas que se afogam no litoral s√£o pessoas que vivem fora da orla. Essa cat√°strofe crescente est√° sendo mapeada gra√ßas aos esfor√ßos e iniciativa do Dr. Szpilmann, que classificou e estudou os tipos de afogamento (link pro site Sobrasa). Os melhores dados do mundo s√£o os dados brasileiros.¬†A educa√ß√£o para a preven√ß√£o hoje se mostra a maneira mais racional de combate a esse tipo de morte, uma vez que apenas 7% dos que se afogam em grau 6 sobrevivem, 0,5% sem sequelas. (Clique aqui para ver a classifica√ß√£o de afogamentos. Arquivo pps, em portugu√™s).

Pra come√ßar, fomos convidados a piscina! Cada dia mais todos convivemos com esportes aqu√°ticos e estamos acostumados a nos divertir na √°gua, no ver√£o. Eu mesma sou uma entusiasta da √°gua: nado desde os oito anos, hoje mergulho, tenho o Rescue Diver como um dos cursos mais importantes que fiz na vida de mergulhadora. Voc√™ sabe nadar? √ďtimo, n√£o se arrisque. Mas voc√™ sabe ajudar algu√©m em apuros, para que n√£o vire estat√≠stica?¬†Coragem e t√©cnica s√£o atributos diferentes e podem fazer a diferen√ßa entre a vida e a morte de uma ou duas pessoas (sim, a pessoa em apuros e seu poss√≠vel salvador! ¬†Ops, agora v√≠tima tamb√©m!).¬†Como profissionais de sa√ļde, sempre somos refer√™ncia em situa√ß√Ķes de risco. E, acostumados com a cena hospitalar montada e razoavelmente confort√°vel, como reagir numa situa√ß√£o de salvamento? ¬†Voc√™ n√£o tem a enfermeira e o oxig√™nio com a m√°scara, voc√™ n√£o tem quatro pares de m√£os habilitadas ao seu redor, voc√™ tem apenas voc√™ e a v√≠tima. E um momento de festa em fam√≠lia, de lazer e recrea√ß√£o se transforma no seu pior pesadelo, atender, SALVAR a quem voc√™ ama! (n√£o estamos discutindo o cunhado nem a sogra, nem as rela√ß√Ķes familiares…).¬†Choque! N√£o, n√£o tem desfibrilador, mas sim, um corpo boiando em parada respirat√≥ria…¬†Karl, acostumados que somos em salvar vidas, em processos invasivos complicados, em atos m√©dicos e monitoramentos… S√≥ voc√™ e a v√≠tima… Sentiu o arrepio?

Isto n√£o √© o resgate do naufr√°gio do Titanic. √Č um treinamento na praia

Hoje, vou pra √°gua mais tranquila! Porque sempre digo: o engenheiro est√° andando na rua e um pr√©dio que ele n√£o construiu desaba. Ele se compadece e continua. Um advogado assiste ao crime e se protege. E continua. Mas n√≥s m√©dicos, se vemos algum mal s√ļbito acontecendo ao nosso redor, seremos sempre m√©dicos. E se mais algu√©m souber, ainda respondemos por omiss√£o de socorro, neglig√™ncia, caso n√£o estejamos prontos a atuar. Esse “inconsciente coletivo”, do m√©dico-Deus, onisciente, onipotente, nos atinge, faz todas as cabe√ßas virarem em nossa dire√ßao.¬†Pois entender como prevenir, evitar, reconhecer o risco, e iniciar o atendimento pr√©-hospitalar, definidor de quem vai viver ou n√£o nos afogamentos, me faz sentir melhor hoje.

Recebo muitas vítimas de afogamento, de todos os níveis. O conhecimento dos protocolos de atuação, desde a praia até a UTI, nos ajuda a falar uma só língua, entender o valor de cada passo, o empenho do guarda vida, a valorização da VIDA!  Quem sempre me impressionou e hoje valorizo ainda mais, é o Guarda-Vidas. PARECE fácil se jogar e tirar alguém da água. Arriscar a propria vida, Karl!  Não tem nada parecido na medicina intra-hospitalar!  Gastar muita energia, muita técnica e muita garra, não tem nada de fácil.  Existem homens (e mulheres) assim. Quem dera existissem coragens, energias, técnicas, GENTES assim, em todas as áreas. Ver e ser parte do mito do Tritão-Sereia, dominar a força do mar por alguns instantes e ver a vida resistindo, lutando, querendo! Isso muda muitas perspectivas.

Vou voltar a nadar amanh√£.”

Civil em treinamento

Fotos cedidas pela autora.

Links interessantes

1. Sobrasa Referências, apostilas e aulas.
2. Poseidon Algumas estatísticas nos EUA (em inglês)
3. Drowning No EMedicine. Precisa inscrição (em inglês).

DEK РSobre Prostitutas e Próstatas

Este é mais um verbete do DEK. Agora a letra P. Consulte pela categoria para ver outros verbetes.

Vamos √†s defini√ß√Ķes do professor (de) portugu√™s Carlos Rocha.

Próstata

¬ędo latim cient√≠fico¬†prostata, que por sua vez vem do grego ŌĀőŅŌÉŌĄő¨ŌĄő∑Ōā¬†prost√°tńďs, ou¬†‘colocado na frente de; donde, chefe, dirigente; protetor, defensor’, do verbo¬†pro√≠stńďmi‘ colocar na frente, p√īr em relevo, p√īr em evid√™ncia’; de¬†pr√≥– ‘diante, na frente’ +¬†h√≠stńďmi¬†‘colocar’; assim chamada por situar-se antes da bexiga¬Ľ

O c√Ęncer de pr√≥stata √© o tipo de c√Ęncer mais comum entre homens chegando a atingir 20% do sexo fr√°gil, a depender da idade. Um professor de urologia com quem tive aula disse que se cheg√°ssemos todos aos 100 anos de idade, a incid√™ncia do c√Ęncer de pr√≥stata beiraria os 100%. N√£o sei se essa afirma√ß√£o √© verdadeira, mas sei que a preven√ß√£o √© o melhor rem√©dio. Por falar nisso, ela mesma – a preven√ß√£o do c√Ęncer de pr√≥stata – est√° envolvida em uma enorme pol√™mica desde que a for√ßa-tarefa do departamento de medicina preventiva americano publicou diretrizes contra a coleta indiscriminada do ant√≠geno prost√°tico espec√≠fico (PSA na sigla em ingl√™s), que √© o marcador desse tipo de c√Ęncer. Estudos t√™m mostrado sistematicamente que a detec√ß√£o precoce do tumor n√£o leva a melhor sobrevida e, pior, deteriora muito a qualidade de vida do paciente. A discuss√£o tem sido acalorada e eu mesmo j√° escrevi¬†alguma coisa sobre o assunto. Mas voltemos ao prof. Carlos Rocha.

Prostituta

¬ęlatim¬†prostitŇ≠o,is,ńę,Ňętum,ńēre¬†‘colocar diante, expor, apresentar √† vista; p√īr √† venda; mercadejar com a sua eloq√ľ√™ncia; prostituir, divulgar, publicar’, de¬†pro– ‘na frente, diante de’ +¬†statuńēre¬†‘p√īr, colocar, estabelecer; expor aos olhos’, de¬†stńĀtus,us¬†‘repouso, imobilidade; atitude, postura (de um combatente); assento, situa√ß√£o; estado das coisas, modo de ser’, do radical de¬†stńĀtum, supino de stńĀre ‘estar’¬Ľ.

“Em¬†Hist√≥rias de Palavras ‚ÄĒ do Indo-Europeu ao Portugu√™s¬†(Lisboa, A. Santos), de Ernesto d¬īAndrade, indica-se que ambas as palavras t√™m em comum os seguintes radicais:

a) *per, que √© base das preposi√ß√Ķes e prefixos¬†pro– em grego e¬†pro– em latim;
b) *stńĀ, ¬ęestar em p√©, do qual s√£o cognatos o grego¬†h√≠stńďmi¬†e o latim¬†statuńēre.”

Pois √©. Os termos (apesar de n√£o terem absolutamente nada a ver com Alain Prost)¬†s√£o assemelhados e compartilham a mesma raiz. “Estar na frente” e “expor-se” transmitem ideias relacionadas. Em que pese o fato de ter sido reconhecido um org√£o an√°logo √† pr√≥stata nas mulheres, ela ainda √© exclusividade do universo masculino. Universo este que as prostitutas t√™m uma capacidade intr√≠nseca de captar. Aproveito uma interessante reportagem para destilar uma ideia.¬†Sempre defendi que a sabedoria das prostitutas deveria ser melhor aproveitada por pessoas que n√£o necessitem (ou optem por) usar o corpo para sobreviver. Uma prostituta aprende muito r√°pido sobre o mundo masculino. E usa isso a seu favor. Imagine voc√™, leitor ou leitora, que precise, de qualquer forma, agradar algu√©m, seja do ponto de vista sexual, profissional (por exemplo, vendedores) ou simplesmente social. Se for muito incisivo, a pessoa poder√° assustar. Se muito t√≠mido, a outra pode n√£o gostar. √Č preciso uma leitura muito r√°pida do que a pessoa quer e, muitas das vezes, nem sabe que quer. D√° uma certa inseguran√ßa, n√£o? Como se comportar? √Č preciso uma sapi√™ncia, uma mistura de conhecimento, viv√™ncia, experi√™ncia, ou mesmo um tino at√°vico para ser, ali naquele momento espec√≠fico, o que a outra pessoa gostaria que voc√™ fosse, sem que ela saiba que voc√™ sabe. Complicado.

“Exibir-se”, “estar a frente” s√£o sinais de for√ßa e ao mesmo tempo vulnerabilidade. E poderia surgir ent√£o uma est√©tica de onde ningu√©m jamais ousaria pensar que ela pudesse surgir. A est√©tica da intui√ß√£o entre a palavra e a coisa. Mas isso, est√° no olhar de quem v√™ e n√£o nas “coisas” que se postam a sua frente.

Por Que N√£o Sou Pediatra

Pouca gente sabe, mas minhas melhores notas no internato foram em estágios de Pediatria. No 6o ano, no Hospital Universitário, fiz um estágio muito bom e um pediatra já famoso na época me disse para fazer residência de Pediatria e ir trabalhar com ele. Fiquei muito lisonjeado e pensativo. Isso significaria acesso a uma medicina de ponta, trabalhar nos melhores hospitais da cidade e uma remuneração bastante interessante. Mas, decidi que não queria Pediatria. Nunca entendi direito essa minha decisão e alguns acontecimentos recentes me fizeram refletir sobre essa (não) escolha de tempos atrás.

Não há nada, nem haverá jamais nada sequer semelhante, em magnitude ou poder capaz de nos confrontar com a realidade da ausência de sentido ou propósito; com a propriedade de relativizar a textura do real com a força devastadora do que poderia ser chamado de um tornado afetivo; ou de sufocar aquilo que o humano tem de mais precioso que é sua esperança, que a morte de uma criança.

N√£o me refiro a assassinatos. Nesse caso, os canh√Ķes de nossa ira apontam para um culpado e l√° descarregar√£o todas as esperan√ßas frustradas, toda a decep√ß√£o por compartilhar de uma mesma humanidade, toda a revolta e o ressentimento.

Me refiro ao que poderia ser chamado de “morte natural”. Uma morte por doen√ßa, uma morte m√©dica. Uma qualquer? Por exemplo, leucemia. Que raios uma c√©lula-tronco que deve produzir c√©lulas brancas “cria” uma linhagem-clone com uma certa vantagem reprodutiva de modo que essa linhagem logo toma conta de todo o setor de produ√ß√£o de c√©lulas brancas, e tamb√©m vermelhas e plaquetas, ganhando o sangue perif√©rico, invadindo org√£os, subvertendo fun√ß√Ķes…E¬†ap√≥s 2 anos de sofrimento extremo, a vida de uma crian√ßa √© varrida do planeta.

E as pessoas que têm um Deus se perguntam: por quê? As que não têm, fazem exatamente a mesma pergunta. Estamos todos presos à natureza humana. Uma natureza desejante e insatisfeita; delirante, imperfeita, incompleta. Pelo menos desse karma existencialista consegui me livrar. Restaram, entretanto, todos os inumeráveis outros.

Religiosidade e √Čtica Cient√≠fica

A pergunta do post anterior tem uma raz√£o de ser. Foi publicado um artigo no New England (pdf gratuito, ver tamb√©m a refer√™ncia na “medaglia” abaixo) tra√ßando um paralelo entre os pa√≠ses da Europa e os Estados Unidos quanto a postura em rela√ß√£o a pesquisas com c√©lulas-tronco. O artigo categoriza as popula√ß√Ķes de entrevistados de acordo com pol√≠ticas p√ļblicas de financiamento em cada pa√≠s, prefer√™ncias pol√≠ticas (em especial nos EUA, onde a divis√£o republicanos vs. democratas permite uma visualiza√ß√£o mais f√°cil do problema) e religiosidade.

Olhando os n√ļmeros mais de perto, 60% dos americanos entrevistados s√£o a favor de pesquisas com c√©lulas-tronco e 30% acham que ela devia ser proibida, mesmo que isso custasse um atraso no tratamento de algumas doen√ßas. √Ä pergunta “voc√™ acha que a pesquisa com c√©lulas-tronco deveria ser proibida?” 71% dos islandeses responderam “n√£o” e 25%, “sim”, o maior √≠ndice de aceita√ß√£o. J√° a √Āustria teve 33% “n√£o” e 60% de “sim”, respectivamente, a maior rejei√ß√£o. A divis√£o de partidos pol√≠ticos mostrou nos EUA, que os republicanos, mais conservadores, s√£o a favor da pesquisa em¬†52% e que ela n√£o deve ser proibida em 51%. Quando comparados com os democratas, mais liberais,¬†67% deles s√£o a favor. O artigo ainda envereda pela quest√£o se o governo deveria financiar tal tipo de pesquisa e as respostas seguem mais ou menos o mesmo padr√£o. O que eu queria chamar a aten√ß√£o aqui era mesmo sobre a religiosidade e a aceita√ß√£o da pesquisa com c√©lulas-tronco. Mas antes, um pequeno par√™ntesis.

Ao analisarmos 2 eventos sequenciais, por exemplo, uma borboleta esvoa√ßar pelo meu jardim e ocorrer um terremoto na Tail√Ęndia, 3 situa√ß√Ķes podem ocorrer: 1) A borboleta causa o terremoto; 2) A borboleta n√£o causa o terremoto e 3) N√£o fa√ßo a menor ideia se ela causa ou n√£o a porcaria do terremoto. A terceira em geral, √© a grande maioria das respostas. Mas, se quisermos “dominar” a natureza precisamos saber se um evento causa ou n√£o o outro. Para demonstrar as duas primeiras √© preciso estabelecer uma rela√ß√£o de causa-efeito (#1) ou de n√£o-causa-efeito (#2). Colocado assim, de forma bastante simplista, esse √© um dos principais objetivos da ci√™ncia: estabelecer rela√ß√Ķes de causa-efeito. H√° in√ļmeras maneiras de se conseguir isso. Em medicina temos v√°rias limita√ß√Ķes e muitas vezes utilizamos uma “metaf√≠sica” chamada Estat√≠stica¬†para nos indicar um caminho. Outra maneira, e talvez uma das mais elegantes, seja encontrar um tipo de rela√ß√£o entre um evento e outro que pode ser chamada de “curva dose-resposta” (tem outros nomes, eu chamo assim, porque aprendi assim na farmacologia). Nessa rela√ß√£o, toda vez que aumentamos a intensidade de um evento desencadeador, temos um aumento do evento desencadeado (dentro de uma certa faixa). Posto isso, podemos observar a tabela do artigo em quest√£o que coloquei abaixo.

Com todas as cr√≠ticas poss√≠veis e imagin√°veis em se categorizar um tro√ßo totalmente arbitr√°rio como religiosidade¬†no n√ļmero de vezes em que se vai a um culto, temos aqui um exemplo da tal “curva-dose resposta”. Quanto maior a frequ√™ncia em que uma pessoa vai a um culto, maior a chance de achar que a pesquisa com c√©lulas-tronco deva ser proibida em seu pa√≠s. Religiosos graduados em “nunca vou ou vou 1 vez/ano”, “vou mensalmente ou anualmente” e “vou semanalmente ou mais” respondem “proibir” na Europa em 33, 41 e 49%; nos EUA em 18, 33 e 40%, respectivamente.Enquanto que os “sem-religi√£o” ficam em 29% e 18% na Europa e EUA, respectivamente.

O que essa pesquisa demonstra? Que a religiosidade (definida nos termos do artigo), nos pa√≠ses estudados, gera uma certa avers√£o √† pesquisas cient√≠ficas com embri√Ķes humanos mesmo que isso custe um atraso no desenvolvimento de tratamentos para algumas doen√ßas como traumatismos raquimedulares. A pergunta que se segue √©: Por qu√™?

A busca de outras fontes de eticidade que n√£o a de cunho eminentemente metaf√≠sico, dependente de conceitos como “criador”, “for√ßa maior” ou “Deus”, etc, e, principalmente, de uma cr√≠tica sobre a maneira como tais conceitos s√£o manipulados pelas diversas formas de religiosidade, √© fundamental para a constru√ß√£o de uma √©tica laica que, por sua vez, fundamentar√° decis√Ķes em comiss√Ķes de √©tica, conselhos de pesquisa e outros org√£os de extrema import√Ęncia para quem quer fazer pesquisa s√©ria e de boa qualidade. As diferen√ßas entre decis√Ķes de pessoas religiosas e n√£o-religiosas devem ser melhor estudadas se quisermos uma √©tica consensual. Do meu lado, em que pese o papel importante que a religi√£o possa ter desempenhado como guardi√£ da √©tica, permitir que pessoas sofram de doen√ßas potencialmente cur√°veis em detrimento a um blastocisto que iria para o cesto de lixo √© de um obscurantismo incompreens√≠vel.

 

ResearchBlogging.orgBlendon RJ, Kim MK, & Benson JM (2011). The public, political parties, and stem-cell research. The New England journal of medicine, 365 (20), 1853-6 PMID: 22087677