DEK H: Habilidade, Habitar, H√°bito

 

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Gravura de Eduardo Chillida “Bauen, Wohnen, Denken”, 1994.

O prefixo ¬†hab- em latim forma palavras com tr√™s grupos de significados que procurei exemplificar no t√≠tulo do post. O primeiro grupo, ao qual pertence a palavra “habilidade” (habilitas), tem palavras como “h√°bil” (habilis) e “habilitar”, que √© tornar h√°bil. Em latim, temos ainda¬†habena (portador) e¬†habens (propriet√°rio, rico) que √© aquele¬†tem as¬†habentia (propriedades). De fato, o pr√≥prio verbo habeo √© traduzido como “ter”. Esse grupo de palavras sugere para¬†hab-¬† um significado de posse, de capacidade, de potencialidade de realiza√ß√£o.

O segundo grupo tem como exemplo a palavra “habitar” (do verbo habito) com significado de morar, viver, ficar e seus derivados como “habitante” (habitans), “habitat”, “habita√ß√£o” (habitatio), entre outros. Aqui, diferentemente, o prefixo hab- parece trazer um significado de demorarse, morar, viver, estabelecerse.

O terceiro e √ļltimo grupo √© encabe√ßado pela palavra “h√°bito” (habitus). “H√°bito” pode ser traduzido como disposi√ß√£o, inclina√ß√£o, costume (no sentido de pr√°tica, modo, rotina, ou mesmo mania). √Č a tradu√ß√£o para o latim do grego hexis (ŠľēőĺőĻŌā) que, por sua vez, foi retirado da literatura m√©dica onde at√© hoje √© utilizado com o sentido de “constitui√ß√£o”, “predisposi√ß√£o” org√Ęnica,¬†habitus. (H√° o exemplo cl√°ssico – os m√©dicos se lembrar√£o – do habitus marfan√≥ide, caracter√≠stico dos portadores da S√≠ndrome de Marfan). Mas, habitus tem ainda um outro significado que √© o de condi√ß√£o, estado, apar√™ncia, h√°bito, aqui no sentido de, veja s√≥, novamente¬†costume (roupa, vestimenta). Em ambos os casos, hab-¬†parece remeter a algo que est√° em um indiv√≠duo, algo do qual ele √© portador, e¬†que se constr√≥i em sua apar√™ncia externa, ou em sua forma de comportar-se, ou ainda, de maneira mais interessante, na ambiguidade das duas¬†possibilidades a um s√≥ tempo como no dito popular¬†“o h√°bito n√£o faz o monge”.

Vejamos, ent√£o, o que temos at√© aqui. Aparentemente tr√™s campos sem√Ęnticos independentes: “posse, capacidade, potencialidade”; “demorar-se, morar, viver, estabelecer-se”; “apar√™ncia, comportamento”. Mas, um pensamento parcimonioso n√£o se contentaria com uma tal profus√£o de significados. Ali√°s, n√£o √© mesmo assim que prefixos ancestrais costumam funcionar. Deve haver uma raiz sem√Ęntica comum que se perdeu com o uso cotidiano e que terminou por cristalizar os tr√™s significados separadamente. Tal raiz origin√°ria n√£o √© facilmente resgat√°vel e restam-nos apenas hip√≥teses de suas origens. Uma das poss√≠veis hip√≥teses leva em conta a bel√≠ssima palestra proferida por Martin Heidegger em 1951: “Construir, Habitar e Pensar” [1].

Para Heidegger, s√≥ construimos coisas porque j√° habitamos determinados espa√ßos que, desse modo, se tornam “lugares”. Apenas porque alguns lugares¬†determinados j√° nos pertencem de antem√£o e de certo modo √© que podemos transform√°-los com constru√ß√Ķes e morar neles depois. Heidegger chega a tra√ßar um paralelo entre bauen, palavra do alem√£o arcaico que abriga os significados de “construir” e “habitar”, e “ser”, como em ich bin, du bist, “eu sou”, “tu √©s”. Habitar √© ser. Nesse sentido √© que se pode acrescentar que a capacidade de construir – habilidade – √© determinante de como o indiv√≠duo se apresentar√° e se comportar√° – h√°bito -, dado que sua habita√ß√£o √© o que delimita¬†quem ele mesmo √©.

 

Notas

1.¬†Bauen, Wohnen, Denken (1951). Confer√™ncia pronunciada por ocasi√£o da “Segunda¬†Reuni√£o de Darmastad”, publicada em Vort√§ge und Aufs√§tze, G. Neske, Pfullingen, 1954.¬†Tradu√ß√£o de Marcia S√° Cavalcante Schuback. [link para o pdf]

DEK – Olhar e Ver Espelhos

Xadrez no Espelho

O que √© “olhar”? Literalmente, olhar √© “dar uma olhada”, um golpe d’olhos. √Č o movimento conjugado dos globos oculares em dire√ß√£o a algo ou algu√©m. Se, por um lado, quem n√£o olha fatalmente n√£o v√™, como √© sabido de todos, o inverso √© mesmo poss√≠vel, qual seja olhar de fato, sem nada ver. Por qu√™? “Ver”, assim como seu correlato “enxergar”, parecem conferir algo de interpretativo ao ato mesmo de olhar. A etimologia de “enxergar” √© classificada como “incerta” pelo Houaiss e pelo Dicion√°rio Etimol√≥gico da L√≠ngua Portuguesa, o que nos permite e(spec)ular (as raz√Ķes desses par√™nteses ser√£o esclarecidas abaixo). Em castelhano temos a palavra¬†envidia¬†que vem do latim invidere, sendo composta por “in-“¬†“p√īr sobre”, “ir para” e “videre”,¬†o pr√≥prio “ver”. Envidia significa, portanto, algo como “deitar o olhar sobre” e seria um √©timo poss√≠vel para nosso “enxergar”. Por outro lado, em latim ainda temos a palavra insecare, primeira pessoa do verbo inseco, que significa “cortar, divisar”. Foi sugerido [1] que a rela√ß√£o entre “cortar” e “saber”, que √© tamb√©m dada no voc√°bulo derivado do grego “an√°lise”, pudesse ter originado o “enxergar”. Incerto, de qualquer forma, mas plaus√≠vel e certamente aprovado ao menos por Michel Foucault[2].

E o que √© “ver”? A origem √© o latim¬†videre¬† como vimos e que, por sua vez, vem de uma raiz indoeuropeia¬†*weid-, comum, veja s√≥, √† palavra grega őĶőĻőīőŅŌā (eidos¬†= apar√™ncia, imagem) t√£o cara √† Plat√£o e que originou as palavras “androide”, “antropoide”, “ginecoide” e tantas outras com o significado de “assemelhado a” ou “na forma de”.¬†Interessante tamb√©m o fato de que, em bom ingl√™s, tal raiz tenha originado¬†wisdom¬†(sabedoria),¬†wise¬†(s√°bio),¬†wizard¬†(mago), todas palavras que de certa forma designam a capacidade que algu√©m tem de “ver mais longe”.

Peculiar √© o termo species¬†que tamb√©m significa “apar√™ncia”, “a(spec)to” (calma, j√° chegamos l√°) e “vis√£o” e deriva de uma raiz (spec)¬†(pronto!) que significa “olhar, ver”, raiz essa que pode ser encontrada tamb√©m em palavras como speculum, que n√£o significa apenas “espelho”, mas tamb√©m √© o nome que se d√° a um instrumento m√©dico utilizado para ver “interiores corp√≥reos”, muito utilizado em ginecologia (ali√°s, uma das “e(spec) ialidades” m√©dicas); spectrum, “imagem”, “fantasma”; specimen, “exemplo”, “signo”; spectaculum, “espet√°culo”. Raiz que, segundo Giorgio Agamben [3], se desdobra numa dial√©tica bastante interessante.¬†Species foi utilizado para traduzir para o latim o termo filos√≥fico¬†eidos (acima), derivando seu sentido para as ci√™ncias da natureza (esp√©cie animal ou vegetal) e para o com√©rcio, significando “mercadoria” e, mais tarde, o pr√≥prio dinheiro. Ainda segundo Agamben

“especioso” significa “belo” e, mais tarde, “n√£o verdadeiro”, “aparente”. “Esp√©cie” significa o que torna vis√≠vel e, mais tarde, o princ√≠pio de uma classifica√ß√£o de equival√™ncia. Causar esp√©cie significa “assombrar, surpreender” (em sentido negativo); mas que indiv√≠duos constituam uma esp√©cie nos traz seguran√ßa” [4] (it√°licos no original).

A esp√©cie √©, ent√£o, a imagem de uma coisa que se mostra ao olhar mas que, ao mesmo tempo, precisa ser fixada na pr√≥pria coisa para se constituir em uma identidade. Por isso, a f√≥rmula de Agamben √© t√£o promissora: “especial” √© o ser cuja ess√™ncia coincide com seu dar-se a ver, com sua esp√©cie.¬†Quando algu√©m diz que somos especiais, tal afirma√ß√£o pode constituir-se num elogio de autenticidade, mas tamb√©m numa cr√≠tica de impessoabilidade ou mesmo de insubstancialidade. “S√≥ personalizamos algo – referindo-o a uma identidade – se sacrificamos a sua especialidade” – diz Agamben.

E a coisa toda fica bem mais interessante quando observamos nossa pr√≥pria “esp√©cie” refletida num espelho. Isso porque o espelho √© o locus da descoberta de que nossa “esp√©cie”, nosso imago, n√£o nos pertence. E “entre a percep√ß√£o da imagem e o reconhecer-se nela h√° um intervalo que os poetas medievais denominavam amor“[5]. O espelho de Narciso √© essa experi√™ncia. “Se eliminarmos esse intervalo ou o prolongarmos indefinidamente, a imagem √© interiorizada como “fantasma”, e o amor recai na psicologia”[5], met√°fora para patologiza√ß√£o do Eu.

Nosso olhar seria então um meio pelo qual construimos um mundo e também reconhecemos os sujeitos que nele habitam. Entretanto, ao voltar-se sobre si e nos submeter ao escrutínio de seu recorte, um certo cuidado é preciso. Para que não comecemos a ver fantasmas onde eles jamais existiram.

 

[1] Takata, R. Personal communication.

[2] Foucault, M. Microf√≠sica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1984. “√Č que o saber n√£o √© feito para compreender, ele √© feito para cortar.‚ÄĚ p. 28.

[3] Agamben, G. Profana√ß√Ķes. Boitempo, 2007. Tradu√ß√£o e apresenta√ß√£o de Selvino J. Assmann. p. 52.

[4] Idem. p. 54.

[5] Idem. p. 53.

DEK – A Cura

Matteo23.12.05 095

O Homem de Barro (h√ļmus) moldado pelo Cuidado

J√° contei sobre o di√°logo do cl√≠nico com o cirurgi√£o. Nele, est√° envolvido um dos conceitos de cura na medicina contempor√Ęnea. H√° outros tantos. Este √© o DEK e o verbete cura nos tr√°s de volta √† letra C. Outros verbetes podem ser vistos aqui (ou procurando pela tag “DEK”).

Como nos referimos ao estado subsequente a uma mol√©stia n√£o-fatal? Sem entrar nas complicadas an√°lises ontol√≥gicas em rela√ß√£o ao ser da doen√ßa e sua¬†nomenclatura espec√≠fica, podemos dizer que no indiv√≠duo doente s√£o investidas¬†pr√°ticas¬†que visam reverter os processos alterados do organismo para que assim se possa restabelecer seu¬†status¬†pr√©-patol√≥gico. Tais pr√°ticas, em grego, podem ser agrupadas sob o termo¬†őłőĶŌĀőĪŌÄőĶőĮőĪ (therapia), utilizado em v√°rias l√≠nguas. Em alem√£o, h√° o termo¬†Behandlung¬†que contem a palavra “m√£o” e apesar de poder ser traduzido por “tratamento”, adapta-se melhor ao nosso “manuseio” que √© a forma de lidar com certas doen√ßas e inclui v√°rias t√©cnicas e procedimentos da terapia. “Tratamento”, em portugu√™s, tem a mesma raiz de “tratado” ou “trato” (sm. Do lat.¬†tractus) que significaria “con-trato, ajuste, pacto”. O que n√£o deixa de ser bastante interessante j√° que ao¬†tratar¬†algu√©m, o m√©dico tamb√©m deveria tratar¬†com¬†algu√©m, sem¬†destratar¬†ningu√©m. O tratamento √©, ou pelo menos poderia ser, um tipo de acordo.

Deixando um pouco de lado o processo pelo qual se reconduz o enfermo de seu estado m√≥rbido para um outro “novamente” saud√°vel, passemos agora a investigar como nos referimos a esse estado de “nova sa√ļde”. H√° um processo envolvido nisso. Um ciclo: sa√ļde -> doen√ßa -> terapia -> restabelecimento -> sa√ļde¬†de novo. Pra mim, um dos termos que melhor define esse restabelecimento (e tamb√©m um de meus preferidos) √© convalesc√™ncia. Se n√£o, vejamos,¬†con-valescere¬†√©¬†latim e quer dizer “prosperar, ganhar sa√ļde, ficar forte”. Garotos na puberdade “valescem”, crescem, ficam fortes e valorosos. √Č a mesma raiz de “valete” e de alguns nomes germ√Ęnicos como Valter e Waldo. Em alem√£o se diz¬†Genesung, restabelecimento.¬†Portanto, “convalescer” √© restabelecer-se, ficar forte de novo.¬†Sarar¬†tamb√©m √© latino (sanare) e descreve igualmente a fase de restabelecimento.¬†Em grego moderno, a palavra utilizada para “cura” √© őĶŌÄőŅŌćőĽŌČŌÉő∑ (epoulossi) que tamb√©m quer dizer “cicatriza√ß√£o” ou seja, semelhante ao¬†heal¬†do ingl√™s e ao¬†heilen¬†do alem√£o. Tanto o termo ingl√™s como o alem√£o tem a mesma raiz que parece ser proto-germ√Ęnica *hailjan¬†(cf. sax√īnico antigo¬†helian, que quer dizer literalmente “fazer-se inteiro”). Da√≠ derivam os termos utilizados nessas l√≠nguas para designar¬†sa√ļde:¬†Health¬†e¬†Gesundheit. A prop√≥sito, o nosso “sa√ļde” (Do lat.¬†salusutis;¬†estado de s√£o, salvo) originou tamb√©m a palavra “sauda√ß√£o” e seus derivados que significam, portanto, “desejar sa√ļde a algu√©m”; que √© exatamente o que fazemos quando cumprimentamos outras pessoas. Isso n√£o deixa de ser um exemplo de como as mol√©stias podem moldar o comportamento √©tico dos homens.

Ap√≥s o indiv√≠duo doente ter-se restabelecido completamente, o que sobra da doen√ßa? √Č o tal “sa√ļde¬†de novo” do esquema acima.¬†Podem restar cicatrizes f√≠sicas e n√£o faltar√£o as espirituais. Esse √© o processo de¬†healing,¬†heilung,¬†epoulossi¬†do qual falamos. Em¬†portugu√™s¬†utilizamos a palavra¬†cura.¬†A raiz latina parece acrescentar algo mais, dado que cura tamb√©m quer dizer¬†cuidado, como nos termos¬†curador¬†(jur√≠dico ou art√≠stico), queijo ou peixe¬†curados,¬†curativo, etc, mas tamb√©m¬†preocupa√ß√£o, como no ato de¬†velar¬†um enfermo.¬†S√™neca e os est√≥icos utilizavam o voc√°bulo őľő≠ŌĀőĻőľőĹőĪ (m√©rimna) para designar esse tipo de “aten√ß√£o preocupada”. őú√©rimna¬†vem de¬†mer√≠zŇć, (“dividir”, parte separada do todo)¬†e adquiriu, em sentido figurado, o significado de¬†preocupa√ß√£o, ansiedade, pois¬†uma pessoa nessas condi√ß√Ķes est√° dividida entre o agir e a n√£o-a√ß√£o. N√£o deixa tamb√©m de se relacionar com a ideia de “inteireza” que o termo “sa√ļde” evoca. Plat√£o utilizava o termo melete¬†(őľőĶőĽő≠ŌĄő∑). Melete era uma das 3 musas da Be√≥cia e representava a “pondera√ß√£o”, a “contempla√ß√£o”, donde se depreende sua associa√ß√£o com “preocupa√ß√£o”. Este termo originou őĶŌÄőĻőľő≠őĽőĶőĻőĪ (epim√©leia): o¬†‚Äúcuidado de algo ou algu√©m”, correspondente √† cura latina.

Segundo Irene B. Duarte [1] “o campo sem√Ęntico de ‚Äúcuidar‚ÄĚ e de ‚Äúcuidado‚ÄĚ guarda, no portugu√™s¬†atual, o sentido original de uma etimologia inesperada: a do latim cogitare,¬†pensar. Na forma transitiva, ‚Äúcuidar‚ÄĚ √© pensar: atender a, refletir sobre ‚Äď e, por¬†isso, interessar-se por, tratar de, preocupar-se por, ter cautela”. Como no grego, duas palavras de origens diferentes s√£o necess√°rias para cobrir esse campo sem√Ęntico:¬†cura e sollicitudo. Cura evoluiu¬†para “uma acep√ß√£o predominantemente relacionada ao¬†√Ęmbito da sa√ļde: curar √© sanar, tratar de restabelecer a sa√ļde¬†perdida”.¬†Cura prov√©m de quaero (procurar) mas num contexto bem vasto, indo da medicina at√© a administra√ß√£o (como em cura rerum publicarum) e religi√£o (cura deorum). Sollicitudo, em contrapartida, continua Duarte, emprega-se de maneira¬†mais precisa: √© ‚Äúcuidado‚ÄĚ no sentido de ‚Äúestar movido (citus, part. de ciere,¬†mover) ou comovido por inteiro (sollus)‚ÄĚ, isto √©, sentir inquietude,¬†pena. √Č ‚Äúsol√≠cito‚ÄĚ, pois, quem se aflige por algo ou algu√©m.¬†Digamos que em cura parece predominar o ‚Äúmover-se numa certa¬†dire√ß√£o‚ÄĚ, em sollicitudo o ‚Äúser movido por‚ÄĚ aquilo que nos assalta ou se nos¬†apresenta.”

Em alem√£o, o termo utilizado √© Sorge e aqui cabem algumas considera√ß√Ķes filos√≥ficas.¬†Na primeira parte de “Ser e Tempo”, Heidegger d√° grande¬†import√Ęncia ao cuidado como fundamento do ser, como o ser da pr√≥pria Exist√™ncia. O homem pertence ao Cuidado, conforme conta a f√°bula 220 de Higino (ver abaixo), citada por Heidegger no par√°grafo 42 de sua obra m√°xima. Com isso pretende-se, grosso modo, dizer que o homem √© marcado por sua abertura ontol√≥gica. √Č uma possibilidade, um vir-a-ser. O homem, enquanto permanecer como ser vivente, √© uma tarefa.

Por isso, Cura (ou Cuidado), como diz C. D√ľnker [2], ¬†“n√£o implica apenas o retorno da sa√ļde, mas tamb√©m a experi√™ncia legada por seu processo, a integra√ß√£o, √† hist√≥ria dos envolvidos, da cicatriz formada, dos conselhos recebidos e do sentido do evento … ou sua falta de sentido”. Vista dessa forma, a Cura est√°, portanto, fora do √Ęmbito do m√©dico. Pertence ao paciente na sua tarefa de si, de recriar-se e de encontrar no processo novas possibilidades de (vir-a-)ser. Tudo o que o m√©dico pode fazer √© provoc√°-la.

 

[1] DUARTE, IB. A fecundidade ontológica da noção de Cuidado. (pdf)

[2] DUNKER, Christian I.L. Estrutura e constituição da clínica psicanalítica. Uma arqueologia das práticas de cura, psicoterapia e tratamento. São Paulo, Anna Blume, 2011.

 

~ o ~

F√°bula do Cuidado

‚ÄúCerta vez, atravessando um rio, Cuidado viu um peda√ßo de terra argilosa: cogitando, tomou um peda√ßo e come√ßou a lhe dar forma. Enquanto refletia sobre o que criara, interveio J√ļpiter. O Cuidado pediu-lhe que desse esp√≠rito √† forma de argila, o que ele fez de bom grado. Como Cuidado quis ent√£o dar seu nome ao que tinha dado forma, J√ļpiter o proibiu e exigiu que fosse dado ao inv√©s disso, seu pr√≥prio nome. Enquanto Cuidado e J√ļpiter disputavam sobre o nome, surgiu tamb√©m a Terra (Tellus) reivindicando que o nome fosse o seu, uma vez que havia fornecido um peda√ßo do seu corpo. Os disputantes resolveram ent√£o, tomar Saturno como √°rbitro. Saturno pronuniou a seguinte decis√£o, aparentemente eq√ľitativa: ‚ÄėTu, J√ļpiter, por teres dado o esp√≠rito, deves receber na morte o esp√≠rito e tu, Terra, por teres dado o corpo, deves receber o corpo. Como por√©m foi o Cuidado quem primeiro o formou, ele deve pertencer ao Cuidado enquanto viver.‚ÄĚ

DEK РEstetoscópio, Broncograma e Pectorilóquia

A palavra estetosc√≥pio parece ter sido forjada (dado que tais instrumentos m√©dicos n√£o eram utilizados pelo conterr√Ęneos de Hip√≥crates)¬†pelo franc√™s¬†Ren√©-Th√©ophile-Hyacinthe La√ęnnec (1781-1826), ele mesmo o inventor da palavra e da coisa, a partir dos radicais gregos, stethos-,¬†caixa tor√°cica, peito (e at√© mamas); associada √†¬†-skopein, explorar, perscrutar. Stethos √©, portanto, correlacionada √† caixa tor√°cica e ao peito. Provavelmente, esterno, como “osso que nos fecha o peito”, ou “que vem √† frente dele”, tamb√©m venha da√≠. Nada a ver com Est√©tica que √© de outro radical. Se bem que¬†aisthanesthai, √© “perceber, pelos sentidos ou pela mente”, ou seja, “sentir” e originou “estese” e seu oposto “anestese”, ou comumente “anestesia”, e se pode perfeitamente, com o estetosc√≥pio, sentir ou ouvir ru√≠dos do funcionamento normal do corpo humano. Em especial dos pulm√Ķes.

√Ārvore Br√īnquica (Fonte: Wikip√©dia)

√Ārvore Br√īnquica (Fonte: Wikip√©dia)

O ar, ao penetrar nas vias a√©reas, produz uma sensa√ß√£o auscultat√≥ria (auscultar = escutar com t√©cnica) semelhante √†quela que temos quando encostamos o ouvido numa concha s√≥ que de forma intermitente, acompanhando o ciclo respirat√≥rio do paciente. √Č um som abafado e que √© bem melhor percebido durante a inspira√ß√£o e chamado poeticamente de murm√ļrio vesicular. Quando esse som fica n√≠tido, o m√©dico deve prestar aten√ß√£o se ele pode ser ouvido durante a expira√ß√£o tamb√©m. Se isso ocorrer, chamamos esse tipo de ru√≠do de respira√ß√£o soprosa. A respira√ß√£o soprosa ocorre por aumento da transmiss√£o do som na caixa tor√°cica e isso, geralmente, se d√° por uma condensa√ß√£o do par√™nquima pulmonar que, dessa forma, conduz melhor a onda sonora. Nesse momento, o m√©dico pode solicitar ao paciente que diga “trinta e tr√™s”. (Par√™ntesis: por que “trinta e tr√™s”? √Č pela vibra√ß√£o que provoca no t√≥rax e para padronizar as auscultas. Em ingl√™s e no alem√£o – onde foi descrito, √© “ninety nine” e¬†“neun und neunzig”, em espanhol¬†“treinta-y-tres” ou “cuarenta-y-cuatro”. “Ointenta e oito” tem um som muito fechado. “Setenta e sete” e “cinquenta e cinco”, muito sibilantes, e ficamos no “trinta e tr√™s”. Fecha par√™ntesis).

Ao dizer “trinta e tr√™s”, o paciente faz com que sua voz trafegue pelas vias a√©reas. Se houver algum local onde a transmiss√£o seja acelerada por uma condensa√ß√£o parenquimatosa, e.g. uma pneumonia, o m√©dico auscultar√° um “trinta e tr√™s” n√£o abafado, mas bem n√≠tido. √Č o que se chama pectoril√≥quia. Pectos-, latim, “peito”. Como em pectus excavatum (t√≥rax de sapateiro), ou angina pectoris, “dor tor√°cica de origem card√≠aca”; -I√≥quia, latim tamb√©m, de falar. Donde col√≥quio (onde v√°rios falam), ventr√≠loquo (o que fala pela barriga), etc. Pectoril√≥quia √© a “fala do peito”. E o que ela diz?

Imagem tomográfica mostrando broncogramas aéreos em uma tomografia

Imagem tomográfica mostrando broncogramas aéreos

Diz que h√° um local naquele pulm√£o onde o som chega, e para isso √© necess√°rio que um br√īnquio esteja aberto, e transmite-se tendo como meio um par√™nquima pulmonar “condensado”, ou seja, preenchido por conte√ļdo s√≥lido e n√£o pelo ar. Radiologicamente, esse som se revela num sinal chamado broncograma a√©reo. O broncograma a√©reo √© o desenho por contraste de um br√īnquio com o tecido pulmonar densificado adjacente. √Č considerado caracter√≠stico de condensa√ß√Ķes e serve para diferenciar de outras doen√ßas que causam densifica√ß√Ķes do par√™nquima pulmonar, em especial, das atelectasias. Nestas, os alv√©olos est√£o murchos e n√£o preenchidos por material inflamat√≥rio. Os br√īnquios, colabados. O som n√£o chega √† superf√≠cie da parede tor√°cica com a mesma efici√™ncia. √Č bem mais abafado.

A pectoril√≥quia √© representada pelo sinal radiol√≥gico do broncograma a√©reo que, por sua vez, tem como base a anatomia patol√≥gica do pulm√£o acometido. Um m√©dico treinado, com uma manobra extremamente barata e eficaz (solicitar ao paciente que diga um n√ļmero v√°rias vezes) pode captar isso com a m√£o nas costas do doente (para sentir o fr√™mito) ou auscultando (diretamente com o ouvido ou mediatamente com o estetosc√≥pio) e ter a vis√£o radiol√≥gica e/ou da l√Ęmina de microscopia representativa de sua doen√ßa. A pectoril√≥quia tem, portanto, uma representa√ß√£o fisiopatol√≥gica e anatomopatol√≥gica que provoca implica√ß√Ķes no racioc√≠nio cl√≠nico e gera consequ√™ncias terap√™uticas. Pensar medicamente √© sentir a superf√≠cie, ver a profundidade e modificar a “hist√≥ria”. Pelo menos a “natural das doen√ßas”.

Consultei

Carvalho VO, Souza GEC. O estetoscópio e os sons pulmonares: uma revisão da literatura. Rev Med (São Paulo). 2007 out.-dez.;86(4):224-31. (pdf)

DEK – Cat√°strofe, Cataclisma e Apocalipse: Finalmente o Fim?

Calypso por Blazing Wolf1763

Dentro da palavra apocalipse h√° a palavra “calipso”. Calypso √© a ninfa do mar que prende Ulisses em sua ilha por 7 anos. Seu nome vem do grego kalyptein¬†e significa “escondida”, “oculta”. Esta palavra ainda originou o nome de uma √°rvore, o eucalipto, que quer dizer “bem coberto”. O prefixo apo-, por sua vez, quer dizer “√† partir de”, “separado”. Como em apologia (apo-, ‘√† margem de’; logos, ‘palavra’, ‘discurso’), mas n√£o simplesmente uma nega√ß√£o. D√° ideia de um movimento constante. Como em ap√≥stolo¬†formado por apo– + stellein (‘enviar’, ‘mandar adiante’).¬†Apokalyptein, ent√£o, seria um desvelar √©pico de algo previamente oculto. Uma revela√ß√£o. Apocalipse portanto, n√£o √© sin√īnimo de “fim-do-mundo”. Essa conota√ß√£o parece ter ocorrido depois do Apocalipse de Jo√£o onde √© revelado que Jesus seria o Messias.

Cataclisma e cat√°strofe s√£o palavras que tamb√©m passam ideias diferentes de seus significados e igualmente muito utilizadas para descrever o fim-do-mundo. Cataclisma, do grego kata-,’para baixo’;¬†klyzein, ‘lavar’, como sendo uma grande enxurrada, ou podendo mesmo ser um tsunami. Cat√°strofe com o mesmo prefixo¬†kata-,’para baixo’ e¬†strephein, com o signficado de virada (mesma origem de estrofe), como algo que tivesse um fim inesperado.

Sobre se o mundo vai acabar em 2012? Ah, sim. Infelizmente, n√£o. Mas deveria, ao menos para quem acredita no poder de calend√°rios arbitr√°rios, em profecias cretinas e spams mal-acabados em powerpoint. Essa √© a grande revela√ß√£o apocal√≠ptica no fim. A de que √© uma redund√Ęncia de propor√ß√Ķes n√£o mais maias, mas otomanas ou visigodas, cient√≠ficas ou filos√≥ficas, geol√≥gicas quem sabe, e que s√≥ perder√° em medida de agigantamento √† estupidez humana, essa sim, catastr√≥fica, catacl√≠smica e¬†apocal√≠ptica dado a dificuldade que confere √† humanidade em ser feliz simplesmente.

 

Blogagem coletiva Fim do Mundo

Deus N√£o Existe

2946162595_b6e8b16e60_o“No princ√≠pio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princ√≠pio com Deus. Todas as coisas foram feitas por meio dele” (Jo√£o 1:1-3)

 

Deus n√£o existe. Nem poderia jamais ter existido. Pelo menos do ponto de vista lingu√≠stico. Existir vem do verbo latino ex-istere¬†e significa “sair de”, “manifestar-se” tomando um sentido de “vir a ser”. Existir, portanto, n√£o pode ser uma caracter√≠stica do Deus monote√≠sta. Ele jamais poderia ter vindo a ser em determinado momento porque, nesse caso, n√£o seria eterno.

Se eu digo ent√£o, que Deus √©… vou compar√°-lo com algo que conhe√ßo e esta √© uma met√°fora que estar√° fadada √† imortalidade, o que n√£o √© bom¬†para quem quer saber das coisas. Segundo Umberto Eco (Kant e o Ornitorrinco, p√°g 17-54) ningu√©m jamais estudou sem√Ęnticamente de forma satisfat√≥ria o verbo ser. Parece ter sido Pascal o primeiro a notar a dificuldade: “N√£o podemos nos preparar para definir o ser sem incorrer neste absurdo: porque n√£o podemos definir uma palavra sem come√ßarmos pelo termo √©, expresso ou subentendido. Ent√£o, para definir o ser, √© preciso dizer √©, e assim usar o termo definido na defini√ß√£o”. Problema semelhante ocorre com as afirma√ß√Ķes sobre a ess√™ncia divina. Quanto mais poder √© dado a Ele, menos apreens√≠vel fica. Veja a encrenca.

Talvez haja apenas uma s√≥ chance de Deus existir de fato. Isso ocorre quando Ele se manifesta, vem a ser, dentro do pr√≥prio indiv√≠duo que Nele cr√™. Acho que Santo Agostinho tratou disso no Livro X das¬†Confiss√Ķes e¬†Espinoza foi excomungado de duas religi√Ķes por pensar algo parecido com isso.¬†Engra√ßado que este Deus parece n√£o bastar para muita gente. Talvez, sua popularidade n√£o seja muito alta porque, tal indiv√≠duo, um portador de Deus, n√£o pode export√°-lo. Seria preciso que Ele despertasse no outro e isso, al√©m de n√£o depender de uma decis√£o racional, cria um Deus ao qual um outro n√£o teria acesso.¬†De qualquer forma, n√£o √© um Deus muito “√ļtil” porque cada um tem o Seu com todos os corol√°rios decorrentes dessa limita√ß√£o.

O caso contr√°rio, o do Deus eterno que √©, simplesmente, se torna, de fato, uma grande sacada. De cara, j√° causa um n√≥ em quem tenta “pens√°-Lo” ao cair no dilema de Pascal (de fato, existem outros dilemas muito mais cabeludos que esse. Veja por exemplo, o verbete “Ser” no Abbagnano). Sendo inapreens√≠vel ou “impens√°vel”¬†formalmente¬†(ou pelo menos dif√≠cil de pensar, nem o Kant!), faz-se divino pela intangibilidade.

G√™nio. O sujeito que escreveu “no princ√≠pio, era o Verbo” sabia exatamente o que queria n√£o dizer.

DEK РSobre Prostitutas e Próstatas

Este é mais um verbete do DEK. Agora a letra P. Consulte pela categoria para ver outros verbetes.

Vamos √†s defini√ß√Ķes do professor (de) portugu√™s Carlos Rocha.

Próstata

¬ędo latim cient√≠fico¬†prostata, que por sua vez vem do grego ŌĀőŅŌÉŌĄő¨ŌĄő∑Ōā¬†prost√°tńďs, ou¬†‘colocado na frente de; donde, chefe, dirigente; protetor, defensor’, do verbo¬†pro√≠stńďmi‘ colocar na frente, p√īr em relevo, p√īr em evid√™ncia’; de¬†pr√≥– ‘diante, na frente’ +¬†h√≠stńďmi¬†‘colocar’; assim chamada por situar-se antes da bexiga¬Ľ

O c√Ęncer de pr√≥stata √© o tipo de c√Ęncer mais comum entre homens chegando a atingir 20% do sexo fr√°gil, a depender da idade. Um professor de urologia com quem tive aula disse que se cheg√°ssemos todos aos 100 anos de idade, a incid√™ncia do c√Ęncer de pr√≥stata beiraria os 100%. N√£o sei se essa afirma√ß√£o √© verdadeira, mas sei que a preven√ß√£o √© o melhor rem√©dio. Por falar nisso, ela mesma – a preven√ß√£o do c√Ęncer de pr√≥stata – est√° envolvida em uma enorme pol√™mica desde que a for√ßa-tarefa do departamento de medicina preventiva americano publicou diretrizes contra a coleta indiscriminada do ant√≠geno prost√°tico espec√≠fico (PSA na sigla em ingl√™s), que √© o marcador desse tipo de c√Ęncer. Estudos t√™m mostrado sistematicamente que a detec√ß√£o precoce do tumor n√£o leva a melhor sobrevida e, pior, deteriora muito a qualidade de vida do paciente. A discuss√£o tem sido acalorada e eu mesmo j√° escrevi¬†alguma coisa sobre o assunto. Mas voltemos ao prof. Carlos Rocha.

Prostituta

¬ęlatim¬†prostitŇ≠o,is,ńę,Ňętum,ńēre¬†‘colocar diante, expor, apresentar √† vista; p√īr √† venda; mercadejar com a sua eloq√ľ√™ncia; prostituir, divulgar, publicar’, de¬†pro– ‘na frente, diante de’ +¬†statuńēre¬†‘p√īr, colocar, estabelecer; expor aos olhos’, de¬†stńĀtus,us¬†‘repouso, imobilidade; atitude, postura (de um combatente); assento, situa√ß√£o; estado das coisas, modo de ser’, do radical de¬†stńĀtum, supino de stńĀre ‘estar’¬Ľ.

“Em¬†Hist√≥rias de Palavras ‚ÄĒ do Indo-Europeu ao Portugu√™s¬†(Lisboa, A. Santos), de Ernesto d¬īAndrade, indica-se que ambas as palavras t√™m em comum os seguintes radicais:

a) *per, que √© base das preposi√ß√Ķes e prefixos¬†pro– em grego e¬†pro– em latim;
b) *stńĀ, ¬ęestar em p√©, do qual s√£o cognatos o grego¬†h√≠stńďmi¬†e o latim¬†statuńēre.”

Pois √©. Os termos (apesar de n√£o terem absolutamente nada a ver com Alain Prost)¬†s√£o assemelhados e compartilham a mesma raiz. “Estar na frente” e “expor-se” transmitem ideias relacionadas. Em que pese o fato de ter sido reconhecido um org√£o an√°logo √† pr√≥stata nas mulheres, ela ainda √© exclusividade do universo masculino. Universo este que as prostitutas t√™m uma capacidade intr√≠nseca de captar. Aproveito uma interessante reportagem para destilar uma ideia.¬†Sempre defendi que a sabedoria das prostitutas deveria ser melhor aproveitada por pessoas que n√£o necessitem (ou optem por) usar o corpo para sobreviver. Uma prostituta aprende muito r√°pido sobre o mundo masculino. E usa isso a seu favor. Imagine voc√™, leitor ou leitora, que precise, de qualquer forma, agradar algu√©m, seja do ponto de vista sexual, profissional (por exemplo, vendedores) ou simplesmente social. Se for muito incisivo, a pessoa poder√° assustar. Se muito t√≠mido, a outra pode n√£o gostar. √Č preciso uma leitura muito r√°pida do que a pessoa quer e, muitas das vezes, nem sabe que quer. D√° uma certa inseguran√ßa, n√£o? Como se comportar? √Č preciso uma sapi√™ncia, uma mistura de conhecimento, viv√™ncia, experi√™ncia, ou mesmo um tino at√°vico para ser, ali naquele momento espec√≠fico, o que a outra pessoa gostaria que voc√™ fosse, sem que ela saiba que voc√™ sabe. Complicado.

“Exibir-se”, “estar a frente” s√£o sinais de for√ßa e ao mesmo tempo vulnerabilidade. E poderia surgir ent√£o uma est√©tica de onde ningu√©m jamais ousaria pensar que ela pudesse surgir. A est√©tica da intui√ß√£o entre a palavra e a coisa. Mas isso, est√° no olhar de quem v√™ e n√£o nas “coisas” que se postam a sua frente.

DEK РJ e a Polêmica do Vestuário Médico

ResearchBlogging.orgRecentemente, vem ganhando corpo uma campanha interna do ScienceBlogs Brasil contra o uso indevido do vestu√°rio m√©dico em locais inapropriados como lanchonetes, restaurantes e at√© metr√īs e √īnibus. A campanha √© mais que justa. Jalecos, aventais, guarda-p√≥s, estetosc√≥pios e outros apetrechos utilizados pelos m√©dicos n√£o s√£o de fato, para ficar perambulando por a√≠, tendo em vista o enorme problema das infec√ß√Ķes cruzadas e o surgimento de germes multirresistentes.

Entretanto, h√° um tom iconoclasta na campanha que me incomoda. Eu fiquei pensando muito no porqu√™ ficar incomodado com um assunto pelo qual luto diuturnamente e que tem um embasamento cient√≠fico bastante razo√°vel como pode ser visto aqui (em ingl√™s). Digo razo√°vel, porque o papel desses ve√≠culos (dizemos f√īmites) na transmiss√£o de doen√ßas ainda est√° para ser estabelecido. Estar contaminado, por mais nojento, incorreto e reprov√°vel, que possa ser, n√£o quer dizer estar  ou deixar doente, apesar de tornar mais prov√°vel.

Este é o Dicionário Etimológico do Karl e esta é a letra J, e vou usar este espaço para psicoanalisar um pouco do meu comportamento médico. Afinal, esse é um dos fins deste blog.

J (jota) de jaleco s.m., segundo o Houaiss, (1605) ‘jaleco, jaqueta turca cujas mangas chegavam s√≥ aos cotovelos’ (tur. yel√©k, pelo √°r. argelino djal√≠ka ‘casaco de cativo’; segundo Corominas, s.v. chaleco, Haedo descreve o jaleco da seguinte forma: ‘um gib√£o de pano, de mangas curtas, at√© o cotovelo, que os turcos argelinos usavam, debaixo do cafet√£’; trata-se de um dos v√°rios nomes de trajes transmitidos ao esp. e ao it. pela l√≠ngua franca dos portos africanos; f.hist. 1725 jalecu, 1725 galleco, 1727 jaleco. Chamavam os portugueses “galegos” de jalecos tamb√©m. H√° um tamandu√° de nome jaleco. Para n√≥s, jaleco √© uma capa curta de mangas tamb√©m curtas que pode ser usada sobre a camisa, como na foto acima. √Č utilizada por dentistas, farmac√™uticos, churrasqueiros e balconistas em geral, entre outros tantos. Eu j√° usei jaleco. Parei porque achava o jaleco meio churrasqueiro demais. Gosto mais de usar o (ainda segundo o Houaiss):

Avental: pe√ßa de pano, pl√°stico ou couro, presa pelo pesco√ßo e pela cintura, usada para proteger a roupa em certos tipos de trabalho. Etimologia: avante + -al, com altera√ß√£o do -a- pr√©-t√īnico para -e-; f.hist. sXIV auantal, sXIV uantal. (Atualiza√ß√£o: eu acho que o nome mais correto para esse tipo de vestimenta √© guarda-p√≥ ou simplesmente, capa, como no ingl√™s)

Avental e gravata constituem um “uniforme m√©dico” de respeito n√£o s√≥ porque a imagem do m√©dico veiculada em muitos filmes √© essa, mas tamb√©m porque nas faculdades de medicina, em geral, formam a vestimenta padr√£o dos professores. A gravata j√° foi alvo de v√°rias cr√≠ticas [1] e muitos j√° a abandonaram. Mas isso n√£o nos exime da pergunta: Mas ent√£o, o que √© que um m√©dico deve trajar?

Tive uma experi√™ncia interessante com a s√©rie “Sala de Espera I e II” e recomendo a leitura dos coment√°rios porque s√£o bastante esclarecedores quanto √†s expectativas dos pacientes quanto a apar√™ncia dos m√©dicos(as). Cito abaixo as respostas de 3 sciencebloggers √† pergunta, como seria a apar√™ncia de um m√©dico importante para voc√™?

Para mim, estere√≥tipo de m√©dico mesmo. Meia-idade, cabelo meio grisalho, sem brincos ou tatuagens. Este primeiro resultado do Google Images √© bem o que imagino mesmo” Kentaro Mori do 100nexos.

Irei contra todos os coment√°rios acima e direi que meu ideal de m√©dico √© um sujeito novo, rec√©m-sa√≠do da universidade, doido para colocar em pr√°tica anos de estudo e assumir, enfim, a responsabilidade por isso, sem algu√©m olhando por cima do seu ombro. Um m√©dico jovem, empolgado, atualizado, que l√™ muito e sabe a import√Ęncia de uma batidinha no abdome e uma puxada de p√°lpebra. Quanto mais estetosc√≥pio no pesco√ßo e esfigmoman√īmetro no bolso melhor. Na minha cabe√ßa, quanto mais velho o m√©dico, mais antiquados os seus m√©todos, chegando numa zona dos formados entre dez e vinte anos atr√°s para os quais “pedir exame” √© sin√īnimo de “examinar”.” Igor Santos do 42. (grifo + sublinhado, meus)

Fico com o cientista, principalmente pelo jaleco branco.” Atila do Rainha Vermelha.

Scientist Cartoon 0779

Isso j√° foi at√© tema de um estudo [2] cuja conclus√£o foi que, “em contraste com os m√©dicos que veem os aventais brancos como risco de infec√ß√£o, muitos pacientes, e especialmente aqueles com mais de 70 anos, acham que os m√©dicos devem vestir aventais brancos para sua identifica√ß√£o ficar mais f√°cil.” Com isso, quero chamar a aten√ß√£o para o fato de que a vestimenta do m√©dico √© algo que est√° al√©m do simples fato da prote√ß√£o, higiene e etc. H√° sim, uma identifica√ß√£o visual, uma compara√ß√£o cognitiva com uma imagem pr√©-concebida proveniente das experi√™ncias particulares que cada pessoa teve em contato com a doen√ßa e com a possibilidade de ser assistida por algu√©m no qual depositaram sua confian√ßa. Repito aqui o que j√° escrevi e que acho que se adequa perfeitamente ao tema:

“Acho mesmo que essa imagem pr√©-concebida do m√©dico varia muito, n√£o
só com a especialidade, mas também com o local onde o médico trabalha,
que tipo de p√ļblico atende e assim por diante. Tudo isso para dizer que o m√©dico √© INDISSOCI√ĀVEL da popula√ß√£o que
atende. Isso pode soar óbvio a essa altura da discussão mas, acredite,
muitos médicos não pensam assim. Além disso, a instituição que abriga o
m√©dico, seja um hospital p√ļblico ou particular, seja seu pr√≥prio
consultório (e no caso a instituição é ele mesmo) faz diferença, não só
na aparência que o médico busca, como também na sua forma de atuar. Isso
é bastante polêmico, eu sei, mas alguns anos de experiência me
mostraram o problema de forma bastante clara. N√£o reconhecer essa
diferença, que os advogados já reconheceram há alguns milênios, é abrir
m√£o da oportunidade de minimizar seus efeitos.

A ciência médica é uma só, a medicina não. Isso decorre do fato de
ela ser uma forma, talvez a mais perversa, de aplicação científica
pr√°tica! A pr√°tica, como j√° abordei em diversos posts, tem a tens√£o
irredutível da decisão que envolve o conhecimento tecno-científico e a
experiência prévia. Essa tensão deixa o médico inseguro. Sempre. A
apar√™ncia do m√©dico √© um modo de “vender o peixe”. Quanto mais adequada a
aparência for à imagem que o paciente faz do médico, mais fácil
conseguir sua confiança, aderência ao tratamento e, consequentemente,
bons resultados. Isso tem a ver com o mercado? Sim. Mas tem muito mais a
ver com o fato de que o médico precisa penetrar em algo bem mais
profundo que o mero organismo de seu paciente.”

Isso não exclui o médico do conceito de adequação. Ser atendido por uma médica atraente com minissaia e decote matador inspira muitos sentimentos, menos os de acolhimento, segurança e confiança profissional. Sentar em uma lanchonete com médicos comendo de avental e esteto no pescoço é desagradável também. A adequação do traje ao local é uma forma de educação e esta, por sua vez, visa o bem-estar de todos.

[1] McGovern, B., Doyle, E., Fenelon, L., & FitzGerald, S. (2010). The necktie as a potential vector of infection: are doctors happy to do without? Journal of Hospital Infection, 75 (2), 138-139 DOI: 10.1016/j.jhin.2009.12.008

[2] Douse, J. (2004). Should doctors wear white coats? Postgraduate Medical Journal, 80 (943), 284-286 DOI: 10.1136/pgmj.2003.017483

DEK – G e o Feminino

Ginecologia. A especialidade m√©dica que cuida de problemas relacionados ao corpo feminino. Vem do grego arcaico gynńď, ő≥ŌÖőĹőģ (que tamb√©m derivou a moderna palavra grega para mulher gynaika, ő≥ŌÖőĹőĪőĮőļőĪ) significando mulher + logia significando estudo, literalmente portanto, estudo das mulheres. N√£o sou mulherologista mas reconhe√ßo que o assunto √© muito interessante. Seja bem-vindo ao DEK, esta √© a letra G.

Parece haver mesmo uma origem indo-europeia comum para essas palavras. A raiz gwen-, √© a fonte da palavra inglesa queen (do ingl√™s arcaico cwńďn significando mulher, nobre ou n√£o) e que tamb√©m pode ser visto em dinamarqu√™s moderno (kvinde), em sueco (kvinna) e em persa (zan). A palavra mulher entretanto, n√£o pertence a essa estirpe. Origina-se do latim mulier, que por sua vez, vem de molleris (fraco, sem m√ļsculo). Essa raiz originou tamb√©m “molusco”, “mole”, contrapondo pejorativamente o esp√≠rito feminino ao do guerreiro. H√° outros autores que associam o termo mulher com o latim moler que originou moinho, moleiro aludindo √†s tarefas dom√©sticas. O fato √© que em latim ainda, a palavra femina demonstra uma outra maneira de ver a mulher na sociedade. Em franc√™s femme, em italiano donna (moglie √© esposa), mulher acabou predominando entre os latinos apenas na Ib√©ria. Cabe-nos transcender a origem da palavra.

Quem faz resid√™ncia m√©dica em Ginecologia, tamb√©m faz em Obstetr√≠cia e vira um GO, apelido da especialidade. Obstetr√≠cia vem de obstetrix que quer dizer parteira. Prov√©m do verbo latino obstare que quer dizer contrapor. Literalmente, aquela que se contrap√Ķe √† sa√≠da do feto (no sentido de apar√°-lo e ampar√°-lo). Por falar nisso, obstetras cuidam de gr√°vidas, que √© um atributo exclusivamente feminino e tamb√©m come√ßa com G. Gravidez, transmite mesmo a ideia de peso. Vem do latim, gravidus,a,um (carregado, cheio, pesado). Em medicin√™s falamos gesta√ß√£o e gestante. Do latim, gestare (gerar).

N√£o poderia, por fim, de deixar de falar do tal ponto G. H√° ainda muita controv√©rsia sobre a exist√™ncia ou n√£o de uma zona retrop√ļbica na parede superior da vagina cuja estimula√ß√£o geraria extremo prazer, orgasmos m√ļltiplos e at√© ejacula√ß√£o feminina. Os sex√≥logos insistem em ensinar as mulheres a localiza√ß√£o e a utilidade do ponto G enquanto ginecologistas e pesquisadores insistem que a regi√£o pode n√£o existir de fato e que os sex√≥logos se apoiam em estudos aned√≥ticos. Em recente pesquisa no PubMed com o termo “G-spot” no t√≠tulo consegui 30 artigos sendo os 3 primeiros de 2010 (nenhum em ingl√™s). Os t√≠tulos s√£o os seguintes:

Buisson. [The G-spot and lack of female sexual medicine]. Gynecol Obstet Fertil (2010) vol. 38 (12) pp. 781-4
Magnin. [Does the G spot exist?]. Gynecol Obstet Fertil (2010) vol. 38 (12) pp. 778-80
Pastor. [G spot–myths and reality]. Ceska Gynekol (2010) vol. 75 (3) pp. 211-7

Todos discutindo ainda a controvérsia do ponto G. Para uma boa discussão sobre o assunto ver aqui (em inglês).

Para mais sobre o DEK, ver aqui.
Foto de Nicole com o nenê daqui.

DEK РF: A Relação Entre a Mente e o Diafragma

phrenology-journal.jpg

Fr√™nico. phren(o)- ŌÜŌĀ-őģőĹ/-őĶőĹŌĆŌā gr. ‘mente’, (diafragma), segundo o Diccionario m√©dico-biologico, de quem tomei muitas das explica√ß√Ķes abaixo. H√° o nervo fr√™nico que √© quem veicula os est√≠mulos ao diafragma. H√° o esquizofr√™nico que n√£o tem nada a ver com isso (nem com nada). Qual seria a rela√ß√£o entre um e outro? Esse √© o “F”. Bem-vindo ao dicion√°rio etimol√≥gico do Karl. Outras letras/verbetes aqui.

Existe certa discuss√£o sobre o significado anat√īmico do termo phrŠłón ŌÜŌĀőģőĹ. Entretanto, tanto Hip√≥crates como Arist√≥teles o utilizavam com o significado de diafragma őīőĻő¨ŌÜŌĀőĪő≥őľőĪ, a tenda muscular que separa o t√≥rax do abdome, e quase sempre no plural phr√©nes ŌÜŌĀő≠őĹőĶŌā. Como que, vindo dessa origem, o termo passa tamb√©m a designar a mente?

√Č um caso de meton√≠mia. Por exemplo, √© frequente utilizarmos “cora√ß√£o” ao inv√©s de “amor” ou “compaix√£o”. Para os gregos, o diafragma era a sede do medo e da ang√ļstia. Talvez, traduzindo o j√° conhecido “frio na barriga” que todos sentem e que √© muito dif√≠cil de definir. Da√≠, passamos aos sentimentos e finalmente, √† mente. (Em grego, existem duas palavras para mente que originaram termos utilizados hoje. O primeiro freno– e, quando usado em sufixo, –frenia, como vimos. A outra √© no√Ľs őĹőŅŠŅ¶Ōā que forma palavras acabadas em –noia, como em “paranoia”). Parece que os m√©dicos gregos usavam phrŠłón ou phr√©nes com o sentido de diafragma mesmo e os escritores, em especial Homero, com o sentido de mente. O autor de Sobre a Enfermidade Sagrada (a epilepsia) – que pode ser o pr√≥prio Hip√≥crates, ou n√£o – escreve:

¬ęAfirmo que o c√©rebro √© quem articula a intelec√ß√£o. As phr√©nes (o diafragma) t√™m essa denomina√ß√£o (ou seja, um termo associado ao pensamento) por azar ou conven√ß√£o mas n√£o pelo que √© sua natureza, porque n√£o sei que faculdade t√™m para pensar (phron√©ein ŌÜŌĀőŅőĹő≠őĶőĻőĹ) ou refletir (no√©ein őĹőŅő≠őĶőĻőĹ).¬Ľ (De morbo sacro 16).

Termos como phronésis e frenesi provém dessa linha grega de pensamento.

A terminologia m√©dica atual deriva dos anatomistas renascentistas que eram bons leitores de Hip√≥crates e Galeno. Quando foram denominar os vasos e nervos relacionados ao diafragma utilizaram o adjetivo “fr√™nico” (phrenicus em latim), como derivado de phrŠłón “diafragma”, na melhor tradi√ß√£o hipocr√°tica. Por outro lado, desde Eras√≠strato se interpretou que phrenńętis ou frenitis era uma doen√ßa do c√©rebro que afetava as capacidades intelectuais e n√£o uma simples pneumonia. Essa linha, predominou nas enfermidades psiqui√°tricas, em especial na escola francesa, e gerou termos como phr√©nopathie (frenopatia) como termo gen√©rico das enfermidades mentais em 1833;¬†paraphr√©nie, hebefrenia (criada por K.L. Kahlbaum e E. Hecker em 1871), oligofrenia (1899), esquizofrenia (1910) por Eugen Bleuler. Gerou tamb√©m a frenologia. “Ci√™ncia” que muito influenciou o pensamento fisiol√≥gico segundo a qual cada fun√ß√£o cognitiva tem sua sede anat√īmica no c√©rebro. Temo dizer que h√° um “vi√©s frenol√≥gico” n√£o desprez√≠vel em alguns neurocientistas; ainda hoje.

1. Oxford Textbook of Psychopathology de T. Millon, P.H. Blaney y R.D. Davis, 1999.
2. Dicciomed.es. Diccionario médico-biológico, histórico y etimológico. (Sensacional dica da Tati Nahas).