DEK H: Habilidade, Habitar, Hábito

 

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Gravura de Eduardo Chillida “Bauen, Wohnen, Denken”, 1994.

O prefixo  hab- em latim forma palavras com três grupos de significados que procurei exemplificar no título do post. O primeiro grupo, ao qual pertence a palavra “habilidade” (habilitas), tem palavras como “hábil” (habilis) e “habilitar”, que é tornar hábil. Em latim, temos ainda habena (portador) e habens (proprietário, rico) que é aquele tem as habentia (propriedades). De fato, o próprio verbo habeo é traduzido como “ter”. Esse grupo de palavras sugere para hab-  um significado de posse, de capacidade, de potencialidade de realização.

O segundo grupo tem como exemplo a palavra “habitar” (do verbo habito) com significado de morar, viver, ficar e seus derivados como “habitante” (habitans), “habitat”, “habitação” (habitatio), entre outros. Aqui, diferentemente, o prefixo hab- parece trazer um significado de demorarse, morar, viver, estabelecerse.

O terceiro e último grupo é encabeçado pela palavra “hábito” (habitus). “Hábito” pode ser traduzido como disposição, inclinação, costume (no sentido de prática, modo, rotina, ou mesmo mania). É a tradução para o latim do grego hexis (ἕξις) que, por sua vez, foi retirado da literatura médica onde até hoje é utilizado com o sentido de “constituição”, “predisposição” orgânica, habitus. (Há o exemplo clássico – os médicos se lembrarão – do habitus marfanóide, característico dos portadores da Síndrome de Marfan). Mas, habitus tem ainda um outro significado que é o de condição, estado, aparência, hábito, aqui no sentido de, veja só, novamente costume (roupa, vestimenta). Em ambos os casos, hab- parece remeter a algo que está em um indivíduo, algo do qual ele é portador, e que se constrói em sua aparência externa, ou em sua forma de comportar-se, ou ainda, de maneira mais interessante, na ambiguidade das duas possibilidades a um só tempo como no dito popular “o hábito não faz o monge”.

Vejamos, então, o que temos até aqui. Aparentemente três campos semânticos independentes: “posse, capacidade, potencialidade”; “demorar-se, morar, viver, estabelecer-se”; “aparência, comportamento”. Mas, um pensamento parcimonioso não se contentaria com uma tal profusão de significados. Aliás, não é mesmo assim que prefixos ancestrais costumam funcionar. Deve haver uma raiz semântica comum que se perdeu com o uso cotidiano e que terminou por cristalizar os três significados separadamente. Tal raiz originária não é facilmente resgatável e restam-nos apenas hipóteses de suas origens. Uma das possíveis hipóteses leva em conta a belíssima palestra proferida por Martin Heidegger em 1951: “Construir, Habitar e Pensar” [1].

Para Heidegger, só construimos coisas porque já habitamos determinados espaços que, desse modo, se tornam “lugares”. Apenas porque alguns lugares determinados já nos pertencem de antemão e de certo modo é que podemos transformá-los com construções e morar neles depois. Heidegger chega a traçar um paralelo entre bauen, palavra do alemão arcaico que abriga os significados de “construir” e “habitar”, e “ser”, como em ich bin, du bist, “eu sou”, “tu és”. Habitar é ser. Nesse sentido é que se pode acrescentar que a capacidade de construir – habilidade – é determinante de como o indivíduo se apresentará e se comportará – hábito -, dado que sua habitação é o que delimita quem ele mesmo é.

 

Notas

1. Bauen, Wohnen, Denken (1951). Conferência pronunciada por ocasião da “Segunda Reunião de Darmastad”, publicada em Vortäge und Aufsätze, G. Neske, Pfullingen, 1954. Tradução de Marcia Sá Cavalcante Schuback. [link para o pdf]

DEK – Olhar e Ver Espelhos

Xadrez no Espelho

O que é “olhar”? Literalmente, olhar é “dar uma olhada”, um golpe d’olhos. É o movimento conjugado dos globos oculares em direção a algo ou alguém. Se, por um lado, quem não olha fatalmente não vê, como é sabido de todos, o inverso é mesmo possível, qual seja olhar de fato, sem nada ver. Por quê? “Ver”, assim como seu correlato “enxergar”, parecem conferir algo de interpretativo ao ato mesmo de olhar. A etimologia de “enxergar” é classificada como “incerta” pelo Houaiss e pelo Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, o que nos permite e(spec)ular (as razões desses parênteses serão esclarecidas abaixo). Em castelhano temos a palavra envidia que vem do latim invidere, sendo composta por “in-“ “pôr sobre”, “ir para” e “videre”, o próprio “ver”. Envidia significa, portanto, algo como “deitar o olhar sobre” e seria um étimo possível para nosso “enxergar”. Por outro lado, em latim ainda temos a palavra insecare, primeira pessoa do verbo inseco, que significa “cortar, divisar”. Foi sugerido [1] que a relação entre “cortar” e “saber”, que é também dada no vocábulo derivado do grego “análise”, pudesse ter originado o “enxergar”. Incerto, de qualquer forma, mas plausível e certamente aprovado ao menos por Michel Foucault[2].

E o que é “ver”? A origem é o latim videre  como vimos e que, por sua vez, vem de uma raiz indoeuropeia *weid-, comum, veja só, à palavra grega ειδος (eidos = aparência, imagem) tão cara à Platão e que originou as palavras “androide”, “antropoide”, “ginecoide” e tantas outras com o significado de “assemelhado a” ou “na forma de”. Interessante também o fato de que, em bom inglês, tal raiz tenha originado wisdom (sabedoria), wise (sábio), wizard (mago), todas palavras que de certa forma designam a capacidade que alguém tem de “ver mais longe”.

Peculiar é o termo species que também significa “aparência”, “a(spec)to” (calma, já chegamos lá) e “visão” e deriva de uma raiz (spec) (pronto!) que significa “olhar, ver”, raiz essa que pode ser encontrada também em palavras como speculum, que não significa apenas “espelho”, mas também é o nome que se dá a um instrumento médico utilizado para ver “interiores corpóreos”, muito utilizado em ginecologia (aliás, uma das “e(spec) ialidades” médicas); spectrum, “imagem”, “fantasma”; specimen, “exemplo”, “signo”; spectaculum, “espetáculo”. Raiz que, segundo Giorgio Agamben [3], se desdobra numa dialética bastante interessante. Species foi utilizado para traduzir para o latim o termo filosófico eidos (acima), derivando seu sentido para as ciências da natureza (espécie animal ou vegetal) e para o comércio, significando “mercadoria” e, mais tarde, o próprio dinheiro. Ainda segundo Agamben

“especioso” significa “belo” e, mais tarde, “não verdadeiro”, “aparente”. “Espécie” significa o que torna visível e, mais tarde, o princípio de uma classificação de equivalência. Causar espécie significa “assombrar, surpreender” (em sentido negativo); mas que indivíduos constituam uma espécie nos traz segurança” [4] (itálicos no original).

A espécie é, então, a imagem de uma coisa que se mostra ao olhar mas que, ao mesmo tempo, precisa ser fixada na própria coisa para se constituir em uma identidade. Por isso, a fórmula de Agamben é tão promissora: “especial” é o ser cuja essência coincide com seu dar-se a ver, com sua espécie. Quando alguém diz que somos especiais, tal afirmação pode constituir-se num elogio de autenticidade, mas também numa crítica de impessoabilidade ou mesmo de insubstancialidade. “Só personalizamos algo – referindo-o a uma identidade – se sacrificamos a sua especialidade” – diz Agamben.

E a coisa toda fica bem mais interessante quando observamos nossa própria “espécie” refletida num espelho. Isso porque o espelho é o locus da descoberta de que nossa “espécie”, nosso imago, não nos pertence. E “entre a percepção da imagem e o reconhecer-se nela há um intervalo que os poetas medievais denominavam amor“[5]. O espelho de Narciso é essa experiência. “Se eliminarmos esse intervalo ou o prolongarmos indefinidamente, a imagem é interiorizada como “fantasma”, e o amor recai na psicologia”[5], metáfora para patologização do Eu.

Nosso olhar seria então um meio pelo qual construimos um mundo e também reconhecemos os sujeitos que nele habitam. Entretanto, ao voltar-se sobre si e nos submeter ao escrutínio de seu recorte, um certo cuidado é preciso. Para que não comecemos a ver fantasmas onde eles jamais existiram.

 

[1] Takata, R. Personal communication.

[2] Foucault, M. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1984. “É que o saber não é feito para compreender, ele é feito para cortar.” p. 28.

[3] Agamben, G. Profanações. Boitempo, 2007. Tradução e apresentação de Selvino J. Assmann. p. 52.

[4] Idem. p. 54.

[5] Idem. p. 53.

DEK – A Cura

Matteo23.12.05 095

O Homem de Barro (húmus) moldado pelo Cuidado

Já contei sobre o diálogo do clínico com o cirurgião. Nele, está envolvido um dos conceitos de cura na medicina contemporânea. Há outros tantos. Este é o DEK e o verbete cura nos trás de volta à letra C. Outros verbetes podem ser vistos aqui (ou procurando pela tag “DEK”).

Como nos referimos ao estado subsequente a uma moléstia não-fatal? Sem entrar nas complicadas análises ontológicas em relação ao ser da doença e sua nomenclatura específica, podemos dizer que no indivíduo doente são investidas práticas que visam reverter os processos alterados do organismo para que assim se possa restabelecer seu status pré-patológico. Tais práticas, em grego, podem ser agrupadas sob o termo θεραπεία (therapia), utilizado em várias línguas. Em alemão, há o termo Behandlung que contem a palavra “mão” e apesar de poder ser traduzido por “tratamento”, adapta-se melhor ao nosso “manuseio” que é a forma de lidar com certas doenças e inclui várias técnicas e procedimentos da terapia. “Tratamento”, em português, tem a mesma raiz de “tratado” ou “trato” (sm. Do lat. tractus) que significaria “con-trato, ajuste, pacto”. O que não deixa de ser bastante interessante já que ao tratar alguém, o médico também deveria tratar com alguém, sem destratar ninguém. O tratamento é, ou pelo menos poderia ser, um tipo de acordo.

Deixando um pouco de lado o processo pelo qual se reconduz o enfermo de seu estado mórbido para um outro “novamente” saudável, passemos agora a investigar como nos referimos a esse estado de “nova saúde”. Há um processo envolvido nisso. Um ciclo: saúde -> doença -> terapia -> restabelecimento -> saúde de novo. Pra mim, um dos termos que melhor define esse restabelecimento (e também um de meus preferidos) é convalescência. Se não, vejamos, con-valescere é latim e quer dizer “prosperar, ganhar saúde, ficar forte”. Garotos na puberdade “valescem”, crescem, ficam fortes e valorosos. É a mesma raiz de “valete” e de alguns nomes germânicos como Valter e Waldo. Em alemão se diz Genesung, restabelecimento. Portanto, “convalescer” é restabelecer-se, ficar forte de novo. Sarar também é latino (sanare) e descreve igualmente a fase de restabelecimento. Em grego moderno, a palavra utilizada para “cura” é επούλωση (epoulossi) que também quer dizer “cicatrização” ou seja, semelhante ao heal do inglês e ao heilen do alemão. Tanto o termo inglês como o alemão tem a mesma raiz que parece ser proto-germânica *hailjan (cf. saxônico antigo helian, que quer dizer literalmente “fazer-se inteiro”). Daí derivam os termos utilizados nessas línguas para designar saúdeHealth e Gesundheit. A propósito, o nosso “saúde” (Do lat. salusutis; estado de são, salvo) originou também a palavra “saudação” e seus derivados que significam, portanto, “desejar saúde a alguém”; que é exatamente o que fazemos quando cumprimentamos outras pessoas. Isso não deixa de ser um exemplo de como as moléstias podem moldar o comportamento ético dos homens.

Após o indivíduo doente ter-se restabelecido completamente, o que sobra da doença? É o tal “saúde de novo” do esquema acima. Podem restar cicatrizes físicas e não faltarão as espirituais. Esse é o processo de healingheilungepoulossi do qual falamos. Em português utilizamos a palavra cura. A raiz latina parece acrescentar algo mais, dado que cura também quer dizer cuidado, como nos termos curador (jurídico ou artístico), queijo ou peixe curadoscurativo, etc, mas também preocupação, como no ato de velar um enfermo. Sêneca e os estóicos utilizavam o vocábulo μέριμνα (mérimna) para designar esse tipo de “atenção preocupada”. Μérimna vem de merízō, (“dividir”, parte separada do todo) e adquiriu, em sentido figurado, o significado de preocupação, ansiedade, pois uma pessoa nessas condições está dividida entre o agir e a não-ação. Não deixa também de se relacionar com a ideia de “inteireza” que o termo “saúde” evoca. Platão utilizava o termo melete (μελέτη). Melete era uma das 3 musas da Beócia e representava a “ponderação”, a “contemplação”, donde se depreende sua associação com “preocupação”. Este termo originou επιμέλεια (epiméleia): o “cuidado de algo ou alguém”, correspondente à cura latina.

Segundo Irene B. Duarte [1] “o campo semântico de “cuidar” e de “cuidado” guarda, no português atual, o sentido original de uma etimologia inesperada: a do latim cogitare, pensar. Na forma transitiva, “cuidar” é pensar: atender a, refletir sobre – e, por isso, interessar-se por, tratar de, preocupar-se por, ter cautela”. Como no grego, duas palavras de origens diferentes são necessárias para cobrir esse campo semântico: cura e sollicitudo. Cura evoluiu para “uma acepção predominantemente relacionada ao âmbito da saúde: curar é sanar, tratar de restabelecer a saúde perdida”. Cura provém de quaero (procurar) mas num contexto bem vasto, indo da medicina até a administração (como em cura rerum publicarum) e religião (cura deorum). Sollicitudo, em contrapartida, continua Duarte, emprega-se de maneira mais precisa: é “cuidado” no sentido de “estar movido (citus, part. de ciere, mover) ou comovido por inteiro (sollus)”, isto é, sentir inquietude, pena. É “solícito”, pois, quem se aflige por algo ou alguém. Digamos que em cura parece predominar o “mover-se numa certa direção”, em sollicitudo o “ser movido por” aquilo que nos assalta ou se nos apresenta.”

Em alemão, o termo utilizado é Sorge e aqui cabem algumas considerações filosóficas. Na primeira parte de “Ser e Tempo”, Heidegger dá grande importância ao cuidado como fundamento do ser, como o ser da própria Existência. O homem pertence ao Cuidado, conforme conta a fábula 220 de Higino (ver abaixo), citada por Heidegger no parágrafo 42 de sua obra máxima. Com isso pretende-se, grosso modo, dizer que o homem é marcado por sua abertura ontológica. É uma possibilidade, um vir-a-ser. O homem, enquanto permanecer como ser vivente, é uma tarefa.

Por isso, Cura (ou Cuidado), como diz C. Dünker [2],  “não implica apenas o retorno da saúde, mas também a experiência legada por seu processo, a integração, à história dos envolvidos, da cicatriz formada, dos conselhos recebidos e do sentido do evento … ou sua falta de sentido”. Vista dessa forma, a Cura está, portanto, fora do âmbito do médico. Pertence ao paciente na sua tarefa de si, de recriar-se e de encontrar no processo novas possibilidades de (vir-a-)ser. Tudo o que o médico pode fazer é provocá-la.

 

[1] DUARTE, IB. A fecundidade ontológica da noção de Cuidado. (pdf)

[2] DUNKER, Christian I.L. Estrutura e constituição da clínica psicanalítica. Uma arqueologia das práticas de cura, psicoterapia e tratamento. São Paulo, Anna Blume, 2011.

 

~ o ~

Fábula do Cuidado

“Certa vez, atravessando um rio, Cuidado viu um pedaço de terra argilosa: cogitando, tomou um pedaço e começou a lhe dar forma. Enquanto refletia sobre o que criara, interveio Júpiter. O Cuidado pediu-lhe que desse espírito à forma de argila, o que ele fez de bom grado. Como Cuidado quis então dar seu nome ao que tinha dado forma, Júpiter o proibiu e exigiu que fosse dado ao invés disso, seu próprio nome. Enquanto Cuidado e Júpiter disputavam sobre o nome, surgiu também a Terra (Tellus) reivindicando que o nome fosse o seu, uma vez que havia fornecido um pedaço do seu corpo. Os disputantes resolveram então, tomar Saturno como árbitro. Saturno pronuniou a seguinte decisão, aparentemente eqüitativa: ‘Tu, Júpiter, por teres dado o espírito, deves receber na morte o espírito e tu, Terra, por teres dado o corpo, deves receber o corpo. Como porém foi o Cuidado quem primeiro o formou, ele deve pertencer ao Cuidado enquanto viver.”

DEK – Estetoscópio, Broncograma e Pectorilóquia

A palavra estetoscópio parece ter sido forjada (dado que tais instrumentos médicos não eram utilizados pelo conterrâneos de Hipócrates) pelo francês René-Théophile-Hyacinthe Laënnec (1781-1826), ele mesmo o inventor da palavra e da coisa, a partir dos radicais gregos, stethos-, caixa torácica, peito (e até mamas); associada à -skopein, explorar, perscrutar. Stethos é, portanto, correlacionada à caixa torácica e ao peito. Provavelmente, esterno, como “osso que nos fecha o peito”, ou “que vem à frente dele”, também venha daí. Nada a ver com Estética que é de outro radical. Se bem que aisthanesthai, é “perceber, pelos sentidos ou pela mente”, ou seja, “sentir” e originou “estese” e seu oposto “anestese”, ou comumente “anestesia”, e se pode perfeitamente, com o estetoscópio, sentir ou ouvir ruídos do funcionamento normal do corpo humano. Em especial dos pulmões.

Árvore Brônquica (Fonte: Wikipédia)

Árvore Brônquica (Fonte: Wikipédia)

O ar, ao penetrar nas vias aéreas, produz uma sensação auscultatória (auscultar = escutar com técnica) semelhante àquela que temos quando encostamos o ouvido numa concha só que de forma intermitente, acompanhando o ciclo respiratório do paciente. É um som abafado e que é bem melhor percebido durante a inspiração e chamado poeticamente de murmúrio vesicular. Quando esse som fica nítido, o médico deve prestar atenção se ele pode ser ouvido durante a expiração também. Se isso ocorrer, chamamos esse tipo de ruído de respiração soprosa. A respiração soprosa ocorre por aumento da transmissão do som na caixa torácica e isso, geralmente, se dá por uma condensação do parênquima pulmonar que, dessa forma, conduz melhor a onda sonora. Nesse momento, o médico pode solicitar ao paciente que diga “trinta e três”. (Parêntesis: por que “trinta e três”? É pela vibração que provoca no tórax e para padronizar as auscultas. Em inglês e no alemão – onde foi descrito, é “ninety nine” e “neun und neunzig”, em espanhol “treinta-y-tres” ou “cuarenta-y-cuatro”. “Ointenta e oito” tem um som muito fechado. “Setenta e sete” e “cinquenta e cinco”, muito sibilantes, e ficamos no “trinta e três”. Fecha parêntesis).

Ao dizer “trinta e três”, o paciente faz com que sua voz trafegue pelas vias aéreas. Se houver algum local onde a transmissão seja acelerada por uma condensação parenquimatosa, e.g. uma pneumonia, o médico auscultará um “trinta e três” não abafado, mas bem nítido. É o que se chama pectorilóquia. Pectos-, latim, “peito”. Como em pectus excavatum (tórax de sapateiro), ou angina pectoris, “dor torácica de origem cardíaca”; -Ióquia, latim também, de falar. Donde colóquio (onde vários falam), ventríloquo (o que fala pela barriga), etc. Pectorilóquia é a “fala do peito”. E o que ela diz?

Imagem tomográfica mostrando broncogramas aéreos em uma tomografia

Imagem tomográfica mostrando broncogramas aéreos

Diz que há um local naquele pulmão onde o som chega, e para isso é necessário que um brônquio esteja aberto, e transmite-se tendo como meio um parênquima pulmonar “condensado”, ou seja, preenchido por conteúdo sólido e não pelo ar. Radiologicamente, esse som se revela num sinal chamado broncograma aéreo. O broncograma aéreo é o desenho por contraste de um brônquio com o tecido pulmonar densificado adjacente. É considerado característico de condensações e serve para diferenciar de outras doenças que causam densificações do parênquima pulmonar, em especial, das atelectasias. Nestas, os alvéolos estão murchos e não preenchidos por material inflamatório. Os brônquios, colabados. O som não chega à superfície da parede torácica com a mesma eficiência. É bem mais abafado.

A pectorilóquia é representada pelo sinal radiológico do broncograma aéreo que, por sua vez, tem como base a anatomia patológica do pulmão acometido. Um médico treinado, com uma manobra extremamente barata e eficaz (solicitar ao paciente que diga um número várias vezes) pode captar isso com a mão nas costas do doente (para sentir o frêmito) ou auscultando (diretamente com o ouvido ou mediatamente com o estetoscópio) e ter a visão radiológica e/ou da lâmina de microscopia representativa de sua doença. A pectorilóquia tem, portanto, uma representação fisiopatológica e anatomopatológica que provoca implicações no raciocínio clínico e gera consequências terapêuticas. Pensar medicamente é sentir a superfície, ver a profundidade e modificar a “história”. Pelo menos a “natural das doenças”.

Consultei

Carvalho VO, Souza GEC. O estetoscópio e os sons pulmonares: uma revisão da literatura. Rev Med (São Paulo). 2007 out.-dez.;86(4):224-31. (pdf)

DEK – Catástrofe, Cataclisma e Apocalipse: Finalmente o Fim?

Calypso por Blazing Wolf1763

Dentro da palavra apocalipse há a palavra “calipso”. Calypso é a ninfa do mar que prende Ulisses em sua ilha por 7 anos. Seu nome vem do grego kalyptein e significa “escondida”, “oculta”. Esta palavra ainda originou o nome de uma árvore, o eucalipto, que quer dizer “bem coberto”. O prefixo apo-, por sua vez, quer dizer “à partir de”, “separado”. Como em apologia (apo-, ‘à margem de’; logos, ‘palavra’, ‘discurso’), mas não simplesmente uma negação. Dá ideia de um movimento constante. Como em apóstolo formado por apo– + stellein (‘enviar’, ‘mandar adiante’). Apokalyptein, então, seria um desvelar épico de algo previamente oculto. Uma revelação. Apocalipse portanto, não é sinônimo de “fim-do-mundo”. Essa conotação parece ter ocorrido depois do Apocalipse de João onde é revelado que Jesus seria o Messias.

Cataclisma e catástrofe são palavras que também passam ideias diferentes de seus significados e igualmente muito utilizadas para descrever o fim-do-mundo. Cataclisma, do grego kata-,’para baixo’; klyzein, ‘lavar’, como sendo uma grande enxurrada, ou podendo mesmo ser um tsunami. Catástrofe com o mesmo prefixo kata-,’para baixo’ e strephein, com o signficado de virada (mesma origem de estrofe), como algo que tivesse um fim inesperado.

Sobre se o mundo vai acabar em 2012? Ah, sim. Infelizmente, não. Mas deveria, ao menos para quem acredita no poder de calendários arbitrários, em profecias cretinas e spams mal-acabados em powerpoint. Essa é a grande revelação apocalíptica no fim. A de que é uma redundância de proporções não mais maias, mas otomanas ou visigodas, científicas ou filosóficas, geológicas quem sabe, e que só perderá em medida de agigantamento à estupidez humana, essa sim, catastrófica, cataclísmica e apocalíptica dado a dificuldade que confere à humanidade em ser feliz simplesmente.

 

Blogagem coletiva Fim do Mundo

Deus Não Existe

2946162595_b6e8b16e60_o“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por meio dele” (João 1:1-3)

 

Deus não existe. Nem poderia jamais ter existido. Pelo menos do ponto de vista linguístico. Existir vem do verbo latino ex-istere e significa “sair de”, “manifestar-se” tomando um sentido de “vir a ser”. Existir, portanto, não pode ser uma característica do Deus monoteísta. Ele jamais poderia ter vindo a ser em determinado momento porque, nesse caso, não seria eterno.

Se eu digo então, que Deus é… vou compará-lo com algo que conheço e esta é uma metáfora que estará fadada à imortalidade, o que não é bom para quem quer saber das coisas. Segundo Umberto Eco (Kant e o Ornitorrinco, pág 17-54) ninguém jamais estudou semânticamente de forma satisfatória o verbo ser. Parece ter sido Pascal o primeiro a notar a dificuldade: “Não podemos nos preparar para definir o ser sem incorrer neste absurdo: porque não podemos definir uma palavra sem começarmos pelo termo é, expresso ou subentendido. Então, para definir o ser, é preciso dizer é, e assim usar o termo definido na definição”. Problema semelhante ocorre com as afirmações sobre a essência divina. Quanto mais poder é dado a Ele, menos apreensível fica. Veja a encrenca.

Talvez haja apenas uma só chance de Deus existir de fato. Isso ocorre quando Ele se manifesta, vem a ser, dentro do próprio indivíduo que Nele crê. Acho que Santo Agostinho tratou disso no Livro X das Confissões e Espinoza foi excomungado de duas religiões por pensar algo parecido com isso. Engraçado que este Deus parece não bastar para muita gente. Talvez, sua popularidade não seja muito alta porque, tal indivíduo, um portador de Deus, não pode exportá-lo. Seria preciso que Ele despertasse no outro e isso, além de não depender de uma decisão racional, cria um Deus ao qual um outro não teria acesso. De qualquer forma, não é um Deus muito “útil” porque cada um tem o Seu com todos os corolários decorrentes dessa limitação.

O caso contrário, o do Deus eterno que é, simplesmente, se torna, de fato, uma grande sacada. De cara, já causa um nó em quem tenta “pensá-Lo” ao cair no dilema de Pascal (de fato, existem outros dilemas muito mais cabeludos que esse. Veja por exemplo, o verbete “Ser” no Abbagnano). Sendo inapreensível ou “impensável” formalmente (ou pelo menos difícil de pensar, nem o Kant!), faz-se divino pela intangibilidade.

Gênio. O sujeito que escreveu “no princípio, era o Verbo” sabia exatamente o que queria não dizer.

DEK – Sobre Prostitutas e Próstatas

Este é mais um verbete do DEK. Agora a letra P. Consulte pela categoria para ver outros verbetes.

Vamos às definições do professor (de) português Carlos Rocha.

Próstata

«do latim científico prostata, que por sua vez vem do grego ροστάτης prostátēs, ou ‘colocado na frente de; donde, chefe, dirigente; protetor, defensor’, do verbo proístēmi‘ colocar na frente, pôr em relevo, pôr em evidência’; de pró– ‘diante, na frente’ + hístēmi ‘colocar’; assim chamada por situar-se antes da bexiga»

O câncer de próstata é o tipo de câncer mais comum entre homens chegando a atingir 20% do sexo frágil, a depender da idade. Um professor de urologia com quem tive aula disse que se chegássemos todos aos 100 anos de idade, a incidência do câncer de próstata beiraria os 100%. Não sei se essa afirmação é verdadeira, mas sei que a prevenção é o melhor remédio. Por falar nisso, ela mesma – a prevenção do câncer de próstata – está envolvida em uma enorme polêmica desde que a força-tarefa do departamento de medicina preventiva americano publicou diretrizes contra a coleta indiscriminada do antígeno prostático específico (PSA na sigla em inglês), que é o marcador desse tipo de câncer. Estudos têm mostrado sistematicamente que a detecção precoce do tumor não leva a melhor sobrevida e, pior, deteriora muito a qualidade de vida do paciente. A discussão tem sido acalorada e eu mesmo já escrevi alguma coisa sobre o assunto. Mas voltemos ao prof. Carlos Rocha.

Prostituta

«latim prostitŭo,is,ī,ūtum,ĕre ‘colocar diante, expor, apresentar à vista; pôr à venda; mercadejar com a sua eloqüência; prostituir, divulgar, publicar’, de pro– ‘na frente, diante de’ + statuĕre ‘pôr, colocar, estabelecer; expor aos olhos’, de stātus,us ‘repouso, imobilidade; atitude, postura (de um combatente); assento, situação; estado das coisas, modo de ser’, do radical de stātum, supino de stāre ‘estar’».

“Em Histórias de Palavras — do Indo-Europeu ao Português (Lisboa, A. Santos), de Ernesto d´Andrade, indica-se que ambas as palavras têm em comum os seguintes radicais:

a) *per, que é base das preposições e prefixos pro– em grego e pro– em latim;
b) *stā, «estar em pé, do qual são cognatos o grego hístēmi e o latim statuĕre.”

Pois é. Os termos (apesar de não terem absolutamente nada a ver com Alain Prost) são assemelhados e compartilham a mesma raiz. “Estar na frente” e “expor-se” transmitem ideias relacionadas. Em que pese o fato de ter sido reconhecido um orgão análogo à próstata nas mulheres, ela ainda é exclusividade do universo masculino. Universo este que as prostitutas têm uma capacidade intrínseca de captar. Aproveito uma interessante reportagem para destilar uma ideia. Sempre defendi que a sabedoria das prostitutas deveria ser melhor aproveitada por pessoas que não necessitem (ou optem por) usar o corpo para sobreviver. Uma prostituta aprende muito rápido sobre o mundo masculino. E usa isso a seu favor. Imagine você, leitor ou leitora, que precise, de qualquer forma, agradar alguém, seja do ponto de vista sexual, profissional (por exemplo, vendedores) ou simplesmente social. Se for muito incisivo, a pessoa poderá assustar. Se muito tímido, a outra pode não gostar. É preciso uma leitura muito rápida do que a pessoa quer e, muitas das vezes, nem sabe que quer. Dá uma certa insegurança, não? Como se comportar? É preciso uma sapiência, uma mistura de conhecimento, vivência, experiência, ou mesmo um tino atávico para ser, ali naquele momento específico, o que a outra pessoa gostaria que você fosse, sem que ela saiba que você sabe. Complicado.

“Exibir-se”, “estar a frente” são sinais de força e ao mesmo tempo vulnerabilidade. E poderia surgir então uma estética de onde ninguém jamais ousaria pensar que ela pudesse surgir. A estética da intuição entre a palavra e a coisa. Mas isso, está no olhar de quem vê e não nas “coisas” que se postam a sua frente.

DEK – J e a Polêmica do Vestuário Médico

ResearchBlogging.orgRecentemente, vem ganhando corpo uma campanha interna do ScienceBlogs Brasil contra o uso indevido do vestuário médico em locais inapropriados como lanchonetes, restaurantes e até metrôs e ônibus. A campanha é mais que justa. Jalecos, aventais, guarda-pós, estetoscópios e outros apetrechos utilizados pelos médicos não são de fato, para ficar perambulando por aí, tendo em vista o enorme problema das infecções cruzadas e o surgimento de germes multirresistentes.

Entretanto, há um tom iconoclasta na campanha que me incomoda. Eu fiquei pensando muito no porquê ficar incomodado com um assunto pelo qual luto diuturnamente e que tem um embasamento científico bastante razoável como pode ser visto aqui (em inglês). Digo razoável, porque o papel desses veículos (dizemos fômites) na transmissão de doenças ainda está para ser estabelecido. Estar contaminado, por mais nojento, incorreto e reprovável, que possa ser, não quer dizer estar  ou deixar doente, apesar de tornar mais provável.

Este é o Dicionário Etimológico do Karl e esta é a letra J, e vou usar este espaço para psicoanalisar um pouco do meu comportamento médico. Afinal, esse é um dos fins deste blog.

J (jota) de jaleco s.m., segundo o Houaiss, (1605) ‘jaleco, jaqueta turca cujas mangas chegavam só aos cotovelos’ (tur. yelék, pelo ár. argelino djalíka ‘casaco de cativo’; segundo Corominas, s.v. chaleco, Haedo descreve o jaleco da seguinte forma: ‘um gibão de pano, de mangas curtas, até o cotovelo, que os turcos argelinos usavam, debaixo do cafetã’; trata-se de um dos vários nomes de trajes transmitidos ao esp. e ao it. pela língua franca dos portos africanos; f.hist. 1725 jalecu, 1725 galleco, 1727 jaleco. Chamavam os portugueses “galegos” de jalecos também. Há um tamanduá de nome jaleco. Para nós, jaleco é uma capa curta de mangas também curtas que pode ser usada sobre a camisa, como na foto acima. É utilizada por dentistas, farmacêuticos, churrasqueiros e balconistas em geral, entre outros tantos. Eu já usei jaleco. Parei porque achava o jaleco meio churrasqueiro demais. Gosto mais de usar o (ainda segundo o Houaiss):

Avental: peça de pano, plástico ou couro, presa pelo pescoço e pela cintura, usada para proteger a roupa em certos tipos de trabalho. Etimologia: avante + -al, com alteração do -a- pré-tônico para -e-; f.hist. sXIV auantal, sXIV uantal. (Atualização: eu acho que o nome mais correto para esse tipo de vestimenta é guarda-pó ou simplesmente, capa, como no inglês)

Avental e gravata constituem um “uniforme médico” de respeito não só porque a imagem do médico veiculada em muitos filmes é essa, mas também porque nas faculdades de medicina, em geral, formam a vestimenta padrão dos professores. A gravata já foi alvo de várias críticas [1] e muitos já a abandonaram. Mas isso não nos exime da pergunta: Mas então, o que é que um médico deve trajar?

Tive uma experiência interessante com a série “Sala de Espera I e II” e recomendo a leitura dos comentários porque são bastante esclarecedores quanto às expectativas dos pacientes quanto a aparência dos médicos(as). Cito abaixo as respostas de 3 sciencebloggers à pergunta, como seria a aparência de um médico importante para você?

Para mim, estereótipo de médico mesmo. Meia-idade, cabelo meio grisalho, sem brincos ou tatuagens. Este primeiro resultado do Google Images é bem o que imagino mesmo” Kentaro Mori do 100nexos.

Irei contra todos os comentários acima e direi que meu ideal de médico é um sujeito novo, recém-saído da universidade, doido para colocar em prática anos de estudo e assumir, enfim, a responsabilidade por isso, sem alguém olhando por cima do seu ombro. Um médico jovem, empolgado, atualizado, que lê muito e sabe a importância de uma batidinha no abdome e uma puxada de pálpebra. Quanto mais estetoscópio no pescoço e esfigmomanômetro no bolso melhor. Na minha cabeça, quanto mais velho o médico, mais antiquados os seus métodos, chegando numa zona dos formados entre dez e vinte anos atrás para os quais “pedir exame” é sinônimo de “examinar”.” Igor Santos do 42. (grifo + sublinhado, meus)

Fico com o cientista, principalmente pelo jaleco branco.” Atila do Rainha Vermelha.

Scientist Cartoon 0779

Isso já foi até tema de um estudo [2] cuja conclusão foi que, “em contraste com os médicos que veem os aventais brancos como risco de infecção, muitos pacientes, e especialmente aqueles com mais de 70 anos, acham que os médicos devem vestir aventais brancos para sua identificação ficar mais fácil.” Com isso, quero chamar a atenção para o fato de que a vestimenta do médico é algo que está além do simples fato da proteção, higiene e etc. Há sim, uma identificação visual, uma comparação cognitiva com uma imagem pré-concebida proveniente das experiências particulares que cada pessoa teve em contato com a doença e com a possibilidade de ser assistida por alguém no qual depositaram sua confiança. Repito aqui o que já escrevi e que acho que se adequa perfeitamente ao tema:

“Acho mesmo que essa imagem pré-concebida do médico varia muito, não
só com a especialidade, mas também com o local onde o médico trabalha,
que tipo de público atende e assim por diante. Tudo isso para dizer que o médico é INDISSOCIÁVEL da população que
atende. Isso pode soar óbvio a essa altura da discussão mas, acredite,
muitos médicos não pensam assim. Além disso, a instituição que abriga o
médico, seja um hospital público ou particular, seja seu próprio
consultório (e no caso a instituição é ele mesmo) faz diferença, não só
na aparência que o médico busca, como também na sua forma de atuar. Isso
é bastante polêmico, eu sei, mas alguns anos de experiência me
mostraram o problema de forma bastante clara. Não reconhecer essa
diferença, que os advogados já reconheceram há alguns milênios, é abrir
mão da oportunidade de minimizar seus efeitos.

A ciência médica é uma só, a medicina não. Isso decorre do fato de
ela ser uma forma, talvez a mais perversa, de aplicação científica
prática! A prática, como já abordei em diversos posts, tem a tensão
irredutível da decisão que envolve o conhecimento tecno-científico e a
experiência prévia. Essa tensão deixa o médico inseguro. Sempre. A
aparência do médico é um modo de “vender o peixe”. Quanto mais adequada a
aparência for à imagem que o paciente faz do médico, mais fácil
conseguir sua confiança, aderência ao tratamento e, consequentemente,
bons resultados. Isso tem a ver com o mercado? Sim. Mas tem muito mais a
ver com o fato de que o médico precisa penetrar em algo bem mais
profundo que o mero organismo de seu paciente.”

Isso não exclui o médico do conceito de adequação. Ser atendido por uma médica atraente com minissaia e decote matador inspira muitos sentimentos, menos os de acolhimento, segurança e confiança profissional. Sentar em uma lanchonete com médicos comendo de avental e esteto no pescoço é desagradável também. A adequação do traje ao local é uma forma de educação e esta, por sua vez, visa o bem-estar de todos.

[1] McGovern, B., Doyle, E., Fenelon, L., & FitzGerald, S. (2010). The necktie as a potential vector of infection: are doctors happy to do without? Journal of Hospital Infection, 75 (2), 138-139 DOI: 10.1016/j.jhin.2009.12.008

[2] Douse, J. (2004). Should doctors wear white coats? Postgraduate Medical Journal, 80 (943), 284-286 DOI: 10.1136/pgmj.2003.017483

DEK – G e o Feminino

Ginecologia. A especialidade médica que cuida de problemas relacionados ao corpo feminino. Vem do grego arcaico gynē, γυνή (que também derivou a moderna palavra grega para mulher gynaika, γυναίκα) significando mulher + logia significando estudo, literalmente portanto, estudo das mulheres. Não sou mulherologista mas reconheço que o assunto é muito interessante. Seja bem-vindo ao DEK, esta é a letra G.

Parece haver mesmo uma origem indo-europeia comum para essas palavras. A raiz gwen-, é a fonte da palavra inglesa queen (do inglês arcaico cwēn significando mulher, nobre ou não) e que também pode ser visto em dinamarquês moderno (kvinde), em sueco (kvinna) e em persa (zan). A palavra mulher entretanto, não pertence a essa estirpe. Origina-se do latim mulier, que por sua vez, vem de molleris (fraco, sem músculo). Essa raiz originou também “molusco”, “mole”, contrapondo pejorativamente o espírito feminino ao do guerreiro. Há outros autores que associam o termo mulher com o latim moler que originou moinho, moleiro aludindo às tarefas domésticas. O fato é que em latim ainda, a palavra femina demonstra uma outra maneira de ver a mulher na sociedade. Em francês femme, em italiano donna (moglie é esposa), mulher acabou predominando entre os latinos apenas na Ibéria. Cabe-nos transcender a origem da palavra.

Quem faz residência médica em Ginecologia, também faz em Obstetrícia e vira um GO, apelido da especialidade. Obstetrícia vem de obstetrix que quer dizer parteira. Provém do verbo latino obstare que quer dizer contrapor. Literalmente, aquela que se contrapõe à saída do feto (no sentido de apará-lo e ampará-lo). Por falar nisso, obstetras cuidam de grávidas, que é um atributo exclusivamente feminino e também começa com G. Gravidez, transmite mesmo a ideia de peso. Vem do latim, gravidus,a,um (carregado, cheio, pesado). Em medicinês falamos gestação e gestante. Do latim, gestare (gerar).

Não poderia, por fim, de deixar de falar do tal ponto G. Há ainda muita controvérsia sobre a existência ou não de uma zona retropúbica na parede superior da vagina cuja estimulação geraria extremo prazer, orgasmos múltiplos e até ejaculação feminina. Os sexólogos insistem em ensinar as mulheres a localização e a utilidade do ponto G enquanto ginecologistas e pesquisadores insistem que a região pode não existir de fato e que os sexólogos se apoiam em estudos anedóticos. Em recente pesquisa no PubMed com o termo “G-spot” no título consegui 30 artigos sendo os 3 primeiros de 2010 (nenhum em inglês). Os títulos são os seguintes:

Buisson. [The G-spot and lack of female sexual medicine]. Gynecol Obstet Fertil (2010) vol. 38 (12) pp. 781-4
Magnin. [Does the G spot exist?]. Gynecol Obstet Fertil (2010) vol. 38 (12) pp. 778-80
Pastor. [G spot–myths and reality]. Ceska Gynekol (2010) vol. 75 (3) pp. 211-7

Todos discutindo ainda a controvérsia do ponto G. Para uma boa discussão sobre o assunto ver aqui (em inglês).

Para mais sobre o DEK, ver aqui.
Foto de Nicole com o nenê daqui.

DEK – F: A Relação Entre a Mente e o Diafragma

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Frênico. phren(o)- φρ-ήν/-ενός gr. ‘mente’, (diafragma), segundo o Diccionario médico-biologico, de quem tomei muitas das explicações abaixo. Há o nervo frênico que é quem veicula os estímulos ao diafragma. Há o esquizofrênico que não tem nada a ver com isso (nem com nada). Qual seria a relação entre um e outro? Esse é o “F”. Bem-vindo ao dicionário etimológico do Karl. Outras letras/verbetes aqui.

Existe certa discussão sobre o significado anatômico do termo phrḗn φρήν. Entretanto, tanto Hipócrates como Aristóteles o utilizavam com o significado de diafragma διάφραγμα, a tenda muscular que separa o tórax do abdome, e quase sempre no plural phrénes φρένες. Como que, vindo dessa origem, o termo passa também a designar a mente?

É um caso de metonímia. Por exemplo, é frequente utilizarmos “coração” ao invés de “amor” ou “compaixão”. Para os gregos, o diafragma era a sede do medo e da angústia. Talvez, traduzindo o já conhecido “frio na barriga” que todos sentem e que é muito difícil de definir. Daí, passamos aos sentimentos e finalmente, à mente. (Em grego, existem duas palavras para mente que originaram termos utilizados hoje. O primeiro freno– e, quando usado em sufixo, –frenia, como vimos. A outra é noûs νοῦς que forma palavras acabadas em –noia, como em “paranoia”). Parece que os médicos gregos usavam phrḗn ou phrénes com o sentido de diafragma mesmo e os escritores, em especial Homero, com o sentido de mente. O autor de Sobre a Enfermidade Sagrada (a epilepsia) – que pode ser o próprio Hipócrates, ou não – escreve:

«Afirmo que o cérebro é quem articula a intelecção. As phrénes (o diafragma) têm essa denominação (ou seja, um termo associado ao pensamento) por azar ou convenção mas não pelo que é sua natureza, porque não sei que faculdade têm para pensar (phronéein φρονέειν) ou refletir (noéein νοέειν).» (De morbo sacro 16).

Termos como phronésis e frenesi provém dessa linha grega de pensamento.

A terminologia médica atual deriva dos anatomistas renascentistas que eram bons leitores de Hipócrates e Galeno. Quando foram denominar os vasos e nervos relacionados ao diafragma utilizaram o adjetivo “frênico” (phrenicus em latim), como derivado de phrḗn “diafragma”, na melhor tradição hipocrática. Por outro lado, desde Erasístrato se interpretou que phrenītis ou frenitis era uma doença do cérebro que afetava as capacidades intelectuais e não uma simples pneumonia. Essa linha, predominou nas enfermidades psiquiátricas, em especial na escola francesa, e gerou termos como phrénopathie (frenopatia) como termo genérico das enfermidades mentais em 1833; paraphrénie, hebefrenia (criada por K.L. Kahlbaum e E. Hecker em 1871), oligofrenia (1899), esquizofrenia (1910) por Eugen Bleuler. Gerou também a frenologia. “Ciência” que muito influenciou o pensamento fisiológico segundo a qual cada função cognitiva tem sua sede anatômica no cérebro. Temo dizer que há um “viés frenológico” não desprezível em alguns neurocientistas; ainda hoje.

1. Oxford Textbook of Psychopathology de T. Millon, P.H. Blaney y R.D. Davis, 1999.
2. Dicciomed.es. Diccionario médico-biológico, histórico y etimológico. (Sensacional dica da Tati Nahas).

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