Inception

РTOLOS! Рgritou o velho Рvocês são crianças idiotas.
Perplexos, eles entreolharam-se em meio à roda que se formara com as carteiras. O tempo parecia ter parado e a atmosfera podia ser fatiada à faca.
– Qual a raz√£o de algu√©m querer tornar-se cientista? Hein? Me digam. Voc√™s se acham superiores √†s pessoas comuns? Voc√™s acham que seus c√©rebros treinados em pensamento formal, l√≥gica, rela√ß√Ķes de causa e efeito e o cacete √© melhor para entender as coisas do mundo da vida do que o de um c√£o vagabundo que sobrevive √†s custas de seu pr√≥prio instinto? Pois lhes digo. Conhecimento √© instinto! N√£o √© poss√≠vel conhecer sem sentir. Conhecer √©
sentir. Saber √© sentir…
Parou de falar subitamente, olhou para baixo e rodopiou sobre seu sil√™ncio no c√≠rculo de carteiras. O barulho de um grafite se fez ouvir e o velho pareceu ter levantado as orelhas como um animal a pressentir uma presa, caminhou lenta e pesadamente e reiniciou, dirigindo sua f√ļria para a menina que anotava seu desabafo. Desta vez, falava baixo, com um leve sorriso de esc√°rnio.
– Eu tenho asco da figura mon√°stica do cientista em sua busca asc√©tica pela Verdade – e continuou, virando-se para o teto – Ah, o mongezinho em sua sala fria, cheia de vidrinhos e livros, estudando, estudando, esperando a ben√ß√£o da Verdade. P√ĀRA! – o grito ecoou pela sala. A menina soltou o pequeno bast√£o – que fez um ponto no caderno e caiu no ch√£o -, vidrada. Os olhos do velho fa√≠scavam. Sua fisionomia quase sempre cansada e com ar enfastiado parecia ter perdido o peso dos anos e ganhado vigor e excita√ß√£o. Os cabelos poucos e brancos em desalinho emolduravam um rosto vincado de rugas, mas que transmitia for√ßa. Que for√ßa tinha o velho!
РEsse foi um dos Grandes Erros. Você existe porque
sente que existe, nada além disso. E sentir é muita coisa. Sentir é a coisa. Sentir que sabemos é o mais potente dos afetos.

***
Mar√≠lia dobrou quase que amassando as p√°ginas copiadas e soprou a franja da testa. Por que deram um texto desse para ler no curso de hist√≥ria da m√ļsica? Jogou os pap√©is em cima do piano e tomou o violoncelo (Incidental. Aparece a frase: “sentir √© a coisa” na p√°gina no piano). A sala estava parcialmente escura e a janela permitia que uma claridade di√°fana lhe contornasse a figura (aproximando). O instrumento entre as pernas, a saia puxada at√© as coxas (foco), a cabe√ßa levemente pendida para esquerda, os cabelos longos jogados para frente. O p√© esquerdo na ponta fazia o joelho abra√ßar a cintura do violoncelo, delicadamente. Ela “desceu” uma escala maior s√≥ para aquecer os dedos finos (close). Logo surgiram as primeiras notas, roucas e quentes, do Preludio-Fantasia de Cassad√≥ (corta). D√©lio entrava com o professor de viol√£o e estacou na porta do est√ļdio com o bra√ßo esquerdo na barriga do amigo, a m√£o direita na boca em sinal de sil√™ncio. (Shhhhh)

***

– Cara! Esse gibi √© foda! Eu n√£o t√ī entendendo porra nenhuma! Voc√™ falou quer era m√≥ bom! – disse isso e jogou a revista no colo do amigo.
РCalma, meu! Esse é o primeiro. Espera pra ler o resto!
– Eu ainda gosto mais do Sandeman. Sei l√°, o desenho. Menos texto, mais a√ß√£o…
– O desenhista √© alem√£o. O roteirista um hindu que mora na Nova Zel√Ęndia. Voc√™ queria o que?
РPelo menos a mina é gostosa, hehe.
 

***

Arnaldo fechou o notebook sem desligar. Twitosfera. Blogosfera. Redes Sociais. Esses nomes, pessoas e lugares lhe deram, pela primeira vez, uma estranha sensa√ß√£o. Uma sensa√ß√£o de dissolu√ß√£o e irrealidade. “Esses lugares n√£o existem e eu estou s√≥” – pensou. Sentiu um tipo de n√°usea entranhando-se. Uma n√°usea metaf√≠sica, quase um suic√≠dio. “√Č. O corpo manda.” – resmungou. Tomou um sal de frutas, um rem√©dio para dormir (com o divino efeito colateral de provocar amn√©sia anter√≥grada) e foi, sem a certeza de que tinha mesmo ido.

O Check-up, “Procuradores” e “Achadores”

Muitos pacientes v√£o ao consult√≥rio e dizem “Dr. gostaria de fazer um check-up!”. Em geral, dizem isso acompanhado de um “j√° tenho 30 e tantos anos e nunca fui a um m√©dico, preciso me cuidar, n√©?”, esperando aprova√ß√£o e refor√ßo positivo. Vou avisando, “sou contra check-up”. Em especial, nos moldes como ele foi introduzido numa pr√°tica de cuidado de si, no in√≠cio da d√©cada de 70. Me explico.

Entenda-se aqui por check-up o procedimento no qual um cidad√£o ou uma cidad√£ submetem-se aos mais variados exames e consultas com especialistas em, digamos, uma tarde. A coisa varia de lugar para lugar, mas em geral, consiste em endoscopia, colonoscopia, otoscopia, teste ergom√©trico, ultrassom de abdome, ecocardiograma, radiografia de t√≥rax, toque retal, exame oftalmol√≥gico e os mais variados exames laboratoriais incluindo marcadores tumorais, perfil hormonal e, mais alguma coisa que, com certeza, esqueci. O detalhe que faz toda a diferen√ßa √© que, apesar de serem checadas poss√≠veis queixas dos avaliados, N√ÉO √Č POR ESSA RAZ√ÉO QUE ELES EST√ÉO L√Ā!

checkupAs raz√Ķes que levam essas criaturas a um centro de check-up, na grande maioria das vezes, s√£o corporativas. Estimativas feitas por uma revista semanal de grande circula√ß√£o em 2003 com os 3 maiores centros de check-up de S√£o Paulo (ver quadro ao lado, clique para ver a origem) mostram que 80% deles s√£o financiados por empresas. Em que pese o interesse individual das pessoas em cuidar da pr√≥pria sa√ļde, h√° outros interesses sobre o bem-estar de um executivo e esse tipo de pr√°tica acaba caindo no que Foucault chamou de biopoder que tem no corpo o palco de uma pol√≠tica onde exerce sua for√ßa.

O check-up se insere em um tipo espec√≠fico de procedimento m√©dico chamado de rastreamento (rastreio, em Portugal, screening, em ingl√™s) que √© o fato de algu√©m que n√£o tem queixa nenhuma (repare que n√£o digo que n√£o tem doen√ßa nenhuma) submeter-se a procedimentos m√©dicos com o intuito de diagnosticar algum mal oculto. Baseia-se no fato de que existem doen√ßas silentes, que n√£o provocam sintomas quaisquer, mas que, mesmo assim, podem causar dano futuro. Se pudermos diagnostic√°-las precocemente poderemos evitar muitas complica√ß√Ķes e at√© evitar a morte.

As cr√≠ticas feitas ao check-up podem ser divididas em dois grande grupos. O primeiro grupo diz respeito a um tipo de “subvers√£o da ordem m√©dica cl√°ssica”. A medicina, desde os seus prim√≥rdios, foi constru√≠da como uma rela√ß√£o entre dois seres humanos e se inicia com as queixas de um deles ao outro. Na aus√™ncia desse passo fundamental, o que se segue pode ser classificado como tecnologia m√©dica ou picaretagem, mas n√£o propriamente como medicina. Nesse caso, n√£o h√° o encontro do paciente com o profissional da sa√ļde. H√° exames frios que produzem n√ļmeros frios. √Č uma rela√ß√£o centrada nos exames. Hoje, a possibilidade de investiga√ß√£o laboratorial √© gigantesca. Acho engra√ßado quando um paciente diz “doutor, fiz TODOS os exames e ningu√©m achou nada”. N√£o digo imposs√≠vel, mas √© economicamente invi√°vel e biologicamente muito agressivo, algu√©m fazer todos os exames poss√≠veis na medicina hoje. √Č poss√≠vel “virarmos algu√©m do avesso”, diz um m√©dico amigo. O que fazer com todos os dados gerados em um check-up √© algo que nem sempre √© muito bem estabelecido.

Outro grupo de cr√≠ticas remete ao processo heur√≠stico do investigar. Isso √© bem exemplificado pela diferen√ßa entre o “procurador” e o “achador”. Um procurador tem uma meta que deve ser encontrada, um objetivo. Um achador, acha, encontra coisas que nem sempre sabe se t√™m valor ou n√£o. O check-up √© um processo “achador”. Uma consulta m√©dica, “procurador”. O check-up √© centrado no exame. A consulta, centrada no m√©dico. H√° vantagens e desvantagens em ambos. Em determinados momentos, na consulta, preciso me vestir de “achador” por total falta de op√ß√Ķes. Em centros de check-up bem organizados, os m√©dicos conversam com os clientes e tentam dirigir mais os exames.

Al√©m disso, exames de rastreamento tamb√©m t√™m efeitos colaterais! Muita gente pensa sobre isso como pensa em medica√ß√£o homeop√°tica: “mal n√£o faz!” Faz mal, sim; e muito. Erros comuns: 1) “Meu conv√™nio paga”. Errado! Quem paga √© sempre voc√™ (ou sua empresa). Quando seu conv√™nio subir a mensalidade por sinistralidade, voc√™ n√£o vai ficar feliz; 2) “Fazer exames preventivos √© sempre bom”. Desde que esses exames sejam interpretados de forma correta. Interpretar um exame n√£o √© olhar o intervalo normal e dizer “est√° dentro” ou “est√° fora”. Interpretar um exame √© saber, primeiro, se ele √© v√°lido ou n√£o. Para um m√©dico um exame √© v√°lido quando corrobora (ou ajuda a descartar) uma hip√≥tese diagn√≥stica. Mas, os clientes do check-up s√£o a null hypothesis, pois os m√©dicos n√£o t√™m nenhuma “teoria” a respeito deles, j√° que eles n√£o t√™m, em geral, nenhuma queixa. Al√©m disso, o m√©dico tem que valorizar ou n√£o determinados exames; tentar detectar se aquela altera√ß√£o √© um simples achado sem significado cl√≠nico ou se temos que ir atr√°s daquilo com exames mais espec√≠ficos. Dentre as v√°rias formas de se fazer isso, uma √© a que encaixa os pacientes em determinados grupos de risco. Encaixar um paciente em um grupo de risco significa que determinado exame, caso resulte positivo, tem um valor maior neste paciente espec√≠fico que em outros, que n√£o fazem parte desse grupo de risco. Dizemos que o valor preditivo (no caso, o positivo) do exame √© grande e isso ajuda a discriminar os pacientes. Para encaix√°-los em determinado grupo de risco, eu preciso conversar muito com o paciente. Preciso saber de sua fam√≠lia, de seus h√°bitos, de seus antecedentes todos. Um exame n√£o ajuda outro exame, eles s√£o vari√°veis independentes. Precisamos “calibrar” a pontaria de um exame estimando a probabilidade pr√©-teste. S√≥ depois disso, posso valorizar ou n√£o, descartar ou n√£o, determinado exame.

Com todas essas cr√≠ticas, fui questionado pelo meu irm√£o que trabalha no mundo corporativo.: “Ent√£o t√°, se o check-up n√£o √© a melhor maneira de estimar esse risco, o que √© que voc√™ sugere colocar em seu lugar?” Uma pol√≠tica centrada em um m√©dico da empresa, que conhe√ßa seus funcion√°rios na sa√ļde e n√£o na doen√ßa. Um tipo de m√©dico de fam√≠lia corporativo que possa dosar a pol√≠tica do “achador” e do “procurador” e tirar o melhor de cada uma delas. Vai economizar verba, sangue, enche√ß√£o, tubos, bi√≥psias e procedimentos invasivos desnecess√°rios.

 

DEK – G e o Feminino

Ginecologia. A especialidade m√©dica que cuida de problemas relacionados ao corpo feminino. Vem do grego arcaico gynńď, ő≥ŌÖőĹőģ (que tamb√©m derivou a moderna palavra grega para mulher gynaika, ő≥ŌÖőĹőĪőĮőļőĪ) significando mulher + logia significando estudo, literalmente portanto, estudo das mulheres. N√£o sou mulherologista mas reconhe√ßo que o assunto √© muito interessante. Seja bem-vindo ao DEK, esta √© a letra G.

Parece haver mesmo uma origem indo-europeia comum para essas palavras. A raiz gwen-, √© a fonte da palavra inglesa queen (do ingl√™s arcaico cwńďn significando mulher, nobre ou n√£o) e que tamb√©m pode ser visto em dinamarqu√™s moderno (kvinde), em sueco (kvinna) e em persa (zan). A palavra mulher entretanto, n√£o pertence a essa estirpe. Origina-se do latim mulier, que por sua vez, vem de molleris (fraco, sem m√ļsculo). Essa raiz originou tamb√©m “molusco”, “mole”, contrapondo pejorativamente o esp√≠rito feminino ao do guerreiro. H√° outros autores que associam o termo mulher com o latim moler que originou moinho, moleiro aludindo √†s tarefas dom√©sticas. O fato √© que em latim ainda, a palavra femina demonstra uma outra maneira de ver a mulher na sociedade. Em franc√™s femme, em italiano donna (moglie √© esposa), mulher acabou predominando entre os latinos apenas na Ib√©ria. Cabe-nos transcender a origem da palavra.

Quem faz resid√™ncia m√©dica em Ginecologia, tamb√©m faz em Obstetr√≠cia e vira um GO, apelido da especialidade. Obstetr√≠cia vem de obstetrix que quer dizer parteira. Prov√©m do verbo latino obstare que quer dizer contrapor. Literalmente, aquela que se contrap√Ķe √† sa√≠da do feto (no sentido de apar√°-lo e ampar√°-lo). Por falar nisso, obstetras cuidam de gr√°vidas, que √© um atributo exclusivamente feminino e tamb√©m come√ßa com G. Gravidez, transmite mesmo a ideia de peso. Vem do latim, gravidus,a,um (carregado, cheio, pesado). Em medicin√™s falamos gesta√ß√£o e gestante. Do latim, gestare (gerar).

N√£o poderia, por fim, de deixar de falar do tal ponto G. H√° ainda muita controv√©rsia sobre a exist√™ncia ou n√£o de uma zona retrop√ļbica na parede superior da vagina cuja estimula√ß√£o geraria extremo prazer, orgasmos m√ļltiplos e at√© ejacula√ß√£o feminina. Os sex√≥logos insistem em ensinar as mulheres a localiza√ß√£o e a utilidade do ponto G enquanto ginecologistas e pesquisadores insistem que a regi√£o pode n√£o existir de fato e que os sex√≥logos se apoiam em estudos aned√≥ticos. Em recente pesquisa no PubMed com o termo “G-spot” no t√≠tulo consegui 30 artigos sendo os 3 primeiros de 2010 (nenhum em ingl√™s). Os t√≠tulos s√£o os seguintes:

Buisson. [The G-spot and lack of female sexual medicine]. Gynecol Obstet Fertil (2010) vol. 38 (12) pp. 781-4
Magnin. [Does the G spot exist?]. Gynecol Obstet Fertil (2010) vol. 38 (12) pp. 778-80
Pastor. [G spot–myths and reality]. Ceska Gynekol (2010) vol. 75 (3) pp. 211-7

Todos discutindo ainda a controvérsia do ponto G. Para uma boa discussão sobre o assunto ver aqui (em inglês).

Para mais sobre o DEK, ver aqui.
Foto de Nicole com o nenê daqui.

Perguntona N√£o-Governamental

Acho que a pol√≠tica indigenista de algumas Organiza√ß√Ķes N√£o-Governamentais sofre uma crise de filosofia de trabalho, ou eu n√£o consigo entender bulhufas. Fico ouvindo entrevistas e percebo que s√£o utilizadas formas diferentes de considerar o √≠ndio, de acordo com a conveni√™ncia do discurso. Por favor, se algu√©m conseguir resolver essa aporia, me explique. Se n√£o, vejamos:

Muitas das pol√≠ticas que buscam ajudar popula√ß√Ķes ind√≠genas √† beira da extin√ß√£o baseiam-se no fato de que tais popula√ß√Ķes devem ser vistas de forma diferenciada. Por terem outra matriz cultural – que, por si, j√° √© (ou deveria ser) considerada um patrim√īnio -, outra forma de se relacionar com o meio ambiente, outra religi√£o, etc, t√™m, portanto, que ser consideradas de forma diferente. Isso, ao fim e ao cabo, embasa as pol√≠ticas que consideram o √≠ndio inimput√°vel perante a lei (“dos brancos”), e tamb√©m, fortalece a ideia de que o √≠ndio √© um cidad√£o brasileiro menor.

Por outro lado, a despreconceitualiza√ß√£o do √≠ndio passa pelo fato de reconhec√™-lo como um par, um “do mesmo n√≠vel”, nas palavras de um indigenista, “mais um diferente dentro de um grupo de iguais”. √Č isso que as ONGs chamam de valoriza√ß√£o da diversidade. Mas, “quando vemos um √≠ndio de shorts ou usando um telefone celular, torcemos o nariz e dizemos, olha a√≠, ‘isso’ n√£o √© mais √≠ndio!” – como disse um rep√≥rter referindo-se √† forma como o homem comum se refere a grupos ind√≠genas.

Mas, a pergunta ent√£o √© como posso considerar algu√©m igual e diferente ao mesmo tempo? Se as ONGs trabalham com as duas matrizes conceituais concomitantemente, seu discurso soar√° t√£o verdadeiro como uma nota de 3 reais; como algo que cont√©m uma pegadinha oculta e n√£o sensibilizar√° os que est√£o, por exemplo, brigando por terras. Discursos antropol√≥gicos como o de que “culturas milenares desaparecer√£o” ou “l√≠nguas raras ser√£o varridas do mapa” t√™m colocado o √≠ndio em rota de colis√£o com o desenvolvimento do Brasil, com todas as consequ√™ncias que isso possa ocasionar.

“Aculturar ou conservar como √©?” Essa √© a pergunta que tem como base conceitual o fato de considerarmos o √≠ndio um igual ou diferente, respectivamente, em rela√ß√£o a n√≥s. Eu n√£o sei responder. Voc√™ sabe? Desculpa o pitaco onde n√£o fui chamado.

Ein Wunder

“Karl, gostaria que voc√™ acompanhasse a parte cl√≠nica dela. Precisamos tirar a medica√ß√£o para abaixar a press√£o”.

Lothar é zelador de uma escola primária em uma pequena cidade próxima a Frankfurt. Birgitt trabalha em um banco na mesma cidade. Duas vezes por semana. Coisas da Alemanha. O filho faz parte das Forças Armadas alemãs e foi convocado para ir ao Afeganistão. A filha é enfermeira e professora de enfermagem, veja só. O casal, na faixa dos 50, resolveu fazer uma viagem pela América do Sul. Chile, Peru, Argentina e, claro, Brasil.

“Ok. Podemos tentar. Mas, como vou conversar com ele e, em especial, com ela?”Ela est√° em coma.”

No aeroporto de Guarulhos, Birgitt sentiu-se mal. Procurou um toalete e chegando l√°, perdeu os sentidos. Foi um corre-corre danado no banheiro. Lothar sem falar ingl√™s, espanhol ou outra l√≠ngua que n√£o o alem√£o, conseguiu entender que Birgitt seria levada a um hospital p√ļblico em Guarulhos. L√°, ela recebeu os cuidados iniciais e o tenebroso diagn√≥stico: hemorragia subaracn√≥ide aguda. Um par√™ntesis r√°pido, esse √© um dos diagn√≥sticos mais temidos que existem em uma unidade de terapia intensiva, pelo menos para mim. Acomete, quase sempre, pessoas jovens, em idade produtiva e tem, em geral, consequ√™ncias devastadoras. Era o caso de Birgitt. Ap√≥s uma negocia√ß√£o complicada com o consulado alem√£o, burocracias relacionadas ao seguro sa√ļde e dificuldades t√©cnicas em geral, Birgitt  foi transferida para o nosso hospital.

“Voc√™ j√° sabe de toda a hist√≥ria? N√£o?! Putz, parece mesmo um conto de Natal! √Č o seguinte…”

Os exames indicavam que Birgitt tinha um aneurisma na artéria cerebral média. Esse aneurisma, uma dilatação da artéria, apresentara uma pequena ruptura suficiente para derramar sangue entre o cérebro e as meninges. Além da dor, a inflamação provoca um tipo de inchaço no cérebro que é responsável pelo coma. O aneurisma precisava ter sua base fechada cirurgicamente pois corre-se o risco de um novo sangramento, o que em geral é fatal. Além disso, a presença de sangue nesse espaço faz com que haja uma vasoconstrição de outras artérias reflexamente. Isso provoca uma isquemia cerebral que pode ser grave a ponto de causar morte do tecido cerebral e que é chamada de vasoespasmo. A cirurgia também ajuda a prevenir o vasoespasmo. Birgitt foi submetida à uma clipagem do aneurisma nas vésperas do Natal.

“Minha m√£e estava internada no quarto 34 e Birgitt foi internada no 31. Sou alem√£, mas fui criada no Brasil. Fiquei sabendo das dificuldades deles e me ofereci para, pelo menos, intermediar a comunica√ß√£o entre ele e os m√©dicos. No dia de Natal, levei-o para minha casa. Demos uma volta por S√£o Paulo. Ele n√£o imaginava que era t√£o grande…”

Birgitt evoluiu com aumento da press√£o intracraniana. Isso √© um problema porque o cr√Ęnio √© uma caixa r√≠gida que cont√©m o c√©rebro molenga dentro. Se o c√©rebro inchar, n√£o h√° para onde se expandir. Em determinadas situa√ß√Ķes, a parte inferior do c√©rebro sai pelo orif√≠cio da medula da mesma forma que uma bexiga escapa pelo v√£o dos dedos quando tentamos esprem√™-la na m√£o. Estruturas vitais s√£o comprimidas nessa situa√ß√£o e o paciente pode caminhar rapidamente para um quadro de morte cerebral, necessitando medidas emergenciais e, n√£o raro, uma neurocirurgia de urg√™ncia.

“O alem√£o soa para mim muito bonito, mas n√£o entendo nem uma palavra”. “Hipotermia e coma barbit√ļrico”. “Eu associei um antif√ļngico. N√£o sabia o que fazer porque a febre n√£o parava de subir!””Explique a ele que ela n√£o pode sair do ventilador mec√Ęnico porque est√° em coma induzido.” “Ah, esses bombons? O marido que trouxe.”

Tirei a medica√ß√£o para abaixar a press√£o. Tiramos o ventilador, a sonda vesical, os cateteres e os antibi√≥ticos. Hoje, ele deu uma papinha a ela e foi almo√ßar na casa teuto-brasileira onde reside parcialmente em terras bandeirantes. Com as m√£os em prece, disse para mim: “√Č um milagrrre!”. Literalmente, n√£o h√° chocolate que expresse a gratid√£o que sente. A filha enfermeira vem ao Brasil, finalmente. Ele pediu para trazer p√£o, veja s√≥! Como disse uma amiga, por detr√°s dos monitores n√£o h√° n√ļmeros. H√° hist√≥rias. Com finais surpreendentes. Tem que saber onde l√™-las.

Doenças Também Morrem ou Sobre o Morbicídio

hysteria.png“Prigogine, em Les Lois du chaos, cita Popper, que ‘fala de rel√≥gios e nuvens. A f√≠sica cl√°ssica interessava-se antes de tudo pelos rel√≥gios; a f√≠sica de hoje, mais pelas nuvens. Ele explica que a precis√£o dos rel√≥gios continua a obcecar nosso pensamento, levando-nos a acreditar que se pode atingir a precis√£o dos modelos particulares, e praticamente √ļnicos, estudados pela f√≠sica cl√°ssica. Mas o que predomina na natureza e no nosso ambiente √© a nuvem, forma desesperadamente complexa, imprecisa, mut√°vel, flutuante, sempre em movimento.”

Serge Gruzinski

Algumas doen√ßas morrem. Sim, pois se tratamos as doen√ßas como “seres” – ou, como diria um fil√≥sofo, se as abordamos ontologicamente – √© poss√≠vel mat√°-las, pois tudo que √© pode, um dia, deixar de s√™-lo. (Seja por morte natural ou por assassinato!). A abordagem ontol√≥gica das doen√ßas √© interessante e trouxe aquisi√ß√Ķes importantes para a medicina. Uma alternativa a ela √© a abordagem fisiopatol√≥gica segundo a qual a doen√ßa nada mais √© que um desvio da fisiologia normal do sujeito. N√£o h√° um ente que invade o organismo e o modifica. √Č o pr√≥prio que, ao funcionar incorretamente, apresenta sinais e sintomas que podem constituir a doen√ßa. Mas n√£o √© isso que quero falar aqui.

Quero falar sobre met√°foras m√©dicas; sobre gavetas metaf√≥ricas, na verdade. Recipientes com r√≥tulos que podem ser organizados, catalogados (e muitas vezes, essa √© a √ļnica coisa que se pode fazer!) que chamamos de doen√ßas, males, sindromes, etc. Qual seria a subst√Ęncia de que √© constitu√≠do o conte√ļdo desses recipientes? A linguagem, claro! Por isso, ao criarmos “seres” lingu√≠sticos capazes de facilitar a comunica√ß√£o entre os m√©dicos e destes, com seus pacientes, podemos passar a consider√°-los, em determinado momento, obsoletos, contraproducentes, falsos. E ent√£o, temos que elimin√°-los.

Querem um exemplo de doença que morreu?

H√° v√°rios. J√° falei disso em outro lugar, mas vale lembrar a Drapetomania. Uma “estranha” doen√ßa que acometia apenas negros escravos que “teimavam” em fugir de seus senhorios mesmo sofrendo penas horrorosas por isso. Mas, um dos casos mais interessantes de morbic√≠dio √© o da histeria. Por longos 2000 anos, a histeria foi um problema para os m√©dicos. Pode-se dizer que “inventamos” a psican√°lise a partir de um caso de histeria. Acho que a hist√≥ria da histeria mereceria um post s√≥ dela (h√° boas refer√™ncias em ingl√™s como por exemplo, essa).

Mas, o que nos contam as histórias sobre a histeria e outras doenças que já se foram? Nos dizem, primeiro, que somos desejo e linguagem. Que o social pode ser anterior ao biológico, ao menos no que diz respeito à formação do sujeito humano. (E não há doença sem um sujeito-doente). Ao buscar as formas como o sujeito se relaciona com o conjunto de referências que o caracteriza, o médico o compreende (no sentido de entender totalmente). O médico deveria então flanar sobre a fluidez dos diagnósticos, nuvens conceituais. Não, chafurdar nelas.