O Instinto da Dança

O Velho entrou na sala e havia uma aluna dançando de costas, em meio a uma roda com outros alunos, que a acompanhavam com palmas tímidas. Sorrateiro, ele até parou de respirar para não ser notado. A forma como ela mexia as mãos e os quadris; havia algo de indiano e sensual. O Velho deixava que sua condição de homem o conduzisse pelos meandros ancestrais e ardentes dos instintos, quando, de repente, a música parou. Como que quebrado o encanto, a presença do Velho se fez notar e os alunos, todos ali, se voltaram para ele, alguns com olhar de espanto, enquanto outros entravam pela porta sem saber o que estava acontecendo.

Depositou suas anotações e livros na mesa e mal-fingiu não notar o que ocorria, ele mesmo, refazendo-se de suas incursões extra-racionais. Mandou que todos se sentassem com o indicador direito apontado para baixo, girando em círculos, acompanhado da carranca característica, sem dizer uma palavra. O cabelo longo e branco movimentava-se também e os alunos sabiam que ele não estava com muita paciência.

– Sabem por que o ser humano dança? – perguntou. Alguém corou na plateia e varreu o ar com a mão para pedir que se desviassem os tantos olhares para lá repentinamente dirigidos, mas isso só foi possível com um novo brado do Velho: – Sabem?!! Silêncio e atenção.

Continuou: – Humanos têm a capacidade de memorizar melodias e, com treino, harmonias. É possível cantar e assobiar melodias. Harmonias, também, de certa forma. Não os ritmos. Gosto de pensar que o instinto do ritmo é a dança. O ritmo, diferentemente dos outros atributos da música, é percebido com propriocepção, receptores de posição, articulares, musculares, ósseos, que nos informam de nossa relação com o espaço. É menos elaborado, menos córtex cerebral, mais primevo e primordial. Nossa relação com o espaço é a forma mais primitiva de ec-sistir. Ser-para-fora. Não é à toa que, na mitologia hindu, Shiva Nataraja é o deus dançante que, de dentro de seu círculo de fogo, cria, conserva e destroi o universo por meio de sua dança. O ritmo cria a vida e também pode destrui-la. O coração tem ritmo. A respiração tem ritmo. Ritmos que podem ser entretecidos, interferindo uns com os outros, ora destruindo, ora construindo outros ritmos. O “andar” tem ritmo. “Copular” tem ritmo. Até o “pensar” tem ritmo. – e colocou os indicadores nas têmporas, recuperando-se da catarse do discurso.

O Velho fez uma longa pausa. Respirou profundamente e passou os olhos pela classe. A aluna que dançava o olhava fixamente. – Professor!? – finalmente disse. – Sim? – ele respondeu com mansidão incomum. Ela hesitou. – Professor. Por que dançamos? – ao que seguiu-se um certo rumor de conversas paralelas, carregadas de surpresa, dada a ousadia da pergunta que o professor acabara de parecer ter respondido. O Velho tinha humor instável e não convinha testar sua capacidade explosiva. Ele respondeu com a agressividade de sempre, mas dessa vez, ela soou um tanto diferente, estranhamente aconchegante apesar de conter um quase imperceptível lamento.

Porque o corpo quer rir. Porque estamos leves. Porque com a dança, trocamos de posição e vemos outras possibilidades de ocupar o espaço no qual ec-sistimos e assim, compreendemos também outras formas de ser. Só um deus que sabe dançar é capaz de criar… Eu só acreditaria em um deus dançante… E, com o riso raro, rodopiou no centro das carteiras. E começou a bater palmas de lado, ao modo dos dançarinos espanhóis, em ritmo sincopado, no que foi seguido pelos alunos com batuques assíncronos na fórmica e reco-recos improvisados com bics em espirais de caderno. Pelos pés, alguns alunos pre(s)sentiram. Outras, Dioniso.

shiva nataraja

Kehl, Freud e o Processo da Verdade

Craig Kiefer no Street Anatomy - clique para ver os créditos

Craig Kiefer no Street Anatomy – clique para ver os créditos

A verdade social não é ponto de chegada, é processo

Maria Rita Kehl

Maria Rita Kehl é dessas mulheres fascinantes. Sou seu fã desde há muito e adoro ouvi-la falar de qualquer assunto. Também adoro lê-la. Não foi à toa que li com carinho seu artigo na Folha de SP no último domingo – 24 de Março de 2013 – data emblemática desde que a ONU a escolheu como o Dia Internacional do Direito à Verdade. Para “rememorá-lo”, como membro integrante da Comissão Nacional da Verdade, Maria Rita escreveu, sobre Psicanálise e Estados Totalitários, um artigo com o título sugestivo de “A verdade e o recalque“.

No artigo, Maria Rita associa o conceito freudiano de “recalque” – interdição de fragmentos de lembranças e/ou fantasias sexuais, por exemplo – à repetição de sintomas neuróticos que, como uma válvula de escape, permitem dar vazão ao que foi aprisionado à força, no inconsciente. Freud propõe a quebra desse binômio esquecimento/sintoma psíquico pela elaboração do trauma. Até aqui, esse seria, talvez, o pensamento padrão de um psicanalista.

O problema, na minha humilde opinião, está na seguinte frase: “Se o sintoma neurótico é a verdade recalcada que retorna como uma espécie de charada que o sujeito não decifra, o mesmo vale para os sintoma sociais”. Bom – pensei -, ao juntar psicanálise e sintomas sociais vamos acabar na Frankfurt do pós-guerra e sua mistura “explosiva” de Freud com Marx de seu Instituto para Pesquisa Social. Depois de uma aproximação pacífica, já em “Eros e Civilização” (1955), Marcuse articula uma crítica ao conceito freudiano de uma repressão orgânica e biológica com a qual teríamos que conviver. No lugar desse “biologismo” freudiano, ele afirma com Marx, que “a submissão efetiva das pulsões através de regras repressivas não é imposta pela natureza, mas pelo homem”[1]. No texto, Maria Rita chega a afirmar que “Freud poderia ter lido Marx a respeito das repetições farsescas dos capítulos mal resolvidos da história”. Se Freud leu Marx eu não sei, mas n’ “O Futuro de Uma Ilusão” chega a esboçar uma luta de classes (em livre tradução do espanhol de [2]):

Mas quando uma cultura não superou a situação na qual a satisfação de um número de seus membros tem como pressuposto a opressão de outros, quiçá de uma maioria – e este é o caso de todas as culturas atuais -, se compreende que os oprimidos desenvolvam uma intensa hostilidade contra essa cultura que tornam possível com seu trabalho, mas de cujos bens têm escassa participação.

Horkheimer e Adorno, a partir de sua volta a Frankfurt depois de exílio forçado nos EUA, Marcuse, que ficou por lá, e em especial, Habermas alguns anos depois, reformulam suas interpretações públicas das teorias freudianas[2], mas mesmo as críticas da Escola de Frankfurt se tornaram obsoletas quando se viram obrigadas a lidar com a dissolução dos conceitos de totalidade postulados por Marx e Hegel. O próprio Habermas constatou que sua “‘teoria da história da espécie’, elaborada no texto Para a reconstrução do materialismo histórico (1976), também continuava presa, a exemplo da teoria marxiana, a categorias da filosofia do sujeito e da reflexão, porquanto entendia que os processos de aprendizagem da história mundial se concretizariam em classes sociais e povos, isto é, sujeitos superdimensionados“.[3] (grifos meus). Daí em diante, vem o “Giro Linguístico” e todos os seus desdobramentos, em especial, no que se refere a dissolução do paradigma do sujeito.

Acho problemático que a teoria freudiana do recalque, tão criticada, seja aplicada a um contexto sociológico atual com intuito de estabelecer uma explicação da doença social causada pela interdição da verdade; em que pese a nobreza da causa. Não sei bem porque Maria Rita escolheu esse caminho. Poderia ter usado algo da Teoria Crítica ou mesmo de Hannah Arendt, sei lá. Talvez por objetivos didáticos, já que Freud “pega na veia” e esses autores não são popstars como Freud e ela quisesse causar impacto. Ou talvez por familiaridade com o tema; fico pensando se o não dito, ou no caso, o não citado, também não falaria por si. Também acredito que para dizer, como ela disse lindamente no artigo, que “é preciso construir uma narrativa forte e bem fundamentada, capaz de transformar os restos traumáticos da vivência do período ditatorial em experiência coletiva” pudesse prescindir de Freud. Esse “coletiva” a que ela se refere parece não estar ainda na obra do médico vienense. Essa ligação entre os desejos individual e o coletivo na construção da sociedade moderna talvez só viesse anos depois com a Teoria Crítica. Já a belíssima frase que epigrafa o post demanda algo mais. A verdade como processo é aquisição kafkiana recente da sociedade. Livre.

Por isso, Maria Rita é essencial.

 

 ~ o ~

 

PS. Sensacional, diga-se de passagem, o elegante cruzado de direita que ela dá em Contardo Calligaris pelo famigerado artigo sobre tortura.

 

[1] Souza, MA. Eros e Logos: Marcuse, crítico de Freud. Filosofonet. Publicado em 11/11/2007.

[2] McCarthy, T. La Teoría Crítica de Jürgen Habermas. 4a ed. Tecnos. 1998. pp 230-51.

[3] Siebeneichler, FB. Apresentação à edição brasileira da “Teoria do Agir Comunicativo” de Jürgen Habermas. Martins Fontes. 2012. pp XVIII- XIX.

Desfazendo a “Injustiça”

“E segurou sua mão até adormecer
E dormentes ficaram: Eles e as mãos
Até que não mais soubessem se laçavam-se ou não
as mãos ou se seriam elas parte de seu próprio ser”

~ o ~

Esse verso abre o post “Injustiça Fisiológica” que fez parte de uma brincadeira muito interessante: o primeiro (porque acho que outros virão) Interciência, um tipo de amigo secreto de posts entre blogs de ciência. No final, esses foram os blogs participantes com os respectivos textos recebidos:

Como vc pode ter notado, eu escrevi para o Ciensinando do Gabriel Cunha. Foi um post sobre a fisiologia da sensibilidade e o fato de sofrermos uma adaptação sensorial ao tato, mas não à dor. Daí a “injustiça”. Foi uma honra ter participado; gostei muito de ter caído no Ciensinando. Espero que a garotada tenha lido e gostado também. Aproveito para parabenizar quem acertou a autoria do texto: Aninha Arantes, Igor Santos, Roberto Takata e Fabiana Carelli e, acho, o próprio Gabriel. Aguardo ansiosamente as revelações dos outros textos do Interciência para calibrar meus próximos chutes.

Vamos de novo? Hehe

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Burburinho e Risadas

cezanne.fiquetA sala pequena do apartamento não comportava todos e alguns estavam na varanda, pouco mais espaçosa. O burburinho e as risadas misturavam-se ao som dos talheres batendo na louça dos pratos e às repreensões sobre não falar de boca cheia, sentar-se direito à mesa… Os meninos devoravam uma lasanha de longa-data-apreciada da avó. O dia era festivo e a avó trouxera sua mãe – a bisavó – de sua distante residência para apreciar a confusão da “juventude”, como gostava de dizer, e matar a saudade dos bisnetos.

Foi quando a avó chamou a atenção para o fato de que apesar de todos já se servirem, a bisavó ainda não estava à mesa. O burburinho e as risadas cessaram. “Vem vó”. Ela não quis vir. “Não precisa, eu como aqui mesmo”. “Não, vamos sentar com todos!” Foi quando ela chamou a filha e disse, com os olhos miúdos, no ouvido dela, que tinha medo de derrubar a comida na frente dos meninos…

Quase 35 anos antes, submetera-se a uma mastectomia radical e o consequente linfedema do seu braço direito – um edema persistente associado a terríveis e frequentes infecções – o tornaram pesado demais para movimentos tão simples quanto levar um garfo à boca, coisa que ela fazia então com o esquerdo, mesmo sendo dextra. Isso a obrigava a comer muito devagar e a, por vezes, “errar o alvo”, derrubando o alimento, o que transformava uma simples refeição em um momento de suplício, misto de acanhamento e decrepidez, só possível na intimidade do cuidado. “Sem querer” a avó deixou transparecer o desconforto da bisa aos meninos. Um deles, se levantou e desferiu: “Vem vó! Não tenha vergonha, a senhora já me deu comida na boca”. “Pra mim também”, disse o pai e neto. “Pra mim, também” disse a avó e filha. A radicalidade lógica, minimalista e feroz, que apenas as frases carregadas de conteúdo histórico-emocional podem ter não dá muita margem à discussão. Os olhinhos miúdos deram as mãos e ela sentou à mesa.

O burburinho e as risadas recomeçaram e foram – devagar – assumindo o controle da situação.

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