Johns Hopkins

Johns Hopkins

Fig 1. Johns Hopkins (1795-1873)

Johns Hopkins¬†(1795 – 1873)¬†(figura 1) nasceu e viveu em Maryland, EUA. Filho de uma fam√≠lia de fervorosos quakers, seu pai, propriet√°rio de uma fazenda de tabaco, seguiu a determina√ß√£o da Sociedade dos Amigos local e libertou os escravos que trabalhavam em sua lavoura em 1807. Johns, ent√£o com doze anos, interrompeu seus estudos e foi trabalhar na ro√ßa. Aos dezessete anos, um tio o chamou para uma sociedade em seu relativamente j√° bem sucedido atacado de bens de consumo em Baltimore. L√°, Johns conheceu Elizabeth, sua prima, por quem apaixonou-se. O romance, entretanto, n√£o vingou pois n√£o foi permitido por quest√Ķes religiosas concernentes √† consanguinidade que eles se casassem. Johns e Elizabeth juraram, ent√£o, n√£o se casar e, de fato, assim o fizeram, n√£o deixando descendentes; fato importante para o que se segue.

Ao longo dos anos, Johns acabou por divergir do tio (que chegou a afirmar que “n√£o podia fazer neg√≥cios com algu√©m que gostava mais de dinheiro que ele pr√≥prio”) – mas n√£o exatamente por causa do romance frustrado com Elizabeth: ele queria vender uisque. O tio, quaker, n√£o. Ao, finalmente, romperem a sociedade, o tio deu-lhe dez mil d√≥lares, que ele juntou com mais alguns que outros membros da fam√≠lia lhe adiantaram, contratou tr√™s de seus irm√£os como vendedores e abriu a Hopkins & Brothers que ficou famosa, entre outras coisas, por distribuir no nordeste dos EUA o Hopkins’ Best (popular destilado de milho que poderia muito bem ter sido degustado pelo nosso Doc Josiah). Quando Johns se retirou da sociedade com os irm√£os aos cinquenta anos de idade, j√° era um homem rico. Lan√ßou-se, ent√£o, ao promissor mercado financeiro de Baltimore. Emprestou dinheiro, comprou a√ß√Ķes (em especial da Baltimore & Ohio Railroad) e, com um tiroc√≠nio incr√≠vel para os neg√≥cios, amealhou uma enorme fortuna.

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Fig 2.¬†Mapa da Guerra Civil dos EUA (1861-1865). O “Norte” (azul) e o “Sul” (cinza) com os border states (vermelho). Maryland (MD) e Delaware (DE) s√£o representados a leste. Clique na figura para ver o original.

Foi quando a Guerra Civil irrompeu em 1861. Maryland era um border state. Os border states constitu√≠am o “meio de campo” da guerra (estados em vermelho na figura 2, acima) e, por esta raz√£o, eram estrat√©gicos, tanto politicamente (nenhum deles apoiara a elei√ß√£o de Lincoln), quanto por quest√Ķes geogr√°ficas: ex√©rcitos de ambos os lados tinham que passar por eles. Maryland, particularmente, tendo Baltimore, sua capital, a apenas sessenta quil√īmetros de Washington DC, foi palco de sangrentas batalhas. Al√©m disso, tinha uma economia escravagista, baseada no plantation (como a fam√≠lia de Johns), hostil a Lincoln, dominada por republicanos ferozes, sendo a maioria dos marylanders, por essas raz√Ķes,¬†favor√°veis √†s causas sulinas. Mas, Maryland tinha tamb√©m Johns e outros influentes cidad√£os apoiando o Norte. Tudo isso explica o fato de que o estado contribuiu com tropas para o dois lados da guerra e deu origem ao nome¬†Brother against Brother War para descrever a situa√ß√£o absurda em que a guerra colocou os border states.¬†Johns era abolicionista e¬†um grande defensor da Uni√£o. Sua casa de veraneio (hoje um belo parque) chamada de Clifton, era palco de reuni√Ķes frequentes dos simpatizantes do Norte a despeito de repres√°lias frequentes. O aux√≠lio da Baltimore & Ohio Railroads no transporte de tropas e mantimentos foi fundamental para a Uni√£o, tendo Johns empenhado-se pessoalmente na campanha. Seu envolvimento na Guerra Civil foi tamanho que ainda hoje tal divis√£o “ideol√≥gica” tem seus desdobramentos[1].

Segundo o verbete na Wikip√©dia, Johns Hopkins¬†era amigo de George Peabody, outro solteir√£o milion√°rio da √©poca. Peabody √© considerado o pai da filantropia americana moderna (chamada de wholesale por raz√Ķes que veremos em breve). Peabody come√ßou a construir uma escola de arte¬†e m√ļsica em 1857 mas, devido a guerra, o projeto s√≥ foi completado em 1866, n√£o sem certa dificuldade. Segundo conta a hist√≥ria, Peabody iniciou Johns nas atividades filantr√≥picas. N√£o se sabe exatamente porque Johns escolheu fundar uma universidade. O fato da elite marylander sulista ter sido derrotada e politicamente cassada por Lincoln ap√≥s a vit√≥ria do Norte, inclusive com a promulga√ß√£o de uma nova constitui√ß√£o estadual, dado que a anterior era republicana radical, terminou por deixar a cidade em frangalhos. Al√©m disso, a necessidade de um hospital era premente. Epidemias de febre amarela, febre tif√≥ide e c√≥lera eram frequentes, tendo o pr√≥prio Johns contra√≠do esta √ļltima. O fato √© que em 1867 ele escreveu seu testamento. N√£o deixaria filhos, sua fam√≠lia estava bem. Presenteara Elizabeth com uma bela casa…

Johns morreu na v√©spera de natal de 1873, dormindo, aos setenta e oito anos.¬†Seus bens foram utilizados postumamente para fundar, pela ordem por ele mesmo estabelecida (segundo a Wikip√©dia), um orfanato (Johns Hopkins Colored Children Orphan Asylum), em¬†1875; a¬†Johns Hopkins University¬†em 1876; a¬†Johns Hopkins Press, a editora acad√™mica de maior longevidade ainda operando nos EUA, em 1878. Em 1889 foram duas institui√ß√Ķes: o¬†Johns Hopkins Hospital¬†e a Escola de Enfermagem (Johns Hopkins School of Nursing). A Faculdade de Medicina (Johns Hopkins University School of Medicine) s√≥ viria em¬†1893. A Escola de Sa√ļde P√ļblica (Johns Hopkins School of Hygiene and Public Health)¬†s√≥ no final de 1916, mas j√° com dinheiro da Funda√ß√£o Rockefeller (que, logo ap√≥s, em 1918, iniciou o que seria o Instituto de Higiene de S√£o Paulo, veja s√≥).

O hospital da Johns Hopkins tem sido apontado como o¬†melhor dos EUA¬†por vinte e um anos consecutivos, segundo o¬†U.S. News & World Report. A faculdade de medicina, o hospital e sua escola de sa√ļde p√ļblica moldaram a educa√ß√£o m√©dica norte-americana e mundial j√° a partir do come√ßo do s√©culo XX, tendo sido tomados como exemplo pelo Relat√≥rio Flexner. Por qu√™? Quais elementos presentes t√£o precocemente em sua estrutura acad√™mica a puseram √† frente de seu pr√≥prio tempo? Vivemos ainda sob um modelo “hopkinsniano” de medicina? √Č o que tentaremos responder a seguir.

 

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[1] Todo m√™s de janeiro, como noticiou em 2008 o Baltimore Sun, descendentes de soldados sulistas viajam a Baltimore para prestar homenagens a dois generais lend√°rios dos Estados Confederados da Am√©rica:¬†Robert E. Lee e “Stonewall” Jackson. Do¬†Wyman Park, local dos monumentos, a multid√£o caminhava at√© a Johns Hopkins University, bem pr√≥xima,¬†onde utilizavam parte das acomoda√ß√Ķes para lanches e para hospedar-se a pre√ßos acess√≠veis. A dire√ß√£o da universidade, entretanto, informou a divis√£o de Maryland das Filhas Unidas da Confedera√ß√£o (United Daughters of the Confederacy) e os Filhos de Veteranos Confederados (Sons of Confederate Veterans) que n√£o ia mais alugar o espa√ßo a eles pois n√£o tinha a obriga√ß√£o de ver a bandeira confederada circulando no campus da Johns Hopkins.

Medicina, Capitalismo e Esquizofrenia

FMUSP

Prédio da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo

Quem passa pela avenida Doutor Arnaldo vindo da Heitor Penteado em dire√ß√£o √† avenida Paulista tem, logo ap√≥s a rua Cardeal Arco Verde, √† sua esquerda, o cemit√©rio do Ara√ß√° e suas bancas de flores; √† sua direita, pela ordem, o¬†Centro de¬†Sa√ļde¬†Escola Geraldo de Paula Souza, a Faculdade de Sa√ļde P√ļblica, o cruzamento da rua Teodoro Sampaio, o Instituto Oscar Freire, ¬†a Faculdade de Medicina (acima), o Instituto Adolfo Lutz, o moderno pr√©dio do Instituto do C√Ęncer,¬†o Instituto de Infectologia Em√≠lio Ribas¬†e finalmente,¬†a ponte sobre a Rebou√ßas que d√° acesso √† rua da Consola√ß√£o e √† Paulista. A depender do tr√Ęnsito, sempre muito intenso na regi√£o, n√£o √© raro perder quinze ou vinte minutos neste trajeto de quinhentos metros tendo como vis√£o algumas das mais antigas institui√ß√Ķes estatais da Sa√ļde P√ļblica do estado de S√£o Paulo. Isso sem esquecer que tal fachada esconde o complexo gigantesco do Hospital das Cl√≠nicas¬†que se estende at√© a rua Artur de Azevedo, tendo como limite a Teodoro Sampaio e a Rebou√ßas. Tal como uma parada na qual quem se move s√£o os espectadores, desfilam diante n√≥s institui√ß√Ķes centen√°rias ao lado de modernas instala√ß√Ķes hospitalares numa paisagem que tem sido descrita como local “onde a tradi√ß√£o se junta √† inova√ß√£o tendo como objetivo a sa√ļde da popula√ß√£o”. √Č uma demonstra√ß√£o de poder. P√ļblico.

Quando entrei a primeira vez no pr√©dio da Faculdade de Medicina, lembro-me bem, tive um tipo de dispneia (vale a visita, agora que est√° restaurada). “Nem parece que estamos no Brasil” – diziam com orgulho. O intr√≥ito √© de m√°rmore italiano. A escadaria central √© imponente e, ao mesmo tempo, discreta. As salas de aula, tradicionais e belas. Vitrais, janelas, o rel√≥gio. As salas da diretoria e da Congrega√ß√£o s√£o m√°quinas do tempo de austeridade e estilo. Obras de arte. Apenas l√° pelo terceiro ou quarto ano da faculdade, a mem√≥ria agora me falha, descobri que nossa bel√≠ssima casa fora constru√≠da com capital privado dos EUA proveniente da¬†Funda√ß√£o Rockefeller, por meio de acordos que se iniciaram no long√≠nquo ano de 1916. Tamb√©m o pr√©dio do Instituto Oscar Freire, da Faculdade de Sa√ļde P√ļblica, do Hospital das Cl√≠nicas, al√©m da¬†Faculdade de Medicina da USP de Ribeir√£o Preto, ou receberam incentivos, ou foram totalmente constru√≠dos com verbas da mesma funda√ß√£o. Demorei algumas d√©cadas para me dar conta de tal¬†extravag√Ęncia.¬†Na medida em que fui me inteirando dos fatos, quest√Ķes foram surgindo. Por que cargas d’√°gua uma funda√ß√£o norte-americana com capital gigantesco proveniente da refina√ß√£o monopolizada¬†do petr√≥leo e outras¬†commodities¬†(como carv√£o), forjada no p√≥s-guerra civil (presumivelmente um conflito anti-escravid√£o), financiaria uma faculdade de medicina em um pa√≠s sul-americano que, apenas algumas d√©cadas antes do in√≠cio das negocia√ß√Ķes, era uma monarquia escravagista? Por que o Brasil, e especificamente, a cidade de S√£o Paulo? A medicina praticada aqui e l√° era assim t√£o diferente para haver uma “exporta√ß√£o de tecnologia” dessa monta? Por que a Funda√ß√£o Rockefeller acatou integralmente o tal relat√≥rio Flexner sobre ensino m√©dico financiado por outra institui√ß√£o (abastecida pelo capital da explora√ß√£o tamb√©m monopolizada do a√ßo norte-americano) a Funda√ß√£o Carnegie? Qual seria a rela√ß√£o entre esses eventos e a vinda de m√©dicos norte-americanos ao Brasil, como Alan Gregg?

Desta vez, tive um tipo de cefaleia; e vertigem tamb√©m. Isso sempre acontece quando tenho que pensar uma coisa muito grande e acho que minha cabe√ßa n√£o vai dar conta de pensar tudo, at√© o fim. Me foi inevit√°vel relacionar os discursos de v√°rios colegas e¬†entidades m√©dicas de hoje, expostos que est√£o por for√ßa de atitudes governamentais (vide Ato M√©dico, Programa Mais M√©dicos, etc), com as bases da estrutura√ß√£o do ensino m√©dico no Brasil e, particularmente, em S√£o Paulo. Haveria algo assim como uma “ideologia m√©dica” alienante, esquizofrenizante? Algo que misturasse o humanismo visceral que os verdadeiros m√©dicos carregam em suas entranhas com um v√≠cio de pensamento egocentrado e auto-referente? O que seria isso e como o diagnosticamos? De onde vem? Ao trazermos, com for√ßa, ao debate acalorado de hoje, a ci√™ncia que nos embasa e nossa pr√≥pria sabedoria pr√°tica m√©dica como argumentos inelut√°veis ao criticismo “laico”, n√£o estar√≠amos tamb√©m invocando os fantasmas de um certo “conservadorismo sofisticado”, autorit√°rio e paternalista, aos moldes dos grandes filantropistas √† frente de suas poderosas funda√ß√Ķes? Teria tudo isso alguma rela√ß√£o com a enorme crise na sa√ļde norte-americana e seu encarecimento sem precedentes, com a intera√ß√£o, por vezes, prom√≠scua dos m√©dicos com as ind√ļstrias farmac√™utica e de tecnologia m√©dica, com o teor do que √© publicado como ci√™ncia m√©dica nas revistas especializadas, com as regras do jogo que transforma alguns de n√≥s em professores titulares?

Tomei um grama de dipirona e fiquei com seu(?) gosto amargo na boca.

O Filho do Pastor e o Padre

Allan Gregg

Alan Gregg (cerca de 1919). Do Profiles in Science (public domain). Clique na foto para o original.

Esse mo√ßo de chap√©u, cachimbo, trajando longas botas e aquelas cal√ßas de explorador usadas em filmes de aventura, nasceu em 1890 na cidade de Colorado Springs, no Colorado – Estados Unidos da Am√©rica. Seu nome:¬†Alan Gregg. Filho de um¬†pastor congregacionalista¬†e uma musicista, logo partiu para estudos em Boston, tal como seus tr√™s irm√£os mais velhos, cidade onde sua fam√≠lia vivia antes de seu pai ser transferido para o Colorado. Na √©poca em que a foto foi tirada, ele tinha por volta de vinte e nove anos de idade. Alan, se assim podemos cham√°-lo, tinha um esp√≠rito muito aventureiro. Em 1914, quis alistar-se para a Primeira Guerra Mundial (1914-18), mas pelo Canad√°, j√° que os EUA ainda n√£o havia enviado tropas para o confronto, o que, de fato, s√≥ ocorreria em¬†6 de Abril de 1917. Foi convencido que seria muito mais √ļtil se terminasse a faculdade que ora cursava. Seguiu, ent√£o, o conselho de seus tutores graduando-se em medicina pela Harvard em 1916 e, ao final do ano seguinte, ap√≥s um internato breve, integrou a equipe m√©dica brit√Ęnica em territ√≥rio europeu (mesmo destino, ali√°s, do cirurgi√£o brasileiro¬†Benedito Montenegro¬†[pdf], formado em 1909 pela Universidade da Pensilv√Ęnia. Montenegro, entretanto, serviu do lado franc√™s do conflito). Mas, voltando ao Alan, no per√≠odo que seguiu ao seu retorno da Europa, n√£o sabia ao certo qual rumo dar a sua carreira, profundamente impactada pela experi√™ncia da guerra. De conversa em conversa, encontrou algumas pessoas interessantes e a uma espec√≠fica solicitou um “servi√ßo que qualquer outro m√©dico recusaria”. Um servi√ßo que fosse o “mais selvagem e mais dif√≠cil” que um m√©dico pudesse ter em tempos de paz. A pessoa a quem ele pediu tal miss√£o escreveu, anos depois, que diante de tal solicita√ß√£o, tentou fazer¬†exatamente¬†o que lhe foi pedido.

Em Março de 1919, então, Alan Gregg desembarca na cidade do Rio de Janeiro. A foto é desse período.

Mas por que viria Alan a terras brasileiras? “Depois de trabalhar em laborat√≥rios no Rio de Janeiro e estudar a¬†ancilostom√≠ase (“amarel√£o”) e mosquitos transmissores de mal√°ria, Alan foi enviado a rinc√Ķes remotos do pa√≠s onde trabalhou em campanhas com equipes de sa√ļde p√ļblica locais, tanto diagnosticando, como tratando alde√Ķes infectados pela endemia.”

MiltonConduziu pesquisas e escreveu relat√≥rios t√©cnicos sobre a ancilostom√≠ase e sobre as condi√ß√Ķes sanit√°rias gerais do pa√≠s. Durante os tr√™s anos em que ficou no Brasil afirmou ter mudado consideravelmente sua vis√£o da medicina entendendo que a pr√°tica m√©dica de ent√£o s√≥ teria sucesso em sua vertente “preventiva” posto que a “curativa” n√£o tinha,¬†como vimos, um √™xito t√©cnico muito significativo; al√©m disso, sua pr√≥pria carreira de m√©dico teve seus horizontes ampliados ao adquirir aqui a base para a aprecia√ß√£o de outras culturas. “No Brasil de ent√£o”, ele relembra em uma de suas cartas a amigos nos EUA, “ap√≥s descer de um trem, voc√™ volta no tempo. Nos jogos infantis, as crian√ßas entoam m√ļsica gregoriana porque as pessoas n√£o disp√Ķem de melodias mais recentes.” (Eu, c√° com os bot√Ķes do meu avental, pressuponho que Alan possa ter cruzado com algum “parente” desses¬†moleques de cara suja da foto ao lado, a cantar, pelo interior das Minas Gerais, o que seria, neste caso, um¬†avan√ßo¬†no tempo, mas… isso¬†jamais saberemos de fato).

Alan teve dificuldades no trato com a cultura brasileira. Certa vez, conta, ao chegar a um vilarejo, n√£o estava conseguindo convencer os moradores a deixarem-se examinar pela equipe m√©dica. Ele apelou ent√£o ao padre da igreja local, um polon√™s, tamb√©m em miss√£o. O padre perguntou a Alan se ele vinha levando uma vida d√ļbia e a raz√£o de desperdi√ßar dinheiro com aquela pobre gente n√£o seria¬†a de fazer uma “oferenda pac√≠fica” a seu Deus. Alan retrucou perguntando se deveria haver algum motivo para dar comida e dinheiro a pessoas fracas e famintas. Quando o padre disse que seus motivos deveriam ser caridade ou mesmo uma sensa√ß√£o de culpa, Alan sentiu um sufocante desejo de concordar mas, ao inv√©s disso, disse que seu patr√£o acabara de doar uma quantia de 3 milh√Ķes de d√≥lares √† Pol√īnia. Isso aparentemente convenceu o padre que concordou em intervir, favoravelmente a Alan, junto a seu rebanho.

O fato √© que, depois de tantas experi√™ncias, Alan Gregg estava pronto para deixar o Brasil em 1922. Seus nada misteriosos patr√Ķes americanos o chamaram de volta aos EUA para integrar a diretoria adjunta da rec√©m-fundada¬†Divis√£o de Educa√ß√£o M√©dica¬†da¬†Funda√ß√£o Rockefeller. Ele tinha um¬†trabalho¬†a realizar. Ao redor do mundo.

O Ethos Médico e o Espírito do Capitalismo

Dr Josiah “Doc” Boone por Thomas Mitchell em “No tempo das Dilig√™ncias” (Stagecoach-1939)

A medicina do final do s√©culo XIX n√£o tinha o discurso empoderado, nem tampouco o¬†status¬†atual (se bem que este √ļltimo anda bastante combalido, convenhamos). Abrigava em sua “maleta” m√ļltiplas teorias de doen√ßa que a dividiam em escolas beligerantes; era tecnicamente ineficaz; n√£o tinha nenhum tipo de controle governamental e, por isso tudo talvez, era tamb√©m mal remunerada e pouco reconhecida como profiss√£o.

No Brasil, um exemplo que talvez tipifique tal situa√ß√£o √© a¬†Revolta da Vacina¬†(1904)¬†iniciada por uma ¬†decis√£o do m√©dico brasileiro de maior prest√≠gio nacional e internacional de ent√£o, Osvaldo Cruz, em vacinar contra a var√≠ola, compulsoriamente, os habitantes da cidade do Rio de Janeiro. Sem conseguir convencer as pessoas dos benef√≠cios de sua decis√£o, a revolta terminou por deixar trinta¬†mortos e cento e dez feridos, sendo centenas de pessoas presas, muitas delas depois “deportadas” para o Acre. (O epis√≥dio foi recentemente reconstitu√≠do por uma¬†novela.)

Na Am√©rica do Norte a situa√ß√£o n√£o era diferente. Os m√©dicos norte-americanos do come√ßo do s√©culo XIX n√£o tinham l√° muito boa fama. Tal arqu√©tipo, encarnado pelo premiado (Oscar de melhor ator coadjuvante em 1939)¬†Thomas Mitchell que interpretou um m√©dico alco√≥latra no filme “No tempo das dilig√™ncias” de John Ford, com John Wayne no elenco, estava mais para um¬†fracassado¬†que para bom partido. Seu enorme cora√ß√£o e sua coragem n√£o garantiam ao Dr. Boone os bons¬†resultados. Sua especialidade eram mesmo os destilados de milho do Velho Oeste.

Na d√©cada de 30, contudo, a medicina norte-americana j√° era uma profiss√£o organizada em sociedades m√©dicas de car√°ter econ√īmico e cient√≠fico. Os m√©dicos passaram a ascender socialmente, aumentando seus ganhos financeiros e tamb√©m sua import√Ęncia no cen√°rio pol√≠tico das cidades. Faculdades de medicina e hospitais tornaram-se o centro da pr√°tica m√©dica concebida como atividade tecnol√≥gica e voltada para obten√ß√£o de resultados objetivos. O que teria ocorrido? Qual mudan√ßa foi respons√°vel por esse salto de qualidade? Que onda de modernidade daria conta de passar a limpo a medicina e tornar os EUA a pot√™ncia biom√©dica que s√£o¬†hoje? Conta a hist√≥ria oficial que, no in√≠cio do s√©culo XX, grandes reformas na educa√ß√£o m√©dica foram instauradas e ajudaram a organizar o grande caos que reinava no Canad√° e nos Estados Unidos. Abraham Flexner, educador e professor americano, foi o mentor dessa reforma. Visitou 155 escolas de medicina (131 dos EUA e 24 do Canad√°) e produziu um¬†relat√≥rio que √© seminal nas discuss√Ķes sobre ensino m√©dico¬†(em pdf) at√©¬†hoje. Nesse relat√≥rio, ele define o que seria um curr√≠culo ideal para as faculdades de medicina tendo como modelo a faculdade de medicina da¬†Johns Hopkins. Foram fechadas quase uma centena de faculdades que n√£o se adequaram ao procedimento padr√£o. Feita a “poda”, a medicina poderia ent√£o, florescer e dar bons frutos na Am√©rica do Norte.

Mas, algumas quest√Ķes sobre esse¬†mainstream¬†hist√≥rico t√™m sido levantadas. Em especial, porque muitas das causas da brutal crise¬†que se abate sobre a medicina em v√°rios lugares do mundo podem ter sua origem nesse per√≠odo extremamente turbulento da hist√≥ria da humanidade. Tal transi√ß√£o a que me referi acima e o consequente¬†ethos¬†m√©dico que se deu a partir de ent√£o, foram forjados no esp√≠rito do capitalismo agressivo e esfomeado do in√≠cio do s√©culo XX e que tomou de assalto, n√£o s√≥ a medicina e outras a√ß√Ķes humanit√°rias, mas tamb√©m, todo o sistema de ensino norte-americano, dado que a m√£o de obra especializada se constitu√≠a no grande √≥bice √† formid√°vel expans√£o econ√īmica que logo se seguiu. N√£o se discute a inova√ß√£o tecnol√≥gica e cient√≠fica da medicina atual, discute-se sua forma de ser nessa tecnoci√™ncia. Em tempos nos quais a importa√ß√£o de m√©dicos – alegadamente objetivando preencher vazios assistenciais que os escul√°pios aut√≥ctones n√£o conseguem (ou n√£o querem) preencher -, parece iminente e, em meio a medidas atabalhoadas do governo federal contra um¬†establishment¬†de branco, algo demonizado at√©, em que pese sua¬†√≥bvia¬†responsabilidade sobre a situa√ß√£o atual, uma leitura hist√≥rica parece se impor mais do que nunca.

Espero que tal abordagem ajude a clarificar a diferen√ßa entre¬†medicina¬†e¬†ci√™ncia,¬†que alguns ainda insistem em n√£o ver.¬†A medicina e seu hibridismo epistemol√≥gico at√°vico, n√£o √© ci√™ncia e o tecnicismo atual que transforma m√©dicos em tecn√≥logos da sa√ļde j√° tem sido suficientemente criticado. Por outro lado, sua import√Ęncia nas pol√≠ticas de sa√ļde faz dela uma atividade estrat√©gica ao poder estatal. Reduzir a medicina a um instrumento pol√≠tico √© perigoso e ineficaz, e a hist√≥ria √© pr√≥diga em exemplos que mostram que quem mais¬†sofre com isso sempre s√£o os mais indefesos. Vivemos as vicissitudes de um modelo m√©dico que escolhemos h√° duzentos anos. Achar que as responsabilidades desse modelo recaem apenas em seus executores de branco √© um ato de pusilanimidade. Aos leitores m√©dicos, n√£o reconhecer nossas responsabilidades sobre tal situa√ß√£o √© covardia.

Um passo atrás, por favor. Que outros possam me ajudar a recontar essa história. Talvez assim, possamos entender o presente caótico e planejar um futuro melhor.