Piada de Médico

As piadas sempre trazem alguma coisa de verdade. Quando s√£o contadas pelos pelos pr√≥prios protagonistas ent√£o, nem se fala. Parece que o politicamente incorreto se dissolve na figura do contador e a situa√ß√£o fica mais engra√ßada. Especificamente, em rela√ß√£o √†s “piadas de m√©dico”, s√£o revelados estere√≥tipos da personalidade dos profissionais de diferentes especialidades. Vou contar duas das piadas que mais circulam no meio m√©dico.

http://www.calculateme.com/MySpace/background-images/hundred-dollar-bill.jpgNota de Cem Dólares

Sabe como esconder uma nota de cem dólares de um médico? Você vai depender da especialidade dele para ter sucesso. Vejamos:
Como se escondem 100 dólares de um anestesista? No paciente. E de um ortopedista? Num livro de medicina. De um clínico, não precisa esconder porque ele nunca viu e não sabe o que é. E de um cirurgião-plástico? Impossível, ele vai achar de qualquer jeito!

Talvez uma das mais interessantes seja a est√≥ria d’…

Os caçadores

http://www.monfortur.pt/IMAGENS_SETEMBRO_2006/LARGADA_PATOS_2.jpgUm grupo de m√©dicos de especialidades diferentes resolveu sair num fim-de-semana para ca√ßar patos. O grupo era constitu√≠do por um radiologista, um patologista, um anestesista, um sanitarista, um pediatra, um cl√≠nico, um cirurgi√£o, um ortopedista e um psiquiatra. Depois de discutirem amplamente a verba necess√°ria para o projeto com o sanitarista, embarcaram todos, no carro super-hiper-equipado, cheio de tecnologias inovadoras do radiologista… Este, ao chegar ao local, decide n√£o sair do carro: “√Č mais confort√°vel aqui… Espero voc√™s e depois vejo esses ‘patos’. Depois de descerem do carro, o anestesista olha um nuvenzinha no final do horizonte e diz: “Vamos cancelar essa ca√ßada!” No que o cirurgi√£o imediatamente responde: “Ah, n√£o, aqui tamb√©m esse cara quer ser estraga-prazeres? Vamos ca√ßar de qualquer jeito!”. Preparam-se ent√£o para ca√ßada… O pediatra aponta a espingarda, mas olhando para o alvo, diz: “Coitado do patinho, ah, t√£o pequenininho…” E n√£o atirou. O cl√≠nico ent√£o aproxima-se, tamb√©m prepara-se para atirar, mas raciocina: “Parece um pato, tem forma de pato, bico de pato, mas… talvez… a cor das penas… por outro lado… o estilo de v√īo… talvez…” E o pato voa! O cirurgi√£o, ansioso com o resultado da ca√ßada at√© o momento, chega, toma a espingarda e sai atirando em tudo o que se mexe. Vira para o patologista e diz: “Vai l√° e v√™ o que √© pato e o que n√£o √©!” O ortopedista, voluntarioso, entra no mato, volta, entra de novo, e cansado ao sair, pergunta: “Gente, mas o que √© pato mesmo?” Nesse momento, o psiquiatra interv√©m: “Mas, pessoal, por que O PATO?”.

√Č isso.

Animação Francesa para Campanha da AIDS

Gerou uma certa pol√™mica – o leitor logo ver√° porque – esse filme para a campanha de combate √† AIDS na Fran√ßa. A partir de uma “est√©tica de grafitagem de banheiro p√ļblico”, o autor d√° vida a um rec√©m-chegado “membro” do grupo e passa seu recado com extrema criatividade e bom humor. Uma mistura de “dirty Toy Story” com “Roger Rabbit porn√ī” bem ao gosto de uma adolesc√™ncia cada vez mais acostumada a lidar com esses problemas mas a qual, nunca √© demais lembrar os perigos de rela√ß√Ķes sexuais desprotegidas, e n√£o s√≥ por conta da AIDS.

Será que uma campanha como essa seria veiculada na TV brasileira? Que tipo de reação provocaria? Bom, que cada um tire sua própria conclusão. A caixa de comentários está à disposição.

O Esteto e o Esteta

Amanti.jpg

Conversa de m√©dico √© sempre muito chata. Onde h√° uma “rodinha” de m√©dicos conversando √© muito dif√≠cil um n√£o-m√©dico ficar muito tempo ouvindo ou participando, seja porque n√£o entende absolutamente nada do que est√° sendo discutido, seja porque alguns dos ju√≠zos emitidos s√£o, para dizer o menos, fora do padr√£o ao qual est√£o habituados. Falar sobre a morte e o morrer, sobre secre√ß√Ķes e v√≠sceras, n√£o √© l√° muito agrad√°vel. Mas, uma das coisas que mais choca os n√£o-m√©dicos √© nosso conceito de “beleza”.

Dizer que uma les√£o √© “linda” ou que uma cirurgia foi “maravilhosa” √© quase um pecado! Certa vez, levei uma bronca de uma professora: “Meu conceito de beleza √© outro” – disse ela. “N√£o diga que a morte ou a doen√ßa s√£o belos. Diga que s√£o, no m√°ximo, interessantes.” Fiquei pensando muito tempo naquilo. Esse racioc√≠nio me pareceu bastante coerente e em concord√Ęncia com o sofrimento dos pacientes, mas “desceu torto”. N√£o h√° um prazer m√≥rbido, um gosto pelo sofrimento. Mas h√°, sim, uma admira√ß√£o por uma entidade, um conceito que se autoexplica, um padr√£o que se confirma.

“Aquele paciente tem um sopro a√≥rtico muito bonito”. O que isso quer dizer? Que √© um sopro protot√≠pico. O reconhecimento de uma entidade real com todas as nuances que lhe foram atribu√≠das por autores e/ou professores em textos e aulas te√≥ricas √© um prazer sensorial que, se n√£o √© exatamente o que se chama de prazer est√©tico, em muito se aproxima dele. Uma cirurgia de reconstru√ß√£o por mais cruenta e exposta pode – por que n√£o? – ser considerada uma obra de arte.

Na √ļltima Piau√≠, h√° uma mat√©ria muito interessante¬†sobre um matem√°tico brasileiro cujo t√≠tulo √©: “Artur tem um problema” de Jo√£o Moreira Salles. Ao falar do modo como os matem√°ticos “descobrem” seus objetos virtual√≠ssimos, o autor escreve:

“A beleza seria essa intui√ß√£o de uma totalidade. Esse sentimento est√©tico √© a peneira que separa o joio do trigo. Por ela s√≥ passam os objetos que, por belos, anunciam: Existo. “Passamos a vida pensando em objetos lindos“, diz Yoccoz, com um sorriso de felicidade. “O prazer est√©tico √© compar√°vel ao da m√ļsica.” Grandes matem√°ticos s√£o estetas, e a beleza ser√°, para todos eles, uma das mais poderosas ferramentas da descoberta. Pelo entusiasmo com que falam do que lhes passa pela cabe√ßa, √© como se existisse m√ļsica e n√≥s, os n√£o-matem√°ticos, f√īssemos todos surdos.”

Fico pensando se grandes médicos não seriam também estetas. A beleza como ferramenta de conhecimento. Aliás, a mim me parece que todo profissional que faz o que gosta poderia ser um esteta. Quem faz o que gosta busca a excelência por um prazer estético: tornar o que faz mais bonito, é sentir-se melhor.

Gravura: Franco Murer

Diagnóstico e Intuição

Muita gente pergunta como √© fazer um diagn√≥stico cl√≠nico. Como elevar o “particular” de um paciente no consult√≥rio ou hospital ao “universal” da doen√ßa descrita no livro. O diagn√≥stico cl√≠nico √© o momento em que o m√©dico tenta identificar a doen√ßa atrav√©s da hist√≥ria cl√≠nica (ativa ou passiva), procurando sinais e/ou interpretando exames subsidi√°rios, com o desafio de n√£o perder de vista, o pr√≥prio paciente, devido ao car√°ter psicol√≥gico e social que as enfermidades apresentam segundo a defini√ß√£o do prof. Milton Martins [1]. N√£o √© dif√≠cil entender que o ato do diagn√≥stico cl√≠nico √© indissoci√°vel da atividade racional ou raz√£o. Podemos considerar, grosso modo, que a atividade racional possui duas modalidades b√°sicas: a intui√ß√£o (ou raz√£o intuitiva) e o racioc√≠nio (ou raz√£o discursiva). O post anterior, tentava esbo√ßar por meio de problemas simples, a diferen√ßa cognitiva entre os dois. Segundo Chau√≠ [2], raz√£o discursiva, como o pr√≥prio nome indica, discorre por uma realidade para chegar a conhec√™-la, isto √©, realiza v√°rios atos de conhecimento at√© conseguir capt√°-la. Em uma sucess√£o de esfor√ßos de aproxima√ß√£o (por v√°rios m√©todos) chega-se ao conceito da realidade que se quer conhecer, no nosso caso, a doen√ßa do paciente. A raz√£o intuitiva, ao contr√°rio, consiste num √ļnico ato do esp√≠rito, que, de uma s√≥ vez, capta por inteiro e completamente o objeto. O ato do diagn√≥stico cl√≠nico apesar de sua import√Ęncia √≥bvia, por raz√Ķes inexplicadas, n√£o faz parte da grande maioria dos livros-texto de medicina. Quando abordado, √© dada sempre maior import√Ęncia √† raz√£o discursiva – o racioc√≠nio cl√≠nico. O objetivo primordial desse post √© chamar a aten√ß√£o para o fato de que a intui√ß√£o ou raz√£o intuitiva √©, no m√≠nimo, t√£o importante quanto o racioc√≠nio cl√≠nico para se chegar a um diagn√≥stico. Al√©m disso, s√≥ ap√≥s o reconhecimento da import√Ęncia da intui√ß√£o no ato do diagn√≥stico cl√≠nico poderemos estud√°-la, disciplinando-a e colocando-a a favor do trabalho do m√©dico, como j√° foi, exaustivamente realizado com sua contrapartida cognitiva, o racioc√≠nio cl√≠nico. Talvez a principal causa destas distor√ß√Ķes sejam interpreta√ß√Ķes do modelo de estrat√©gias diagn√≥sticas proposto por David Sackett [3]. Com a publica√ß√£o do excelente livro Clinical Epidemiology em 1985, o modelo foi ganhando contexto e corpo e vem se popularizando principalmente entre os cl√≠nicos, sendo incorporado gradativamente ao ensino da pr√°tica m√©dica. Em linhas gerais, segundo Sackett, seriam quatro as estrat√©gicas b√°sicas para chegarmos a um diagn√≥stico:

1) Reconhecimento de padr√£o (ou m√©todo do gestalt). √Č a percep√ß√£o instant√Ęnea de que o quadro cl√≠nico do paciente √© indistingu√≠vel de um padr√£o previamente aprendido de s√≠ndrome ou doen√ßa. O exemplo utilizado pode ser uma crian√ßa com s√≠ndrome de Down ou o “f√°cies” caracter√≠stico da doen√ßa de Graves (um forma de hipertireoidismo em que os olhos ficam saltados).

2) M√©todo do Algoritmo. No qual o processo diagn√≥stico progride de acordo com uma seq√ľ√™ncia l√≥gica de vias pr√©-formatadas dicotomizadas por perguntas e respostas do tipo sim/n√£o ou presente/ausente. S√£o os fluxogramas de diagn√≥stico. O exemplo mais caracter√≠stico, para usar algo hoje muito em moda, s√£o os algoritmos de trabalho do Advanced Cardiac Life Support (ACLS). Por interm√©dio desses algoritmos, o m√©dico sob a press√£o de uma situa√ß√£o cr√≠tica, pode chegar a um diagn√≥stico de embolia pulmonar ou pneumot√≥rax hipertensivo.

3) M√©todo da Exaust√£o. Esse m√©todo ficou conhecido por esse nome pelo fato do m√©dico n√£o se preocupar em raciocinar sobre o dado que est√° por receber de seu paciente, ocupando-se apenas de acumular exaustivamente, o maior n√ļmero poss√≠vel de informa√ß√Ķes. A estrat√©gia da exaust√£o implica no fato de que o diagn√≥stico deva ser feito em duas etapas. Primeiro coleta-se tudo que poderia ser pertinente ao caso depois, e apenas depois disso, procede-se √† segunda etapa que consiste em pin√ßar as informa√ß√Ķes potencialmente √ļteis para se fechar um diagn√≥stico. Foi assim que aprendi a “tirar hist√≥ria” dos pacientes.

4) M√©todo Hipot√©tico-Dedutivo. Consiste na formula√ß√£o de uma pequena lista de hip√≥teses seguida de manobras cl√≠nicas (hist√≥ria e exame f√≠sico) e paracl√≠nicas (radiografias e exames laboratoriais) visando √† redu√ß√£o dram√°tica dessa pequena lista e finalmente ao diagn√≥stico mais prov√°vel. Ao mesmo tempo em que as hip√≥teses s√£o geradas, o m√©dico vai simultaneamente realizando pequenos “bits” de procura por dados e sinais f√≠sicos que suportem sua hip√≥tese. Essa estrat√©gia √© utilizada pela grande maioria de cl√≠nicos experimentados inconscientemente e parece ser algo inerente ao racioc√≠nio investigacional humano, pois, mesmo alunos do primeiro ano da faculdade de medicina, submetidos ao mesmo estudo, demonstraram o mesmo tipo de comportamento.

Podemos analisar as estrat√©gias diagn√≥sticas sob a √≥tica de quem procura por ind√≠cios de intui√ß√£o nelas. De imediato, o reconhecimento de padr√£o parece ser a categoria que melhor preenche a defini√ß√£o de raz√£o intuitiva: capta√ß√£o de uma s√≥ vez da ess√™ncia do objeto a ser conhecido, como um ato √ļnico do esp√≠rito. Entretanto, em an√°lise mais cuidadosa percebemos que o reconhecimento de padr√£o √© um re-conhecimento. O indiv√≠duo deve ter “conhecido” a doen√ßa pelo menos uma vez antes. Normalmente, isto se d√° atrav√©s de outro m√©dico, o que o torna ref√©m do ponto-de-vista de um terceiro. Que dizer ent√£o, de doen√ßas que nunca vimos antes? Em se tratando de raz√£o intuitiva, nos permitimos intuir um conceito que n√£o temos, mas n√£o costumamos usar a intui√ß√£o, at√© por uma quest√£o de treinamento profissional, para conhecer uma doen√ßa que nunca vimos! Esse procedimento seria um “gerador” de doen√ßas na depend√™ncia da variedade de seus quadros cl√≠nicos, e de fato, era assim que ocorria antes. Portanto, o reconhecimento de padr√£o √© uma estrat√©gia que parece mais se utilizar de padr√Ķes pr√©-formatados de entidades patol√≥gicas. O diagn√≥stico √© ent√£o, efetuado por simples compara√ß√£o n√£o se constituindo assim, num meio para utiliza√ß√£o da raz√£o intuitiva.

Se por um lado, as estrat√©gias do algoritmo e da exaust√£o s√£o quase que abordagens mecanicistas do ato diagn√≥stico, por outro, a estrat√©gia hipot√©tico-dedutiva envolve uma etapa de gera√ß√£o de hip√≥teses que parece ter algo de intuitivo. O pr√≥prio Sackett faz a pergunta crucial: de onde v√™m as hip√≥teses? Em apenas um par√°grafo, a resposta de E. J. Moran Campbell, o grande fisiologista respirat√≥rio: “muitas, se n√£o a maioria (das hip√≥teses), prov√©m de nossa vis√£o de r√≥tulos diagn√≥sticos como id√©ias explicativas que amarram nossa compreens√£o da biologia humana √†s enfermidades de nossos pacientes. Tamb√©m, e especialmente com a experi√™ncia, muitas hip√≥teses saltam aos olhos por reconhecimento de padr√£o de um tipo que gera possibilidades m√ļltiplas em lugar de uma √ļnica, de muito alta probabilidade”. N√£o h√° maiores coment√°rios sobre o assunto no livro apesar da beleza e profundidade da frase. A primeira ora√ß√£o refere-se √† tens√£o que √© quebrada quando fazemos um diagn√≥stico (ou pensamos que fazemos). Cuidar de um paciente sem diagn√≥stico √© um dos fatores de maior estresse psicol√≥gico para um m√©dico. Da√≠ a tens√£o que faz gerar hip√≥teses. Quando uma delas se encaixa (ou parece se encaixar), o m√©dico se sente em territ√≥rio conhecido e fica seguro de si e de seus atos. A segunda ora√ß√£o merece um pouco mais de reflex√£o. Diz ela que com a experi√™ncia, algumas hip√≥teses s√£o criadas por reconhecimento de padr√£o, mas de um tipo especial, pois ao inv√©s de uma hip√≥tese de alta probabilidade como j√° discutido acima, gera v√°rias que necessitam ser
demonstradas atrav√©s de uma atividade intelectual. Seriam a gera√ß√£o de hip√≥teses e sua posterior dedu√ß√£o apenas uma seq√ľ√™ncia de tentativas frustradas de reconhecimento de padr√£o na qual se necessitam mais dados para sua comprova√ß√£o? Para responder a essa pergunta, precisamos conhecer um pouco mais sobre o mecanismo gerador das hip√≥teses. H√° evid√™ncias [4] de que uma hip√≥tese diagn√≥stica √© formulada antes do primeiro minuto de uma consulta. E, aproximadamente 6 minutos ap√≥s ouvir a queixa principal do paciente, um m√©dico bem treinado √© capaz de formular uma hip√≥tese diagn√≥stica que em 75% das vezes √© o diagn√≥stico correto. Ora, todos esses achados lembram muito um processo intuitivo. A intui√ß√£o, por sua vez, pode ser o ponto de chegada, a conclus√£o de um processo de conhecimento, e pode tamb√©m ser o ponto de partida de um processo cognitivo. O processo de conhecimento, seja o que produz uma intui√ß√£o, seja o que parte dela, constitui a raz√£o discursiva ou o racioc√≠nio. Pode-se ent√£o, imaginar que a estrat√©gia hipot√©tico-dedutiva parte de uma intui√ß√£o e atrav√©s do racioc√≠nio chega a confirma√ß√£o desta intui√ß√£o ou a uma nova, com outputs de hip√≥teses diagn√≥sticas como mostra a figura. Da maneira como vemos a estrat√©gia hipot√©tico-dedutiva, a intui√ß√£o √©, no m√≠nimo, t√£o utilizada quanto racioc√≠nio cl√≠nico para se atingir um diagn√≥stico.

[1] Nunes, MPT & Martins, MA. História Clínica. Semiologia Clínica. 2001. páginas 11-19.
[2] Chauí, M. Convite à Filosofia. 2000.
[3] Sackett D, Haynes B, Guyatt G, Tugwell P. Clinical Epidemiology. A basic science for clinical medicine. p√°ginas 3-18.
[4] Barrows HS, Norman GR, Neufeld VR, Feightner JW. The clinical reasoning of randomly selected physicians in general medical practice. Clin Invest Med. (5) 1:49-55. 1982.

Sa√ļde, Doen√ßa, √äxito T√©cnico e Sucesso Pr√°tico

ResearchBlogging.orgUma s√©rie de posts do Cretinas (aqui e aqui) servir√£o como mote para uma delimita√ß√£o que h√° tempos eu gostaria de ter feito. Nos posts √© feita uma cr√≠tica sobre os gastos do SUS com m√©todos “alternativos” de tratamento como homeopatia, acupuntura, tai-chi-chuan, etc. Longe, mas muito longe mesmo, de defender o governo quanto a algumas pol√≠ticas de sa√ļde adotadas, e de defender tais pr√°ticas “alternativas” sobre as quais j√° confessei minha ignor√Ęncia (aqui e aqui), acho que chamar esse tipo de atitude de desonestidade intelectual √© “pegar um pouco pesado”. Em particular, pelo fato de que, na minha opini√£o, h√° uma confus√£o conceitual entre sa√ļde e doen√ßa na base desse racioc√≠nio e que ser√° o motivo desse post.

(Antes de mais nada, ningu√©m perguntou aos pacientes submetidos a esses programas se eles sentiram melhor ou n√£o. Era a primeira coisa a ser feita antes de qualquer tipo de cr√≠tica. O acolhimento que determinadas pr√°ticas dentro de um contexto do “cuidado em sa√ļde”, proporcionam √©, por si mesmo, terap√™utico. Pelo que pude apurar (informalmente), houve aumento dos gastos em decorr√™ncia do aumento enorme das solicita√ß√Ķes desse tipo de programa. Ver o outro lado √© fundamental.)

Mas fa√ßamos um exerc√≠cio – como Z√© Ricardo Ayres fez – para tentarmos aumentar nossa compreens√£o sobre o bin√īmio sa√ļde-doen√ßa. Se perguntarmos a um grupo de pessoas “voc√™ se sente saud√°vel?” quantos responderiam “sim”, quantos “n√£o” e quantos n√£o saberiam dizer, √© dif√≠cil de estimar. Se, por outro lado, pergunt√°ssemos “voc√™ est√° doente?” as respostas seriam presumivelmente mais uniformes. A ideia aqui ser√° demonstrar que sa√ļde e doen√ßa fazem parte de universos bastante diferentes, falam de coisas diferentes e de maneiras inteiramente diferentes. Algu√©m com diabetes controlado ou soropositivo para o HIV pode responder que se sente saud√°vel apesar de ter de fato, uma doen√ßa. Por outro lado, um indiv√≠duo em quem n√£o se diagnostica nenhuma doen√ßa, pode n√£o ter a viv√™ncia da sa√ļde. A algu√©m que respondesse “sim” √† pergunta se estava doente, poder√≠amos continuar perguntando “mas que tipo de doen√ßa voc√™ tem?”. Entretanto, ao que respondeu “sim” √† pergunta se estava saud√°vel, n√£o faz sentido perguntar “mas que tipo de sa√ļde voc√™ tem?”. Talvez, fosse mais racional perguntar “o que voc√™ quer dizer com isso?”. J√°, perguntar ao “doente” “o que voc√™ quer dizer com estar doente, ou estar diab√©tico ou estar com HIV?” √© que n√£o faz sentido! O significado de “diabetes” e “HIV” est√° validado em qualquer discuss√£o sobre o assunto. Isso quer dizer que tem validade  intersubjetiva (entre sujeitos). Dito de outro modo, no caso do diabetes, uma “racionalidade de car√°ter instrumental j√° deixou claro de antem√£o para os participantes do di√°logo que o conhecimento das regularidades e irregularidades do n√≠vel de glicose circulante em nosso sangue fornece elementos para prever e controlar altera√ß√Ķes morfofuncionais indesej√°veis, com efeitos que v√£o de sensa√ß√£o de fraqueza at√© a morte.” O lado da sa√ļde, n√£o tem a mesma valida√ß√£o. Existe, portanto, uma assimetria enorme de legitimidade de discursos, favorecendo o que se chamou de discurso casual-controlista da abordagem biom√©dica que predomina amplamente. Essa predomin√Ęncia √© que permite a algumas correntes tachar as atuais pr√°ticas de sa√ļde como “desumanizadas” por um lado e, por outro, abre a perspectiva a cr√≠ticas sobre a cientificidade de determinadas pol√≠ticas, em especial, √†s relacionadas √† medicinas alternativas, como fez o Cretinas.

√Č preciso separar os conceitos de √™xito t√©cnico e sucesso pr√°tico. √äxito t√©cnico refere-se √† raz√£o instrumental da a√ß√£o – por exemplo, se uso um vasodilatador para redu√ß√£o da press√£o arterial, consigo diminuir o risco de acidentes cardiovasculares, ponto final. Sucesso pr√°tico diz respeito √† atribui√ß√£o de valores e implica√ß√Ķes simb√≥licas, relacionais e materiais do fato de um paciente ser hipertenso. O que significa para esse paciente assumir a identidade de hipertenso? Nas palavras de Ayres, “√™xito t√©cnico diz respeito a rela√ß√Ķes entre meios e fins para o controle do risco ou dos agravos √† sa√ļde, delimitados e conhecidos pela biomedicina. O sucesso pr√°tico diz respeito ao sentido assumido por meios e fins relativos √†s a√ß√Ķes de sa√ļde frente aos valores e interesses atribu√≠dos ao adoecimento e √† aten√ß√£o √† sa√ļde por indiv√≠duos e popula√ß√Ķes”. As rela√ß√Ķes s√£o objeto da raz√£o instrumental e da ci√™ncia m√©dica, j√° sabemos. J√°, as a√ß√Ķes de sa√ļde causam efeitos nos indiv√≠duos e os significados desses efeitos – o sentido – s√£o objeto de uma raz√£o pr√°tica. √Č aqui que a coisa se complica. A raz√£o pr√°tica √© eminentemente √©tica: se preocupa com os meios para atingir os fins. Digo a um paciente “o Sr. √© hipertenso, precisa tomar esse rem√©dio!” Ele poderia responder “Dr., n√£o tenho dinheiro para tomar esse rem√©dio; ou, n√£o quero tomar esse rem√©dio; ou ainda, n√£o sou hipertenso!” Como proceder? Deveria mostrar a esse paciente um artigo dizendo que √© melhor ele tomar a medica√ß√£o? Um √™xito t√©cnico n√£o garante o sucesso pr√°tico. Cabe discutir se o contr√°rio, o sucesso pr√°tico sem sua contrapartida instrumental do √™xito t√©cnico, √© l√≠cito ou n√£o. Entretanto, s√≥ essa discuss√£o j√° valeria todo o trabalho do post, pois sua simples instaura√ß√£o reconhece que a medicina n√£o √© redut√≠vel √† ci√™ncia m√©dica.


Fonte: Ayres, J. (2007). Uma concep√ß√£o hermen√™utica de sa√ļde Physis: Revista de Sa√ļde Coletiva, 17 (1) DOI: 10.1590/S0103-73312007000100004

Diagnóstico

Diagn√≥stico vem do grego, pra variar: őīőĻő¨ő≥őĹŌČŌÉő∑, onde őīőĻőĪ dia- “por meio de”, and ő≥őĹŌéŌÉő∑ gnosis “conhecer”. Para os gregos era a identifica√ß√£o da natureza de alguma coisa. J√° falamos sobre diagn√≥stico e desdiagn√≥stico. O momento do diagn√≥stico √© um aliviador de tens√£o dos dois lados da mesa do consult√≥rio, apesar de ser mais um come√ßo do que um fim. Muita gente j√° se interessou sobre esse momento e tentou entender como um m√©dico chega a ele. Eu vou tentar dar minha contribui√ß√£o. Para isso, vou utilizar alguns exemplos tirados de um interessante livro chamado “A Banheira de Arquimedes” de David Perkins, matem√°tico e estudioso de intelig√™ncia artificial do Massachusetts Institute of Technology. Os exemplos s√£o pr√≥ximos de dois modos-padr√£o de como um m√©dico diagnostica certas doen√ßas. Depois discutiremos a resolu√ß√£o de cada um.

Exemplo 1 РA soma abaixo está expressa em letras. No lugar de um dos dígitos de 0 a 9, temos as letras A, B e C. Dada a soma, qual o valor de A, B e C?

    A A
+ B B
C B C

Exemplo 2 РFaça quatro linhas retas que passem por todos os nove pontos no diagrama a seguir, sem levantar o lápis do papel (Moçada, não vale passar pela mesma reta 2 vezes, ok?).

‚ÄĘ ¬†¬†‚ÄĘ ¬†¬†‚ÄĘ
‚ÄĘ ¬†¬†‚ÄĘ ¬†¬†‚ÄĘ
‚ÄĘ ¬†¬†‚ÄĘ ¬†¬†‚ÄĘ
E a√≠? Conseguiu resolver, digo diagnosticar? O leitor perceber√° que os problemas s√£o bastante diferentes em rela√ß√£o √†s aptid√Ķes cognitivas requeridas para sua resolu√ß√£o. No exemplo 1 podemos chegar a resposta correta apenas nos utilizando de um racioc√≠nio l√≥gico – passo a passo, por elimina√ß√£o e tentativa-e-erro. O exemplo 2 √© diferente. Ficamos muito tempo girando em c√≠rculos, quase que sem sair do lugar. Rabiscamos v√°rias retas, mas parece haver uma “pegadinha” (que n√£o h√°!) na solu√ß√£o. Estudos indicam que esse tipo de problema, ou √© resolvido em alguns minutos ou a tend√™ncia √© abandon√°-lo. Qual ser√° sua alternativa?

O Pal√°cio Industrial

(via 100nexos)


“Mechanistic explanations seek to reduce principles to the least possible number, to explain in terms of the least common denominator, of parts rather than wholes, conditions rather than reasons. They seek to place all explanations at one level. A mechanistic explanation must be both logically simple and automatic.” (Marjorie Grene)

Segundo Ernst Cassirer [1] parece ter sido Driesch em 1904 quem primeiro adiantou a ideia de “mec√Ęnica do desenvolvimento”. Roux [2] (foto), entretanto, radicalizou o conceito e sugeriu um “novo ramo na ci√™ncia biol√≥gica cuja miss√£o seria demonstrar a completa analogia entre a biologia e a f√≠sica”. Para que esse intento tivesse √™xito, era necess√°rio que o organismo fosse regido eminentemente por for√ßas mec√Ęnicas. O mecanicismo come√ßava a fazer frente √†s potencialidades aristot√©licas, d√≠namys e entel√©quia, que tanta confus√£o e discuss√£o haviam causado at√© ent√£o. O mecanicismo ainda povoa o pensamento ocidental, seja por suas explica√ß√Ķes, seja pelo temor da influ√™ncia no modo de ser humano.

Um bom exemplo disso √© Fritz Kahn. Em 1927, ele concebeu o homem como pal√°cio industrial e v√°rias outras ilustra√ß√Ķes que recentemente foram compiladas em um livro. Sua figura do homem-m√°quina pode ser vista aqui. Henning Lederer √© um artista pl√°stico contempor√Ęneo fan√°tico por mecanismos. Al√©m de “animar” o Pal√°cio Industrial de Kahn, animou outras obras de arte sempre tendo como tema mecanismos altamente complexos que acabam por determinar a vida do homem, quase que como uma invers√£o do “mecanicismo” original. Abaixo v√£o o “Homem como Pal√°cio Industrial” e o “Showreel” ambos de 2009. Feliz 2010 a todos!

Der Mensch als Industriepalast [Man as Industrial Palace] from Henning Lederer on Vimeo.

Showreel 2009 from Henning Lederer on Vimeo.

[1] Cassirer, E. El problema del conocimiento IV. Fondo de Cultura Económica. Mexico. 5a reimpressão. 1993. pág 229-262.
[2] Roux, W. Der Entwicklungs-Mechanik. 1905. apud [1].
Foto de Wilhelm Roux daqui.