Genômica Pessoal


A possibilidade de sequenciamento genético total do genoma humano abre as portas para uma genômica pessoal ou medicina personalizada, assunto já abordado no blog no tocante ao conceito de doença. A idéia é que, no futuro, você irá ao médico, cuspirá em um copinho e receberá em uma espécie de pendrive sua sequência genômica pessoal, podendo guardá-la em um drive virtual na internet que futuros médicos poderão acessar para descobrir doenças e tratá-las com terapia gênica (ver post de 25/05/08 no ciencia em dia). Em uma entrevista ao portal Medscape, o Dr. Francis Collins (Director of the National Human Genome Research Institute at the National Institutes of Health – NIH) lista as possibilidades impressionantes de uma medicina genômica.

Essa estória de cuspir no copinho já pode testar sua chance de apresentar algumas das doenças mais temidas, como por exemplo, a doença de Alzheimer. Uma das empresas que fornece esse serviço tem o sugestivo nome de Decodeme! (O logo bem que poderia ser uma esfinge!)

Tal a fúria dos novos conceitos que agora, aos clássicos riscos epidemiológicos ambientais e os gerados por determinados estilos de vida, foi acrescido o risco genético: risco do qual não se pode fugir, como nos ambientais, nem tampouco mudar voluntariamente, como um mau hábito. Simplesmente está no seu corpo! Chamam-no macabramente de risco corporificado! Gostaria de ouvir a opinião dos epidemiologistas sobre o caso.

O CDC (Center of Disease Control), a agência americana responsável pelo controle de enfermidades, criou um escritório para acompanhar essas mudanças: o National Office of Public Health Genomics , NOPHG. Esse, por sua vez, criou um enorme banco de dados chamado HuGENet (mais direto impossível) com o objetivo de “assessment of the impact of human genome variation on population health & how genetic information can be used to improve health & prevent disease”.

Como tudo isso está muito vinculado a empresas de biotecnologia, que movimentam extensos capitais e são ligadas a governos e empresas multinacionais importantes no mundo todo, alguns setores da sociedade científica acenderam a luz amarela. A Plos publicou em 25 de Março suas recomendações para ética em pesquisa genômica. O próprio Genome.gov tem as suas.

A medicina personalizada é tudo venho tentando praticar (e ensinar!) mas, não sei por quê, não acredito que esse seja o caminho a ser trilhado. O proponentes dessa nova tecnologia acusam seus críticos de comportamento paleo-determinista. Pode ser. Mas, qual é a utopia final desse projeto?

Fazer medicina preventiva personalizada com genes para mim, é mais ou menos como enfrentar o velho problema da hierarquia em biologia evolutiva: onde a seleção natural atua? Na espécie, no indivíduo ou nos seus genes? Se nos últimos, poderiam eles captar a totalidade do fenômeno biológico seja ele, a sobrevivência do mais apto, no caso da evolução; ou o sofrimento patológico do ser humano, no nosso caso?

Meandros


É possível ter-se um conhecimento correto de uma parte sem se saber a natureza do todo? A resposta a essa pergunta pode parecer simples inicialmente, principalmente quando essa indagação é sobre o mundo físico, vide o sucesso da ciência atual. Mas, quando envolve seres vivos (a espécie humana, inclusive), parece que o problema toma outras proporções e fica evidente uma metafísica embutida na pergunta inicial.

Metafísica, pois envolve questões finalistas; além da física; envolve uma compreensão de universo particular. Envolve uma racionalidade pluralista, pois pressupõe sistemas isoláveis na natureza e pode, por essa razão, ser também chamada positivista.

O perigo do positivismo não é não conseguir fugir do pensamento metafísico – o que é impossível; é, ao contrário, não reconhecer que ele está enraizado na racionalidade humana. Se não se reconhece as recorrentes (e muitas vezes, inconscientes) tentativas metafísicas de nosso pensamento, corremos o risco de transmiti-las, acriticamente, mais rápido que outros conceitos, pois ao invés de utilizarmos a argumentação direta, o faremos da forma mais persuasiva e sensível ao homem: a insinuação. Linguagem das entrelinhas. Extremamente poderosa, principalmente quando se fala de abstrações e divindades. Ao invés de abrir portas, favorecerá uma certeza coberta com o véu que esconde a eterna dúvida.

Mais Neo-obscurantismo

Essa foi demais. Veja a Folha online 19/05/08. Decisões judiciárias baseadas em psicografia são um passo para a MBAP (Medicina Baseada em Artigos Psicografados!). Quem sabe o Hipócrates não dá uma luzinha…

Neo-obscurantismo

Segundo Morin, o desenvolvimento científico comporta um certo número de traços “negativos” que são bem conhecidos, mas que, muitas vezes, só aparecem como inconvenientes secundários:

1) Superespecialização: enclausuramento ou fragmentação do saber;

2) O ponto de vista das ciências da natureza exclui o espírito e a cultura que produzem.

3) Revolução na história do saber, em que ele, deixando de ser pensado, meditado, refletido e discutido por seres humanos, integrado na investigação individual de conhecimento e de sabedoria, se destina cada vez mais a ser acumulado em bancos de dados, para ser, depois, computado por instâncias manipuladoras, o Estado em primeiro lugar.

4) Neo-obscurantismo. O especialista torna-se ignorante de tudo aquilo que não concerne a sua disciplina e o não-especialista renuncia prematuramente a toda possibilidade de refletir sobre o mundo, a vida, a sociedade, deixando esse cuidado aos cientistas, que não têm nem tempo, nem meios conceituais para tanto.

Essa última, tem especial aplicação à prática médica contemporânea e aos “cientistas em exercício ilegal da medicina”.

Genes e Nosologia

Ainda sobre o artigo de Pollack, que muito me intrigou:

Se considerarmos minimamente a evolução humana, podemos entender que somos fruto de uma série de contingências que por uma ou outra razão, possibilitaram nossa sobrevivência e de nossos descendentes, sob as mais variadas e hostis condições ambientais. Condições que ou deixaram de existir, ou foram substituídas por outras, mais recentes. Por exemplo, recente nosso acesso ao sal e às gorduras insaturadas. A avidez por essas substâncias foi muito útil em determinados períodos da evolução, mas com certeza, não é o caso agora.

Ao desenhar o mapa das doenças, quem vai contar essa história? De que me adianta saber que a distrofia de Duchenne está ligada a doenças cardiovasculares? A pergunta muito mais interessante é: Por que elas estão ligadas?

Para evoluir e sobreviver, ganhamos doenças! A Vida carrega a Morte dentro de si. Essa continua sendo a grande contradição da existência.

Novo Conceito de Doença

Interessante o artigo de Andrew Pollack no New York Times que recortei do blog do Marcelo Leite.

Nesse artigo, o repórter científico fica entusiasmadíssimo com a possibilidade de se redefinir doenças a partir de sua similaridade genética. Nas palavras dele:

“Dr. Butte, an assistant professor of medicine at Stanford, is among a growing band of researchers trying to redefine how diseases are classified — by looking not at their symptoms or physiological measurements, but at their genetic underpinnings. It turns out that a similar set of genes is active in boys with Duchenne and adults who have heart attacks.

The research is already starting to change nosology, as the field of disease classification is known. Seemingly dissimilar diseases are being lumped together. What were thought to be single diseases are being split into separate ailments. Just as they once mapped the human genome, scientists are trying to map the “diseasome,” the collection of all diseases and the genes associated with them.”

“Diseasome”? Um mapa gênico de doenças! Um novo jeito de ver, cria novas concepções de mundo (e vice-versa! Acho que Bachelard já tinha dito isso!). Tudo teria uma base genética, não é mesmo?

Mas, o que dizer então, das irritantes doenças de diagnóstico puramente clínico como por exemplo a fibromialgia, enxaquecas, depressões, sem contar na infinidade de distúrbios psiquiátricos. O autor mesmo responde:

“Indeed, Dr. Duffin said, people who feel sick nowadays “don’t get to have a disease unless the doctor can find something” and instead might be told that it’s all in their head. Doctors argue, for instance, about whether fibromyalgia or chronic fatigue syndrome, which have no obvious anatomical causes, are really diseases.”

Mas, achar um defeito na síntese de uma proteína importante para determinada ação biológica e suas relações com outras disfunções não supostas antes é, de fato, mapear as doenças da espécie humana?

Etiquette-Based Medicine?

Mais um aspecto do não-mensurável, não-medido, não-dito? O universal se contrapõe ao particular. Seria a hora de prestarmos mais atenção ao singular, que está fora desse eixo, como pensou um médico-filósofo? Segue o texto do psiquiatra Michael W. Kahn.

“Etiquette-based medicine would prioritize behavior over feeling. It would stress practice and mastery over character development. It would put professionalism and patient satisfaction at the center of the clinical encounter and bring back some of the elements of ritual that have always been an important part of the healing professions. We should continue our efforts to develop compassionate physicians, but let’s not overlook the possibly more immediate benefits of emphasizing good behavior.”

A Ciência Quadrúpede

Morin disse certa vez que a Ciência anda em quatro patas. As patas que sustentariam o corpo científico seriam empirismo, racionalismo, imaginação e verificação. Mas, ela seria um “animal” bastante estranho. Isso por que as patas poderiam ter importância diferente dependendo de cada época e, principalmente por que poderiam brigar entre si! Por paradoxal que possa parecer, é exatamente no momento do conflito que o tal “animal científico” anda mais rápido! Racionalismo e empirismo respondem pela maioria das brigas e parecem ser as patas anteriores. Imaginação e verificação, co-irmãs porém não menos belicosas, as de trás.

Quando li isso pela primeira vez, logo pensei, mas ué?! Quem seria a cabeça? Sendo a cabeça aquela que dá direção ao corpo, a “fera” poderia ter duas cabeças: Moral e Ética? Não. Logo me dissuadiram dessa hipótese. Uma cabeça: Ideologia? Capital? A simples Curiosidade Humana? Não cheguei a conclusão nenhuma.

Me é irresistível, entretanto, conjecturar que tipo de aberração seria, então, o “animal” Medicina.

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