Evolução e a Reação de Estresse

Imagine um hominídeo – nos primórdios da espécie. Há indícios de protossímios no quaternário do período cenozóico. Isso quer dizer mais ou menos 50 milhões de anos atrás, “logo após” a extinção dos dinossauros, que ocorrera dezenas de milhões de anos antes. A Terra seria então, povoada por grandes mamíferos e alguns macacos estranhos.

Imagine esse macaco caminhando numa floresta repleta de ameaças como tigres-dente-de-sabre, cobras gigantes, manadas de mamutes e outros bichos medonhos. Eis que, ao procurar frutas silvestres ou insetos para comer, se desgarra do grupo e se vê há alguns metros de distância em uma mata fechada, dando de cara com um esfomeado e enorme tigre-dente-de-sabre que o espreitava, lambendo os beiços. O quadro abaixo mostra um esquema das reações hormonais que se seguem, convencionalmente chamadas de reações de luta ou fuga, comuns a todos os mamíferos

Como funciona o medo

por Julia Layton – traduzido por HowStuffWorks Brasil

O aumento dos hormônios de estresse, adrenalina, noradrenalina e cortisol causa mudanças no organismo:

  1. aumento da pressão arterial e freqüência cardíaca, preparando o organismo para um exercício intenso;
  2. as pupilas dilatam para receber a maior quantidade possível de luz; O importante não é o foco. Aqui, muito mais importante são as variações mínimas de luz e sombra que podem definir um ataque, uma saída, algo que pode colocar o indivíduo em vantagem;
  3. as artérias da pele e tecido subcutâneo se contraem (vasoconstrição) desviando o fluxo sanguíneo aos grupamentos musculares mais importantes (reação responsável pelo “calafrio” muitas vezes associado com o medo – há menos sangue na pele para mantê-lo aquecido); O indivíduo fica pálido;
  4. o teor do suor se modifica; Esse suor associado à vasoconstrição periférica resulta na sudorese fria bastante conhecida nessas situações. Em situações de estresse, emitimos cheiros diferentes. Isso é usado como esquiva em muitos animais;
  5. Há uma tonificação dos músculos, a piloereção ocorre quando pequenos músculos conectados a cada pêlo da superfície da pele tensionam, os fios são forçados para cima, puxando a pele com eles; Essa é uma resposta muito importante. Os animais com a pele recoberta de pelos ficam “arrepiados” dando a impressão que são maiores e mais ameaçadores. Animais como o porco-espinho, permitem que seus grossos e afiados pêlos se desprendam, causando lesões em seus agressores;
  6. O cérebro trabalha em ritmo acelerado. Não há prioridade em se concentrar em tarefas pequenas (deve-se concentrar apenas em sobreviver).

Esse tipo de resposta estereotipada foi conservado pela evolução. Daí concluirmos que ele deve conferir algum tipo de vantagem pois os organismos que a possuiam tinham mais chances de sobreviver e passá-la a seus descendentes. Temos portanto, o mesmo tipo de resposta até hoje. Basta levarmos um grande susto, ou recebermos uma notícia muito ruim, ou mesmo termos a nítida sensação de que vamos ser assaltados. Essa sensação é uma reação de estresse.

Então, o “macaco” veio morar na cidade. Nosso modo de vida urbano, transformou nosso cotidiano em um constante estado de estresse. Ficamos ansiosos com trânsito, violência, dinheiro, trabalho, etc. Nossas fontes de estresse pré-histórico, em especial a fome, não são o problema principal (pelo menos nos países industrializados!). Esse estresse constante tem como consequência uma “pré-ativação” desse sistema de luta ou fuga. Ás vezes, essa reação é desencadeada desproporcionalmente em resposta a estímulos pequenos. Pior, em determinadas situações, não conseguimos identificar o estímulo que está a causá-la! Agora, imagine, todas essas reações descritas (dilatação pupilar, sudorese fria, taquicardia e palpitações, respiração curta e rápida, e etc) sem uma causa identificável. O quadro é desesperador!

Associe-se a isso a hipocalcemia. Sim, o cálcio é um cátion que no sangue está dividido em duas grandes porções: a livre, que age na contração muscular principalmente, e a ligada à proteínas. Quando um indivíduo tem uma crise como a descrita, sua tendência é fazer uma hiperventilação. Essa hiperventilação reduz drasticamente o teor de gás carbônico no sangue causando um aumento do pH sanguíneo o que leva a uma maior afinidade das proteínas pelo cálcio. Ele é “sequestrado” da porção livre no plasma o que leva a uma hipocalcemia aguda. A hipocalcemia causa contrações involuntárias dos músculos, principalmente faciais e dos membros superiores. Invariavelmente, o indivíduo pensa que está tendo um derrame! Sua boca se fecha, sua língua enrola, suas mãos não se movimentam direito, além do que apresentam intenso “formigamento”. (Daí a prática, não recomendada, de respirar num saco. O gás carbônico aumenta e o efeito desaparece).

Esse tipo de reação intensa e extenuante leva o indivíduo à um pronto-socorro. Lá chegando, recebe o diagnóstico de ansiedade aguda, crise de pânico, piripaque, piti, distúrbio neuro-vegetativo (jargão médico que não quer dizer absolutamente nada!) e um calmante (normalmente, benzodiazepínico). O quadro melhora progressivamente e o paciente é liberado. Nunca será curado assim! Casos com essa gravidade merecem acompanhamento minucioso. Medicação ajuda muito na fase aguda, terapia funciona a longo prazo. Tudo devido a uma resposta orgânica mal-utilizada, mal-adaptada. Temos reação de estresse quando praticamos esportes e damos aquela “raça” para ganhar um jogo; ou quando vemos de fato o perigo a nos ameaçar. Poderíamos dizer que são “instintos básicos” de sobrevivência como fome, sede, cuidar dos filhos. Mas quando presentes em situações inadequadas, eles são perigosos e devemos entender como funcionam para evitar seus efeitos ruins. Esse entendimento não ocorre se não tivermos conceitos de teoria da evolução presentes. Evolução e Medicina. Separá-los é perder a possibilidade de compreendê-los.

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Simpósio sobre Placebo

Para divulgar o I Simpósio Internacional em Placebo com início em 12 de Fevereiro de 2009. Muitos dos temas foram comentados aqui no Ecce Medicus. Mais informações no site do Instituto Scala.

Dia 1 – 12 de fevereiro de 2009 – quinta-feira (das 18:00 às 22:00hs)
História do efeito placebo em medicina: da adivinhação e rituais mágicos ao uso de estudos placebo-controlados na medicina baseada em evidências.

Ted Kaptchuk, Harvard University

Pesquisando o efeito placebo: como investigar o efeito placebo?

Ted Kaptchuk, Harvard University

Controvérsia: existem pacientes respondedores ao placebo?

Ted Kaptchuk, Harvard University

Dia 3 – 13 de fevereiro de 2009 – sexta-feira (das 14:00 às 18:00hs)
Discussão de estudos importantes em placebo: papel da expectativa e condicionamento no efeito placebo e efeito placebo em dor e ansiedade

Ted Kaptchuk, Harvard University

Efeito placebo na medicina alternativa e acupuntura

Ted Kaptchuk, Harvard University

Induzindo malefícios através da sugestão: discussao do efeito nocebo

Ted Kaptchuk, Harvard University

Dia 3 – 14 de fevereiro de 2009 – Sábado (das 09:00h às 16:00h)
Efeitos neurais do efeito placebo: mecanismos de ação do efeito placebo

Felipe Fregni, Harvard University

Efeito placebo em psiquiatria: antidepressivos não são superiores a placebos?

Laura Guerra, University of Sao Paulo

Placebo em pesquisa clinica: aspectos éticos do uso de placebo em pesquisa clinica

Paulo S. Boggio, Mackenzie University

Efeito placebo em Homeopatia: discussão do efeito placebo da prática médica humanizada

Marcus Zulian Teixeira, University of Sao Paulo

Novas ferramentas para investigação do efeito placebo: eletroencefalograma, neuroimagem e estimulação magnética transcraniana

Felipe Fregni, Harvard University

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2009 – O Ano de Darwin

Em 2009 vamos comemorar 200 anos do nascimento de Charles Darwin (1809-1882) e 150 anos da publicação d’ “A Origem das Espécies” (1859). Por que comemorar? No caso da área médica, sem dúvida essa seria uma pergunta interessante.

Durante todo o curso de Medicina eu não tive uma aula formal sequer sobre a(s) Teoria(s) da Evolução. O primeiro contato um pouco mais organizado foi em uma atividade extracurricular organizada por um professor de neurofisiologia. A impressão é que a evolução ou a teoria darwiniana não tinham a menor importância para a Medicina de um forma geral. Dizia-se até que a Medicina era uma atividade humana que ia na contra-mão da evolução, já que permitia que seres menos aptos sobrevivessem nos dias de hoje. Como se a humanidade tivesse criado uma forma de resistência a uma “lei geral da natureza”! Belíssimo exemplo do eritis sicut dii.

Depois desse contato inicial, li a “Origem das Espécies” em espanhol no 3o ano. Tive enorme dificuldade com os nomes dos bichos e só consegui terminar a leitura quando abstraí os animais dos exemplos (e quem leu sabe que são inúmeros!) e foquei nos conceitos. Mesmo assim, tive problemas para entendê-los. Depois, como que picado por algum mosquito, li Dawkins, Gould, Maynard-Smith, Szathmáry, Mayr e tantos outros. Achei o máximo a Teoria do Macaco Aquático de Elaine Morgan. Fui convidado a dar uma aula na Associação Paulista de Medicina sobre uma idéia que relacionava essa teoria com a apnéia do sono. Ninguém entendeu nada! A bem da verdade, acho que eu também não!

Fiquei, entretanto, fascinado com as possibilidades de contato entre a teoria evolucionária e a Medicina. Mais especificamente, comecei a pensar no conceito evolucionário de doença, algo que ainda carece alguma elaboração. Em 1995 li, na New England, a resenha de um livro que parecia ir na mesma direção “Why We Get Sick?” de Randolph Nesse e George Williams. O livro não deixa de ter alguns conceitos interessantes, apesar de explorar mais a face adaptacionista do problema. Fala muito mais sobre respostas do organismo do que sobre conceitos evolucionários aplicados a doenças da forma como eu esperava (ver aqui o artigo de 1991 que originou o livro). Além disso, pretendia fundar uma “nova ciência” chamada Medicina Darwiniana. Nesse e colaboradores publicaram um interessante artigo na Science em 2006 onde “aliviam” alguns conceitos do livro. Por exemplo: “There is growing recognition that cough, fever, and diarrhea are useful responses shaped by natural selection, but knowing when is it safe to block them will require studies grounded in an understanding of how selection shaped the systems that regulate such defenses and the compromises that had to be struck.” Esse “when is safe to block them” não era uma idéia do livro. O livro termina com quadros psiquiátricos o que para mim o aproximou um pouco de inteligências emocionais e psicologias evolutivas da moda. Um resumo do livro saiu na Scientific American (sem a parte psiquiátrica).

Nos próximos posts, tentarei fazer um apanhado sobre isso, necessariamente incompleto. Mas contarei com o auxílio de um site bastante interessante que encontrei revendo meus alfarrábios digitais.

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10.000 Pageviews

Neste final de ano, o Ecce Medicus completou 10.000 pageviews. Uma marca significativa para um blog com menos de 1 ano, sobre um assunto que considero bastante árido (aliás, esse foi o leitmotif do blog). Essa marca foi atingida principalmente depois da mudança para o condomínio do Lablogatórios.
Neste final de ano, portanto, gostaria de agradecer de público ao convite do Carlos Hotta e do Atila Iamarino – o qual tive dificuldade em aceitar de prima, diga-se de passagem – para integrar esse prestigioso grupo e dizer que tenho a honra de estar aqui, e porque não, também um certo grau de tietagem, já que vários companheiros(as) estão na mídia convencional, seja em entrevistas, reportagens e até em concursos de beleza (o que não é o caso do Hotta, nem do Átila, tampouco!).
Me resta agradecer aos leitores, colaboradores e críticos do blog, aos organizadores do Lablog e desejar (sim, somos seres desejantes) a todos um 2009 com muitas alegrias, pageviews e reflexões para que, se não pudermos tornar o mundo melhor, pelo menos, nos tornarmos melhores.

Sobre Metástases

A última edição do New England Journal of Medicine tem um artigo sobre as bases moleculares das metástases. Há tempos queria ter escrito sobre elas. Sempre achei algo de bastante mórbido na disseminação do câncer. Sim, o leitor vai dizer, mas em qual doença não há? Eu concordo, mas insisto que nas metástases, mais que em outras doenças, há alguns requintes de crueldade contra a humanidade, com paralelo apenas em filmes ou romances de ficção. Filmes como Alien ou Resident Evil, têm seus conceitos de terror tirados de sistemas vivos como hospedeiros de outros sistemas vivos. Em determinado momento, o sistema vivo que está hospedado toma conta de tudo e passa a dominar o processo, o que invariavelmente costuma levar o hospedeiro à morte. Com o câncer metastático, parece ocorrer algo parecido. Um mérito desses filmes está em expor o sentimento aterrorizante de passar por uma experiência como essa. De fato, apesar de seguir alguns padrões de disseminação (ver figura abaixo), uma célula cancerosa pode colonizar virtualmente qualquer outra do organismo.

Um professor de patologia ao analisar um pulmão com metástases de um câncer de tecido muscular disse, certa vez, que o pulmão resolveu adotar um novo projeto: queria se transformar em um músculo! Mesmo dita em tom jocoso, essa frase ficou na minha cabeça. Trouxe para mim a idéia de que as células de um organismo obedecem de fato a algum comando central, um governo, que as mantem trabalhando em prol de um bem comum que é o organismo completo. Quando alguma célula resolve, egoisticamente, trabalhar independentemente isso é um câncer. Uma vez instalado, sempre há a possibilidade de que ele se dissemine, “colonizando” outros orgãos. É esse o termo utilizado. O câncer, a exemplo dos portugueses no séc. XV, partem para outras paragens distantes a fim de dominar e impor sua maneira de “ver o mundo”. Mesmo sob controle com quimioterapias, radioterapias e cirurgias, o paciente portador de um câncer deve saber que abriga células revolucionárias em seu organismo. Essas células, em situações de guerra, podem adotar táticas de guerrilha, se escondendo e fugindo para outros locais, para manifestar-se tempos mais tarde. É estranho pensar que um organismo possa ser portador de células que não partilham de seu projeto. Mas se pensarmos bem, a pergunta seria por que as outras obedecem sem reclamar? Qual o poder que as mantém unidas? Esse poder emana do conjunto que é o organismo?

Mas, por que o organismo? Sempre acabo voltando a essa pergunta. As respostas alternativas poderiam ser a espécie ou o gene. Essa é a velha discussão sobre a hierarquia da seleção natural. Onde a seleção natural se dá de fato. No nível da espécie (Gould), no organismo (Darwin) ou no gene (Dawkins). Esse presumível “comando” seria para preservar genes, o organismo ou a espécie?

E sempre que penso nisso, cada vez mais me convenço de que a doença faz parte da vida. Só pode ter câncer quem é multicelular. Dentre esses, só quem tem disponível um sistema de regeneração celular e cicatrização altamente desenvolvido. Sim, genes cancerígenos teriam a função de estimular o crescimento de células rapidamente – e nesse caso quanto mais rápido, melhor – com intuito de reparar um dano. Essa “arma” quando utilizada com outros objetivos, pode levar o organismo à própria morte. Não pudéssemos nós usufruirmos do fato de sermos um amontoado altamente organizado de células capazes de amar, sentir prazer, compreender nosso entorno e ousar sonhar, não teríamos cânceres de nenhuma espécie. Somos beneficiários e vítimas de uma complexidade. Cada um deve saber, portanto, da “dor e da delícia de ser o que é”.

Ainda Sobre Racismo

Interessante livro sobre racismo do qual fiquei sabendo no Biscoito que por sua vez leu no Liberal Libertário Libertino: The Racial Contract de Charles W. Mills.
A tese do livro, bastante foucaultiana aliás, pelo menos em uma primeira aproximação, é que o racismo é um sistema político e uma estrutura de poder baseados em um contrato social que seria na verdade, um contrato racial. Esse contrato funcionaria como uma “matrix”, chamada de “alucinação consensual” que impediria a correta interpretação da realidade. O LLL comenta:
“Na verdade, a força ideológica do Contrato Racial em criar e moldar a realidade é tamanha que ela mantém a maioria dos seus beneficiários em eterno estado de denegação histérica. Como enxergar a realidade significaria encarar também sua cumplicidade no Contrato Racial, apelam para “racionalizações tão fantásticas que beiram o patológico”, gerando uma “ignorância dolorosa tão estruturada” [a tortured ignorance so structured] que torna impossível levantar certas questões. Por mais que se aponte e se prove empiricamente a virulência do racismo, eles não acreditam e, paradoxalmente, não conseguem acreditar justamente porque sabem que é verdade. (Mills, 97)”
A estruturação do discurso racista se faz tão insidiosamente que se confunde com o “meio” no qual vivemos como se não houvesse outra alternativa. Assim como o peixe que não vê a água, também os pertencentes à raça dominante, não enxergariam o racismo. Como os objetivos são a manutenção do status quo, de privilégios a oportunidades, seria uma ferramenta fundamental de dominação que permearia todas as esferas da sociedade, todos os dispositivos do estado, todo e qualquer rincão onde o poder dominante pudesse ser ameaçado. Pergunto-me se a ciência, que sabemos ser um dispositivo fundamental na constituição do estado no capitalismo tardio, estaria fora desse circuito.
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Feliz Natal a todos.

O Fantasma do Amor


Pain by Kori Solomon at Flickr

Essa época do ano é bastante favorável à reaparição do fantasma que assombra a espécie humana desde os primórdios. Um fantasma que atormenta as mentes mais brilhantes e os menos favorecidos. Do mais completo atleta, seja futebolista ou olímpico, ao mais desajeitado homem ou mulher. Abate-se sobre ricos e pobres, homens e mulheres, velhos e novos: É o fantasma da depressão.
Sobre a depressão, escreveu Maria Rita Kehl:
“A depressão é uma forma muito particular e avassaladora daquilo que corriqueiramente chamamos a dor de viver. (…) À dor do tempo que corre arrastando consigo tudo o que o homem constrói, ao desamparo diante da voragem da vida que conduz à morte – que, para o homem moderno, representa o fim de tudo -, a depressão contrapõe um outro tempo, já morto: um “tempo que não passa”, na expressão de J. Pontalis. O psiquismo, acontecimento que acompanha toda a vida humana sem se localizar em nenhum lugar do corpo vivo, é o que se ergue contra um fundo vazio que poderíamos chamar, metaforicamente, de um núcleo de depressão. (…) A rigor, a vida não faz sentido e nossa passagem por aqui não tem nenhuma importância. A rigor, o eu que nos sustenta é uma construção fictícia, depende da memória e também do olhar do outro para se reconhecer como uma unidade estável ao longo do tempo. (…)”
“Contra esse pano de fundo de “nonsense”, solidão e desamparo, o psiquismo se constitui em um trabalho permanente de estabelecimento de laços -“destinos pulsionais”, como se diz em psicanálise- que sustentam o sujeito perante o outro e diante de si mesmo. (…) Amamos: a vida, os outros e sobretudo a nós mesmos. Estamos condenados a amar, pois com essa multiplicidade de laços libidinais tecemos uma rede de sentido para a existência. (…) A depressão é o rompimento dessa rede de sentido e amparo: momento em que o psiquismo falha em sua atividade ilusionista e deixa entrever o vazio que nos cerca ou o vazio que o trabalho psíquico tenta cercar. É o momento de um enfrentamento insuportável com a verdade. Algumas pessoas conseguem evitá-lo a vida toda. Outras passam por ele em circunstâncias traumáticas e saem do outro lado. Mas há os que não conhecem outro modo de existir; são órfãos da proteção imaginária do “amor”, trapezistas que oscilam no ar sem nenhuma rede protetora embaixo deles.”
O que Kehl chama de psiquismo é o conjunto de nossas faculdades cognitivas (raciocínio lógico, intuição, associação, etc) permeadas pelo nosso estado de humor. O humor de uma pessoa pode se entendido através da seguinte analogia: imagine que você está sentado em um teatro onde é o único expectador. A “peça” que se desenrola no palco nada mais é que sua própria vida cotidiana. O humor é o cenário, incluindo a música de fundo. Quando o cenário é lúgubre e a música triste, um acontecimento simples pode ser encarado como muito grave e de consequências desastrosas. Se por outro lado, o cenário é claro e colorido e a música alegre, os acontecimentos têm uma perspectiva muito mais positiva, mesmo que sejam tristes.
Como vimos, o amor é a salvação para o indivíduo pois tece uma rede de sentido e amparo que sustenta (o que na verdade seria insustentável): o indivíduo em sua insuportável existência sem sentido. Mas ficam as perguntas: Como age, então, o amor? Que tem o amor afinal a ver com a depressão?

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Epidemiologia Cognitiva

Um novo ramo da epidemiologia foi criado. É chamado de Epidemiologia Cognitiva. Consiste em considerar a baixa performance em testes cognitivos de qualquer espécie como fator de risco de mortalidade geral ou fator de risco para o aparecimento de determinadas doenças, por exemplo, doença coronariana. Até então, apenas desfechos “duros” (hard endpoints) tinham sido utilizados para demonstrar as associações entre “inteligência”, saúde e doença. Recentemente, outras associações começaram a aparecer devido à irresistível vontade em se correlacionar a inteligência com fatores evolutivos. Esse post recém-publicado se articula com esse conceito. Como bem lembrou Dra. Sandra do Leia o Rótulo, fatores ambientais podem influenciar o aparecimento de duas ou mais características que seriam co-relacionadas pelo meio e não envolvidas numa relação de causa-efeito.
Não por acaso, epidemiologistas convencionais argumentam exatamente a mesma coisa. Por exemplo, citam as condições sócio-econômicas na infância como responsáveis pela associação entre mortalidade e QI. Se as igualarmos para todos indivíduos estudados, as diferenças desaparecem. Os epidemiologistas cognitivos dizem que não. A correção de tais fatores não responde pelo efeito da performance cognitiva sobre a mortalidade. O assunto é complexo. Se a infância não responde por tudo, existe o argumento de que as condições econômicas dos adultos possa influenciar a mortalidade. Pessoas mais inteligentes trabalham em ambientes mais seguros e mais saudáveis; ou que pessoas mais inteligentes ouvem mais os conselhos médicos e terminam por fumar menos, fazer mais exercícios e assim por diante (coisa que, na minha experiência, está longe de ser verdade!). Além disso, existe um efeito chamado causalidade reversa: algumas doenças somáticas como diabetes e hipertensão, muito comuns em adultos, podem diminuir a função cognitiva e também aumentar a mortalidade.
O fato é que se as relações entre QI e mortalidade são complexas, imagine então a relação entre QI e qualidade do sêmen, preferências eleitorais (também aqui) ou sobrevivência na guerra. Vejo isso mais como um sintoma da epidemiologia do risco. No Risco, como já se disse, a especulação causal é a razão de ser da investigação biomédica e sugere vínculos causais para que as ciências biomédicas experimentais explorem “adequadamente” tais associações. Mas acho também que todo esse assunto merece ainda ser explorado e amadurecido para que possamos entender a relação entre inteligência, seja lá o que isso quer de fato dizer, e sofrimento humano. Esse último, todos sabemos bem o que é.

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Projeto Angola


Mapa de Angola na Wikipédia

Este post faz parte da blogagem coletiva do Lablogatórios sobre a África. Vou escrever sobre Angola.

Angola é um país da costa ocidental da África que foi uma antiga colônia de Portugal; é portanto, lusófono. Obteve sua independência em 1975. Desde 2002, Angola está em paz. De 1961 a 2002 esteve em guerra, primeiro em virtude da luta pela independência, depois como consequência da guerra civil que explodiu em 1975 entre os principais partidos de Angola, o Movimento Popular de Libertação de Angola e o partido da oposição União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA), de orientação socialista. Angola tem hoje, aproximadamente 16 milhões de habitantes, dos quais 3 milhões, moram na capital Luanda. Faz parte da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) e tem um PIB per capita de 4500 dólares, ocupando a 121a posição no ranking de paridade de poder de compra.

Desde 2002, o país enfrenta o desafio da reconstrução de seu sistema de saúde devastado pelo longo período de guerra. Vários orgãos internacionais têm participado desse projeto, entre os quais a OMS, Nações Unidas, UNICEF, Banco Mundial entre outros. O país tem aproximadamente 1.500 médicos, em média, um para cada 10.000 habitantes. Para se ter uma idéia, São Paulo tem 2,3 para cada 1000 habitantes. Os desafios na área são atendimento básico à população (grande maioria de jovens e crianças), assistência à saúde materna, desnutrição infantil, vacinação, controle da malária, tuberculose, HIV/Aids, hanseníase, doença do sono (um tipo de esquistossomose).

Um dos pontos desse projeto é o aumento da resolutividade dos hospitais locais, ou seja, aumentar o poder de tratamento de patologias cada vez mais complexas, visando à redução do número de doentes transferidos para o exterior para tratamento de saúde. Hoje, o governo gasta milhões de dólares com custeio de despesas médicas em outros países, como Portugal e África do Sul. Com essa finalidade estabeleceu-se um programa de capacitação de médicos especialistas angolanos atuantes em sete hospitais nacionais situados em Luanda, para que se tornem capazes de absorver 70% dos casos em 13 especialidades selecionadas e que atualmente, vêm sendo transferidos para o exterior. A cirurgia do Aparelho Digestivo integra a relação dessas especialidades selecionadas.

Para o desenvolvimento desse programa o Ministério da Saúde angolano solicitou a colaboração da Disciplina de Cirurgia do Aparelho Digestivo do Departamento de Gastroenterologia da Faculdade de Medicina da USP. O Prof. José Eduardo Monteiro da Cunha, professor Associado do Departamento de Gastroenterologia, foi indicado pelo Prof. Ivan Cecconello, Titular da Disciplina de Cirurgia do Aparelho Digestivo e Coloproctologia do Departamento, para coordenar e desenvolver essa atividade. O programa tem trazido excelentes resultados para os dois lados. Residentes de 4o ano da especialidade têm tido a inesquecível experiência de conhecer Angola e ensinar técnicas cirúrgicas de ponta aos médicos africanos. Uma médica cirurgiã já cursa um estágio presencial na disciplina e até este blogueiro tem interesse em implantar melhorias nas unidades de terapia intensiva locais.

Projetos como esse, fazem-nos lembrar a verdadeira vocação de uma universidade. Enchem nossos corações com aquela felicidade simples que traz a solidariedade; com aquele orgulho do bem de uma lição bem feita. A África é uma velha mãe. Projetos assim, lembram mais do filho que cuida da mãe do que daquele que a interna numa casa de repouso, enviando-lhe o dinheiro necessário das despesas. É um tipo de resgate. Um tipo de retorno. Um retorno ao colo pródigo.

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A Vingança dos NERDS

In press na revista Intelligence:
Intelligence and semen quality are positively correlated

Authors: Rosalind Ardena, Linda S. Gottfredsonb, Geoffrey Millerc and Arand Pierced
Social, Genetic, Developmental & Psychiatry Centre, Institute of Psychiatry, King’s College London, London SE5 8AF, United Kingdom
School of Education, University of Delaware, Newark, DE 19716 USA
Psychology Department, Logan Hall 160, University of New Mexico, MSC03 2220 Albuquerque, NM 87131 USA
Department of Pathology, School of Medicine, University of New Mexico, MSCO8 4640, Albuquerque, NM 87131 USA
Abstract
Human cognitive abilities inter-correlate to form a positive matrix, from which a large first factor, called ‘Spearman’s g’ or general intelligence, can be extracted. General intelligence itself is correlated with many important health outcomes including cardio-vascular function and longevity. However, the important evolutionary question of whether intelligence is a fitness-related trait has not been tested directly, let alone answered. If the correlations among cognitive abilities are part of a larger matrix of positive associations among fitness-related traits, then intelligence ought to correlate with seemingly unrelated traits that affect fitness—such as semen quality. We found significant positive correlations between intelligence and 3 key indices of semen quality: log sperm concentration (r = .15, p = .002), log sperm count (r = .19, p < .001), and sperm motility (r = .14, p = .002) in a large sample of US Army Veterans. None was mediated by age, body mass index, days of sexual abstinence, service in Vietnam, or use of alcohol, tobacco, marijuana, or hard drugs. These results suggest that a phenotype-wide fitness factor may contribute to the association between intelligence and health. Clarifying whether a fitness factor exists is important theoretically for understanding the genomic architecture of fitness-related traits, and practically for understanding patterns of human physical and psychological health.

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