Evolução e a Reação de Estresse

Imagine um homin√≠deo – nos prim√≥rdios da esp√©cie. H√° ind√≠cios de protoss√≠mios no quatern√°rio do per√≠odo cenoz√≥ico. Isso quer dizer mais ou menos 50 milh√Ķes de anos atr√°s, “logo ap√≥s” a extin√ß√£o dos dinossauros, que ocorrera dezenas de milh√Ķes de anos antes. A Terra seria ent√£o, povoada por grandes mam√≠feros e alguns macacos estranhos.

Imagine esse macaco caminhando numa floresta repleta de amea√ßas como tigres-dente-de-sabre, cobras gigantes, manadas de mamutes e outros bichos medonhos. Eis que, ao procurar frutas silvestres ou insetos para comer, se desgarra do grupo e se v√™ h√° alguns metros de dist√Ęncia em uma mata fechada, dando de cara com um esfomeado e enorme tigre-dente-de-sabre que o espreitava, lambendo os bei√ßos. O quadro abaixo mostra um esquema das rea√ß√Ķes hormonais que se seguem, convencionalmente chamadas de rea√ß√Ķes de luta ou fuga, comuns a todos os mam√≠feros

Como funciona o medo

por Julia Layton – traduzido por HowStuffWorks Brasil

O aumento dos horm√īnios de estresse, adrenalina, noradrenalina e cortisol causa mudan√ßas no organismo:

  1. aumento da press√£o arterial e freq√ľ√™ncia card√≠aca, preparando o organismo para um exerc√≠cio intenso;
  2. as pupilas dilatam para receber a maior quantidade poss√≠vel de luz; O importante n√£o √© o foco. Aqui, muito mais importante s√£o as varia√ß√Ķes m√≠nimas de luz e sombra que podem definir um ataque, uma sa√≠da, algo que pode colocar o indiv√≠duo em vantagem;
  3. as art√©rias da pele e tecido subcut√Ęneo se contraem (vasoconstri√ß√£o) desviando o fluxo sangu√≠neo aos grupamentos musculares mais importantes (rea√ß√£o respons√°vel pelo “calafrio” muitas vezes associado com o medo – h√° menos sangue na pele para mant√™-lo aquecido); O indiv√≠duo fica p√°lido;
  4. o teor do suor se modifica; Esse suor associado √† vasoconstri√ß√£o perif√©rica resulta na sudorese fria bastante conhecida nessas situa√ß√Ķes. Em situa√ß√Ķes de estresse, emitimos cheiros diferentes. Isso √© usado como esquiva em muitos animais;
  5. H√° uma tonifica√ß√£o dos m√ļsculos, a piloere√ß√£o ocorre quando pequenos m√ļsculos conectados a cada p√™lo da superf√≠cie da pele tensionam, os fios s√£o for√ßados para cima, puxando a pele com eles; Essa √© uma resposta muito importante. Os animais com a pele recoberta de pelos ficam “arrepiados” dando a impress√£o que s√£o maiores e mais amea√ßadores. Animais como o porco-espinho, permitem que seus grossos e afiados p√™los se desprendam, causando les√Ķes em seus agressores;
  6. O cérebro trabalha em ritmo acelerado. Não há prioridade em se concentrar em tarefas pequenas (deve-se concentrar apenas em sobreviver).

Esse tipo de resposta estereotipada foi conservado pela evolução. Daí concluirmos que ele deve conferir algum tipo de vantagem pois os organismos que a possuiam tinham mais chances de sobreviver e passá-la a seus descendentes. Temos portanto, o mesmo tipo de resposta até hoje. Basta levarmos um grande susto, ou recebermos uma notícia muito ruim, ou mesmo termos a nítida sensação de que vamos ser assaltados. Essa sensação é uma reação de estresse.

Ent√£o, o “macaco” veio morar na cidade. Nosso modo de vida urbano, transformou nosso cotidiano em um constante estado de estresse. Ficamos ansiosos com tr√Ęnsito, viol√™ncia, dinheiro, trabalho, etc. Nossas fontes de estresse pr√©-hist√≥rico, em especial a fome, n√£o s√£o o problema principal (pelo menos nos pa√≠ses industrializados!). Esse estresse constante tem como consequ√™ncia uma “pr√©-ativa√ß√£o” desse sistema de luta ou fuga. √Ās vezes, essa rea√ß√£o √© desencadeada desproporcionalmente em resposta a est√≠mulos pequenos. Pior, em determinadas situa√ß√Ķes, n√£o conseguimos identificar o est√≠mulo que est√° a caus√°-la! Agora, imagine, todas essas rea√ß√Ķes descritas (dilata√ß√£o pupilar, sudorese fria, taquicardia e palpita√ß√Ķes, respira√ß√£o curta e r√°pida, e etc) sem uma causa identific√°vel. O quadro √© desesperador!

Associe-se a isso a hipocalcemia. Sim, o c√°lcio √© um c√°tion que no sangue est√° dividido em duas grandes por√ß√Ķes: a livre, que age na contra√ß√£o muscular principalmente, e a ligada √† prote√≠nas. Quando um indiv√≠duo tem uma crise como a descrita, sua tend√™ncia √© fazer uma hiperventila√ß√£o. Essa hiperventila√ß√£o reduz drasticamente o teor de g√°s carb√īnico no sangue causando um aumento do pH sangu√≠neo o que leva a uma maior afinidade das prote√≠nas pelo c√°lcio. Ele √© “sequestrado” da por√ß√£o livre no plasma o que leva a uma hipocalcemia aguda. A hipocalcemia causa contra√ß√Ķes involunt√°rias dos m√ļsculos, principalmente faciais e dos membros superiores. Invariavelmente, o indiv√≠duo pensa que est√° tendo um derrame! Sua boca se fecha, sua l√≠ngua enrola, suas m√£os n√£o se movimentam direito, al√©m do que apresentam intenso “formigamento”. (Da√≠ a pr√°tica, n√£o recomendada, de respirar num saco. O g√°s carb√īnico aumenta e o efeito desaparece).

Esse tipo de rea√ß√£o intensa e extenuante leva o indiv√≠duo √† um pronto-socorro. L√° chegando, recebe o diagn√≥stico de ansiedade aguda, crise de p√Ęnico, piripaque, piti, dist√ļrbio neuro-vegetativo (jarg√£o m√©dico que n√£o quer dizer absolutamente nada!) e um calmante (normalmente, benzodiazep√≠nico). O quadro melhora progressivamente e o paciente √© liberado. Nunca ser√° curado assim! Casos com essa gravidade merecem acompanhamento minucioso. Medica√ß√£o ajuda muito na fase aguda, terapia funciona a longo prazo. Tudo devido a uma resposta org√Ęnica mal-utilizada, mal-adaptada. Temos rea√ß√£o de estresse quando praticamos esportes e damos aquela “ra√ßa” para ganhar um jogo; ou quando vemos de fato o perigo a nos amea√ßar. Poder√≠amos dizer que s√£o “instintos b√°sicos” de sobreviv√™ncia como fome, sede, cuidar dos filhos. Mas quando presentes em situa√ß√Ķes inadequadas, eles s√£o perigosos e devemos entender como funcionam para evitar seus efeitos ruins. Esse entendimento n√£o ocorre se n√£o tivermos conceitos de teoria da evolu√ß√£o presentes. Evolu√ß√£o e Medicina. Separ√°-los √© perder a possibilidade de compreend√™-los.

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Simpósio sobre Placebo

Para divulgar o I Simp√≥sio Internacional em Placebo com in√≠cio em 12 de Fevereiro de 2009. Muitos dos temas foram comentados aqui no Ecce Medicus. Mais informa√ß√Ķes no site do Instituto Scala.

Dia 1 ‚Äď 12 de fevereiro de 2009 ‚Äď quinta-feira (das 18:00 √†s 22:00hs)
História do efeito placebo em medicina: da adivinhação e rituais mágicos ao uso de estudos placebo-controlados na medicina baseada em evidências.

Ted Kaptchuk, Harvard University

Pesquisando o efeito placebo: como investigar o efeito placebo?

Ted Kaptchuk, Harvard University

Controvérsia: existem pacientes respondedores ao placebo?

Ted Kaptchuk, Harvard University

Dia 3 ‚Äď 13 de fevereiro de 2009 ‚Äď sexta-feira (das 14:00 √†s 18:00hs)
Discuss√£o de estudos importantes em placebo: papel da expectativa e condicionamento no efeito placebo e efeito placebo em dor e ansiedade

Ted Kaptchuk, Harvard University

Efeito placebo na medicina alternativa e acupuntura

Ted Kaptchuk, Harvard University

Induzindo malefícios através da sugestão: discussao do efeito nocebo

Ted Kaptchuk, Harvard University

Dia 3 ‚Äď 14 de fevereiro de 2009 ‚Äď S√°bado (das 09:00h √†s 16:00h)
Efeitos neurais do efeito placebo: mecanismos de ação do efeito placebo

Felipe Fregni, Harvard University

Efeito placebo em psiquiatria: antidepressivos n√£o s√£o superiores a placebos?

Laura Guerra, University of Sao Paulo

Placebo em pesquisa clinica: aspectos éticos do uso de placebo em pesquisa clinica

Paulo S. Boggio, Mackenzie University

Efeito placebo em Homeopatia: discussão do efeito placebo da prática médica humanizada

Marcus Zulian Teixeira, University of Sao Paulo

Novas ferramentas para investigação do efeito placebo: eletroencefalograma, neuroimagem e estimulação magnética transcraniana

Felipe Fregni, Harvard University

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2009 – O Ano de Darwin

Em 2009 vamos comemorar 200 anos do nascimento de Charles Darwin (1809-1882) e 150 anos da publica√ß√£o d’ “A Origem das Esp√©cies” (1859). Por que comemorar? No caso da √°rea m√©dica, sem d√ļvida essa seria uma pergunta interessante.

Durante todo o curso de Medicina eu n√£o tive uma aula formal sequer sobre a(s) Teoria(s) da Evolu√ß√£o. O primeiro contato um pouco mais organizado foi em uma atividade extracurricular organizada por um professor de neurofisiologia. A impress√£o √© que a evolu√ß√£o ou a teoria darwiniana n√£o tinham a menor import√Ęncia para a Medicina de um forma geral. Dizia-se at√© que a Medicina era uma atividade humana que ia na contra-m√£o da evolu√ß√£o, j√° que permitia que seres menos aptos sobrevivessem nos dias de hoje. Como se a humanidade tivesse criado uma forma de resist√™ncia a uma “lei geral da natureza”! Bel√≠ssimo exemplo do eritis sicut dii.

Depois desse contato inicial, li a “Origem das Esp√©cies” em espanhol no 3o ano. Tive enorme dificuldade com os nomes dos bichos e s√≥ consegui terminar a leitura quando abstra√≠ os animais dos exemplos (e quem leu sabe que s√£o in√ļmeros!) e foquei nos conceitos. Mesmo assim, tive problemas para entend√™-los. Depois, como que picado por algum mosquito, li Dawkins, Gould, Maynard-Smith, Szathm√°ry, Mayr e tantos outros. Achei o m√°ximo a Teoria do Macaco Aqu√°tico de Elaine Morgan. Fui convidado a dar uma aula na Associa√ß√£o Paulista de Medicina sobre uma id√©ia que relacionava essa teoria com a apn√©ia do sono. Ningu√©m entendeu nada! A bem da verdade, acho que eu tamb√©m n√£o!

Fiquei, entretanto, fascinado com as possibilidades de contato entre a teoria evolucion√°ria e a Medicina. Mais especificamente, comecei a pensar no conceito evolucion√°rio de doen√ßa, algo que ainda carece alguma elabora√ß√£o. Em 1995 li, na New England, a resenha de um livro que parecia ir na mesma dire√ß√£o “Why We Get Sick?” de Randolph Nesse e George Williams. O livro n√£o deixa de ter alguns conceitos interessantes, apesar de explorar mais a face adaptacionista do problema. Fala muito mais sobre respostas do organismo do que sobre conceitos evolucion√°rios aplicados a doen√ßas da forma como eu esperava (ver aqui o artigo de 1991 que originou o livro). Al√©m disso, pretendia fundar uma “nova ci√™ncia” chamada Medicina Darwiniana. Nesse e colaboradores publicaram um interessante artigo na Science em 2006 onde “aliviam” alguns conceitos do livro. Por exemplo: “There is growing recognition that cough, fever, and diarrhea are useful responses shaped by natural selection, but knowing when is it safe to block them will require studies grounded in an understanding of how selection shaped the systems that regulate such defenses and the compromises that had to be struck.” Esse “when is safe to block them” n√£o era uma id√©ia do livro. O livro termina com quadros psiqui√°tricos o que para mim o aproximou um pouco de intelig√™ncias emocionais e psicologias evolutivas da moda. Um resumo do livro saiu na Scientific American (sem a parte psiqui√°trica).

Nos próximos posts, tentarei fazer um apanhado sobre isso, necessariamente incompleto. Mas contarei com o auxílio de um site bastante interessante que encontrei revendo meus alfarrábios digitais.

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10.000 Pageviews

Neste final de ano, o Ecce Medicus completou 10.000 pageviews. Uma marca significativa para um blog com menos de 1 ano, sobre um assunto que considero bastante árido (aliás, esse foi o leitmotif do blog). Essa marca foi atingida principalmente depois da mudança para o condomínio do Lablogatórios.
Neste final de ano, portanto, gostaria de agradecer de p√ļblico ao convite do Carlos Hotta e do Atila Iamarino – o qual tive dificuldade em aceitar de prima, diga-se de passagem – para integrar esse prestigioso grupo e dizer que tenho a honra de estar aqui, e porque n√£o, tamb√©m um certo grau de tietagem, j√° que v√°rios companheiros(as) est√£o na m√≠dia convencional, seja em entrevistas, reportagens e at√© em concursos de beleza (o que n√£o √© o caso do Hotta, nem do √Ātila, tampouco!).
Me resta agradecer aos leitores, colaboradores e cr√≠ticos do blog, aos organizadores do Lablog e desejar (sim, somos seres desejantes) a todos um 2009 com muitas alegrias, pageviews e reflex√Ķes para que, se n√£o pudermos tornar o mundo melhor, pelo menos, nos tornarmos melhores.

Sobre Met√°stases

A √ļltima edi√ß√£o do New England Journal of Medicine tem um artigo sobre as bases moleculares das met√°stases. H√° tempos queria ter escrito sobre elas. Sempre achei algo de bastante m√≥rbido na dissemina√ß√£o do c√Ęncer. Sim, o leitor vai dizer, mas em qual doen√ßa n√£o h√°? Eu concordo, mas insisto que nas met√°stases, mais que em outras doen√ßas, h√° alguns requintes de crueldade contra a humanidade, com paralelo apenas em filmes ou romances de fic√ß√£o. Filmes como Alien ou Resident Evil, t√™m seus conceitos de terror tirados de sistemas vivos como hospedeiros de outros sistemas vivos. Em determinado momento, o sistema vivo que est√° hospedado toma conta de tudo e passa a dominar o processo, o que invariavelmente costuma levar o hospedeiro √† morte. Com o c√Ęncer metast√°tico, parece ocorrer algo parecido. Um m√©rito desses filmes est√° em expor o sentimento aterrorizante de passar por uma experi√™ncia como essa. De fato, apesar de seguir alguns padr√Ķes de dissemina√ß√£o (ver figura abaixo), uma c√©lula cancerosa pode colonizar virtualmente qualquer outra do organismo.

Um professor de patologia ao analisar um pulm√£o com met√°stases de um c√Ęncer de tecido muscular disse, certa vez, que o pulm√£o resolveu adotar um novo projeto: queria se transformar em um m√ļsculo! Mesmo dita em tom jocoso, essa frase ficou na minha cabe√ßa. Trouxe para mim a id√©ia de que as c√©lulas de um organismo obedecem de fato a algum comando central, um governo, que as mantem trabalhando em prol de um bem comum que √© o organismo completo. Quando alguma c√©lula resolve, egoisticamente, trabalhar independentemente isso √© um c√Ęncer. Uma vez instalado, sempre h√° a possibilidade de que ele se dissemine, “colonizando” outros org√£os. √Č esse o termo utilizado. O c√Ęncer, a exemplo dos portugueses no s√©c. XV, partem para outras paragens distantes a fim de dominar e impor sua maneira de “ver o mundo”. Mesmo sob controle com quimioterapias, radioterapias e cirurgias, o paciente portador de um c√Ęncer deve saber que abriga c√©lulas revolucion√°rias em seu organismo. Essas c√©lulas, em situa√ß√Ķes de guerra, podem adotar t√°ticas de guerrilha, se escondendo e fugindo para outros locais, para manifestar-se tempos mais tarde. √Č estranho pensar que um organismo possa ser portador de c√©lulas que n√£o partilham de seu projeto. Mas se pensarmos bem, a pergunta seria por que as outras obedecem sem reclamar? Qual o poder que as mant√©m unidas? Esse poder emana do conjunto que √© o organismo?

Mas, por que o organismo? Sempre acabo voltando a essa pergunta. As respostas alternativas poderiam ser a esp√©cie ou o gene. Essa √© a velha discuss√£o sobre a hierarquia da sele√ß√£o natural. Onde a sele√ß√£o natural se d√° de fato. No n√≠vel da esp√©cie (Gould), no organismo (Darwin) ou no gene (Dawkins). Esse presum√≠vel “comando” seria para preservar genes, o organismo ou a esp√©cie?

E sempre que penso nisso, cada vez mais me conven√ßo de que a doen√ßa faz parte da vida. S√≥ pode ter c√Ęncer quem √© multicelular. Dentre esses, s√≥ quem tem dispon√≠vel um sistema de regenera√ß√£o celular e cicatriza√ß√£o altamente desenvolvido. Sim, genes cancer√≠genos teriam a fun√ß√£o de estimular o crescimento de c√©lulas rapidamente – e nesse caso quanto mais r√°pido, melhor – com intuito de reparar um dano. Essa “arma” quando utilizada com outros objetivos, pode levar o organismo √† pr√≥pria morte. N√£o pud√©ssemos n√≥s usufruirmos do fato de sermos um amontoado altamente organizado de c√©lulas capazes de amar, sentir prazer, compreender nosso entorno e ousar sonhar, n√£o ter√≠amos c√Ęnceres de nenhuma esp√©cie. Somos benefici√°rios e v√≠timas de uma complexidade. Cada um deve saber, portanto, da “dor e da del√≠cia de ser o que √©”.

Ainda Sobre Racismo

Interessante livro sobre racismo do qual fiquei sabendo no Biscoito que por sua vez leu no Liberal Libert√°rio Libertino: The Racial Contract de Charles W. Mills.
A tese do livro, bastante foucaultiana ali√°s, pelo menos em uma primeira aproxima√ß√£o, √© que o racismo √© um sistema pol√≠tico e uma estrutura de poder baseados em um contrato social que seria na verdade, um contrato racial. Esse contrato funcionaria como uma “matrix”, chamada de “alucina√ß√£o consensual” que impediria a correta interpreta√ß√£o da realidade. O LLL comenta:
“Na verdade, a for√ßa ideol√≥gica do Contrato Racial em criar e moldar a realidade √© tamanha que ela mant√©m a maioria dos seus benefici√°rios em eterno estado de denega√ß√£o hist√©rica. Como enxergar a realidade significaria encarar tamb√©m sua cumplicidade no Contrato Racial, apelam para “racionaliza√ß√Ķes t√£o fant√°sticas que beiram o patol√≥gico”, gerando uma “ignor√Ęncia dolorosa t√£o estruturada” [a tortured ignorance so structured] que torna imposs√≠vel levantar certas quest√Ķes. Por mais que se aponte e se prove empiricamente a virul√™ncia do racismo, eles n√£o acreditam e, paradoxalmente, n√£o conseguem acreditar justamente porque sabem que √© verdade. (Mills, 97)”
A estrutura√ß√£o do discurso racista se faz t√£o insidiosamente que se confunde com o “meio” no qual vivemos como se n√£o houvesse outra alternativa. Assim como o peixe que n√£o v√™ a √°gua, tamb√©m os pertencentes √† ra√ßa dominante, n√£o enxergariam o racismo. Como os objetivos s√£o a manuten√ß√£o do status quo, de privil√©gios a oportunidades, seria uma ferramenta fundamental de domina√ß√£o que permearia todas as esferas da sociedade, todos os dispositivos do estado, todo e qualquer rinc√£o onde o poder dominante pudesse ser amea√ßado. Pergunto-me se a ci√™ncia, que sabemos ser um dispositivo fundamental na constitui√ß√£o do estado no capitalismo tardio, estaria fora desse circuito.
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Feliz Natal a todos.

O Fantasma do Amor


Pain by Kori Solomon at Flickr

Essa √©poca do ano √© bastante favor√°vel √† reapari√ß√£o do fantasma que assombra a esp√©cie humana desde os prim√≥rdios. Um fantasma que atormenta as mentes mais brilhantes e os menos favorecidos. Do mais completo atleta, seja futebolista ou ol√≠mpico, ao mais desajeitado homem ou mulher. Abate-se sobre ricos e pobres, homens e mulheres, velhos e novos: √Č o fantasma da depress√£o.
Sobre a depress√£o, escreveu Maria Rita Kehl:
“A depress√£o √© uma forma muito particular e avassaladora daquilo que corriqueiramente chamamos a dor de viver. (…) √Ä dor do tempo que corre arrastando consigo tudo o que o homem constr√≥i, ao desamparo diante da voragem da vida que conduz √† morte – que, para o homem moderno, representa o fim de tudo -, a depress√£o contrap√Ķe um outro tempo, j√° morto: um “tempo que n√£o passa”, na express√£o de J. Pontalis. O psiquismo, acontecimento que acompanha toda a vida humana sem se localizar em nenhum lugar do corpo vivo, √© o que se ergue contra um fundo vazio que poder√≠amos chamar, metaforicamente, de um n√ļcleo de depress√£o. (…) A rigor, a vida n√£o faz sentido e nossa passagem por aqui n√£o tem nenhuma import√Ęncia. A rigor, o eu que nos sustenta √© uma constru√ß√£o fict√≠cia, depende da mem√≥ria e tamb√©m do olhar do outro para se reconhecer como uma unidade est√°vel ao longo do tempo. (…)”
“Contra esse pano de fundo de “nonsense”, solid√£o e desamparo, o psiquismo se constitui em um trabalho permanente de estabelecimento de la√ßos -“destinos pulsionais”, como se diz em psican√°lise- que sustentam o sujeito perante o outro e diante de si mesmo. (…) Amamos: a vida, os outros e sobretudo a n√≥s mesmos. Estamos condenados a amar, pois com essa multiplicidade de la√ßos libidinais tecemos uma rede de sentido para a exist√™ncia. (…) A depress√£o √© o rompimento dessa rede de sentido e amparo: momento em que o psiquismo falha em sua atividade ilusionista e deixa entrever o vazio que nos cerca ou o vazio que o trabalho ps√≠quico tenta cercar. √Č o momento de um enfrentamento insuport√°vel com a verdade. Algumas pessoas conseguem evit√°-lo a vida toda. Outras passam por ele em circunst√Ęncias traum√°ticas e saem do outro lado. Mas h√° os que n√£o conhecem outro modo de existir; s√£o √≥rf√£os da prote√ß√£o imagin√°ria do “amor”, trapezistas que oscilam no ar sem nenhuma rede protetora embaixo deles.”
O que Kehl chama de psiquismo √© o conjunto de nossas faculdades cognitivas (racioc√≠nio l√≥gico, intui√ß√£o, associa√ß√£o, etc) permeadas pelo nosso estado de humor. O humor de uma pessoa pode se entendido atrav√©s da seguinte analogia: imagine que voc√™ est√° sentado em um teatro onde √© o √ļnico expectador. A “pe√ßa” que se desenrola no palco nada mais √© que sua pr√≥pria vida cotidiana. O humor √© o cen√°rio, incluindo a m√ļsica de fundo. Quando o cen√°rio √© l√ļgubre e a m√ļsica triste, um acontecimento simples pode ser encarado como muito grave e de consequ√™ncias desastrosas. Se por outro lado, o cen√°rio √© claro e colorido e a m√ļsica alegre, os acontecimentos t√™m uma perspectiva muito mais positiva, mesmo que sejam tristes.
Como vimos, o amor é a salvação para o indivíduo pois tece uma rede de sentido e amparo que sustenta (o que na verdade seria insustentável): o indivíduo em sua insuportável existência sem sentido. Mas ficam as perguntas: Como age, então, o amor? Que tem o amor afinal a ver com a depressão?

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Epidemiologia Cognitiva

Um novo ramo da epidemiologia foi criado. √Č chamado de Epidemiologia Cognitiva. Consiste em considerar a baixa performance em testes cognitivos de qualquer esp√©cie como fator de risco de mortalidade geral ou fator de risco para o aparecimento de determinadas doen√ßas, por exemplo, doen√ßa coronariana. At√© ent√£o, apenas desfechos “duros” (hard endpoints) tinham sido utilizados para demonstrar as associa√ß√Ķes entre “intelig√™ncia”, sa√ļde e doen√ßa. Recentemente, outras associa√ß√Ķes come√ßaram a aparecer devido √† irresist√≠vel vontade em se correlacionar a intelig√™ncia com fatores evolutivos. Esse post rec√©m-publicado se articula com esse conceito. Como bem lembrou Dra. Sandra do Leia o R√≥tulo, fatores ambientais podem influenciar o aparecimento de duas ou mais caracter√≠sticas que seriam co-relacionadas pelo meio e n√£o envolvidas numa rela√ß√£o de causa-efeito.
N√£o por acaso, epidemiologistas convencionais argumentam exatamente a mesma coisa. Por exemplo, citam as condi√ß√Ķes s√≥cio-econ√īmicas na inf√Ęncia como respons√°veis pela associa√ß√£o entre mortalidade e QI. Se as igualarmos para todos indiv√≠duos estudados, as diferen√ßas desaparecem. Os epidemiologistas cognitivos dizem que n√£o. A corre√ß√£o de tais fatores n√£o responde pelo efeito da performance cognitiva sobre a mortalidade. O assunto √© complexo. Se a inf√Ęncia n√£o responde por tudo, existe o argumento de que as condi√ß√Ķes econ√īmicas dos adultos possa influenciar a mortalidade. Pessoas mais inteligentes trabalham em ambientes mais seguros e mais saud√°veis; ou que pessoas mais inteligentes ouvem mais os conselhos m√©dicos e terminam por fumar menos, fazer mais exerc√≠cios e assim por diante (coisa que, na minha experi√™ncia, est√° longe de ser verdade!). Al√©m disso, existe um efeito chamado causalidade reversa: algumas doen√ßas som√°ticas como diabetes e hipertens√£o, muito comuns em adultos, podem diminuir a fun√ß√£o cognitiva e tamb√©m aumentar a mortalidade.
O fato √© que se as rela√ß√Ķes entre QI e mortalidade s√£o complexas, imagine ent√£o a rela√ß√£o entre QI e qualidade do s√™men, prefer√™ncias eleitorais (tamb√©m aqui) ou sobreviv√™ncia na guerra. Vejo isso mais como um sintoma da epidemiologia do risco. No Risco, como j√° se disse, a especula√ß√£o causal √© a raz√£o de ser da investiga√ß√£o biom√©dica e sugere v√≠nculos causais para que as ci√™ncias biom√©dicas experimentais explorem ‚Äúadequadamente‚ÄĚ tais associa√ß√Ķes. Mas acho tamb√©m que todo esse assunto merece ainda ser explorado e amadurecido para que possamos entender a rela√ß√£o entre intelig√™ncia, seja l√° o que isso quer de fato dizer, e sofrimento humano. Esse √ļltimo, todos sabemos bem o que √©.

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Projeto Angola


Mapa de Angola na Wikipédia

Este post faz parte da blogagem coletiva do Lablogat√≥rios sobre a √Āfrica. Vou escrever sobre Angola.

Angola √© um pa√≠s da costa ocidental da √Āfrica que foi uma antiga col√īnia de Portugal; √© portanto, lus√≥fono. Obteve sua independ√™ncia em 1975. Desde 2002, Angola est√° em paz. De 1961 a 2002 esteve em guerra, primeiro em virtude da luta pela independ√™ncia, depois como consequ√™ncia da guerra civil que explodiu em 1975 entre os principais partidos de Angola, o Movimento Popular de Liberta√ß√£o de Angola e o partido da oposi√ß√£o Uni√£o Nacional para a Independ√™ncia Total de Angola (UNITA), de orienta√ß√£o socialista. Angola tem hoje, aproximadamente 16 milh√Ķes de habitantes, dos quais 3 milh√Ķes, moram na capital Luanda. Faz parte da OPEP (Organiza√ß√£o dos Pa√≠ses Exportadores de Petr√≥leo) e tem um PIB per capita de 4500 d√≥lares, ocupando a 121a posi√ß√£o no ranking de paridade de poder de compra.

Desde 2002, o pa√≠s enfrenta o desafio da reconstru√ß√£o de seu sistema de sa√ļde devastado pelo longo per√≠odo de guerra. V√°rios org√£os internacionais t√™m participado desse projeto, entre os quais a OMS, Na√ß√Ķes Unidas, UNICEF, Banco Mundial entre outros. O pa√≠s tem aproximadamente 1.500 m√©dicos, em m√©dia, um para cada 10.000 habitantes. Para se ter uma id√©ia, S√£o Paulo tem 2,3 para cada 1000 habitantes. Os desafios na √°rea s√£o atendimento b√°sico √† popula√ß√£o (grande maioria de jovens e crian√ßas), assist√™ncia √† sa√ļde materna, desnutri√ß√£o infantil, vacina√ß√£o, controle da mal√°ria, tuberculose, HIV/Aids, hansen√≠ase, doen√ßa do sono (um tipo de esquistossomose).

Um dos pontos desse projeto √© o aumento da resolutividade dos hospitais locais, ou seja, aumentar o poder de tratamento de patologias cada vez mais complexas, visando √† redu√ß√£o do n√ļmero de doentes transferidos para o exterior para tratamento de sa√ļde. Hoje, o governo gasta milh√Ķes de d√≥lares com custeio de despesas m√©dicas em outros pa√≠ses, como Portugal e √Āfrica do Sul. Com essa finalidade estabeleceu-se um programa de capacita√ß√£o de m√©dicos especialistas angolanos atuantes em sete hospitais nacionais situados em Luanda, para que se tornem capazes de absorver 70% dos casos em 13 especialidades selecionadas e que atualmente, v√™m sendo transferidos para o exterior. A cirurgia do Aparelho Digestivo integra a rela√ß√£o dessas especialidades selecionadas.

Para o desenvolvimento desse programa o Minist√©rio da Sa√ļde angolano solicitou a colabora√ß√£o da Disciplina de Cirurgia do Aparelho Digestivo do Departamento de Gastroenterologia da Faculdade de Medicina da USP. O Prof. Jos√© Eduardo Monteiro da Cunha, professor Associado do Departamento de Gastroenterologia, foi indicado pelo Prof. Ivan Cecconello, Titular da Disciplina de Cirurgia do Aparelho Digestivo e Coloproctologia do Departamento, para coordenar e desenvolver essa atividade. O programa tem trazido excelentes resultados para os dois lados. Residentes de 4o ano da especialidade t√™m tido a inesquec√≠vel experi√™ncia de conhecer Angola e ensinar t√©cnicas cir√ļrgicas de ponta aos m√©dicos africanos. Uma m√©dica cirurgi√£ j√° cursa um est√°gio presencial na disciplina e at√© este blogueiro tem interesse em implantar melhorias nas unidades de terapia intensiva locais.

Projetos como esse, fazem-nos lembrar a verdadeira voca√ß√£o de uma universidade. Enchem nossos cora√ß√Ķes com aquela felicidade simples que traz a solidariedade; com aquele orgulho do bem de uma li√ß√£o bem feita. A √Āfrica √© uma velha m√£e. Projetos assim, lembram mais do filho que cuida da m√£e do que daquele que a interna numa casa de repouso, enviando-lhe o dinheiro necess√°rio das despesas. √Č um tipo de resgate. Um tipo de retorno. Um retorno ao colo pr√≥digo.

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A Vingança dos NERDS

In press na revista Intelligence:
Intelligence and semen quality are positively correlated

Authors: Rosalind Ardena, Linda S. Gottfredsonb, Geoffrey Millerc and Arand Pierced
Social, Genetic, Developmental & Psychiatry Centre, Institute of Psychiatry, King’s College London, London SE5 8AF, United Kingdom
School of Education, University of Delaware, Newark, DE 19716 USA
Psychology Department, Logan Hall 160, University of New Mexico, MSC03 2220 Albuquerque, NM 87131 USA
Department of Pathology, School of Medicine, University of New Mexico, MSCO8 4640, Albuquerque, NM 87131 USA
Abstract
Human cognitive abilities inter-correlate to form a positive matrix, from which a large first factor, called ‚ÄėSpearman’s g‚Äô or general intelligence, can be extracted. General intelligence itself is correlated with many important health outcomes including cardio-vascular function and longevity. However, the important evolutionary question of whether intelligence is a fitness-related trait has not been tested directly, let alone answered. If the correlations among cognitive abilities are part of a larger matrix of positive associations among fitness-related traits, then intelligence ought to correlate with seemingly unrelated traits that affect fitness‚ÄĒsuch as semen quality. We found significant positive correlations between intelligence and 3 key indices of semen quality: log sperm concentration (r = .15, p = .002), log sperm count (r = .19, p < .001), and sperm motility (r = .14, p = .002) in a large sample of US Army Veterans. None was mediated by age, body mass index, days of sexual abstinence, service in Vietnam, or use of alcohol, tobacco, marijuana, or hard drugs. These results suggest that a phenotype-wide fitness factor may contribute to the association between intelligence and health. Clarifying whether a fitness factor exists is important theoretically for understanding the genomic architecture of fitness-related traits, and practically for understanding patterns of human physical and psychological health.

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