X-Doctor

Xavier no Cérebro

H√° um momento, nesse √ļltimo filme sobre a fic√ß√£o mutante dos X-Men, em que o jovem Charles¬†Xavier entra em seu aparato chamado C√©rebro e, vestindo um capacete futurista ligado por¬†interm√©dio¬†de tubos a uma m√°quina algo obsoleta, conecta-se com todos os mutantes do mundo. Tudo o que ele v√™ e sente √© sofrimento. Dor, incompreens√£o, viol√™ncia verbal e f√≠sica. Em um determinado momento, os rel√≥gios marcadores explodem e ele arranca¬†o capacete dizendo que n√£o consegue mais aguentar aquilo. √Č convencido a encarar seu destino quando lhe dizem que, na verdade, o que ele n√£o aguenta n√£o √© a dor dos outros, mas a sua pr√≥pria.

H√° algo muito m√©dico no comportamento de Charles Xavier.¬†N√£o se trata apenas do¬†acesso a¬†queixas e dos relatos de sofrimento as semelhan√ßas do professor com um habitus m√©dico. Pior. Trata-se de, ao tomar¬†conhecimento deles, consider√°-los¬†sua responsabilidade e acreditar que se pode¬†minimiz√°-los.¬†Digo “acreditar” porque nem sempre isso √© poss√≠vel, mas o m√©dico acha que, de alguma forma, sim, isso √© poss√≠vel! E vai tentar. E vai se arrepender de ter tentado isso e n√£o aquilo. E vai vacilar e tentar retroceder, para novamente ser impelido a ir¬†adiante.

E vai alternar momentos de felicidade e onipot√™ncia, com outros de miser√°vel culpa e remorso sabe-se-l√°-de-qu√™, sendo que os √ļltimos¬†ofuscar√£o progressivamente os primeiros fazendo surgir a humildade insolente que lhes √© peculiar. E vai envelhecer assim, ouvindo queixas em¬†m√ļltiplas vozes com¬†som digital est√©reo surround e agir sempre em contraponto com a sensa√ß√£o de ter deixado algo para tr√°s. Dormir√° cada vez menos. Falar√° cada vez menos de suas coisas e das coisas que viu e v√™, todavia¬†quando¬†resolver pronunciar-se, dobrar√° sua voz¬†como a de um instrumento com afina√ß√£o trocada,¬†scordatura¬†desafinada a princ√≠pio, sem sentido at√©, mas que √† escuta atenta soar√°¬†extremamente inusual e bela, como s√£o mesmo as coisas do decl√≠nio e da finitude, numes¬†de seu destino com os quais¬†ele, finalmente, se reconciliar√°.

Paris, Século XIX

Hotel_Dieux

Hotel Dieux, Paris, França (1860). Por trás, sim, ela mesma, a Catedral de Notre Dame.

Honor√© de Balzac – naquele que viria a ser o terceiro livro da primeira parte dos Estudos do Costume e o d√©cimo-primeiro volume de sua monumental Com√©dia Humana, o romance de nome “A Casa Nucingen” – inicia sua narrativa com uma conversa de quatro jornalistas em um restaurante parisiense. Em determinado momento da discuss√£o, que, a prop√≥sito, girava em torno da felicidade humana, Balzac coloca na boca de √Čmile Blondet a seguinte frase (em livre tradu√ß√£o): “A medicina moderna, cuja maior gl√≥ria √© ter, de 1799 a 1837, passado do estado conjectural ao estado de ci√™ncia positiva, muito pela grande influ√™ncia da escola analista de Paris, demonstrou, sem d√ļvida, que o homem periodicamente renova-se por completo”[1]. O livro foi escrito em 1837 e publicado, inicialmente, na forma de folhetim nos jornais da √©poca.

Deixemos – com Georges Canguilhem [2] – a quest√£o da tal “renova√ß√£o humana” de lado at√© porque, no livro de Balzac, tal observa√ß√£o n√£o deixa muito claro seus objetivos. Canguilhem, ele mesmo m√©dico e fil√≥sofo, tomou dois aspectos dessa frase de Balzac para analisar o que ele chama de “estatuto epistemol√≥gico da medicina”[2]: as datas e o sintagma “estado de ci√™ncia positiva”.¬†Balzac era um grande cronista de sua √©poca e n√£o escolheria tais datas gratuitamente. Canguilhem identifica ent√£o alguns acontecimentos marcantes: em 1799, aconteceu o Golpe de Estado do 18 Brum√°rio e a publica√ß√£o da “Nosographie¬†philosophique ou la¬†methode de l’analyse applique¬†√† la¬†m√©dicine” de Pinel. [lembrar que a obra m√°xima de Xavier Bichat foi publicada em 1799/1800:¬†Trait√© des membranes g√©n√©ral et de¬†diverses membranes en particulier].¬†Se, por um lado, 1837 n√£o tem nenhum fato pol√≠tico relevante, do ponto de vista m√©dico “√© o ano da publica√ß√£o do terceiro volume das ‘Le√ßons sur les phenomenes physiques de Ia vie’¬†de Magendie¬†e tamb√©m¬†da quarta edi√ß√£o do ‘Trait√© d’ auscultation¬†m√©diate’¬† de Laennec, revisado por Andral”. Entre as duas datas, ainda segundo Canguilhem, Xavier Bichat inventou a anatomia patol√≥gica, Pierre Louis instituiu as estimativas num√©ricas concernentes √† tuberculose (1825), febre tif√≥ide (1829) e aos efeitos do tratamento das pneumonias com sangria (1835), tudo isso sem esquecer que foi em 1830 que o primeiro dos seis volumes do “Curso de Filosofia Positiva” de Auguste Comte foi publicado.¬†Eu ainda apontaria, na frase de Balzac, um terceiro elemento que mereceria aten√ß√£o especial, apesar de Canguilhem n√£o o destacar em seu texto: “escola analista de Paris”. Por que Paris? As transforma√ß√Ķes radicais que a pr√°tica m√©dica sofreria nos anos seguintes √† Revolu√ß√£o Francesa n√£o foram ocasionadas por uma repentina descoberta cient√≠fica ou por um avan√ßo tecnol√≥gico s√ļbito, nem tampouco tiradas da cartola de ningu√©m.

A mudan√ßa radical ocorrida na medicina foi uma revolu√ß√£o conceitual. A Revolu√ß√£o Francesa (1789-1799) fechou todos os servi√ßos p√ļblicos de sa√ļde para reabr√≠-los posteriormente. O Hotel Dieu (acima) tinha depend√™ncias insalubres e abrigava at√© 5 pacientes para CADA LEITO! [3]. Pessoas convalescentes, misturavam-se com as doentes, pessoas vivas misturavam-se aos cad√°veres. Os quartos superlotados n√£o tinham ventila√ß√£o adequada. O p√≥s-operat√≥rio (ainda n√£o existia a¬†anestesia) era ao lado da ala psiqui√°trica onde “gritos eram ouvidos √† noite toda”, s√£o descri√ß√Ķes comuns da √©poca. Ap√≥s a reabertura dos hospitais n√£o foi permitido mais que um paciente por leito, mas a situa√ß√£o n√£o melhorou muito. As cl√≠nicas m√©dicas particulares foram praticamente extintas e os m√©dicos passaram a exercer suas fun√ß√Ķes nesses hospitais. Alguns recebiam sal√°rios dos pr√≥prios hospitais (muito baixos, diga-se de passagem), mas o movimento aumentou muito. Os m√©dicos tinham a oportunidade de ver centenas de pacientes nos ao inv√©s de alguns poucos em suas cl√≠nicas privadas. Com isso, houve uma mudan√ßa na rela√ß√£o m√©dico-paciente, com o primeiro ganhando poderes quase ilimitados sobre o segundo. Al√©m disso, o √≥rg√£o respons√°vel pela sa√ļde criado no per√≠odo revolucion√°rio e atuante tamb√©m depois dele –¬†Conseil G√©n√©rale d‚ÄôAdministration – centraliza e expande a Sa√ļde P√ļblica determinando o acesso de todos. Por meio desse √≥rg√£o, foi promulgada a ‚ÄúLei das Aut√≥psias‚ÄĚ (art. 25 do decreto de Marly) que cobrava uma quantia para enterrar pessoas falecidas nos hospitais que a grande maioria da popula√ß√£o n√£o tinha condi√ß√Ķes de pagar. Os corpos ent√£o iam para sala de aut√≥psias, permitindo “material” praticamente inesgot√°vel de estudo para os m√©dicos √°vidos de conhecimento. Tal situa√ß√£o levou muitos m√©dicos de outros pa√≠ses a estagiarem em Paris com objetivo de aprender as t√©cnicas de aut√≥psia e tamb√©m a nova Anatomia Patol√≥gica [3].

A reviravolta epist√™mica ocorrida nos mal-falados e escuros hospitais de Paris no s√©culo XIX repercute at√© hoje em todo o ed√≠ficio fulgurante da pr√°tica m√©dica contempor√Ęnea. No novelo complexo dessa reviravolta √© poss√≠vel destacar quatro fios-de-meada, quatro “vertentes fundacionais” de conceitos formadores (e tamb√©m deformadores, como veremos) do pensamento m√©dico atual. Vertentes que, de certa forma, j√° estavam presentes em dispersos¬†antecessores dos franceses e que, transformadas por estes, vieram tornar-se caudalosos rios nos quais os m√©dicos navegam hoje. Se conhecer a nascente de um rio talvez n√£o seja importante para naveg√°-lo, √© ao menos prudente estudar a geografia de seu leito para que saibamos onde (e como vamos chegar a sua foz). Tentarei mostrar nos pr√≥ximos posts de onde v√™m e para onde v√£o quatro das principais ideias surgidas na Paris de Balzac e Canguilhem.

 

[1] de Balzac H, de Carvalho A. A casa Nucingen. Companhia Nacional Editora; 1891. Fac-símile em francês no site da Biblioteca Nacional da França. A referida passagem se encontra na página 13 da obra.

[2] ResearchBlogging.orgCanguilhem, Georges (1988). Le statut epistémologique de Ia médecine. Hist. Phil. Life Sci., 10 (Suppl), 15-29.

[3] ResearchBlogging.org Waddington, I. (1973). The Role of the Hospital in the Development of Modern Medicine: A Sociological Analysis Sociology, 7 (2), 211-224 DOI: 10.1177/003803857300700204

Figuras retiradas do bonito blog Dittrick Museum.

 

O Futebol e a Tragédia das Mãos

Maos2

“Em futebol, o pior cego √© o que s√≥ v√™ a bola.”

Nélson Rodrigues (O Divino Delinquente) 

N√£o h√°, hoje, quem duvide de que o esporte que convencionamos chamar futebol √© o mais popular do mundo. Explica√ß√Ķes para isso n√£o faltam. Sua simplicidade (da qual particularmente discordarei); sua capacidade de transformar portadores de um f√≠sico breve em √≠dolos mundiais milion√°rios; a possibilidade de pratic√°-lo com equipamentos de baixo custo ou mesmo quase nenhum; o fato de que nem sempre a melhor equipe vence a partida, fazendo com que fatores extra-campo, e.g. torcida, sejam fundamentais para uma vit√≥ria s√£o, entre outras tantas, algumas das principais teorias explanat√≥rias aventadas para justificar porque o futebol √© praticado nos mais long√≠nquos rinc√Ķes do planeta. Se tantas h√° √© porque nenhuma d√° conta sozinha de explicar o fen√īmeno futebol√≠stico, fato que sempre acaba encorajando incautos a lan√ßarem suas pr√≥prias teorias. Segue, com o perd√£o da aud√°cia, ent√£o, a minha.

Comecemos pelas palavras e pelas coisas, que s√£o sempre um bom come√ßo. O futebol que a tantos encanta hoje nasceu, claro, na Inglaterra, mais precisamente em 1863, batizado com dois nomes: association football. E aqui j√° nos defrontamos com nosso primeiro problema. Como √© notoriamente sabido, adjetivos em ingl√™s v√™m antes dos substantivos a quem qualificam. Substantivos, por sua vez, podem, na l√≠ngua bret√£, ser adjetivados, e muitas vezes s√≥ o que nos resta para distinguir estes daqueles √© sua posi√ß√£o na frase. Se digo, ent√£o, football association, a tradu√ß√£o correta para o portugu√™s seria ‚Äúassocia√ß√£o de futebol‚ÄĚ (ou ‚Äúassocia√ß√£o futebol√≠stica‚ÄĚ, para adjetivar de vez o nome ‚Äúfutebol‚ÄĚ). Mas, se digo association football, a tradu√ß√£o √© ‚Äúfutebol da associa√ß√£o‚ÄĚ (ou o horr√≠vel ‚Äúfutebol associativo‚ÄĚ, ou mesmo ‚Äúassociado‚ÄĚ, adjetivando o nome ‚Äúassocia√ß√£o‚ÄĚ). Se isso √© uma trivialidade para os angl√≥fonos, tal particularidade lingu√≠stica passou algo despercebida para n√≥s, bravateiros de sempre do mundo da bola, de tal modo que aqui dizemos apenas ‚Äúfutebol‚ÄĚ. Mas o nome completo do “esporte nacional” guarda consigo a certid√£o misteriosa de sua interessante origem e que n√£o √© de pronto visualizada na ep√≠tome brasileira. Tomemos como exemplo do que quero mostrar o nome da entidade maior da organiza√ß√£o do futebol mundial: a famigerada FIFA. FIFA, cuja sigla vem do franc√™s F√©d√©ration Internationale de Football Association (um barbarismo quase inintelig√≠vel, como s√£o mesmo as coisas da FIFA), na l√≠ngua de Shakespeare seria International Federation of Association Football, veja s√≥ (e aqui come√ßamos a ver algo): a FIFA √©, portanto, agora em bom portugu√™s, a federa√ß√£o internacional do futebol da associa√ß√£o. O que nos leva √† pergunta: com efeito, mas que diabos de ‚Äúfutebol da associa√ß√£o‚ÄĚ √© esse?

A Associação de Futebol

A Inglaterra da rainha Vit√≥ria (1837 -1901) vivia a Pax Britannica decorrente de seu sucesso econ√īmico, estabilidade pol√≠tica e progresso cient√≠fico-cultural sem precedentes. Esse clima de virtude quase-hel√™nica constituiu est√≠mulo necess√°rio e suficiente para a cria√ß√£o de in√ļmeros jogos, coletivos e individuais, com objetivos educacionais, motivacionais e de entretenimento. Havia nessa √©poca dezenas de jogos entre duas equipes, com n√ļmero vari√°vel de jogadores, que levavam o nome de football, pr√°tica antiqu√≠ssima na Ilha e em geral caracterizados pela disputa violenta por uma bola, √† √©poca confeccionada com bexiga de porco. Normalmente, tratava-se de levar a bola com aux√≠lio de qualquer parte do corpo, por meio de passes ou dribles, at√© um certo local no territ√≥rio do inimigo e, assim, marcar algum tipo de ponto. Todavia, por que chamar de football um jogo no qual o bal√£o podia ser conduzido tanto com as extremidades inferiores quanto com as superiores? Para diferenci√°-lo, ora. Os p√©s tamb√©m eram permitidos, e nisso se constitu√≠a a novidade. O ‚Äúnormal‚ÄĚ seria conduzir a bola com as m√£os, e liberar os p√©s para correr. O fato √© que tais jogos de football ficaram muito populares entre as escolas tradicionais inglesas e tamb√©m entre oper√°rios das f√°bricas que, por sua vez, terminaram por fundar cada qual suas respectivas ligas e clubes. Entretanto, cada escola, bem como cada liga oper√°ria, tinha suas pr√≥prias regras, e as disputad√≠ssimas ‚Äúpeladas‚ÄĚ nas faculdades ou f√°bricas – com jogadores provenientes de diferentes localidades – geravam discuss√Ķes intermin√°veis sobre o andamento das partidas, al√©m de inviabilizar qualquer tipo de torneio. Foi assim que, em outubro de 1863, na Taverna dos Freemasons, em Covent Garden, Londres, fundou-se a Football Association ‚Äď a Associa√ß√£o de Futebol – com o objetivo de unificar as regras do esporte tendo em conta a forma como o Trinity College de Cambridge, jogava seu football e que, segundo alguns, captava o verdadeiro ‚Äúesp√≠rito do jogo‚ÄĚ.

O problema √© que n√£o houve um consenso (vejam que discuss√Ķes e mesas redondas parecem fazer parte do DNA do esporte). Dentre os pontos de discord√Ęncia, os principais foram as proibi√ß√Ķes do uso das m√£os para conduzir a bola e da possibilidade de impedir a progress√£o do advers√°rio chutando-o nas ‚Äúcanelas‚ÄĚ, sinalizando para uma mudan√ßa mais radical na ess√™ncia do jogo. Mesmo com algumas desist√™ncias, as regras do ‚Äúfutebol da Associa√ß√£o de Futebol‚ÄĚ foram publicadas em dezembro de 1863 e logo se disseminaram pela Grande Londres. Seus praticantes diziam jogar o Assoc (pronunciado como ei-soc) football, que logo transformou-se em soc football e, finalmente, foi apelidado de soccer. Soccers eram tamb√©m os jogadores do soccer, o que os diferenciava dos j√° conhecidos ruggers, alcunha dos que praticavam o Rugby football, provavelmente criado pela escola da cidade de mesmo nome, no qual a bola podia, claro, ser levada com as m√£os por todos os jogadores, permitia-se o hacking (o ataque mais agressivo ao portador da pelota), al√©m de contar com regras de off-side (impedimento) mais r√≠gidas. O chute era (e √©) permitido e, por isso, ele √© tamb√©m considerado um ‚Äútipo‚ÄĚ de futebol.

O rugby seguiu seu pr√≥prio caminho, tendo que lidar igualmente com v√°rias diverg√™ncias relativas √†s regras, com a forma√ß√£o de ligas independentes e que, unificadas em 1871, permitiram a funda√ß√£o da Rugby Football Union. Nas regras do ‚Äúfutebol da Associa√ß√£o‚ÄĚ persistiam ainda men√ß√Ķes sobre jogadas que, apesar de j√° n√£o existirem, permanecem no rugby, no futebol americano e no futebol australiano, como o fair-catch (que, devido a modifica√ß√Ķes posteriores, veio introduzir o cabeceio liberando, assim, todas as partes do corpo como potencialmente utiliz√°veis para o jogo, exceto os membros superiores). Com a unifica√ß√£o, jogos entre v√°rias equipes de diferentes localidades puderam ser disputados e as regras foram sendo aperfei√ßoadas. O uso das m√£os acabou por ficar restrito a apenas um jogador de cada equipe, o goalkeeper, transformando o ‚Äúfutebol da Associa√ß√£o‚ÄĚ no √ļnico esporte coletivo praticado pela Humanidade no qual elas, as m√£os, t√™m uma import√Ęncia secund√°ria, para dizer o menos.

As M√£os

De fato, a m√£o humana parece desempenhar um papel preponderante nos estudos sobre nossa evolu√ß√£o. A rela√ß√£o que sua incr√≠vel anatomia e seu funcionamento preciso t√™m com a confec√ß√£o de instrumentos, cria√ß√£o de tecnologia e aquisi√ß√£o de vantagens evolutivas foi demonstrada por v√°rios autores. Argumenta-se ainda hoje sobre o que teria vindo primeiro, se a potencialidade das m√£os ou a necessidade dos utens√≠lios, mas a n√≥s interessa o fato de que o grande contingente manipul√°vel de nosso mundo atual pode acabar mesmo por nos constituir como seres humanos [1].¬†Quem lida com um smartphone, martela um teclado de computador, dirige um carro, vira as p√°ginas de um livro, toca qualquer instrumento musical ou simplesmente faz uma car√≠cia no rosto da pessoa amada entende o que estou querendo dizer. As m√£os, bem como seus complementos e/ou substitutos, que chamamos de instrumentos ou ferramentas, ocupam um grande espa√ßo do que entendemos por humano. S√≥zinhas, representam um quarto do c√≥rtex sensitivo e um ter√ßo do c√≥rtex motor de nossa “massa encef√°lica”. S√≥ abstra√≠mos esse nosso modo ‚Äúmanual‚ÄĚ de ser em pouqu√≠ssimas e raras situa√ß√Ķes. Uma delas √© o futebol.

O futebol, esse mesmo, o association football, extirpou, em meados do s√©culo XIX, o ‚Äúconceito de m√£o humana‚ÄĚ do jogo. Ele √©, portanto, anti-m√£o, j√° que elas foram alijadas “filosoficamente” daquele que viria a se tornar o maior de todos os jogos. No futebol, as m√£os s√£o estraga-prazeres. Tocar a bola com elas √© pass√≠vel de puni√ß√£o, seja com a marca√ß√£o de uma falta ou mesmo de uma penalidade m√°xima, seja com o desprazer do gol n√£o concretizado, gozo interrompido pelas m√£os do guarda-metas que, assim, nos castiga. (A reposi√ß√£o da bola ao campo de jogo por meio do arremesso lateral √© realizada com as duas m√£os e¬†segue regras muito r√≠gidas de execu√ß√£o o que a torna um movimento bastante anti-natural). A aus√™ncia das m√£os em qualquer ato humano √© a nega√ß√£o de uma nossa pr√≥pria ess√™ncia. As m√£os humanas s√£o como a vis√£o da √°guia ou o faro do c√£o. Impe√ßa-os de us√°-las e o que veremos √© um misto de desorienta√ß√£o e impot√™ncia. Essa talvez seja a grande raz√£o do sucesso do futebol pelo mundo. Ele j√° √© em si uma supera√ß√£o.

Conduzir a bola com os p√©s e correr ao mesmo tempo n√£o √© pr√°tico, nem simples, nem natural. A conclus√£o √© que o futebol √© tr√°gico e sua tragicidade consiste exatamente em criar uma guerra na qual se pro√≠be o uso de nossa melhor arma, mas que, apesar disso – agora j√° com requintes de crueldade -, permanece bem ali, muito pr√≥xima, tentadoramente √†-m√£o. Sua anti-naturalidade at√°vica desencadeia o desejo pelo poder proibido das m√£os e permite apenas uma sa√≠da satisfat√≥ria: sua convers√£o em supera√ß√£o est√©tica. Mas, n√£o seria essa a velha e j√° t√£o conhecida f√≥rmula que volta-e-meia nos ajuda a driblar um dos nossos mais antigos e terr√≠veis advers√°rios? Talvez seja mesmo essa a raz√£o do j√ļbilo e do gozo ao vermos que nossa consci√™ncia da finitude, como um zagueiro tosco ou volante brucutu, cai v√≠tima de uma bola entre as pernas, um chap√©u ou desconcerto humilhante qualquer impingido pelo craque, que assim nos redime e eterniza.

Para delírio da torcida.

 

[1] Refiro-me aqui aos conceitos heideggerianos de Vorhandenheit, estar-aí, e Zuhandenheit, à-mão, cuja discussão o filósofo alemão usa não só para compreender a temporalidade como para ilustrar seu entendimento da questão do Ser, em Ser e Tempo.

A Fotografia e o Cachecol

– Essa foto sua √© linda, mas eu n√£o gosto dela…
– ??? – com os dedos juntos das duas m√£os, ao modo dos paulistalianos.
РNão gosto. Acho que é porque não fui eu quem tirou.
РMas o que tem a ver? Se a foto é bonita, é bonita, oras!!
РNão é isso. Não sei explicar. Quem tirou mesmo essa foto?
– O Br√°ulio…
– Nossa! Odeio esse cara…
РPor que, meu deus? Você nem conheceu o coitado!
– N√£o sei. Mas, odeio. Como ele p√īde?…
– Quer parar?! Voc√™ t√° come√ßando a me assustar. P√īde o qu√™?! Que coisa mais sem p√©, nem cabe√ßa… Eu, hein – e virou as costas, a fazer alguma coisa.

Ele ficou pensativo, olhando a fotografia dela de quase trinta anos atrás, longamente. Era uma foto em branco e preto de uma menina séria, com a franja a recobrir parcialmente os olhos castanhos semicerrados. Os lábios entreabertos e o rosto quase de perfil. Recomeçou, sem tirar os olhos da foto.

– Acho que j√° sei.
РO quê?! Рvirando-se, com uma meia na mão.
– Porque eu acho a foto linda e n√£o gosto dela.
РPor quê?! Рsem a menor paciência.
– Porque o tal Br√°ulio viu uma coisa que s√≥ eu havia visto at√© ent√£o. E pior, fotografou. Ele n√£o tinha esse direito…
– Como assim?!
РEssa foto é de uma imagem que eu tenho de você. Algo que captei em algum momento logo quando nos conhecemos. Logo que vi a foto, a reconheci.
РMas a foto sou eu!! Imagino que você deveria me reconhecer, não?

Ele ainda olhando a foto.

– A foto √© de voc√™. Mas estou falando de uma das imagens que formei e n√£o de voc√™, especificamente. Fiquei surpreso ao ver que meus sonhos idealizados e plat√īnicos, er√≥ticos at√©, se materializaram nessa fotografia. √Č como se minha intimidade tivesse sido violada. Como se algu√©m me espiasse dentro do meu aposento mais √≠ntimo e secreto. √Č como se outra pessoa a visse nua… No fundo, acho que tenho ci√ļmes da foto. √Č muita loucura isso?

– N√£o. Continue – o olhar arrefecera. Ele continuou.

– Acho que a foto √© isso. N√£o sei explicar direito, mas √© como se fosse uma for√ßa feminina bruta que me arremessou contra meus instintos mais ego√≠stas. Ela me faz querer voc√™. Quando, ainda hoje, vejo os tra√ßos da foto em algum gesto, tipo um take seu, te desejo. Parece uma coisa meio determinista, biol√≥gica, sei l√°… O Br√°ulio jamais poderia ter visto isso! Era um segredo – s√≥ ent√£o levantando os olhos da foto e sorrindo meio sem gra√ßa.

Ela se enrola no pescoço dele tal como um cachecol e diz:

– Ele n√£o viu, man√©. Relaxa… – e tasca-lhe um beijo.

dia-do-fotografo

Man√©, tentando tirar “aquela” foto – Flickr de K. Werfeldein.

O Instinto da Dança

O Velho entrou na sala e havia uma aluna dan√ßando de costas, em meio a uma roda com outros alunos, que a acompanhavam com palmas t√≠midas. Sorrateiro, ele at√© parou de respirar para n√£o ser notado. A forma como ela mexia as m√£os e os quadris; havia algo de indiano e sensual. O Velho deixava que sua condi√ß√£o de homem o conduzisse pelos meandros ancestrais e ardentes dos instintos, quando, de repente, a m√ļsica parou. Como que quebrado o encanto, a presen√ßa do Velho se fez notar e os alunos, todos ali, se voltaram para ele, alguns com olhar de espanto, enquanto outros entravam pela porta sem saber o que estava acontecendo.

Depositou suas anota√ß√Ķes e livros na mesa e mal-fingiu n√£o notar o que ocorria, ele mesmo, refazendo-se de suas incurs√Ķes extra-racionais. Mandou que todos se sentassem com o indicador direito apontado para baixo, girando em c√≠rculos, acompanhado da carranca caracter√≠stica, sem dizer uma palavra. O cabelo longo e branco movimentava-se tamb√©m e os alunos sabiam que ele n√£o estava com muita paci√™ncia.

РSabem por que o ser humano dança? Рperguntou. Alguém corou na plateia e varreu o ar com a mão para pedir que se desviassem os tantos olhares para lá repentinamente dirigidos, mas isso só foi possível com um novo brado do Velho: РSabem?!! Silêncio e atenção.

Continuou: – Humanos t√™m a capacidade de memorizar melodias e, com treino, harmonias. √Č poss√≠vel cantar e assobiar melodias. Harmonias, tamb√©m, de certa forma. N√£o os ritmos. Gosto de pensar que o instinto do ritmo √© a dan√ßa. O ritmo, diferentemente dos outros atributos da m√ļsica, √© percebido com propriocep√ß√£o, receptores de posi√ß√£o, articulares, musculares, √≥sseos, que nos informam de nossa rela√ß√£o com o espa√ßo. √Č menos elaborado, menos c√≥rtex cerebral, mais primevo e primordial. Nossa rela√ß√£o com o espa√ßo √© a forma mais primitiva de ec-sistir. Ser-para-fora. N√£o √© √† toa que, na mitologia hindu, Shiva Nataraja √© o deus dan√ßante que, de dentro de seu c√≠rculo de fogo, cria, conserva e destroi o universo¬†por meio de sua dan√ßa. O ritmo cria a vida e tamb√©m pode destrui-la. O cora√ß√£o tem ritmo. A respira√ß√£o tem ritmo. Ritmos que podem ser entretecidos, interferindo uns com os outros, ora destruindo, ora construindo outros ritmos. O “andar” tem ritmo. “Copular” tem ritmo. At√© o “pensar” tem ritmo. – e colocou os indicadores nas t√™mporas, recuperando-se da catarse do discurso.

O Velho fez uma longa pausa. Respirou profundamente e passou os olhos pela classe. A aluna que dançava o olhava fixamente. РProfessor!? Рfinalmente disse. РSim? Рele respondeu com mansidão incomum. Ela hesitou. РProfessor. Por que dançamos? Рao que seguiu-se um certo rumor de conversas paralelas, carregadas de surpresa, dada a ousadia da pergunta que o professor acabara de parecer ter respondido. O Velho tinha humor instável e não convinha testar sua capacidade explosiva. Ele respondeu com a agressividade de sempre, mas dessa vez, ela soou um tanto diferente, estranhamente aconchegante apesar de conter um quase imperceptível lamento.

Porque o corpo quer rir.¬†Porque estamos leves. Porque com a dan√ßa, trocamos de posi√ß√£o e vemos outras possibilidades de ocupar o espa√ßo no qual ec-sistimos e assim, compreendemos tamb√©m outras formas de ser. S√≥¬†um deus que sabe dan√ßar √© capaz de criar… Eu s√≥ acreditaria em um deus dan√ßante… E, com o riso raro, rodopiou no centro das carteiras. E come√ßou a bater palmas de lado, ao modo dos dan√ßarinos espanh√≥is, em ritmo sincopado, no que foi seguido pelos alunos com batuques ass√≠ncronos na f√≥rmica e reco-recos improvisados com bics em espirais de caderno. Pelos p√©s, alguns alunos pre(s)sentiram. Outras, Dioniso.

shiva nataraja

O (Infra)Vermelho e o Branco

red-filter-heart-musicO professor Miguel Nicolelis e sua equipe da Duke University¬†Medical Center conseguiu¬†conseguiram fazer com que ratos “visualizassem” luz¬†em comprimentos de onda na faixa do infravermelho, o que normalmente¬†n√£o √© poss√≠vel, nem para esses animais, nem para n√≥s. De fato, o t√≠tulo da mat√©ria divulgada afirma que os roedores adquiriram a habilidade de “tocar” a luz infravermelha ap√≥s a coloca√ß√£o de uma neuropr√≥tese. O experimento consistia em treinar ratos a escolher cores (luz vis√≠vel portanto) dentro de uma gaiola com objetivo de receber uma recompensa. “Depois de trein√°-los, os pesquisadores implantaram nos c√©rebros dos ratos um arranjo de microeletrodos com di√Ęmetro aproximado de 1/10 de um fio de cabelo na regi√£o cortical respons√°vel pela sensa√ß√£o t√°ctil proveniente de seus bigodes. Ligado aos microeletrodos havia um detector de infravermelho. O sistema estava programado de tal forma que quando o sensor de infravermelho disparava,¬†era gerado um impulso el√©trico no c√≥rtex sensorial do rato. O sinal aumentava em frequ√™ncia e intensidade conforme o animal se aproximava da luz. No in√≠cio, os ratos se confundiam e co√ßavam o nariz. Depois de aproximadamente 1 m√™s de treinamento, os ratos utilizavam o focinho para localizar a fonte de infravermelho como algu√©m que procura algo no horizonte com a m√£o em aba sobre os ¬†olhos. Levavam a cabe√ßa para frente e para tr√°s, procurando pela intensidade do sinal. E funcionou. Um achado importante, segundo Nicolelis, foi o fato de que tal adapta√ß√£o n√£o causou uma perda da fun√ß√£o prim√°ria – t√°til – das vibrissas do rato. Uma avenida ficcional se abre diante dessa nova possibilidade. Imaginar homens com possibilidade de “ver” ondas eletromagn√©ticas e outros tipos de entes invis√≠veis aos nossos olhos √© fant√°stico. Al√©m disso, a possibilidade reparar les√Ķes neurol√≥gicas (cegueira, surdez, afasias, etc), utilizando a plasticidade do sistema nervoso √© uma consequ√™ncia √≥bvia.

A coisa toda √© muito interessante. Fiquei com isso na cabe√ßa, quando no Twitter me aparece uma palestra do Augusto de Campos tentando responder √† quest√£o: “O que √© a poesia?”. Nessa palestra, Campos usa uma estorinha contada por Arnold Sch√∂nberg, o “louco” do dodecafonismo na m√ļsica, quando se defrontou com a pergunta “O que √© a m√ļsica?”. A anedota tal como Campos contou na palestra (apesar de que o interessante e bonito portal Musa Rara¬†d√° uma outra vers√£o) √© esta:

Um cego perguntou ao seu guia: ‚ÄĒ Como √© o leite?
O outro: ‚ÄĒ O leite √© branco.
O cego: ‚ÄĒ E o que √© esse ‚Äúbranco‚ÄĚ? Me d√™ um exemplo de algo que seja ‚Äúbranco‚Äú!
O guia: ‚ÄĒ Um cisne. Ele √© totalmente branco e tem um pesco√ßo longo e curvo.
O cego: ‚ÄĒ Pesco√ßo curvo? Como √© isso?
O guia, imitando a forma do pescoço do cisne com o braço, fez com que o cego o apalpasse.
O cego: ‚ÄúAh! agora eu sei como √© o branco‚Ķ‚ÄĚ

Se a anedota explica (ou complica) nossa compreens√£o do que √© a m√ļsica, deixo aos seletos leitores. Tudo isso foi mesmo para dizer que se algu√©m perguntasse a um rato stendhaliano neuroprotetizado de Nicolelis o que √© o infravermelho, talvez ele respondesse: “Infravermelho? N√£o sei o que √©. S√≥ sei que me d√° muita vontade de co√ßar o nariz…”

Eric Thomson, Rafael Carra e Miguel A. L. Nicolelis. February 12, 2013 in the online journal Nature Communications.

Veja a palestra de Augusto de Campos.

Antropofagia

1¬į Ato

E se um dia, ou uma noite, um dem√īnio lhe aparecesse furtivamente em sua mais desolada solid√£o e dissesse: “Este corpo, como voc√™ v√™ e toca, jamais ver√° e tocar√° de novo.” Se ele dissesse que seus olhos ser√£o feitos de tal modo que nenhuma parte do seu corpo se expor√° ao seu olhar e que um dispositivo maligno, deixando-o livre para alcan√ßar todas as coisas, o impedir√° de tocar sua pr√≥pria carne. Que a partir desse fat√≠dico momento, voc√™ ser√° como uma part√≠cula de poeira dotada apenas de consci√™ncia, sem a viv√™ncia de seu pr√≥prio corpo.

 

2¬į Ato

“A universidade aos poucos sucumbe aos efeitos colaterais de um mundo que, como diria Nietzsche, vomita “ideias modernas”. Os processos de democratiza√ß√£o do saber, como suspeitava nosso fil√≥sofo, s√£o processos de produ√ß√£o de nulidades em grandes quantidades.(…) A universidade est√° morta e s√≥ n√£o sente o cheiro do cad√°ver quem tem voca√ß√£o para se alimentar de lixo. Fosse Kafka vivo e escrevesse um conto sobre n√≥s, acad√™micos, nos colocaria com cara de ratos.” (LF Pond√© na FSP).

 

3¬į Ato

“Ai – dizia o rato – o mundo se torna cada dia mais pequeno. Primeiro era t√£o amplo que eu tinha medo, seguia adiante e sentia-me feliz ao ver √† dist√Ęncia, √† direita e √† esquerda, alguns muros, mas esses longos muros se precipitam t√£o velozmente uns sobre os outros que j√° estou no √ļltimo quarto e, ali no canto, est√° a armadilha para a qual vou. – Apenas tens de mudar a dire√ß√£o de tua marcha, disse o gato, e comeu-o.” (Franz Kafka – apud¬†Jac√≥ Guinsburg).

 

4¬į Ato

“A aus√™ncia de corpo n√£o √© tua alma, Rato. O melhor √© comer-te a ti mesmo se o queres desprezar.” E assim, se fez…

Gran Finale

HdH Prado JrAgradecimento especial ao Dr. Hermes Prado Jr que gentilmente cedeu a figura que inspirou o texto.

 

O Batman e o Estudante de Medicina

Toda vez que m√©dicos ou estudantes de medicina cometem algum ato hediondo contra a humanidade, sinto como se milhares de olhares virtuais se dirigissem a mim. Essa observa√ß√£o atenta deixa transparecer, por vezes, um certo ar reprobat√≥rio, em outras, permite perceber semblantes d√ļbios, num misto de d√ļvida e comisera√ß√£o.

Quanto ao julgamento moral, n√£o h√° como escapar. Tais atos acabam afetando toda uma classe de trabalhadores da Sa√ļde e, dada a velocidade da informa√ß√£o, julga-se, condena-se, explica-se o inexplic√°vel em escala mundial. Mas isso n√£o me perturba. Me incomoda muito mais, esse olhar que pergunta: “Por qu√™?”. Ou “O que √© que voc√™s veem, fazem, sofrem que, de s√ļbito, um ou outro, aqui e acol√°, rendem-se aos instintos mais sanguin√°rios e crueis ?”. “O que √© essa puls√£o de morte que mora dentro de voc√™s?”.

Assim √©, que um estudante de medicina chamado James Holmes de 24 anos matou 12 pessoas e feriu 59 ¬†no cinema onde estreiava o novo “Batman”, no estado do Colorado nos EUA. Em 1999, de modo incrivelmente semelhante, Mateus da Costa Meira, ent√£o com 25 anos, cursando uma tradicional faculdade de medicina em S√£o Paulo, capital, disparou mais de 40 tiros contra a plateia no cinema de um shopping center que assistia o filme “Clube da Luta” na mesma cidade. As est√≥rias de Eug√™nio Chipkevitch e Roger Abdelmassih j√° fazem parte de enciclop√©dias virtuais. Artigos s√£o publicados com compila√ß√Ķes de crimes perpetrados por m√©dicos. Matamos calouros em trotes. Tudo isso sem falar nas horrendas “experi√™ncias” realizadas por m√©dicos e cientistas nazistas.

√Ä parte da sociologia dos fatos, qual seja, a das sociedades b√©licas, facilidade ao acesso de armas, mentalidade do “kickass“, “Tiros em Columbine” (que ali√°s, faz 10 anos e continua atual√≠ssimo), que deixo aos soci√≥logos e fil√≥sofos de plant√£o e; √† parte das explica√ß√Ķes psiqui√°tricas e psicanal√≠ticas do que possa passar dentro da cabe√ßa dessas criaturas, muito al√©m de seu sofrimento difuso e profundo que deixo a quem de direito, vou ficar com alguns n√ļmeros.

O censo de 2009 mostrou que o Brasil tinha¬†330.825 m√©dicos e 191.480.630 de habitantes. Isso d√°, grosso modo, 1 m√©dico para cada 580 pessoas. Entretanto, a distribui√ß√£o √© bem desigual. A figura abaixo mostra um quadro de 2007. O Brasil tem uma propor√ß√£o de 900 pacientes para cada m√©dico, segundo o autor.¬†Segundo dados do CREMESP¬†(pdf), a propor√ß√£o de m√©dicos na cidade de S√£o Paulo √© de 232 habitantes para cada m√©dico. Em Santos, o n√ļmero chega a 158, dados de 2009.

 

Com isso, quero deixar a pergunta: M√©dicos e profissionais da √°rea da sa√ļde cometem proporcionalmente mais crimes hediondos que a popula√ß√£o n√£o atuante nesta √°rea espec√≠fica? A resposta parece √≥bvia que n√£o. Entretanto, os crimes praticados em especial¬†por m√©dicos t√™m um peso social muito maior dada a imagem que ainda resguardam no cotidiano das pessoas. O que acaba chocando n√£o √© o crime em si, j√° que, desgra√ßadamente, √© mais um crime, mais uma chacina, mais uma bestialidade humana. O que chama aten√ß√£o nos notici√°rios s√£o dois fatos: O Batman e o estudante de Medicina.

Um real, outro imagin√°rio. O Batman nos vinga. Haver√° correla√ß√£o? O massacre “cinematogr√°fico” brasileiro ocorreu durante a exibi√ß√£o de um filme violento tamb√©m. √Č um “n” muito pequeno para concluir, diriam. E discutiriam… J√° a facticidade do¬†“estudante de Medicina” choca porque vai no nervo exposto daquilo que nos mant√©m em p√© e que n√£o √© a imagina√ß√£o, o sonho, a virtualidade. Nem tampouco √© facilmente quantific√°vel, j√° que habita os recessos de uma subjetividade sobrescrita e desbotada a n√≥s legada pela sociedade tecnol√≥gica e espetacular. O maior horror dessas est√≥rias talvez n√£o seja proveniente do fato de que o vil√£o “Estudante de Medicina” mata seres humanos comuns, mas sim porque aniquila um dos √ļltimos resqu√≠cios de nossa humanidade: a¬†Esperan√ßa.

Vampiros e Bruxas

√Č poss√≠vel distinguir, dentre muitos, dois arqu√©tipos oriundos do¬†medo¬†humano de relacionar-se com outros seres humanos: um masculino e um feminino.

O arqu√©tipo feminino √© a¬†bruxa¬†ou¬†feiticeira. Mulher de grande sabedoria e variadas formas, ora jovens e sedutoras, ora velhas e asquerosas, que ao induzir os homens ao erro e utilizando de m√ļltiplos ardis, em geral, de forte apelo sexual, consegue o que deseja e, invariavelmente, leva suas v√≠timas √† morte.¬†A bruxa representa o medo masculino da sabedoria feminina.¬†Uma mulher s√°bia era um ser bastante complicado de lidar se considerarmos o ambiente onde surgiram tais lendas, em geral, o per√≠odo medieval. Subversiva frente ao poder f√°lico emanado pelos homens, portadora de outra vis√£o da sociedade, a bruxa por n√£o contar com a for√ßa f√≠sica masculina, utiliza-se de um tipo diverso de poder, desconhecido dos homens e por essa raz√£o, temido, dado que n√£o se enfrenta com espadas (cl√°ssico s√≠mbolo f√°lico). Os homens que a elas resistem devem travar uma luta interna contra a concupisc√™ncia de seus sentimentos, pois √© por meio dessa “fraqueza” que a bruxa se tornar√° forte e o vencer√°. Nada mais proto-crist√£o. A persegui√ß√£o e as fogueiras nas quais foram queimadas centenas de mulheres, entretanto, testemunham a forma como a ascese mon√°stica – uma amputa√ß√£o traum√°tica que transcendia a virilidade dado que mutilava tamb√©m a capacidade de amar o sexo oposto – dizia, como a ascese mon√°stica lidava com um poder que jamais conseguiria vencer.

O arqu√©tipo correspondente para as mulheres n√£o √© o feiticeiro ou bruxo. Este, povoa o imagin√°rio feminino no mesmo local onde as mo√ßas est√£o habituadas a duelar e, por isso, n√£o provoca espasmos. Sem d√ļvida, quem ocupa esse lugar √© o¬†vampiro. Antiqu√≠ssima lenda de v√°rias culturas, foi com Bram Stoker que ganhou corpo e fama. O livro de Stoker √© de 1897, final da √©poca vitoriana, per√≠odo de rigidez de costumes e apar√™ncias, que apesar de tudo, falhou em coibir a libido humana, a feminina incluso. O vampiro assim, representaria o homem sedutor, quase irresist√≠vel, ao qual a mulher reluta em entregar-se, dada as ser√≠ssimas consequ√™ncias de seus atos, mas que, ao mesmo tempo, proporciona-lhe um prazer sexual indescrit√≠vel, um arrebatamento quente e √ļmido que a eleva acima das coisas mundanas a ponto de implorar pelo contato com o monstro. Da mesma forma, a vampira para os homens, ocupa o mesmo espa√ßo que uma bela bruxa e n√£o se constitui em nova amea√ßa (para quem j√° vive, no caso, naturalmente amea√ßado).

Se concordamos at√© agora, poderemos tamb√©m concordar que tentativas recentes de transformar vampiros, lobisomens e sacis-perer√™ em doen√ßas, s√£o cada vez mais frequentes. Assisti, sem deixar de sentir um pouco de pena do elenco, o filme¬†Daybreakers (2009)¬†cujo t√≠tulo no Brasil √© o bizarro¬†2019 – O Ano da Extin√ß√£o. (Vou mandar um spoiler agora, se voc√™ pretende assistir essa porcaria, n√£o leia o par√°grafo at√© o fim). No filme, uma epidemia de vampiros acomete a esp√©cie humana e vai transformando todos. Consequ√™ncia √≥bvia, conforme os humanos v√£o escasseando, os vampiros v√£o passando fome, de tal forma que um sujeito do mal (Sam Neill) inventa um banco de sangue gigantesco para extrair sangue humano sem que se transforme os coitados em vampiros acabando com os j√° “parcos recursos ainda existentes”. No final, descobre-se uma cura para a “doen√ßa” de ser vampiro e salva-se a humanidade.

O que quero chamar a aten√ß√£o aqui √© que os vampiros do filme n√£o t√™m nada de sedutor. As mordidas s√£o muito mais parecidas com “estupros mandibulares” que com sensuais mordiscadas no pesco√ßo de virgens ofegantes. Sangue pra todo o lado, no melhor estilo¬†trash. N√£o que eu quisesse manter a lenda dos vampiros exatamente a mesma, desde h√° dois s√©culos. Mas, quando tentamos transformar um mito em doen√ßa, na verdade o que estamos fazendo √© racionaliz√°-lo. Algumas doen√ßas desempenharam esse papel, estigmatizadas que foram, a ponto de incorporar temores primordiais. (Ver a S√≠filis e, recentemente, a AIDS). Nada de novo aqui. A racionaliza√ß√£o √© um procedimento iluminista (s√©culo XVII). Tudo o que tememos, tendemos a racionalizar, seja por meio de procedimentos cient√≠ficos, seja por meio de cren√ßas religiosas (e nesse ponto est√° o m√©rito da igreja cat√≥lica no per√≠odo medieval j√° que o povo vivia morrendo de medo de tudo quanto era dem√īnio, esp√≠rito, etc) e aqui o termo “racionalizar” ganha um significado mais amplo.

Contudo, racionalizar um mito não significa matá-lo. Significa jogá-lo para baixo do tapete e isso quer dizer que ele retornará transmudado em outra coisa, voltando a assombrar os incautos. Veja se essa não é uma história de vampiro real!

A persistência dos mitos é o principal obstáculo ao pensamento livre. Matar mitos é uma luta individual, solipsista até, que dura toda a vida consciente. Enfrentar quimeras, muitas das quais nem sabemos quem são: é esse o método que nos livra das garras, presas, quebrantos e feitiços dos vampiros e bruxas que somos e habitamos em nós.

O Que Você Vai Ser Quando Morrer?

“A decomposi√ß√£o humana come√ßa aproximadamente¬†4 min depois da morte. O in√≠cio da decomposi√ß√£o √© dominado por um processo chamado aut√≥lise ou auto-digest√£o. Conforme as c√©lulas do corpo s√£o privadas de oxig√™nio, o di√≥xido de carbono aumenta no sangue, o pH diminui e as esc√≥rias acumulam-se, envenenando as c√©lulas. Concomitantemente, enzimas celulares (lipases, proteases, amilases, etc.) come√ßam a dissolver as c√©lulas de dentro para fora, causando sua ruptura, liberando fluidos ricos em nutrientes. Esse processo inicia-se precocemente e progride mais r√°pido em tecidos com alto teor enzim√°tico¬†(tal como o f√≠gado) e com alto conte√ļdo de √°gua (como o c√©rebro), mas afetar√° todas as c√©lulas do corpo. A aut√≥lise normalmente n√£o se torna aparente at√© alguns dias. Primeiro, s√£o observadas ves√≠culas preenchidas por fluidos e descolamentos¬†de grandes extens√Ķes na pele.¬†O corpo fica √† temperatura ambiente¬†(algor mortis), o sangue deposita-se no corpo causando a descolora√ß√£o na pele¬†(livor mortis), e o citoplasma celular coagula devido ao aumento da acidez¬†(rigor mortis). Depois que uma quantidade suficiente de c√©lulas se rompe, os fluidos ricos em nutrientes tornam-se dispon√≠veis e o processo de putrefa√ß√£o pode come√ßar.” [Vaas, 2002, em tradu√ß√£o livre por minha conta e risco]

Muitos dos que n√£o acreditam na vida ap√≥s a morte – eu incluso – pensam em deixar um legado de a√ß√Ķes, lembran√ßas, livros e/ou artigos j√° estariam de bom tamanho; quem sabe filhos… A decomposi√ß√£o de um corpo humano envolve uma s√©rie de rea√ß√Ķes bioqu√≠micas, como se sabe. Quando um corpo humano √© cremado, o que em geral ocorre a temperaturas maiores que 1000¬įC, todos os fluidos s√£o evaporados e o que resta s√£o cinzas dos ossos. O mineral presente nos ossos √© a hidroxiapatita cuja a f√≥rmula √©¬†Ca5(PO4)3(OH). O calor, entretanto, a transforma em sais de fosfato de c√°lcio [Ca3(PO4)2]. Gayle E. O’Neill chegou a quantificar as subst√Ęncias presentes nas cinzas de corpos cremados e encontrou a seguinte composi√ß√£o:¬†Fosfato 47,5%; C√°lcio 25,3%; Sulfato 11,00%; Pot√°ssio 3,69%; S√≥dio 1,12%; Cloreto 1,00%; S√≠lica 0,9%; √ďxido de Alum√≠nio 0,72%;¬†Magn√©sio 0,418%; √ďxido de Ferro¬†0,118%;¬†Zinco 0,0342%; √ďxido de¬†Tit√Ęnio 0,0260%;¬†B√°rio 0,0066%;¬†Antim√īnio 0,0035%;¬†Cromo 0,0018%;¬†Cobre 0,0017%;¬†Mangan√™s 0,0013%; Chumbo¬†0,0008%; Estanho¬†0,0005%;¬†Van√°dio 0,0002%;¬†Ber√≠lio <0,0001%;¬†Merc√ļrio <0,00001%. Muitas dessas subst√Ęncias t√™m cor. Quando misturam-se com √°gua e umas com as outras, rea√ß√Ķes interessantes podem ocorrer. Foi o que o fot√≥grafo David Maisel descobriu.

Maisel visitou um antigo hosp√≠cio no estado do Oregon nos EUA. No pr√©dio abandonado, pode verificar que muitos dos internos que l√° vieram a falecer, foram cremados por que nenhum familiar veio reclamar o corpo. As cinzas, armazenadas em latas, permaneceram durante d√©cadas a merc√™ do tempo, mesmo depois da institui√ß√£o ser desativada. Infiltra√ß√£o de √°gua e mudan√ßas de temperatura, fizeram com que os sais reagissem com o metal da lata, provocando rea√ß√Ķes inusitadas. Cada lata, como cada personalidade ali confinada, tem um padr√£o de cor e desenho totalmente diferente das outras.

√Č como se a personalidade da pessoa ficasse estampada no corpo da lata. Maisel fotografou com detalhe todo o local e publicou um livro sobre o assunto. √Č interessante observar os padr√Ķes. Ver como as rea√ß√Ķes com subst√Ęncias bastante semelhantes ocorreram de forma √ļnica e especial para formar uma individualidade que, mesmo que l√° houvesse milhares de milh√Ķes de latas, jamais se repetiria. Como seres humanos viventes que, numa met√°fora m√≥rbida da morte que se volta sobre si, refletem a vida que tiveram numa institui√ß√£o para desajustados e, mesmo mortos, tornam a diferenciar-se, na igualdade de seu confinamento, em m√ļltiplos padr√Ķes de cores e texturas. Um luxo s√≥. Como dizer que sua morte foi v√£?

Morrer é uma arte.

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Vass AA, Barshick SA, Sega G, Caton J, Skeen JT, Love JC, & Synstelien JA (2002). Decomposition chemistry of human remains: a new methodology for determining the postmortem interval. Journal of forensic sciences, 47 (3), 542-53 PMID: 12051334