Um Rosto sem as Maçãs 2

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√Č imposs√≠vel para qualquer m√©dico saber tudo sobre todas as doen√ßas. Mas h√° um problema anterior a esse que √© o de identificar a presen√ßa da doen√ßa. Saber se ela existe ou n√£o no paciente que estamos a avaliar. Isso pode ser bem mais complexo do que parece √† primeira vista. Atribuir uma causa psicol√≥gica para algo que tem um substrato fisiol√≥gico ou “org√Ęnico”, como gostam de dizer alguns cl√≠nicos da velha guarda, √© um erro estrat√©gico que pode custar a vida do paciente. H√° uma m√°xima antiga que diz que esse tipo de diagn√≥stico – o de causa psicol√≥gica – √© um “diagn√≥stico de exclus√£o”, ou seja, exclu√≠das todas as outras causas poss√≠veis, ent√£o, e s√≥ ent√£o, ficamos com ele. Devassei com perguntas a vida privada da mo√ßa. Exceto pela sua natural timidez, n√£o havia nenhum estigma depressivo, nenhum tipo de comportamento compulsivo, nenhum v√≠cio. Nada. Ela estava feliz por realizar um casamento h√° muito programado e preocupada com nossa preocupa√ß√£o em rela√ß√£o a algo que ela achava relativamente simples. Viera apenas checar algo est√©tico. Nada de mais. Sa√≠ do consult√≥rio 12 e voltei para sala de discuss√£o.

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Afundei na poltrona. Dessa vez, era o meu indicador no temporal direito que apoiava minha cabe√ßa. Como diagnosticar alguma coisa que nunca tinha visto antes? O aluno parado com a ficha na m√£o, me observava, se divertindo comedidamente com minha transparente agita√ß√£o mental. Outros m√©dicos j√° organizavam pastas, estetosc√≥pios, canetas e carimbos, aprontando-se para enfrentar outro pesado dia de ambulat√≥rio. Ao perceber a discuss√£o que se avolumava, um deles perguntou qual era o problema. O interno contou-lhe o caso. Ele voltou-se para mim e disse “Isso n√£o existe. Prescreva um polivitam√≠nico pra menina e deixe que ela case em paz”. Era um dos senhores bonach√Ķes. Eu pensava exatamente como ele, mas minha “intransigente vaidade juvenil m√©dica” me fazia agora pensar no exato oposto. E se houvesse realmente uma entidade que explicasse o paradoxo “engordar o corpo e emagrecer o rosto”? Seria interessante, n√£o? O problema √© que eu n√£o sabia¬†nem por onde come√ßar.

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Acostumamos desde o in√≠cio do curso m√©dico a pensar sindromicamente nos grandes problemas que afligem a esp√©cie humana. Por exemplo, uma queixa de falta de ar, ap√≥s uma caracteriza√ß√£o apropriada, gera o diagn√≥stico sindr√īmico de insufici√™ncia respirat√≥ria. Esta, por sua vez, na depend√™ncia da velocidade de instala√ß√£o, pode ser aguda ou cr√īnica. Uma insufici√™ncia respirat√≥ria cr√īnica tem v√°rias causas. Pode ser de origem respirat√≥ria, card√≠aca, causada por descondicionamento f√≠sico ou mesmo de fundo psicol√≥gico. As causas respirat√≥rias podem ser relacionadas a problemas nos br√īnquios, nos alv√©olos pulmonares, nos m√ļsculos respirat√≥rios, etc. Esse racioc√≠nio segue para todas as causas e o que n√£o √© poss√≠vel descartar com a hist√≥ria e o exame f√≠sico, descartamos com exames laboratoriais, de imagem ou anatomo-patol√≥gicos, como as bi√≥psias. Grosso modo, √© essa a forma como funciona o racioc√≠nio cl√≠nico comum. A mo√ßa em quest√£o poderia ter, como imaginei no in√≠cio, o diagn√≥stico de uma s√≠ndrome consumptiva. Ter√≠amos que investigar problemas de tire√≥ide e at√© descartar a presen√ßa de neoplasias. Entretanto, isso n√£o se sustenta pois a pobre ganhara 3 kg em sua silhueta o que descarta uma sindrome cuja principal caracter√≠stica √© perder peso. Problemas psiqui√°tricos podem alterar a forma como n√≥s nos percebemos. A anorexia nervosa √© o exemplo mais radical disso. De novo, em uma conversa r√°pida com a paciente era f√°cil perceber que seu estado psicol√≥gico n√£o era suficiente para causar tamanho estrago. Al√©m disso, sua foto no documento de identidade n√£o deixava margem √† especula√ß√Ķes. Me defrontava pela primeira vez em minha curta profiss√£o de m√©dico com um problema que depois vim compreender como sendo um dilema que atravessou s√©culos de pr√°tica m√©dica, sendo conhecido desde os tempos da ilha de C√≥s: o problema da sede das doen√ßas. Mais importante que responder √† pergunta “o que √©?” √© saber “onde est√° a doen√ßa”. Essa aparente invers√£o “ontol√≥gica-topogr√°fica” √© caracter√≠stica do pensamento m√©dico de todos os tempos e a origem que a justifica √© bem simples: para iniciar o combate a alguma coisa, o mais importante n√£o √© saber o que √©, mas sim, onde est√°. Entre escolher acertar o diagn√≥stico ou acertar o tratamento, a √ļltima alternativa √© sempre prefer√≠vel. Eu n√£o sabia onde localizar a doen√ßa da mo√ßa. Meus esquemas de racioc√≠nio cl√≠nico acostumados a pensar em org√£os e sistemas, insuficientes ou hiperfuncionantes, e que sempre deram conta de diagnosticar os casos mais dif√≠ceis, nessa situa√ß√£o, n√£o estavam funcionando. Ou eu prescrevia polivitam√≠nicos √† paciente e a liberava para casar, ou achava a sede da doen√ßa, fazia um diagn√≥stico brilhante e assim, alimentava ainda mais minha insaci√°vel vaidade. Mas, para isso, eu precisava de uma pista.

(continua…)

Gravura de Emily Evans no Street Anatomy. Clique aqui para ver o original.

Um Rosto sem as Maçãs

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O Ambulat√≥rio Did√°tico estava frio e vazio naquela manh√£ de sexta-feira. Era meu dia de chegar primeiro. Cumprimentei os funcion√°rios de sempre com um sorriso autom√°tico, contornei o cadastro de pacientes e entrei na sala de discuss√£o afundando na poltrona de couro surrado que nunca me parecera t√£o confort√°vel. Dor de cabe√ßa e sono s√£o uma combina√ß√£o terr√≠vel para quem tem que discutir didaticamente casos de Cl√≠nica M√©dica com alunos do 5o ano de medicina. Eles s√£o, por vezes, digamos, demasiado insistentes em detalhes que t√™m pouca import√Ęncia. A mentalidade pr√°tica do m√©dico mais experiente constroi atalhos dif√≠ceis de serem trilhados pelos estudantes. Se bem que eu n√£o poderia ser chamado exatamente de experiente dado que terminara a resid√™ncia h√° apenas 2 anos. Na verdade, eu era bem mais confiante que experiente. Tinha aquela confian√ßa pr√≥pria de motociclistas cuja moto ainda nunca havia derrubado. Ocupava a mesma posi√ß√£o de outros m√©dicos, estes sim, com 20 ou 30 anos de formatura. Senhores bonach√Ķes aos quais eu frequentemente confrontava em conhecimento e condutas. Eles, bem, digo que eles tinham bastante paci√™ncia comigo.

Dizia então, que sentara na poltrona e, com a cabeça apoiada na mão direita fechada sobre minha maxila, fiquei a vegetar modorrento, quase arrependido da noite anterior, quando chegou um interno com a ficha de um paciente na mão.

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“Posso discutir um caso?” “Claro” eu disse sem a menor convic√ß√£o. “√Č uma paciente de 31 anos cuja queixa √© que seu rosto emagreceu…” disse o aluno e ficou me encarando, esperando alguma rea√ß√£o. De olhos fechados, inabal√°vel, eu disse “Quantos quilos ela perdeu e em quanto tempo?” iniciando a caracterizac√£o anamn√©stica de um poss√≠vel quadro consumptivo. “Ela engordou” disse o quintanista, com um rasgo indisfar√ß√°vel de prazer. Eu tive que abrir os olhos e olhar para o rapaz. Era um garoto grande, 1,90 m, bom aluno e bom atleta, mas nada de excepcional. J√° conhecia-o de outros casos e nunca tinha me chamado aten√ß√£o exceto pelo corpanzil. Seus pacientes que retornariam das consultas passadas ainda n√£o haviam chegado e ele resolveu chamar a mo√ßa que aguardava, sozinha, na sala de espera. ‚ÄúEngordou?‚ÄĚ ‚ÄúSim. Disse que ganhou uns 3 kg. Mas, o rosto emagreceu‚ÄĚ ‚Äď respondeu agora bem s√©rio, dando peso √†s suas afirma√ß√Ķes. A impress√£o de que ele me pregava uma pe√ßa foi se dissipando.¬†‚ÄúVoc√™ a examinou?‚ÄĚ ‚ÄúSim. N√£o vi nada de mais. Tudo normal.‚ÄĚ Levantei da minha poltrona e fiz sinal para que ele me mostrasse o consult√≥rio onde estava. O ambulat√≥rio come√ßava a receber outros pacientes e a sala de pr√©-consulta ‚Äď onde as enfermeiras aferem os dados vitais e avaliam as queixas dos pacientes ‚Äď j√° estava lotada. Entramos no consult√≥rio 12.

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Era uma mo√ßa bem clara, de cabelos castanho-claro, finos e estendendo-se at√© os ombros; t√≠mida, corou ao me ver. Me apresentei e sentei na cadeira reservada ao m√©dico. O aluno ficou em p√© do meu lado direito. ‚ÄúO que aconteceu?‚ÄĚ ‚Äď perguntei. ‚ÄúDr. Eu vou me casar em Julho e fui experimentar o vestido. A costureira ao me ver ficou feliz porque achou que eu tivesse emagrecido. Mas na verdade, engordei. Acho que estou nervosa, trabalhando muito e tenho abusado do chocolate‚ÄĚ ‚Äď disse isso e olhou para o ch√£o, como se tivesse cometido um pecado. ‚ÄúSim. Mas e a hist√≥ria do seu rosto?‚ÄĚ ‚Äď perguntei querendo chegar logo ao problema. ‚ÄúPois √©. Todo mundo est√° dizendo que meu rosto emagreceu, mas eu, de fato, engordei um pouco.‚ÄĚ Olhei bem de frente para ela. Levantei e peguei seu queixo com a m√£o direita, para examin√°-la bem de perto. Eu jamais tinha visto algo semelhante. De fato, o rosto da mo√ßa estava emagrecido. As ma√ß√£s do rosto bem murchas deixavam transparecer os ossos que estavam por tr√°s. Os olhos discretamente encovados. Tive uma ideia. ‚ÄúVoc√™ tem alguma fotografia antiga com voc√™? A identidade, por exemplo?‚ÄĚ Ela tinha. A foto n√£o deixava d√ļvidas. Seu rosto, de fato, emagrecera, dando-lhe um aspecto que chamamos de emaciado. Nenhum sinal de desnutri√ß√£o. Nenhuma outra queixa. Nada. Apenas um rosto sem as ma√ß√£s.

(Continua…)

PS. A foto acima não é da paciente em questão, mas é supreendentemente parecida e me lembrou esta história. Colocarei o link na continuação.

Coisa-Em-Si

O gr√°fico abaixo √© s√≥ para lembrar voc√™, macaco pelado que brinca de compreender, que a “coisa-em-si” n√£o lhe √© acess√≠vel, ok? Seus aparelhinhos de surdez e lentes de aumento foram bem longe, devo admitir, mas tudo que conseguiram foi alargar o buraco da fechadura. Abaixa a bola, cuida da tua casa e olha pro espelho. Nele¬†n√£o est√° a natureza, s√≥ um macaco pelado desesperado em busca de sentido.

(via Drunkeynesian, que por sua vez, via Abstruse Goose)

Slow Doctoring

 

√Č mais um manifesto. Depois do Slow Food, do Slow Blogging, Slow Thinking, entre tantos, chegou a vez do Slow Doctoring. O Slow doctoring √© uma proposta de relacionar tempo e pr√°tica m√©dica. Expus minhas viv√™ncias sobre tempo¬†e de como acredito que ele seja intr√≠nseco a cada pessoa. Se assim de fato √©, uma consulta, visita ou qualquer intera√ß√£o onde se d√™ a rela√ß√£o entre um m√©dico(a) e um(a) paciente √©, tamb√©m, uma rela√ß√£o entre viv√™ncias de tempo diferentes. H√° uma percep√ß√£o geral de que os m√©dicos n√£o t√™m muito “tempo” para seus pacientes. Um slowdoctor √© um sincronizador dos tempos:¬†ae√īnicos m√©dicos e khr√īnicos dos pacientes.

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Slow Doctoring √© ouvir. P a c i e n t e m e n t e. √Č confiar, estimular e aprender a construir uma narrativa do paciente. Voc√™, al√©m de se divertir, certamente se surpreender√° com isso.

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Slow Doctoring √© a rejei√ß√£o da filosofia do “Quebrou-Conserta” vigente na medicina contempor√Ęnea. Nada contra os ortopedistas, por favor. O problema √© esse tipo de filosofia que passou a ser regra e vem sendo aplicada onde n√£o seria necess√°ria. Exemplo, dor no peito = cateterismo = stent-em-tudo-quanto-for-obstru√ß√£o. “Quebrou-conserta”.

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Slow doctoring é entender que alguns diagnósticos só vem com o tempo e que para isso, é preciso ter o tempo como amigo e que ele, não é muito fácil.

4

Slow doctoring é desobjetivar a medicina. Ela, menina dos olhos de Platão e Aristóteles, ficou moça com Descartes e Bacon e parece ter casado com Adam Smith. Para entender o humano não basta quantificá-lo, é preciso ser humano também, a maior das empatias.

5

Slow doctoring √© entender que atr√°s de sua caneta existe um arsenal gigantesco e extremamente agressivo de exames, tratamentos cl√≠nicos ou cir√ļrgicos capazes, hoje, de virar seu paciente literalmente do avesso e encontrar, n√£o s√≥ doen√ßas potencialmente trat√°veis, mas tamb√©m pseudodoen√ßas cujo “tratamento” √©, em si, a maior de todas as doen√ßas: iatrogenia. Um carimbo em cima disso n√£o endossa o ato.

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Como corol√°rio do item 5, slow doctoring √© domar a tecnologia m√©dica e n√£o deixar que ela dome voc√™. Muito da “velocidade necess√°ria” da pr√°tica √© o m√©dico a servi√ßo da tecnologia e n√£o do paciente. Evitar confundir medicina com tecnoci√™ncia para n√£o correr o risco de ser cientista em exerc√≠cio ilegal da medicina.

7

Slow doctoring é entender o lead-time bias e suspeitar dele. Sempre. Truque dos deuses siameses.

8

Question√°rios s√£o para quem n√£o quer conversar. Assim como algoritmos e diretrizes s√£o para quem n√£o quer (ou n√£o pode) pensar.

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Reconhecer que algumas vidas chegam ao fim e que a morte não é, de longe, a pior coisa que pode acontecer a uma pessoa.

10

“Se eu quiser diagnosticar um paciente, tenho que conhecer toda sua fisiologia ou fisiopatologia de sua doen√ßa. Se eu quiser trat√°-lo terei de conhecer a farmacologia e a farmacodin√Ęmica de suas medica√ß√Ķes, riscos e benef√≠cios de seus procedimentos. Se eu quiser cuidar dele, o que inclui convenc√™-lo de utilizar as medica√ß√Ķes e submeter-se aos procedimentos, tenho que compreend√™-lo como uma totalidade. Se eu quiser cur√°-lo ou alivi√°-lo de seu sofrimento, serei seu m√©dico, e para isso, tenho que respeit√°-lo antes de qualquer coisa”. Por isso, ser m√©dico de algu√©m d√° muito trabalho e isso consome tempo.

PS. Deve haver mais algum. Mas 10 √© um n√ļmero bonito.

FMUSP 100 Anos – Carta do Prof. Arrigo Raia

Faculdade de Medicina com o Hospital das Clínicas as fundo. Provavelmente década de 50.

O Ecce Medicus publica hoje, como parte das comemora√ß√Ķes dos 100 anos da Faculdade de Medicina da USP, uma carta do professor Arrigo Raia divulgada originalmente no jornal da Funda√ß√£o Faculdade de Medicina. A FMUSP n√£o √© a faculdade de medicina mais antiga do Brasil, mas talvez seja a que disp√Ķe de uma mesa mais farta para que cada aluno possa se servir. Seu pr√©dio na avenida Dr. Arnaldo e o museu de medicina valem uma visita. A FMUSP comemora 100 anos da formatura de sua primeira turma junto com o centen√°rio de seu aluno decano.

Uma vida longa como a da FMUSP

Nasci em Araraquara, no interior de S√£o Paulo, dia 23 de agosto de 1912. Em breve completarei meu centen√°rio, junto com a Faculdade de Medicina da Universidade de S√£o Paulo (FMUSP), escola em que me formei e vivi grande parte da minha vida. Eu sou a √ļnica pessoa viva que acompanhou a faculdade por todos os lugares por onde ela passou. Primeiro na Rua Brigadeiro Tobias, em seguida na Santa Casa de Miseric√≥rdia de S√£o Paulo e depois minha turma inaugurou os edif√≠cios da FMUSP na Avenida Dr. Arnaldo, onde est√° at√© hoje. A medicina chegou √† minha vida muito cedo. Meu av√ī materno era italiano e m√©dico. Ele veio para o Brasil e desde pequeno eu o acompanhava nas visitas aos doentes, no trole ou no carro para passear, ent√£o com 8 anos eu j√° tinha vontade de ser m√©dico cirurgi√£o.

Entrei na FMUSP em 1931 e me formei em 1936. Nos primeiros tr√™s anos, o curso era ministrado na Avenida Dr. Arnaldo. No quarto ano passamos para a Santa Casa de Miseric√≥rdia de S√£o Paulo e a princ√≠pio eu me decepcionei, porque naquela √©poca a cirurgia era muito restrita e nos casos das cirurgias maiores o √≠ndice de mortalidade era muito grande. O panorama mudou muito quando, em 1945, o Prof. Dr. Benedito Montenegro assumiu a dire√ß√£o da primeira cadeira de cl√≠nica cir√ļrgica e o Prof. Dr. Al√≠pio Corr√™a Netto assumiu a segunda cadeira, em 1946.

No √ļltimo ano da faculdade, o governo italiano ofereceu uma passagem para 12 alunos. Em 1937, fomos em caravana para a It√°lia e tivemos a oportunidade de conhecer diferentes cl√≠nicas. Como eu j√° havia terminado o curso, estendi a viagem e fui para a Alemanha. Voltei para o Brasil em 1938 e regressei para trabalhar com o Prof. Al√≠pio. A partir da√≠, desenvolvi toda a minha carreira na FMUSP. Em 1939, me tornei o terceiro assistente da cadeira de Cl√≠nica Cir√ļrgica, dirigida pelo Prof. Dr. Al√≠pio. Em 1941, fui nomeado para exercer o cargo de Professor de Enfermagem Cir√ļrgica da Escola de Enfermagem Obst√©trica da FMUSP. Em 1943, me tornei Livre Docente de Cl√≠nica Cir√ļrgica. Em 1961, conquistei, atrav√©s de concurso, o t√≠tulo de Professor Adjunto. Em 1970, assumi o cargo de Chefe de Disciplina do Aparelho Digestivo do Departamento de Cl√≠nica Cir√ļrgica. E em 1973, ap√≥s concurso, conquistei o t√≠tulo de Professor Titular do Departamento de Cirurgia.

Logo ap√≥s me tornar Professor Titular da cirurgia do aparelho digestivo, adotei uma conduta pioneira, acredito que no mundo, dividindo a especialidade em grupos dedicados, respectivamente, a cada um dos setores da disciplina, entregando a chefia a jovens cirurgi√Ķes que gradativamente se transformaram em l√≠deres na especialidade. S√£o eles: es√īfago, Prof. Henrique Walter Pinotti; est√īmago, Prof. Jos√© Gama Rodrigues; colo, reto e √Ęnus, Profs. Daher Cutait e Angelita Habr Gama; f√≠gado e hipertens√£o portal, Prof. Silvano Raia; e vias biliares e p√Ęncreas, Prof. Marcel Cerqueira Cesar.

Fui um professor democrata, dei liberdade aos assistentes para que desenvolvessem suas atividades na disciplina, de tal forma que sete deles se tornaram professores titulares: cinco da FMUSP e dois em outras universidades.

Com a colabora√ß√£o, contribu√≠mos para a evolu√ß√£o da cirurgia digestiva em nosso meio, de tal sorte que, ao fim do meu mandato de professor, eram praticadas todas as t√©cnicas cir√ļrgicas para tratamento das doen√ßas do apare- lho digestivo, da apendicectomia ao transplante de √≥rg√£os.

Após muitos estudos, em 1971, eu e os Profs. Silvano Raia e Marcel Cerqueira Cesar Machado realizamos o primeiro transplante de fígado. O paciente sobreviveu 20 dias. Em 1974, fui convidado a participar da comissão médica que ajudaria na instalação e estruturação do Hospital Universitário (HU), auxiliando na escolha e aquisição dos equipamentos.

Durante minha trajet√≥ria publiquei tr√™s livros: ‚ÄúManual de Pr√© e P√≥s-operat√≥rio‚ÄĚ, com a colabora√ß√£o dos Drs. Joel Faintuch e Marcel Cerqueira Cesar Machado; ‚ÄúManifesta√ß√Ķes Digestivas da Mol√©stia de Chagas‚ÄĚ e ‚ÄúTratado de Cl√≠nica Cir√ļrgica Al√≠pio Corr√™a Netto‚ÄĚ, com a colabora√ß√£o do Dr. Euriclydes de Jesus Zerbini. Fui agraciado com 33 pr√™mios concedidos por sociedades cient√≠ficas e congressos m√©dicos, destes dez foram outorgados pela Academia Nacional de Medicina e um pela Academia Americana pelo progresso da ci√™ncia de Nova York. Sou membro de 14 sociedades m√©dicas nacionais e internacionais e, dentre elas, membro em√©rito do Col√©gio Brasileiro de Cirurgi√Ķes.

Recentemente, fui homenageado em uma comemoração do centenário da FMUSP como aluno mais antigo da faculdade. Fiquei muito feliz por ter sido lembrado e pelo reconhecimento de todo meu trabalho junto à Faculdade e ao Hospital.

Além da minha família, a cirurgia foi minha paixão durante toda a vida: operei até meus 86 anos. Já estou no segundo casamento, tenho uma filha, dois netos e quatro bisnetos. Hoje, com quase 100 anos, minha maior alegria e diversão é brincar com meus bisnetos, e também faço caminhadas e musculação. Sempre que posso, viajo para rever minha cidade, Araraquara.

Bendigo o momento em que decidi seguir a carreira m√©dico-cir√ļrgica. Muito trabalhei, muitos exemplos transmiti, muito ensinei e muito recebi em troca. Na fase atual de minha vida, sinto-me realizado e com experi√™ncia suficiente para dizer aos mais jovens que vale a pena todo o sacrif√≠cio que a carreira m√©dica exige. Al√©m de tudo, nos oferece um ocaso tranquilo e feliz pela n√≠tida no√ß√£o do dever cumprido.

Prof. Dr. Arrigo Antonio Raia Médico Cirurgião e Professor Emérito da FMUSP

Qualis o Quê?!!

N√£o sou um cientista cientologista. Mas de vez em quando arrisco aqui uns pitacos.

N√£o sei se todo mundo sabe mas a import√Ęncia de um jornal cient√≠fico √© dada por alguns √≠ndices sendo talvez, o mais importante, o¬†Fator Impacto (em ingl√™s, Impact Factor¬†– IF). Existem muitas cr√≠ticas a isso. Uma delas √© que o FI pertence a uma empresa privada com a√ß√Ķes da bolsa de valores e teria, por essa raz√£o, conflitos de interesse com uma ci√™ncia, digamos, desinteressada. N√£o quero ser purista, mas o dinheiro de ag√™ncias de fomento √† pesquisa – a grande maioria, p√ļblicas no Brasil – √© distribu√≠do tendo como base publica√ß√Ķes ranqueadas, em √ļltima inst√Ęncia, pelo FI. Vai da√≠…

Outra cr√≠tica frequentemente disparada contra a “ditadura do FI” √© que se ele √© razo√°vel para jornais cient√≠ficos, √© muito ruim para bons¬†artigos. (Veja aqui a apresenta√ß√£o da bib. Suely Soares a quem cito na sequ√™ncia). A¬†validade do FI¬†est√° diretamente associada √† aceita√ß√£o¬†de duas premissas:¬†a) as publica√ß√Ķes relevantes¬†s√£o freq√ľentemente citadas (quantitativa);¬†b) o conjunto de publica√ß√Ķes indexadas (pelo ISI, no caso)¬†√© suficiente para apreender os resultados¬†das pesquisas a serem avaliadas (quantitativa). E isso n√£o √© sempre verdade. H√° v√°rios fatores interferentes que v√£o desde a densidade de cita√ß√Ķes (n√ļmero de refer√™ncias por artigo, maior nos estudos biom√©dicos) √† velocidade de obsolesc√™ncia da √°rea em quest√£o (menor nas √°reas exatas, por exemplo). Isso faz com que a produ√ß√£o de determinado autor seja “desviada” (skewed) e impede que se fa√ßa uma an√°lise mais fidedigna. Al√©m de, e talvez por isso, o FI √© calculado apenas a partir dos dois √ļltimos anos. Outro erro bastante comum √© usar o FI da revista para dizer que um artigo publicado nela √© bom. O pr√≥prio Eugene Garfield, criador do FI, disse na refer√™ncia que cito abaixo, que isso √© um erro te√≥rico crasso.

Pensando em todas essas confus√Ķes e mais algumas (ver leitura adicional no final do post) o prof. Maur√≠cio Rocha e Silva publicou um artigo interessante na Clinics, a revista do Hospital das Cl√≠nicas da USP. O artigo me chamou a aten√ß√£o e comecei a escrever esse post no final de 2011. Como que numa transmiss√£o telep√°tica a Revista Pesquisa FAPESP publica em seu n√ļmero de Janeiro de 2012 (que ainda n√£o est√° no s√≠tio, para os apressadinhos) uma sensacional entrevista com o professor Rocha e Silva. Eu confesso que tive muita dificuldade para entender o artigo original. A entrevista, entretanto, √© muito simples e faz o artigo brilhar. Vamos a eles.

O principal alvo de Rocha e Silva √© o sistema Qualis. (Para um dos “defeitos” do Qualis veja¬†aqui). O racioc√≠nio √© o seguinte. “Todas as revistas t√™m uma distribui√ß√£o de cita√ß√Ķes assim√©trica. Quer dizer, 20% dos artigos concentram 50% das cita√ß√Ķes e os 20% mais baixos concentram 3% das cita√ß√Ķes. De maneira que no New England Journal Medicine, a revista m√©dica de mais alto impacto do mundo, por exemplo, tem 20% de artigos que s√£o muito pouco citados. Isso vale para qualquer revista.” O argumento da Capes por interm√©dio do sistema Qualis √© simples e direto: se voc√™ publica numa revista com fator impacto alto, voc√™ √© bom. Ponto. Isso √© um erro de l√≥gica de acordo com os c√°lculos acima.

Para ele, o Qualis penaliza alguns autores por publicarem em revistas brasileiras. De acordo com o racioc√≠nio acima “se eu publico numa revista A1, ganho a nota de A1. Mas, 70% dos artigos que saem na revista A1 n√£o t√™m aquele bom n√≠vel de cita√ß√£o, que vem de 30% dos artigos. Por isso, 70% dos artigos ali publicados recebem um upgrade.” Talvez isso n√£o seja um problema maior pois estamos no topo, tratando de revista com alt√≠ssimo FI. Que mal tem em elevarmos o n√≠vel de maioria dos artigos de uma grande revista? Contudo, no Brasil, de acordo com a classifica√ß√£o da Capes, n√£o temos revistas A1. Numa categoria intermedi√°ria esse problema aumenta muito porque as revistas t√™m um limite inferior e um superior – uma faixa. Vamos de novo. Publico um artigo numa revista, digamos, B3 da Qualis o que me garante aparecer na prestigiosa Pubmed, e ganho a nota da revista como pesquisador. Se meu artigo for “meia-colher” talvez eu seja “puxado” pelos outros bons artigos da revista (upgrade). Mas se meu artigo for muito bom, eu tenho a chance de 20-30% de estar sendo rebaixado pelos restantes. Note que a Capes deu a nota para a revista – at√© a√≠, tudo bem – mas est√° usando essa nota para qualificar o artigo do pesquisador e, por fim, o pr√≥prio pesquisador! Nas palavras do prof. Maur√≠cio Rocha e Silva “…na hora em que a Capes atribui uma classifica√ß√£o baixa a uma revista, eles est√£o dizendo para os p√≥s-graduandos e seus orientadores, ‘N√£o publiquem nessa revista se voc√™ puder publicar em uma com o FI mais alto”.

“Se o Qualis n√£o tivesse esse problema interno, daqui a 10 anos ter√≠amos uma cole√ß√£o de grandes revistas internacionais brasileiras porque haveria um est√≠mulo √† publica√ß√£o.” Qual o problema de n√£o termos revistas nacionais? Preconceito cient√≠fico contra publica√ß√Ķes latinoamericanas¬†cientificamente demonstrado. √Č um c√≠rculo vicioso cuja solu√ß√£o passa necessariamente pela melhoria do n√≠vel das revistas nacionais que, por sua vez, precisam de uma pol√≠tica diferente de incentivo √† publica√ß√£o. A ado√ß√£o de outros crit√©rios que n√£o o simples FI para qualificar os pesquisadores √©, portanto, priorit√°ria.

Leitura adicional

1. Fator de impacto: Import√Ęncia e influ√™ncia no meio editorial, acad√™mico e cient√≠fico¬†(pdf) Ruiz et al.

2.¬†The Agony and the Ecstasy‚ÄĒ¬†The History and Meaning of the Journal Impact Factor. (pelo criador da criatura, Eugene Garfield)

3. A vez das Revistas Científicas? РEcce Medicus

ResearchBlogging.orgMauricio Rocha e Silva (2011). Continuously Variable Rating: a new, simple and
logical procedure to evaluate original scientific publications CLINICS, 66 (12), 2099-2104: 0.1590/S1807-59322011001200016

ResearchBlogging.org Meneghini, R., Packer, A., & Nassi-Calò, L. (2008). Articles by Latin American Authors in Prestigious Journals Have Fewer Citations PLoS ONE, 3 (11) DOI: 10.1371/journal.pone.0003804

Clique na figura para ver a origem. Autorizado segundo as regras do autor. Agradecimentos à Maria Guimarães pelo exemplar da revista FAPESP em primeira mão.

Atualização

A interessante entrevista do prof. Maurício Rocha e Silva na Pesquisa Fapesp.

Deus N√£o Existe

2946162595_b6e8b16e60_o“No princ√≠pio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princ√≠pio com Deus. Todas as coisas foram feitas por meio dele” (Jo√£o 1:1-3)

 

Deus n√£o existe. Nem poderia jamais ter existido. Pelo menos do ponto de vista lingu√≠stico. Existir vem do verbo latino ex-istere¬†e significa “sair de”, “manifestar-se” tomando um sentido de “vir a ser”. Existir, portanto, n√£o pode ser uma caracter√≠stica do Deus monote√≠sta. Ele jamais poderia ter vindo a ser em determinado momento porque, nesse caso, n√£o seria eterno.

Se eu digo ent√£o, que Deus √©… vou compar√°-lo com algo que conhe√ßo e esta √© uma met√°fora que estar√° fadada √† imortalidade, o que n√£o √© bom¬†para quem quer saber das coisas. Segundo Umberto Eco (Kant e o Ornitorrinco, p√°g 17-54) ningu√©m jamais estudou sem√Ęnticamente de forma satisfat√≥ria o verbo ser. Parece ter sido Pascal o primeiro a notar a dificuldade: “N√£o podemos nos preparar para definir o ser sem incorrer neste absurdo: porque n√£o podemos definir uma palavra sem come√ßarmos pelo termo √©, expresso ou subentendido. Ent√£o, para definir o ser, √© preciso dizer √©, e assim usar o termo definido na defini√ß√£o”. Problema semelhante ocorre com as afirma√ß√Ķes sobre a ess√™ncia divina. Quanto mais poder √© dado a Ele, menos apreens√≠vel fica. Veja a encrenca.

Talvez haja apenas uma s√≥ chance de Deus existir de fato. Isso ocorre quando Ele se manifesta, vem a ser, dentro do pr√≥prio indiv√≠duo que Nele cr√™. Acho que Santo Agostinho tratou disso no Livro X das¬†Confiss√Ķes e¬†Espinoza foi excomungado de duas religi√Ķes por pensar algo parecido com isso.¬†Engra√ßado que este Deus parece n√£o bastar para muita gente. Talvez, sua popularidade n√£o seja muito alta porque, tal indiv√≠duo, um portador de Deus, n√£o pode export√°-lo. Seria preciso que Ele despertasse no outro e isso, al√©m de n√£o depender de uma decis√£o racional, cria um Deus ao qual um outro n√£o teria acesso.¬†De qualquer forma, n√£o √© um Deus muito “√ļtil” porque cada um tem o Seu com todos os corol√°rios decorrentes dessa limita√ß√£o.

O caso contr√°rio, o do Deus eterno que √©, simplesmente, se torna, de fato, uma grande sacada. De cara, j√° causa um n√≥ em quem tenta “pens√°-Lo” ao cair no dilema de Pascal (de fato, existem outros dilemas muito mais cabeludos que esse. Veja por exemplo, o verbete “Ser” no Abbagnano). Sendo inapreens√≠vel ou “impens√°vel”¬†formalmente¬†(ou pelo menos dif√≠cil de pensar, nem o Kant!), faz-se divino pela intangibilidade.

G√™nio. O sujeito que escreveu “no princ√≠pio, era o Verbo” sabia exatamente o que queria n√£o dizer.