Saturnismo

‚ÄúHence gout and stone afflict the human race;Hence lazy jaundice with her saffron face;Palsy, with shaking head and tott’ring knees.And bloated dropsy, the staunch sot’s disease;Consumption, pale, with keen but hollow eye,And sharpened feature, shew’d that death was nigh.The feeble offspring curse their crazy sires,And, tainted from his birth, the youth expires.‚ÄĚ
(Description of lead poisoning by an anonymous Roman hermit, Translated by Humelbergius Secundus, 1829)
De gota e c√°lculo a ra√ßa humana padece; De semblante cr√≥ceo a icter√≠cia esmorece; Paralisia, a cabe√ßa treme e o joelho desce. E t√ļrgido edema, do qual o b√™bado padece; Consumptivo, p√°lido, de olhar vazio mas fulgente, E tra√ßos real√ßados mostram que a morte √© iminente. A prole mals√£ execra seus antigos, loucos. E, maculados ao nascer, expiram-se mo√ßos.
(Descri√ß√£o de envenenamento por chumbo, por um eremita romano an√īnimo, traduzida com gra√ßa e estilo pelo Igor Santos da tradu√ß√£o de Humelbergius Secundus, 1829)

 

Hoje aconteceu mais um fato a somar-se na intrincada rede que √© a pr√°tica m√©dica na sa√ļde suplementar (√© assim que o Governo divide a sa√ļde: o SUS e o resto, este √ļltimo chamado de “sa√ļde suplementar”) que constitui e √© constitu√≠da pelo comportamento do m√©dico, dos pacientes e os interst√≠cios ao qual ambos est√£o mergulhados, a saber, o mundo dos signos. Bem, a Medicina toda √© assim. Um paciente veio procurar-me – logo eu, mero cl√≠nico a procura de seu lugar ao sol – com suspeita de intoxica√ß√£o por chumbo. Eu sempre pergunto aos pacientes qual alma boa (ou n√£o) lhes indicou minha pessoa e ele, para minha supresa, de modo franco, foi dizendo: “Bom, doutor. Na verdade, foi falta de op√ß√£o mesmo.”

Eu, que j√° n√£o me acho l√° grande coisa, mesmo assim, fiquei surpreso com essa colis√£o frontal com a realidade, mas o paciente foi logo se explicando: “N√£o leve a mal, doutor. √Č que eu sempre gosto de procurar especialistas. Quando tenho dor de cabe√ßa, vou a um neuro. Se tenho dor na barriga, um gastro. Otorrino, oftalmo, etc. Mas quando o m√©dico da empresa me disse que podia ser intoxica√ß√£o por chumbo, eu revirei a internet. Teria que ser um toxicologista mas n√£o encontrei nenhum que fa√ßa consult√≥rio. Acabei optando por um cl√≠nico mesmo”. Claro que n√£o levei a mal.

Na minha cabe√ßa, enquanto o paciente falava, passavam in√ļmeras imagens, textos, par√°grafos de livros (eu, algumas vezes, me lembro do local onde li ou onde estava tal foto, ali no canto superior esquerdo da p√°gina da esquerda… sou normal?). De repente, a sucess√£o de imagens parou e eu estava em Roma, a vecchia. H√° quem diga que a deteriora√ß√£o moral e intelectual da elite de Roma estava ligada √† intoxica√ß√£o pelo chumbo que era adicionado ao vinho (e outros alimentos) √† √©poca, por ter sabor adocicado, corrigindo os fortes taninos, al√©m de ser utilizado em utens√≠lios dom√©sticos. ¬†O chumbo parece ter algum papel na queda do Imp√©rio Romano. J√ļlio C√©sar, apesar de suas aventuras sexuais, n√£o deixou muitos herdeiros e seu sucessor, C√©sar Augusto, al√©m de ser totalmente est√©ril, n√£o tinha o menor interesse sexual… Ahn? Como?

“Ent√£o, doutor. Eu acho realmente que tenho uma intoxica√ß√£o por chumbo, pelo menos inicial. Mas, gostaria de investigar, porque na minha empresa, trabalho com um tipo de … e o m√©dico disse que… e a minha mulher t√° achando que….” Hmmm – disse, apoiando o queixo com os dedos em “L”. Vamos investigar.

O chumbo √© um metal que deve ser dosado no sangue total j√° que adere √† parede dos gl√≥bulos vermelhos o que torna sua dosagem no plasma n√£o confi√°vel. Tamb√©m por isso, causa uma anemia microc√≠tica hipocr√īmica que faz diagn√≥stico diferencial com falta de ferro. Eu explico. A anemia causada pela falta de ferro faz os gl√≥bulos vermelhos ficarem pequenos e desbotados. Igualzinho √† intoxica√ß√£o por chumbo. Temos que averiguar. Vou pedir tamb√©m o √°cido D amino levul√≠nico na urina que pode mostrar se o chumbo encontrado no sangue est√° tendo algum efeito t√≥xico ou n√£o. Vale a pena pedir Vitamina D e horm√īnio paratireoidiano (PTH) para checar altera√ß√Ķes do metabolismo do c√°lcio… Ossos… radiografias…

N√£o encontrei nada de alterado no exame cl√≠nico. Fiz a solicita√ß√£o de exames e pedi para o paciente remarcar t√£o logo tivesse seu resultado. Ele foi embora, pareceu-me, satisfeito. Impress√£o que confirmei com a secret√°ria depois. No intervalo entre uma consulta e outra, sentei ao computador e fiquei pensando e escrevendo estas linhas…

Esse √© um belo de um “furo” no racioc√≠nio tecnicista da especializa√ß√£o desmedida da medicina atual, n√£o? O paciente precisa de um super-especialista e n√£o encontra. Nem pagando! A “m√£o invis√≠vel” do mercado da sa√ļde suplementar ainda n√£o est√° preparada para exce√ß√Ķes aned√≥ticas. Curiosamente, casos complexos s√£o encaminhados aos hospitais-escola, invariavelmente pertencentes √† rede p√ļblica, para serem desvendados. Por qu√™? Eu acho que √© porque nesses hospitais, quando se consegue vencer as defici√™ncias eternas, algu√©m “abra√ßa” o caso. “Veste a camisa” e o paciente, cansado de procurar, tenta a sorte. N√£o que isso n√£o exista na rede privada. Acho que existe sim, mas custa muito caro. Talvez nem todo mundo saiba, mas existe um v√£o entre os usu√°rios da sa√ļde complementar t√£o profundo e vasto quanto o que separa o SUS dela pr√≥pria. Quando falamos de “conv√™nios”, h√° pacientes t√£o desassistidos que preferem utilizar a rede p√ļblica, (se for ligada a algum hospital-escola, tanto melhor) a utilizar a rede pr√≥pria da seguradora. Vivo isso diariamente e n√£o sei como resolver.

Saturno √© o planeta identificado com o chumbo, um dos primeiros metais descobertos e por isso, conhecido como o “pai dos metais”. Segundo o mito grego, Cronos (n√£o confundir com Khronos – tempo) que romanizou-se para Saturno,¬† era um tit√£ m√≥rbido que castrou o pai – Uranus – e acabou devorando sua pr√≥pria prole com medo de perder o trono. “A pr√≥pria palavra saturnino significa especificamente o indiv√≠duo com temperamento uniformemente sombrio, c√≠nico e taciturno como resultado da intoxica√ß√£o cr√īnica pelo chumbo”. Soturno. O paciente n√£o estava envenenado pelo chumbo, ainda bem. Mas, de repente, confesso que fiquei curioso em saber meus n√≠veis pl√ļmbicos…

~ o ~

PS. Veja a interessant√≠ssima hist√≥ria das intoxica√ß√Ķes pelo chumbo aqui.

UTI. Agradecimentos ao Igor Santos pela brilhante tradução acima.

O Batman e o Estudante de Medicina

Toda vez que m√©dicos ou estudantes de medicina cometem algum ato hediondo contra a humanidade, sinto como se milhares de olhares virtuais se dirigissem a mim. Essa observa√ß√£o atenta deixa transparecer, por vezes, um certo ar reprobat√≥rio, em outras, permite perceber semblantes d√ļbios, num misto de d√ļvida e comisera√ß√£o.

Quanto ao julgamento moral, n√£o h√° como escapar. Tais atos acabam afetando toda uma classe de trabalhadores da Sa√ļde e, dada a velocidade da informa√ß√£o, julga-se, condena-se, explica-se o inexplic√°vel em escala mundial. Mas isso n√£o me perturba. Me incomoda muito mais, esse olhar que pergunta: “Por qu√™?”. Ou “O que √© que voc√™s veem, fazem, sofrem que, de s√ļbito, um ou outro, aqui e acol√°, rendem-se aos instintos mais sanguin√°rios e crueis ?”. “O que √© essa puls√£o de morte que mora dentro de voc√™s?”.

Assim √©, que um estudante de medicina chamado James Holmes de 24 anos matou 12 pessoas e feriu 59 ¬†no cinema onde estreiava o novo “Batman”, no estado do Colorado nos EUA. Em 1999, de modo incrivelmente semelhante, Mateus da Costa Meira, ent√£o com 25 anos, cursando uma tradicional faculdade de medicina em S√£o Paulo, capital, disparou mais de 40 tiros contra a plateia no cinema de um shopping center que assistia o filme “Clube da Luta” na mesma cidade. As est√≥rias de Eug√™nio Chipkevitch e Roger Abdelmassih j√° fazem parte de enciclop√©dias virtuais. Artigos s√£o publicados com compila√ß√Ķes de crimes perpetrados por m√©dicos. Matamos calouros em trotes. Tudo isso sem falar nas horrendas “experi√™ncias” realizadas por m√©dicos e cientistas nazistas.

√Ä parte da sociologia dos fatos, qual seja, a das sociedades b√©licas, facilidade ao acesso de armas, mentalidade do “kickass“, “Tiros em Columbine” (que ali√°s, faz 10 anos e continua atual√≠ssimo), que deixo aos soci√≥logos e fil√≥sofos de plant√£o e; √† parte das explica√ß√Ķes psiqui√°tricas e psicanal√≠ticas do que possa passar dentro da cabe√ßa dessas criaturas, muito al√©m de seu sofrimento difuso e profundo que deixo a quem de direito, vou ficar com alguns n√ļmeros.

O censo de 2009 mostrou que o Brasil tinha¬†330.825 m√©dicos e 191.480.630 de habitantes. Isso d√°, grosso modo, 1 m√©dico para cada 580 pessoas. Entretanto, a distribui√ß√£o √© bem desigual. A figura abaixo mostra um quadro de 2007. O Brasil tem uma propor√ß√£o de 900 pacientes para cada m√©dico, segundo o autor.¬†Segundo dados do CREMESP¬†(pdf), a propor√ß√£o de m√©dicos na cidade de S√£o Paulo √© de 232 habitantes para cada m√©dico. Em Santos, o n√ļmero chega a 158, dados de 2009.

 

Com isso, quero deixar a pergunta: M√©dicos e profissionais da √°rea da sa√ļde cometem proporcionalmente mais crimes hediondos que a popula√ß√£o n√£o atuante nesta √°rea espec√≠fica? A resposta parece √≥bvia que n√£o. Entretanto, os crimes praticados em especial¬†por m√©dicos t√™m um peso social muito maior dada a imagem que ainda resguardam no cotidiano das pessoas. O que acaba chocando n√£o √© o crime em si, j√° que, desgra√ßadamente, √© mais um crime, mais uma chacina, mais uma bestialidade humana. O que chama aten√ß√£o nos notici√°rios s√£o dois fatos: O Batman e o estudante de Medicina.

Um real, outro imagin√°rio. O Batman nos vinga. Haver√° correla√ß√£o? O massacre “cinematogr√°fico” brasileiro ocorreu durante a exibi√ß√£o de um filme violento tamb√©m. √Č um “n” muito pequeno para concluir, diriam. E discutiriam… J√° a facticidade do¬†“estudante de Medicina” choca porque vai no nervo exposto daquilo que nos mant√©m em p√© e que n√£o √© a imagina√ß√£o, o sonho, a virtualidade. Nem tampouco √© facilmente quantific√°vel, j√° que habita os recessos de uma subjetividade sobrescrita e desbotada a n√≥s legada pela sociedade tecnol√≥gica e espetacular. O maior horror dessas est√≥rias talvez n√£o seja proveniente do fato de que o vil√£o “Estudante de Medicina” mata seres humanos comuns, mas sim porque aniquila um dos √ļltimos resqu√≠cios de nossa humanidade: a¬†Esperan√ßa.

Raz√£o de Chances

Outro dia, me perguntaram a tradu√ß√£o para o portugu√™s brasileiro do termo estat√≠stico¬†odds ratio. Acho que a mais utilizada √© mesmo¬†raz√£o de chances. Essa nomenclatura tem um significado muito especial porque¬†chance¬†√© uma forma de exprimir¬†probabilidade. Probabilidade, por sua vez, pode ser a¬†medida de uma incerteza¬†ou de uma¬†expectativa de ocorr√™ncia¬†acerca de um evento. √Č interessante separar essas duas formas de probabilidade porque delas se originam os dois ramos principais do pensamento probabil√≠stico, a saber, “probabilidade tipo cren√ßa” e “probabilidade tipo frequ√™ncia”, respectivamente [1]. Outros autores usar√£o os termos “subjetiva” e “objetiva”, “epist√™mica” e “aleat√≥ria” e, finalmente, “bayesiana” e “frequentista”, respectivamente. Em medicina, usamos muito a frequentista apesar de que abordagens “subjetivas” t√™m sido cada vez mais frequentes, hehe. (Sorry, pelo trocadilho infeliz, ver aqui e aqui, pitacos recentes sobre Bayes).

Risco, chance e probabilidade s√£o conceitos dos quais temos no√ß√Ķes intuitivas e que, muitas vezes, utilizamos indistintamente. Mas h√° diferen√ßas importantes. Diferen√ßas que devem ser conhecidas tanto por quem reporta os dados, como para quem l√™ um artigo cient√≠fico que os usa. Imagine a seguinte situa√ß√£o retirada do livro do professor J√ļlio C√©sar [1]. Foram analisadas 793 quedas de moto em determinada cidade. Alguns motoqueiros estavam de capacete, outros n√£o. Alguns sofreram ferimentos na cabe√ßa e outros n√£o. Podemos usar a tabela abaixo, para melhor visualizar os dados.

Uso de Capacete

Total

N√£o

Sim

Ferimento na Cabeça

N√£o

428

130

558

Sim

218

17

235

%Ferimento na Cabeça

33,75%

(218/646)

11,56%

(17/147)

29,63%

(235/793)

Total

646

147

793

Por esses dados podemos concluir que a probabilidade de motoqueiros terem ferimento na cabe√ßa ap√≥s uma queda nesta cidade √© 29,63%. J√° a probabilidade de um ferimento na cabe√ßa com capacete √© de apenas 11,56% e sem ele √© de 33,75%. Esses n√ļmeros se referem ao conjunto dos acidentados. Pacientes gostam de perguntas do tipo: “Dr, qual o risco de EU machucar a cabe√ßa se EU andar de moto sem capacete?” Uma resposta poss√≠vel seria: “Segundo um estudo, ao andar de moto em determinada cidade sem capacete, o risco de se lesionar a cabe√ßa em um acidente √© 33,75%”. Risco, portanto, seria a pr√≥pria probabilidade trazida ao n√≠vel individual. A√≠, a pessoa que fez o estudo fica famosa e vai dar uma entrevista ao jornal local. L√° pelas tantas, a rep√≥rter gata pergunta: “Muito bem, doutor, sabemos que o capacete protege contra les√Ķes encef√°licas. Mas, quanto?” Voc√™ pode fazer a seguinte conta 33,75%-11,56% = 22,19% e dizer que h√° uma redu√ß√£o de 22% no risco. A rep√≥rter: “???”. Voc√™ vendo o desespero dela e querendo ajud√°-la (e aproveitando para se exibir um pouco), mentalmente, faz outra conta 33,75/11,56; e ao vivo, responde na lata: 2,92. O que quer dizer esse n√ļmero? Quer dizer que o n√ļmero de les√Ķes encef√°licas em quem se acidenta de motocicleta e¬†n√£o usa capacete √© quase 3 vezes maior (2,92) que em quem usa. Esse √© o que chamamos Risco Relativo (RR). Fica bem mais f√°cil de entender, n√£o? (Voc√™ poderia ainda fazer outra conta que √© 1/22,19% = 4,5, que significa que para cada 4,5 motoqueiros usando capacete que caem, voc√™ previne 1 les√£o encef√°lica. Esse √© o number need to treat – NNT – muito utilizado em ensaios cl√≠nicos, mas a√≠ a rep√≥rter ia se apaixonar). Quem usa capacete tem menos risco de les√£o encef√°lica, associa√ß√£o agora devidamente quantificada. O RR √© um n√ļmero muito f√°cil de compreender e por isso √© muito bom quando podemos inform√°-lo. A¬†odds ratio¬†(OR) e o risco relativo (RR) s√£o semelhantes e as duas medidas de associa√ß√£o mais utilizadas em epidemiologia. Por essa raz√£o, s√£o extremamente importantes para as ci√™ncias da sa√ļde, em geral, e para a medicina, em particular.

Chamemos de associa√ß√Ķes, as infer√™ncias sobre rela√ß√Ķes causais, mas usemos outro exemplo: Quem tem colesterol alto tem mais infarto do mioc√°rdio? Estudos epidemiol√≥gicos tentam¬†associar¬†dislipidemia com eventos coronarianos. Como? De v√°rias formas, mas especialmente com estudos chamados de¬†observacionais¬†porque os pesquisadores s√≥ ficam¬†observando¬†o que vai acontecer, sem¬†intervir¬†nos casos. (Estudos em que h√° uma ou mais interven√ß√Ķes s√£o chamados, muito sugestivamente, de intervencionais¬†ou¬†experimentais). Voltando aos estudos observacionais, estes podem ser de dois tipos principais:¬†transversais¬†(cross-sectional) ou¬†longitudinais. Os transversais s√£o como uma foto de uma comunidade ou grupo de pacientes, ou seja, o tempo est√° parado e est√°tico, n√£o havendo seguimento dos indiv√≠duos no tempo, portanto. S√£o bons para avaliarmos a preval√™ncia de doen√ßas. Por outro lado, longitudinais s√£o os estudos que requerem que os indiv√≠duos sejam observados por um per√≠odo de tempo. Esse “tempo” em que vou “observar” pode ser para frente ou para tr√°s e aqui, por favor, n√£o entre em p√Ęnico. Veja a figura abaixo (desgra√ßadamente em ingl√™s, mas f√°cil de entender, retirada da refer√™ncia [2])

Diferença conceitual entre estudos Caso-controle e de Coorte

√Č sempre bom come√ßarmos do¬†starting point.¬†Notai que existem 2 caixas “contendo” indiv√≠duos¬†com¬†uma determinada doen√ßa e¬†sem¬†ela. Se, para utilizarmos o exemplo acima, dosarmos o colesterol de todo mundo, saberemos quem tem dislipidemia (colesterol alto) e quem n√£o tem, i.e., quem est√° ou n√£o exposto ao fator que queremos estudar. Se eu seguir esses pacientes por um tempo, vou ver quem teve (develop disease) ou n√£o (disease-free) infarto do mioc√°rdio. E assim, terei feito um brilhante estudo de Coorte. Se, por outro lado, eu pegar os registros hospitalares, dos consult√≥rios, ou quaisquer que sejam, de pacientes com infarto e comparar com pacientes que n√£o tiveram infarto, posso tentar¬†associar¬†o colesterol elevado no passado com a presen√ßa de doen√ßa coronaria atual,¬†retrospectivamente. Estarei ent√£o, fazendo um estudo caso-controle. Entendido isso, vejam s√≥ que interessante.

Em um estudo transversal (o da fotografia), eu posso calcular o risco de uma certa doen√ßa baseado na sua preval√™ncia, ou seja, no n√ļmero de pessoas com aquela doen√ßa naquele exato momento. Nos estudos de coorte (aqueles nos quais o tempo vai “pra frente”), eu posso obter o risco de desenvolvermos uma doen√ßa qualquer atrav√©s da incid√™ncia. √ďtimo, perfeito! Mas, e no estudos caso-controle? Como fa√ßo para obter o risco j√° que o tempo vai “pra tr√°s”? Como vimos, o risco √© a probabilidade de algo acontecer a n√≠vel individual. Se tivermos as incid√™ncias e preval√™ncias de antem√£o, poderemos estimar o risco, mas isso nem sempre √© poss√≠vel ou √© n√£o confi√°vel. Como diz o Luiz Cl√°udio do excelente MBE:¬†“Quando o estudo √© caso-controle, onde casos (desfecho j√° ocorreu) s√£o selecionados no in√≠cio do estudo de forma arbitr√°ria, n√£o d√° para calcular a propor√ß√£o de pacientes que vir√£o a ter o desfecho. Ou eles j√° tiveram o desfecho (casos) ou eles n√£o tiveram o desfecho (controle). Neste caso, como n√£o d√° para calcular probabilidade do evento ocorrer, se usa odds (chance)”.

Posto isso, qual a diferença entre OR e RR? O raciocínio é mais ou menos o mesmo. Entretanto, as duas grandezas não podem ser utilizadas indistintamente. A OR superestima a RR na dependência da incidência da doença estudada. Veja o gráfico abaixo retirado da referência [3].

Relação entre a OR e o RR de acordo com a incidência (Io) das doenças

De novo, o Luiz Cl√°udio¬†nos ajuda: “Um erro freq√ľente √© a leitura do¬†odds¬†como se fosse¬†risco.¬†Odds ratio¬†de 3.8 n√£o quer dizer risco 3.8 vezes maior. Isso n√£o √© risco, pelos motivos j√° expostos. No entanto, quando o desfecho √© raro, com uma freq√ľ√™ncia menor que 10%, as medidas do¬†OR¬†e do RR¬†se aproximam. Mas em um desfecho freq√ľente, embora as duas medidas indiquem um fen√īmeno na mesma dire√ß√£o, o¬†OR¬†tende a superestimar a for√ßa de associa√ß√£o, quando comparado ao¬†RR.”

Quando a incidência é baixa (Io = 0,01) a correlação entre as duas variáveis é boa. Mas reparem na curva da Io = 0,3 (30%). Quando o RR é 2, a OR é próxima a 4, quase o dobro. A propósito, a OR dos motoqueiros com cabeça quebrada acima é 3,89 contra o RR que é 2,92, como vimos.

Fórmulas

RR = p / q

OR = p (1 – q) / q (1 – p)

Consultei

[1] Pereira, J√ļlio C√©sar R. Bioestat√≠stica em Outras Palavras. S√£o Paulo. Ed USP, FAPESP. 2010.

[2] A. Petrie J. S. Bulman and J. F. Osborn.¬†Further statistics in dentistry.¬†Part 2: Research designs 2.¬†British Dental Journal 2002; 193:435‚Äď440

[3]¬†Carsten Oliver Schmidt, Thomas Kohlmann.¬†Int J Public Health 53 (2008) 165‚Äď167

Ver também o excelente medicina baseada em evidências citado acima.

Abraço ao André Souza do Cognando, motivador do post.

Ciência sobre a Divulgação da Ciência

Um¬†recente coment√°rio¬†nesse blog diz respeito a uma quest√£o que virou, ela mesma, motivo de investiga√ß√£o cient√≠fica, e permanece atual√≠ssima, como se pode notar. Parece mesmo que esse tal “di√°rio de menininhas” acabou virando um ve√≠culo de import√Ęncia para a popula√ß√£o, seja “letrada” sob determinado assunto, seja considerada leiga. Por permitir coment√°rios e perguntas diretas aos autores, os blogs acabam desempenhando um papel que permite a transposi√ß√£o dos grandes abismos entre decis√Ķes tecnocr√°ticas, descobertas cient√≠ficas, de um lado, e o entendimento geral da grande massa de n√£o-t√©cnicos de outro. Pelo menos foi o que algumas autoras concluiram.

Em um estudo que teve este blog como objeto ou, mais especificamente, coment√°rios dos leitores feitos a partir de posts sobre a campanha de vacina√ß√£o contra a gripe A de 2010, Fausto e col. concluiram que os blogs s√£o ferramentas √ļteis para propaga√ß√£o de informa√ß√Ķes sobre sa√ļde ao p√ļblico n√£o-especializado. Nas suas palavras “This approach enlightens the internet blogs as useful tools for searching about health information by the lay public, indicating that the official health campaigns should reinforce their strategies to disseminate health information in a simple and understandable way to the general public, in order to inform and influence individual and community decisions that improve health.”

Pelo que soube, o estudo foi bastante bem recebido no encontro sobre informa√ß√£o e sa√ļde em Bruxelas, o que significa que mesmo em pa√≠ses onde as desigualdades s√£o menores que as nossas, o acesso a informa√ß√£o clara e objetiva √© fundamental e desejado. Gostar√≠amos de parabenizar as autoras Sibele Fausto, Fabiana Carelli, L√ļcia Eneida e Helena Neviani pelo excelente trabalho e agradecer a divulga√ß√£o. De minha parte, t√™-las como leitoras √© uma honra e tanto. Espero sempre poder corresponder √†s vossas expectativas.

Para concluir, como n√£o poderia deixar de ser, vamos a um exerc√≠cio de reflex√£o. Se esse √© um blog de divulga√ß√£o cient√≠fica e torna-se, ele mesmo, objeto da ci√™ncia, quando escrevo um post divulgando a ci√™ncia que o estudou, estou divulgando o qu√™? O blog propriamente dito ou a ci√™ncia que o motiva? Apesar desta pergunta ter me incomodado alguns segundos, entendi que sua relev√Ęncia era pequena e que este meta-post √© bem mais um agradecimento/reconhecimento que uma divulga√ß√£o aos meus poucos por√©m altamente seletos (e queridos!) leitores como ficou aqui cartesianamente demonstrado.

ResearchBlogging.org Fausto S, Carelli F, Rodrigues LE, Neviani EH (2012). The Brazilian blog Ecce Medicus and the information on H1N1 flu vaccine for lay people: a case study in Health Communication. Annals of the European Association for Health Information and Libraries Conference, 13th, Brussels, 224-226.  http://sites-final.uclouvain.be/EAHIL2012/conference/?q=node/1444.

 

O Homem Que Largava Livros

Ao L.A. com a gratidão das dívidas que não se pagam

¬†“O velho estava em p√© e segurava o livro aberto como um rev√≥lver sem gatilho: o polegar entre as p√°ginas, o indicador e os outros apoiando a lombada; e com esse arranjo fazia-o balan√ßar com habilidade enquanto andava de um lado a outro, mas apenas porque era um livro pequeno, de capa vermelha e dura. Com as lentes bem √† ponta do nariz, seguiu lendo:

Caso por mim percorresse um arrepio,

um calafrio, seja de frio ou de desejo,

se alguém houvesse em contato com minha pele,

fosse m√£o ou mesmo pele-a-pele,

sentiria o frêmito, e também a onda que se cria

e toma o corpo ou parte dele,

já que é o arrepio e não 

o suor que se estila

a língua viva do couro que o embebe?


E fechou o livro com um movimento r√°pido provocando um estampido que ecoou na sala. Olhava agora em panor√Ęmica pela classe. Por cima das lentes e com certo esc√°rnio pelo susto que acabara de provocar nos distra√≠dos, viu o movimento dos cabelos negros escorridos da mo√ßa em queda com o ru√≠do do livro, repousarem numa serenidade j√° lisa e piscou lentamente.

– Que tal? – provocou.

– Essa √© a pergunta mais bonita que j√° vi, professor!¬† – respondeu algu√©m. O velho n√£o viu quem pois cerrara os olhos com a resposta. Do prazer professoral que lhe correu a espinha.”

~ o ~

Mais um livro terminado. O destino deste tamb√©m n√£o seria a estante. Imagine s√≥! Livros eram para ser lidos e folheados e manipulados apenas e talvez. Quem sabe at√© farejados. Este – t√£o bonito! – teria o destino dos outros. Sim, era isso mesmo, decidira. Levantou-se – n√£o sem uma certa dificuldade – da cadeira de imbuia que rangeu, mas n√£o se co-moveu, e foi at√© a escrivaninha. Abriu uma ou duas gavetas e apanhou um carimbo grande e sua respectiva almofada embebida por tinta cor de vinho, bord√ī. Folheou algumas p√°ginas e, com uma ponta de l√≠ngua de fora, fez o que planejara fazer. Soprou depois e, satisfeito com o resultado, deixou o livro em cima da mesa, junto com os outros dois.

~ o ~

Vinha ouvindo The Kooks.

I’m not saying it was your fault.¬†Although you could have done more…

Os fones brancos desaparecidos nos tragi bilateralmente. Havia ainda um brinco nas reentr√Ęncias da orelha direita. O fio branco sumia pela gola da blusa.¬†

I know she knows that i’m not fond of asking.¬†True or false it may be…¬†

Virou r√°pido no fluxo das pessoas e encarou a escada rolante. Sentiu o granito frio e o bafo quente do metr√ī em contraste mas ainda assim, era frio. Chegou √† plataforma com as portas ainda abertas e mergulhou na massa de corpos sem rosto que se espremia no vag√£o.

In such an ugly way. Something so beautiful. That everytime i look inside
Vagarosamente, o trem teve a multidão dissipada e ele, tendo permanecido encostado à porta, distraído, resolveu sentar-se. No banco de cor diferente do outro lado havia um livro. Ele olhou em torno e já não havia mais ninguém. Tomou-o e pensava em deixá-lo com algum funcionário quando, folheando as páginas amareladas, leu o que parecia um carimbo com cores avermelhadas e um pouco apagadas pelo tempo.
Um arrepio solit√°rio lhe subiu pela gola da blusa e terminou na orelha. A esquerda.