Relativismo e Fé

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Em livre tradução, segue o fragmento:

“Por esta raz√£o, os eventos pol√≠ticos de 1989 (queda do muro) tamb√©m mudaram o cen√°rio teol√≥gico. At√© ent√£o, o marxismo vinha sendo a √ļltima tentativa a fornecer uma f√≥rmula v√°lida para a correta configura√ß√£o da a√ß√£o hist√≥rica. O marxismo acreditou que conhecia a estrutura da hist√≥ria mundial e a partir dela tentou demonstrar como poderia conduzi-la ao caminho correto. O fato de que essa presun√ß√£o era baseada estritamente em um m√©todo cient√≠fico que substituiria totalmente a f√© pela ci√™ncia e fazendo desta √ļltima uma praxis, lhe deu um forte apelo. Todas as promessas n√£o cumpridas das religi√Ķes pareceram ent√£o, poss√≠veis por meio de uma praxis pol√≠tica baseada cientificamente.

A n√£o-cumprimento da promessa trouxe grande desilus√£o que est√° ainda longe de ser assimilada. Consequentemente, me parece prov√°vel que novas formas de concepc√£o marxista do mundo aparecer√£o no futuro. No momento, n√£o h√° outra alternativa sen√£o a perplexidade. A falha do √ļnico sistema com base cient√≠fica para resolver os problemas humanos poderia apenas justificar o nihilismo ou mesmo, o relativismo total.”

Continua…

“Por sua vez, o relativismo parece ser o fundamento filos√≥fico da democracia. Diz-se que a democracia baseia-se no princ√≠pio de que ningu√©m pode ter a pretens√£o de saber qual √© o caminho certo a tomar e √© enriquecida pelo fato de que todos os caminhos s√£o mutuamente reconhecidos como fragmentos de um esfor√ßo em dire√ß√£o ao que √© melhor por meio do di√°logo. Um sistema livre deve ser essencialmente um sistema de posi√ß√Ķes interconectadas e relacionadas pois s√£o dependentes de situa√ß√Ķes hist√≥ricas abertas a novos acontecimentos. Assim, uma sociedade liberal seria uma sociedade relativista: apenas sob esta condi√ß√£o ela poderia continuar livre e aberta ao futuro.”

Perguntinha: algu√©m sabe de quem seria este texto? Vou desenvolver uma ideia pol√™mica no pr√≥ximo post e isso faz alguma diferen√ßa. Int√©…

Livro “A Ilus√£o da Alma” de Giannetti

Ganhei de presente o livro, com dedicat√≥ria e tudo, com a promessa de que leria e escreveria alguma coisa. Alguma coisa a√≠ vai…

I

√Č uma novela autobiogr√°fica. Ou um ensaio ficcional. Ou como disse Fernando Meirelles, um thriller ensa√≠stico (voltarei a isso mais tarde). Conta a hist√≥ria de um professor de literatura especializado em Machado de Assis que se v√™ √†s voltas com um tumor cerebral bastante peculiar. Dividido em tr√™s partes espec√≠ficas, 1. O tumor f√≠sico; 2. Libido Sciendi e 3. O tumor metaf√≠sico, narra como o aparecimento de um tumor no lobo temporal do protagonista transmuda sua vis√£o de mundo. Mais, como esta vis√£o fica ref√©m de um tipo espec√≠fico de filosofia chamado fisicalismo (mais, logo abaixo). Sim, √© um livro sobre filosofia da mente e isso √© bom e ruim.

II

O tumor f√≠sico. Achei o come√ßo do livro interessante. Uma mistura de neurofisiologia com Machado me pareceu promissora. Apesar do narrador-protagonista dar bastante velocidade √† prosa, a narrativa fica um pouco aborrecida. Met√°foras um pouco for√ßadas (“riso de hienas num funeral”, altern√Ęncia de explica√ß√Ķes complexas (funcionamento do corpo caloso) com outras bastante batidas e clich√™s (dissec√ß√£o da palavra melancolia, uma men√ß√£o de que Arist√≥teles achava que o c√©rebro serviria para “esfriar” o sangue proveniente do cora√ß√£o – n√£o seriam os pulm√Ķes?) e o excesso de cita√ß√Ķes, algumas um pouco fora de contexto (n√£o nos deixando jamais esquecer que Giannetti lan√ßou um livro s√≥ delas h√° 2 anos), fizeram a leitura um pouco laboriosa.

III


Libido Sciendi. Aqui o livro entra de cara no problema mente-cérebro e Giannetti se mostra um grande didático e autodidata. Coloca alguns problemas que já abordamos aqui, como nesta passagem:

“(…) n√£o √© coisa f√°cil para o ser humano apreender impessoalmente a si pr√≥prio e √† maneira como v√™ o mundo; percebi que fazer isso exigia uma postura distinta daquela a que estamos habituados na vida comum. Precisava de algum modo me afastar e recuar de mim mesmo, alcan√ßar um grau de distanciamento que me permitisse olhar-me de fora, o mais friamente poss√≠vel, com o mesmo esp√≠rito com que um bot√Ęnico coleta e examina variedades de orqu√≠deas ou um music√≥logo analisa a partitura de uma sonata.”

Ou seja, Rogozov. De importante, no cap√≠tulo 17 a men√ß√£o do riqu√≠ssimo conto machadiano “O Espelho” (ver uma boa an√°lise aqui) e a “teoria das duas almas” que ser√° usada ao longo de todo o livro. No cap√≠tulo 19, o confrontamento anunciado na “orelha” do livro e no seu dorso: Dem√≥crito vs S√≥crates. A partir do F√©don de Plat√£o e da narrativa da morte de S√≥crates, o narrador-personagem coloca a decis√£o deste em n√£o fugir e submeter-se √†s leis de Atenas como um conflito arquet√≠pico entre o fisicalismo e o mentalismo. Dem√≥crito de Abdera j√° foi taxado de materialista (tese de Marx), antinaturalista (tese de Cl√©ment Rosset) e fisicalista, este √ļltimo termo especificamente relacionado √† produ√ß√£o da mente pelo c√©rebro. Ele e seu mestre Leucipo, de quem pouco se sabe, resolveram o problema her√°clito-parmenidiano com o atomismo. Tudo flui na apar√™ncia, mas os √°tomos que constituem todo o universo, continuam iguais, unos e indivis√≠veis. O fisicalismo, por sua vez, sustenta que tudo o que existe est√° e √© sujeito √†s leis f√≠sicas o que implica que o que chamamos de “vontade”, “livre-arb√≠trio” e outras cositas s√£o v√≠cios de linguagem e, de fato, seriam apenas configura√ß√Ķes neuronais que se deixariam perceber pela consci√™ncia. O mentalismo √© a vis√£o de que a mente √© a real causa da vontade e que apenas a partir dela ocorrem os fen√īmenos in concert que determinam os comportamentos humanos (cobrir-se quando se tem frio, procurar comida quando se tem fome, etc). Tendo a decis√£o de S√≥crates de tomar a cicuta que lhe fora sentenciada sido interpretada atrav√©s dos mil√™nios como uma decis√£o moral – tipicamente mentalista – na p√°gina 107, escreve-se:

“A perspectiva fisicalista contesta a vers√£o mentalista do comportamento de S√≥crates e oferece uma explica√ß√£o alternativa. Os tr√™s componentes da a√ß√£o do fil√≥sofo de n√£o fugir mas aceitar a pena que lhe foi imposta precisam ser melhor analisados e devidamente entendidos. (…) E, por fim, como o ju√≠zo de valor e a vontade consciente – dois estados mentais – s√£o capazes de acionar e p√īr em movimento (neste caso em repouso) os m√ļsculos e tend√Ķes do fil√≥sofo – estados do corpo?”

E arremata:

“O homem moral socr√°tico, argumenta a filosofia fisicalista, n√£o passa de um subproduto fantasioso – e com forte componente narc√≠sico – do homem natural atomista. Um arco-√≠ris pr√©-newtoniano.”

Bonito, n√©? Mas isso joga a discuss√£o para o lado mais profundo e escuro do lago: o elo causal entre o pensar e o agir. H√° uma diferen√ßa entre pensar/querer e ter consci√™ncia de que se est√° pensando/querendo. O narrador cita ent√£o estudos de Benjamin Libet em “que a escalada de atividade neural – o evento f√≠sico no c√©rebro – precede no tempo n√£o apenas a a√ß√£o muscular, mas tamb√©m o evento mental, ou seja, a pr√≥pria consci√™ncia da decis√£o de agir” por uns parcos tr√™s d√©cimos de segundo. Mas, precede. O resto √© argumenta√ß√£o em cima disso e uma sensa√ß√£o de estarmos folheando uma revista, tantas as cita√ß√Ķes e cores com que se pintam o quadro.

IV

O tumor metaf√≠sico. N√£o √© √† toa que a terceira parte do livro come√ßa com uma cita√ß√£o de S√∂ren Kierkegaard. No cap√≠tulo 33, o narrador aventa a possibilidade de que o livro poderia ser um thriller e esse exato momento, seria o do crime. O cap√≠tulo 34 √© o dramalh√£o do narrador por acreditar em algo extremamente terr√≠vel e, pior, nas suas consequ√™ncias. Nesse meio tempo, tome William James: “meu primeiro ato de livre-arb√≠trio ser√° acreditar no livre-arb√≠trio”; pau no Dawkins (adorei essa, hehe): “para quem cren√ßas humanas s√£o d√≥ceis e podem ser ligadas e desligadas como interruptores de abajur”; al√©m de Bentinho e S√≥crates. Como consequ√™ncias da ideia e mais terr√≠veis do que ela pr√≥pria temos que: “√Č ilus√£o tomar como causa aquilo que sobe √† consci√™ncia como um ato de vontade, fruto da inten√ß√£o de agir” e principalmente esta:

“Um estado mental (“preciso almo√ßar”) nunca √© realmente produzido por outro estado mental (“estou com fome”); todos s√£o produzidos por estados do c√©rebro. Quando um pensamento parece suscitar outro por associa√ß√£o, n√£o √© na verdade um pensamento que puxa ou atrai outro pensamento – a associa√ß√£o n√£o se d√° entre os dois pensamentos, mas sim entre os dois estados do c√©rebro ou dos nervos subjacentes a esses pensamentos”.

Trocando “nervos subjacentes a esses pensamentos” por “n√ļcleos neuronais” ou coisa parecida, fica um pouco melhor. Segue-se um exerc√≠cio inapel√°vel de l√≥gica:

“A ideia √© tremenda, mas basta um silogismo para resumi-la. As leis e regularidades que regem o mundo s√£o independentes da minha vontade (premissa maior); a minha vontade √© fruto das mesmas leis e regularidades que regem o mundo (premissa menor); logo, a minha vontade √© independente da minha vontade (conclus√£o).”

Isso nos torna algo como aut√īmatos, ensopados de serotonina e dopamina, cujas concentra√ß√Ķes determinam minha vontade de transar com minha mulher hoje ou comer um pizza de calabresa. O narrador se apavora com isso e tamb√©m com o fato de que o m√©dico que o operou, n√£o est√° nem a√≠ para essa v√£s filosofias. O livro melhora substancialmente. Algumas tiradas geniais e cita√ß√Ķes bem colocadas, trazem o leitor de volta √† vida do personagem que fica, pasmem, bem mais interessante, no papel de roboz√£o. Talvez uma contradi√ß√£o mesma do livro.

V

Numa mistura de “O Mundo de Sofia” com “Trem Noturno para Lisboa” e pitadas de insanidade de “Zen e a Arte de Manuten√ß√£o de Motocicletas“, o livro tem um final interessante e uma provoca√ß√£o: ap√≥s mostrar que “lutar” contra o fisicalismo √© entrar em uma luta imagin√°ria, o narrador instiga o leitor a refut√°-lo. Tentarei discutir um pouco mais sobre isso nos pr√≥ximos posts e talvez se mostre o bom e o ruim, a dor e a del√≠cia, de discutir filosofia da mente.

Para um resumo de uma palestra de Giannetti sobre o livro ver aqui.

Atualização

Veja o excelente post no Amigo de Montaigne, sobre o “Erro de Giannetti”.

A Ilus√£o da Alma

Sobre Candidatos e Doenças

A campanha eleitoral me deu um exemplo bem interessante do que vem ocorrendo com o conceito de doença.

N√£o sou analista pol√≠tico, mas pelo que tenho visto e (para minha surpresa!) em concord√Ęncia com alguns autores bem famos√Ķes, o debate pol√≠tico foi propositalmente evaporado da propaganda eleitoral. Cada vez mais o objetivo dos marqueteiros eleitorais √© “construir” seus candidatos fortalecendo os pontos positivos que t√™m e “trabalhando” os negativos, de modo a “produzir” uma imagem que seja n√£o s√≥ forte, mas que, literalmente, engula a do advers√°rio, angariando o que importa: o voto, tal como um produto a ser comprado. Por impulso, de prefer√™ncia. O debate pol√≠tico mesmo, tipo esquerda vs direita, oposi√ß√£o e governo, pol√≠tica externa, reforma pol√≠tica, reforma fiscal, etc, etc, este foi para o belel√©u faz tempo.

Grosso modo, o caso dos candidatos serve para entender o que aconteceu com o que se pode chamar de “conceito de doen√ßa contempor√Ęneo”. A exemplo do que ocorre com o marketing pol√≠tico em rela√ß√£o aos candidatos, houve uma virtualiza√ß√£o da doen√ßa. A influ√™ncia da tecnologia, em especial das novas tecnologias de imagem (mas tamb√©m da nova patologia – depois eu falo mais dela), sobre a racionalidade m√©dica √© t√£o grande que elas passaram a constituir a doen√ßa. Se por um lado, isso significa que algumas doen√ßas n√£o podem ser concebidas sem essa “vis√£o tecnol√≥gica” o que, por si s√≥, n√£o se configura como uma coisa ruim; por outro, essa abordagem pode, ao levar-nos para um substituto virtual de realidade, ela mesma criar algumas doen√ßas/problemas. A tend√™ncia em se tratar os exames √© muito grande com todos os problemas que isso possa acarretar. O mais interessante √© que v√°rios pacientes PEDEM por isso. O diagn√≥stico de uma doen√ßa baseado apenas em crit√©rios cl√≠nicos √© muito dif√≠cil de ser aceito. “Mas doutor, n√£o h√° nenhum exame que comprove isso que est√° dizendo?” N√£o, n√£o h√°. O diagn√≥stico √© cl√≠nico, baseado APENAS na hist√≥ria e no exame f√≠sico.

Se o paradigma de racionalidade fosse simplesmente a ci√™ncia, n√£o acho que seria de todo ruim. Mas, nosso paradigma de racionalidade atual √© o que a ci√™ncia tem de mais hollywoodiano: a tecnologia. Em especial, a tecnologia que aparece na m√≠dia. Visto dessa forma, √© muito dif√≠cil estar “racionalmente correto” sem a utiliza√ß√£o de uma “tecnologia avan√ßada” consensualmente aceita. J√° foi o ultrassom, a tomografia, a resson√Ęncia. Hoje √© o PET, as m√ļltiplas bi√≥psias, os rob√īs.

Com o perdão da comparação de mau gosto entre candidatos e doenças, o paralelo me foi inevitável. A discussão política passou ao largo, assim como passa a discussão real sobre o impacto de determinado achado de exame na possibilidade de um ser humano específico ser feliz.

Sêo Google e Eu

ResearchBlogging.orgDepois de tanto tempo sem escrever, tinha que voltar com uma medaglia para não perder os poucos (porém, altamente esclarecidos e de extremo bom gosto, diga-se de passagem) leitores desse blog. Que assim seja, então.

Vamos colocar as pe√ßas do xadrez no tabuleiro. Qual √© a principal biblioteca de artigos m√©dicos que existe? Se voc√™ perguntar para qualquer aluno de medicina, residente, p√≥s-graduando, a resposta √© un√Ęnime: a MEDLINE acess√≠vel atrav√©s da internet pela PubMed da National Library of Medicine. Essa, por sua vez, pertence aos prestigiosos National Institutes of Health americanos, institui√ß√£o ligada ao minist√©rio da sa√ļde deles, com uma verba gigantesca e que seria o equivalente nosso a uma FAPESP da √°rea da sa√ļde atuando em todo o territ√≥rio nacional. Ou seja, n√£o tem equivalente no Brasil! Qualquer levantamento bibliogr√°fico que se preze tem como ponto de partida as publica√ß√Ķes encontradas na PubMed; os principais jornais de medicina e da ci√™ncia m√©dica est√£o catalogados l√° e o sonho de todo m√©dico √© ter um publica√ß√£o “indexada”, isso d√° pontos no curr√≠culo, consegue ganhar concursos e mais bolsas ($).

H√° outras fontes de refer√™ncia m√©dica, entretanto. In√ļmeras, eu diria. No Brasil temos a fant√°stica Scielo com quase 70 t√≠tulos da √°rea da sa√ļde, e que tem muitos outros ainda sobre ci√™ncia m√©dica. H√° o Ovid da Wolters & Kluwer, reposit√≥rio pago de v√°rias revistas de qualidade com vers√£o de texto integral. H√° tamb√©m o Up-to-Date. Criado inicialmente para nefrologia, se expandiu para todas outras especialidades e virou uma fonte de refer√™ncia fundamental para quem pode pagar 495 d√≥lares por uma assinatura anual. Os artigos s√£o atualizados com frequ√™ncia, pr√°ticos e trazem refer√™ncias bibliogr√°ficas-chave para compreens√£o do assunto. Poderiamos citar ainda o Scopus, a Web of Science, o JSTOR e o Google… O S√™o Google √© um caso especial. O sucesso foi t√£o grande que resolveram lan√ßar o Google Acad√™mico. Muita gente j√° procurava coisas cient√≠ficas antes dele. M√©dicos tamb√©m. Existem alguns estudos sobre sua rela√ß√£o com os m√©dicos, em geral positivos. “Pera√≠, voc√™ t√° querendo dizer que m√©dico consulta o Google quando quer tirar d√ļvida sobre paciente?” Sim, estou. Mas isso √© ruim?

Os autores do estudo da medaglia, pensaram o seguinte: 1. h√° quest√Ķes m√©dicas altamente complexas que t√™m uma resposta definitiva, baseada em evid√™ncias; 2. √© imposs√≠vel para qualquer indiv√≠duo reter toda a informa√ß√£o m√©dica relevante para sua pr√°tica; 3. o m√©dico n√£o quer perder mais que alguns minutos procurando informa√ß√Ķes que respondam quest√Ķes m√©dicas relevantes; 4. h√° diferentes ferramentas para navegar no oceano de informa√ß√£o m√©dica.

Baseados nessas premissas, bolaram um experimento com estudantes, residentes e m√©dicos assistentes. Enviaram 4 perguntas de anestesiologia ou terapia intensiva para os caras e mandaram responder em 5 minutos usando as seguintes ferramentas e apenas 1 para cada pergunta: Google, Ovid, PubMed ou Up-To-Date. No final, tinham que ranquear as respostas que acharam (em termos da confian√ßa nela) de 1 a 4. Algumas semanas depois, os m√©dicos foram solicitados a responder 8 perguntas, incluindo novamente as 4 antigas. Dessa vez, foram sorteados sobre qual  das 4 ferramentas utilizar para todas as perguntas. Conclus√£o? Quem usou o Google e o Up-to-date respondeu as quest√Ķes mais r√°pido e mais certo. O Up-to-date teve o maior grau de confiabilidade. Ambos venceram a PubMed e o Ovid.

A indissoci√°vel vincula√ß√£o com a pr√°tica faz da medicina um campo experimental interessante. J√° disse que temos uma vis√£o utilitarista da ci√™ncia, mas respostas pr√°ticas s√£o respostas pr√°ticas e necessitam ser dadas na trincheira do dia-a-dia do m√©dico. Da mesma forma que as discuss√Ķes de botequim mudaram (“quem foi o campe√£o paulista de futebol de 1945?”), as profissionais e altamente especializadas, tamb√©m (“qual enzima metaboliza a succinil-coenzima A em √°cido d-amino levul√≠nico?” – que √© uma quest√£o do estudo!). Os autores deixam transparecer na discuss√£o duas coisas interessantes. A primeira √© que o estudo tem um vi√©s que √© o fato de conter mais m√©dicos juniores (residentes e estudantes de medicina), talvez um pouco mais habituados a lidar com as novas tecnologias. O segundo √© que os m√©dicos seniores, assistentes do servi√ßo, estavam meio que desclassificando as perguntas respondidas por interm√©dio do Google. Os meninos teriam protestado: “n√£o h√° comprova√ß√£o de que isso possa desclassificar uma resposta!” Comprova√ß√£o que agora existe. N√£o s√≥ funciona mais r√°pido, mas tamb√©m melhor. Sinal dos tempos…

Thiele, R., Poiro, N., Scalzo, D., & Nemergut, E. (2010). Speed, accuracy, and confidence in Google, Ovid, PubMed, and UpToDate: results of a randomised trial Postgraduate Medical Journal, 86 (1018), 459-465 DOI: 10.1136/pgmj.2010.098053