Jaytcheenyoo


Pode parecer inacredit√°vel, mas existe uma especialista em Jeitinho Brasileiro. Ela √© brasileira, soci√≥loga, se chama Fernanda Duarte e est√° radicada na Austr√°lia desde 1974, lecionando na Universidade de Sydney. O paper original √© muito engra√ßado pois explica em ingl√™s as malandragens brasileiras para se conseguir as coisas que, pelas vias normais, seriam imposs√≠veis. Come√ßa pela pron√ļncia do fen√īmeno: Jaytcheenyoo √© demais!!! Veja a frase:

“People explicitly request a jeitinho by uttering the phrase ‚ÄėDa um jeitinho pra mim‚Äô [Give me a jeitinho], taking for granted that the other person knows exactly what they mean. There is also an expectation that the jeitinho will be always granted, considering that generosity, cordiality, warmth and empathy are highly valued attributes in Brazilian society.”

A contrapartida do jeitinho na Medicina tem in√ļmeros exemplos. O mais recente √© sobre o n√ļmero de cursos m√©dicos no Brasil. S√≥ perdemos para √ćndia. Fora os que v√£o √† Bol√≠via estudar e voltam m√©dicos para o Brasil, validando o t√≠tulo…

D√ļvida e Salva√ß√£o

duvida.jpgHorkheimer em 1970, escreveu o ensaio Teoria Crítica Ontem e Hoje. Sobre a ciência, escreveu ele:

“A ci√™ncia √© uma tal ordena√ß√£o dos fatos de nossa consci√™ncia que ela permite, finalmente, alcan√ßar cada vez, em um lugar exato do espa√ßo e do tempo, aquilo que exatamente deve ser esperado ali. (…) A exatid√£o √©, nesse sentido, o objetivo da ci√™ncia. Entretanto, e aqui aparece o primeiro tema da Teoria Cr√≠tica, a pr√≥pria ci√™ncia n√£o sabe por que p√Ķe em ordem os fatos justamente naquela dire√ß√£o, nem por que se concentra em certos objetos e n√£o em outros. O que falta √† ci√™ncia √© a reflex√£o sobre si mesma, o conhecimento dos m√≥veis sociais que a impulsionam em certa dire√ß√£o: por exemplo, em ocupar-se da Lua e n√£o do bem-estar dos homens.”

Ao descartar as promessas não cumpridas de Marx como diferenças entre a Teoria Crítica de ontem e hoje, Horkheimer escreve:

“Por √ļltimo, aquilo que Marx esperava da sociedade justa √© falso – n√£o fosse por outra raz√£o – , e este enunciado √© importante para a Teoria Cr√≠tica, porque a liberdade e a justi√ßa tanto est√£o ligadas quanto opostas. Quanto mais justi√ßa, menos liberdade. Se quisermos caminhar para a equidade, devem-se proibir muitas coisas aos homens, notadamente de espezinharem-se uns aos outros”.

E quanto a quem poderia ser aliado na empreitada:

“Se a tradi√ß√£o, as categorias religiosas e, em particular, a justi√ßa e bondade de Deus n√£o forem transmitidas como dogma (grifo meu), como verdades absolutas, mas como a nostalgia daqueles capazes de uma verdadeira tristeza, e isso precisamente porque essas doutrinas n√£o podem ser demonstradas e porque essa d√ļvida √© seu lote, a mentalidade teol√≥gica, ou pelo menos sua base, poder√° ser conservada de uma forma adequada. A introdu√ß√£o da d√ļvida na religi√£o √© um momento necess√°rio para salv√°-la”.

√Č onde Ratzinger conscientemente peca.

A Razão Diabólica

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José Arthur Giannotti (precisa ter assinatura), na Folha de hoje, fala sobre o discurso de Bento 16 na ONU, referindo-se a ele como pérola do pensamento conservador. Além de toda questão política comentada, me interessa mais a relação entre ciência e religião que o papa usa como argumento e que Giannotti critica. Vejamos o papa:

Deste modo o nosso pensamento se dirige ao modo como os resultados das descobertas da pesquisa cient√≠fica e tecnol√≥gica foram aplicados. N√£o obstante aos grandes benef√≠cios que a humanidade pode tirar deles, alguns aspectos de tais aplica√ß√Ķes representam uma clara viola√ß√£o da ordem da cria√ß√£o a ponto de n√£o contradizer somente o car√°ter sagrado da vida humana mas a pr√≥pria viola√ß√£o da pessoa e da fam√≠lia em sua identidade natural.”

Giannotti questiona a noção de identidade Рcrítica óbvia Рo que faz muito sentido para ironistas (no sentido rortyano do termo), mas nenhum sentido para o homem que ocupa o cargo mais metafísico da humanidade. Ele acredita sim em essências!

Segue o sumo pontífice:

Do mesmo modo, a a√ß√£o internacional, na busca de preservar o ambiente, e proteger as v√°rias formas de vida sobre a terra n√£o deve garantir somente um uso racional da tecnologia e da ci√™ncia, mas deve redescobrir a aut√™ntica imagem da cria√ß√£o. Isto n√£o exige nunca uma escolha entre ci√™ncia e √©tica, mas se trata de adotar um m√©todo cient√≠fico que respeite verdadeiramente os imperativos da √©tica.”

Isso daria uma tese. Algu√©m tem d√ļvida de que Habermas assinaria a primeira frase se ela n√£o terminasse com a tal “imagem da cria√ß√£o”? Uma raz√£o compartilhada internacionalmente √© seu sonho de consumo. Por outro lado, se n√£o existe m√©todo cient√≠fico subordinado a imperativos morais, pode haver um consenso de pares – vamos por aqui ou melhor trabalhar por l√°, call for papers sobre determinado assunto, etc. O cientista publica, mant√©m os grants, a revista publica, mant√©m as assinaturas e patroc√≠nios, a massa cita o artigo, fica “estudada” (ver Manoel de Barros) e fica todo mundo feliz! S√≥ que isso vale para a ci√™ncia normal kuhniana.

No caso das grandes descobertas √© diferente. Para Giannotti existe uma raz√£o diab√≥lica por tr√°s delas: “Foi diab√≥lico para os pitag√≥ricos pensar os n√ļmeros irracionais, foi diab√≥lico para toda a raz√£o convencional do s√©culo 19 pensar que a esp√©cie humana tivesse uma origem comum √†quela dos macacos, e, atualmente, √© diab√≥lico pensar que uma pessoa possa ser clonada.”

O argumento de Giannotti √© que o papa quer subordinar, inclusive pela for√ßa (ver o final do artigo), a ci√™ncia a uma vis√£o de f√© (ecum√™nica at√©) com todos os desdobramentos que isso possa acarretar. √Č claro que isso n√£o vai dar certo nunca!

O ponto aqui √© que o papa argumenta sobre um assunto pol√™mico e extremamente necess√°rio com as armas de que disp√Ķe. Ou Giannotti esperava ver o papa pedindo desculpas (de novo!) a Galileu e assumindo a culpa na Inquisi√ß√£o? Este blog vem defendendo a reflex√£o, de prefer√™ncia conjunta, como medida da raz√£o desenfreada. O papa faz exatamente isso com sua linguagem metaf√≠sica e altamente conservadora. Mas o que dever√≠amos esperar de Ratzinger?

O cientista produz um poder sobre o qual n√£o tem controle. Giannotti chama isso de diab√≥lico pois √© ousado, transgressor, invasivo e agressivo. √Č quase ci√™ncia heavy-metal. Tudo bem. Mas acho bem mais diab√≥lico, no sentido de “do Mal” (como dizem meus filhos) a apropria√ß√£o desse conhecimento para outro fim que n√£o minimizar as afli√ß√Ķes da esp√©cie humana e do planeta em geral, o que, no fundo, √© quase a mesma coisa.

El inglés, idioma internacional de la medicina

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Reproduzo aqui partes do fantástico artigo de Fernando Navarro, tradutor da Roche na Suíça. O artigo, com o título do post, se preocupa em entender porque o inglês se tornou a língua oficial da medicina. Alguns acreditam que isso ocorre devido a características específicas da língua inglesa que a tornam especialmente talhada para comunicação científica. Vejam o que Fernando Navarro escreve sobre isso:

“El genio de la lengua inglesa, se oye con frecuencia, se presta de forma admirable para la expresi√≥n de la ciencia. Se admite de forma general, en efecto, que el ingl√©s se ha convertido en el idioma internacional de la medicina gracias a sus caracter√≠sticas intr√≠nsecas de sencillez y claridad, que lo hacen especialmente apto para la comunicaci√≥n cient√≠fica. ¬°¬ŅUn idioma sencillo el ingl√©s?! Con un l√©xico riqu√≠simo en el que se superponen palabras de origen germ√°nico y sus sin√≥nimos latinos, una fon√©tica y una ortograf√≠a endiabladas, am√©n de un complej√≠simo sistema prepositivo, el ingl√©s era precisamente el idioma te√≥ricamente menos adecuado para ense√Īarlo como lengua auxiliar o de comunicaci√≥n. Y si no es un idioma sencillo, menos a√ļn es un idioma claro o preciso: ¬Ņqu√© es un World Pollution Symposium?; ¬Ņun simposio mundial sobre la contaminaci√≥n o un simposio sobre la contaminaci√≥n mundial? Id√©nticos problemas de imprecisi√≥n plantean expresiones como platelet growth factor (¬Ņfactor de crecimiento plaquetario o factor plaquetario de crecimiento?) o mixed lymphocyte culture (¬Ņcultivo mixto de linfocitos o cultivo de linfocitos mixtos?). Casi siempre que en ingl√©s se anteponen dos o m√°s adjetivos a un sustantivo ‚Äďlo cual en el lenguaje cient√≠fico es bastante habitual‚Äď existe riesgo de imprecisi√≥n, que en los idiomas latinos nos encargamos de deshacer con nuestro recurso m√°s frecuente al uso de preposiciones. No es raro hallar en ingl√©s sustantivos precedidos de cinco o m√°s calificativos, como en el siguiente ejemplo: human immunodeficiency virus type 1 envelope glycoprotein precursor oligomerization. Quien no est√© muy ducho en virolog√≠a √ļnicamente sabe que la traducci√≥n espa√Īola comienza por oligomerizaci√≥n, pero dudar√≠a ya a la hora de escoger el segundo t√©rmino: ¬Ņoligomerizaci√≥n del precursor de las glucoprote√≠nas?, ¬Ņoligomerizaci√≥n de los precursores de la glucoprote√≠na?, ¬Ņoligomerizaci√≥n humana? ¬Ņoligomerizaci√≥n de tipo 1? Si alguien consigue dar sin problemas con la traducci√≥n correcta ‚Äďoligomerizaci√≥n de los precursores de las glucoprote√≠nas de cubierta del virus de la inmunodeficiencia humana de tipo 1‚Äď no ser√°, desde luego, por la claridad gramatical del ingl√©s, sino m√°s bien por sus nada comunes conocimientos sobre la biolog√≠a molecular del virus del sida.”

Corpos Dóceis

N√£o pude deixar de lembrar de Foucault ao assistir aula sobre treinamento em sepse. Os cursos do chamado adestramento m√©dico proliferam. Para implanta√ß√£o do sistema, falou-se em puni√ß√£o e coer√ß√£o… Eu, d√≥cil?

“… a redu√ß√£o materialista da alma e uma teoria geral do adestramento, no centro dos quais reina a no√ß√£o de “docilidade” que une ao corpo analis√°vel o corpo manipul√°vel. √Č d√≥cil um corpo que pode ser submetido, que pode ser utilizado, que pode ser transformado e aperfei√ßoado.”

Continua:

Pequenas ast√ļcias dotadas de um grande poder de difus√£o, arranjos sutis, de apar√™ncia inocente, mas profundamente suspeitos, dispositivos que obedecem a economias inconfess√°veis, ou que procuram coer√ß√Ķes sem grandeza, s√£o eles entretanto que levaram √† muta√ß√£o do regime punitivo, no limiar da √©poca contempor√Ęnea.”

Como pode isso ser t√£o atual?

Solo Epistemológico


Muito vem se discutindo nos EUA sobre o armazenamento eletr√īnico de informa√ß√Ķes m√©dicas. Grandes empresas do setor tecnol√≥gico, como Google e Microsoft estudam oferecer o servi√ßo. Os gigantes empregadores americanos, como AT&T, Intel, Wal-Mart entre outras, fundaram uma holding, a Dossia, com objetivo de armazenar dados m√©dicos de seus trabalhadores com √≥bvios interesses previdenci√°rios.

No √ļltimo n√ļmero da New England, um artigo sobre o assunto √© seguido por um outro comentando as desventuras do armazenamento no meio eletr√īnico. A velha discuss√£o do ‚Äústandard‚ÄĚ rather than ‚Äúcustomized‚ÄĚ care. Nas palavras dos autores:

‚ÄúPerhaps most important, we should be cautious in using templates that constrain creative clinical thinking and promote automaticity. We must be attentive to the shift in focus demanded by electronic medical records, which can lead clinicians to suspend thinking, blindly accept diagnoses, and fail to talk to patients in a way that allows deep, independent probing. The computer should not become a barrier between physician and patient; as medicine incorporates new technology, its focus should remain on interaction between the sick and the healer.‚ÄĚ

O armazenamento eletr√īnico de informa√ß√Ķes m√©dicas √© uma realidade. Mais cedo ou mais tarde, at√© pela falta de espa√ßo, isso iria ocorrer. O grande passo foi dado com a digitaliza√ß√£o das imagens e a aboli√ß√£o do filme radiol√≥gico que muitos hospitais j√° v√™m utilizando no Brasil.

Tenho d√ļvidas sobre se isso aumentaria a restri√ß√£o ao creative clinical thinking a que se referem os autores. Para mim, essa restri√ß√£o j√° existe, com ou sem o meio eletr√īnico e √© um interesse de seguradoras, de hospitais, de quem faz pol√≠tica de sa√ļde s√≥ pensando em custos e at√©, diria, de m√©dicos tecnocratas. Concordo que ser√° muito mais f√°cil com essa ferramenta arrancar o privado da rela√ß√£o m√©dico-paciente, tornando-o p√ļblico e submetendo-o, assim, aos automatismos de administradores, influ√™ncias da m√≠dia; o que s√≥ faz aumentar o medo por processos, as inseguran√ßas profissionais, insatisfa√ß√Ķes pessoais, gerados pela tens√£o j√° aqui descrita.

Imortalidade


H√° duas formas de conseguir a imortalidade: A primeira √© coletiva. O ser humano individual √© mortal, mas n√£o as totalidades humanas as quais ele pertence. A Igreja, a Na√ß√£o, o Partido, a Causa, v√£o viver muito mais que o indiv√≠duo, talvez at√© para sempre. Assim, pode-se justificar a morte individual: “N√£o foi em v√£o!” Mas o indiv√≠duo se vai de qualquer forma. A imortalidade individual dissolve-se no empreendimento de servir √† imortalidade do grupo.
A segunda forma é individual. Fisicamente, todos os homens vão morrer, exceto alguns, que permanecerão na memória dos outros homens. Para isso ocorrer, esses homens devem ter realizado feitos incomuns à maioria dos homens.
Zygmunt Bauman nota que a imortalidade individual não é particularmente adequada ao consumo de massa pois só tem sentido enquanto a individualidade permanece o privilégio de poucos. A imortalidade coletiva por sua vez, requer a supressão da individualidade.
Se a modernidade se esforçou para desconstruir a morte, em nossa época pós-moderna é a vez de a imortalidade ser desconstruída. Esse é mais um exemplo do atraso da medicina, ramo da cultura humana que ainda permanece tentando desconstruir a morte! Mas, continua Bauman:
“A imortalidade n√£o √© mais a transcend√™ncia da mortalidade. √Č t√£o inst√°vel e extingu√≠vel quanto a pr√≥pria vida, t√£o irreal quanto se tornou a morte transformada no ato do desaparecimento: ambas s√£o receptivas √† intermin√°vel ressurrei√ß√£o, mas nenhuma √† finalidade. Foi a consci√™ncia da morte que insuflou vida na hist√≥ria humana. Por tr√°s da ilimitada inventiva sedimentada na cultura humana, achava-se o conhecimento da morte, que convertia a brevidade da vida numa ofensa √† dignidade humana – um desafio √† intelig√™ncia humana, que requeria transcend√™ncia, alargava a imagina√ß√£o, incitava √† a√ß√£o. Sem conhecer a morte, os animais vivem na imortalidade sem realmente se esfor√ßar por isso; os seres humanos devem merecer, conquistar, construir a sua imortalidade.
Eles enfim o conseguiram, mas somente ao ceder a imortalidade a uma esp√©cie artificial, vivendo a pr√≥pria imortalidade como uma realidade virtual. Com essas oposi√ß√Ķes entre realidade e representa√ß√£o, signo e significado, virtual e “real” progressivamente obliteradas, a imortalidade t√©cnica e virtual n√£o se apoderaria do que a imortalidade outrora possuiu como um empreendimento, como sonho irrealizado? A nova imortalidade virtual e t√©cnica, a imortalidade por procura√ß√£o, n√£o √© um desvio, um sinuoso retorno √† imortalidade a priori, imortalidade por desconhecimento da esp√©cie n√£o-humana (e inumana!)?”
√Č a imortalidade que buscamos a nossos pacientes? Que exemplo melhor de imortalidade t√©cnica e vida na realidade virtual que aquela das unidades de terapia intensiva? Como Bauman, perguntamos se essa imortalidade √© a humana, ou se √© a hiperrealidade sem sentido que nos acomete p√≥s-modernamente? O mundo est√° salpicado de bel√≠ssimas tentativas humanas em escapar da morte. Mas, tal busca pela imortalidade n√£o pode se converter em crua imoralidade.

Necrofobia

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“Num mundo fundamentado na promessa de liberdade para os poderes criativos humanos, a inevitabilidade da morte biol√≥gica era a mais obstinada e sinistra das amea√ßas que pairava sobre a credibilidade dessa promessa e, assim, sobre o fundamento desse mundo“. Necrofobia…

A morte foi desconstruída na modernidade. São enormes os avanços na arte de repelir toda e qualquer causa de morte. A fragmentação do discurso é um velho truque para tirar de imediato o temor maior: a própria morte. Hoje, ela é substituída por incríveis fatores de risco!

N√£o. Eu n√£o preciso de religi√£o para tranquilizar-me com o p√≥s-vida. Posso sublim√°-la facilmente na l√ļdica tarefa de fugir da morte √† m√≥dicas presta√ß√Ķes, seja driblando fatores de risco, tratando pseudo-doen√ßas ou quem sabe, contribuindo com alguma ONG. Os desejos da sociedade e os da ind√ļstria farmac√™utica quase que se fundem promiscuamente… Como o rem√©dio que tomo √© muito bom, comprarei tamb√©m as a√ß√Ķes! Melhor ser rico e saud√°vel que pobre com doen√ßa…

Nesse sentido, o texto de Shannon Brownlee, uma premiada jornalista americana de Medicina e Ciência, n`O Estado de S. Paulo neste domingo (13/04/08), é exemplar e repercute , felizmente. (Clique aqui para o original em inglês e o traduzido)

Mas Bauman conclui:

“No entanto, o pre√ßo dessa desconstru√ß√£o √© a vida policiada do princ√≠pio ao fim pelos ex√©rcitos ub√≠quos do inimigo banido. Havendo recusado enfrentar com coragem a incompatibilidade da promessa moderna com o fato da mortalidade humana, tornamo-nos de fato, ao menos temporariamente, inv√°lidos acompanhando a vida das janelas do hospital”

Continuaremos com Zygmunt ainda mais um pouco.

Teleologia II

Ernst Mayr defendia uma filosofia particular para a Biologia. Uma das raz√Ķes para isso √© o fato de o pensamento biol√≥gico contar com certas caracter√≠sticas pr√≥prias. Talvez, a principal delas seja o pensamento teleol√≥gico. A linguagem m√©dica √© obscenamente teleol√≥gica com a desculpa de ser pragm√°tica. At√© posso aceitar esse argumento. Por√©m, n√£o concordo quando os interlocutores comunicam-se assim por desconhecimento total do assunto e sua pol√™mica no universo da Biologia. O texto que se segue pertence ao portal Talk Origins

“There are two forms of teleological explanation (Lennox 1992). External teleological explanation derives from Plato – a goal is imposed by an agent, a mind, which has intentions and purpose. Internal teleological explanation derives from Aristotle, and is a functional notion. Aristotle divided causes up into four kinds – material (the stuff of which a thing is made), formal (its form or structure), efficient (the powers of the causes to achieve the things they achieve) and final (the purpose or end for which a thing exists). Internal teleology is really a kind of causal explanation in terms of the value of the thing being explained. This sort of teleology doesn’t impact on explanations in terms of efficient causes. You can, according to Aristotle, use both.

Evolutionary explanations are most nearly like Aristotle’s formal and efficient causes. Any functional explanation begs the further question – what is the reason why that function is important to that organism? – and that begs the even further question – why should that organism exist at all? The answers to these questions depend on the history of the lineage leading to the organism.

External teleology is dead in biology, but there is a further important distinction to be made. Mayr [1982: 47-51] distinguished four kinds of explanations that are sometimes called teleology: telenomic (goal-seeking, Aristotle’s final causes, ‘for-the-sake-of-which’ explanations); teleomatic (lawlike behaviour that is not goal-seeking); adapted systems (which are not goal seeking at all, but exist just because they survived); and cosmic teleologyO’Grady and Brooks 1988]. Only systems that are actively directed by a goal are truly teleological. Most are just teleomatic, and some (e.g., genetic programs) are teleonomic (internal teleology), because they seek an end.”

How the four forms of apparent teleology relate.
Venn diagram with Teleological systems in Teleonomic systems in Teleomatic systems with Adapted systems overlapping some (but not all) of each of the other four but entirely within Teleomatic systems

Exemplos de processos teleom√°ticos s√£o aqueles em que a lei da gravidade e a 2a lei da termodin√Ęmica regulam as transforma√ß√Ķes. N√£o apresentam um objetivo final. Os processos teleon√īmicos s√£o guiados por programas e dependem da exist√™ncia de uma meta que pode ser uma estrutura, uma fun√ß√£o fisiol√≥gica ou mesmo um comportamento. Os programas est√£o sujeitos √† sele√ß√£o natural. Para Mayr, o programa gen√©tico proporciona em exemplo de processo teleon√īmico. Os sistemas adaptativos (por exemplo, fun√ß√Ķes de org√£os ou comportamentos de esp√©cies) t√™m sido erroneamente chamados de teleol√≥gicos. Segundo Munson (1971) isso ocorre porque ao estudar um tra√ßo adaptativo buscamos uma explica√ß√£o. Essa explica√ß√£o √© dada contando-se a hist√≥ria evolutiva desse tra√ßo como sendo um sucesso da sele√ß√£o natural. De novo, n√£o h√° metas.
Esse racioc√≠nio muitas vezes explica o aparecimento de doen√ßas que, assim, n√£o necessitam mais ser vistas como maldi√ß√Ķes √† esp√©cie humana. A raz√£o m√©dica se beneficiaria do pensamento evolucion√°rio que pode estar distante da pr√°tica cl√≠nica, mas traria de volta sua historicidade. Afinal, a hist√≥ria de um ser vivo, t√£o cara a Mayr, √© o que o diferencia de um ente inanimado; e o que o torna irredut√≠vel √† f√≠sico-qu√≠mica, sem recorrer a explica√ß√Ķes vitalistas.

Solo Epistemológico

A Reforma Neoliberal da Sa√ļde no Chile vem sendo elogiada, em especial, pelo Banco Mundial, que se refere a ela como exemplo para outros pa√≠ses. Entretanto, h√° uma s√©rie de cr√≠ticas quanto a forma como ela vem sendo realizada desde seu in√≠cio, no governo Pinochet (1973‚Äď1989).

Este artigo da PlosMedicine analisa as mudan√ßas realizadas e chama aten√ß√£o para o aumento dos gastos e o financiamento p√ļblico do sistema privado:

“The Chilean health system has been studied extensively [1]. Its current form is the result of a major reform undertaken by the Pinochet government following the coup d’√©tat in 1973. Pinochet’s reform established competition between public and private health insurers and promoted private health services, following neoliberal principles. Neoliberalism is an economic and political movement that gained consensus in the 1980s among international organisations like the International Monetary Fund and the World Bank. This movement demands reforms such as free trade, privatisation of previously public-owned enterprises, goods, and services, undistorted market prices, and limited government intervention. After the publication of the World Bank’s 1993 report, ‚ÄúInvesting in Health‚ÄĚ [2], Chile became a model for neoliberal reforms to health services.

In this Policy Forum, we assess the effects of the Chilean reform from Pinochet until 2005, and including the transition to democracy in 1990. We suggest that the use of Chile as a model for other countries of the health benefits of neoliberalism is seriously misguided. We stress the dominant role of the public health system in Chile, while most other studies have assessed the introduction of a private insurance sector as part of the neoliberal reform. Revisiting the Chilean health reform after 25 years, we come to new conclusions that could be important for countries such as Ecuador and Bolivia, which are preparing health reforms, and even for the United States, with its current debate on universal health insurance.”

E conclui:

  • The Chilean health system underwent a drastic neoliberal reform in the 1980s, with the creation of a dual system: public and private health insurance and public and private provision of health services.
  • This reform served as a model for later World Bank‚Äďinspired reforms in countries like Colombia.
  • The private part of the Chilean health system, including private insurers and private providers, is highly inefficient and has decreased solidarity between rich and poor, sick and healthy, and young and old.
  • In spite of serious underfinancing during the Pinochet years, the public health component remains the backbone of the system and is responsible for the good health status of the Chilean population.
  • The Chilean health reform has lessons for other countries in Latin America and elsewhere: privatisation of health insurance services may not have the expected results according to neoliberal doctrine. On the contrary, it may increase unfairness in financing and inequitable access to quality care.