Jaytcheenyoo


Pode parecer inacreditável, mas existe uma especialista em Jeitinho Brasileiro. Ela é brasileira, socióloga, se chama Fernanda Duarte e está radicada na Austrália desde 1974, lecionando na Universidade de Sydney. O paper original é muito engraçado pois explica em inglês as malandragens brasileiras para se conseguir as coisas que, pelas vias normais, seriam impossíveis. Começa pela pronúncia do fenômeno: Jaytcheenyoo é demais!!! Veja a frase:

“People explicitly request a jeitinho by uttering the phrase ‘Da um jeitinho pra mim’ [Give me a jeitinho], taking for granted that the other person knows exactly what they mean. There is also an expectation that the jeitinho will be always granted, considering that generosity, cordiality, warmth and empathy are highly valued attributes in Brazilian society.”

A contrapartida do jeitinho na Medicina tem inúmeros exemplos. O mais recente é sobre o número de cursos médicos no Brasil. Só perdemos para Índia. Fora os que vão à Bolívia estudar e voltam médicos para o Brasil, validando o título…

Dúvida e Salvação

duvida.jpgHorkheimer em 1970, escreveu o ensaio Teoria Crítica Ontem e Hoje. Sobre a ciência, escreveu ele:

“A ciência é uma tal ordenação dos fatos de nossa consciência que ela permite, finalmente, alcançar cada vez, em um lugar exato do espaço e do tempo, aquilo que exatamente deve ser esperado ali. (…) A exatidão é, nesse sentido, o objetivo da ciência. Entretanto, e aqui aparece o primeiro tema da Teoria Crítica, a própria ciência não sabe por que põe em ordem os fatos justamente naquela direção, nem por que se concentra em certos objetos e não em outros. O que falta à ciência é a reflexão sobre si mesma, o conhecimento dos móveis sociais que a impulsionam em certa direção: por exemplo, em ocupar-se da Lua e não do bem-estar dos homens.”

Ao descartar as promessas não cumpridas de Marx como diferenças entre a Teoria Crítica de ontem e hoje, Horkheimer escreve:

“Por último, aquilo que Marx esperava da sociedade justa é falso – não fosse por outra razão – , e este enunciado é importante para a Teoria Crítica, porque a liberdade e a justiça tanto estão ligadas quanto opostas. Quanto mais justiça, menos liberdade. Se quisermos caminhar para a equidade, devem-se proibir muitas coisas aos homens, notadamente de espezinharem-se uns aos outros”.

E quanto a quem poderia ser aliado na empreitada:

“Se a tradição, as categorias religiosas e, em particular, a justiça e bondade de Deus não forem transmitidas como dogma (grifo meu), como verdades absolutas, mas como a nostalgia daqueles capazes de uma verdadeira tristeza, e isso precisamente porque essas doutrinas não podem ser demonstradas e porque essa dúvida é seu lote, a mentalidade teológica, ou pelo menos sua base, poderá ser conservada de uma forma adequada. A introdução da dúvida na religião é um momento necessário para salvá-la”.

É onde Ratzinger conscientemente peca.

A Razão Diabólica

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José Arthur Giannotti (precisa ter assinatura), na Folha de hoje, fala sobre o discurso de Bento 16 na ONU, referindo-se a ele como pérola do pensamento conservador. Além de toda questão política comentada, me interessa mais a relação entre ciência e religião que o papa usa como argumento e que Giannotti critica. Vejamos o papa:

Deste modo o nosso pensamento se dirige ao modo como os resultados das descobertas da pesquisa científica e tecnológica foram aplicados. Não obstante aos grandes benefícios que a humanidade pode tirar deles, alguns aspectos de tais aplicações representam uma clara violação da ordem da criação a ponto de não contradizer somente o caráter sagrado da vida humana mas a própria violação da pessoa e da família em sua identidade natural.”

Giannotti questiona a noção de identidade – crítica óbvia – o que faz muito sentido para ironistas (no sentido rortyano do termo), mas nenhum sentido para o homem que ocupa o cargo mais metafísico da humanidade. Ele acredita sim em essências!

Segue o sumo pontífice:

Do mesmo modo, a ação internacional, na busca de preservar o ambiente, e proteger as várias formas de vida sobre a terra não deve garantir somente um uso racional da tecnologia e da ciência, mas deve redescobrir a autêntica imagem da criação. Isto não exige nunca uma escolha entre ciência e ética, mas se trata de adotar um método científico que respeite verdadeiramente os imperativos da ética.”

Isso daria uma tese. Alguém tem dúvida de que Habermas assinaria a primeira frase se ela não terminasse com a tal “imagem da criação”? Uma razão compartilhada internacionalmente é seu sonho de consumo. Por outro lado, se não existe método científico subordinado a imperativos morais, pode haver um consenso de pares – vamos por aqui ou melhor trabalhar por lá, call for papers sobre determinado assunto, etc. O cientista publica, mantém os grants, a revista publica, mantém as assinaturas e patrocínios, a massa cita o artigo, fica “estudada” (ver Manoel de Barros) e fica todo mundo feliz! Só que isso vale para a ciência normal kuhniana.

No caso das grandes descobertas é diferente. Para Giannotti existe uma razão diabólica por trás delas: “Foi diabólico para os pitagóricos pensar os números irracionais, foi diabólico para toda a razão convencional do século 19 pensar que a espécie humana tivesse uma origem comum àquela dos macacos, e, atualmente, é diabólico pensar que uma pessoa possa ser clonada.”

O argumento de Giannotti é que o papa quer subordinar, inclusive pela força (ver o final do artigo), a ciência a uma visão de fé (ecumênica até) com todos os desdobramentos que isso possa acarretar. É claro que isso não vai dar certo nunca!

O ponto aqui é que o papa argumenta sobre um assunto polêmico e extremamente necessário com as armas de que dispõe. Ou Giannotti esperava ver o papa pedindo desculpas (de novo!) a Galileu e assumindo a culpa na Inquisição? Este blog vem defendendo a reflexão, de preferência conjunta, como medida da razão desenfreada. O papa faz exatamente isso com sua linguagem metafísica e altamente conservadora. Mas o que deveríamos esperar de Ratzinger?

O cientista produz um poder sobre o qual não tem controle. Giannotti chama isso de diabólico pois é ousado, transgressor, invasivo e agressivo. É quase ciência heavy-metal. Tudo bem. Mas acho bem mais diabólico, no sentido de “do Mal” (como dizem meus filhos) a apropriação desse conhecimento para outro fim que não minimizar as aflições da espécie humana e do planeta em geral, o que, no fundo, é quase a mesma coisa.

El inglés, idioma internacional de la medicina

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Reproduzo aqui partes do fantástico artigo de Fernando Navarro, tradutor da Roche na Suíça. O artigo, com o título do post, se preocupa em entender porque o inglês se tornou a língua oficial da medicina. Alguns acreditam que isso ocorre devido a características específicas da língua inglesa que a tornam especialmente talhada para comunicação científica. Vejam o que Fernando Navarro escreve sobre isso:

“El genio de la lengua inglesa, se oye con frecuencia, se presta de forma admirable para la expresión de la ciencia. Se admite de forma general, en efecto, que el inglés se ha convertido en el idioma internacional de la medicina gracias a sus características intrínsecas de sencillez y claridad, que lo hacen especialmente apto para la comunicación científica. ¡¿Un idioma sencillo el inglés?! Con un léxico riquísimo en el que se superponen palabras de origen germánico y sus sinónimos latinos, una fonética y una ortografía endiabladas, amén de un complejísimo sistema prepositivo, el inglés era precisamente el idioma teóricamente menos adecuado para enseñarlo como lengua auxiliar o de comunicación. Y si no es un idioma sencillo, menos aún es un idioma claro o preciso: ¿qué es un World Pollution Symposium?; ¿un simposio mundial sobre la contaminación o un simposio sobre la contaminación mundial? Idénticos problemas de imprecisión plantean expresiones como platelet growth factor (¿factor de crecimiento plaquetario o factor plaquetario de crecimiento?) o mixed lymphocyte culture (¿cultivo mixto de linfocitos o cultivo de linfocitos mixtos?). Casi siempre que en inglés se anteponen dos o más adjetivos a un sustantivo –lo cual en el lenguaje científico es bastante habitual– existe riesgo de imprecisión, que en los idiomas latinos nos encargamos de deshacer con nuestro recurso más frecuente al uso de preposiciones. No es raro hallar en inglés sustantivos precedidos de cinco o más calificativos, como en el siguiente ejemplo: human immunodeficiency virus type 1 envelope glycoprotein precursor oligomerization. Quien no esté muy ducho en virología únicamente sabe que la traducción española comienza por oligomerización, pero dudaría ya a la hora de escoger el segundo término: ¿oligomerización del precursor de las glucoproteínas?, ¿oligomerización de los precursores de la glucoproteína?, ¿oligomerización humana? ¿oligomerización de tipo 1? Si alguien consigue dar sin problemas con la traducción correcta –oligomerización de los precursores de las glucoproteínas de cubierta del virus de la inmunodeficiencia humana de tipo 1– no será, desde luego, por la claridad gramatical del inglés, sino más bien por sus nada comunes conocimientos sobre la biología molecular del virus del sida.”

Corpos Dóceis

Não pude deixar de lembrar de Foucault ao assistir aula sobre treinamento em sepse. Os cursos do chamado adestramento médico proliferam. Para implantação do sistema, falou-se em punição e coerção… Eu, dócil?

“… a redução materialista da alma e uma teoria geral do adestramento, no centro dos quais reina a noção de “docilidade” que une ao corpo analisável o corpo manipulável. É dócil um corpo que pode ser submetido, que pode ser utilizado, que pode ser transformado e aperfeiçoado.”

Continua:

Pequenas astúcias dotadas de um grande poder de difusão, arranjos sutis, de aparência inocente, mas profundamente suspeitos, dispositivos que obedecem a economias inconfessáveis, ou que procuram coerções sem grandeza, são eles entretanto que levaram à mutação do regime punitivo, no limiar da época contemporânea.”

Como pode isso ser tão atual?

Solo Epistemológico


Muito vem se discutindo nos EUA sobre o armazenamento eletrônico de informações médicas. Grandes empresas do setor tecnológico, como Google e Microsoft estudam oferecer o serviço. Os gigantes empregadores americanos, como AT&T, Intel, Wal-Mart entre outras, fundaram uma holding, a Dossia, com objetivo de armazenar dados médicos de seus trabalhadores com óbvios interesses previdenciários.

No último número da New England, um artigo sobre o assunto é seguido por um outro comentando as desventuras do armazenamento no meio eletrônico. A velha discussão do “standard” rather than “customized” care. Nas palavras dos autores:

“Perhaps most important, we should be cautious in using templates that constrain creative clinical thinking and promote automaticity. We must be attentive to the shift in focus demanded by electronic medical records, which can lead clinicians to suspend thinking, blindly accept diagnoses, and fail to talk to patients in a way that allows deep, independent probing. The computer should not become a barrier between physician and patient; as medicine incorporates new technology, its focus should remain on interaction between the sick and the healer.”

O armazenamento eletrônico de informações médicas é uma realidade. Mais cedo ou mais tarde, até pela falta de espaço, isso iria ocorrer. O grande passo foi dado com a digitalização das imagens e a abolição do filme radiológico que muitos hospitais já vêm utilizando no Brasil.

Tenho dúvidas sobre se isso aumentaria a restrição ao creative clinical thinking a que se referem os autores. Para mim, essa restrição já existe, com ou sem o meio eletrônico e é um interesse de seguradoras, de hospitais, de quem faz política de saúde só pensando em custos e até, diria, de médicos tecnocratas. Concordo que será muito mais fácil com essa ferramenta arrancar o privado da relação médico-paciente, tornando-o público e submetendo-o, assim, aos automatismos de administradores, influências da mídia; o que só faz aumentar o medo por processos, as inseguranças profissionais, insatisfações pessoais, gerados pela tensão já aqui descrita.

Imortalidade


Há duas formas de conseguir a imortalidade: A primeira é coletiva. O ser humano individual é mortal, mas não as totalidades humanas as quais ele pertence. A Igreja, a Nação, o Partido, a Causa, vão viver muito mais que o indivíduo, talvez até para sempre. Assim, pode-se justificar a morte individual: “Não foi em vão!” Mas o indivíduo se vai de qualquer forma. A imortalidade individual dissolve-se no empreendimento de servir à imortalidade do grupo.
A segunda forma é individual. Fisicamente, todos os homens vão morrer, exceto alguns, que permanecerão na memória dos outros homens. Para isso ocorrer, esses homens devem ter realizado feitos incomuns à maioria dos homens.
Zygmunt Bauman nota que a imortalidade individual não é particularmente adequada ao consumo de massa pois só tem sentido enquanto a individualidade permanece o privilégio de poucos. A imortalidade coletiva por sua vez, requer a supressão da individualidade.
Se a modernidade se esforçou para desconstruir a morte, em nossa época pós-moderna é a vez de a imortalidade ser desconstruída. Esse é mais um exemplo do atraso da medicina, ramo da cultura humana que ainda permanece tentando desconstruir a morte! Mas, continua Bauman:
“A imortalidade não é mais a transcendência da mortalidade. É tão instável e extinguível quanto a própria vida, tão irreal quanto se tornou a morte transformada no ato do desaparecimento: ambas são receptivas à interminável ressurreição, mas nenhuma à finalidade. Foi a consciência da morte que insuflou vida na história humana. Por trás da ilimitada inventiva sedimentada na cultura humana, achava-se o conhecimento da morte, que convertia a brevidade da vida numa ofensa à dignidade humana – um desafio à inteligência humana, que requeria transcendência, alargava a imaginação, incitava à ação. Sem conhecer a morte, os animais vivem na imortalidade sem realmente se esforçar por isso; os seres humanos devem merecer, conquistar, construir a sua imortalidade.
Eles enfim o conseguiram, mas somente ao ceder a imortalidade a uma espécie artificial, vivendo a própria imortalidade como uma realidade virtual. Com essas oposições entre realidade e representação, signo e significado, virtual e “real” progressivamente obliteradas, a imortalidade técnica e virtual não se apoderaria do que a imortalidade outrora possuiu como um empreendimento, como sonho irrealizado? A nova imortalidade virtual e técnica, a imortalidade por procuração, não é um desvio, um sinuoso retorno à imortalidade a priori, imortalidade por desconhecimento da espécie não-humana (e inumana!)?”
É a imortalidade que buscamos a nossos pacientes? Que exemplo melhor de imortalidade técnica e vida na realidade virtual que aquela das unidades de terapia intensiva? Como Bauman, perguntamos se essa imortalidade é a humana, ou se é a hiperrealidade sem sentido que nos acomete pós-modernamente? O mundo está salpicado de belíssimas tentativas humanas em escapar da morte. Mas, tal busca pela imortalidade não pode se converter em crua imoralidade.

Necrofobia

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“Num mundo fundamentado na promessa de liberdade para os poderes criativos humanos, a inevitabilidade da morte biológica era a mais obstinada e sinistra das ameaças que pairava sobre a credibilidade dessa promessa e, assim, sobre o fundamento desse mundo“. Necrofobia…

A morte foi desconstruída na modernidade. São enormes os avanços na arte de repelir toda e qualquer causa de morte. A fragmentação do discurso é um velho truque para tirar de imediato o temor maior: a própria morte. Hoje, ela é substituída por incríveis fatores de risco!

Não. Eu não preciso de religião para tranquilizar-me com o pós-vida. Posso sublimá-la facilmente na lúdica tarefa de fugir da morte à módicas prestações, seja driblando fatores de risco, tratando pseudo-doenças ou quem sabe, contribuindo com alguma ONG. Os desejos da sociedade e os da indústria farmacêutica quase que se fundem promiscuamente… Como o remédio que tomo é muito bom, comprarei também as ações! Melhor ser rico e saudável que pobre com doença…

Nesse sentido, o texto de Shannon Brownlee, uma premiada jornalista americana de Medicina e Ciência, n`O Estado de S. Paulo neste domingo (13/04/08), é exemplar e repercute , felizmente. (Clique aqui para o original em inglês e o traduzido)

Mas Bauman conclui:

“No entanto, o preço dessa desconstrução é a vida policiada do princípio ao fim pelos exércitos ubíquos do inimigo banido. Havendo recusado enfrentar com coragem a incompatibilidade da promessa moderna com o fato da mortalidade humana, tornamo-nos de fato, ao menos temporariamente, inválidos acompanhando a vida das janelas do hospital”

Continuaremos com Zygmunt ainda mais um pouco.

Teleologia II

Ernst Mayr defendia uma filosofia particular para a Biologia. Uma das razões para isso é o fato de o pensamento biológico contar com certas características próprias. Talvez, a principal delas seja o pensamento teleológico. A linguagem médica é obscenamente teleológica com a desculpa de ser pragmática. Até posso aceitar esse argumento. Porém, não concordo quando os interlocutores comunicam-se assim por desconhecimento total do assunto e sua polêmica no universo da Biologia. O texto que se segue pertence ao portal Talk Origins

“There are two forms of teleological explanation (Lennox 1992). External teleological explanation derives from Plato – a goal is imposed by an agent, a mind, which has intentions and purpose. Internal teleological explanation derives from Aristotle, and is a functional notion. Aristotle divided causes up into four kinds – material (the stuff of which a thing is made), formal (its form or structure), efficient (the powers of the causes to achieve the things they achieve) and final (the purpose or end for which a thing exists). Internal teleology is really a kind of causal explanation in terms of the value of the thing being explained. This sort of teleology doesn’t impact on explanations in terms of efficient causes. You can, according to Aristotle, use both.

Evolutionary explanations are most nearly like Aristotle’s formal and efficient causes. Any functional explanation begs the further question – what is the reason why that function is important to that organism? – and that begs the even further question – why should that organism exist at all? The answers to these questions depend on the history of the lineage leading to the organism.

External teleology is dead in biology, but there is a further important distinction to be made. Mayr [1982: 47-51] distinguished four kinds of explanations that are sometimes called teleology: telenomic (goal-seeking, Aristotle’s final causes, ‘for-the-sake-of-which’ explanations); teleomatic (lawlike behaviour that is not goal-seeking); adapted systems (which are not goal seeking at all, but exist just because they survived); and cosmic teleologyO’Grady and Brooks 1988]. Only systems that are actively directed by a goal are truly teleological. Most are just teleomatic, and some (e.g., genetic programs) are teleonomic (internal teleology), because they seek an end.”

How the four forms of apparent teleology relate.
Venn diagram with Teleological systems in Teleonomic systems in Teleomatic systems with Adapted systems overlapping some (but not all) of each of the other four but entirely within Teleomatic systems

Exemplos de processos teleomáticos são aqueles em que a lei da gravidade e a 2a lei da termodinâmica regulam as transformações. Não apresentam um objetivo final. Os processos teleonômicos são guiados por programas e dependem da existência de uma meta que pode ser uma estrutura, uma função fisiológica ou mesmo um comportamento. Os programas estão sujeitos à seleção natural. Para Mayr, o programa genético proporciona em exemplo de processo teleonômico. Os sistemas adaptativos (por exemplo, funções de orgãos ou comportamentos de espécies) têm sido erroneamente chamados de teleológicos. Segundo Munson (1971) isso ocorre porque ao estudar um traço adaptativo buscamos uma explicação. Essa explicação é dada contando-se a história evolutiva desse traço como sendo um sucesso da seleção natural. De novo, não há metas.
Esse raciocínio muitas vezes explica o aparecimento de doenças que, assim, não necessitam mais ser vistas como maldições à espécie humana. A razão médica se beneficiaria do pensamento evolucionário que pode estar distante da prática clínica, mas traria de volta sua historicidade. Afinal, a história de um ser vivo, tão cara a Mayr, é o que o diferencia de um ente inanimado; e o que o torna irredutível à físico-química, sem recorrer a explicações vitalistas.

Solo Epistemológico

A Reforma Neoliberal da Saúde no Chile vem sendo elogiada, em especial, pelo Banco Mundial, que se refere a ela como exemplo para outros países. Entretanto, há uma série de críticas quanto a forma como ela vem sendo realizada desde seu início, no governo Pinochet (1973–1989).

Este artigo da PlosMedicine analisa as mudanças realizadas e chama atenção para o aumento dos gastos e o financiamento público do sistema privado:

“The Chilean health system has been studied extensively [1]. Its current form is the result of a major reform undertaken by the Pinochet government following the coup d’état in 1973. Pinochet’s reform established competition between public and private health insurers and promoted private health services, following neoliberal principles. Neoliberalism is an economic and political movement that gained consensus in the 1980s among international organisations like the International Monetary Fund and the World Bank. This movement demands reforms such as free trade, privatisation of previously public-owned enterprises, goods, and services, undistorted market prices, and limited government intervention. After the publication of the World Bank’s 1993 report, “Investing in Health” [2], Chile became a model for neoliberal reforms to health services.

In this Policy Forum, we assess the effects of the Chilean reform from Pinochet until 2005, and including the transition to democracy in 1990. We suggest that the use of Chile as a model for other countries of the health benefits of neoliberalism is seriously misguided. We stress the dominant role of the public health system in Chile, while most other studies have assessed the introduction of a private insurance sector as part of the neoliberal reform. Revisiting the Chilean health reform after 25 years, we come to new conclusions that could be important for countries such as Ecuador and Bolivia, which are preparing health reforms, and even for the United States, with its current debate on universal health insurance.”

E conclui:

  • The Chilean health system underwent a drastic neoliberal reform in the 1980s, with the creation of a dual system: public and private health insurance and public and private provision of health services.
  • This reform served as a model for later World Bank–inspired reforms in countries like Colombia.
  • The private part of the Chilean health system, including private insurers and private providers, is highly inefficient and has decreased solidarity between rich and poor, sick and healthy, and young and old.
  • In spite of serious underfinancing during the Pinochet years, the public health component remains the backbone of the system and is responsible for the good health status of the Chilean population.
  • The Chilean health reform has lessons for other countries in Latin America and elsewhere: privatisation of health insurance services may not have the expected results according to neoliberal doctrine. On the contrary, it may increase unfairness in financing and inequitable access to quality care.

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