Antropofagia

1¬į Ato

E se um dia, ou uma noite, um dem√īnio lhe aparecesse furtivamente em sua mais desolada solid√£o e dissesse: “Este corpo, como voc√™ v√™ e toca, jamais ver√° e tocar√° de novo.” Se ele dissesse que seus olhos ser√£o feitos de tal modo que nenhuma parte do seu corpo se expor√° ao seu olhar e que um dispositivo maligno, deixando-o livre para alcan√ßar todas as coisas, o impedir√° de tocar sua pr√≥pria carne. Que a partir desse fat√≠dico momento, voc√™ ser√° como uma part√≠cula de poeira dotada apenas de consci√™ncia, sem a viv√™ncia de seu pr√≥prio corpo.

 

2¬į Ato

“A universidade aos poucos sucumbe aos efeitos colaterais de um mundo que, como diria Nietzsche, vomita “ideias modernas”. Os processos de democratiza√ß√£o do saber, como suspeitava nosso fil√≥sofo, s√£o processos de produ√ß√£o de nulidades em grandes quantidades.(…) A universidade est√° morta e s√≥ n√£o sente o cheiro do cad√°ver quem tem voca√ß√£o para se alimentar de lixo. Fosse Kafka vivo e escrevesse um conto sobre n√≥s, acad√™micos, nos colocaria com cara de ratos.” (LF Pond√© na FSP).

 

3¬į Ato

“Ai – dizia o rato – o mundo se torna cada dia mais pequeno. Primeiro era t√£o amplo que eu tinha medo, seguia adiante e sentia-me feliz ao ver √† dist√Ęncia, √† direita e √† esquerda, alguns muros, mas esses longos muros se precipitam t√£o velozmente uns sobre os outros que j√° estou no √ļltimo quarto e, ali no canto, est√° a armadilha para a qual vou. – Apenas tens de mudar a dire√ß√£o de tua marcha, disse o gato, e comeu-o.” (Franz Kafka – apud¬†Jac√≥ Guinsburg).

 

4¬į Ato

“A aus√™ncia de corpo n√£o √© tua alma, Rato. O melhor √© comer-te a ti mesmo se o queres desprezar.” E assim, se fez…

Gran Finale

HdH Prado JrAgradecimento especial ao Dr. Hermes Prado Jr que gentilmente cedeu a figura que inspirou o texto.

 

Ricoeur, Met√°foras, Narrativas e a Medicina

Tempo NarrativaConhe√ßo muita gente boa – boa mesmo – que n√£o gosta de ler fic√ß√£o. Mais especificamente, romances ou hist√≥rias contadas, ou mesmo narrativas. Uma vez, escrevi que os romances s√£o como ensaios cl√≠nicos randomizados duplo-cegos, placebo controlados do mundo da vida¬†e continuo concordando com isso. Mas, confesso, ainda me faltava um certo embasamento te√≥rico para sustentar isso. Paul Ricoeur talvez tenha resolvido o problema. Ele teve reeditada no Brasil sua obra m√°xima “Tempo e Narrativa” pela editora Martins Fontes. Segundo o que o pr√≥prio autor exp√Ķe na introdu√ß√£o ao livro, Tempo e Narrativa √© uma obra g√™mea de A Met√°fora Viva. Este livro pode ser considerado uma consequ√™ncia da¬†“experi√™ncia de Ricoeur na academia norte-americana, especialmente por seu contato com a filosofia anal√≠tica anglo-sax√īnica e sua inclina√ß√£o por estudar n√£o apenas a natureza ontol√≥gica de cada categoria, mas seus mecanismos de funcionamento e de intera√ß√£o com o mundo”[1]. Em A Met√°fora Viva, de 1975,¬†Ricoeur defende, a exemplo de Rorty, que a met√°fora provoca uma inova√ß√£o, ou como gostaria o americano, uma redescri√ß√£o.

Com a met√°fora, a inova√ß√£o consiste na produ√ß√£o de uma nova pertin√™ncia sem√Ęntica por meio de uma atribui√ß√£o impertinente: “A natureza √© um templo onde viventes pilares…” A met√°fora continua viva enquanto percebermos, atrav√©s da nova pertin√™ncia sem√Ęntica – e de certo modo em sua espessura -, a resist√™ncia das palavras em seu emprego usual e, portanto, tamb√©m sua incompatibilidade no n√≠vel de uma interpreta√ß√£o literal da frase.”

Dito isso, Ricoeur passa a explicar que Tempo e Narrativa é fruto de uma tentativa de paralelismo entre metáforas e narrativas, veja só! No caso das narrativas,

… a inova√ß√£o sem√Ęntica consiste na inven√ß√£o de uma intriga que, tamb√©m ela, √© uma obra de s√≠ntese: pela virtude da intriga, objetivos, causas, acasos s√£o reunidos sob a unidade temporal de uma a√ß√£o total e completa. √Č essa s√≠ntese do heterog√™neo que aproxima a narrativa da met√°fora. Em ambos os casos, algo novo – algo ainda n√£o dito, algo in√©dito – surge na linguagem: aqui, a met√°fora viva, isto √©, uma nova pertin√™ncia na predica√ß√£o, ali, uma intriga inventada, isto √©, uma nova congru√™ncia no agenciamento dos incidentes.

S√≥ por isso, o estudo de tais “literatices” por profissionais de sa√ļde j√° estaria justificado, contudo, ainda assim, estar√≠amos a pisar em um campo bastante te√≥rico. Mas, Ricoeur avan√ßa mais. Para ele, a imagina√ß√£o produtiva √© quem possibilita a compreens√£o. Met√°foras e narrativas simulam (n√£o estaria aqui embutida a ideia de ensaio?!) num n√≠vel superior de uma metalinguagem, a intelig√™ncia enraizada no esquematismo que nos aprisiona: o da linguagem. Como grande hermeneuta que √©, escreve:

Consequentemente, quer se trate de met√°fora ou de intriga, explicar mais √© compreender melhor. Compreender, no primeiro caso [met√°fora], √© voltar a captar o dinamismo em virtude do qual um enunciado metaf√≥rico, uma nova pertin√™ncia sem√Ęntica emergem das ru√≠nas da pertin√™ncia sem√Ęntica tal como aparece numa leitura literal da frase. Compreender, no segundo caso [narrativa], √© voltar a captar a opera√ß√£o que unifica numa a√ß√£o inteira e completa a diversidade constitu√≠da pelas circunst√Ęncias, pelos objetivos e pelos meios, pelas iniciativas e pelas intera√ß√Ķes, pelas reviravoltas da fortuna e por todas as consequ√™ncias n√£o desejadas da a√ß√£o humana.

√Č isso! Hoje, o discurso cient√≠fico, por seus poderes pre-vision√°rios e seus resultados, sobrescreve a medicina de tal forma que o m√©dico se torna quase como um “papagaio-de-estudos-cl√≠nicos”, repetindo-os sem parar at√© que novos estudos substituam os antigos. Nossos pacientes n√£o querem s√≥ isso. Sem abandonar a ci√™ncia, √© preciso dar algum valor aos discursos que, feitos de linguagem, s√£o quase como que abstra√≠dos da rela√ß√£o entre os m√©dicos e seus pacientes (e entre m√©dicos tamb√©m!), como interferentes, ru√≠dos indesej√°veis. Como fazer isso? Trata-se de um problema epistemol√≥gico pois refere-se ao valor de verdade que atribu√≠mos a determinadas informa√ß√Ķes. Ricoeur vai no nervo:

O problema epistemológico levantado, quer pela metáfora, quer pela narrativa, consiste em grande medida em ligar a explicação empregada pelas ciências semio-linguisticas à compreensão prévia que decorre de uma familiaridade adquirida com a prática linguageira, tanto poética como narrativa.

Seria a partir do “estranhamento” √† “familiaridade da pr√°tica linguageira” causado¬†pela poesia (met√°foras em tr√Ęnsito) e pelas narrativas (ensaios de intrigas sint√©ticas do mundo da vida) que quebrar√≠amos o transe cognitivo causado pelo costume. Se o discurso po√©tico permite √† linguagem acessar realidades que n√£o s√£o atingidas pelo discurso meramente descritivo, permitindo inclusive a Ricoeur falar em refer√™ncia metaf√≥rica, em especial nos campos “sensorial, p√°tico, est√©tico e axiol√≥gico, constituintes do mundo habit√°vel”,¬†a fun√ß√£o mim√©tica das narrativas, por sua vez, se exerce de prefer√™ncia no campo da a√ß√£o e de seus valores temporais.¬†As narrativas reconfiguram nossas experi√™ncias temporais. √Č daqui que elas retiram seu valor de verdade. Heidegger √© foda.

(Desculpem o palavr√£o)

[1] Ver resenha “profissa” do livro aqui.