O Futebol e a Tragédia das Mãos

Maos2

“Em futebol, o pior cego √© o que s√≥ v√™ a bola.”

Nélson Rodrigues (O Divino Delinquente) 

N√£o h√°, hoje, quem duvide de que o esporte que convencionamos chamar futebol √© o mais popular do mundo. Explica√ß√Ķes para isso n√£o faltam. Sua simplicidade (da qual particularmente discordarei); sua capacidade de transformar portadores de um f√≠sico breve em √≠dolos mundiais milion√°rios; a possibilidade de pratic√°-lo com equipamentos de baixo custo ou mesmo quase nenhum; o fato de que nem sempre a melhor equipe vence a partida, fazendo com que fatores extra-campo, e.g. torcida, sejam fundamentais para uma vit√≥ria s√£o, entre outras tantas, algumas das principais teorias explanat√≥rias aventadas para justificar porque o futebol √© praticado nos mais long√≠nquos rinc√Ķes do planeta. Se tantas h√° √© porque nenhuma d√° conta sozinha de explicar o fen√īmeno futebol√≠stico, fato que sempre acaba encorajando incautos a lan√ßarem suas pr√≥prias teorias. Segue, com o perd√£o da aud√°cia, ent√£o, a minha.

Comecemos pelas palavras e pelas coisas, que s√£o sempre um bom come√ßo. O futebol que a tantos encanta hoje nasceu, claro, na Inglaterra, mais precisamente em 1863, batizado com dois nomes: association football. E aqui j√° nos defrontamos com nosso primeiro problema. Como √© notoriamente sabido, adjetivos em ingl√™s v√™m antes dos substantivos a quem qualificam. Substantivos, por sua vez, podem, na l√≠ngua bret√£, ser adjetivados, e muitas vezes s√≥ o que nos resta para distinguir estes daqueles √© sua posi√ß√£o na frase. Se digo, ent√£o, football association, a tradu√ß√£o correta para o portugu√™s seria ‚Äúassocia√ß√£o de futebol‚ÄĚ (ou ‚Äúassocia√ß√£o futebol√≠stica‚ÄĚ, para adjetivar de vez o nome ‚Äúfutebol‚ÄĚ). Mas, se digo association football, a tradu√ß√£o √© ‚Äúfutebol da associa√ß√£o‚ÄĚ (ou o horr√≠vel ‚Äúfutebol associativo‚ÄĚ, ou mesmo ‚Äúassociado‚ÄĚ, adjetivando o nome ‚Äúassocia√ß√£o‚ÄĚ). Se isso √© uma trivialidade para os angl√≥fonos, tal particularidade lingu√≠stica passou algo despercebida para n√≥s, bravateiros de sempre do mundo da bola, de tal modo que aqui dizemos apenas ‚Äúfutebol‚ÄĚ. Mas o nome completo do “esporte nacional” guarda consigo a certid√£o misteriosa de sua interessante origem e que n√£o √© de pronto visualizada na ep√≠tome brasileira. Tomemos como exemplo do que quero mostrar o nome da entidade maior da organiza√ß√£o do futebol mundial: a famigerada FIFA. FIFA, cuja sigla vem do franc√™s F√©d√©ration Internationale de Football Association (um barbarismo quase inintelig√≠vel, como s√£o mesmo as coisas da FIFA), na l√≠ngua de Shakespeare seria International Federation of Association Football, veja s√≥ (e aqui come√ßamos a ver algo): a FIFA √©, portanto, agora em bom portugu√™s, a federa√ß√£o internacional do futebol da associa√ß√£o. O que nos leva √† pergunta: com efeito, mas que diabos de ‚Äúfutebol da associa√ß√£o‚ÄĚ √© esse?

A Associação de Futebol

A Inglaterra da rainha Vit√≥ria (1837 -1901) vivia a Pax Britannica decorrente de seu sucesso econ√īmico, estabilidade pol√≠tica e progresso cient√≠fico-cultural sem precedentes. Esse clima de virtude quase-hel√™nica constituiu est√≠mulo necess√°rio e suficiente para a cria√ß√£o de in√ļmeros jogos, coletivos e individuais, com objetivos educacionais, motivacionais e de entretenimento. Havia nessa √©poca dezenas de jogos entre duas equipes, com n√ļmero vari√°vel de jogadores, que levavam o nome de football, pr√°tica antiqu√≠ssima na Ilha e em geral caracterizados pela disputa violenta por uma bola, √† √©poca confeccionada com bexiga de porco. Normalmente, tratava-se de levar a bola com aux√≠lio de qualquer parte do corpo, por meio de passes ou dribles, at√© um certo local no territ√≥rio do inimigo e, assim, marcar algum tipo de ponto. Todavia, por que chamar de football um jogo no qual o bal√£o podia ser conduzido tanto com as extremidades inferiores quanto com as superiores? Para diferenci√°-lo, ora. Os p√©s tamb√©m eram permitidos, e nisso se constitu√≠a a novidade. O ‚Äúnormal‚ÄĚ seria conduzir a bola com as m√£os, e liberar os p√©s para correr. O fato √© que tais jogos de football ficaram muito populares entre as escolas tradicionais inglesas e tamb√©m entre oper√°rios das f√°bricas que, por sua vez, terminaram por fundar cada qual suas respectivas ligas e clubes. Entretanto, cada escola, bem como cada liga oper√°ria, tinha suas pr√≥prias regras, e as disputad√≠ssimas ‚Äúpeladas‚ÄĚ nas faculdades ou f√°bricas – com jogadores provenientes de diferentes localidades – geravam discuss√Ķes intermin√°veis sobre o andamento das partidas, al√©m de inviabilizar qualquer tipo de torneio. Foi assim que, em outubro de 1863, na Taverna dos Freemasons, em Covent Garden, Londres, fundou-se a Football Association ‚Äď a Associa√ß√£o de Futebol – com o objetivo de unificar as regras do esporte tendo em conta a forma como o Trinity College de Cambridge, jogava seu football e que, segundo alguns, captava o verdadeiro ‚Äúesp√≠rito do jogo‚ÄĚ.

O problema √© que n√£o houve um consenso (vejam que discuss√Ķes e mesas redondas parecem fazer parte do DNA do esporte). Dentre os pontos de discord√Ęncia, os principais foram as proibi√ß√Ķes do uso das m√£os para conduzir a bola e da possibilidade de impedir a progress√£o do advers√°rio chutando-o nas ‚Äúcanelas‚ÄĚ, sinalizando para uma mudan√ßa mais radical na ess√™ncia do jogo. Mesmo com algumas desist√™ncias, as regras do ‚Äúfutebol da Associa√ß√£o de Futebol‚ÄĚ foram publicadas em dezembro de 1863 e logo se disseminaram pela Grande Londres. Seus praticantes diziam jogar o Assoc (pronunciado como ei-soc) football, que logo transformou-se em soc football e, finalmente, foi apelidado de soccer. Soccers eram tamb√©m os jogadores do soccer, o que os diferenciava dos j√° conhecidos ruggers, alcunha dos que praticavam o Rugby football, provavelmente criado pela escola da cidade de mesmo nome, no qual a bola podia, claro, ser levada com as m√£os por todos os jogadores, permitia-se o hacking (o ataque mais agressivo ao portador da pelota), al√©m de contar com regras de off-side (impedimento) mais r√≠gidas. O chute era (e √©) permitido e, por isso, ele √© tamb√©m considerado um ‚Äútipo‚ÄĚ de futebol.

O rugby seguiu seu pr√≥prio caminho, tendo que lidar igualmente com v√°rias diverg√™ncias relativas √†s regras, com a forma√ß√£o de ligas independentes e que, unificadas em 1871, permitiram a funda√ß√£o da Rugby Football Union. Nas regras do ‚Äúfutebol da Associa√ß√£o‚ÄĚ persistiam ainda men√ß√Ķes sobre jogadas que, apesar de j√° n√£o existirem, permanecem no rugby, no futebol americano e no futebol australiano, como o fair-catch (que, devido a modifica√ß√Ķes posteriores, veio introduzir o cabeceio liberando, assim, todas as partes do corpo como potencialmente utiliz√°veis para o jogo, exceto os membros superiores). Com a unifica√ß√£o, jogos entre v√°rias equipes de diferentes localidades puderam ser disputados e as regras foram sendo aperfei√ßoadas. O uso das m√£os acabou por ficar restrito a apenas um jogador de cada equipe, o goalkeeper, transformando o ‚Äúfutebol da Associa√ß√£o‚ÄĚ no √ļnico esporte coletivo praticado pela Humanidade no qual elas, as m√£os, t√™m uma import√Ęncia secund√°ria, para dizer o menos.

As M√£os

De fato, a m√£o humana parece desempenhar um papel preponderante nos estudos sobre nossa evolu√ß√£o. A rela√ß√£o que sua incr√≠vel anatomia e seu funcionamento preciso t√™m com a confec√ß√£o de instrumentos, cria√ß√£o de tecnologia e aquisi√ß√£o de vantagens evolutivas foi demonstrada por v√°rios autores. Argumenta-se ainda hoje sobre o que teria vindo primeiro, se a potencialidade das m√£os ou a necessidade dos utens√≠lios, mas a n√≥s interessa o fato de que o grande contingente manipul√°vel de nosso mundo atual pode acabar mesmo por nos constituir como seres humanos [1].¬†Quem lida com um smartphone, martela um teclado de computador, dirige um carro, vira as p√°ginas de um livro, toca qualquer instrumento musical ou simplesmente faz uma car√≠cia no rosto da pessoa amada entende o que estou querendo dizer. As m√£os, bem como seus complementos e/ou substitutos, que chamamos de instrumentos ou ferramentas, ocupam um grande espa√ßo do que entendemos por humano. S√≥zinhas, representam um quarto do c√≥rtex sensitivo e um ter√ßo do c√≥rtex motor de nossa “massa encef√°lica”. S√≥ abstra√≠mos esse nosso modo ‚Äúmanual‚ÄĚ de ser em pouqu√≠ssimas e raras situa√ß√Ķes. Uma delas √© o futebol.

O futebol, esse mesmo, o association football, extirpou, em meados do s√©culo XIX, o ‚Äúconceito de m√£o humana‚ÄĚ do jogo. Ele √©, portanto, anti-m√£o, j√° que elas foram alijadas “filosoficamente” daquele que viria a se tornar o maior de todos os jogos. No futebol, as m√£os s√£o estraga-prazeres. Tocar a bola com elas √© pass√≠vel de puni√ß√£o, seja com a marca√ß√£o de uma falta ou mesmo de uma penalidade m√°xima, seja com o desprazer do gol n√£o concretizado, gozo interrompido pelas m√£os do guarda-metas que, assim, nos castiga. (A reposi√ß√£o da bola ao campo de jogo por meio do arremesso lateral √© realizada com as duas m√£os e¬†segue regras muito r√≠gidas de execu√ß√£o o que a torna um movimento bastante anti-natural). A aus√™ncia das m√£os em qualquer ato humano √© a nega√ß√£o de uma nossa pr√≥pria ess√™ncia. As m√£os humanas s√£o como a vis√£o da √°guia ou o faro do c√£o. Impe√ßa-os de us√°-las e o que veremos √© um misto de desorienta√ß√£o e impot√™ncia. Essa talvez seja a grande raz√£o do sucesso do futebol pelo mundo. Ele j√° √© em si uma supera√ß√£o.

Conduzir a bola com os p√©s e correr ao mesmo tempo n√£o √© pr√°tico, nem simples, nem natural. A conclus√£o √© que o futebol √© tr√°gico e sua tragicidade consiste exatamente em criar uma guerra na qual se pro√≠be o uso de nossa melhor arma, mas que, apesar disso – agora j√° com requintes de crueldade -, permanece bem ali, muito pr√≥xima, tentadoramente √†-m√£o. Sua anti-naturalidade at√°vica desencadeia o desejo pelo poder proibido das m√£os e permite apenas uma sa√≠da satisfat√≥ria: sua convers√£o em supera√ß√£o est√©tica. Mas, n√£o seria essa a velha e j√° t√£o conhecida f√≥rmula que volta-e-meia nos ajuda a driblar um dos nossos mais antigos e terr√≠veis advers√°rios? Talvez seja mesmo essa a raz√£o do j√ļbilo e do gozo ao vermos que nossa consci√™ncia da finitude, como um zagueiro tosco ou volante brucutu, cai v√≠tima de uma bola entre as pernas, um chap√©u ou desconcerto humilhante qualquer impingido pelo craque, que assim nos redime e eterniza.

Para delírio da torcida.

 

[1] Refiro-me aqui aos conceitos heideggerianos de Vorhandenheit, estar-aí, e Zuhandenheit, à-mão, cuja discussão o filósofo alemão usa não só para compreender a temporalidade como para ilustrar seu entendimento da questão do Ser, em Ser e Tempo.

A Fotografia e o Cachecol

– Essa foto sua √© linda, mas eu n√£o gosto dela…
– ??? – com os dedos juntos das duas m√£os, ao modo dos paulistalianos.
РNão gosto. Acho que é porque não fui eu quem tirou.
РMas o que tem a ver? Se a foto é bonita, é bonita, oras!!
РNão é isso. Não sei explicar. Quem tirou mesmo essa foto?
– O Br√°ulio…
– Nossa! Odeio esse cara…
РPor que, meu deus? Você nem conheceu o coitado!
– N√£o sei. Mas, odeio. Como ele p√īde?…
– Quer parar?! Voc√™ t√° come√ßando a me assustar. P√īde o qu√™?! Que coisa mais sem p√©, nem cabe√ßa… Eu, hein – e virou as costas, a fazer alguma coisa.

Ele ficou pensativo, olhando a fotografia dela de quase trinta anos atrás, longamente. Era uma foto em branco e preto de uma menina séria, com a franja a recobrir parcialmente os olhos castanhos semicerrados. Os lábios entreabertos e o rosto quase de perfil. Recomeçou, sem tirar os olhos da foto.

– Acho que j√° sei.
РO quê?! Рvirando-se, com uma meia na mão.
– Porque eu acho a foto linda e n√£o gosto dela.
РPor quê?! Рsem a menor paciência.
– Porque o tal Br√°ulio viu uma coisa que s√≥ eu havia visto at√© ent√£o. E pior, fotografou. Ele n√£o tinha esse direito…
– Como assim?!
РEssa foto é de uma imagem que eu tenho de você. Algo que captei em algum momento logo quando nos conhecemos. Logo que vi a foto, a reconheci.
РMas a foto sou eu!! Imagino que você deveria me reconhecer, não?

Ele ainda olhando a foto.

– A foto √© de voc√™. Mas estou falando de uma das imagens que formei e n√£o de voc√™, especificamente. Fiquei surpreso ao ver que meus sonhos idealizados e plat√īnicos, er√≥ticos at√©, se materializaram nessa fotografia. √Č como se minha intimidade tivesse sido violada. Como se algu√©m me espiasse dentro do meu aposento mais √≠ntimo e secreto. √Č como se outra pessoa a visse nua… No fundo, acho que tenho ci√ļmes da foto. √Č muita loucura isso?

– N√£o. Continue – o olhar arrefecera. Ele continuou.

– Acho que a foto √© isso. N√£o sei explicar direito, mas √© como se fosse uma for√ßa feminina bruta que me arremessou contra meus instintos mais ego√≠stas. Ela me faz querer voc√™. Quando, ainda hoje, vejo os tra√ßos da foto em algum gesto, tipo um take seu, te desejo. Parece uma coisa meio determinista, biol√≥gica, sei l√°… O Br√°ulio jamais poderia ter visto isso! Era um segredo – s√≥ ent√£o levantando os olhos da foto e sorrindo meio sem gra√ßa.

Ela se enrola no pescoço dele tal como um cachecol e diz:

– Ele n√£o viu, man√©. Relaxa… – e tasca-lhe um beijo.

dia-do-fotografo

Man√©, tentando tirar “aquela” foto – Flickr de K. Werfeldein.

O Mal e a Moléstia

Doentia MaldadeDoentia Maldade, de Daniel M. Barros descreve a história do conceito psiquiátrico de psicopatia e sua relação com o conceito não psiquiátrico do Mal.

A medicina, de uma forma geral, e a psiquiatria, em particular, t√™m muitos exemplos nos quais conceitos comuns √† vida das pessoas s√£o patologizados ou, em outras palavras, transformados em doen√ßas. Essa √© uma tend√™ncia atual e at√© figuras arquet√≠picas como¬†vampiros e zumbis t√™m sido transformados em doen√ßas. Uma das prov√°veis raz√Ķes para isso √© que, ao patologizar uma caracter√≠stica, tra√ßo, h√°bito, ou qualquer aspecto peculiar de uma pessoa ou grupo de pessoas, temos ao menos tr√™s vantagens imediatas. A primeira, diz respeito √† forma pr√≥pria de encarar aquilo que nos √© diferente. Aquilo que al√©m de n√£o nos pertencer, nos √© estranho. Lembro-me bem da √©poca em que parar de fumar deixou de ser “falta de vergonha na cara” para ser encarada como uma depend√™ncia qu√≠mica com todas as suas dificuldades, ganhando, assim, a simpatia atenta dos m√©dicos que come√ßaram a ver os fumantes, agora, como pacientes. A segunda vantagem √© que uma doen√ßa, se ainda n√£o tem uma cura, deve ter, ao menos, algum tipo de tratamento. √Č aqui que muita gente come√ßa a esfregar as m√£os com aquele sorrisinho maligno no rosto de quem vai faturar um boa grana. Isso √© o que tem sido chamado de disease mongering¬†e tem¬†as j√° conhecidas e comentadas consequ√™ncias nefastas para a pr√°tica m√©dica e para a sociedade como um todo.

A terceira √© a que Barros chama a aten√ß√£o. Ao mostrar as raz√Ķes do sucesso do conceito de psicopatia, o autor-m√©dico mostra como a patologiza√ß√£o de um comportamento – anormal, sem d√ļvida – bem como o desenvolvimento de ferramentas para seu diagn√≥stico, funcionaram como mecanismo expiat√≥rio de culpas da sociedade p√≥s-industrial. Mais, como tal conceito se imiscui em uma ampla e antiga discuss√£o que √© a teodic√©ia, ou de como podem co-existir num mesmo mundo algo como¬†Deus e o Mal. Dessa discuss√£o, que de simples n√£o tem nem o nome, tomaram parte¬†gente como Plat√£o, Kant, Leibniz, Hegel, Marx, Ricoeur, entre outros.

Em que pese o fato de que pensadores como Ricoeur enxergarem algumas vantagens em uma “ontologia do Mal” como, por exemplo, ao tomar o mal como sendo a raz√£o √ļltima que impede uma¬†apropria√ß√£o discursiva integral da realidade (o que √© bem interessante), a mera exist√™ncia do mal nos incomoda e sempre incomodou bastante. Barros nos empurra para esse tipo de leitura ao mostrar que jogar o mal para debaixo do tapete n√£o vai nos causar nenhum tipo de al√≠vio.

Doentia Maldade. Daniel Martins de Barros. Kindle Edition USD 2,64. 14 p√°ginas. 2013.

Fenomenologia da Eleg√Ęncia II

escher

M√£o com Esfera Espelhada – M. S. Escher 1935

Recomenda-se ler antes esta introdução.

Dorothy Walsh [1] defende que existem, ao menos, dois tipos distintos de¬†eleg√Ęncia: uma eleg√Ęncia que pode ser chamada de¬†comum, aquela dos objetos perceptuais, das vestimentas e do¬†design, dos modos e das coisas do cotidiano; e uma outra eleg√Ęncia dita¬†intelectual,¬†que deve ser apreendida por meio de um¬†insight¬†intelectual, seria aquela das teorias e hip√≥teses cient√≠ficas, dos objetos matem√°ticos e outros entes virtuais. Ambas t√™m ainda em comum o fato de coabitarem o mesmo¬†campo sem√Ęntico da¬†simplicidade¬†e da¬†parcim√īnia.

As rela√ß√Ķes entre simplicidade, parcim√īnia e as “eleg√Ęncias” talvez sejam mais claras no √Ęmbito da filosofia da ci√™ncia [2]. S√£o relativamente comuns textos onde a simplicidade, como um atributo de teorias, √© apresentada como tendo duas no√ß√Ķes principais: simplicidade¬†sint√°tica¬†(relativa ao n√ļmero e a complexidade das hip√≥teses); e a simplicidade¬†ontol√≥gica¬†(relativa ao n√ļmero e a complexidade das coisas postuladas). Esta √ļltima √© chamada de¬†parcim√īnia. A primeira, de¬†eleg√Ęncia;¬†intelectual, por suposto. Walsh argumenta que o princ√≠pio te√≥rico da navalha de Ockham seria uma ferramenta da eleg√Ęncia intelectual e que ela pode sim ter valor epistemol√≥gico como muitos autores j√° v√™m sugerindo.

Mas o que as “eleg√Ęncias” t√™m em comum? Ser√° poss√≠vel encontrar um denominador ou mesmo ess√™ncia comuns que as possa reunir? Antes at√©, ser√° que √© poss√≠vel perguntar por isso? Parece pairar sobre as duas ¬†“eleg√Ęncias” uma certa aura de¬†virtude. Em outras palavras, do ponto de vista axiol√≥gico, n√£o seriam elas ju√≠zos valorativos positivos emitidos sobre algo ou algu√©m? Ambas n√£o seriam experi√™ncias¬†est√©ticas? N√£o¬†poderiam tamb√©m portar certa conota√ß√£o¬†moral, no sentido de representarem, por exemplo, o Bem e o Belo, no sentido grego arcaico desses conceitos? Perceber o elegante parece ser algo “positivo”, parece “fazer bem”, agradar aos “olhos e ao cora√ß√£o”. De quem? De quem percebe, oras. At√© mesmo de quem se percebe como elegante tamb√©m. Talvez o segredo esteja ent√£o, n√£o em estudar os tipos de eleg√Ęncia, mas os tipos de observadores com olhos para ela.¬†Se o que supomos est√° correto, ou seja, que a eleg√Ęncia n√£o est√° na “coisa” elegante, mas nos “olhos” ou no “intelecto” de quem a observa, √© porque ela se manifesta de algum modo a esse observador e h√° pelo menos duas maneiras de estudar tais “manifesta√ß√Ķes”, que passo agora a chamar de fen√īmenos.

Aqui vamos fazer um grande par√™nteses e por isso, pe√ßo a paci√™ncia do leitor. A primeira dessas formas de estudo pode ser exemplificada pelo excerto abaixo retirado do ensaio “O escopo e a linguagem da ci√™ncia” de Willard Van Orman Quine¬†(1908 – 2000).

Eu sou um objeto f√≠sico situado em um mundo f√≠sico. Algumas das for√ßas desse mundo f√≠sico colidem contra minha superf√≠cie. Raios de luz atingem minhas retinas; mol√©culas bombardeiam meus t√≠mpanos e as pontas de meus dedos. Eu revido, emanando ondas conc√™ntricas de ar. Essas ondas tomam a forma de uma torrente de discurso sobre mesas, pessoas, mol√©culas, raios de luz, retinas, ondas de ar, n√ļmeros prim√°rios, classes infinitas, alegria e sofrimento, bem e mal.[3]

Quine foi um dos mais importantes fil√≥sofos norte-americanos do s√©culo XX. Teve alunos famosos como Hillary Putnam, Donald Davidson, Daniel Dennett, Thomas Nagel, entre outros. Suas ideias sobre epistemologia – grosso modo, a teoria do conhecimento -, seguem uma escola de pensamento que pode ser chamada de “naturalista”. Uma das coisas que o naturalismo prop√Ķe √© a ideia de que conhecemos o mundo por meio do impacto de v√°rias formas de energia em nosso sistema sensorial, como fica claro no fragmento acima. Por√©m, Quine se pergunta, como partimos dos est√≠mulos sensoriais e chegamos ao monumento intelectual que √© a ci√™ncia? Quine acha que nosso conhecimento √©, ao menos na sua maior parte, incorporado pela linguagem. A linguagem por sua vez, veicula o conhecimento de forma bastante indireta, mas se analisarmos com cuidado, poderemos tra√ßar uma liga√ß√£o entre os est√≠mulos sensoriais e a produ√ß√£o de certezas por meio de construtos lingu√≠sticos progressivamente mais elaborados. Falar/escrever sobre as coisas que sentimos elabora o conhecimento do mundo. Al√©m disso,¬†Quine leva bastante a s√©rio a ideia de que ‚Äú√© na ci√™ncia, e n√£o em alguma filosofia precedente, que a realidade deve ser identificada e descrita‚ÄĚ [4]. Nossa melhor teoria em um dado momento nos diz tudo o que podemos saber sobre a realidade daquele dado momento. E isso basta.

Uma abordagem bastante diversa de analisar os fen√īmenos que se nos apresentam √© exemplificada pelo excerto abaixo retirado de um texto de Edmund Husserl¬†(1859-1938)[5]:

Sou consciente de um mundo infinitamente estendido no espa√ßo, infinitamente se transformando e tendo infinitamente se transformado no tempo. Eu sou consciente dele: isso significa, sobretudo, que intuitivamente eu o encontro imediatamente, que eu o experiencio. Pela minha vis√£o, tato, audi√ß√£o e assim por diante, e nos diferentes modos de percep√ß√£o sens√≠vel, coisas f√≠sicas corp√≥reas com uma distribui√ß√£o espacial ou outra est√£o simplesmente a√≠ para mim, “a m√£o” no sentido literal ou figurativo, esteja eu ou n√£o particularmente atento a elas e ocupado com elas em meu considerar, pensar, sentir, ou querer. Entes animados tamb√©m – entes humanos, vamos dizer – est√£o imediatamente a√≠ para mim: eu olho; eu os vejo; eu os ou√ßo se aproximarem; eu aperto suas m√£os; falando com eles eu entendo imediatamente o que pretendem dizer e pensam, que sentimentos os movem, o que eles desejam ou querem.

Husserl √© um dos fil√≥sofos mais importantes do s√©culo XX. √Č considerado o fundador da escola de pensamento filos√≥fico chamada de Fenomenologia e seus estudos se desdobram em v√°rios de seus alunos e seguidores como Martin Heidegger, Maurice Merleau-Ponty, Jean-Paul Sartre e Paul Ricoeur. A diferen√ßa mais importante entre os dois fragmentos √© que, enquanto para Quine a percep√ß√£o √© algo totalmente passivo – ele √© “bombardeado” pelo mundo que o cerca e reage a isso -, para Husserl, n√£o. As coisas e pessoas, entes em geral do mundo, est√£o a√≠ para ele. O que isso quer dizer? Quer dizer primeiro que, para Husserl, h√° um mundo inesgot√°vel de coisas dado cuja varia√ß√£o temporal gera uma facticidade (produz um filme ou conta uma est√≥ria) que √© percebida por n√≥s e, segundo, h√° uma inten√ß√£o¬†da consci√™ncia¬†(posso prestar aten√ß√£o ou n√£o no filme ou est√≥ria) em conhecer esta ou aquela coisa desse mundo. Sem essa inten√ß√£o origin√°ria n√£o h√° como iniciar o processo do conhecimento. Se n√£o temos acesso √†s coisas-em-si do mundo, temos, ao menos, acesso direto aos fen√īmenos manifestos por elas na nossa consci√™ncia.

Se Quine lan√ßa m√£o de um recurso altamente complexo e intelectualizado (linguagem) para compor sua teoria do conhecimento poss√≠vel a partir das sensa√ß√Ķes recebidas do mundo externo, Husserl se apega √†s sensa√ß√Ķes elas mesmas. N√£o sob o ponto de vista neurofisiol√≥gico, mas √†s sensa√ß√Ķes tal como elas se apresentam √† nossa consci√™ncia, cruas e nuas, o que Husserl chama de realidade imanente. Para ele, “toda consci√™ncia √© consci√™ncia de alguma coisa”! O que ele mesmo desdobra nas f√≥rmulas “toda percep√ß√£o √© percep√ß√£o do percebido”, “todo desejo √© desejo do desejado”, etc. N√£o h√° percep√ß√£o nem desejo e, portanto, nem consci√™ncia, vazios. Em outras palavras, a partir do momento que a inten√ß√£o se abre ao “querer”, se cria um espa√ßo para que o “querido” apare√ßa. A velha constitui√ß√£o fundacional do conhecimento na rela√ß√£o do sujeito com seu objeto, na fenomenologia, √© posta entre par√™nteses. Suspensa, como todas as teorias que a estruturam, e que Husserl chama de hipostasias, na “atitude natural” que a ci√™ncia deve pressupor antes de descrever o mundo. Tanto o conhecedor quanto a coisa conhecida s√£o elementos da e na experi√™ncia. Sem o ato¬†(intencional) de atribuir significados √† experi√™ncia, n√£o h√° sujeito nem objeto, o que a teoria quineana/naturalista deve pressupor.

Por isso, parece que estudar a eleg√Ęncia sob um ponto de vista fenomenol√≥gico se justificaria por meio de tais argumentos. De fato, com isso j√° conseguimos de antem√£o escapar da divis√£o – agora √© mais f√°cil diz√™-lo – artificial entre eleg√Ęncia intelectual e perceptual, pois ambas s√£o fen√īmenos de uma mesma natureza e nos afetam de modo id√™ntico. Parece ficar evidente tamb√©m que essa divis√£o est√° ainda presa ao c√Ęnone tradicional da divis√£o entre “corpo e mente”, justamente aquele que n√£o d√° conta de explicar o que queremos entender. Se considerarmos ainda que o mundo f√°ctico da vida √© a “casa” onde mora o que √© elegante, seja ele um terno, um vestido ou uma teoria cient√≠fica, e que est√£o-a√≠, “a m√£o”, talvez a fenomenologia nos ajude a entender como ao “intencionarmos” a eleg√Ęncia, criamos imediatamente um espa√ßo para que o “elegante” se nos apare√ßa.

 

1. Walsh, D. Occam’s Razor: A principle of intellectual elegance. American Philosophical Quarterly. V 16 N 3 Jul 1979.

2. Baker A. Quantitative parsimony and explanatory power. The British Journal for the Philosophy of Science. Br Soc Philosophy Sci; 2003;54(2):245‚Äď59. (pdf)

3. Quine, W.V. The Ways of Paradox and Other Essays. Cambridge, MA: Harvard University Press. Citado por Cerbone, D. R. Fenomenologia. Trad Caesar Souza. Petrópolis, RJ. Vozes (Série Pensamento Moderno) pág 21.

4. Hylton, P., “Willard van Orman Quine”, The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Summer 2013 Edition), Edward N. Zalta (ed.) [link]

5. Husserl, E. Ideias I: § 27. Citado por Cerbone, D. R. Fenomenologia. Trad Caesar Souza. Petrópolis, RJ. Vozes (Série Pensamento Moderno) pág 23.

Um Sistema Nacional de Controle de Receitu√°rios

Hoje, o Ecce Medicus tem a honra de receber Roberto Takata. Sujeito universal e “omnipresente” na e da internet brasileira – em que pese o fato de sua real exist√™ncia ter sido seriamente contestada, o que eu, particularmente, duvido muito, apesar de n√£o conhec√™-lo pessoalmente -, seja por meio de redes sociais (em especial, o Twitter @rmtakata), seja como comentarista √°cido de posts sobre os mais variados assuntos, seja, por fim, como autor dos imperd√≠veis blogs Gene Rep√≥rter e¬†NAQ (Never Asked Questions). Aqui, Takata sugere como o controle de receitu√°rios poderia auxiliar no acompanhamento dos pacientes e aproveita para elaborar uma cr√≠tica da situa√ß√£o atual, ao meu ver quase pr√©-hist√≥rica, do controle de receitas no Brasil.¬†

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Por Roberto Takata

A lei federal¬†11.903/2009¬†criou o Sistema Nacional de Controle de Medicamentos, cuja implementa√ß√£o est√° parada desde¬†2011.¬†O sistema √© important√≠ssimo para evitar n√£o apenas a comercializa√ß√£o de medicamentos falsificados e fora do prazo, permitindo maior controle sobre medicamentos de venda restrita, al√©m de tamb√©m poder gerar dados fundamentais para orienta√ß√£o de pol√≠ticas p√ļblicas e a√ß√Ķes sobre a sa√ļde da popula√ß√£o, quest√Ķes como automedica√ß√£o, depend√™ncia qu√≠mica de medicamentos (analg√©sicos “fortes” e psicotr√≥picos, por exemplo) e mesmo acompanhar as regi√Ķes com maior demanda para certos tipos de produtos.

Um outro sistema, julgo, seria tamb√©m de grande valor: o de rastreamento de receitu√°rios m√©dicos, veterin√°rios, odontol√≥gicos e agron√īmicos.¬†H√° algumas receitas que s√£o retidas, outras que n√£o. Para os medicamentos controlados, o controle √© feito por guias numeradas de¬†notifica√ß√£o de receitu√°rio: retidas na apresenta√ß√£o na farm√°cia. De todo modo, para a maioria dos medicamentos e produtos, essa informa√ß√£o n√£o √© compilada em um banco de dados que permita avaliar o quadro geral: onde, como, quando s√£o geradas tais receitas? Nem h√° associa√ß√£o com dados do paciente como idade, peso, hist√≥rico m√©dico…

Muitos consult√≥rios j√° possuem sistemas informatizados de produ√ß√£o de receitas – entre outras coisas evitam a prescri√ß√£o de medicamentos fora de uso, al√©m da famigerada¬†letra de m√©dico. Esses sistemas poderiam enviar dados a um reposit√≥rio central para cada receita emitida, associando-os aos dados do paciente (exceto, claro, dados pessoais como nome, n√ļmero de identidade, endere√ßo ou telefone – o paciente seria identificado apenas com um n√ļmero¬†hash¬†√ļnico no sistema gerado no terminal do m√©dico); o sistema central geraria, ent√£o, um n√ļmero identificador e o associaria ao receitu√°rio, esse n√ļmero seria impresso como c√≥digo de barras junto com a receita. O retorno do paciente tamb√©m seria registrado.¬†Ao ser apresentado na farm√°cia, o c√≥digo seria lido e a opera√ß√£o de compra registrada no sistema central.

Mas tal sistema n√£o seria redundante em rela√ß√£o ao SNCM? Em parte sim. E isso n√£o √© ruim. A redund√Ęncia permitiria uma avalia√ß√£o independente de certos par√Ęmetros; diferen√ßas ajudariam a monitorar casos de erro ou de fraude. O cruzamento entre ambos os sistemas permitiria tamb√©m acompanhar outros dados, p.e., seria poss√≠vel inferir uma taxa de efici√™ncia de medicamentos e grupo de medicamentos, a partir da compara√ß√£o entre a receita inicial e os dados do retorno, em uma escala nacional. Se alguma rea√ß√£o adversa desconhecida ocorre em um grupo pequeno, uma intera√ß√£o medicamentosa n√£o prevista, rapidamente isso tudo poderia ser descoberto.

Haveria ganho de eficiência também em relação ao sistema atual de notificação de receituário: em que o médico solicita uma sequência numérica para identificação das receitas, os dados são registrados a mão, depois é retido pela farmácia e enviada a uma central, que digitaliza os dados, compila-os e notifica a cada mês, trimestre ou ano. O registro seria quase em tempo real, eliminando etapas intermediárias como digitação dos dados.

Claro, um sistema desses n√£o seria criado do dia para a noite. Afinal, nem o SNCM est√° efetivamente implantado. Mas frente a problemas de confiabilidade de registros de medicamento – a BigPharma, obviamente, tem seus interesses econ√īmicos e a tenta√ß√£o √© suficientemente grande para haver uma¬†tendenciosidade¬†(consciente ou n√£o) nos dados publicados sobre a efici√™ncia de seus produtos -, e mesmo de¬†vendas de medicamentos, e sua¬†receita¬†(o caso √© na Europa, mas poderia ocorrer aqui), creio que valeria a pena. (Sim, dif√≠cil √© enfrentar um lobby bem organizado e abastecido.)

Raz√£o de Chances

Outro dia, me perguntaram a tradu√ß√£o para o portugu√™s brasileiro do termo estat√≠stico¬†odds ratio. Acho que a mais utilizada √© mesmo¬†raz√£o de chances. Essa nomenclatura tem um significado muito especial porque¬†chance¬†√© uma forma de exprimir¬†probabilidade. Probabilidade, por sua vez, pode ser a¬†medida de uma incerteza¬†ou de uma¬†expectativa de ocorr√™ncia¬†acerca de um evento. √Č interessante separar essas duas formas de probabilidade porque delas se originam os dois ramos principais do pensamento probabil√≠stico, a saber, “probabilidade tipo cren√ßa” e “probabilidade tipo frequ√™ncia”, respectivamente [1]. Outros autores usar√£o os termos “subjetiva” e “objetiva”, “epist√™mica” e “aleat√≥ria” e, finalmente, “bayesiana” e “frequentista”, respectivamente. Em medicina, usamos muito a frequentista apesar de que abordagens “subjetivas” t√™m sido cada vez mais frequentes, hehe. (Sorry, pelo trocadilho infeliz, ver aqui e aqui, pitacos recentes sobre Bayes).

Risco, chance e probabilidade s√£o conceitos dos quais temos no√ß√Ķes intuitivas e que, muitas vezes, utilizamos indistintamente. Mas h√° diferen√ßas importantes. Diferen√ßas que devem ser conhecidas tanto por quem reporta os dados, como para quem l√™ um artigo cient√≠fico que os usa. Imagine a seguinte situa√ß√£o retirada do livro do professor J√ļlio C√©sar [1]. Foram analisadas 793 quedas de moto em determinada cidade. Alguns motoqueiros estavam de capacete, outros n√£o. Alguns sofreram ferimentos na cabe√ßa e outros n√£o. Podemos usar a tabela abaixo, para melhor visualizar os dados.

Uso de Capacete

Total

N√£o

Sim

Ferimento na Cabeça

N√£o

428

130

558

Sim

218

17

235

%Ferimento na Cabeça

33,75%

(218/646)

11,56%

(17/147)

29,63%

(235/793)

Total

646

147

793

Por esses dados podemos concluir que a probabilidade de motoqueiros terem ferimento na cabe√ßa ap√≥s uma queda nesta cidade √© 29,63%. J√° a probabilidade de um ferimento na cabe√ßa com capacete √© de apenas 11,56% e sem ele √© de 33,75%. Esses n√ļmeros se referem ao conjunto dos acidentados. Pacientes gostam de perguntas do tipo: “Dr, qual o risco de EU machucar a cabe√ßa se EU andar de moto sem capacete?” Uma resposta poss√≠vel seria: “Segundo um estudo, ao andar de moto em determinada cidade sem capacete, o risco de se lesionar a cabe√ßa em um acidente √© 33,75%”. Risco, portanto, seria a pr√≥pria probabilidade trazida ao n√≠vel individual. A√≠, a pessoa que fez o estudo fica famosa e vai dar uma entrevista ao jornal local. L√° pelas tantas, a rep√≥rter gata pergunta: “Muito bem, doutor, sabemos que o capacete protege contra les√Ķes encef√°licas. Mas, quanto?” Voc√™ pode fazer a seguinte conta 33,75%-11,56% = 22,19% e dizer que h√° uma redu√ß√£o de 22% no risco. A rep√≥rter: “???”. Voc√™ vendo o desespero dela e querendo ajud√°-la (e aproveitando para se exibir um pouco), mentalmente, faz outra conta 33,75/11,56; e ao vivo, responde na lata: 2,92. O que quer dizer esse n√ļmero? Quer dizer que o n√ļmero de les√Ķes encef√°licas em quem se acidenta de motocicleta e¬†n√£o usa capacete √© quase 3 vezes maior (2,92) que em quem usa. Esse √© o que chamamos Risco Relativo (RR). Fica bem mais f√°cil de entender, n√£o? (Voc√™ poderia ainda fazer outra conta que √© 1/22,19% = 4,5, que significa que para cada 4,5 motoqueiros usando capacete que caem, voc√™ previne 1 les√£o encef√°lica. Esse √© o number need to treat – NNT – muito utilizado em ensaios cl√≠nicos, mas a√≠ a rep√≥rter ia se apaixonar). Quem usa capacete tem menos risco de les√£o encef√°lica, associa√ß√£o agora devidamente quantificada. O RR √© um n√ļmero muito f√°cil de compreender e por isso √© muito bom quando podemos inform√°-lo. A¬†odds ratio¬†(OR) e o risco relativo (RR) s√£o semelhantes e as duas medidas de associa√ß√£o mais utilizadas em epidemiologia. Por essa raz√£o, s√£o extremamente importantes para as ci√™ncias da sa√ļde, em geral, e para a medicina, em particular.

Chamemos de associa√ß√Ķes, as infer√™ncias sobre rela√ß√Ķes causais, mas usemos outro exemplo: Quem tem colesterol alto tem mais infarto do mioc√°rdio? Estudos epidemiol√≥gicos tentam¬†associar¬†dislipidemia com eventos coronarianos. Como? De v√°rias formas, mas especialmente com estudos chamados de¬†observacionais¬†porque os pesquisadores s√≥ ficam¬†observando¬†o que vai acontecer, sem¬†intervir¬†nos casos. (Estudos em que h√° uma ou mais interven√ß√Ķes s√£o chamados, muito sugestivamente, de intervencionais¬†ou¬†experimentais). Voltando aos estudos observacionais, estes podem ser de dois tipos principais:¬†transversais¬†(cross-sectional) ou¬†longitudinais. Os transversais s√£o como uma foto de uma comunidade ou grupo de pacientes, ou seja, o tempo est√° parado e est√°tico, n√£o havendo seguimento dos indiv√≠duos no tempo, portanto. S√£o bons para avaliarmos a preval√™ncia de doen√ßas. Por outro lado, longitudinais s√£o os estudos que requerem que os indiv√≠duos sejam observados por um per√≠odo de tempo. Esse “tempo” em que vou “observar” pode ser para frente ou para tr√°s e aqui, por favor, n√£o entre em p√Ęnico. Veja a figura abaixo (desgra√ßadamente em ingl√™s, mas f√°cil de entender, retirada da refer√™ncia [2])

Diferença conceitual entre estudos Caso-controle e de Coorte

√Č sempre bom come√ßarmos do¬†starting point.¬†Notai que existem 2 caixas “contendo” indiv√≠duos¬†com¬†uma determinada doen√ßa e¬†sem¬†ela. Se, para utilizarmos o exemplo acima, dosarmos o colesterol de todo mundo, saberemos quem tem dislipidemia (colesterol alto) e quem n√£o tem, i.e., quem est√° ou n√£o exposto ao fator que queremos estudar. Se eu seguir esses pacientes por um tempo, vou ver quem teve (develop disease) ou n√£o (disease-free) infarto do mioc√°rdio. E assim, terei feito um brilhante estudo de Coorte. Se, por outro lado, eu pegar os registros hospitalares, dos consult√≥rios, ou quaisquer que sejam, de pacientes com infarto e comparar com pacientes que n√£o tiveram infarto, posso tentar¬†associar¬†o colesterol elevado no passado com a presen√ßa de doen√ßa coronaria atual,¬†retrospectivamente. Estarei ent√£o, fazendo um estudo caso-controle. Entendido isso, vejam s√≥ que interessante.

Em um estudo transversal (o da fotografia), eu posso calcular o risco de uma certa doen√ßa baseado na sua preval√™ncia, ou seja, no n√ļmero de pessoas com aquela doen√ßa naquele exato momento. Nos estudos de coorte (aqueles nos quais o tempo vai “pra frente”), eu posso obter o risco de desenvolvermos uma doen√ßa qualquer atrav√©s da incid√™ncia. √ďtimo, perfeito! Mas, e no estudos caso-controle? Como fa√ßo para obter o risco j√° que o tempo vai “pra tr√°s”? Como vimos, o risco √© a probabilidade de algo acontecer a n√≠vel individual. Se tivermos as incid√™ncias e preval√™ncias de antem√£o, poderemos estimar o risco, mas isso nem sempre √© poss√≠vel ou √© n√£o confi√°vel. Como diz o Luiz Cl√°udio do excelente MBE:¬†“Quando o estudo √© caso-controle, onde casos (desfecho j√° ocorreu) s√£o selecionados no in√≠cio do estudo de forma arbitr√°ria, n√£o d√° para calcular a propor√ß√£o de pacientes que vir√£o a ter o desfecho. Ou eles j√° tiveram o desfecho (casos) ou eles n√£o tiveram o desfecho (controle). Neste caso, como n√£o d√° para calcular probabilidade do evento ocorrer, se usa odds (chance)”.

Posto isso, qual a diferença entre OR e RR? O raciocínio é mais ou menos o mesmo. Entretanto, as duas grandezas não podem ser utilizadas indistintamente. A OR superestima a RR na dependência da incidência da doença estudada. Veja o gráfico abaixo retirado da referência [3].

Relação entre a OR e o RR de acordo com a incidência (Io) das doenças

De novo, o Luiz Cl√°udio¬†nos ajuda: “Um erro freq√ľente √© a leitura do¬†odds¬†como se fosse¬†risco.¬†Odds ratio¬†de 3.8 n√£o quer dizer risco 3.8 vezes maior. Isso n√£o √© risco, pelos motivos j√° expostos. No entanto, quando o desfecho √© raro, com uma freq√ľ√™ncia menor que 10%, as medidas do¬†OR¬†e do RR¬†se aproximam. Mas em um desfecho freq√ľente, embora as duas medidas indiquem um fen√īmeno na mesma dire√ß√£o, o¬†OR¬†tende a superestimar a for√ßa de associa√ß√£o, quando comparado ao¬†RR.”

Quando a incidência é baixa (Io = 0,01) a correlação entre as duas variáveis é boa. Mas reparem na curva da Io = 0,3 (30%). Quando o RR é 2, a OR é próxima a 4, quase o dobro. A propósito, a OR dos motoqueiros com cabeça quebrada acima é 3,89 contra o RR que é 2,92, como vimos.

Fórmulas

RR = p / q

OR = p (1 – q) / q (1 – p)

Consultei

[1] Pereira, J√ļlio C√©sar R. Bioestat√≠stica em Outras Palavras. S√£o Paulo. Ed USP, FAPESP. 2010.

[2] A. Petrie J. S. Bulman and J. F. Osborn.¬†Further statistics in dentistry.¬†Part 2: Research designs 2.¬†British Dental Journal 2002; 193:435‚Äď440

[3]¬†Carsten Oliver Schmidt, Thomas Kohlmann.¬†Int J Public Health 53 (2008) 165‚Äď167

Ver também o excelente medicina baseada em evidências citado acima.

Abraço ao André Souza do Cognando, motivador do post.

O Homem Que Largava Livros

Ao L.A. com a gratidão das dívidas que não se pagam

¬†“O velho estava em p√© e segurava o livro aberto como um rev√≥lver sem gatilho: o polegar entre as p√°ginas, o indicador e os outros apoiando a lombada; e com esse arranjo fazia-o balan√ßar com habilidade enquanto andava de um lado a outro, mas apenas porque era um livro pequeno, de capa vermelha e dura. Com as lentes bem √† ponta do nariz, seguiu lendo:

Caso por mim percorresse um arrepio,

um calafrio, seja de frio ou de desejo,

se alguém houvesse em contato com minha pele,

fosse m√£o ou mesmo pele-a-pele,

sentiria o frêmito, e também a onda que se cria

e toma o corpo ou parte dele,

já que é o arrepio e não 

o suor que se estila

a língua viva do couro que o embebe?


E fechou o livro com um movimento r√°pido provocando um estampido que ecoou na sala. Olhava agora em panor√Ęmica pela classe. Por cima das lentes e com certo esc√°rnio pelo susto que acabara de provocar nos distra√≠dos, viu o movimento dos cabelos negros escorridos da mo√ßa em queda com o ru√≠do do livro, repousarem numa serenidade j√° lisa e piscou lentamente.

– Que tal? – provocou.

– Essa √© a pergunta mais bonita que j√° vi, professor!¬† – respondeu algu√©m. O velho n√£o viu quem pois cerrara os olhos com a resposta. Do prazer professoral que lhe correu a espinha.”

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Mais um livro terminado. O destino deste tamb√©m n√£o seria a estante. Imagine s√≥! Livros eram para ser lidos e folheados e manipulados apenas e talvez. Quem sabe at√© farejados. Este – t√£o bonito! – teria o destino dos outros. Sim, era isso mesmo, decidira. Levantou-se – n√£o sem uma certa dificuldade – da cadeira de imbuia que rangeu, mas n√£o se co-moveu, e foi at√© a escrivaninha. Abriu uma ou duas gavetas e apanhou um carimbo grande e sua respectiva almofada embebida por tinta cor de vinho, bord√ī. Folheou algumas p√°ginas e, com uma ponta de l√≠ngua de fora, fez o que planejara fazer. Soprou depois e, satisfeito com o resultado, deixou o livro em cima da mesa, junto com os outros dois.

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Vinha ouvindo The Kooks.

I’m not saying it was your fault.¬†Although you could have done more…

Os fones brancos desaparecidos nos tragi bilateralmente. Havia ainda um brinco nas reentr√Ęncias da orelha direita. O fio branco sumia pela gola da blusa.¬†

I know she knows that i’m not fond of asking.¬†True or false it may be…¬†

Virou r√°pido no fluxo das pessoas e encarou a escada rolante. Sentiu o granito frio e o bafo quente do metr√ī em contraste mas ainda assim, era frio. Chegou √† plataforma com as portas ainda abertas e mergulhou na massa de corpos sem rosto que se espremia no vag√£o.

In such an ugly way. Something so beautiful. That everytime i look inside
Vagarosamente, o trem teve a multidão dissipada e ele, tendo permanecido encostado à porta, distraído, resolveu sentar-se. No banco de cor diferente do outro lado havia um livro. Ele olhou em torno e já não havia mais ninguém. Tomou-o e pensava em deixá-lo com algum funcionário quando, folheando as páginas amareladas, leu o que parecia um carimbo com cores avermelhadas e um pouco apagadas pelo tempo.
Um arrepio solit√°rio lhe subiu pela gola da blusa e terminou na orelha. A esquerda.

Cuidado Fr√°gil

S√£o Paulo – SP, Inverno de 2012…

Privilégio e Sina

M√©dicos s√£o bons observadores. Por for√ßa do of√≠cio. Entretanto, ao observar fatos cotidianos, o olhar m√©dico √© um misto da ingenuidade watsoniana de Doyle – no que concerne a sua pragm√°tica pueril – com uma capacidade descritiva crua vernacular scliariana ou, porque n√£o, drauziana. M√©dicos soem escrever bem (com exce√ß√£o de alguns que se metem a escrever blogs sobre temas variados) sendo a perspectiva m√©dica diferente da da doen√ßa, em se tratando de coisas do mundo. Fisiopatologia tem hora, queridos! A quotidianidade os inibe, sociopatas naturais, ou os confunde. Diante de sua prerrogativa de invadir lares, desculpados que est√£o, a avaliar um pobre ser humano em estado prec√°rio de vida, estado prec√°rio este, dif√≠cil de definir dado que a pr√≥pria defini√ß√£o de vida √©, por si, complexa e, no caso de seres humanos, lingu√≠sticos por natureza, envolve um tipo de limita√ß√£o que muitas vezes √© de ju√≠zo totalmente arbitr√°rio -, dizia, invadir lares, entrar em contato com a intimidade de fam√≠lias com a inten√ß√£o prec√≠pua de “ajudar” quem quer que seja √©, um privil√©gio e uma sina. Um privil√©gio porque um m√©dico, sendo um arqu√©tipo humano primordial, como bruxas e vampiros, catalisa sentimentos e esperan√ßas generalizadas, para-raio emocional, tipo entidade mesmo. Com avental e estetosc√≥pio no pesco√ßo ent√£o, nem se fala. Uma sina porque o m√©dico entra em contato com a humanidade – e com “humanidade” quero dizer n√£o o conjunto dos seres humanos, mas a atividade decorrente de sua rela√ß√£o m√ļtua – da esp√©cie e isso √© sempre impactante, dado que reassegura e reafirma sua animalidade. E, tal como olhar a pr√≥pria resson√Ęncia, o m√©dico se d√° conta de quem ele realmente √© e “se” v√™-se. Nesse momento sublime ent√£o, caem por terra seis anos de faculdade, tr√™s anos de resid√™ncia, n√£o sei mais quantos anos de p√≥s-gradua√ß√£o que geraram teses cuja obsolesc√™ncia √© mais r√°pida que sua capacidade de envelhecer-; e o m√©dico percebe que todo esse tempo, todo o estudo e sua dura√ß√£o intermin√°vel, toda a pr√°tica e o investimento s√≥ serviram para fazer com que o tempo passasse. O velho deus siam√™s. Agora, tudo se encaixa. A animalidade faz sentido. O peso da sina do “conhecer a humanidade” por dentro de seus interst√≠cios transfigura-se no privil√©gio de tornar-te quem de fato √©s…

Hehehe.

O Que Você Vai Ser Quando Morrer?

“A decomposi√ß√£o humana come√ßa aproximadamente¬†4 min depois da morte. O in√≠cio da decomposi√ß√£o √© dominado por um processo chamado aut√≥lise ou auto-digest√£o. Conforme as c√©lulas do corpo s√£o privadas de oxig√™nio, o di√≥xido de carbono aumenta no sangue, o pH diminui e as esc√≥rias acumulam-se, envenenando as c√©lulas. Concomitantemente, enzimas celulares (lipases, proteases, amilases, etc.) come√ßam a dissolver as c√©lulas de dentro para fora, causando sua ruptura, liberando fluidos ricos em nutrientes. Esse processo inicia-se precocemente e progride mais r√°pido em tecidos com alto teor enzim√°tico¬†(tal como o f√≠gado) e com alto conte√ļdo de √°gua (como o c√©rebro), mas afetar√° todas as c√©lulas do corpo. A aut√≥lise normalmente n√£o se torna aparente at√© alguns dias. Primeiro, s√£o observadas ves√≠culas preenchidas por fluidos e descolamentos¬†de grandes extens√Ķes na pele.¬†O corpo fica √† temperatura ambiente¬†(algor mortis), o sangue deposita-se no corpo causando a descolora√ß√£o na pele¬†(livor mortis), e o citoplasma celular coagula devido ao aumento da acidez¬†(rigor mortis). Depois que uma quantidade suficiente de c√©lulas se rompe, os fluidos ricos em nutrientes tornam-se dispon√≠veis e o processo de putrefa√ß√£o pode come√ßar.” [Vaas, 2002, em tradu√ß√£o livre por minha conta e risco]

Muitos dos que n√£o acreditam na vida ap√≥s a morte – eu incluso – pensam em deixar um legado de a√ß√Ķes, lembran√ßas, livros e/ou artigos j√° estariam de bom tamanho; quem sabe filhos… A decomposi√ß√£o de um corpo humano envolve uma s√©rie de rea√ß√Ķes bioqu√≠micas, como se sabe. Quando um corpo humano √© cremado, o que em geral ocorre a temperaturas maiores que 1000¬įC, todos os fluidos s√£o evaporados e o que resta s√£o cinzas dos ossos. O mineral presente nos ossos √© a hidroxiapatita cuja a f√≥rmula √©¬†Ca5(PO4)3(OH). O calor, entretanto, a transforma em sais de fosfato de c√°lcio [Ca3(PO4)2]. Gayle E. O’Neill chegou a quantificar as subst√Ęncias presentes nas cinzas de corpos cremados e encontrou a seguinte composi√ß√£o:¬†Fosfato 47,5%; C√°lcio 25,3%; Sulfato 11,00%; Pot√°ssio 3,69%; S√≥dio 1,12%; Cloreto 1,00%; S√≠lica 0,9%; √ďxido de Alum√≠nio 0,72%;¬†Magn√©sio 0,418%; √ďxido de Ferro¬†0,118%;¬†Zinco 0,0342%; √ďxido de¬†Tit√Ęnio 0,0260%;¬†B√°rio 0,0066%;¬†Antim√īnio 0,0035%;¬†Cromo 0,0018%;¬†Cobre 0,0017%;¬†Mangan√™s 0,0013%; Chumbo¬†0,0008%; Estanho¬†0,0005%;¬†Van√°dio 0,0002%;¬†Ber√≠lio <0,0001%;¬†Merc√ļrio <0,00001%. Muitas dessas subst√Ęncias t√™m cor. Quando misturam-se com √°gua e umas com as outras, rea√ß√Ķes interessantes podem ocorrer. Foi o que o fot√≥grafo David Maisel descobriu.

Maisel visitou um antigo hosp√≠cio no estado do Oregon nos EUA. No pr√©dio abandonado, pode verificar que muitos dos internos que l√° vieram a falecer, foram cremados por que nenhum familiar veio reclamar o corpo. As cinzas, armazenadas em latas, permaneceram durante d√©cadas a merc√™ do tempo, mesmo depois da institui√ß√£o ser desativada. Infiltra√ß√£o de √°gua e mudan√ßas de temperatura, fizeram com que os sais reagissem com o metal da lata, provocando rea√ß√Ķes inusitadas. Cada lata, como cada personalidade ali confinada, tem um padr√£o de cor e desenho totalmente diferente das outras.

√Č como se a personalidade da pessoa ficasse estampada no corpo da lata. Maisel fotografou com detalhe todo o local e publicou um livro sobre o assunto. √Č interessante observar os padr√Ķes. Ver como as rea√ß√Ķes com subst√Ęncias bastante semelhantes ocorreram de forma √ļnica e especial para formar uma individualidade que, mesmo que l√° houvesse milhares de milh√Ķes de latas, jamais se repetiria. Como seres humanos viventes que, numa met√°fora m√≥rbida da morte que se volta sobre si, refletem a vida que tiveram numa institui√ß√£o para desajustados e, mesmo mortos, tornam a diferenciar-se, na igualdade de seu confinamento, em m√ļltiplos padr√Ķes de cores e texturas. Um luxo s√≥. Como dizer que sua morte foi v√£?

Morrer é uma arte.

ResearchBlogging.org

Vass AA, Barshick SA, Sega G, Caton J, Skeen JT, Love JC, & Synstelien JA (2002). Decomposition chemistry of human remains: a new methodology for determining the postmortem interval. Journal of forensic sciences, 47 (3), 542-53 PMID: 12051334