Síndrome Pós-Pólio

Joaquin_Sorolla_Triste_Herencia

Por Meire G. (do Salada Médica) e Karl

Poli√≥s¬†(ŌÄőŅőĽőĻŌĆŌā) em grego quer dizer “cinza”;¬†myel√≥s¬†(¬ĶŌÖőĶőĽŌĆŌā), medula. Em 1874, o m√©dico alem√£o Adolph Kussmaul (1822-1902) cunhou o nome da doen√ßa a partir de achados patol√≥gicos da medula espinhal de pacientes com a paralisia. A p√≥lio j√° era conhecida dos eg√≠pcios constando em inscri√ß√Ķes de 1400 AC, mas entrou para o¬†hall¬†da fama das mol√©stias humanas apenas na d√©cada de 50. A pandemia de poliomielite tomou de assalto a Europa e os EUA tendo como caracter√≠sticas peculiares, o alto n√ļmero de casos do que foi chamado de p√≥lio bulbar, no qual o paciente, a grande maioria crian√ßas, perde a for√ßa da musculatura respirat√≥ria necessitando ventila√ß√£o mec√Ęnica para n√£o morrer sufocado.

O vírus da pólio é muito semelhante aos rhinovirus (RV), um dos causadores do resfriado comum, chegando a ter 45-62% de semelhança em seus genomas diferindo, entretanto, na construção da capa viral. Isso impede que o RV penetre na mucosa do intestino, mantendo-o nas vias aéreas superiores. Partilham entre si, no entanto, a alta infectividade de humano para humano, e daí as consequências desastrosas para o caso da pólio.

O √ļltimo caso de poliomielite¬†no Brasil data de 1990, tendo sido considerada erradicada das Am√©ricas em 1994. Em 2000 foi declarada oficialmente eliminada de 37 pa√≠ses do Pac√≠fico Ocidental incluindo China e¬†Austr√°lia. A Europa foi declarada livre da p√≥lio apenas em¬†2002. Em¬†2012, a p√≥lio permanecia end√™mica somente em tr√™s pa√≠ses: Nig√©ria, Paquist√£o e Afeganist√£o, muito devido a problemas religiosos associados √† distribui√ß√£o das vacinas √† popula√ß√£o. Infelizmente, o v√≠rus da Polio acometeu muitas pessoas no Brasil deixando um n√ļmero consider√°vel delas com a conhecida defici√™ncia f√≠sica. Por outro lado, boa parte das pessoas com sequelas adaptou-se √† limita√ß√£o, cresceu, teve filhos, trabalha. Assim como outras pessoas com necessidades especiais, elas brigaram por seus direitos e hoje h√° reserva de vagas para elas em concursos p√ļblicos e em empresas privadas.

Muitos desses adultos estão enfrentando uma segunda grande batalha da doença: a síndrome pós-poliomielite (SPP). Boa parte dos médicos brasileiros em atividade hoje Рnos quais nos incluímos Рnunca viu um caso de pólio aguda, mas todos conhecemos suas sequelas. Agora é necessário uma atualização para o diagnóstico dessa complicação tardia de modo a dar o encaminhamento correto aos nossos pacientes. Há um interessante manual sobre isso disponível em pdf para download aqui.

A SPP vai se instalando devagar, depois de muitos anos: a perda de fun√ß√Ķes que as pessoas ¬†t√£o bravamente conseguiram manter ocorre por volta dos 35 anos anos de idade, justamente na fase em que est√£o se estabilizando na vida e cuidando dos seus filhos.

O que ocorre?

A pessoa come√ßa a apresentar um decl√≠nio das fun√ß√Ķes do membro acometido pela Polio no passado. Pode haver, em maior ou menor grau, cansa√ßo, dor, altera√ß√£o na mec√Ęnica do corpo, sintomas psicol√≥gicos, d√©ficit de mem√≥ria e piora da atrofia muscular, inclusive com osteoporose associada. Nos casos mais s√©rios pode haver inclusive altera√ß√£o na degluti√ß√£o e na respira√ß√£o.

O enfoque principal do tratamento é a fisioterapia motora, além dos cuidados de se evitar exposição a agentes tóxicos para o tecido nervoso, como as bebidas alcoólicas. Evitar o excesso de peso e uso de órteses de compensação, com bengalas, por exemplo, são estratégias que não podem ser esquecidas. Outra coisa importante: a exposição a baixas temperaturas é um agravante para a dor.

Os trabalhadores sintomáticos devem passar por consultas com médicos do trabalho a fim de, preferencialmente, serem reabilitados para uma função compatível com o novo quadro. Os trabalhadores em situação de invalidez devem ser encaminhados para exame médico-pericial, de acordo com o regime de previdência ao qual estejam vinculados.O trabalhador em alto risco social e que não esteja vinculado a nenhum seguro sendo, portanto, excluído do direito à percepção de benefícios por incapacidade, deve entrar com um requerimento de Amparo Social junto ao INSS, através do telefone 135.

A atual gera√ß√£o de m√©dicos, esperamos, seja a √ļltima a ver tais casos. Tomara a SPP seja o √ļltimo suspiro da n√™mesis¬†humana que foi a poliomielite e que ela sobreviva apenas em¬†interessantes obras ficcionais¬†como a de mesmo nome de Philip Roth. A SPP e as obras de arte servem para lembrarmos do medo e da tristeza que ela espalhou e ora espalha, para comemorarmos nossas conquistas e jamais esquecermos daqueles que trabalharam para que nos v√≠ssemos livres. Ao menos desse mal.

wyeth_christina

~ o ~ o ~

Figura acima. Triste Her√™ncia. de Joaqu√≠n Sorolla (1863-1923).¬†212 cm √ó 288 cm, 1899. Cole√ß√£o privada. A obra representa uma cena real da praia de Caba√Īal na cidade de Val√™ncia na Espanha. Nela s√£o representadas crian√ßas com problemas locomotores em um banho de mar em busca de suas propriedades curativas. A figura central √© muito sugestiva de uma crian√ßa com as caracter√≠sticas sequelas da poliomielite, bastante comum na √©poca, sendo amparada por um religioso da Ordem de San Juan de Dios.

Figura abaixo.¬†Christina’s World de¬†Andrew Wyeth (EUA, 1917-2009) de 1948. T√™mpera em painel gessado. 81,9 x 121,3 cm. Museum of Modern Art, New York.¬†Anna Christina Olson (1893-1968) foi acometida por uma doen√ßa degenerativa que a impediu de andar por volta de 1920. Apesar de n√£o ter o diagn√≥stico correto, a paralisia foi atribu√≠da √† poliomielite. Wyeth a conheceu quando ela tinha aproximadamente 50 anos, apresentada por sua futura esposa, Betsy. A figura feminina que rasteja em dire√ß√£o √† sua casa da fazenda, de fato a propriedade dos Olson, tem as pernas de Christina e o jovem torso de Betsy, √† √©poca, com pouco mais que vinte anos.

Carta-Resposta do Prof. Maurício Rocha e Silva

5548-revistas_800

Segue a carta do prof. Maur√≠cio Rocha e Silva sobre a suspens√£o de revistas m√©dicas brasileiras pelo JCR, conforme publicado neste blog. As opini√Ķes do autor n√£o s√£o necessariamente as mesmas do editor do blog. Esperamos, entretanto, que isso possa fomentar um debate salutar sobre as publica√ß√Ķes cient√≠ficas brasileiras, debate de import√Ęncia maior para amadurecermos no nosso papel de relev√Ęncia cient√≠fica que conquistamos a duras penas. Todas as perguntas dirigidas ao autor do texto lhe ser√£o encaminhadas por email e me comprometo a publicar integralmente, tanto as quest√Ķes, quanto suas respostas. (Me reservarei, contudo, no direito de editar eventuais textos ofensivos e em “caps lock” abusivo).

Ainda a propósito da suspensão de revistas pelo JCR

Mauricio Rocha e Silva

Editor, Clinics

Clinics foi suspensa por um ano do Journal Citation Reports (JCR) 2012. A suspens√£o foi provocada por dois artigos publicados em 2011. A suspens√£o significa que CLINICS n√£o teve Fator de Impacto divulgado para 2012 pelo JCR. Este √© respons√°vel pela publica√ß√£o do fator de impacto de 8.841 peri√≥dicos cient√≠ficos mundiais. Mas n√£o √© a √ļnica ag√™ncia avaliadora no mundo, como veremos adiante.

O Hospital das Clínicas e a Editoria de Clinics estão examinando determinados aspectos do ato de suspensão e entendem que não existem fundamentos dentro das regras JCR em vigor que justifiquem esse ato.

H√° que notar que, at√© hoje, o site JCR continua a afirmar que ‚ÄúSuppressed titles were found to have anomalous citation patterns resulting in a significant distortion of the Journal Impact Factor.‚ÄĚ (T√≠tulos suprimidos apresentaram padr√Ķes an√īmalos de cita√ß√£o, que resultam numa distor√ß√£o significativa do Fator de Impacto da Revista). Isto s√≥ pode significar que a condi√ß√£o obrigat√≥ria para suspens√£o √© uma distor√ß√£o significativa do Fator de Impacto.

E qual foi a distor√ß√£o significativa provocada em nosso fator de impacto? Clinics foi suspensa pela publica√ß√£o de dois artigos na Revista da Associa√ß√£o M√©dica Brasileira sobre pesquisa cient√≠fica brasileira em √°reas espec√≠ficas do conhecimento: aparelhos cardiorrespirat√≥rio e locomotor. Estes artigos citam 330 artigos brasileiros, dos quais 127 publicados pela CLINICS. Estas 127 cita√ß√Ķes representam apenas 18% de todas as cita√ß√Ķes recebidas pela CLINICS em 2011 (total 704 cita√ß√Ķes) Como consequ√™ncia, o Fator de Impacto de Clinics elevou-se em 22% (de 1,687 para 2,058). Como √© que esta distor√ß√£o de fator Impacto √© comparada com outras no sistema ISI? Para isso realizamos uma avalia√ß√£o por amostragem pesquisando 200 revistas n√£o suspensas pelo JCR e escolhidas randomicamente. Convidamos qualquer leitor a fazer o mesmo: escolha o seu m√©todo de randomiza√ß√£o e veja o que aparece. Esta an√°lise revelou 31 revistas (15,5%) com eleva√ß√Ķes de Fator de Impacto iguais ou superiores aos 22% da Clinics. Estendendo esta amostragem para o universo de 8841 revistas pode-se esperar encontrar cerca de 1300 revistas com ‚Äúdistor√ß√Ķes‚ÄĚ iguais ou superiores √†s da CLINICS. Nenhuma dessas foi suspensa. Entenda-se: n√£o estou acusando de distor√ß√£o estas revistas semelhantes √† CLINICS e n√£o suspensas. Estou simplesmente mostrando que o que n√£o √© infra√ß√£o √©tica para tantas, subitamente virou infra√ß√£o para Clinics.

Como notei, o JCR n√£o havia institu√≠do essa modalidade de impropriedade de cita√ß√£o em 2011, quando os artigos foram publicados. As primeiras revistas suspensas por stacking o foram em Junho de 2012. Tr√™s revistas foram suspensas por cita√ß√Ķes circulares. S√≥ ent√£o √© que se ficou sabendo que esta modalidade passara a existir. Consequentemente, a nova regra foi aplicada retroativamente √† Clinics. Mesmo agora, junho de 2013, as regras continuam obscuras e d√£o a JCR margem para a√ß√Ķes discriminat√≥rias.

Vale repetir: o JCR n√£o det√©m monop√≥lio mundial de avalia√ß√£o de impacto. Duas outras grandes institui√ß√Ķes tamb√©m o fazem. (1) A editora cient√≠fica Elsevier, a maior do mundo, sediada na Holanda, possui um site¬† www.scimagojr.com, que divulga um impacto entendido pela CAPES, pela FAPESP e pelo CNPq como equivalente ao da JCR. Continuamos ali representados e quem quiser saber quanto ser√° o nosso impacto Scimago 2012 s√≥ precisa esperar at√© o pr√≥ximo m√™s de julho. (2) SCIELO, uma das mais importantes experi√™ncias de cataloga√ß√£o cient√≠fica do mundo, sediada em S√£o Paulo, publica tamb√©m um Fator de Impacto. Continuamos ali representados. A suspens√£o de Clinics no JCR choca de frente com a n√£o suspens√£o no Scimago e na SCIELO.

Mesmo que comentaristas inseridos neste e noutros blogs prefiram discordar de nossa posi√ß√£o, seria muito mais conveniente evitar a indecorosa e an√īnima pressa de criminalizar um evento entendido pela pr√≥pria JCR como mera decis√£o t√©cnica. CLINICS foi apenas exclu√≠da do JCR em 2011. Tudo o mais referente a ela continua inclu√≠do no sistema JCR e decorre normalmente.

Aproveito para reafirmar e renovar nosso compromisso com a informação ética e verdadeira da ciência, dentro do conceito de dignidade da atividade científica.

As Origens do Emaranhamento

gasparzinhoEste é um post de um autor convidado, oculto e que faz parte de uma blogagem coletiva do SBBr. Saiba mais clicando aqui. Os leitores também podem tentar adivinhar quem seja o blogueiro entre os participantes.
Por Blogueiro Oculto
O post de hoje é sobre ocultismo. E vai ter fantasmas também. E muita ciência. Quer ver? Vamos lá:

oculto.:adj. Do latim occultu-, ¬ęidem¬Ľ, partic√≠pio passado de occulńēre, ¬ęesconder; ocultar¬Ľ

1.subtraído à vista, escondido; encoberto; 2. que apenas se conhece pelos efeitos; 3. invisível; 4. ignorado; 5. misterioso; 6. que não pode ser explicado pelas leis naturais, sobrenatural; 7. não explorado

O conceito de ‚Äúelemento oculto‚ÄĚ permeia os mais variados campos do conhecimento humano. Em especial, na verdade, quando h√° algum n√≠vel de desconhecimento: √© a inc√≥gnita das equa√ß√Ķes matem√°ticas ou o sujeito oculto da gram√°tica, √© ainda o contaminante de rea√ß√Ķes qu√≠micas ou o elemento que falta em Hamiltonianos na modelagem te√≥rica correta de experimentos. √Ä boca pequena, diz-se mesmo que quando m√©dicos diagnosticam pacientes genericamente com uma ‚Äúvirose‚ÄĚ, o que h√° de fato √© algum elemento que eles desconhecem e previne um diagn√≥stico mais preciso.

Um dos elementos ocultos historicamente mais famosos s√£o as ‚Äúvari√°veis escondidas‚ÄĚ propostas por Einstein e colegas a fim de justificar que a nascente F√≠sica Qu√Ęntica n√£o poderia ser como de fato √©.

N√£o entendeu? Eu explico. Imagine um sistema formado por duas partes. Duas bolas, por exemplo. Uma azul, outra vermelha. Melhor ainda, pense quanticamente: cada bola pode ser azul ou vermelha e o estado qu√Ęntico √© uma-bola-azul-e-uma-bola-vermelha. Agora separe as duas partes. Quando voc√™ olhar para uma delas e descobrir que ela √© vermelha, imediatamente voc√™ sabe, sem olhar para a outra, que ela √© azul, e vice-versa. Mas, e aqui tem uma grande MAS exclusivamente qu√Ęntico: a bola para a qual voc√™ olhou at√© o momento anterior √† medida √© azul E vermelha e s√≥ ‚Äúdefine‚ÄĚ sua cor no ato da medida. Consequentemente, a outra bola, n√£o importa qu√£o distante ela esteja, metros, quil√īmetros, anos-luz distante, IMEDIATAMENTE, define sua cor tamb√©m.

Ora, ‚Äúimediatamente‚ÄĚ √© um conceito completamente avesso √† Teoria da Relatividade de Einstein. Em Relatividade n√£o h√° NADA imediato: toda informa√ß√£o leva um tempo para se propagar e, no m√°ximo, se propaga com a velocidade da luz. Com a interpreta√ß√£o do par√°grafo anterior e sua Teoria da Relatividade em m√£os, Einstein, Podolski e Rosen escreveram um trabalho onde afirmavam categoricamente que havia a√≠ um paradoxo: a interpreta√ß√£o s√≥ poderia estar errada pois, afinal, a Relatividade estava correta. Abre par√™nteses: Einstein, dentre tantos, ajudou a construir a F√≠sica Qu√Ęnica n√£o apenas ‚Äúpositivamente‚ÄĚ, desenvolvendo-a, mas especialmente por critic√°-la, question√°-la, tentar mostrar que havia problemas e instigando seus colegas, defensores da F√≠sica Qu√Ęntica, a achar interpreta√ß√Ķes coerentes para contornar os supostos problemas. Fecha Par√™nteses.

Desta feita, os tr√™s sugeriram duas possibilidades para resolver este aparente paradoxo: ou h√°, na F√≠sica Qu√Ęntica, vari√°veis ocultas que fazem a transmiss√£o da informa√ß√£o e, obviamente, ainda n√£o haviam sido consideradas e/ou descobertas ou havia algum tipo de ‚Äúa√ß√£o fantasmag√≥rica √† dist√Ęncia‚ÄĚ (olha os fantasmas que eu prometi a√≠!) respons√°vel pelo efeito. Mais um par√™nteses: vindo de cientistas de alto gabarito, a men√ß√£o expl√≠cita a ‚Äúfantasmas‚ÄĚ chega a ser engra√ßada e surpreendente.

A quest√£o manteve-se e foi estudada por muitos e por muito tempo. Coube a Bell colocar a exist√™ncia das vari√°veis ocultas numa simples desigualdade matem√°tica (a desigualdade de Bell) e ao f√≠sico Alain Aspect a testar essa desigualdade e, surpreendentemente, viol√°-la, descartando definitivamente a exist√™ncia das vari√°veis escondidas propostas por Einstein. Mas ent√£o, perguntar√° voc√™: se a parte oculta da quest√£o n√£o existe, isso significa que h√° fantasmas agindo por a√≠? √Č claro que n√£o.

De fato, a aventada ‚Äúa√ß√£o fantasmag√≥rica √† dist√Ęncia‚ÄĚ tornou-se uma das mais emblem√°ticas e potencialmente aplic√°veis faces da F√≠sica Qu√Ęntica. Nascia ali o Emaranhamento. Em termos simples, e voltando ao nosso exemplo l√° do come√ßo do texto, as duas bolas est√£o emaranhadas e por isso, n√£o importa qu√£o distante elas estejam, ainda assim formam um √ļnico sistema, delocalizado e, por isso, quando a cor de uma se define, a da outra, imediatamente, tamb√©m se define, pois elas formam um √ļnico sistema. Esse tipo de fen√īmeno √© exclusivo da f√≠sica qu√Ęntica e n√£o tem, nem pode ter, an√°logo cl√°ssico. De fato, √© este fen√īmeno um dos pilares das propostas de transmiss√£o, criptografia e computa√ß√£o qu√Ęnticas, e do teletransporte (‚ÄúBeam me up, Scotty!‚ÄĚ) que um dia far√£o (far√£o mesmo?) seus caminhos para o nosso dia-a-dia e que hoje come√ßam a se tornar reais em laborat√≥rios ao redor do mundo.

[Este texto √© parte da primeira rodada do InterCi√™ncia, o interc√Ęmbio de divulga√ß√£o cient√≠fica. Saiba mais e participe em: http://scienceblogs.com.br/raiox/2013/01/interciencia/]

Um Sistema Nacional de Controle de Receitu√°rios

Hoje, o Ecce Medicus tem a honra de receber Roberto Takata. Sujeito universal e “omnipresente” na e da internet brasileira – em que pese o fato de sua real exist√™ncia ter sido seriamente contestada, o que eu, particularmente, duvido muito, apesar de n√£o conhec√™-lo pessoalmente -, seja por meio de redes sociais (em especial, o Twitter @rmtakata), seja como comentarista √°cido de posts sobre os mais variados assuntos, seja, por fim, como autor dos imperd√≠veis blogs Gene Rep√≥rter e¬†NAQ (Never Asked Questions). Aqui, Takata sugere como o controle de receitu√°rios poderia auxiliar no acompanhamento dos pacientes e aproveita para elaborar uma cr√≠tica da situa√ß√£o atual, ao meu ver quase pr√©-hist√≥rica, do controle de receitas no Brasil.¬†

~ o ~

Por Roberto Takata

A lei federal¬†11.903/2009¬†criou o Sistema Nacional de Controle de Medicamentos, cuja implementa√ß√£o est√° parada desde¬†2011.¬†O sistema √© important√≠ssimo para evitar n√£o apenas a comercializa√ß√£o de medicamentos falsificados e fora do prazo, permitindo maior controle sobre medicamentos de venda restrita, al√©m de tamb√©m poder gerar dados fundamentais para orienta√ß√£o de pol√≠ticas p√ļblicas e a√ß√Ķes sobre a sa√ļde da popula√ß√£o, quest√Ķes como automedica√ß√£o, depend√™ncia qu√≠mica de medicamentos (analg√©sicos “fortes” e psicotr√≥picos, por exemplo) e mesmo acompanhar as regi√Ķes com maior demanda para certos tipos de produtos.

Um outro sistema, julgo, seria tamb√©m de grande valor: o de rastreamento de receitu√°rios m√©dicos, veterin√°rios, odontol√≥gicos e agron√īmicos.¬†H√° algumas receitas que s√£o retidas, outras que n√£o. Para os medicamentos controlados, o controle √© feito por guias numeradas de¬†notifica√ß√£o de receitu√°rio: retidas na apresenta√ß√£o na farm√°cia. De todo modo, para a maioria dos medicamentos e produtos, essa informa√ß√£o n√£o √© compilada em um banco de dados que permita avaliar o quadro geral: onde, como, quando s√£o geradas tais receitas? Nem h√° associa√ß√£o com dados do paciente como idade, peso, hist√≥rico m√©dico…

Muitos consult√≥rios j√° possuem sistemas informatizados de produ√ß√£o de receitas – entre outras coisas evitam a prescri√ß√£o de medicamentos fora de uso, al√©m da famigerada¬†letra de m√©dico. Esses sistemas poderiam enviar dados a um reposit√≥rio central para cada receita emitida, associando-os aos dados do paciente (exceto, claro, dados pessoais como nome, n√ļmero de identidade, endere√ßo ou telefone – o paciente seria identificado apenas com um n√ļmero¬†hash¬†√ļnico no sistema gerado no terminal do m√©dico); o sistema central geraria, ent√£o, um n√ļmero identificador e o associaria ao receitu√°rio, esse n√ļmero seria impresso como c√≥digo de barras junto com a receita. O retorno do paciente tamb√©m seria registrado.¬†Ao ser apresentado na farm√°cia, o c√≥digo seria lido e a opera√ß√£o de compra registrada no sistema central.

Mas tal sistema n√£o seria redundante em rela√ß√£o ao SNCM? Em parte sim. E isso n√£o √© ruim. A redund√Ęncia permitiria uma avalia√ß√£o independente de certos par√Ęmetros; diferen√ßas ajudariam a monitorar casos de erro ou de fraude. O cruzamento entre ambos os sistemas permitiria tamb√©m acompanhar outros dados, p.e., seria poss√≠vel inferir uma taxa de efici√™ncia de medicamentos e grupo de medicamentos, a partir da compara√ß√£o entre a receita inicial e os dados do retorno, em uma escala nacional. Se alguma rea√ß√£o adversa desconhecida ocorre em um grupo pequeno, uma intera√ß√£o medicamentosa n√£o prevista, rapidamente isso tudo poderia ser descoberto.

Haveria ganho de eficiência também em relação ao sistema atual de notificação de receituário: em que o médico solicita uma sequência numérica para identificação das receitas, os dados são registrados a mão, depois é retido pela farmácia e enviada a uma central, que digitaliza os dados, compila-os e notifica a cada mês, trimestre ou ano. O registro seria quase em tempo real, eliminando etapas intermediárias como digitação dos dados.

Claro, um sistema desses n√£o seria criado do dia para a noite. Afinal, nem o SNCM est√° efetivamente implantado. Mas frente a problemas de confiabilidade de registros de medicamento – a BigPharma, obviamente, tem seus interesses econ√īmicos e a tenta√ß√£o √© suficientemente grande para haver uma¬†tendenciosidade¬†(consciente ou n√£o) nos dados publicados sobre a efici√™ncia de seus produtos -, e mesmo de¬†vendas de medicamentos, e sua¬†receita¬†(o caso √© na Europa, mas poderia ocorrer aqui), creio que valeria a pena. (Sim, dif√≠cil √© enfrentar um lobby bem organizado e abastecido.)

O Nome do Doente. Poder e Identidade nas Pr√°ticas de Sa√ļde no Brasil

Desenho de David Oliveira, escultor português. Vi no Street Anatomy.

Hoje, trazemos uma contribui√ß√£o da professora Tatiana Piccardi da¬†Escola de Filosofia, Letras e Ci√™ncias Humanas da¬†Universidade Federal de S√£o Paulo (UNIFESP), com quem temos tido um contato enriquecedor e jubiloso. ¬†O texto parte da nomenclatura atribu√≠da aos agentes das pr√°ticas de sa√ļde – pacientes e seus familiares incluso -, pelas formas contempor√Ęneas da gest√£o em sa√ļde, para fazer uma cr√≠tica da √©tica dos discursos envolvidos nessas pr√°ticas, concluindo que as novas terminologias podem ser “sinais e sintomas” dessas mudan√ßas. J√° comentamos sobre o assunto h√° alguns anos. De minha parte, deixaria o questionamento sobre se tais novas terminologias n√£o seriam – elas mesmas – os vetores de tais mudan√ßas, dada a possibilidade da linguagem de construir e constituir tais realidades. Bem, deixo que o texto fale por si. E ele √© eloquente.

Por Tatiana Piccardi

Quando os discursos institucionais trazem √† cena os agentes do sistema de sa√ļde e os categorizam em grupos (gestores, profissionais de sa√ļde e pacientes/familiares), apagam o fato de que esses grupos n√£o se alinham com exatid√£o e n√£o podem ser sequenciados como grupos paralelos entre si.¬† No caso dos gestores, sua men√ß√£o os traz √† cena como sujeitos alinhados a pr√°ticas pol√≠ticas em sa√ļde, pr√°ticas tais que, em tese, cabe a eles viabilizar em benef√≠cio do sistema. Trata-se, portanto, de sujeitos cuja subjetividade tende a ser apagada por for√ßa da atua√ß√£o pol√≠tica. Sua fala √©, assim, predominantemente institucional e se d√° de cima para baixo.

Os profissionais de sa√ļde, por serem os que interagem mais ou menos diretamente com os doentes e seus familiares, ocupam uma posi√ß√£o diferente nessa rede de rela√ß√Ķes. Ao mesmo tempo em que se alinham √†s prescri√ß√Ķes de uma pr√°tica m√©dica norteada por princ√≠pios objetivos e externos ao sujeito ‚Äď inclusive pol√≠ticos ‚Äď, manifestam necessariamente sua subjetividade durante sua pr√°tica, sem o que n√£o haveria a possibilidade mesma de interagir e se comunicar com seus pacientes e pessoas a eles relacionadas. Sua fala, portanto, oscila entre a fala institucional e a fala pessoal, ou seja, entre a fala prevista para o exerc√≠cio da fun√ß√£o e as falas espont√Ęneas pr√≥prias das rela√ß√Ķes pessoais, em que as diferentes posi√ß√Ķes sociais dos sujeitos em quest√£o n√£o afetariam de modo predominante a interlocu√ß√£o.

O paciente e familiares, por sua vez, interagem com os m√©dicos (e profissionais de sa√ļde de modo geral) de forma predominantemente espont√Ęnea, o que significa dizer que sua pr√°tica, enquanto sujeitos enfermos que, em princ√≠pio, est√£o mais fragilizados e dependentes que seus interlocutores, ocorreria de modo a que a subjetividade fosse a t√īnica. Haveria por parte de tais sujeitos ‚Äď antes de efetuar-se uma an√°lise mais acurada ‚Äď maior liberdade no falar e maior vaz√£o dos sentimentos v√°rios que permeiam esta pr√°tica interlocutiva.

Da perspectiva dos estudos da linguagem que se at√™m ao estudo dos discursos produzidos nos diferentes campos da atua√ß√£o humana, em especial os discursos ditos constituintes[1], o modo de articula√ß√£o dos tr√™s grupos de agentes acima mencionados explica-se em fun√ß√£o da for√ßa que os discursos pol√≠tico e cient√≠fico exercem na esfera da sa√ļde p√ļblica. Gestores e profissionais de sa√ļde teriam sua pr√°tica fortemente determinada por tais discursos, que constroem uma certa identidade para tais sujeitos, que, por sua vez, a refor√ßam no sentido de marcar o pertencimento ao grupo.¬† Ocorre que o paciente e seus familiares n√£o est√£o alheios a essa determina√ß√£o. Sua espontaneidade e subjetividade explicitada n√£o os coloca fora das coer√ß√Ķes. Seu comportamento, inclusive lingu√≠stico/comunicativo, d√°-se por coer√ß√£o dos mesmos discursos, como o reverso necess√°rio √† pr√°tica de poder institu√≠da pelos discursos pol√≠tico e cient√≠fico.

Na interlocu√ß√£o com o m√©dico (destaco o m√©dico porque √© na rela√ß√£o com ele que as coer√ß√Ķes discursivas aparecem mais evidenciadas), o doente ocupa a posi√ß√£o assim√©trica de ‚Äúpaciente‚ÄĚ, de quem se espera todo um modo de comportar-se e reagir, em geral caracterizado pela subordina√ß√£o ao m√©dico e a suas prescri√ß√Ķes, e pela n√£o contesta√ß√£o √† prescri√ß√£o, uma vez que se subentende que o saber do m√©dico se sobressai e ocupa lugar epistemol√≥gico superior aos saberes do paciente. Na rela√ß√£o com o sistema de sa√ļde, personificado em gestores em diferentes n√≠veis, o paciente ocupa a posi√ß√£o assim√©trica de ‚Äúusu√°rio‚ÄĚ, de quem se espera igualmente todo um modo de comportar-se e reagir, que se caracterizaria pela subservi√™ncia, uma vez que o saber burocr√°tico do sistema n√£o pode ser contestado.

As intricadas rela√ß√Ķes de poder no sistema p√ļblico de sa√ļde, de que inevitavelmente se impregna o SUS, n√£o s√£o novidade no √Ęmbito das discuss√Ķes sobre linguagem, conhecimento e poder. Michel Foucault h√° muitos anos discutiu a quest√£o em sua obra. Em Microf√≠sica do poder (2004), h√° textos que tratam especificamente das rela√ß√Ķes de poder na medicina. Em O nascimento da cl√≠nica (2006), desenvolve de modo brilhante as condi√ß√Ķes hist√≥ricas que determinaram a ruptura que houve entre a pr√°tica m√©dica do s√©culo XVIII e a pr√°tica m√©dica que se inicia no final do s√©culo XVIII e in√≠cio do XIX (per√≠odo no tempo considerado marco para o que se convencionou chamar de medicina moderna).¬† Nesta obra, n√£o se trata tanto, segundo o autor, de apontar as modifica√ß√Ķes havidas nos discursos m√©dicos de um s√©culo a outro no que se refere √† descri√ß√£o das doen√ßas e dos sintomas, ou mesmo de se avaliar as diferen√ßas nas pr√°ticas m√©dicas nos dois momentos, mas se trata, sim, de apontar as condi√ß√Ķes hist√≥ricas que tornaram poss√≠vel, de um s√©culo a outro, transformar de modo t√£o radical a rela√ß√£o m√©dico e doente, a ponto de torn√°-lo secund√°rio enquanto interlocutor, seja denominando-o ‚Äúpaciente‚ÄĚ, seja denominando-o ‚Äúusu√°rio‚ÄĚ.

Atualmente as condi√ß√Ķes hist√≥ricas permitem rotular o doente de ‚Äúcliente‚ÄĚ, tendo-se em vista a crescente mercantiliza√ß√£o da medicina na esfera privada. Ou ainda de ‚Äúcidad√£o‚ÄĚ, da perspectiva da gest√£o pol√≠tica que levanta a bandeira do direito √† sa√ļde. Permanece ainda assim assimetria. No primeiro caso porque, ao contr√°rio do que ocorre em outras esferas do com√©rcio, o ‚Äúcliente‚ÄĚ paga pelo que em geral n√£o recebe; no segundo caso porque o ‚Äúcidad√£o‚ÄĚ n√£o √© respeitado como tal.¬† De qualquer modo, a nomenclatura para referenciar¬† o sujeito que procura atendimento m√©dico no Brasil (paciente, doente, usu√°rio, cliente, cidad√£o) √© sempre problem√°tica ideologicamente, sendo seu uso jamais neutro ou isento. O surgimento de novas terminologias √© a contrapartida discursiva vis√≠vel de profundas mudan√ßas no modo como se relacionam os agentes do sistema de sa√ļde.

Referências bibliográficas

FOUCAULT, M. O nascimento da clínica. 6ª. ed., trad. Roberto Machado. Rio de Janeiro, Forense, 2006.

________.  Microfísica do poder. 19.ed., org. e trad. Roberto Machado. Rio de Janeiro, Graal, 2004.


[1] Discursos constituintes são aqueles que, por sua tradição e força institucionalizante, são base para a produção de outros tantos discursos (os exemplos centrais são os discursos religioso, político e científico).

Foto do Street Anatomy.

Blog do David Oliveira.

USP – Universidade Classe Mundial?

Publico aqui, com autoriza√ß√£o da autora, carta da professora Rita Cruz, Coordenadora do Programa de P√≥s-Gradua√ß√£o em Geografia Humana da FFLCH/USP. √Č uma carta-reflex√£o sobre a proposta de altera√ß√£o regimental na p√≥s-gradua√ß√£o da USP de que fal√°vamos. De forma clara e brilhante, ela exp√Ķe os desencontros da pol√≠tica universit√°ria do Estado de S√£o Paulo que, a pautar-se pela interpreta√ß√£o fria de rankings e pelas compara√ß√Ķes grosseiras entre as institui√ß√Ķes, afeta diretamente a maior universidade do pa√≠s com consequ√™ncias desastrosas. Mais que isso, provoca uma reflex√£o sobre qual o papel da universidade na sociedade paulista e brasileira atuais deixando a pergunta: qual a melhor forma de uma universidade latino-americana portar-se para estar entre as melhores do mundo? Um simples “copy-paste” resolve?

~ o ~

Universidade Classe Mundial: paradoxos de um  pensamento ao mesmo tempo neoliberal e neocolonialista

Como √© do conhecimento de todos, estamos vivendo um processo de reformula√ß√£o do Regimento Geral da P√≥s-Gradua√ß√£o da USP.¬†Conforme declara√ß√Ķes p√ļblicas da Pr√≥-Reitoria de P√≥s-Gradua√ß√£o, as mudan√ßas propostas fazem-se necess√°rias no sentido de transformar a USP em uma Universidade Classe Mundial.

Todavia, o que nos tem inquietado a muitos, alunos e professores da USP, diz respeito à pertinência/necessidade de algumas das mudanças anunciadas, entre as quais se pode destacar:

  1. exame de qualificação obrigatório para todos os alunos da pós-graduação, a realizar-se em até 12 meses de seu ingresso;
  2. exclusão da possibilidade de re-apresentação do Relatório de Qualificação no caso de reprovação;
  3. necessidade de parecer prévio por escrito, para teses de doutorado, podendo o candidato/aluno ser impedido de defender publicamente seu trabalho no caso de a maioria dos pareceres escritos indicar inaptidão à defesa;
  4. orientador sem direito a voto nas bancas examinadoras finais.

A principal argumenta√ß√£o utilizada pela Pr√≥-Reitoria de P√≥s-Gradua√ß√£o para justificar tais mudan√ßas √© a refer√™ncia a IES [institui√ß√Ķes de ensino superior] estrangeiras, as quais t√™m modus operandi similares ou iguais a este que se prop√Ķe hoje para o Regimento da P√≥s-Gradua√ß√£o da USP, ressaltando-se o fato de que tais Institui√ß√Ķes s√£o melhores ranqueadas internacionalmente que n√≥s.¬†Naturalmente, n√£o ignoramos o fato de que h√° muitas experi√™ncias vividas em outros lugares no mundo, no campo cient√≠fico e acad√™mico, pass√≠veis de serem assimiladas por n√≥s de forma positiva, ou seja, produzindo-se aqui, em nosso contexto social, econ√īmico, pol√≠tico e geogr√°fico, as mesmas benesses que produziram em seus lugares de origem.

Entretanto, entendemos, tamb√©m, que n√£o h√° um modelo universal para se produzir uma Universidade Classe Mundial e, se considerarmos as condi√ß√Ķes em que fizemos ci√™ncia no Brasil e na USP, particularmente, desde a sua funda√ß√£o, podemos afirmar, sem d√ļvida, que somos muito mais Classe Mundial que diversas universidades melhores colocadas nos diversos ranqueamentos internacionais. Por que podemos afirmar isso? Pensemos em alguns dados/informa√ß√Ķes.

Ranking das 10 melhores universidades do mundo segundo a TIMES HIGHER EDUCATION ‚Äď informa√ß√Ķes elementares

Universidade

Ano

Orçamento Anual*

No. de Alunos

Orçamento/Aluno¶

Doc/Pesq por Aluno¶

USP

1934

3

76.000

39.473,68

1/14,5

CalTech

1921

6,3[1]

22.000

286.363,60

1/1,13

Harvard

1636

57.6[2]

21.000

2.742.857,10

1/10

Stanford

1891

37[3]

18.500

2.000.000,00

1/1,73

Oxford

1096

3[4]

20.000

150.000,00

1/ 2,35

Princeton

1746

17,2[5]

12.000

Cambridge

1209

3,4[6]

10.000

340.000,00

1/3,3

MIT

1861

4,8[7]**

11.000

436.363,36

1/11

Imperial College

1891

2[8]

14.000

142.857,14

1/12

Chicago

1907

4,6[9]

15000

306.666,66

Berkeley

1868

3,5

36.000

97.222,22

1/15

Obs.: as informa√ß√Ķes e dados acima expostos foram extra√≠dos das p√°ginas das respectivas universidades, dispon√≠veis na web.*Valores aproximados em bilh√Ķes de Reais.**Excluindo-se or√ßamento destinado ao Laborat√≥rio do MIT que tem parceria com a NASA.¬∂ Em Reais.

Como se pode ver na tabela acima, a Universidade de Harvard,¬† Estados Unidos, desenvolveu sua reconhecida capacidade de produzir conhecimento ao longo de pouco mais de tr√™s s√©culos e com or√ßamentos, muito provavelmente, bem superior aos nossos. Vale lembrar que se hoje Harvard tem um or√ßamento anual quase vinte vezes superior ao da USP, com um n√ļmero total de alunos 60% menor, h√° poucos anos atr√°s, o or√ßamento total da USP ‚Äď 2005, por exemplo ‚Äď n√£o chegava aos 2 bilh√Ķes de reais. Entre outras coisas, pode-se notar que enquanto a USP investe menos de R$ 40.000,00 por aluno, em Harvard esta conta chega ao estratosf√©rico valor de quase 3 milh√Ķes de reais!!! D√° para comparar?

Oxford, por sua vez, tem, aparentemente, um orçamento igual ao da USP hoje, mas como a comunidade estudantil oxfordiana é 70% menor que a nossa, a universidade inglesa, com  quase mil anos de história, empenha cerca de 150.000 reais por aluno. Certamente, os seus quase dez séculos de história foram importantes na definição de suas políticas acadêmicas e, especialmente, de pesquisa. Estaremos nós querendo ser mais oxfordianos que nossos colegas ingleses? Ou será que queremos mesmo é ser mais realistas que o rei?

Entre as dez melhores do mundo, ainda segundo o ranking ‚ÄúTimes Higher Education‚ÄĚ, por exemplo, aquela que tem o menor investimento per capita por aluno ‚Äď Calif√≥rnia University at Berkeley ‚Äď empenha duas vezes e meia os valores investidos pela USP.¬†Apesar de a USP ter, proporcionalmente √†s melhores universidades do mundo, or√ßamentos bem mais modestos, parte da sociedade brasileira, ao contr√°rio do que ocorre nos pa√≠ses que abrigam as ‚Äútop 10 do mundo‚ÄĚ, estimulada por uma vis√£o tupiniquim de uma imprensa irrespons√°vel, nos rotula de ‚Äúburgueses gast√Ķes‚ÄĚ .

Outro elemento importante neste debate e que n√£o pode ser negligenciado diz respeito √† hegemonia ling√ľ√≠stica mundial da l√≠ngua inglesa, ou seja, pesquisadores/cientistas angl√≥fonos levam reconhecida vantagem em termos da reverbera√ß√£o internacional de seus trabalhos em rela√ß√£o, por exemplo, a pesquisadores/cientistas n√£o-angl√≥fonos.

Em sua competente an√°lise acerca de classifica√ß√Ķes internacionais de universidades e, especialmente sobre a classifica√ß√£o ‚ÄúXangai‚ÄĚ[10], Herv√© Th√©ry (2010: 192) diz a esse respeito:

Outro fator de distorção é que o inglês tornou-se, na maior parte dos campos científicos, a língua internacional e que os universitários do mundo anglófono são muito mais integrados ao circuito internacional que os seus homólogos dos outros blocos culturais. Consequentemente, essa classificação das universidades favoreceu claramente os países para os quais o inglês é a língua materna.

Outra distor√ß√£o apontada por Herv√© Th√©ry (2010: 191-2) quanto √† classifica√ß√£o ‚ÄúXangai‚ÄĚ, diz respeito √† subestima√ß√£o clara das ci√™ncias sociais e humanas. Conforme o autor:

O lugar das ciências sociais e humanas é claramente subestimado nessa classificação, os próprios autores o reconhecem, mas eles confessam não ter encontrado, para esses campos científicos, critérios que correspondam às exigências que tinham fixado: medidas universalmente reconhecidas como válidas e livremente acessíveis na internet. Em especial, o fato de não poder dispor de uma classificação dos livros, um dos principais meios de expressão dessas ciências, prejudicou a sua inclusão correta na classificação.

Se, entretanto, insistem alguns em comparar o incompar√°vel, uma das conclus√Ķes a que podemos chegar √© a de que a USP √© muito mais Classe Mundial que as dez melhores universidades do mundo, afinal de contas, conseguimos ser a melhor universidade da Am√©rica Latina e estar hoje entre as 70 melhores do mundo, com pouco mais de 70 anos de hist√≥ria, utilizando muito menos recursos que a maioria delas e abrigando 3, 4 ou 5 vezes mais alunos que a maior parte dessas institui√ß√Ķes.

ISTO POSTO, N√ÉO DEVER√ćAMOS N√ďS ENSINAR A ELES OS NOSSOS M√ČTODOS E N√ÉO O CONTR√ĀRIO?

Entre os rankings internacionais e as avalia√ß√Ķes nacionais

Na onda dos ranqueamentos internacionais, outro processo em curso na USP é o de criação de um novo sistema de avaliação da qualidade de sua pós-graduação.

Para que e a quem servem os sistemas de avalia√ß√£o seja de universidades ‚Äúclasse mundial‚ÄĚ ou de programas de p√≥s-gradua√ß√£o?

1. No caso da avaliação da pós-graduação, o sistema Capes tem servido, entre outras coisas, para fomentar a competição entre Programas, em escala nacional. Como? Os Programas melhor classificados são aqueles que recebem mais recursos. Assim, esse sistema trabalha para manter na penumbra aqueles que apresentam maiores dificuldades; enquanto isso, os melhores têm suas receitas fortalecidas.

2. Um sistema de avalia√ß√£o pautado na competi√ß√£o contribui, efetivamente, para ‚Äúvarrer‚ÄĚ do universo da p√≥s-gradua√ß√£o os Programas que n√£o conseguem melhorar suas notas, por raz√Ķes diversas, entre as quais a dificuldade em vencer os mecanismos vorazes da competi√ß√£o (fatores temporais ‚Äď programas jovens; fatores geogr√°ficos ‚Äď dificuldade em fixar professores/pesquisadores em lugares distantes dos centros econ√īmicos mais din√Ęmicos do pa√≠s, fatores financeiros ‚Äď escassez de recursos, por exemplo).

3. Coincide, historicamente, com a instala√ß√£o do sistema de avalia√ß√£o da Capes uma reconhecida perda de qualidade na forma√ß√£o geral de p√≥s-graduandos no Brasil. Naturalmente, n√£o se pode atribuir √ļnica e exclusivamente √† avalia√ß√£o Capes algo que decorre de um sucateamento do ensino em todos os n√≠veis no pa√≠s, reinante durante d√©cadas. Todavia, algu√©m duvida de que existe rela√ß√£o direta entre avalia√ß√£o Capes e encurtamento de prazos na p√≥s-gradua√ß√£o stricto sensu? Algu√©m tem d√ļvida de que o sistema de avalia√ß√£o Capes fomentou, de forma incomensur√°vel, o produtivismo no pa√≠s? Algu√©m¬† duvida de que prazos menores e professores e alunos focados na produ√ß√£o-fim (ou seja, a produ√ß√£o por ela mesma) contribuem significativamente para piorar a qualidade da p√≥s-gradua√ß√£o?

Tais inquieta√ß√Ķes me conduzem a perguntar: como se fazia a avalia√ß√£o da produ√ß√£o na USP, por exemplo, nos anos 50, 60 e 70?

O reconhecimento nacional e internacional da USP, historicamente constru√≠do, subordinou-se, durante d√©cadas, √ļnica e exclusivamente¬† √† inser√ß√£o social de seus formandos, graduados e p√≥s-graduados, bem como √† sua produ√ß√£o cient√≠fica, que revolucionou diversos setores da vida social.

Todavia, na medida em que, p√≥s anos 80, come√ßa a ampliar-se, substancialmente, o universo da p√≥s-gradua√ß√£o brasileira, ‚Äúa fatia do bolo‚ÄĚ para cada um tinha de diminuir!

√Č nesse contexto que assumimos uma l√≥gica empresarial de avalia√ß√£o, fundada n√£o somente na produ√ß√£o, mas sobretudo e principalmente na produtividade. Paradoxalmente, enquanto o setor produtivo se flexibiliza, supera o paradigma fordista e incorpora princ√≠pios toyotistas, a vida cotidiana na universidade volta-se para a produ√ß√£o em massa al√©m de tornar-se cada dia mais inflex√≠vel!

A melhor avalia√ß√£o da USP foi e continua sendo feita pela sociedade brasileira, de modo geral, e paulistana, especificamente. A inser√ß√£o de nossos egressos, tanto da gradua√ß√£o como da p√≥s-gradua√ß√£o em todos os setores do mercado de trabalho, incluindo-se postos de lideran√ßa em escolas de ensino fundamental e m√©dio, universidades, empresas de todos os ramos e governos em todas as escalas expressa a verdadeira reverbera√ß√£o do investimento p√ļblico onde ele deve reverberar.

Por fim concluo acreditando que temos empenhado muito tempo e energia na constru√ß√£o de par√Ęmetros, indicadores e relat√≥rios de avalia√ß√£o, os quais alimentam uma verdadeira esquizofrenia avaliativa nacional. Enquanto isso, nossos alunos clamam, simplesmente, por uma boa aula, por um pouco de aten√ß√£o, por uma boa conversa, enfim, atividades elementares, ¬†cada vez mais dif√≠ceis de serem desenvolvidas em um cotidiano acad√™mico regido pela competi√ß√£o. Quanto ao tempo para a pesquisa, passou a ser um sonho de todos n√≥s. Algo me parece estar errado.

Sem mais, despeço-me, cordialmente,

Profa. Dra. Rita de C√°ssia Ariza da Cruz

Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Geografia Humana da FFLCH/USP

 

[10] Instituição Escore (2008)

1 Harvard University 100

2 Stanford University 73,7

3 University of California ‚Äď Berkeley 71,4

4 University of Cambridge 70,4

5 Massachusetts Institute of Technology (MIT) 69,6

6 California Institute of Technology 65,4

7 Columbia University 62,5

8 Princeton University 58,9

9 University of Chicago 57,1

10 Oxford University 56,8

Fonte: TH√ČRY, Herv√©. Classifica√ß√£o de universidades mundiais: ‚ÄúXangai‚ÄĚ e outras. estudos avan√ßados 24 (70), 2010. Dispon√≠vel aqui.

FMUSP 100 Anos – Carta do Prof. Arrigo Raia

Faculdade de Medicina com o Hospital das Clínicas as fundo. Provavelmente década de 50.

O Ecce Medicus publica hoje, como parte das comemora√ß√Ķes dos 100 anos da Faculdade de Medicina da USP, uma carta do professor Arrigo Raia divulgada originalmente no jornal da Funda√ß√£o Faculdade de Medicina. A FMUSP n√£o √© a faculdade de medicina mais antiga do Brasil, mas talvez seja a que disp√Ķe de uma mesa mais farta para que cada aluno possa se servir. Seu pr√©dio na avenida Dr. Arnaldo e o museu de medicina valem uma visita. A FMUSP comemora 100 anos da formatura de sua primeira turma junto com o centen√°rio de seu aluno decano.

Uma vida longa como a da FMUSP

Nasci em Araraquara, no interior de S√£o Paulo, dia 23 de agosto de 1912. Em breve completarei meu centen√°rio, junto com a Faculdade de Medicina da Universidade de S√£o Paulo (FMUSP), escola em que me formei e vivi grande parte da minha vida. Eu sou a √ļnica pessoa viva que acompanhou a faculdade por todos os lugares por onde ela passou. Primeiro na Rua Brigadeiro Tobias, em seguida na Santa Casa de Miseric√≥rdia de S√£o Paulo e depois minha turma inaugurou os edif√≠cios da FMUSP na Avenida Dr. Arnaldo, onde est√° at√© hoje. A medicina chegou √† minha vida muito cedo. Meu av√ī materno era italiano e m√©dico. Ele veio para o Brasil e desde pequeno eu o acompanhava nas visitas aos doentes, no trole ou no carro para passear, ent√£o com 8 anos eu j√° tinha vontade de ser m√©dico cirurgi√£o.

Entrei na FMUSP em 1931 e me formei em 1936. Nos primeiros tr√™s anos, o curso era ministrado na Avenida Dr. Arnaldo. No quarto ano passamos para a Santa Casa de Miseric√≥rdia de S√£o Paulo e a princ√≠pio eu me decepcionei, porque naquela √©poca a cirurgia era muito restrita e nos casos das cirurgias maiores o √≠ndice de mortalidade era muito grande. O panorama mudou muito quando, em 1945, o Prof. Dr. Benedito Montenegro assumiu a dire√ß√£o da primeira cadeira de cl√≠nica cir√ļrgica e o Prof. Dr. Al√≠pio Corr√™a Netto assumiu a segunda cadeira, em 1946.

No √ļltimo ano da faculdade, o governo italiano ofereceu uma passagem para 12 alunos. Em 1937, fomos em caravana para a It√°lia e tivemos a oportunidade de conhecer diferentes cl√≠nicas. Como eu j√° havia terminado o curso, estendi a viagem e fui para a Alemanha. Voltei para o Brasil em 1938 e regressei para trabalhar com o Prof. Al√≠pio. A partir da√≠, desenvolvi toda a minha carreira na FMUSP. Em 1939, me tornei o terceiro assistente da cadeira de Cl√≠nica Cir√ļrgica, dirigida pelo Prof. Dr. Al√≠pio. Em 1941, fui nomeado para exercer o cargo de Professor de Enfermagem Cir√ļrgica da Escola de Enfermagem Obst√©trica da FMUSP. Em 1943, me tornei Livre Docente de Cl√≠nica Cir√ļrgica. Em 1961, conquistei, atrav√©s de concurso, o t√≠tulo de Professor Adjunto. Em 1970, assumi o cargo de Chefe de Disciplina do Aparelho Digestivo do Departamento de Cl√≠nica Cir√ļrgica. E em 1973, ap√≥s concurso, conquistei o t√≠tulo de Professor Titular do Departamento de Cirurgia.

Logo ap√≥s me tornar Professor Titular da cirurgia do aparelho digestivo, adotei uma conduta pioneira, acredito que no mundo, dividindo a especialidade em grupos dedicados, respectivamente, a cada um dos setores da disciplina, entregando a chefia a jovens cirurgi√Ķes que gradativamente se transformaram em l√≠deres na especialidade. S√£o eles: es√īfago, Prof. Henrique Walter Pinotti; est√īmago, Prof. Jos√© Gama Rodrigues; colo, reto e √Ęnus, Profs. Daher Cutait e Angelita Habr Gama; f√≠gado e hipertens√£o portal, Prof. Silvano Raia; e vias biliares e p√Ęncreas, Prof. Marcel Cerqueira Cesar.

Fui um professor democrata, dei liberdade aos assistentes para que desenvolvessem suas atividades na disciplina, de tal forma que sete deles se tornaram professores titulares: cinco da FMUSP e dois em outras universidades.

Com a colabora√ß√£o, contribu√≠mos para a evolu√ß√£o da cirurgia digestiva em nosso meio, de tal sorte que, ao fim do meu mandato de professor, eram praticadas todas as t√©cnicas cir√ļrgicas para tratamento das doen√ßas do apare- lho digestivo, da apendicectomia ao transplante de √≥rg√£os.

Após muitos estudos, em 1971, eu e os Profs. Silvano Raia e Marcel Cerqueira Cesar Machado realizamos o primeiro transplante de fígado. O paciente sobreviveu 20 dias. Em 1974, fui convidado a participar da comissão médica que ajudaria na instalação e estruturação do Hospital Universitário (HU), auxiliando na escolha e aquisição dos equipamentos.

Durante minha trajet√≥ria publiquei tr√™s livros: ‚ÄúManual de Pr√© e P√≥s-operat√≥rio‚ÄĚ, com a colabora√ß√£o dos Drs. Joel Faintuch e Marcel Cerqueira Cesar Machado; ‚ÄúManifesta√ß√Ķes Digestivas da Mol√©stia de Chagas‚ÄĚ e ‚ÄúTratado de Cl√≠nica Cir√ļrgica Al√≠pio Corr√™a Netto‚ÄĚ, com a colabora√ß√£o do Dr. Euriclydes de Jesus Zerbini. Fui agraciado com 33 pr√™mios concedidos por sociedades cient√≠ficas e congressos m√©dicos, destes dez foram outorgados pela Academia Nacional de Medicina e um pela Academia Americana pelo progresso da ci√™ncia de Nova York. Sou membro de 14 sociedades m√©dicas nacionais e internacionais e, dentre elas, membro em√©rito do Col√©gio Brasileiro de Cirurgi√Ķes.

Recentemente, fui homenageado em uma comemoração do centenário da FMUSP como aluno mais antigo da faculdade. Fiquei muito feliz por ter sido lembrado e pelo reconhecimento de todo meu trabalho junto à Faculdade e ao Hospital.

Além da minha família, a cirurgia foi minha paixão durante toda a vida: operei até meus 86 anos. Já estou no segundo casamento, tenho uma filha, dois netos e quatro bisnetos. Hoje, com quase 100 anos, minha maior alegria e diversão é brincar com meus bisnetos, e também faço caminhadas e musculação. Sempre que posso, viajo para rever minha cidade, Araraquara.

Bendigo o momento em que decidi seguir a carreira m√©dico-cir√ļrgica. Muito trabalhei, muitos exemplos transmiti, muito ensinei e muito recebi em troca. Na fase atual de minha vida, sinto-me realizado e com experi√™ncia suficiente para dizer aos mais jovens que vale a pena todo o sacrif√≠cio que a carreira m√©dica exige. Al√©m de tudo, nos oferece um ocaso tranquilo e feliz pela n√≠tida no√ß√£o do dever cumprido.

Prof. Dr. Arrigo Antonio Raia Médico Cirurgião e Professor Emérito da FMUSP

Carta da Lu ou Sobre como o Mito de Tritão-Sereia influencia a Vontade de Salvar da População Médica Brasileira

O Ecce Medicus pretende, quem sabe um dia, ser um espa√ßo para reflex√Ķes sobre a profiss√£o m√©dica. Por essa raz√£o, h√° algum tempo, venho convidando pessoas, m√©dicos ou n√£o, a escrever sobre suas pr√°ticas e viv√™ncias relacionadas √† profiss√£o de Hip√≥crates. Hoje, publico uma carta da Dra. L√ļcia, m√©dica infectologista e intensivista do Paran√°.¬†

“Querido Karl,

Queria te contar como foi a minha semana passada!¬†Faz tempo que n√£o batemos papo, e, devo confessar, faz tempo que mal tenho tempo pra ler o seu blog, que sempre alimenta os olhos e a alma… E p√Ķe meu cerebro pra funcionar tamb√©m! Afinal, nesta nossa correria di√°ria, vivemos embotados, no autom√°tico, mantendo a cabe√ßa acima da linha d’√°gua… Ops!¬†√Č bem esse o assunto! Protocolos e √°gua!

A Secretaria de Sa√ļde do Estado do Paran√°, numa parceria com o Corpo de Bombeiros do Estado, patrocinou um curso de Salvamento Aqu√°tico. O coordenador foi o Dr Ten Cel David Szpilman, autoridade mundial em afogamento. Tirando o fato de estar na frente de um dos mestres, a emo√ß√£o estava em nivelar a todos, socorristas, guarda vidas, t√©cnicos de enfermagem, enfermeiras e m√©dicos, desde o √≠nicio do curso. As estat√≠sticas s√£o impressionantes, caro Karl. Cerca de 7000 √≥bitos por afogamento todo ano no pa√≠s, dimens√Ķes continentais, n√£o? Pessoas jovens, com grande expectativa de vida, produtivos. N√≥s nos acostumamos a enxergar o que chega ao hospital, que s√£o os mais graves e mais dif√≠ceis de recuperar. N√≥s acostumamos a pensar que afogamento √© coisa de mar grande e rio bravo. Quem se afoga e morre hoje? ¬†S√£o mais de 100.000 acidentes n√£o-fatais no BRASIL! Nos pacientes de 1-14 anos, o afogamento √© a segunda causa de morte. Na aula de acolhimento com estat√≠sticas, a surpresa: as crian√ßas morrem em casa, na banheira, na piscina, no tanque! Cerca de 70% das pessoas que se afogam no litoral s√£o pessoas que vivem fora da orla. Essa cat√°strofe crescente est√° sendo mapeada gra√ßas aos esfor√ßos e iniciativa do Dr. Szpilmann, que classificou e estudou os tipos de afogamento (link pro site Sobrasa). Os melhores dados do mundo s√£o os dados brasileiros.¬†A educa√ß√£o para a preven√ß√£o hoje se mostra a maneira mais racional de combate a esse tipo de morte, uma vez que apenas 7% dos que se afogam em grau 6 sobrevivem, 0,5% sem sequelas. (Clique aqui para ver a classifica√ß√£o de afogamentos. Arquivo pps, em portugu√™s).

Pra come√ßar, fomos convidados a piscina! Cada dia mais todos convivemos com esportes aqu√°ticos e estamos acostumados a nos divertir na √°gua, no ver√£o. Eu mesma sou uma entusiasta da √°gua: nado desde os oito anos, hoje mergulho, tenho o Rescue Diver como um dos cursos mais importantes que fiz na vida de mergulhadora. Voc√™ sabe nadar? √ďtimo, n√£o se arrisque. Mas voc√™ sabe ajudar algu√©m em apuros, para que n√£o vire estat√≠stica?¬†Coragem e t√©cnica s√£o atributos diferentes e podem fazer a diferen√ßa entre a vida e a morte de uma ou duas pessoas (sim, a pessoa em apuros e seu poss√≠vel salvador! ¬†Ops, agora v√≠tima tamb√©m!).¬†Como profissionais de sa√ļde, sempre somos refer√™ncia em situa√ß√Ķes de risco. E, acostumados com a cena hospitalar montada e razoavelmente confort√°vel, como reagir numa situa√ß√£o de salvamento? ¬†Voc√™ n√£o tem a enfermeira e o oxig√™nio com a m√°scara, voc√™ n√£o tem quatro pares de m√£os habilitadas ao seu redor, voc√™ tem apenas voc√™ e a v√≠tima. E um momento de festa em fam√≠lia, de lazer e recrea√ß√£o se transforma no seu pior pesadelo, atender, SALVAR a quem voc√™ ama! (n√£o estamos discutindo o cunhado nem a sogra, nem as rela√ß√Ķes familiares…).¬†Choque! N√£o, n√£o tem desfibrilador, mas sim, um corpo boiando em parada respirat√≥ria…¬†Karl, acostumados que somos em salvar vidas, em processos invasivos complicados, em atos m√©dicos e monitoramentos… S√≥ voc√™ e a v√≠tima… Sentiu o arrepio?

Isto n√£o √© o resgate do naufr√°gio do Titanic. √Č um treinamento na praia

Hoje, vou pra √°gua mais tranquila! Porque sempre digo: o engenheiro est√° andando na rua e um pr√©dio que ele n√£o construiu desaba. Ele se compadece e continua. Um advogado assiste ao crime e se protege. E continua. Mas n√≥s m√©dicos, se vemos algum mal s√ļbito acontecendo ao nosso redor, seremos sempre m√©dicos. E se mais algu√©m souber, ainda respondemos por omiss√£o de socorro, neglig√™ncia, caso n√£o estejamos prontos a atuar. Esse “inconsciente coletivo”, do m√©dico-Deus, onisciente, onipotente, nos atinge, faz todas as cabe√ßas virarem em nossa dire√ßao.¬†Pois entender como prevenir, evitar, reconhecer o risco, e iniciar o atendimento pr√©-hospitalar, definidor de quem vai viver ou n√£o nos afogamentos, me faz sentir melhor hoje.

Recebo muitas vítimas de afogamento, de todos os níveis. O conhecimento dos protocolos de atuação, desde a praia até a UTI, nos ajuda a falar uma só língua, entender o valor de cada passo, o empenho do guarda vida, a valorização da VIDA!  Quem sempre me impressionou e hoje valorizo ainda mais, é o Guarda-Vidas. PARECE fácil se jogar e tirar alguém da água. Arriscar a propria vida, Karl!  Não tem nada parecido na medicina intra-hospitalar!  Gastar muita energia, muita técnica e muita garra, não tem nada de fácil.  Existem homens (e mulheres) assim. Quem dera existissem coragens, energias, técnicas, GENTES assim, em todas as áreas. Ver e ser parte do mito do Tritão-Sereia, dominar a força do mar por alguns instantes e ver a vida resistindo, lutando, querendo! Isso muda muitas perspectivas.

Vou voltar a nadar amanh√£.”

Civil em treinamento

Fotos cedidas pela autora.

Links interessantes

1. Sobrasa Referências, apostilas e aulas.
2. Poseidon Algumas estatísticas nos EUA (em inglês)
3. Drowning No EMedicine. Precisa inscrição (em inglês).