Clavícula

Da série “textos que eu gostaria de ter escrito” segue este. Créditos ao final.

“Clavícula?…” 

A palavra hesitante do calouro mais afoito rompe o silêncio nervoso e escorre pelas paredes de azulejo branco do anfiteatro do velho Instituto Anatômico, em resposta à primeira pergunta de um curso de Medicina de seis anos. Na véspera, o vetusto catedrático deixara na bancada de aço inoxidável esse osso singular, que há mais de trinta anos abre seu Curso de Introdução à Anatomia Humana, junto à pergunta, “Alguém pode identificar?” 

“Clavícula,” repete o calouro, agora mais seguro de si. 

“Clavícula, sim. Em latim, ‘pequena chave’. Algum dos doutores pode me explicar por que? Será pela semelhança do formato?…” 

À distância, os futuros médicos procuram ansiosamente alguma similitude formal entre aquele osso solitário e qualquer outra chave do seu cotidiano. Com um gesto magistral, generoso, o catedrático entrega-o aos jovens da primeira fila, que passam o objeto de mão em mão, entreolhando-se, céticos, envergonhados. 

“…Quiçá. Porém sabiam também os anatomistas clássicos que a clavículaé o primeiro osso a se formar no feto, e o último a se desvitalizar no cadáver. Portanto, a clavícula é a pequena chave que abre e fecha a vida.” 

O silêncio volta ao anfiteatro. Alguns calouros estão até com os olhos marejados. Mas é só o cheiro de formol nas paredes. Eles ainda vão se acostumar..

Retirado da tese de doutoramento de Christopher Robert Peterson, 1999 que pode ser acessada aqui.

Crochê

“O tempo é o tecido da vida”

Antonio Cândido

Descendente de italianos que enriqueceram no Brasil, aos vinte anos de idade casou-se com o estudante de Agronomia que conheceu num baile de debutantes e que viria a lhe proporcionar um padrão de vida ainda melhor que a casa dos pais. Aos trinta, duas filhas, um marido bondoso, empregados e uma casa em ordem para cuidar. A vida doméstica entremeada por viagens, cursos de culinária, mais viagens, cursos de cerâmica e eis que, entre uma viagem e outra, aprendeu a fazer tricô. E crochê. A sensação de tecer fios e convertê-los em algo útil e belo foi transformadora; não sabia bem explicar o porquê. Aulas caras com professoras exclusivas que “não aceitavam qualquer aluna, não!”. Só por indicação, e isso apenas depois de saber a qual família pertenciam as ansiosas pretendentes. Havia uma professora, muito exigente, que com a unha comprida do dedo mínimo costumava desfiar uma tarde inteira de trabalho só porque um ponto errado, lá atrás, deixara uma irregularidade no tecido. Ficou sabendo que, à época, a melhor lã que se vendia no Brasil era a de Petrópolis e lá ia ou, mais comumente, as mandava buscar. No Chile, enquanto a família esquiava, ela comprava lã. Na Argentina, nada de roupas feitas, apenas a mais pura lã para fazer mantas. Em Praga, enquanto procuravam cristais, ela arrematava um lote de lã de carneiro para pullovers e saias destinados às filhas em um comércio qualquer, fazendo com que todos a esperassem desenhar e explicar com gestos o que queria ao sorridente vendedor de traços árabes. E foi assim que adquiriu o hábito de comprar novelos de lã. De cores, tamanhos, espessuras e texturas diferentes para os mais variados fins. Aos quarenta, colecionou novelos como quem coleciona boas lembranças. Aos cinquenta, guardou-os num grande armário. Aos sessenta, não os viu. Aos setenta, mudou-se para um grande apartamento e, em nome de uma nova e premente organização domiciliar, mandou fazer lindas caixas para guardar os novelos em um lugar especialmente reservado num novo e espaçoso closet de madeira clara, sem portas. Claro.

Aos setenta e três, levou um enorme susto. Entrou no closet e teve a horrível sensação de que tinha novelos demais. Tomou de uma caixa aleatoriamente e ao abri-la, viu quatro enormes novelos azul-turquesa. Londres! Destinados a um colete para o marido. Abriu outra, uma profusão de cores onde predominava o bordô e derivados de vermelho e amarelo. Buenos Aires, colchas para as meninas. Outra, verdes-água, azuis-marinhos, tons de laranja. Paris, meias. Petrópolis, saias. Boston, cachecóis. Carmins, rosas, casacos, lilases, marrons, blusas. Sua cabeça começou a girar. Sentiu uma vertigem sufocante ao defrontar-se com tudo aquilo de um só golpe: combinar memoriosos novelos, peças de vestuário negligenciadas e a nesga de tempo que ainda julgava dispor, conjurava seu passado glorioso, seu presente cru e seu futuro incerto em uma armadilha metafísica. O passado dos lugares e momentos felizes medido nas tranças dos coloridos novelos cedia vez à negação do presente, pois a mera existência dos novelos era o reconhecimento de uma ausência que só dela dependia para persistir. O futuro também não lhe reservava melhor sorte, minguado e exíguo, ocupado das doenças e nas coisas da idade. Nem se tratava de perceber – como, aliás, se percebe com frequência – que o tempo passara demasiadamente rápido. Não. O pavor provinha do extravagante estado de desorientação no interior do qual já não era possível distinguir passado, presente e futuro. O passado ao mesmo tempo em que presentificava-se nos novelos revolvidos, não lhe permitia escolhas futuras tangíveis; souvenires representativos de uma época feliz cruzavam eras para lhe trazer um futuro que ela sabia não viria em tempo algum. Teve falta de ar e o coração acelerou.

A agnosia temporal durou minutos que ela não interpretou como eternidade: a flecha do tempo resolvera andar em círculos. Com dificuldade, moveu sua mão direita e abriu a gaveta onde estavam os pares das longas e grossas agulhas de crochê tunisiano acariciando-as com os dedos nodosos e macios. Só então notou no chão do closet o colorido dos novelos e das inúmeras caixas abertas em uma desordem quase impressionista. Suspirou. Pôs os óculos na ponta do nariz e alcançou um dos grandes e espessos novelos azul-turquesa. Tirou o papel que o cinturava e puxou um metro de reluzente lã inglesa, passando-a pela nuca. Sentou-se na beirada do pufe e, com movimentos precisos, pespegou uma fieirada de pontos-meia. Lembrou que os pontos emprestavam às cores dos fios uma outra dignidade. Teceu outra fileira. E outra. Sorriu ao ver o novelo transmutando-se em um quadrilátero simples apenas pelo esforço de suas mãos. O fio, trançado àquela maneira, também tinha outro tato, pois o milagre geométrico do crochê consiste em transformar linhas em planos permitindo à palma das mãos deslizar sobre uma superfície macia onde antes havia apenas a sensação bidigital do comprimento. A substância do crochê parece também conter algo mesmo da natureza do tempo já que se, por um lado, quanto mais complicado é o ponto, mais fio ele gasta para existir, por outro, a vida talvez possa ser entendida como a conversão da linha contínua do tempo na extensão de uma colcha que chamamos vulgarmente de “mundo”. Assim configurada, tal colcha talvez sirva para tornar suportável a sensação de linearidade existencial e nos preservar de sua passagem inconsequente e sem sentido. Ou, quem sabe, até para nos revelar em suas irregularidades essa impertinente e mordaz insensatez que, vez por outra, costumamos desfiar com a unha comprida do remorso…

Aquietou-se, de fato, imersa em sua atividade. A respiração tomou o ritmo pachorrento dos que nela não se atêm. E então, lentamente, a cada fileira de pontos, o passado, o presente e o futuro desvencilharam-se uns dos outros e retomaram seus lugares nas lindas caixas especialmente reservadas a eles. A agulha de crochê, como uma varinha de condão, ordenou desejos, arrependimentos, saudades e projetos, atribuindo a tudo o sentido apropriado. E apenas depois disso – em verdade, tão somente após a decifração temporal que só as atividades cotidianas e simples têm o poder de celebrar ou, no mais das vezes, ocultar, se assim julgar conveniente o nosso relógio existencial -, apenas após isso então, ela pôde voltar a envelhecer em paz.

Semáforo

“Quando eu era pequeno, sentado atrás no carro, eu punha minha cara entre os bancos do motorista e do passageiro enquanto o observava mudar as marchas do carro e prestava atenção nos movimentos ligeiros de seus pés nos pedais. Por vezes, quando o semáforo estava vermelho e íamos nos aproximando dos carros parados, ele costumava estender a mão direita e, apertando os olhos negros e fundos, sussurrava palavras incompreensíveis que faziam com que o sinal abrisse e nós, apesar de diminuirmos a velocidade, continuavamos nossa viagem sem ter que parar por completo. Eu achava o máximo”. Continuou. “Depois de um tempo, comecei a notar que os intervalos entre o lançamento do ‘poder abridor de semáforos‘ e as luzes verdes eram variáveis e passei a pedir a ele que ‘fizesse‘ um ou outro semáforo aleatório abrir logo quando ele estava desprevenido. Ele dizia que não! Que não poderia ficar interferindo com a vida normal na Terra; que aquilo era um poder para ser utilizado apenas em algumas situações”. Suspirou profundamente e senti no sorriso pálido e no olhar esquivo, uma ponta de emoção soterrada agitar-se. “Com o tempo, passei a ocupar o banco da frente. Mesmo assim, às vezes, ele ‘fazia‘ alguns semáforos abrirem e ríamos. Quando ele ficou doente, a muito custo, consegui que me deixasse dirigir. Sentado no banco de passageiros e coberto com uma colcha espessa devido ao frio, certo dia, no inverno passado, ele levantou a mão ossuda na postura característica, apertou os olhos, franziu as sombrancelhas grisalhas e ‘abriu’ o sinal da avenida onde fica o hospital. Acho que foi a última vez”. Sorriu.

Eu e ele ficamos um tempo parados olhando para aquele homem sobre o leito. A cânula endotraqueal número 8,5 obedecia a curvatura do céu da boca descrevendo um arco e como uma minúscula e transparente tromba, unia-se ao filtro umidificador para finalmente conectarem-se ás mangueiras do ventilador mecânico por intermédio de uma peça Y azul escura. Os monitores cardíaco, do próprio ventilador e da máquina de diálise, de coloridos e tamanhos diferentes, emprestavam um ar tecno-tristonho ao quarto semi-escuro; neons blade-runnerianos que não faziam companhia apesar de sua constante presença. Ritmos e ruídos eletromecânicos, ásperos sons, abafavam as vozes humanas da equipe que lavorava fora do quarto. A vida ali era um silêncio de orgãos artificiais ruidosos.

Sob sedação contínua, suficiente para inibir seus reflexos respiratórios, ele permanecia em decúbito lateral direito, mas era preciso mudar sua lateralização de tempos em tempos de modo a não deixar que úlceras de pressão aparecessem sob as superfícies ósseas já bastante protuberantes. Parecia dormir, sem sinais de desconforto quaisquer. Suas possibilidades de melhora eram muito remotas. A equipe multidisciplinar da UTI havia optado por cuidados paliativos e pela priorização das medidas de conforto. Entretanto, os meios de suporte avançado ainda estavam lá em pleno funcionamento: a máquina de diálise, o ventilador mecânico, as drogas.. Nada havia sido retirado. Apenas suspenso, por tempo indeterminado, até ao menos que se decidisse com os familiares quais medidas tomar (ou não tomar). Morfina e hipnóticos eram administrados por intermédio de um catéter no braço direito, diretamente na veia cava e faziam seu papel pacificador. Enquanto conversávamos, a equipe de enfermagem entrou para higienizá-lo e mudar seu decúbito. Saímos e continuamos a conversa do lado de fora, observando a destreza do trabalho dos profissionais através da janela de vidro.

Em determinado momento, ao ser manipulado, o paciente fez uma careta e tossiu. Deitado agora em posição supina, moveu as pernas e os braços desajeitadamente. Um dos técnicos de enfermagem me dirigiu um olhar interrogativo e eu entendi que teríamos que aumentar as medicações sedativas. Fiz um sinal com a mão para que continuassem e que depois cuidaríamos disso. Ao saírem do quarto, a enfermeira me disse que ele estava movimentando as mãos e que poderia sacar inadvertidamente algum catéter ou tubo e que por essa razão, iria restringi-lo. O rapaz me olhou e eu expliquei que isso era um procedimento padrão; que se aumentássemos o nível de sedação, talvez não fosse necessário. A enfermeira saiu e entramos novamente no quarto.

Talvez pela mobilização do paciente, a máquina de diálise parou de girar suas quatro bombas independentes e uma pequena luz vermelha começou a piscar juntamente com um alarme sonoro, indicando algum tipo de obstrução ou mesmo aumento da pressão nas vias da circulação extracorpórea. “Esse ‘sinal’ poderia permanecer vermelho para sempre?”, me perguntou, sorrindo. Eu disse que sim. Que poderíamos interromper o procedimento dialítico assim que as conexões fossem trocadas, o que deveria ocorrer em 24 a 48 horas. Ele disse “Ok”.

Foi quando ele levantou a mão direita e eu corri para contê-lo, mas fui impedido pelo rapaz. Ele disse “Olhe! A posição da mão. Era assim que abria os faróis”. Observei o movimento, mas estava mais atento para a possibilidade dele arrancar algum dispositivo. Nada aconteceu. Sua mão direita caiu, pesada sob a cama, após apenas alguns segundos no ar. O rapaz me agradeceu e saiu rapidamente. Eu perguntei onde ele iria. Ele me justificou sua saída rápida com “Ele não vai mais interferir na vida aqui na Terra. Tenho que cuidar das coisas”.

O homem veio a falecer naquela mesma noite, no meu plantão. Em paz.

Auto-Autópsia

B body

Um cirurgião torácico, muito bom por sinal, me chamou para um café. Normalmente reservado, contou que não tinha problemas de saúde exceto pelo fato de que dormia mal. Ao me ver interessado, ele começou a desfiar histórias de alguns pacientes que, pensava, ao proceder de maneira incorreta, de alguma forma os havia prejudicado. Depois, contou que acordava frequentemente durante a noite e ficava pensando nos casos recentes que havia operado. Será que se fizesse isso ou aquilo, não seria melhor? Talvez essa técnica ou outra… E que aquela confabulação toda lhe tirava o sono e o dia seguinte era terrível e cafeínico. E ao dizer isso, abriu os braços para a xícara apoiada no balcão como que a justificar aquele que seria talvez o sétimo ou oitavo cafezinho do dia. Tal situação se agravara recentemente. Tomou o restante da xícara de café e raspou o açúcar do fundo com a colherinha que depois levou à boca como um micro-picolé. Assim, desse jeito, cercou-se de um ar pueril e frágil em franco contraste com alguém capaz de extirpar minhas costelas. Eu ri.

Ele não. Suspirou e disse que uma semana atrás, numa noite de terça-feira, dormira “anormalmente” bem. E sonhara, coisa que há muito não acontecia. Entretanto, era agora a lembrança do sonho que não lhe saía da cabeça. Eu perguntei se poderia contá-lo e ele disse que sim, quem sabe eu o poderia ajudar a interpretar?

Sonhou que estava à cabeceira de um cadáver parcialmente dissecado e que mostrava os órgãos internos a um grupo de alunos. Dizia para observarem as estruturas do coração com suas câmaras e a irrigação característica. Mostrava os vasos e vias aéreas do hilo pulmonar com sua disposição arbórea. Mostrava os pulmões com a antracose característica dos fumantes e dos moradores urbanos. De repente, ao chegar ao abdome, disse que não poderia prosseguir e ao virar o rosto do cadáver, viu que o corpo não era outro senão ele mesmo. Sentiu-se mal, percebeu que estava sonhando e fez aquele esforço característico em acordar, despertando suado e taquicárdico.

Disse que contou o sonho a uma paciente e que ela o interpretou como sendo uma demarcação dos limites daquilo que ele poderia fazer. Ao chegar ao abdome, território fora de sua especialidade basicamente restrita ao tórax, ele teve que interromper a aula. Eu concordei mas achava que havia algo mais. O fato de ser ele o examinado talvez deixasse transparecer uma possível reflexão crítica de seus próprios atos. Talvez, o mais interessante seja que para um cirurgião – alguém que “pensa” com as mãos – uma reflexão crítica venha a se concretizar como uma “auto-autópsia”. (Antes de me esquartejarem por essa aberração, lembremos que o significato original de autópsia é “ver com os próprios olhos”, o que, ao menos em parte, justifica a superposição dos termos. A expressão no título é provocativa e descaradamente apelativa ;)).

Ele pensou e me perguntou o que fazer com essas dúvidas que o atormentavam. A cada dia que passava, mais pacientes ele operava e mais dúvidas ele tinha. Percebi que esse era um daqueles momentos capitais nos quais é preciso resistir à violenta tentação de uma consolação barata qualquer. Evitar aquilo que já foi chamado de solicitude inautêntica por restringir a liberdade de escolha do outro. Fiz duas coisas, então. A primeira foi lhe dar boas vindas ao meu mundo. A segunda foi disparar o bordão: “Quem mandou não estudar!”.

Lorraine II

lorraine2Lorraine estava agora com fome. Seu estômago doía porque a última coisa que colocara na boca fora na longínqua madrugada de hoje, antes de sair para o trabalho e sentir-se mal com as tais dores abdominais. Já passava das dez. Perguntei como estavam agora as dores e ela disse que haviam sumido quase completamente. Restava uma dor na região epigástrica, misto de queimação com um tipo de pontada, que poderia muito bem ser interpretada simplesmente como “fome”.

Perguntei sobre seu futuro. Ela me contou que gostaria de cursar a Faculdade de Direito, mas achava que era muito concorrida para ela. Não falou sobre cotas, nem sobre como pagar a mensalidade. Isso ela resolveria com a tia, ou por si mesma. Falou que esperava muita dificuldade com os vestibulares dada a base teórica muito frágil que tinha desde os anos em que cursava a escola pública. O ensino médio não ajudou muito porque, na época, não tinha o prazer de “estudar para conhecer”. Apenas “apagava os incêndios das provas e trabalhos”. Palavras dela. Por tudo isso, pensava em fazer Educação Física para pagar a faculdade de Direito! Apesar de não entender a lógica imediata dessa afirmação, preferi continuar ouvindo sem dizer nada.

Na verdade, percebi que ouvi-la falar me acalmava. Mas acalmar do quê? Ou acalmar o quê? Uma moça que fala sobre suas agruras cotidianas sem queixas piegas ou lugares-comuns, que conta como sua vida é sofrida e difícil mantendo uma distância confortável da emoção dos fatos e que, estóica e elegantemente, tolera cólicas e um desagradável desconforto abdominal durante a narrativa, talvez seja mesmo alguém a quem se deva ouvir. O fato de tudo isso me acalmar é que me deixou um tanto intrigado. Quando um paciente inicia uma narrativa de algum grave problema pessoal o que, convenhamos, na minha profissão não é coisa difícil de surgir em conversas com pacientes, ouço de forma profissional e quando julgo ser importante, procuro caminhos que possam ser úteis tanto para o diagnóstico quanto para o paciente. Aprendi na prática diária a não estimular excessivamente narrativas catárticas sobre catástrofes pessoais e isso tem sido uma boa alternativa. Mas o que ocorria ali era outra coisa. E queria ouvi-la “contar histórias”.

O ultrassom não resultou em nenhuma anormalidade. O laboratório, tampouco. Talvez Lorraine tivesse “apenas” o que chamamos de intestino irritável. Após algumas explicações sobre a doença, eu disse a ela para se conformar já que alguma coisa tinha que ficar irritada na sua vida pois, para ela, os humanos e as coisas do mundo eram como simples produtos que precisavam ser meticulosamente organizados numa gôndola de supermercado. Foi quando rimos juntos pela segunda vez. Pensando bem, acho que essa foi a razão de apreciar tanto ouvi-la. Ao contar as histórias da sua vida, Lorraine parecia também colocar algo em ordem na minha.

Lorraine

lorraineA enfermeira me deu duas fichas de pacientes para atender. Atendi primeiro uma senhora de setenta e cinco anos com náuseas. Resolvi rápido, nada de mais. Depois a chamei. – Lorraine? – Sim, sou eu.

Uma moça de vinte anos de idade, negra, esguia, portando um óculos de lentes grossas respondeu. Os dentes brancos e perfeitos esboçaram um sorriso social. Bonita. Após entrarmos no consultório, comecei a perguntar. O problema era uma diarreia crônica, desde há cinco meses. Teve cinco episódios. Emagreceu cinco quilos. Perguntei se havia alguma relação com a menstruação. Ela pensou um pouco e concluiu que a diarreia vinha aproximadamente uma semana após as regras. Sorriu virando levemente a cabeça mas com os óculos focados em mim. Ela ainda não tinha reparado nesse detalhe e pareceu contente com minha pergunta. Disse que ficava de cama durante o período menstrual, por cólicas e muito sangramento. Perguntei se já havia consultado um ginecologista e ela respondeu que ainda não tinha tido relações sexuais. Ouviu minha argumentação em tom de leve bronca sobre incongruência entre os dois fatos, em silêncio. Disse que ia procurar um, ao final.

Comecei a perguntar mais. Sobre o emprego, estudos, dados familiares e ela foi me contando sobre sua vida com extrema naturalidade. Disse que trabalhava em um supermercado no centro da cidade, organizando as prateleiras de biscoitos e papel higiênico, e que seu salário no contra-cheque era de novecentos reais. Mas, com a infinidade de descontos, recebia um líquido de pouco mais de trezentos. Fez o ensino médio no Colégio Mackenzie porque conseguiu uma bolsa por intermédio da tia, mas que teve muita dificuldade em acompanhar o ritmo da classe. Nessa época, trabalhava no McDonald’s no turno da madrugada. Saía da lanchonete às seis horas da manhã para entrar no colégio às sete. Dormia um pouco na estação de trem. Seu salário então, era de fato novecentos reais, mas ficava muito cansada e também dormia durante as aulas. Um dia a diretora a chamou e disse que dessa forma não seria possível continuar, tinha que escolher entre a escola ou o trabalho. Ela optou pela escola e saiu do emprego, terminando o ensino médio, “aos trancos e barrancos” (sic).

Quando a mãe ficou desempregada, teve que trabalhar novamente e arrumou o tal emprego no supermercado. Mora em Itaquera (extremo da zona leste de São Paulo) e vem de metrô todos os dias para o centro. O metrô é muito lotado e recentemente acabou ficando na “caixa” (afastamento do trabalho por motivos de saúde) porque um rapaz prensou seu joelho direito contra as barras de apoio do trem provocando uma lesão ligamentar. A mãe é divorciada do pai, que não ajuda em casa. Ele ajudava com cento e cinquenta reais mensais mas reclamava muito e ela mesma tomou a iniciativa de fazer um acordo no qual ele foi liberado de ajudá-los logo após completar vinte anos. “Não gosta de homem chorão”. Tem dois irmãos. Um teve problemas com a polícia e esteve preso por alguns meses. Ao sair da prisão, envolveu-se em um acidente motociclístico comprometendo o quadril direito. Agora ele movimenta-se com dificuldade e não trabalha. Ela não gosta muito dele também. “Nunca trabalhou” – primeira frase em tom de queixa que disse desde então. O outro irmão tem depressão e também não trabalha. Ela, portanto, sustenta toda a família com o salário espoliado do supermercado, mas não reclama. Só acha que lhe falta tempo. Inclusive para namorar; e foi quando rimos juntos a primeira vez.

A essa altura, eu me dei conta de que havia esquecido completamente do fato de estar no meio de uma consulta médica. Como quem de súbito fecha um livro envolvente mas leva aquele tempo necessário para livrar-se do universo paralelo criado pelo autor, comecei a me desvencilhar da trama tecida pela Sherazade negra e de óculos e tentei pensar fisiopatologicamente. Solicitei exames e pedi um ultrassom. Receitei-lhe um antiespasmódico intravenoso (sim, toda essa narrativa foi feita sob o jugo de cólicas abdominais). Esperei que ela melhorasse e, depois de disfarçar atendendo mais um ou dois pacientes, sentei-me ao seu lado para “ter certeza de que a medicação estava fazendo efeito”. Eu queria ouvir.

 

(continua)

Burburinho e Risadas

cezanne.fiquetA sala pequena do apartamento não comportava todos e alguns estavam na varanda, pouco mais espaçosa. O burburinho e as risadas misturavam-se ao som dos talheres batendo na louça dos pratos e às repreensões sobre não falar de boca cheia, sentar-se direito à mesa… Os meninos devoravam uma lasanha de longa-data-apreciada da avó. O dia era festivo e a avó trouxera sua mãe – a bisavó – de sua distante residência para apreciar a confusão da “juventude”, como gostava de dizer, e matar a saudade dos bisnetos.

Foi quando a avó chamou a atenção para o fato de que apesar de todos já se servirem, a bisavó ainda não estava à mesa. O burburinho e as risadas cessaram. “Vem vó”. Ela não quis vir. “Não precisa, eu como aqui mesmo”. “Não, vamos sentar com todos!” Foi quando ela chamou a filha e disse, com os olhos miúdos, no ouvido dela, que tinha medo de derrubar a comida na frente dos meninos…

Quase 35 anos antes, submetera-se a uma mastectomia radical e o consequente linfedema do seu braço direito – um edema persistente associado a terríveis e frequentes infecções – o tornaram pesado demais para movimentos tão simples quanto levar um garfo à boca, coisa que ela fazia então com o esquerdo, mesmo sendo dextra. Isso a obrigava a comer muito devagar e a, por vezes, “errar o alvo”, derrubando o alimento, o que transformava uma simples refeição em um momento de suplício, misto de acanhamento e decrepidez, só possível na intimidade do cuidado. “Sem querer” a avó deixou transparecer o desconforto da bisa aos meninos. Um deles, se levantou e desferiu: “Vem vó! Não tenha vergonha, a senhora já me deu comida na boca”. “Pra mim também”, disse o pai e neto. “Pra mim, também” disse a avó e filha. A radicalidade lógica, minimalista e feroz, que apenas as frases carregadas de conteúdo histórico-emocional podem ter não dá muita margem à discussão. Os olhinhos miúdos deram as mãos e ela sentou à mesa.

O burburinho e as risadas recomeçaram e foram – devagar – assumindo o controle da situação.

Subúrbio

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Naquela época não se dizia “o trem que vai para ou que vem do subúrbio”; dizia-se apenas “o subúrbio”, sinônimo daquele trem.

Ele não devia ter mais que nove ou dez anos e andava de mãos dadas com aquela que parecia ser sua mãe. Na cabeça pelada, um boné com as três cores de seu clube preferido ganho numa dessas campanhas de final de ano. Encaminhavam-se para a estação em meio ao tropel da multidão líquida e amorfa de trabalhadores duas, às vezes, três vezes na semana, mas não iam trabalhar. O hospital ficava a duas horas e dois trens de distância, um “subúrbio” e depois, um metrô. Nas estações onde tomavam o subúrbio que os levaria ao centro, vários trens utilizavam a mesma plataforma. Era dessas estações, mais singelas, que ele gostava. Cada vez que um trem se aproximava, ele perguntava a ela: “É esse?”. Quando ela dizia não, é que o momento mágico começava.

Ele sabia que o trem não ia parar, então postava-se com o olhar fixo, perpendicular ao trem e observava sua passagem. Com o repetir de suas experiências aprendeu a olhar de duas formas diferentes. Uma, na qual transpassava o trem de modo que sua rápida passagem pela plataforma se tornava uma sequência contínua de brilhos inoxidáveis, alternância de claro/escuro, transparente/opaco e a sensação ao mesmo tempo gostosa e assustadora da velocidade. Na outra forma de ver, ele fixava um ponto, em geral, uma cabeça de passageiro ou um cartaz e tentava acompanhá-los até perder de vista. Depois, fixava outro ponto, e outro, cada vez mais próximos, até doerem os olhos castanhos ou então sentir uma vertigem, que era sempre maior quando ele tomava o soro vermelho. “Eram jeitos muito diferentes de ver o mesmo trem”, pensou.

Um dia de domingo, a viu chorando ao falar sobre o futuro a uma tia. Ao vê-lo, enxugou as lágrimas e sorriu mal-disfarçando. Ele ficou pensando muito no futuro e de como seria bom se pudesse dizer o que aconteceria nele para que ela não ficasse com medo. O futuro. “Por que ela tem medo do futuro, mas não tem do passado ou do presente?”

Na volta do hospital aquele dia, ficou aguardando o subúrbio que não pararia. Recebera o soro vermelho e estava com vontade de sentar em qualquer lugar, mas permanecia como sempre, em pé segurando a mão dela. “É esse?” “Ainda, não!” foi a resposta; mas os trens que eles esperavam não eram os mesmos e ele se preparou. Olhou para o trem da forma como sempre fazia, mas dessa vez, não fixou os olhos e não conseguiu acompanhar as pequenas cabeças dentro dos vagões. Viu outra coisa. Viu o trem passando. Olhou para frente e viu o trem que tinha acabado de passar, olhou para trás e viu o trem que ainda não havia passado. Na sua frente, o trem passando. “Quanto de trem passa agora?” – perguntou baixinho. “Já vem”, ouviu dela. Era fácil saber quanto de trem ainda faltava passar, quanto de trem havia passado, mas muito difícil saber quanto de trem passava exatamente agora na sua frente. Só uma fatia muito fininha de trem, mais fina que ele, mais fina que seu dedo magrelo, que ele colocou entre o nariz e o trem, “passa agora”. O resto ou já passou, ou passará. Então, o subúrbio tinha três partes que passavam ao mesmo tempo. “A que falta, a que passa e a que já passou, mas é o mesmo trem”. Se divertiu muito com a ideia de que quando voltava a cabeça em direção à frente ou ao final da composição, a fatia-fininha-do-trem-que-passa-agora também podia mudar de lugar e imaginou as pessoas em outros pontos da plataforma tendo as mesmas sensações. Só então fechou os olhos. Uma certa tontura um pouco diferente o acometeu. Eram muitos e complexos pensamentos. Imaginou um trem gigante e muito comprido que nunca parasse de passar e achou que isso era muito parecido com a vida das pessoas.

“Não precisa ter medo do futuro” – disse, ainda com os olhos fechados, e riu. “Vem, menino. Abriu as portas. Cuidado com o buraco”. Ela puxou-lhe pela mão e fez com que entrasse no subúrbio, novamente transformado em trem parado na estação.

Sonda Vesical

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“Sonda” talvez não seja uma palavra médica, da gema, como se diz. A literatura médica de origem inglesa não utiliza o termo que parece ter etimologia francesa. Uma sonda é um instrumento utilizado para explorar, perscrutar, procurar coisas. Há sondas espaciais, sondas geológicas, petrolíferas, e uma infinidade de outras mais. Um endoscópio é uma sonda. Com uma luzinha na ponta, procura por lesões e alterações anatômicas. O termo técnico “da gema” que deve ser utilizado para nomear instrumentos que adentram as profundezas, por vezes insondáveis (não resisti), do corpo humano é “catéter”. Não vou entrar na discussão bizantina de “catéter” ou “catetér” visto que nada do que eu escreva acrescentará algo ao que o professor Joffre Rezende já escreveu anos atrás. A nós, basta saber que o grego kathetér está no Corpus Hippocraticum e que o fato de ser paroxítona ou oxítona depende da prosódia que herdamos, latina ou grega. Entretanto, por costume (e talvez por resquícios de nossa mui recente colonização médica pelos gauleses) utilizamos o termo “sonda”, em especial, para duas situações bastante comuns em medicina: a sonda nasogástrica e a sonda vesical. A segunda será objeto deste post, sabendo que, a rigor, seria um cateter vesical.

Tipos de sondas de Foley utilizadas em Medicina

A sonda vesical consiste em um tubo de borracha com um balão em sua ponta e é utilizada para escoar a urina da bexiga. É útil em obstruções uretrais e também quando é necessário a quantificação do volume urinário do paciente. A sonda vesical mais conhecida é a de Foley, nome dado em homenagem ao seu criador (ver figura ao lado).A sondagem vesical é um procedimento técnico e deve ser realizado por médico ou enfermagem treinados. O balão na ponta da sonda é utilizado para ancorá-la na parede da bexiga de modo que, após sua passagem, ela não seja retirada facilmente. Ele é introduzido, obviamente, desinsuflado e, após a constatação de que a ponta da sonda está no interior da bexiga (o que é notado pela saída da urina pela outra extremidade) é que injetamos solução salina, água ou mesmo ar na via acessória com objetivo de insuflar o balão e fixar a sonda. Feito isso, o paciente está sondado e temos nos esforçado para que fique assim o menor tempo possível pelo risco de infecções e outras complicações.

Uma das raras complicações que uma sonda desse tipo pode apresentar é quando a válvula que permite a injeção de líquido ou ar no balão deixa de funcionar. Nessa situação, não é mais possível desinsuflar o balão e puxá-lo insuflado causaria lesões uretrais importantes, além de dor intensa. O que fazer?Isso de fato ocorreu recentemente e a solução (os urologistas têm na ponta da língua) não é tão complicada como uma cirurgia. Prometo dar a resposta a esse enigma em breve.

Atualização e Resposta (09/11/12)

Pessoal, tentei bravamente conseguir o filme que justifica a resposta, mas não consegui. A saída escolhida pelos urologistas, em geral, é realmente explodir o balão! A capacidade da bexiga é bem maior que o balão e com 50 ou 100 ml, ele costuma explodir. Curiosamente, o relato dos pacientes que sentem a explosão, é um frêmito na região púbica e que é totalmente inócuo. Parabéns ao Ruan que acertou a resposta de prima. Desculpem pela demora da conclusão.

Saturnismo

“Hence gout and stone afflict the human race;Hence lazy jaundice with her saffron face;Palsy, with shaking head and tott’ring knees.And bloated dropsy, the staunch sot’s disease;Consumption, pale, with keen but hollow eye,And sharpened feature, shew’d that death was nigh.The feeble offspring curse their crazy sires,And, tainted from his birth, the youth expires.”
(Description of lead poisoning by an anonymous Roman hermit, Translated by Humelbergius Secundus, 1829)
De gota e cálculo a raça humana padece; De semblante cróceo a icterícia esmorece; Paralisia, a cabeça treme e o joelho desce. E túrgido edema, do qual o bêbado padece; Consumptivo, pálido, de olhar vazio mas fulgente, E traços realçados mostram que a morte é iminente. A prole malsã execra seus antigos, loucos. E, maculados ao nascer, expiram-se moços.
(Descrição de envenenamento por chumbo, por um eremita romano anônimo, traduzida com graça e estilo pelo Igor Santos da tradução de Humelbergius Secundus, 1829)

 

Hoje aconteceu mais um fato a somar-se na intrincada rede que é a prática médica na saúde suplementar (é assim que o Governo divide a saúde: o SUS e o resto, este último chamado de “saúde suplementar”) que constitui e é constituída pelo comportamento do médico, dos pacientes e os interstícios ao qual ambos estão mergulhados, a saber, o mundo dos signos. Bem, a Medicina toda é assim. Um paciente veio procurar-me – logo eu, mero clínico a procura de seu lugar ao sol – com suspeita de intoxicação por chumbo. Eu sempre pergunto aos pacientes qual alma boa (ou não) lhes indicou minha pessoa e ele, para minha supresa, de modo franco, foi dizendo: “Bom, doutor. Na verdade, foi falta de opção mesmo.”

Eu, que já não me acho lá grande coisa, mesmo assim, fiquei surpreso com essa colisão frontal com a realidade, mas o paciente foi logo se explicando: “Não leve a mal, doutor. É que eu sempre gosto de procurar especialistas. Quando tenho dor de cabeça, vou a um neuro. Se tenho dor na barriga, um gastro. Otorrino, oftalmo, etc. Mas quando o médico da empresa me disse que podia ser intoxicação por chumbo, eu revirei a internet. Teria que ser um toxicologista mas não encontrei nenhum que faça consultório. Acabei optando por um clínico mesmo”. Claro que não levei a mal.

Na minha cabeça, enquanto o paciente falava, passavam inúmeras imagens, textos, parágrafos de livros (eu, algumas vezes, me lembro do local onde li ou onde estava tal foto, ali no canto superior esquerdo da página da esquerda… sou normal?). De repente, a sucessão de imagens parou e eu estava em Roma, a vecchia. Há quem diga que a deterioração moral e intelectual da elite de Roma estava ligada à intoxicação pelo chumbo que era adicionado ao vinho (e outros alimentos) à época, por ter sabor adocicado, corrigindo os fortes taninos, além de ser utilizado em utensílios domésticos.  O chumbo parece ter algum papel na queda do Império Romano. Júlio César, apesar de suas aventuras sexuais, não deixou muitos herdeiros e seu sucessor, César Augusto, além de ser totalmente estéril, não tinha o menor interesse sexual… Ahn? Como?

“Então, doutor. Eu acho realmente que tenho uma intoxicação por chumbo, pelo menos inicial. Mas, gostaria de investigar, porque na minha empresa, trabalho com um tipo de … e o médico disse que… e a minha mulher tá achando que….” Hmmm – disse, apoiando o queixo com os dedos em “L”. Vamos investigar.

O chumbo é um metal que deve ser dosado no sangue total já que adere à parede dos glóbulos vermelhos o que torna sua dosagem no plasma não confiável. Também por isso, causa uma anemia microcítica hipocrômica que faz diagnóstico diferencial com falta de ferro. Eu explico. A anemia causada pela falta de ferro faz os glóbulos vermelhos ficarem pequenos e desbotados. Igualzinho à intoxicação por chumbo. Temos que averiguar. Vou pedir também o ácido D amino levulínico na urina que pode mostrar se o chumbo encontrado no sangue está tendo algum efeito tóxico ou não. Vale a pena pedir Vitamina D e hormônio paratireoidiano (PTH) para checar alterações do metabolismo do cálcio… Ossos… radiografias…

Não encontrei nada de alterado no exame clínico. Fiz a solicitação de exames e pedi para o paciente remarcar tão logo tivesse seu resultado. Ele foi embora, pareceu-me, satisfeito. Impressão que confirmei com a secretária depois. No intervalo entre uma consulta e outra, sentei ao computador e fiquei pensando e escrevendo estas linhas…

Esse é um belo de um “furo” no raciocínio tecnicista da especialização desmedida da medicina atual, não? O paciente precisa de um super-especialista e não encontra. Nem pagando! A “mão invisível” do mercado da saúde suplementar ainda não está preparada para exceções anedóticas. Curiosamente, casos complexos são encaminhados aos hospitais-escola, invariavelmente pertencentes à rede pública, para serem desvendados. Por quê? Eu acho que é porque nesses hospitais, quando se consegue vencer as deficiências eternas, alguém “abraça” o caso. “Veste a camisa” e o paciente, cansado de procurar, tenta a sorte. Não que isso não exista na rede privada. Acho que existe sim, mas custa muito caro. Talvez nem todo mundo saiba, mas existe um vão entre os usuários da saúde complementar tão profundo e vasto quanto o que separa o SUS dela própria. Quando falamos de “convênios”, há pacientes tão desassistidos que preferem utilizar a rede pública, (se for ligada a algum hospital-escola, tanto melhor) a utilizar a rede própria da seguradora. Vivo isso diariamente e não sei como resolver.

Saturno é o planeta identificado com o chumbo, um dos primeiros metais descobertos e por isso, conhecido como o “pai dos metais”. Segundo o mito grego, Cronos (não confundir com Khronos – tempo) que romanizou-se para Saturno,  era um titã mórbido que castrou o pai – Uranus – e acabou devorando sua própria prole com medo de perder o trono. “A própria palavra saturnino significa especificamente o indivíduo com temperamento uniformemente sombrio, cínico e taciturno como resultado da intoxicação crônica pelo chumbo”. Soturno. O paciente não estava envenenado pelo chumbo, ainda bem. Mas, de repente, confesso que fiquei curioso em saber meus níveis plúmbicos…

~ o ~

PS. Veja a interessantíssima história das intoxicações pelo chumbo aqui.

UTI. Agradecimentos ao Igor Santos pela brilhante tradução acima.

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