Dan√ßa com os Pulm√Ķes

ResearchBlogging.orgPodemos dividir uma m√ļsica em melodia, harmonia e ritmo (as melodias s√£o o que podemos assobiar em uma can√ß√£o; as harmonias consistem em sua base musical). Uma vez, me disseram (um m√ļsico) que nossa mem√≥ria musical √© muito boa para reconhecermos melodias e at√© harmonias. Todavia, apesar de podermos repetir ritmos na forma de palmas, auto-percuss√£o, estalar de dedos e outras coisas, n√£o temos uma maneira t√£o eficiente de lembrar de ritmos.

Por isso, dan√ßamos! A mem√≥ria de um ritmo exigiria algo mais, talvez o aux√≠lio de outros tipos de percep√ß√£o como a propriocep√ß√£o. A propriocep√ß√£o √© a modalidade sensorial que nos permite, mesmo de olhos fechados, saber se estamos com as pernas dobradas ou n√£o, se estamos fazendo uma curva para direita ou esquerda, em suma, qual √© a posi√ß√£o do nosso corpo no espa√ßo sem a necessidade da vis√£o. A ideia de dan√ßar de acordo com um ritmo como forma de “perceb√™-lo” e apreend√™-lo sempre me pareceu muito elegante. E tamb√©m muito compat√≠vel com a abordagem fenomenol√≥gica de acordo com a qual eu n√£o tenho um corpo: eu sou um corpo. Se o corpo √© nosso ponto de vista sobre o mundo, nada mais natural que us√°-lo para captar ritmos.

steez-headphone-monkey.jpgMas como m√ļsico entende muito pouco de neurofisiologia, h√°, sim, uma mem√≥ria de ritmos. Interessante, notar que os ritmos “quebrados” utilizam mais (e tamb√©m de forma diferente) os “recursos” do sistema nervoso central, a saber, a mem√≥ria operacional, geralmente relacionada √† √°rea pr√©-frontal e o cerebelo. √Č, talvez seja mais dif√≠cil “gostar” de bebop e free-jazz mesmo. (Tamb√©m n√£o d√° para dan√ßar esse g√™nero de m√ļsica!)

O fato √© que h√° um processamento desse tipo de informa√ß√£o. Dado que ritmo √© tempo, sabe-se hoje que existe uma hierarquiza√ß√£o da percep√ß√£o do tempo. A √≠ntima rela√ß√£o entre os sistemas l√≠mbico, auditivo e motor permite uma representa√ß√£o sui generis (leia-se, humana) do tempo e pode fornecer as bases biol√≥gicas de nosso comportamento musical, incluindo o canto e a dan√ßa. √Č interessante perguntar porque, do ponto de vista evolucionista, temos esse tipo de percep√ß√£o. Em que essa qualidade pode ter auxiliado nossa sobreviv√™ncia em √©pocas remotas j√° que, se por um lado, ritmos naturais existiram desde sempre (cachoeiras, goteiras, galopes, batimentos card√≠acos), ritmos produzidos pelo homem s√£o coisa bem mais recente (Homo habilis?).

Fascinado que sou pelo sistema respirat√≥rio n√£o poderia deixar de explicar o t√≠tulo do post. √Č poss√≠vel dan√ßar com os pulm√Ķes? Sim, √©. N√£o exatamente com eles, mas mais especificamente com o sistema respirat√≥rio como um todo. A ventila√ß√£o pulmonar que vulgarmente chamamos de respira√ß√£o, √© por si, um evento r√≠tmico. A novidade √© que esse ritmo pode ser capturado por ritmos externos num fen√īmeno batizado em ingl√™s de entrainment. Em um estudo [3], pesquisadores tomaram 10 m√ļsicos e 10 indiv√≠duos sem forma√ß√£o musical qualquer. Ao expor tais indiv√≠duos a ritmos musicais, verificaram que havia uma captura da respira√ß√£o bastante mais evidente nos m√ļsicos (trained), como mostra a figura.

Até que tem uma certa lógica biológica correr ouvindo uns bate-estacas, hehe. Feliz Ano Novo pra todo mundo.

Referências

1. Sakai K, Hikosaka O, Miyauchi S, Takino R, Tamada T, Iwata NK, & Nielsen M (1999). Neural representation of a rhythm depends on its interval ratio. The Journal of neuroscience : the official journal of the Society for Neuroscience, 19 (22), 10074-81 PMID: 10559415
2.
Fujioka, T., Zendel, B., & Ross, B. (2010). Endogenous Neuromagnetic Activity for Mental Hierarchy of Timing Journal of Neuroscience, 30 (9), 3458-3466 DOI: 10.1523/JNEUROSCI.3086-09.2010
3. Haas F, Distenfeld S, & Axen K (1986). Effects of perceived musical rhythm on respiratory pattern. Journal of applied physiology (Bethesda, Md. : 1985), 61 (3), 1185-91 PMID: 3759758
4. Ver excelente post no Marco

Visita de Médico

ADD Brain by Andrew Rae
Illustrated by Andrew Rae for House Magazine at Street Anatomy

Um post muito interessante do Jo√£o Carlos no Chi V√≥, Non P√≥ a prop√≥sito de um estudo sobre o efeito placebo (valia medaglia f√°cil!). O estudo demonstra que quem fizer uso de placebo, mesmo sabendo que est√° tomando uma medica√ß√£o sem efeito farmacol√≥gico qualquer (e que, precisamente devido a esse misterioso efeito, e apenas por essa raz√£o, ainda tem o direito de ser chamada de “medica√ß√£o”), pode ter os benef√≠cios do tratamento. Pelo menos no que diz respeito √† Sindrome do Intestino Irrit√°vel.

Esse estudo vem bem de encontro com outro que comentamos (eu e Dr√°uzio Varela, hehe) sobre acupuntura. Esta √ļltima, tamb√©m “funciona” da mesma maneira se as agulhas forem colocadas em pontos “corretos” ou “falsos”. Pelo menos no que diz respeito √† lombalgia. Esse artigo √© paralelo ao do placebo para intestino irrit√°vel. Se no primeiro, o paciente n√£o sabia quais eram os pontos corretos, o acupunturista sabia; no segundo, o paciente e o m√©dico sabiam que a medica√ß√£o era placebo. Em ambos, mesmo se tendo conhecimento de que algo poderia n√£o funcionar, funcionou de forma estatisticamente significante.

Mas como bem lembrou o Jo√£o Carlos, a cura, ou menos pretensamente, a melhora de uma sintomatologia, n√£o deve ser atribu√≠da apenas a uma √ļnica interven√ß√£o. Nas duas situa√ß√Ķes, h√° outras coisas em jogo. O tratamento espec√≠fico √© apenas uma das raz√Ķes para algu√©m ter seu sofrimento aliviado.

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Semana passada, a hist√≥ria da “cura” para o HIV tomou conta do Twitter e do notici√°rio de ci√™ncia em geral (ver aqui e aqui, pex). Mas, o √Ātila resolveu esclarecer as coisas bem direitinho e o post sobre o assunto √© altamente recomendado.

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Tamb√©m as crian√ßas inglesas essa semana, publicando um artigo sobre a resolu√ß√£o de quebra-cabe√ßas coloridos por abelhas, emocionou muita gente, hehe. Veja algumas emo√ß√Ķes no GR.

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√Č isso a√≠, pessoal. Obrigado pelo apoio em 2010, pelos feedbacks e principalmente pelo prazer da companhia de todos(as) meus leitores(as) que s√£o os reais construtores esse blog. Espero poder ter a honra da presen√ßa de voc√™s em 2011. Bom Final de Ano. Sa√ļde e Sucesso a todos.

Leitos de Conv√™nio em Hospitais P√ļblicos?

Um pol√™mico projeto de lei (PL 45/2010) foi encaminhado √† Assembleia Legislativa pelo Governador Alberto Goldman e aprovado nessa ter√ßa-feira (21/12/10), quase antev√©spera de Natal. O projeto prev√™ “que at√© 25% dos atendimentos em hospitais e unidades de sa√ļde administrados pelas OSs (Organiza√ß√Ķes Sociais) possam ser destinados a pacientes com planos de sa√ļde.

O debate √© sobre pol√≠ticas de sa√ļde e, dada sua import√Ęncia, acho que devemos esclarecer o que for poss√≠vel para que conclus√Ķes apressadas n√£o sejam veiculadas, como a do promotor de justi√ßa da entrevista linkada acima. Isso vai ser meio longo, aviso desde j√°.

I

O Hospital das Cl√≠nicas da Faculdade de Medicina da USP (HC) √© uma autarquia estadual vinculada √†s Secretarias da Sa√ļde e da Educa√ß√£o e deve, por lei federal, atender at√© 60% de sua capacidade com pacientes do Sistema √önico de Sa√ļde (SUS). Epa, como assim? √Č isso mesmo. Entretanto, devido a manuten√ß√£o de toda a gigantesca estrutura pertencer ao setor p√ļblico, existe um acordo com a Secretaria  e o Minist√©rio da Sa√ļde de que sejam atendidos, no m√°ximo, 25% de pacientes pertencentes √† sa√ļde complementar (ou seja, conv√™nios). O Instituto do Cora√ß√£o (InCor) trabalha com n√ļmeros perto desse teto. No Instituto Central do HC (ICHC) h√° estimativas que apontam para um atendimento de mais de 90% para o SUS. H√°, na universidade, espa√ßo para renda proveniente de outras fontes que n√£o o estado propriamente dito. V√°rias faculdades da USP j√° o fazem com muito sucesso como por exemplo, a Poli (Funda√ß√£o Vanzolini), a FEA (FIPE, FIA), entre outras. Quando a Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) fez sua funda√ß√£o, j√° existia dentro da USP um arcabou√ßo legal que possibilitava a entrada de recursos vindo de fontes privadas. A conclus√£o disso √© que o HC j√° atende pacientes privados; menos que 10% de seu movimento total, √© verdade, e tem capacidade de atender 25%, como faz o InCor. Isso serve para a grande maioria dos hospitais-escola.

Conclus√£o 1
: Esse projeto de lei n√£o afetar√° em nada os hospitais-escola, entre eles o maior de todos, o HCFMUSP.

II

Ent√£o, qual √© a pol√™mica desse projeto de lei? Esse projeto de lei tem como objeto as Organiza√ß√Ķes Sociais (OS), em especial, as OS em Sa√ļde (OSS). O que s√£o as OS? As OS foram concebidas no decorrer da Reforma da Administra√ß√£o P√ļblica, liderada pelo ent√£o Ministro da Administra√ß√£o Federal e Reforma do Estado, Luiz Carlos Bresser Pereira, no primeiro governo do Presidente Fernando Henrique Cardoso, de 1995 a 1998. No texto do Plano Diretor da Reforma do Aparelho de Estado (PDRAE), este tipo de entidade foi caracterizado como de interesse social e de utilidade p√ļblica, uma associa√ß√£o civil sem fins lucrativos, com atividades nas √°reas de ensino, pesquisa cient√≠fica, desenvolvimento tecnol√≥gico, prote√ß√£o e preserva√ß√£o do meio ambiente, cultura e sa√ļde[1]. O projeto das OS elaborado pelo Poder Executivo Federal foi convertido em Medida Provis√≥ria e depois na Lei n.¬ļ 9.637, de 15 de maio de 1998, tendo sido adotado em alguns estados da Federa√ß√£o e transformado em lei estadual, com adapta√ß√Ķes, notadamente no Par√° (Lei n.¬ļ 5.980/96), na Bahia (Lei n.¬ļ 7.027/97, revogada e substitu√≠da pela lei 8.647/03 e o decreto 8.890/04), em S√£o Paulo (Lei Complementar n.¬ļ 846/98, depois modificada por essa). Em S√£o Paulo, o projeto adquiriu uma penetra√ß√£o grande na √°rea da sa√ļde com a cria√ß√£o das OSS e tem sido a grande bandeira pol√≠tica do partido que governa o estado por quase duas d√©cadas [2].

A legisla√ß√£o original das OSS determinava que apenas pacientes SUS e o funcionalismo p√ļblico poderiam ser atendidos pela institui√ß√£o. Isso significa que, mesmo que voc√™ tenha um plano de sa√ļde, ao ser atendido por uma OSS, nem voc√™, nem seu plano (com o qual voc√™ e/ou sua empresa gastam uma grana preta todo m√™s) pagar√£o um m√≠sero centavo. Se voc√™ concorda em n√£o pagar nada, visto que j√° gasta os tubos com impostos, j√° n√£o tem tanta certeza quanto ao seu plano de sa√ļde, certo? Pois √©…

Conclus√£o 2: As OS s√£o, portanto, uma parceria p√ļblico-privada, sem fins lucrativos. As OSS s√£o uma bandeira pol√≠tica do Governo Estadual de S√£o Paulo. E, por fim, h√° uma certa incoer√™ncia na rela√ß√£o entre as OSS e os planos de sa√ļde. Mesma incoer√™ncia ali√°s, que existe em qualquer hospital p√ļblico, seja ele hospital-escola ou n√£o.

III

Voltemos ao HCFMUSP. Na época da decisão sobre atender convênios ou não, foram colocados os seguintes argumentos:

A favor:

a) Os conv√™nios trariam recursos para os centros de gerenciamento de cada cl√≠nica. (O HC √© composto de “cl√≠nicas”, hehe, e cada uma tem um centro de gerenciamento ligado √† Funda√ß√£o Faculdade de Medicina o que possibilita uma agilidade enorme quanto a administra√ß√£o dos recursos). Isso √© verdade. Dois leitos de UTI arrecadam o que quase 12 leitos recebem do SUS por m√™s!

b) O simples contrato com as seguradoras de sa√ļde fez cair vertiginosamente a dificuldade em receber recursos provenientes de atendimentos a pacientes conveniados. Me explico com um exemplo: o HC, assim como outros v√°rios hospitais p√ļblicos, √© a porta de entrada de remo√ß√Ķes realizadas pelo Servi√ßo de Atendimento M√©dico de Urg√™ncia (SAMU – que ali√°s, funciona muito bem!). Quando algu√©m est√° acidentado em uma via, ningu√©m pergunta se o ou a pobre tem conv√™nio. Normalmente, essas interna√ß√Ķes consomem enormes recursos pois necessitam de abordagens multiprofissionais e multiespecializadas, reabilita√ß√£o prolongada, terapia intensiva, centro cir√ļrgico, etc. Tudo, tudo normalmente previsto nos contratos firmados com as seguradoras. Quando um hospital p√ļblico tenta receber esse montante que, convenhamos, lhe √© de direito, todo tipo de dificuldade burocr√°tica √© colocado e em geral, a grana n√£o aparece. Com um contrato firmado, esses entraves burocr√°ticos despencaram e as administra√ß√Ķes dos hospitais puderam sorrir.

Contra:

a) A famosa hist√≥ria da dupla porta, que √© citada pelo promotor do link acima para taxar de inconstitucional a presen√ßa de pacientes privados em institui√ß√Ķes p√ļblicas. A dupla porta √© o fato de haver duas entradas para pacientes na institui√ß√£o, uma bonitona, com carpetinho e mocinhas bonitas para atender (conv√™nio, l√≥gico) e a outra, os pronto-socorros e ambulat√≥rios p√ļblicos que todos conhecem. Quem n√£o viu, pode assistir ao Datena ou algum outro programa sensacionalista radical da TV que n√£o demora a aparecer. N√£o pode de fato, haver distin√ß√£o entre os pacientes. A ideia seria subir o n√≠vel de todos e n√£o s√≥ de alguns. No ICHC, a dupla porta nunca se configurou de fato.

Conclusão Geral: O projeto de lei (PL 45/2010) visa oferecer a possibilidade de fontes de recursos privadas às
OSS, o que, no meu humilde modo de ver, já estava implícito na origem delas.

D√ļvidas: Podemos discutir se as OSS s√£o realmente uma alternativa liberal ao atendimento socializado em Sa√ļde P√ļblica. Podemos duvidar do repasse dessas verbas pelo Estado √†s institui√ß√Ķes. Podemos duvidar tamb√©m, da viabilidade das OSS, em especial do ICESP (Instituto de C√Ęncer de S√£o Paulo – Ot√°vio Frias Filho) e se isso n√£o seria uma forma de salv√°-lo da bancarrota, em especial, pela forma como o PL foi (re)apresentado e pelos votos contra de PT e PSOL.

Há muitas variáveis envolvidas e eu, realmente, não sei onde isso vai dar. O povão doente talvez se dê mal. Mais uma vez.

[1] Nota T√©cnica 17/2006. Conass. AS ORGANIZA√á√ēES SOCIAIS COMO ALTERNATIVA DE GER√äNCIA PARA ESTABELECIMENTOS P√öBLICOS DE SA√öDE. Bras√≠lia, 22 de agosto de 2006.
[2]  Barata, Luiz Roberto Barradas. Organiza√ß√Ķes Sociais de Sa√ļde: a experi√™ncia exitosa de gest√£o publica de sa√ļde do Estado de S√£o Paulo: Secretaria de Sa√ļde, jun. 2006. 20 p.

Como Fazer a Homeopatia Funcionar

Esse post √© uma (tentativa de) tradu√ß√£o do original escrito por Greg Laden em seu blog. O autor autorizou sua reprodu√ß√£o integral no Ecce Medicus. Caso os leitores encontrem solu√ß√Ķes translacionais mais adequadas que as minhas, a caixa de coment√°rios est√° √† disposi√ß√£o.

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A Homeopatia envolve a manipula√ß√£o de subst√Ęncias geralmente escolhidas devido a sua natureza nociva (mas tamb√©m por outros motivos), seguida pela dilui√ß√£o dessas subst√Ęncias, ou de um extrato das mesmas, in√ļmeras vezes
em √°gua, at√© que a subst√Ęncia em si n√£o seja encontrada, mas de tal forma que a mem√≥ria da subst√Ęncia seja retida pela √°gua. Essa √°gua com mem√≥ria √© ent√£o, considerada pelos praticantes homeop√°ticos um tratamento eficaz para v√°rias condi√ß√Ķes cl√≠nicas.

O princ√≠pio b√°sico de uma subst√Ęncia nociva produzir uma contra-rea√ß√£o, ou uma rea√ß√£o ben√©fica, √© interessante. E a ideia de usar um tipo de mem√≥ria biol√≥gica tamb√©m √© interessante e potencialmente muito eficaz, desde que possamos utiliza-la em outro contexto. A maioria dos meus colegas de science-based skepticism descarta a homeopatia como inconsequente e ineficaz, em geral porque n√£o existem estudos duplo-cego controlados com tamanhos de amostras √ļteis, apropriadamente selecionadas, trabalhadas com estat√≠sticas apropriadas e an√°lises biologicamente confi√°veis que demonstrem sua efic√°cia, e tamb√©m porque n√£o h√° provas de que a √°gua guarde uma “mem√≥ria” de subst√Ęncias dilu√≠das nela. Mas eu acho que eles podem ter desistido muito facilmente da ideia b√°sica da homeopatia e que ela pode funcionar de fato. Basta que alteremos alguns par√Ęmetros.

Em primeiro lugar, a subst√Ęncia que √© usada em forma dilu√≠da tem de ser uma subst√Ęncia biologicamente potente, e n√£o apenas alguma coisa que algu√©m achou que poderia funcionar. Por exemplo, se voc√™ pegar cristais √† base de s√≠lica, como quartzo e moe-los em p√≥, ingerindo uma pequena quantidade, haver√° um efeito m√≠nimo (ou mesmo pequeno) semelhante ao do consumo de suplementos de fibras. Eu n√£o recomendo tentar isso porque se o cristal contiver certos minerais, a subst√Ęncia pode ser muito venenosa, e mesmo se o p√≥ de s√≠lica for 99,9999999% puro, pode ser prejudicial (se inalado). No entanto, do ponto de vista de como funcionam os sistemas naturais, cristais deveriam causar pequenos efeitos por si, especialmente na forma original.

Por outro lado, subst√Ęncias org√Ęnicas, que s√£o as compostas de c√©lulas ou partes de c√©lulas, podem ter efeitos naturais muito poderosos. Isso ocorre porque nosso corpo cont√©m mol√©culas naturais que interagem n√£o s√≥ entre si, mas tamb√©m com mol√©culas naturais de origem org√Ęnica que s√£o introduzidas no corpo. E, mais interessante, tem sido demonstrado em v√°rios estudos que essas rea√ß√Ķes podem literalmente mudar, de uma forma natural e org√Ęnica, a estrutura das mol√©culas originais. Mais, e isso pode parecer dif√≠cil de acreditar, mas √© realmente maravilhoso e demonstrado em v√°rios estudos, as mol√©culas modificadas podem “aprender” a auxiliar c√©lulas a produzir mais mol√©culas que, por sua vez, s√£o modificadas da mesma forma. Estou simplificando um pouco, mas acho que voc√™ j√° deve ter adivinhado para onde estou indo com isso: A introdu√ß√£o de determinados materiais org√Ęnicos naturais no organismo pode provocar o desenvolvimento de uma mem√≥ria de longo prazo dessas mol√©culas. Estudos t√™m demonstrado que esta mem√≥ria, em muitos casos, dura uma vida inteira, ou pelo menos, por v√°rias d√©cadas.

Ent√£o, n√≥s temos todos os elementos homeop√°ticos: Subst√Ęncias que podem ser muito potentes, processadas e em menor concentra√ß√£o, s√£o introduzidas no organismo causando uma rea√ß√£o de mem√≥ria, n√£o na √°gua onde a subst√Ęncia foi originalmente dilu√≠da, mas NO PR√ďPRIO CORPO, usando processos org√Ęnicos exclusivamente naturais. Esta “lembran√ßa” vai durar a vida toda, ou quase isso. Desta forma, uma subst√Ęncia natural org√Ęnica adequadamente selecionada pode causar uma altamente desej√°vel re-conforma√ß√£o das rea√ß√Ķes do organismo a insultos externos, de uma maneira totalmente natural e org√Ęnica.

As moléculas introduzidas no corpo são chamadas de antígenos. As moléculas que o corpo aprende a produzir são chamados anticorpos. Todo o processo é chamado de vacinação.

Vibes Linguísticas

“N√£o √© poss√≠vel encontrar a obscenidade em qualquer livro, em qualquer quadro, pois ela √© t√£o-somente uma qualidade do esp√≠rito daquele que l√™, ou daquele que olha”.(MILLER, Henry. L’obsc√©nit√© et la loi de r√©flexion. Paris, Pierre Seghers, 1949, p.9 e 17. [Tradu√ß√£o de D. Kotchouhey.]). (in MORAES, ER)

Devo muito do meu gosto por escrever a esse cara (quem sabe um dia aprendo, n√©?). No dia 26 de Dezembro de 2010 ele faria 119 anos. Henry Valentine Miller foi meu companheiro de plant√Ķes em clubes. Fazia “exame de piscina”. Se fazia sol, trabalhava muito. Mas, quando chovia, viajava com ele por Paris e Nova Iorque. Por entre “pernas e del√≠cias”, eu, menino nerd e sem dinheiro, fui aprendendo que s√≥ h√° um meio de sermos verdadeiramente livres: a literatura. Quando (e se) transformamos nossa vida em literatura ent√£o, a coisa fica bem mais interessante. Foi o que ele fez.

“O homem que conta a hist√≥ria n√£o √© mais aquele que experimentou os acontecimentos narrados. Distor√ß√£o e deforma√ß√£o s√£o inevit√°veis no processo de re-viver a nossa vida. O prop√≥sito √≠ntimo de tal desfigura√ß√£o, obviamente, √© captar a verdadeira realidade das coisas e dos acontecimentos. (O Mundo do Sexo).”

O mundo de Miller √© um mundo onde o sexo tem uma dimens√£o sacra. Liberdade e cria√ß√£o. A reden√ß√£o do humano em seu comportamento sexual. Ou como disse Luis Hor√°cio: “Entram em cena amor e sexo, ora unidos ora antagonistas, existe bem e mal em ambas possibilidades, a liberdade permite a escolha. Os hip√≥critas optar√£o pelo antagonismo e perceber√£o no sexo a devassid√£o, a sujeira, aqueles que anseiam por liberdade, incluo-me nessa turma, entender√£o o sexo como motor fundamental da cria√ß√£o.”

Mas Miller √© muito mais que isso. √Č a pr√≥pria liberdade em explos√£o. √Č uma anti-depress√£o direto na jugular; uma vertigem expl√≠cita da vida. Ele e Nietzsche s√£o perspectivas de uma mesma ambi√ß√£o. A trilogia Sexus, Plexus, Nexus chamada por Miller de “Crucifica√ß√£o Encarnada” √© o Zaratustra nietzscheano sem o recalque sexual. Dos dois “amigos” extempor√Ęneos, Miller √© o que “fica” com as mocinhas. Miller “vive” a filosofia iconoclasta e libertadora de Nietzsche tendo como porta de entrada algo jamais imaginado pelo fil√≥sofo alem√£o: o mundo do sexo.

A pergunta emblem√°tica de ambos √©: Quanto de verdade podemos suportar? O paradoxo √© que, se por um lado, somos verdade-aditos, sempre em busca do que acreditamos ser a verdade, por outro, criamos mundos fantasiosos para fugirmos dela. Pode-se quebrar esse encanto de v√°rias formas, todas elas tendo em comum o fato de nos reafirmarmos como animais mortais. Um jeito √© filosofar com o martelo. Um outro √©… bem, leiam Miller.

DEK РF: A Relação Entre a Mente e o Diafragma

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Fr√™nico. phren(o)- ŌÜŌĀ-őģőĹ/-őĶőĹŌĆŌā gr. ‘mente’, (diafragma), segundo o Diccionario m√©dico-biologico, de quem tomei muitas das explica√ß√Ķes abaixo. H√° o nervo fr√™nico que √© quem veicula os est√≠mulos ao diafragma. H√° o esquizofr√™nico que n√£o tem nada a ver com isso (nem com nada). Qual seria a rela√ß√£o entre um e outro? Esse √© o “F”. Bem-vindo ao dicion√°rio etimol√≥gico do Karl. Outras letras/verbetes aqui.

Existe certa discuss√£o sobre o significado anat√īmico do termo phrŠłón ŌÜŌĀőģőĹ. Entretanto, tanto Hip√≥crates como Arist√≥teles o utilizavam com o significado de diafragma őīőĻő¨ŌÜŌĀőĪő≥őľőĪ, a tenda muscular que separa o t√≥rax do abdome, e quase sempre no plural phr√©nes ŌÜŌĀő≠őĹőĶŌā. Como que, vindo dessa origem, o termo passa tamb√©m a designar a mente?

√Č um caso de meton√≠mia. Por exemplo, √© frequente utilizarmos “cora√ß√£o” ao inv√©s de “amor” ou “compaix√£o”. Para os gregos, o diafragma era a sede do medo e da ang√ļstia. Talvez, traduzindo o j√° conhecido “frio na barriga” que todos sentem e que √© muito dif√≠cil de definir. Da√≠, passamos aos sentimentos e finalmente, √† mente. (Em grego, existem duas palavras para mente que originaram termos utilizados hoje. O primeiro freno– e, quando usado em sufixo, –frenia, como vimos. A outra √© no√Ľs őĹőŅŠŅ¶Ōā que forma palavras acabadas em –noia, como em “paranoia”). Parece que os m√©dicos gregos usavam phrŠłón ou phr√©nes com o sentido de diafragma mesmo e os escritores, em especial Homero, com o sentido de mente. O autor de Sobre a Enfermidade Sagrada (a epilepsia) – que pode ser o pr√≥prio Hip√≥crates, ou n√£o – escreve:

¬ęAfirmo que o c√©rebro √© quem articula a intelec√ß√£o. As phr√©nes (o diafragma) t√™m essa denomina√ß√£o (ou seja, um termo associado ao pensamento) por azar ou conven√ß√£o mas n√£o pelo que √© sua natureza, porque n√£o sei que faculdade t√™m para pensar (phron√©ein ŌÜŌĀőŅőĹő≠őĶőĻőĹ) ou refletir (no√©ein őĹőŅő≠őĶőĻőĹ).¬Ľ (De morbo sacro 16).

Termos como phronésis e frenesi provém dessa linha grega de pensamento.

A terminologia m√©dica atual deriva dos anatomistas renascentistas que eram bons leitores de Hip√≥crates e Galeno. Quando foram denominar os vasos e nervos relacionados ao diafragma utilizaram o adjetivo “fr√™nico” (phrenicus em latim), como derivado de phrŠłón “diafragma”, na melhor tradi√ß√£o hipocr√°tica. Por outro lado, desde Eras√≠strato se interpretou que phrenńętis ou frenitis era uma doen√ßa do c√©rebro que afetava as capacidades intelectuais e n√£o uma simples pneumonia. Essa linha, predominou nas enfermidades psiqui√°tricas, em especial na escola francesa, e gerou termos como phr√©nopathie (frenopatia) como termo gen√©rico das enfermidades mentais em 1833;¬†paraphr√©nie, hebefrenia (criada por K.L. Kahlbaum e E. Hecker em 1871), oligofrenia (1899), esquizofrenia (1910) por Eugen Bleuler. Gerou tamb√©m a frenologia. “Ci√™ncia” que muito influenciou o pensamento fisiol√≥gico segundo a qual cada fun√ß√£o cognitiva tem sua sede anat√īmica no c√©rebro. Temo dizer que h√° um “vi√©s frenol√≥gico” n√£o desprez√≠vel em alguns neurocientistas; ainda hoje.

1. Oxford Textbook of Psychopathology de T. Millon, P.H. Blaney y R.D. Davis, 1999.
2. Dicciomed.es. Diccionario médico-biológico, histórico y etimológico. (Sensacional dica da Tati Nahas).

Perguntinha Newtoniana

Mission-impossible-300x225.jpgSe a gravidade atrai todo mundo para o centro da Terra e o homem pudesse lá chegar; lá chegando, como ficaríamos? Flutuando que nem no espaço?

Anemia Falciforme – A Revanche

ResearchBlogging.orgVamos retomar o tema sobre a decis√£o do Tribunal de Justi√ßa de S√£o Paulo de enviar a j√ļri popular os pais da menina que n√£o permitiram uma transfus√£o de sangue que poderia ter salvo a vida dela por quest√Ķes religiosas. As Testemunhas de Jeov√° (TJ) s√£o uma seita crist√£ fundamentalista, baseada em Nova York, cujos seguidores acreditam que a B√≠blia √© a verdadeira palavra de Deus. H√° cerca de 5.500.000 membros batizados, 125.000 dos quais residem no Reino Unido. Para muitas pessoas, as TJ s√£o conhecidas por sua recusa absoluta de produtos derivados de sangue, mesmo quando isso pode resultar em sua pr√≥pria morte ou de seus entes queridos. Esta recusa √© baseada em tr√™s passagens b√≠blicas que supostamente pro√≠bem a transfus√£o: G√™nesis 9:4, Lev√≠tico 17:11-14 e Atos 15:20,29. S√£o as mesmas passagens utilizadas para justificar alguns procedimentos da comida Kosher judaica. (Veja aqui maiores informa√ß√Ķes sobre a teologia dos membros dessa seita religiosa, em ingl√™s, e uma boa cr√≠tica teol√≥gica). A puni√ß√£o para quem aceita hemoderivados √© a perda da vida eterna e, na Terra, um tipo de excomunh√£o. Puni√ß√Ķes, temos que convir, sever√≠ssimas para quem faz parte da comunidade e tem a vida eterna como objetivo p√≥s-morte.

A discuss√£o aqui se limita ao fato de que a crian√ßa, na √©poca com 13 anos de idade, n√£o tinha como se posicionar a respeito desse problema, assim como de outros relativos √† sua idade, sendo os pais, os respons√°veis por decidir por ela. Entretanto, dado que a decis√£o dizia respeito diretamente a sua vida e tendo ela direito de viver, poderia o Estado ir contra uma decis√£o “parental” que atentasse contra a exist√™ncia da menina. As TJ sempre invocam legisla√ß√Ķes de direitos humanos para justificar a recusa dos pais em transfundir hemoderivados a crian√ßas. Essa hist√≥ria √© bem antiga. Uma longa lista de eventos na luta por direitos humanos come√ßou com a Declara√ß√£o Universal dos Direitos Humanos proclamada pela Assembleia Geral das Na√ß√Ķes Unidas em 10 de dezembro de 1948 e teve, como cap√≠tulo importante para a medicina, a Conven√ß√£o para a Prote√ß√£o dos Direitos do Homem e da Dignidade do Ser Humano face √†s Aplica√ß√Ķes da Biologia e da Medicina, conhecida como Consenso de Oviedo, em especial para Europa[1]. Houve, nesse caso, tamb√©m a interfer√™ncia de um m√©dico que, partid√°rio da seita, segundo consta nos autos, pressionou a equipe m√©dica que a assistia e que, por essa raz√£o, est√° sendo processado tamb√©m. “Cortes por todo o mundo ocidental reconhecem os direitos dos pais, mas esses direitos n√£o s√£o absolutos. Os direitos dos pais em criar suas crian√ßas s√£o identificados como o dever de assegurar sua sa√ļde, seguran√ßa e bem-estar. Os pais n√£o podem tomar decis√Ķes que possam permanentemente colocar em risco ou comprometer sua sa√ļde. Se essa recusa resultar em sofrimento da crian√ßa, os pais podem ser incriminados. Entretanto, os processos raramente ocorrem.” A cren√ßa √© livre. Agir, ou deixar de agir, tendo como √ļnico guia uma cren√ßa n√£o reconhecida como corpo de conhecimento t√©cnico utiliz√°vel na pr√°tica m√©dica, n√£o.

O estudo abaixo [2] verificou a legisla√ß√£o de pa√≠ses com l√≠ngua inglesa quanto a recusa da transfus√£o de hemoderivados √† crian√ßa pelos pais legais. Nos EUA, temos as seguintes conclus√Ķes:

1. Os interesses da criança e do Estado superam o de uma recusa de tratamento médico pelos pais.
2. Os direitos dos pais não asseguram direitos sobre a vida e a morte de suas crianças.
3. Os pais não têm direitos absolutos sobre a recusa de tratamento médico sobre suas crianças baseados em suas crenças religiosas.

No Reino Unido, a legislação para esse tipo de problema, como quase tudo lá, foi estabelecida no ano de 1875 e permanece inalterada: pais que falham em obter tratamento médico adequado para suas crianças estão sujeitos às penas da lei, mesmo se essa falha está baseada em religião. Na Austrália, a prerrogativa é do médico e nenhuma interferência deve ser aceita quando se tratar de uma criança.

No Brasil, um parecer do Conselho Federal de Medicina de 1980 estabelece que: Em caso de haver recusa em permitir a transfus√£o de sangue, o m√©dico, obedecendo a seu C√≥digo de √Čtica M√©dica, dever√° observar a seguinte conduta: 1¬ļ – Se n√£o houver iminente perigo de vida, o m√©dico respeitar√° a vontade do paciente ou de seus respons√°veis. 2¬ļ – Se houver iminente perigo de vida, o m√©dico praticar√° a transfus√£o de sangue, independentemente de consentimento do paciente ou de seus respons√°veis.

Nesse caso espec√≠fico, eu achei correto o encaminhamento dos pais a j√ļri popular. Que a sociedade julgue esse tipo de decis√£o. Me pareceu especialmente perfeita a coloca√ß√£o do juiz do caso Prince vs Massachusetts, EUA,1944 [3]

“Pais est√£o livres para tornar-se m√°rtires. Mas isso n√£o significa que eles podem, em circunst√Ęncias id√™nticas, tornar m√°rtires suas pr√≥prias crian√ßas”.

[1] Sr. Avelino Retamales, Dr. Gonzalo Cardemil. Rev Méd Chile 2009; 137: 1388-1394.
[2] Woolley, S. (2005). Children of Jehovah’s Witnesses and adolescent Jehovah’s Witnesses: what are their rights? Archives of Disease in Childhood, 90 (7), 715-719 DOI: 10.1136/adc.2004.067843
[3] Prince v Massachusetts (1944) 321 US 158.