Habermas (18 de junho de 1929⭐︎ — 14 de março de 2026✝)

Revista Cult – Edição de Junho/2009 – utilizada no post citado no texto.

Se o leitor tiver paciência (e um pouco de compreensão) e trafegar até o primeiro post deste blog moribundo, verá que o título é “Frankfurt“, numa referência direta à escola filosófica desta cidade alemã. Nos idos de 2008, eu estava bastante envolvido com minha segunda leitura da “Dialética do Esclarecimento” de Adorno e Horkheimer (sim, por que na primeira, não entendi nada). Se considerarmos os dois primeiros argumentos do livro, a saber, a transformação da razão em razão instrumental e o paradoxo de que o esclarecimento pode regressar ao mito, é possível construir uma crítica bastante interessante à prática médica moderna. Foi o início de uma reflexão sobre a medicina que gerou alguns frutos interessantes. Daí para Habermas foi um passo.

Uma de minhas utopias é a de uma teoria geral da comunicação em saúde. Imagino algo que consiga lidar não só com todos os problemas e ambiguidades da linguagem comum que aparecem no encontro clínico, mas também com o peso enorme que o discurso científico tem hoje. Não basta, a meu ver, ensinar médicos a ouvir histórias ou, no outro extremo, ignorar para os avanços biomédicos em detrimento a procedimentos sem base científica. É preciso encontrar um fio condutor que organize tudo isso; algo capaz de unir o técnico e o humano dentro do espaço tão complexo do cuidado em saúde.

Que tipo de teoria permitiria entender não apenas a linguagem, mas as próprias condições que tornam o encontro clínico possível? Afinal, o que acontece ali envolve ciência e tecnologia, mas também cultura, psicologia e ética! O conhecimento clínico é sempre um “fazer com alguém”, nunca “em algo”. Por isso, não há espaço para dogmas e arbitrariedades. Usar apenas a ciência biomédica como guia é perigoso, porque apaga essa dimensão ética.

O desafio, portanto, consiste em procurar especificamente por linhas de pensamento que sejam estruturadas, ou como teorias cognitivas da linguagem que desaguam em uma ética, ou, contrariamente, como filosofias que, a partir da interação ética entre indivíduos e de uma matriz linguística dela derivada, compõem uma teoria do conhecimento. As primeiras devem sustentar que a ideia de moralidade surge – e é mantida – pelo diálogo entre as partes envolvidas. As últimas devem demonstrar que a moralidade emerge primordialmente a partir da apreensão ética do outro, e só então, surge o diálogo. 

O exemplo mais bem acabado da primeira é a “Teoria do Agir Comunicativo” de Jürgen Habermas; o arquétipo da segunda é a filosofia da alteridade de Emmanuel Lévinas. Médicos talvez pertençam a classe de profissionais cuja fala se converte nas ações mais impactantes aos indivíduos (políticos também, mas o efeito é mais coletivo). Só entendi a dimensão disso conhecendo um pouco do trabalho do mago fanho de Frankfurt. Descanse em paz, professor.