O Esteto e o Esteta

Amanti.jpg

Conversa de médico é sempre muito chata. Onde há uma “rodinha” de médicos conversando é muito difícil um não-médico ficar muito tempo ouvindo ou participando, seja porque não entende absolutamente nada do que está sendo discutido, seja porque alguns dos juízos emitidos são, para dizer o menos, fora do padrão ao qual estão habituados. Falar sobre a morte e o morrer, sobre secreções e vísceras, não é lá muito agradável. Mas, uma das coisas que mais choca os não-médicos é nosso conceito de “beleza”.

Dizer que uma lesão é “linda” ou que uma cirurgia foi “maravilhosa” é quase um pecado! Certa vez, levei uma bronca de uma professora: “Meu conceito de beleza é outro” – disse ela. “Não diga que a morte ou a doença são belos. Diga que são, no máximo, interessantes.” Fiquei pensando muito tempo naquilo. Esse raciocínio me pareceu bastante coerente e em concordância com o sofrimento dos pacientes, mas “desceu torto”. Não há um prazer mórbido, um gosto pelo sofrimento. Mas há, sim, uma admiração por uma entidade, um conceito que se autoexplica, um padrão que se confirma.

“Aquele paciente tem um sopro aórtico muito bonito”. O que isso quer dizer? Que é um sopro prototípico. O reconhecimento de uma entidade real com todas as nuances que lhe foram atribuídas por autores e/ou professores em textos e aulas teóricas é um prazer sensorial que, se não é exatamente o que se chama de prazer estético, em muito se aproxima dele. Uma cirurgia de reconstrução por mais cruenta e exposta pode – por que não? – ser considerada uma obra de arte.

Na última Piauí, há uma matéria muito interessante sobre um matemático brasileiro cujo título é: “Artur tem um problema” de João Moreira Salles. Ao falar do modo como os matemáticos “descobrem” seus objetos virtualíssimos, o autor escreve:

“A beleza seria essa intuição de uma totalidade. Esse sentimento estético é a peneira que separa o joio do trigo. Por ela só passam os objetos que, por belos, anunciam: Existo. “Passamos a vida pensando em objetos lindos“, diz Yoccoz, com um sorriso de felicidade. “O prazer estético é comparável ao da música.” Grandes matemáticos são estetas, e a beleza será, para todos eles, uma das mais poderosas ferramentas da descoberta. Pelo entusiasmo com que falam do que lhes passa pela cabeça, é como se existisse música e nós, os não-matemáticos, fôssemos todos surdos.”

Fico pensando se grandes médicos não seriam também estetas. A beleza como ferramenta de conhecimento. Aliás, a mim me parece que todo profissional que faz o que gosta poderia ser um esteta. Quem faz o que gosta busca a excelência por um prazer estético: tornar o que faz mais bonito, é sentir-se melhor.

Gravura: Franco Murer

Fenomenologia da Elegância III

Ver os posts anteriores aqui e aqui.

Provavelmente o leitor(a) já teve alguma experiência de estranhamento. Não? Se não, tente fazer o seguinte. Vá em uma reunião, um coquetel ou coisa que o valha, onde as pessoas não estejam falando muito alto. Uma música ambiente, daquelas que tocam em elevador chique ou sala de espera de dentista, ajuda. Tente aproximar-se de um grupo de pessoas conversando, mas não pode ser muito perto porque assim, você vai acabar prestando atenção no conteúdo da conversa e não é isso que queremos agora. Mantenha, portanto, uma distância de dois ou três metros do grupo, suficiente para que você possa ouvir as pessoas conversando. Finja agora, que eles estão falando uma língua que você não domina. Preste atenção na musicalidade, entonação, nos ruídos emitidos pelos falantes, não nas palavras. Alguns chamam isso de prosódia da língua. Dizem que a do português, em especial do brasileiro, é belíssima (será que o “paulistanês” também?). Com algum treino você passará a “desentender” completamente o português e atentar para a forma como ele se apresenta a seus ouvidos. Depois de um tempo, você aprende a “virar a chave”, passa “escutar a língua” ou a “entender o discurso” conforme sua própria vontade. Essa é uma experiência de estranhamento da língua que permite apreciar algo de sua forma que o conteúdo embarcado nela normalmente nos oculta. (É possível também, com algumas restrições, fazer o mesmo com músicas, obras de arte e até com textos). O estranhamento é um dos tipos de possibilidade do cuidado. Guardemos, por ora, conosco essa experiência.

Em 1966, a polêmica escritora e crítica americana Susan Sontag, então com 33 anos, publica um ensaio chamado “Contra a Interpretação“[1]. Nele, Sontag argumenta que o mundo ocidental vê a arte ainda sob um ponto de vista platônico. Para Platão, como é sabido, a arte é mímese representação, afastada três graus de uma realidade dita ideal e, por isso, longe de comunicar qualquer tipo de verdade; muito pelo contrário. Vários dos “problemas” da arte em nossos dias decorrem desse raciocínio, surgindo então, a necessidade de justificá-la. Foi essa necessidade de justificação que criou a “falsa impressão de que algo que aprendemos a chamar forma é separado de algo que aprendemos a chamar conteúdo” [1]. Para Sontag, há uma tendência contemporânea muito forte em abordar uma obra de arte interpelando-a em busca de sua significação. É a primazia do que é considerado “conteúdo” sobre o que é considerado “forma”. Mas a crítica americana avança ainda mais: o “furor interpretativo” moderno não apenas sobrescreve a forma, é ainda capaz de escavar o significado das obras de arte a ponto de destruí-lo por completo. Entender, hoje, é interpretar. Nas palavras dela “a pletora de interpretações da arte hoje envenena nossa sensibilidade. Numa cultura cujo dilema já clássico é a hipertrofia do intelecto às custas de energia e capacidade sensuais, a interpretação é a vingança do intelecto sobre a arte. Sobre o mundo”. Não se trata, portanto, apenas do predomínio do conteúdo sobre a forma, mas a tomada de assalto da própria essência da obra pela via da interpretação, esgotando-a completamente na análise de seu significado. Por isso, para Sontag, interpretar é empobrecer. Retenhamos, então, a última frase do ensaio: “No lugar de uma hermenêutica, precisamos de uma erótica da arte”.

A elegância nos vem de encontro como modo do ser-aí que nos caracteriza. Não é um ente, um “a mão”. É pré-ontológica e, estando um passo aquém da interpretação, é pré-interpretativa também. A elegância é uma ocasião. Algo como uma adequação transcendental entre a forma e o conteúdo mas, ressaltemos, num instante imediatamente anterior à analítica que o intelecto (ou sujeito, alma, espírito, ego, res cogitans, o que queiram) promove para separá-los. Nessa “sopa primordial” de afetos, forma e conteúdo se confundem. Não há ainda linguagem ou signo ou nomes e não há, ainda, transmissão de informações e, portanto, não pode haver interpretações. Há a vivência (Erlebnisdo ser-aí em uma ocasião tempestiva. É exatamente esse momento erótico, porque prenhe, que Sontag clama por que habitemos.

Dessa “adequação” pré-historicista (o tempo ainda não caminha), amórfica e desprovida de conteúdo, entre o que virá a ser a forma de uma vivência e o que virá a ser seu conteúdo próprio, derivarão as noções já conscientes agora de completude, economia, simplicidade e justeza, características da elegância, mas não já sua noção de beleza. Para que a noção de beleza surja na vivência da elegância é necessário por em marcha o tempo pois é ele quem dá o estofo existencial necessário e próprio do conceito.

Le_herisson_01

“Porque o que é bonito é o que captamos enquanto passa. É a configuração efêmera das coisas no momento em que vemos ao mesmo tempo a beleza e a morte“, Paloma (menina). A Elegância do Ouriço. Muriel Barbery. (Foto do filme “O Ouriço“, baseado no livro)

tempo humano que “passa” rápido ou devagar conforme nossa intenção/atenção: cuidado, preocupação ou cura. E aqui devemos retomar nossa habilidade de “estranhar”. Cura vem do latim quaero (procurar), mesma raiz de curiosidade (curiositas). Intencionar a elegância, curá-la ou cuidar dela é, ao mesmo tempo, ter consciência de sua movimentação no tempo, de sua existência fática, de sua duração e de sua finitude. Ao “estranharmos” a ocasião temos o transe cognitivo quebrado. Nos chama a atenção, desperta nossa curiosidade – o tempo pára. Pertence apenas ao Homem (thnetos – θνητός) a capacidade de morrer, ser finito, e saber disso. O que pode ser maldição para uns, é a definição de humano para outros. A ocasião da elegância é a apreensão do momento oportuno onde o pré-sentido anuncia-se potencialmente justo, belo e bom. Tudo o que de-correr (o tempo agora marcha) a partir desse ponto, seja forma, conteúdo ou adequação de uma ao outro, será na justa medida, bom e belo, consolidados. E daí, a possibilidade da saída estética da aporia existencial que ela permite. Daí também, sua captura epistêmica pelas ciências. Daí, enfim, seu valor (humano) em-si.

A Elegância é um pré-sentimento do Bem. E-terno.

[1] Sontag, S. “Against Interpretation” [link]

Fenomenologia da Elegância

andrea-laliberte-femme-elegante-iiiPor que não costumamos dizer que cachoeiras ou praias são elegantes? Quem pode ter o atributo da elegância? Seria a elegância um modo-de-ser exclusivo das coisas do humano? Um terno ou um vestido não são elegantes em si. Tornam-se (ou não) quanto vestem alguém. Já um móvel pode ser elegante mesmo que não haja ninguém por perto. Uma floresta não é elegante. Um jardim pode ser. Mas por quê? Qual característica (humana?) singulariza a nós e nossas coisas como candidatos à elegância?

E por fim, mas não menos importante: o que é elegância e qual a importância em ser elegante? É possível uma atividade humana, por exemplo, a ciência ou a medicina, ser desempenhada de forma elegante? Se sim, como isso se dá? Um artigo recente em uma importante revista de nefrologia (ver abaixo) ressalta a importância de uma ciência elegante. Basicamente, os autores defendem a ideia de que a elegância teria um valor epistemológico em si dado que pode emergir na forma de síntese (organização de dados de uma forma diferente que permita ver algo novo, como no exemplo da descoberta da vacina da varíola por Jenner); na forma de uma combinação entre simplicidade e equilíbrio (como na hipótese do trade-off de Bricker & Slatopolsky para o equílibrio entre cálcio e fósforo nos mamíferos); ou, finalmente, na forma de simplicidade e linearidade (como na hipótese dos supernéfrons de Barry Brenner). Seria um tipo de Navalha de Ockham estética e parcimoniosa. Em algumas áreas da matemática, isso parece mesmo ser o método. A conclusão do artigo, que reproduzo agora em tradução livre do inglês, me parece reveladora.

Um estudo sistemático da elegância requer uma abordagem interdisciplinar que envolva a pesquisa biomédica contemporânea, uma perspectiva histórica e uma compreensão filosófica das bases da ciência. Como na famosa frase de Kuhn: “é especialmente em períodos de reconhecida crise que os cientistas voltam-se às análises filosóficas como dispositivo para decifrar os enigmas de suas atividades”. Nós acreditamos que a história e a filosofia têm um papel na prática cientifica cotidiana, não apenas nos momentos de crise. A perspectiva histórica e a reflexão filosófica não são elementos tangenciais mas componentes fundamentais da pesquisa científica. Em especial, elas nos permitem desenvolver características da ciência que a tornam elegante e melhor compreender porque uma mente elegante é um propulsor do progresso científico.

Se essa fórmula é válida ou não, podemos tentar discutir mais adiante. A elegância contudo nos afeta cotidianamente e provoca em nós um vislumbre do sublime. Antes de saber o que seria uma “medicina elegante” por exemplo, é preciso entender como algo elegante, pessoa, objeto ou ação, se apresenta a nós. Como se destacaria tal elegância no mundo que me cerca visto que a discrição, e não a ostentação, e a parcimônia, e não o excesso, são características do que é elegante? Que impressão causa em mim tal fenômeno é um trabalho que pode ser abordado de múltiplas formas. Tentarei, com todos os riscos inerentes a um amador (no sentido forte do termo) no assunto, a via fenomenológica. O tema me é caro e mereceria uma abordagem menos diletante dado que pode constituir a “via estética” como uma alternativa concreta como perceberam os colegas do artigo abaixo. Mas considerem como um exercício. (Se eu errar, corrijam, por favor!).

Ver Fenomenologia da Elegância II e III.

ResearchBlogging.org

Nathan MJ, & Brancaccio D (2013). The importance of being elegant: a discussion of elegance in nephrology and biomedical science. Nephrology, dialysis, transplantation : official publication of the European Dialysis and Transplant Association – European Renal Association PMID: 23378419

Sobre ScienceBlogs Brasil | Anuncie com ScienceBlogs Brasil | Política de Privacidade | Termos e Condições | Contato


ScienceBlogs por Seed Media Group. Group. ©2006-2011 Seed Media Group LLC. Todos direitos garantidos.


Páginas da Seed Media Group Seed Media Group | ScienceBlogs | SEEDMAGAZINE.COM