Vidro Fosco II

A primeira parte desse post pode ser acessada aqui.

III

Uma forma estética de compreender a Medicina é encará-la como uma dança peculiar entre as Ciências Naturais e as Humanidades. Há muito se fala sobre isso. Pouco se divulga, no entanto, que a canção que as embala é a própria linguagem. E é frequente que, pela forma como cada uma constrói e se utiliza da linguagem, haja descompassos. E pisões nos pés de ambos os lados. Pois pode-se imaginar a ciência como um núcleo duro bem estabelecido de conhecimentos, conceitos e técnicas, afinal, o avião voa e os antibióticos ainda surtem efeito quando bem utilizados. Desse núcleo denso emanam “certezas” que vão se diluindo conforme nos afastamos do centro. Até um determinado ponto a partir do qual “certezas” é o que já não temos. A superfície de contato desse “campo” assim constituído com a realidade dos entes é a fronteira da experiência. Ao realizarmos uma experiência bem sucedida, estendemos nosso campo de “certezas” tomando-o da ingenuidade e do obscurantismo, como os neerlandeses tomaram a terra ao mar. Na periferia, muitas vezes não há nomes para as novas descobertas e os cientistas os emprestam das coisas conhecidas, criando metáforas úteis que ao migrar lentamente para a “área de certezas” central, vão se tornando comparações  operacionais e finalmente, firmes integrantes de edifícios teóricos. Um exemplo clássico é a metáfora “matéria é energia”. Assim, portanto, se move a Ciência. Contudo, a linguagem tem natureza diversa. Seu ponto de contato com a realidade é a literalidade e não a experimentação interior dos tropos, como seria lícito supor. O movimento é, dessa maneira, inverso. Para se expandir, os saberes linguísticos transformam a produção da monumental usina figurativa que fervilha em seu íntimo, primeiro, em quentes e belas metáforas, depois, em mornas comparações batidas e finalmente, em frios conceitos pensáveis. A primeira, portanto, se expande pela pujança de seus limites. A segunda, pela pressão exercida a partir do cerne.

Se pudermos aprofundar ainda um pouco mais nossa analogia e imaginar agora a coreografia desenhada pela união desses corpos titânicos que originam a Medicina, vamos entender que o metabolismo contrário de ambas faz com que valorizem diferentemente as metáforas. Houve um tempo em que a Ciência pretendeu esquecer esse movimento frenético e confuso – instável e impreciso diziam -, do fluxo de signos a interferir em suas ações. Parou na “incompletude de um teorema”. Houve um tempo também em que as Humanidades em geral, e a linguagem em particular, quiseram ficar livres do zunido provocado pelas metáforas e literalizar-se, a exemplo das Ciências Naturais. Desistiram quando “investigações filosóficas” vieram à tona. De qualquer modo, é possível ainda perceber um certo ranço de ambas as partes quando o assunto volta à baila. Todo casal tem seus tabus. Por todo o exposto, não deixa de ser curioso que a marca da pandemia que alterou completamente as relações humanas em todos os níveis ao redor do globo terrestre tenha como assinatura óptica uma metáfora visual. Vidro fosco. A importância em se resgatar o valor das metáforas reside precisamente no fato de que nosso mundo é construído por meio da atribuição de sentidos temporais aos entes e às coisas. Sentidos que se solidificam a partir da metamorfose do fluxo incandescente de metáforas produzido pelo cerne linguístico que consiste a base antropológica de todo e qualquer comportamento humano, independentemente da direção que tomam na medida em que são pensados. E por que é crucial a nós lembrarmos disso? Ora, porque ao esquecermos a origem metafórica de nossos conceitos, atribuímos a eles uma independência e uma eficácia causal que jamais possuíram. Além disso, os ordenamos de acordo com um esquema que é, em essência, metafórico (antropomórfico, como diria Nietzsche) e, o que é pior, nos colocamos sob o jugo deste mundo que era, primordialmente, de construção nossa! Em outras palavras, ao esquecer a origem metafórica de nossas construções mundanas corremos o risco de nos deixar tiranizar pelas nossas próprias fantasias.

IV

A COVID-19 expôs o nervo dolorido da desigualdade. Apresentou de maneira exemplar a debilidade de nossos sistemas de saúde. Esfregou na nossa fuça a fragilidade do planeta que habitamos e de nossos modos de vida perdulários. Ao impedir a passagem de raios invisíveis através dos entremeios aerados dos pulmões de suas vítimas, a COVID-19 produz nas tomografias o efeito visual de um embaçamento que veio a se tornar sua marca. Para contemplar esse vidro fosco em todo o seu esplendor, talvez seja preciso desmembrar o par dançante que constitui a Medicina. Sim, porque para as Ciências Naturais, o vidro fosco é a metáfora morta e solidificada que conceitua um padrão radiológico característico, mas não patognomônico, de uma enfermidade perigosa. Um processo acabado e encerrado sobre si. Uma denominação por simples analogia. O conceito operante de verdade aqui é a veritas romana, adequação à realidade das coisas. Já para as Humanidades, entretanto, a metáfora – que aqui caminha em sentido contrário – nos diz que a doença ao mostrar, de fato esconde aquilo que deveríamos ver. Exibir a imagem de uma não-visão (um vidro não transparente) equivale a dizer “Olhe isso aqui e veja que você não vê!” Um paradoxo que, bem endereçado, poderia mesmo despertar uma interpretação alternativa da realidade: a verdade aqui é a Aleteia dos gregos antigos, desvelamento.

Mas, se “compreender é ver” como já quis tanta gente, compreender corretamente implica em educar a vista para captar as várias verdades que se nos apresentam. Haverá uma verdade científica e uma humana? Talvez, a COVID-19 queira nos trazer de volta a figura daquele cego dos filmes B que só adquire poderes especiais após perder a visão, não sem antes passar pelo estranhamento de um sofrido e catártico processo de adaptação. Um estranhamento que se inscreve reservadamente nesse tráfego intenso de idas e vindas das metáforas cotidianas e que nos permite intuir ao observá-lo atentamente, dada a agora poderosa imagem desse vidro fosco, que elegância e conhecimento são, de fato, verdadeiros e fundamentais cada um a seu modo, mas só são sublimes em comunhão.

Créditos da imagem: Mãos de mulher por trás do vidro fosco (créditos: FreePik)

Vidro Fosco I

I

A transparência pode ser entendida como o atributo que têm as coisas que deixam ver através de si. Nem sempre uma virtude. Transparências por vezes são indesejadas e, por essa razão, o engenho humano as transforma em opacidades recatadas. Contudo, o caso do vidro é mesmo especial. Nascido da assombrosa fusão da sílica com a soda, elementos de propriedades visuais singelas, sua natureza é a translucidez obscena, a visão límpida e ao mesmo tempo intangível de uma realidade presente. Por isso o tornamos baço na esperança de que alguém, ao perceber o paradoxo dessa condição, surpreenda-se e que dessa surpresa possa surgir, quem sabe, algo como um sentimento de elegância, quando estamos no campo da estética, ou algo como o conhecimento, quando tratamos de descrições teóricas da natureza. Vai depender da chave cognitiva intencionada.

Em contrapartida, alguém uma vez já disse que a Medicina está imersa em metáforas e é verdade. Se por um lado, sua prática empresta seus termos à Filosofia desde o aparecimento de ambas na Grécia Antiga, de outro, também os médicos se utilizam de metáforas cotidianas para descrever seus achados – bons observadores que sempre foram. Que dizer, a título de exemplo, de termos como “murmúrio vesicular” (sons respiratórios normais) e “sopro” (sons cardíacos anormais)? As descrições radiológicas pulmonares, em especial, são ricas em comparações diversas. “Árvore em brotamento”, “favos de mel” e “vidro fosco”. Vejam só. Vidro fosco. Quando começaram a chegar as descrições de casos de um estranho e preocupante tipo de pneumonia na cidade de Wuhan (província de Hubei), na China continental, a partir de dezembro de 2019, ninguém poderia imaginar que o tal vidro fosco se tornaria quase que uma assinatura viral, impressa nos filmes radiológicos e nas telas dos computadores. 

Entrei em contato com as imagens pulmonares em vidro fosco no final do verão de 2020. A princípio chamavam a atenção pela exuberância incomum. Depois, pela repetição quase monótona dos padrões nos inúmeros pacientes que tivemos a oportunidade de acompanhar. A tal ponto que, mesmo com os exames comprobatórios negativos, tínhamos certeza de com quem estávamos lidando ali. Imagens radiológicas são produzidas pela impressão causada por raios invisíveis – os Raios X – em superfícies sensíveis de modo que, penetrando nas profundidades orgânicas dos corpos, fazem ver o opaco interior da vida. O pulmão é uma superfície marcadamente redobrada sobre si o que cria pequeninos espaços aéreos – os alvéolos – preenchidos por ar. O ar é altamente permissivo aos raios X, o que já não ocorre com os líquidos, a gordura e muito menos com os minerais ósseos. Tal diferença de densidade permite que os raios imprimam diferentes padrões nos filmes e forneçam uma miríade de tons que vão do branco-neve ao preto-carvão. O vidro fosco tomográfico é produzido por um aumento leve na densidade do pulmão que preserva a imagem dos brônquios e vasos pulmonares, proporcionando um aspecto branco “jateado” daquilo que, caso contrário, deveria ser escuro como a noite. Tem mais a ver com as finas membranas que constituem as paredes dos alvéolos que com os espaços aéreos por elas delimitados. Quando são estes últimos os principais acometidos, o padrão resultante é diferente, mais parecido com o de uma “condensação”, uma opacificação alva cuja homogeneidade só é quebrada pelos pobres brônquios imersos na inflamação mas preenchidos ainda por ar que, todavia, já não vai a lugar nenhum. Esse é o padrão característico das pneumonias chamadas “típicas”. Mortíferas desde sempre, sem escolher idade ou credo, mas pictoricamente bem diferentes da COVID-19. Se as imagens pulmonares produzidas pelo novo coronavírus não são propriamente originais, dado que suas primeiras descrições coincidem com a invenção dos tomógrafos de alta resolução, coisa da década de 80, o fascínio e o temor que provocam provém de sua monotonicidade e intensidade nos pacientes graves, como já se disse, mas também de sua quase completa ausência, na grande maioria dos casos acometidos que permanecem, assim, assintomáticos. Ainda não se conhecem os determinantes de tal comportamento, mas sabemos que são democraticamente distribuídos entre os vários segmentos da sociedade: em que pese a mortalidade ser comprovadamente maior nos menos favorecidos, isso se dá mais por dificuldades de acesso ao cuidado e maus tratos prévios que pela diferença de intensidade do processo patológico.

II

Envolvido que estava no cuidado aos pacientes, fui me dar conta apenas algum tempo depois da inusitada combinação de particularidades que constitui a COVID-19. As proporções globais e os números colossais, o contágio veloz e a vulnerabilidade imunológica, o isolamento social e a ausência de terapêutica, a marca radiológica cristalizada numa metáfora visual… Tal mistura de concepções bate de frente em nossa atual noção de mundo. Esse mesmo mundo tão vasto e acessível e que agora se torna difícil, restrito, frágil e perigoso. De todas as maneiras possíveis de penetrar nessa coesa estrutura que constitui o corpo conceitual da pandemia, escolhi logo a porta dos fundos. Não sou epidemiologista, nem tenho formação em sociologia. Me restam as imagens impactantes e seus nomes. Trata-se, portanto, de desvelar o que, num certo tipo de linguagem descritiva da realidade pretensamente literal, permanece oculto, na esperança de que tal desvelamento ponha a nu as mazelas às quais nos apegávamos inadvertidamente. Cabe perguntar, assim, o que na metáfora do vidro fosco presente nas tomografias computadorizadas dos pacientes acometidos pelo novo coronavírus embaça nossa visão? Qual realidade ela procuraria preservar como vidro opaco que é? Seria possível drenar dela algum tipo de elegância ou conhecimento? 

(continua..)

Imagem: Tomografia computadorizada de paciente com Covid-19 mostrando a abundância do padrão em “vidro fosco”. Há apenas uma pequena faixa de pulmão normal abaixo, à direita da imagem (à esquerda do paciente). Arquivo pessoal.

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