Solo Epistemológico
Texto de Michael Berger de 2002. Arranha algumas idéias deste blog, cita bons exemplos, percebe uma faceta da crise, porém não se dá conta da doença maior… Nem a racionalidade clássica, nem o esclarecimento, muito, muito menos a medicina baseada-em-evidências, são os tratamentos para o misticismo, idolatria e irracionalidade que teimam em aumentar, como bem nota o autor.
A Medicina e o Bezerro de Ouro
créditos ao Blog do Paulo Lotufo
Habermas II

Técnica e Ciência como “Ideologia”– Jürgen Habermas – Edições 70 – 2006 – pág 72-73.
“Desde o final do século XIX, impõe-se cada vez com mais força a outra tendência evolutiva que caracteriza o capitalismo tardio: a cientificação da técnica. No capitalismo sempre se registrou a pressão institucional para intensificar a produtividade do trabalho por meio da introdução de novas técnicas. As inovações dependiam, porém, de inventos esporádicos que, por seu lado, podiam sem dúvida ser induzidos economicamente, mas tinham ainda um caráter natural. Isso modificou-se, na medida em que a evolução técnica é realimentada com o progresso das ciências modernas. Com a investigação industrial de grande estilo, a ciência, a técnica e a revalorização do capital confluem num único sistema. Entretanto, a investigação industrial associa-se a uma investigação nascida dos encargos do Estado, que fomenta em primeiro lugar o progresso científico e técnico no campo militar. Daí as informações refluem para as esferas da produção civil de bens. Deste modo, a ciência e a técnica transformam-se na primeira força produtiva e caem assim as condições de aplicação da teoria marxiana no valor-trabalho.(…). Como variável independente, aparece então um progresso quase autônomo da ciência e da técnica, do qual depende de fato a outra variável mais importante do sistema, a saber, o crescimento econômico”.
Esse texto de Habermas, de 1968, me diz como o capitalismo tardio necessita do progresso técnico-científico para manter o crescimento econômico. Afirmação que é exemplificada à exaustão no livro O Mundo é Plano.No caso da Medicina, posso entender que isso se reflete de muitas e variadas maneiras. Da influência da Big Pharma na atuação dos médicos e geração de informação técnica, até ao comportamento dos médicos diante de novas tecnologias que vão forjando seu raciocínio.
Solo Epistemológico

Será objetivo deste blog sublinhar artigos, peças publicitárias, textos ou fotos, seja da mídia leiga ou de revistas especializadas, que demonstrem mudanças paradigmáticas no comportamento médico contemporâneo.
Iniciaremos com o artigo do New England Journal Medicine de 28/02/08 sobre a diminuição no número de autópsias com objetivo de evidenciar a causa mortis. Em contrapartida, as autópsias medico-legais vêm aumentando…
Defende-se que tal fenômeno seja decorrente de uma mudança no conceito contemporâneo de doença, mas não no conceito de crime, assunto que abordaremos novamente com mais detalhe.
Obs. Os termos autópsia e necrópsia têm sido usados indistintamente. Entretanto, têm significações diferentes. A saber, autópsia é literalmente ver com os próprios olhos e necrópsia, ver a morte. Por representar mais corretamente o ato médico de se procurar a causa mortis numa preparação cadavérica, autópsia é o termo que utilizaremos. Ver também.
Habermas

E agora, posso avançar um pouco mais: Habermas
“Diferentemente das ciências filosóficas de tipo antigo, as modernas ciências experimentais desenvolvem-se desde a era de Galileu, num marco metodológico de referência que reflete o ponto de vista transcendental da possível disposição técnica. As ciências modernas geram por isso um saber que, pela sua forma (não pela sua intenção subjetiva), é um saber tecnicamente utilizável, embora as oportunidades de aplicação, em geral, só tenham surgido posteriormente. Até ao fim do século XIX, não existiu uma interdependência de ciências e técnica.” (Técnica e Ciência como “Ideologia”– Jürgen Habermas – Edições 70 – 2006 – pág 66-67)
A interdependência entre ciência e técnica é a ciência do fazer. A instrumentação da natureza no intuito da dominação. A medicina se utiliza de uma parte dessa ciência que podemos chamar ciência médica e que vem a nós carregada dessa ideologia.
Vêm daí parte das críticas contemporâneas.
Frankfurt II
A Dialética do Esclarecimento. T. Adorno e M. Horkheimer. Jorge Zahar. 1985, pág 13.
“Não alimentamos dúvida nenhuma de que a liberdade na sociedade é inseparável do pensamento esclarecido. Contudo, acreditamos ter reconhecido com a mesma clareza que o próprio conceito desse pensamento, tanto quanto as formas históricas concretas, as instituições da sociedade com as quais está entrelaçado, contém o germe para a regressão que hoje tem lugar por toda parte.
Se o Esclarecimento não acolhe dentro de si a reflexão sobre esse elemento regressivo, ele está selando seu próprio destino. Abandonando a seus inimigos a reflexão sobre o elemento destrutivo do progresso, o pensamento cegamente pragmatizado perde seu caráter superador e, por isso, também sua relação com a verdade.”
Refletir sobre o elemento destrutivo do progresso não significa primitivizar o presente. Pelo contrário, a reflexão aqui tem como objetivo primordial a libertação do meu pensamento. (Ou pelo menos, entender os efeitos colaterais de minhas formas de pensar.)
Acorrentado que estou a meu tempo, refletir aqui será desagrilhoar-se…
Frankfurt
Primeiro, preciso entender como o Esclarecimento (Iluminismo, Aufklarüng) opôs a razão ao mito. O combate ao mito como fonte de irracionalidade fundamenta a oposição entre o esclarecimento e a mitologia. Kant é o grande mestre dessa transformação. A sufocação do mito permite entender muitas coisas: de Freud a Edir Macedo. Preciso reconhecer ainda, que a primazia do eu burguês reduz a natureza a uma simples e indiferenciada resistência ao poder abstrato do sujeito. O super-sujeito esclarecido. Caso contrário, não entenderei o surgimento da tecno-ciência e como ela – sempre com décadas de atraso em relação às ciências ditas naturais (Física, Química, etc) – dizia, como ela mesma, tecno-ciência, vem moldando o pensamento médico contemporâneo.







