Rosset, Acaso e a Tragédia do Ser

De vez em quando ouvimos algu√©m dizer: “No meu tempo, isso n√£o era assim! O mundo est√° perdido…” e coisas semelhantes. Esse saudosismo, uma sensa√ß√£o de que as coisas v√™m piorando progressivamente, √© um sentimento que nos acomete volta-e-meia. Alguns dizem que √© a “idade” que nos deixa assim. Outros, que somos pessimistas (o que n√£o √© totalmente correto, como vou mostrar). Mas, o que estaria por tr√°s disso? Assumindo como “moderno” aquilo que est√° presente em nosso cotidiano, o que subjaz a essa nossa cr√≠tica √† modernidade? A pergunta poderia tamb√©m ser: “Por que o presente nos causa, muitas vezes, essa sensa√ß√£o de que √© uma degenera√ß√£o de algo que t√≠nhamos em t√£o alta conta?” Seja a polui√ß√£o do planeta (a natureza), seja as rela√ß√Ķes humanas (a sociedade), seja jogar futebol por amor √† camisa (a moral), exemplos cotidianos desse sentimento.

A facticidade do presente √© poderosa. Chega a ser aterrorizante. N√£o √© uma mem√≥ria constru√≠da de sentimentos do passado, filtrada para que eu consiga sobreviver. N√£o √© uma esperan√ßa do futuro projetada para que eu n√£o pere√ßa. (E aqui sim, se essa proje√ß√£o for negativa, serei pessimista; no caso contr√°rio, tendo uma vis√£o positiva do futuro, serei otimista.) A facticidade do presente √© palp√°vel e nossa maior fonte de certezas. Por que insistimos, ao analisar determinadas situa√ß√Ķes, em deneg√°-la? Em descaracteriz√°-la e desvaloriz√°-la julgando uma hipot√©tica situa√ß√£o passada mais adequada ou melhor do que a atual?

A resposta √© que assumir o presente √© problem√°tico e perigoso. O presente e sua produ√ß√£o intermin√°vel de fatos, a que chamamos inocentemente de realidade, nos levam para bem longe de nosso mundinho ideologizado no qual queremos e precisamos acreditar, seja esse mundo objeto de uma raz√£o instrumental que utilizo para prever fen√īmenos e criar tecnologia; seja um “outro” mundo que conhecerei depois de morrer; seja qualquer tipo de mundo constru√≠do de forma a dar abrigo e aconchego para um tal ser-para-a-morte. E aqui preciso exercitar meu desprezo pela palavra fato, t√£o cara a cientistas e seres humanos em geral, utilizada para “bombar” argumentos e “vencer” discuss√Ķes. Da palavra latina factum resultam dois sentidos: o que existe (o facto real, em oposi√ß√£o √† ilus√£o e ao sonho) e o que √© fabricado (de onde vem f√°brica e factory, o artificial, em oposi√ß√£o √† natureza).

O paradoxo do presente est√° ent√£o, em nos afogar com fatos que se por um lado, nos d√£o uma dimens√£o do real, por outro, s√£o instant√Ęneos e artificiais. Instant√Ęneos, porque o que se apresenta √© a profus√£o de sucess√Ķes. Artificiais, porque s√£o anti-naturais, desligados de uma ess√™ncia passada e futura. Isso √© o que alguns chamam de devir. Seria preciso, para sobreviver a esses tsunamis um tipo de boia? Algo em que se possa agarrar, de prefer√™ncia, algum tipo de terra firme, mesmo que seja uma miragem?

Reconhecer o presente √© aceitar a instantaneidade e a artificialidade do fato. Em outras palavras, √© afirmar o acaso. O acaso nos √© por isso, impens√°vel; e humilhante. √Č dessa postura frente ao acaso que deveria surgir nossa felicidade. Mas que fique claro que essa f√≥rmula √© diferente da moral/religiosa: “sede primeiro humildes, e vereis em seguida a felicidade”. A f√≥rmula jubilat√≥ria √©: “sede primeiro feliz, e sereis necessariamente humildes”. Segundo Clement Rosset, “a segunda f√≥rmula √© mais segura que a primeira, pois a alegria garante a humildade, enquanto a humildade n√£o garante a alegria.” A mais profunda sabedoria n√£o recomenda ser primeiro humilde, mas feliz: Amor Fati.


Referência

Cl√©ment Rosset. A Anti-Natureza. Elementos para uma Filosofia Tr√°gica. Rio de Janeiro: Espa√ßo e Tempo, 1989. Tradu√ß√£o Get√ļlio Puell.P√°ginas 298-301.