O Ethos Médico e o Espírito do Capitalismo

Dr Josiah “Doc” Boone por Thomas Mitchell em “No tempo das Dilig√™ncias” (Stagecoach-1939)

A medicina do final do s√©culo XIX n√£o tinha o discurso empoderado, nem tampouco o¬†status¬†atual (se bem que este √ļltimo anda bastante combalido, convenhamos). Abrigava em sua “maleta” m√ļltiplas teorias de doen√ßa que a dividiam em escolas beligerantes; era tecnicamente ineficaz; n√£o tinha nenhum tipo de controle governamental e, por isso tudo talvez, era tamb√©m mal remunerada e pouco reconhecida como profiss√£o.

No Brasil, um exemplo que talvez tipifique tal situa√ß√£o √© a¬†Revolta da Vacina¬†(1904)¬†iniciada por uma ¬†decis√£o do m√©dico brasileiro de maior prest√≠gio nacional e internacional de ent√£o, Osvaldo Cruz, em vacinar contra a var√≠ola, compulsoriamente, os habitantes da cidade do Rio de Janeiro. Sem conseguir convencer as pessoas dos benef√≠cios de sua decis√£o, a revolta terminou por deixar trinta¬†mortos e cento e dez feridos, sendo centenas de pessoas presas, muitas delas depois “deportadas” para o Acre. (O epis√≥dio foi recentemente reconstitu√≠do por uma¬†novela.)

Na Am√©rica do Norte a situa√ß√£o n√£o era diferente. Os m√©dicos norte-americanos do come√ßo do s√©culo XIX n√£o tinham l√° muito boa fama. Tal arqu√©tipo, encarnado pelo premiado (Oscar de melhor ator coadjuvante em 1939)¬†Thomas Mitchell que interpretou um m√©dico alco√≥latra no filme “No tempo das dilig√™ncias” de John Ford, com John Wayne no elenco, estava mais para um¬†fracassado¬†que para bom partido. Seu enorme cora√ß√£o e sua coragem n√£o garantiam ao Dr. Boone os bons¬†resultados. Sua especialidade eram mesmo os destilados de milho do Velho Oeste.

Na d√©cada de 30, contudo, a medicina norte-americana j√° era uma profiss√£o organizada em sociedades m√©dicas de car√°ter econ√īmico e cient√≠fico. Os m√©dicos passaram a ascender socialmente, aumentando seus ganhos financeiros e tamb√©m sua import√Ęncia no cen√°rio pol√≠tico das cidades. Faculdades de medicina e hospitais tornaram-se o centro da pr√°tica m√©dica concebida como atividade tecnol√≥gica e voltada para obten√ß√£o de resultados objetivos. O que teria ocorrido? Qual mudan√ßa foi respons√°vel por esse salto de qualidade? Que onda de modernidade daria conta de passar a limpo a medicina e tornar os EUA a pot√™ncia biom√©dica que s√£o¬†hoje? Conta a hist√≥ria oficial que, no in√≠cio do s√©culo XX, grandes reformas na educa√ß√£o m√©dica foram instauradas e ajudaram a organizar o grande caos que reinava no Canad√° e nos Estados Unidos. Abraham Flexner, educador e professor americano, foi o mentor dessa reforma. Visitou 155 escolas de medicina (131 dos EUA e 24 do Canad√°) e produziu um¬†relat√≥rio que √© seminal nas discuss√Ķes sobre ensino m√©dico¬†(em pdf) at√©¬†hoje. Nesse relat√≥rio, ele define o que seria um curr√≠culo ideal para as faculdades de medicina tendo como modelo a faculdade de medicina da¬†Johns Hopkins. Foram fechadas quase uma centena de faculdades que n√£o se adequaram ao procedimento padr√£o. Feita a “poda”, a medicina poderia ent√£o, florescer e dar bons frutos na Am√©rica do Norte.

Mas, algumas quest√Ķes sobre esse¬†mainstream¬†hist√≥rico t√™m sido levantadas. Em especial, porque muitas das causas da brutal crise¬†que se abate sobre a medicina em v√°rios lugares do mundo podem ter sua origem nesse per√≠odo extremamente turbulento da hist√≥ria da humanidade. Tal transi√ß√£o a que me referi acima e o consequente¬†ethos¬†m√©dico que se deu a partir de ent√£o, foram forjados no esp√≠rito do capitalismo agressivo e esfomeado do in√≠cio do s√©culo XX e que tomou de assalto, n√£o s√≥ a medicina e outras a√ß√Ķes humanit√°rias, mas tamb√©m, todo o sistema de ensino norte-americano, dado que a m√£o de obra especializada se constitu√≠a no grande √≥bice √† formid√°vel expans√£o econ√īmica que logo se seguiu. N√£o se discute a inova√ß√£o tecnol√≥gica e cient√≠fica da medicina atual, discute-se sua forma de ser nessa tecnoci√™ncia. Em tempos nos quais a importa√ß√£o de m√©dicos – alegadamente objetivando preencher vazios assistenciais que os escul√°pios aut√≥ctones n√£o conseguem (ou n√£o querem) preencher -, parece iminente e, em meio a medidas atabalhoadas do governo federal contra um¬†establishment¬†de branco, algo demonizado at√©, em que pese sua¬†√≥bvia¬†responsabilidade sobre a situa√ß√£o atual, uma leitura hist√≥rica parece se impor mais do que nunca.

Espero que tal abordagem ajude a clarificar a diferen√ßa entre¬†medicina¬†e¬†ci√™ncia,¬†que alguns ainda insistem em n√£o ver.¬†A medicina e seu hibridismo epistemol√≥gico at√°vico, n√£o √© ci√™ncia e o tecnicismo atual que transforma m√©dicos em tecn√≥logos da sa√ļde j√° tem sido suficientemente criticado. Por outro lado, sua import√Ęncia nas pol√≠ticas de sa√ļde faz dela uma atividade estrat√©gica ao poder estatal. Reduzir a medicina a um instrumento pol√≠tico √© perigoso e ineficaz, e a hist√≥ria √© pr√≥diga em exemplos que mostram que quem mais¬†sofre com isso sempre s√£o os mais indefesos. Vivemos as vicissitudes de um modelo m√©dico que escolhemos h√° duzentos anos. Achar que as responsabilidades desse modelo recaem apenas em seus executores de branco √© um ato de pusilanimidade. Aos leitores m√©dicos, n√£o reconhecer nossas responsabilidades sobre tal situa√ß√£o √© covardia.

Um passo atrás, por favor. Que outros possam me ajudar a recontar essa história. Talvez assim, possamos entender o presente caótico e planejar um futuro melhor.