A Fotografia e o Cachecol

– Essa foto sua é linda, mas eu não gosto dela…
Р??? Рcom os dedos juntos das duas ṃos, ao modo dos paulistalianos.
РṆo gosto. Acho que ̩ porque ṇo fui eu quem tirou.
РMas o que tem a ver? Se a foto ̩ bonita, ̩ bonita, oras!!
РṆo ̩ isso. Ṇo sei explicar. Quem tirou mesmo essa foto?
– O Bráulio…
– Nossa! Odeio esse cara…
РPor que, meu deus? Voc̻ nem conheceu o coitado!
– Não sei. Mas, odeio. Como ele pôde?…
– Quer parar?! Você tá começando a me assustar. Pôde o quê?! Que coisa mais sem pé, nem cabeça… Eu, hein – e virou as costas, a fazer alguma coisa.

Ele ficou pensativo, olhando a fotografia dela de quase trinta anos atrás, longamente. Era uma foto em branco e preto de uma menina séria, com a franja a recobrir parcialmente os olhos castanhos semicerrados. Os lábios entreabertos e o rosto quase de perfil. Recomeçou, sem tirar os olhos da foto.

– Acho que já sei.
РO qu̻?! Рvirando-se, com uma meia na ṃo.
РPorque eu acho a foto linda e ṇo gosto dela.
РPor qu̻?! Рsem a menor paci̻ncia.
– Porque o tal Bráulio viu uma coisa que só eu havia visto até então. E pior, fotografou. Ele não tinha esse direito…
– Como assim?!
РEssa foto ̩ de uma imagem que eu tenho de voc̻. Algo que captei em algum momento logo quando nos conhecemos. Logo que vi a foto, a reconheci.
РMas a foto sou eu!! Imagino que voc̻ deveria me reconhecer, ṇo?

Ele ainda olhando a foto.

– A foto é de você. Mas estou falando de uma das imagens que formei e não de você, especificamente. Fiquei surpreso ao ver que meus sonhos idealizados e platônicos, eróticos até, se materializaram nessa fotografia. É como se minha intimidade tivesse sido violada. Como se alguém me espiasse dentro do meu aposento mais íntimo e secreto. É como se outra pessoa a visse nua… No fundo, acho que tenho ciúmes da foto. É muita loucura isso?

РṆo. Continue Рo olhar arrefecera. Ele continuou.

– Acho que a foto é isso. Não sei explicar direito, mas é como se fosse uma força feminina bruta que me arremessou contra meus instintos mais egoístas. Ela me faz querer você. Quando, ainda hoje, vejo os traços da foto em algum gesto, tipo um take seu, te desejo. Parece uma coisa meio determinista, biológica, sei lá… O Bráulio jamais poderia ter visto isso! Era um segredo – só então levantando os olhos da foto e sorrindo meio sem graça.

Ela se enrola no pescoço dele tal como um cachecol e diz:

– Ele não viu, mané. Relaxa… – e tasca-lhe um beijo.

dia-do-fotografo

Mané, tentando tirar “aquela” foto – Flickr de K. Werfeldein.