O Tabagismo como Transtorno Existencial

Rita Fumando

Rita Lee, 1972

Fumantes s√£o pessoas interessantes. Ao longo de todos esses anos ajudei muitos a largar o v√≠cio. J√° com¬†outros, n√£o tive o mesmo sucesso. Mas, de tanto ouvir as est√≥rias dessas pessoas, acabei fascinado e entendi alguns conceitos importantes.¬†Muitos fumantes, em conversas no consult√≥rio ou mesmo em reuni√Ķes informais, nem se d√£o conta do¬†valor¬†que d√£o para determinados eventos e se surpreendem quando chamo-lhes a aten√ß√£o.

Encorajado por essas¬†rea√ß√Ķes, resolvi compartilhar esses conhecimentos com os 3 (altamente qualificados, diga-se de passagem) leitores deste¬†¬†blog, na esperan√ßa de que mais gente se sinta, digamos, acolhida, identificada talvez com isso¬†e se anime, quem sabe?, tamb√©m a parar de fumar. Adianto que o que escreverei aqui n√£o √© suscet√≠vel¬†√† comprova√ß√£o cient√≠fica e (at√© por isso) n√£o se trata de teoria, no sentido hardcore que utilizamos em ci√™ncia. Talvez tudo se encaixe melhor num conceito de narrativa¬†que¬†junta cacos de acontecimentos e lhes atribui sentido dentro do contexto da vida de um ser humano preso ao h√°bito de inalar fuma√ßa a partir¬†da queima de folhas de tabaco secas; atitude completamente idiota se olhada assim, mas que, por alguma raz√£o, traz um benef√≠cio real ao fumante. Uma das chaves para entender como tal benef√≠cio se d√° e se mant√©m apesar de todos os riscos e perigos do tabagismo est√°, na minha modesta opini√£o, numa abordagem mais existencialista do problema. Existencialismo que se inicia com Kierkegaard e que entra na medicina por interm√©dio de Jaspers e Biswanger, mas que permanece quase que exclusivamente restrito √† Psiquiatria. Segue, ent√£o, uma pequena digress√£o cl√≠nica sobre o h√°bito de fumar e os fumantes, um esbo√ßo no intuito de mostrar que talvez a medicina interna tamb√©m possa se beneficiar de tal abordagem.

Que h√° v√°rios tipos de fumantes √© preciso que se diga logo. H√° fumantes sem-vergonhas mesmo, aqueles que param (de verdade!) de fumar quando querem e voltam ao tabagismo por puro desprezo ao¬†v√≠cio. S√£o muito raros. Mais comuns s√£o os que acham que s√£o assim, superiores ao cigarro, e n√£o se d√£o conta de que esse √© um dos principais truques do tabagismo para se perpetuar. H√° fumantes pesados e leves. A grande maioria, entretanto, √© dependente do cigarro suficientemente para o¬†considerarmos um v√≠cio pern√≥stico, pois entremeado em v√°rios aspectos da vida do fumante.¬†Mas este parece ser¬†um tipo de depend√™ncia que n√£o √© “s√≥” qu√≠mico, como por exemplo, a depend√™ncia de opi√≥ides, cujo paradigma¬†cl√°ssico √©¬†a morfina. Neles, √© poss√≠vel substituir a droga por um an√°logo que interage com os receptores opi√≥ides mas que n√£o tem¬†o mesmo efeito e ir, progressivamente, “desmamando” o paciente¬†(seria muito bom se fosse simples assim; na verdade, o processo √© bem mais complexo e doloroso). Se os fumantes fossem “apenas” dependentes qu√≠micos, os adesivos, chicletes e mesmo o controverso cigarro eletr√īnico, todos √† base de nicotina, fariam qualquer um¬†abandonar o cigarro, fato que, sabemos, n√£o corresponde √† realidade.

Não é só Dependência Química

Se n√£o √© “s√≥” depend√™ncia qu√≠mica, √© o que mais? Muitos usam aqui uma palavra: h√°bito. Mas, o que √© um h√°bito? O termo “h√°bito” traz consigo um sentido origin√°rio que re√ļne tr√™s significados principais, a saber, uma capacidade ou virtude (como em “habilidade”), um demorar-se ou estabelecer-se (como em “habitar, habita√ß√£o”) e, finalmente, ao¬†transmitir a ideia¬†de uma inclina√ß√£o, disposi√ß√£o ou¬†mania,¬†ou de condi√ß√£o, estado, apar√™ncia. Nessa √ļltima acep√ß√£o, “[…] [h√°bito] parece remeter a algo que est√° em um indiv√≠duo, algo do qual ele √© portador, e¬†que se constr√≥i em sua apar√™ncia externa, ou em sua forma de comportar-se, ou ainda, de maneira mais interessante, na ambiguidade das duas¬†possibilidades a um s√≥ tempo como no dito popular¬†‘o h√°bito n√£o faz o monge'”. Tudo para dizer que¬†num h√°bito,¬†os sentidos de morar, parecer, comportar-se e ter capacidade ou potencial para realizar algo, convergem. Um h√°bito √© um modo de ser. De fato, n√£o √© raro ouvir dos fumantes que s√£o¬†outros ap√≥s pararem de fumar. Esse modo de ser que o fumante habita determina sua rela√ß√£o com as coisas e com as pessoas com as quais convive, ou seja, determina um tipo de rela√ß√£o com seu mundo. Quando alteramos compulsoriamente a rela√ß√£o dos fumantes com seu mundo, como por exemplo proibindo-os de fumar em determinados locais, alteramos os tr√™s sentidos do h√°bito mencionados acima e, com eles, todo o modo de ser dos fumantes. Da√≠, os resultados que as leis de restri√ß√£o ao fumo em lugares fechados implantadas em v√°rias cidades e agora, parece, em √Ęmbito nacional, t√™m conseguido. N√£o h√° um √ļnico fumante que n√£o considera tais restri√ß√Ķes eficazes em, se n√£o faz√™-los parar, ao menos em diminuir drasticamente o n√ļmero de cigarros consumidos por dia.

A Ansiedade como Patologia da Percepção do Tempo

T√£o¬†primordial quanto a rela√ß√£o dos indiv√≠duos com as coisas e com as pessoas √© sua rela√ß√£o com a¬†temporalidade. Nosso pr√≥prio ser est√° inextrincavelmente ligado √† percep√ß√£o do Tempo j√° que as coisas que s√£o apenas como constante presen√ßa¬†n√£o s√£o conforme a n√≥s, diria algu√©m na Floresta Negra. Tanto e de tal maneira, que a percep√ß√£o do Tempo molda nossos comportamentos e pensamentos, n√£o como um a priori¬†como queria Kant, mas como uma dimens√£o de nossa pr√≥pria exist√™ncia. Exist√™ncia que √© determinada¬†pela¬†facticidade, possibilidades e decis√Ķes que parecem apresentar-se de maneira cada vez mais veloz. Quando um indiv√≠duo tem a percep√ß√£o de que o Tempo passa demasiado r√°pido e que ele ou ela n√£o ter√° tempo suficiente para realizar tudo aquilo a que se prop√īs, tal pessoa assume uma configura√ß√£o de alerta. Se esse alerta se perpetua ao longo de todas as suas atividades, independentemente da import√Ęncia que se d√™ a elas ou de o tempo para execut√°-las ser suficiente ou n√£o, estamos diante de um quadro de ansiedade. Sob esse ponto de vista, a ansiedade pode ser considerada uma patologia da percep√ß√£o humana do Tempo. Uma patologia existencial, sem d√ļvida, mas que pode¬†produzir¬†sintomas f√≠sicos. Quando isso acontece, √© necess√°rio, muitas vezes,¬†recorrer a¬†recursos farmacol√≥gicos que desacelerar√£o o processo e reconduzir√£o a pessoa a um estado de normalidade. Entretanto, esses recursos desaceleram todos os processos, inclusive alguns que poderiam ter, digamos, alguma “utilidade”, como ficar ansioso antes de uma palestra (nos motiva a estudar), ou antes de um jogo importante (nos d√° gana para vencer). Al√©m disso, a enorme¬†maioria n√£o precisa ser tratada e convive bem com esse tipo de ansiedade chegando mesmo a tirar proveito dela. Mas, esse estado constante de alerta cansa, desgasta e consome. √Č preciso faz√™-lo parar de vez em quando. √Č preciso diminuir a velocidade da percep√ß√£o da passagem do Tempo e a ang√ļstia de v√™-lo esvair-se pelo v√£o dos dedos sem que nada se possa fazer.¬†Dentre as mais variadas maneiras de se conseguir isso, talvez a mais arriscada seja o tabagismo.

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Cinco minutos de fumaça e nicotina

 

Cinco Minutos de Fumaça e Nicotina

“N√£o √© ‘apenas’ qu√≠mico”, √© o que me dizem. H√°¬†a fuma√ßa (e a maneira que desenha formas enquanto sobe e evanece), h√°¬†o gesto (que na repeti√ß√£o autom√°tica, acalma e reassegura), h√°¬†a interrup√ß√£o das atividades que nada mais s√£o que “habilidades” que “habitamos” naquele momento e que a for√ßa do “h√°bito” estilha√ßa no instante em que se inicia o rito. E como t√™m for√ßa os ritos! H√° outras e tantas coisas mais, √© o que me dizem sem saber ao certo como diz√™-lo. Mas o que seria ent√£o todo esse conjunto? Por que funciona assim de tal forma a vencer o poder da vontade racional de um ser humano? Vontade que modificou o mundo e que cai perante um bast√£o de tabaco? Algumas das respostas poss√≠veis a essas quest√Ķes surgem¬†quando compreendemos¬†o cigarro como um dispositivo, um “v√≠rus metaf√≠sico”. O¬†cigarro desativa, temporariamente (e esse √© o segredo que o sucesso do v√≠cio n√£o nos deixa ver), a configura√ß√£o de alerta. O cigarro modifica a percep√ß√£o do Tempo, alentecendo-a. Tudo se passa como em c√Ęmera lenta, numa sensa√ß√£o de paz e poder viciantes. O relaxamento e a sensa√ß√£o de recompensa provocados pela estimula√ß√£o dos¬†receptores nicot√≠nicos¬†n√£o respondem por todo o efeito. N√£o √© “apenas” qu√≠mico¬†como muita gente acha. √Č como se o cigarro funcionasse como¬†um software que ao “rodar” desliga¬†a configura√ß√£o temporal e liberta o fumante de sua acachapante servid√£o cronol√≥gica.

O tabagismo é um transtorno existencial.

Essa canção dos Titãs tem um verso em especial que capta essas ideias de forma esteticamente espetacular.