Medicina, a √öltima Flor

O Minist√©rio da Educa√ß√£o anunciou nesta ter√ßa-feira (3/12/13) a rela√ß√£o dos 42 munic√≠pios pr√©-selecionados para a implanta√ß√£o de novos cursos de gradua√ß√£o em medicina por institui√ß√Ķes particulares de ensino superior. S√£o eles:

Bahia: Alagoinhas, Eunápolis, Guanambi, Itabuna, Jacobina e Juazeiro
Ceará: Crato
Espírito Santo: Cachoeiro de Itapemirim
Goi√°s:¬†Aparecida de Goi√Ęnia
Maranhão: Bacabal
Minas Gerais: Muriaé, Passos, Poços de Caldas e Sete Lagoas
Pará: Ananindeua e Tucuruí
Pernambuco: Jaboatão dos Guararapes
Piauí: Picos
Paraná: Campo Mourão, Guarapuava e Umuarama
Rio de Janeiro: Três Rios
Rio Grande do Sul: Erechim, Ijuí, Novo Hamburgo e São Leopoldo
S√£o Paulo:¬†Ara√ßatuba, Araras, Assis, Bauru, Cubat√£o, Guaruj√°, Indaiatuba, Ja√ļ, Limeira, Mau√°, Osasco, Pindamonhangaba, Piracicaba, Rio Claro, S√£o Bernardo do Campo e S√£o Jos√© dos Campos.

O estado de S√£o Paulo tem, como mostra a lista, 16 munic√≠pios entre os pr√©-selecionados o que, somados √†s 37 escolas m√©dicas j√° existentes, totalizam exatamente 53 unidades de ensino de gradua√ß√£o em medicina em territ√≥rio paulista. Destas, apenas 4 s√£o p√ļblicas e, consideradas as melhores, s√£o tamb√©m as mais concorridas.

A primeira pergunta que me ocorre √©: O Brasil precisa de mais m√©dicos? A resposta me parece claramente afirmativa. Segunda: O que o pa√≠s est√° fazendo para que isso seja resolvido? Abrir novas faculdades de medicina poderia parecer realmente uma alternativa vi√°vel e l√≥gica. Entretanto, como mostrei h√° algumas semanas atr√°s, isso j√° foi feito √† exaust√£o!! Nos 8 anos de governo FHC e nos seguintes 8 anos de governo Lula, foram abertos 86 cursos de medicina, a grande maioria privados, ao longo de todo o territ√≥rio nacional. Os chamados “vazios assistenciais” foram preenchidos? N√£o. O SUS ficou mais abastecido de m√©dicos dispostos a trabalhar nas condi√ß√Ķes a eles impostas? Tamb√©m n√£o. (N√£o vou nem enveredar por outras profiss√Ķes da Sa√ļde, como por exemplo, a enfermagem, que tem in√ļmeros cursos e continua sendo pouqu√≠ssimo valorizada e tampouco remunerada de forma condizente a sua enorme import√Ęncia. Meu foco aqui √© a profiss√£o de m√©dico e seu papel no sistema de Sa√ļde brasileiro.)

Tudo leva crer que a solu√ß√£o de nosso problema n√£o est√°, portanto, no n√ļmero de m√©dicos formados, mas sim, no tipo de m√©dico que formamos. Desde o in√≠cio do s√©culo, optamos por um modelo de ensino¬†que faz do m√©dico um intelectual, no sentido de elite pensante, da medicina. Nossa forma√ß√£o √© muito dispendiosa, n√£o s√≥ em recursos, como em tempo, al√©m de intimamente relacionada √† tecnologia e √† ci√™ncia. Desta √ļltima emprestamos a ideologia, normas de conduta e, mediante um velado imperativo moral, somos compelidos √† contribuir com ela, sob o risco de perdermos reconhecimento e status. Tudo isso nos transforma em profissionais exigentes, consumidores de recursos e eternos insatisfeitos. Nossa longa forma√ß√£o s√≥ vale a pena se, ao fim e ao cabo, pudermos ser remunerados de forma “justa” pelo vasto tempo que passamos estudando e em treinamento. Sem falar nos congressos e cursos de atualiza√ß√£o que nos s√£o exigidos. Dizem alguns amigos da √°rea que a¬†vida √ļtil de um cirurgi√£o vai, em m√©dia, at√© os 70 anos. “Se n√£o fizermos o p√©-de-meia at√© l√°‚Ķ” – e fecham a frase com uma careta de preocupa√ß√£o. Esse racioc√≠nio caricaturado aqui √© disseminado em seus mais variados graus no pensamento de cada m√©dico.

A abertura dessas novas faculdades de medicina, a meu ver, deve ser precedida pela discuss√£o de qual modelo de forma√ß√£o m√©dica ser√° o adotado nelas. H√° alternativas. Os m√©dicos cubanos v√™m de outra matriz te√≥rica da medicina. As faculdades de Nurse Practitioner no Canad√°, Austr√°lia e EUA preenchem v√°rios requisitos daquele tipo de profissional que buscamos. Se os problemas da Sa√ļde P√ļblica brasileira n√£o foram resolvidos com a abertura de 86 escolas m√©dicas no in√≠cio dos anos 2000, como concordar com a insist√™ncia nesse tipo de solu√ß√£o (que chamei de “l√≥gica de RH“)?

O que fazer se nem entidades m√©dicas, nem tampouco l√≠deres nacionais, reconhecem que h√° um modelo?¬†Que houve uma op√ß√£o¬†e que talvez hoje ela n√£o seja a mais adequada, necessitando de uma corre√ß√£o em sua rota? Que fazer se l√≠deres nacionais, entidades m√©dicas, professores, m√©dicos, donos de hospitais, planos de sa√ļde, e todos que vivem e/ou trabalham com a Sa√ļde neste pa√≠s e que t√™m uma caneta na m√£o, d√£o cabe√ßadas e parecem tatear √†s escuras, ajudando a demonizar uma classe profissional de forma rasa e inconsequente, sem que a verdadeira quest√£o subjacente √† toda superf√≠cie ca√≥tica na qual se d√° o embate seja sequer ao menos arranhada?

A medicina, da forma como a conhecemos hoje, n√£o vai durar muitos anos.¬†H√° quem veja nisso uma coisa boa. H√° quem lamente. Eu acredito que n√£o √© necess√°rio destruir um modelo para construir outro. H√° que se preservar o que h√° de bom e corrigir o que h√° de errado. Ao¬†parafrasear Bilac e utilizar o bord√£o de que a medicina¬†√© a √ļltima flor, me refiro, diferentemente do poeta, a v√°rias “plan√≠cies” das quais a medicina poderia ser um derradeiro legado. Gostaria de chamar a aten√ß√£o com isso para o topos de uma profiss√£o encravada na fronteira de um embate ideol√≥gico; emboscada, de um lado, pela economia e o monetarismo, de outro, pela tecnoci√™ncia; submersa, portanto, nos tecidos profundos de um corpo social da qual ela mesma √© um subproduto. Entranhada na sociedade, a medicina, ao mesmo tempo em que cuida de males, tamb√©m adoece como parte desse todo. Tamb√©m ela, medicina, reproduz a tens√£o do corpo que habita e examin√°-la com cuidado talvez seja a melhor forma de diagnosticar o mal maior. Nesse sentido, ela funciona como nosso pr√≥prio mecanismo de cicatriza√ß√£o:¬†os genes controladores da divis√£o celular que nos regenera guardam consigo o terr√≠vel poder de nos matar. Naquele caso, e tamb√©m aqui no nosso, n√£o pelas faltas, mas pelos excessos.

Flor no deserto

Atualização (28/12/2013)

Na PORTARIA No 731, DE 19 DE DEZEMBRO DE 2013 do D.O.U. (pdf) foi publicada nova lista de municípios pré-selecionados para implantação de curso de graduação em medicina por instituição de educação superior privada (grifos meus), acrescida de 7 outras cidades. São elas:

1. MG: Contagem

2. PR: Pato Branco

3. RJ: Angra dos Reis, Itaboraí

4. RO: Vilhena

5. SC: Jaragu√° do Sul

6. SP: Guarulhos

Com isso a Grande SP poder√° receber mais uma escola m√©dica, totalizando ent√£o, numa √°rea de aproximadamente 20 milh√Ķes de habitantes, 14 faculdades de medicina, se n√£o considerarmos Jundia√≠ e Mogi das Cruzes como parte da conurba√ß√£o paulistana.