Fumar e o Vício da Morte

“A fuma√ßa cont√©m toda uma est√©tica do ef√™mero, como as bolhas de sab√£o, embora aquela, ao contr√°rio destas, excite tamb√©m o paladar. Temo que, ao fim e ao cabo, tudo v√° acabar em c√Ęncer; mas √© um medo long√≠nquo ainda, mera possibilidade. N√£o importa. Sem querer ser perverso, a pr√≥pria id√©ia de que embrulhado neste prazer h√° um impulso de morte, de finitude, apenas o acentua mais, d√°-lhe profundidade e textura. Se morri um pouco agora √† noite, foi uma boa morte. Bela.”

Outro dia, escrevi um post onde deixei umas coisas a discutir e aqui as retomo, ao menos em parte. A pergunta √©: “seria o m√©dico um aconselhador cr√īnico do paciente do tipo ‘n√£o fume’, ‘n√£o beba’, ‘fa√ßa sexo seguro’; ou o m√©dico seria algu√©m para nos tirar de enrascadas √©tico-morais com repercuss√Ķes org√Ęnicas nas quais nos metemos irremediavelmente pelo puro fato de vivermos?”

Sou contra a ideia do m√©dico como um tirano comportamental, cheio de conselhos e ordens, impositor de normas de conduta. Tamb√©m n√£o acho correta a postura do m√©dico permissivo, que acaba por estimular o paciente a cometer certos “delitos” contra sua pr√≥pria sa√ļde. S√£o sintom√°ticas as recomenda√ß√Ķes de sociedades m√©dicas que t√™m aconselhado os m√©dicos a n√£o estimular o consumo de vinho com objetivo de diminui√ß√£o do risco cardiovascular. Entretanto, a pr√°tica nos obriga a tomar decis√Ķes, nem sempre as que os livros e consensos recomendam.

Ant√īnio √© um engenheiro de uma grande multinacional do setor tecnol√≥gico. Tem 60 anos e esclerose lateral amiotr√≥fica. Tem enormes dificuldades para andar e realizar tarefas simples do dia-a-dia. A doen√ßa o obriga a usar quase que constantemente um dispositivo de ventila√ß√£o mec√Ęnica que insufla seus pulm√Ķes por meio de uma m√°scara nasal. Ant√īnio est√° de tal forma adaptado ao dispositivo que consegue trabalhar em casa, tendo todo o apoio da empresa. Aprendeu a falar usando o aparelho, a comer e at√©, a fazer amor! Com tanta comodidade, ele n√£o se entusiasmou a parar de fumar. No ano passado, teve um infarto agudo do mioc√°rdio. Sua fam√≠lia tem uma predisposi√ß√£o enorme √† doen√ßa da art√©ria coron√°ria e com ele n√£o foi diferente. Ap√≥s a interna√ß√£o na qual colocou um stent em uma das art√©rias do cora√ß√£o, eu dei um “chega-pr√°-l√°”. Aleguei que n√£o bastasse o diagn√≥stico neurol√≥gico que o obrigava a usar um aparelho de ventila√ß√£o a maior parte do dia, acabara de ter um infarto. Nenhum ser humano racional continuaria fumando depois disso. A esposa concordou comigo e, ap√≥s muita press√£o, ele resolveu parar com o v√≠cio. Mais ou menos…

As consultas seguintes foram muito ruins. Ele chegou a dizer que sua vida acabara. Eu perguntei como algu√©m poderia basear a vida inteira em um bast√£o de nicotina. Ele disse que eu n√£o entenderia. Eu apelei para a estat√≠stica e para a esposa… Passado um par de meses, sua mulher me liga. “Est√° muito deprimido. Nunca o vi assim. E se deix√°ssemos que fumasse uns dois ou tr√™s…”

√Č a hora de reler o excerto acima e, como li√ß√£o de casa, meditar sobre os termos “boa morte”, “bela (morte)”. Meditar sobre o que √© o tr√°gico na exist√™ncia humana e porque essas coisas d√£o textura e profundidade a certos tipos de sensa√ß√£o que a cogni√ß√£o de nosso sistema nervoso – nossa melhor ferramenta de sobreviver, testada em mil√™nios e mil√™nios de luta feroz – insiste em chamar de prazer