O Matador de Met√°foras

Confesso que n√£o vai ser muito f√°cil. Tamb√©m n√£o sei se minha prosa tem a envergadura simplificadora que o empreedimento exige. Mas como tudo √© exerc√≠cio, m√£os a obra. Que as musas me alumiem o caminho (que vai ser um pouco mais longo que o habitual – haja luz!)…

I

Retomemos o livro de Giannetti, (mal) resumido abaixo. Ao adotar um “fisicalismo reducionista” o personagem-narrador se mete numa enrascada existencial pois, acha ele, tal posi√ß√£o filos√≥fica afeta a forma como se v√™ no mundo, tolhendo-lhe o significado do verdadeiro “eu” e colocando no lugar uma sopa de neuromediadores de concentra√ß√£o vari√°vel. O cap√≠tulo 55 (√ļltimo) √© pr√≥digo neste tipo de questionamento existencial (que eu achei meio exagerada, como tentarei mostrar a seguir):

“√Č poss√≠vel termos acreditado falsamente durante mil√™nios que a vontade consciente rege os nossos m√ļsculos quando, na verdade, ela √© o subproduto in√≥cuo de uma cadeia de eventos eletroqu√≠micos no c√©rebro, como a fosforesc√™ncia no rasto de um f√≥sforo aceso no escuro ou a espuma de uma onda neural? E que, portanto, fazer de um prop√≥sito ou de uma inten√ß√£o consciente a causa de uma a√ß√£o humana √© t√£o desprovido de fundamento como falar do prop√≥sito de uma espermatozoide ao fecundar um √≥vulo ou da cigarra ao entoar sua cantoria ou do Sol ao irradiar calor? Sim, √© poss√≠vel.”

Vai da√≠, que entram no rol do “√© poss√≠vel” as reflex√Ķes √©tico-morais, as guerras ideol√≥gicas e religiosas, a psicologia, o ate√≠smo militante e outras coisas at√© chegarmos ao engodo da consci√™ncia. Um tipo de farsa onde acreditamos que somos os personagens que representamos. Isso pode causar um¬†imobilismo, um mal-estar trans-hist√≥rico (que vem desde a antiguidade); nos tornar a-morais, como parodiando a tese ivankaramazoviana: se n√£o h√° um “eu”, nem uma alma, (ent√£o) tudo √© permitido”. E assim, termina o livro e aqui vamos come√ßar a discutir essa tese que foi criticada de v√°rias formas, por v√°rios autores.

II

O fisicalismo, entendido de modo um pouco mais rigoroso, √© um tipo de materialismo onde todo e qualquer evento pode ser descrito em termos estruturais microf√≠sicos, sendo microf√≠sica a f√≠sica das part√≠culas elementares e tudo que gira no seu entorno. Foi descrito pelos positivistas l√≥gicos do C√≠rculo de Viena (n√£o foi √† toa!). As primeiras formas de fisicalismo ou fisicismo eram todas reducionistas, ou seja, propunham dissolver a descri√ß√£o de todo o tipo de fen√īmeno observ√°vel √†s leis da f√≠sica. O fisicalismo do livro em quest√£o √© tamb√©m eliminativista, pois considera que n√£o h√° estados psicol√≥gicos de jeito nenhum, e nem psicologia, portanto. Da√≠, tudo o que chamei de “enrascada existencial” do personagem do livro.Um jeito de sair dela √© fazer como o m√©dico-pesquisador do livro, que leva duas vidas. Como cientista √© fisicalista radical e assim faz, pensa e trabalha. Na vida “comum”, finge que “eso non ecziste” e pensa em alma, livre-arb√≠trio, problemas √©tico-morais como qualquer mortal. √Č uma vida dualista. O personagem, pelo contr√°rio, vive seus “pensamentos”. Conflituado por suas conclus√Ķes, n√£o consegue separar as coisas. Monista. Um outro jeito, √© o pragm√°tico.

III

Antes de mais nada, √© importante saber que essa forma de sair do problema √© tamb√©m bastante criticada, em especial, por um coreano radicado nos EUA chamado Jaegwon Kim (de onde tirei o esquema acima), mas vamos l√°. As ideias s√£o de Donald Davidson, aluno de Quine, compiladas por Richard Rorty num ensaio chamado “Fisicalismo N√£o-Reducionista” que, por sua vez, est√° na p√°gina 157 do livro Objetivismo, Relativismo e Verdade – Escritos Filos√≥ficos Vol. 1 – 2a Edi√ß√£o – tradu√ß√£o de Marco Ant√īnio Casanova, pela Relume Dumar√° – Rio de Janeiro, 2002. Tamb√©m consultei esse artigo de Ronald Arendt. Vou come√ßar ao contr√°rio de Rorty e do Arendt.N√≥s normalmente n√£o falamos em “conhecimento liter√°rio”, certo? Podemos no m√°ximo falar que um romance nos d√° certos “insights” sobre algumas quest√Ķes que podem ser relevantes. Os de fic√ß√£o cient√≠fica trazem quest√Ķes cient√≠ficas mas s√£o bem a minoria. Acreditamos at√© que as vis√Ķes liter√°rias (e aqui eu incluo grande parte da filosofia, no que me seguiriam muitos cientistas e/ou divulgadores de ci√™ncia) s√£o incompat√≠veis com a vis√£o f√≠sico-naturalista da realidade. Segundo Rorty, uma das causas para que isso ocorra √© a confus√£o que fazemos de naturalismo com reducionismo. Para Rorty, reducionismo aqui significa a procura de uma linguagem singular o suficiente para estabelecer todas as verdades que h√° para serem estabelecidas – um graal lingu√≠stico. Segundo suas pr√≥prias palavras:

“Uma tal tentativa √© associada com a tentativa de identificar a ‘verdade literal’ com a ‘verdade cient√≠fica’ e a tratar a literatura como oferecendo meramente ‘verdades metaf√≥ricas’, algo que n√£o pode realmente ser denominado de verdade acima de tudo. A concep√ß√£o usual, desde Plat√£o, tem sido a de que um entre os v√°rios vocabul√°rios que n√≥s usamos espelha a realidade, e que os outros s√£o na melhor das hip√≥teses ‘heur√≠sticos’ ou ‘sugestivos'”.

Aqui entra Davidson, fil√≥sofo da linguagem, e o t√≠tulo do post. Uma de suas premissas √© que met√°foras n√£o t√™m significados. Isso quer dizer que sua ocorr√™ncia √© como um efeito colateral da utiliza√ß√£o de uma linguagem, n√£o h√° nada implementado com intuito de produzi-las. Entretanto, apesar de surgirem assim, quase sem querer, elas t√™m um papel fundamental quando se “literalizam”. Literalizar uma met√°fora √© mat√°-la, mas no momento em que isso ocorre, reformulam-se nossas cren√ßas, conceitos e desejos. Sem a morte de met√°foras “n√£o haveria nenhuma coisa tal como uma revolu√ß√£o cient√≠fica ou uma ruptura cultural, mas meramente o processo de alterar os valores de verdade das asser√ß√Ķes formuladas em um vocabul√°rio para sempre imut√°vel.” Desse ponto de vista, uma teoria cient√≠fica √© simplesmente uma redescri√ß√£o metaf√≥rica. Por exemplo, quando os crist√£os disseram ‘O amor √© a √ļnica lei’, quando Cop√©rnico disse ‘A Terra gira em torno do Sol’, ou Marx ‘A hist√≥ria √© a hist√≥ria da luta de classes’ ou ainda os f√≠sicos afirmaram que ‘a mat√©ria pode ser transformada em energia’, tais frases pareciam mais com um modo de falar que com uma verdade. Um fil√≥sofo anal√≠tico na√Įve diria que s√£o confusas. O que queremos dizer com “lei”, “sol”, “hist√≥ria” ou “mat√©ria”? Mas quando crist√£os, copernicanos, marxistas e f√≠sicos come√ßaram a redescrever por√ß√Ķes da realidade sob a luz dessas senten√ßas – e comprovar o valor de tais redescri√ß√Ķes – n√≥s come√ßamos a falar delas como afirma√ß√Ķes com grande valor de verdade.

Nesse ponto, nos aproximamos do cume. Eu disse que subir não ia ser tão fácil, mas não vamos parar aqui, né?
Vamos para uma citação do texto de Rorty:

“Esse fen√īmeno da produ√ß√£o e ‘literaliza√ß√£o’ de met√°foras √© o fen√īmeno que a tradi√ß√£o filos√≥fica ocidental sentiu como sendo necess√°rio para avalia√ß√£o a partir de uma oposi√ß√£o entre mat√©ria e esp√≠rito. Essa tradi√ß√£o pensou a criatividade art√≠stica, bem como a ‘inspira√ß√£o’ moral ou religiosa, como incapazes de serem explicadas nos termos usados para explicar o comportamento da ‘realidade meramente f√≠sica’. (Nota do Blogueiro: dizem que tudo come√ßa com Plat√£o e aqui, em especial, isso √© bem verdade, ver A Rep√ļblica e o artigo de Maria Villela-Petit. Al√©m disso, Rorty se coloca em uma linhagem de pragmatistas americanos que come√ßou com Pierce, James e Dewey e que vem combatendo, a seu modo, a tradi√ß√£o filos√≥fica ocidental que √© como eles chamam o pensamento que come√ßou com Plat√£o e atingiu o seu √°pice em Kant, com v√°rios desdobramentos atuais). Em vista disso, surgiram as oposi√ß√Ķes entre ‘liberdade’ e ‘mecanismo’ que dominaram o per√≠odo p√≥s-kantiano na filosofia ocidental. Mas segundo a vis√£o de Davidson, ‘criatividade’ e ‘inspira√ß√£o’ s√£o meramente casos especiais da capacidade do organismo humano articular senten√ßas sem significado – isto √©, senten√ßas que n√£o se ajustam a velhos jogos de linguagem e que servem enquanto ocasi√Ķes para modificar esses jogos de linguagem e criar novos. Essa capacidade √© exercida constantemente, em toda e qualquer √°rea da cultura e da vida cotidiana. Nesta √ļltima, ela aparece como chiste. Nas artes e nas ci√™ncias ela aparece, retrospectivamente, como g√™nio.”

IV
Tudo isso para dizer que para um pragmatista o importante √© “afinar o discurso”, ou seja, utilizar a linguagem correta para cada situa√ß√£o e acabar com essa divis√£o arbitr√°ria de mat√©ria e esp√≠rito. Tudo √© fruto de uma (re)interpreta√ß√£o, (re)arranjos de cad√°veres de met√°foras que formam redes de conceitos utilizados como valores de verdade. A parcim√īnia ontol√≥gica (aqui querendo dizer um tipo de consenso enxuto) n√£o √© para ser alcan√ßada (como os positivistas pensavam) por meio de uma “an√°lise lingu√≠stica”. Se for poss√≠vel faz√™-lo, melhor que seja pela pr√°tica cotidiana. Esse tipo de abordagem n√£o-reducionista √© perfeitamente compat√≠vel com a afirma√ß√£o de que n√≥s provavelmente continuaremos a falar sobre entidades mentais – cren√ßas, desejos, e tudo o mais – para sempre! Aqui, voltamos finalmente ao livro, segundo Rorty, repare que essa fala (cren√ßas, desejos, etc) N√ÉO √© metaf√≥rica; √© uma rede de met√°foras j√° literalizadas. Por isso, n√£o necessita ser tornada mais cient√≠fica ou precisa, al√©m dos ajustes “normais”, e, por outro lado, n√£o necessita de clarifica√ß√£o filos√≥fica com esse intuito espec√≠fico. Dizer que n√≥s sempre falaremos sobre cren√ßas e desejos, √© dizer que a psicologia provavelmente permanecer√° a melhor forma de descrever estados mentais e abord√°-los com entendimento entre pares.Mais um pouco sobre as redes. Rorty acha poss√≠vel abdicarmos da no√ß√£o de “consci√™ncia”, mas acha que temos um “Si pr√≥prio”que consiste nos estados mentais do ser humano (os tais desejos, medos, cren√ßas, de novo). Note-se bem, essa cole√ß√£o de estados mentais √Č o tal Si pr√≥prio. O Si pr√≥prio n√£o as tem, ele as √©. Isso funcionaria como uma rede em cont√≠nuo processo de auto-reformula√ß√£o em respostas a est√≠mulos como novas cren√ßas, por exemplo. Essa imagem √© bem diferente da dualista cartesiana (e √© o que Kim critica alegando impossibilidade) de um “eu” distinto de suas pr√≥prias cren√ßas e desejos. N√£o h√° mais, de forma alguma, um centro que seja o Si pr√≥prio, como n√£o o h√° para o c√©rebro. E aqui o arremate:

“Exatamente como as sinapses neurais est√£o em cont√≠nua intera√ß√£o umas com as outras, constantemente formulando uma diferente configura√ß√£o de descargas el√©tricas, tamb√©m nossas cren√ßas e desejos est√£o em cont√≠nua intera√ß√£o, redistribuindo valores de verdade entre asser√ß√Ķes. Exatamente como o c√©rebro n√£o √© algo que “tenha” tais sinapses, mas √Č simplesmente um aglomerado delas, assim o Si pr√≥prio n√£o √© algo que “tenha” as cren√ßas e os desejos, mas simplesmente a rede que as re√ļne e conecta.”

Isso implica que ter uma crença ou desejo significa ter muitas crenças e desejos; significa ter o fio de uma extensa trama que nos constitui.

V

Como conclus√£o, temos que a dissolu√ß√£o pragm√°tica de uma metaf√≠sica da dualidade mat√©ria-esp√≠rito na filosofia da linguagem de Davidson, respinga na filosofia mente-c√©rebro produzindo uma vis√£o dos seres humanos, que segundo Rorty, √© “naturalista” e n√£o-reducionista, dado que o processo de redu√ß√£o √© um processo lingu√≠stico como foi demonstrado; e, portanto, relativo. As consequ√™ncias disso s√£o bastante abrangentes. A n√≥s, interessaria a ultrapassagem do dilema do narrador-personagem do livro de Giannetti. √Č poss√≠vel descrever fen√īmenos em v√°rios n√≠veis de especificidade. Ao descolarmos esse ato da vincula√ß√£o √† Verdade, √† pretens√£o do conhecimento da “coisa-em-si”, poderemos trabalhar em n√≠veis superiores de entendimento humano m√ļtuo sem nos imobilizarmos. O amoralismo proposto tamb√©m n√£o se sustenta por estar embutido na quest√£o do consenso entre os seres humanos. Tentarei, levando em considera√ß√£o o texto de Ratzinger abaixo, tra√ßar um paralelo entre a ci√™ncia e a religi√£o e mostrar como, ao menos nessas quest√Ķes, elas mais se aproximam que se op√Ķem.

VI

Por fim, esse trabalho de desmistificação do fisicalismo reducionista também foi feito com muita simplicidade, a exemplo do silogismo de Giannetti na parte IV do post abaixo, por Hempel com o raciocínio que se segue:

“Talvez uma das cr√≠ticas mais incisivas ao fisicalismo esteja no dilema apontado por
Hempel (1980): se o fisicalismo for definido de acordo com a ciência Física atual, então se
trata de uma tese possivelmente falsa, já que a Física atual não é, de maneira alguma, uma
ciência completa. Por outro lado, se o fisicalismo apoiar-se em uma ciência Física hipotética,
uma ciência completa que ainda está por vir, então o fisicalismo perde sua força, pois não
sabemos como será essa Física e que coisas farão parte desse mundo físico que ainda não
somos capazes de conceber.”

Do excelente artigo de Diego Zilio em Ciências & Cognição 2010; Vol 15 (1): 217-240.

Acho que d√° para falar no “Erro de Giannetti” e em tempestade em copo de √°gua, n√©?

Livro “A Ilus√£o da Alma” de Giannetti

Ganhei de presente o livro, com dedicat√≥ria e tudo, com a promessa de que leria e escreveria alguma coisa. Alguma coisa a√≠ vai…

I

√Č uma novela autobiogr√°fica. Ou um ensaio ficcional. Ou como disse Fernando Meirelles, um thriller ensa√≠stico (voltarei a isso mais tarde). Conta a hist√≥ria de um professor de literatura especializado em Machado de Assis que se v√™ √†s voltas com um tumor cerebral bastante peculiar. Dividido em tr√™s partes espec√≠ficas, 1. O tumor f√≠sico; 2. Libido Sciendi e 3. O tumor metaf√≠sico, narra como o aparecimento de um tumor no lobo temporal do protagonista transmuda sua vis√£o de mundo. Mais, como esta vis√£o fica ref√©m de um tipo espec√≠fico de filosofia chamado fisicalismo (mais, logo abaixo). Sim, √© um livro sobre filosofia da mente e isso √© bom e ruim.

II

O tumor f√≠sico. Achei o come√ßo do livro interessante. Uma mistura de neurofisiologia com Machado me pareceu promissora. Apesar do narrador-protagonista dar bastante velocidade √† prosa, a narrativa fica um pouco aborrecida. Met√°foras um pouco for√ßadas (“riso de hienas num funeral”, altern√Ęncia de explica√ß√Ķes complexas (funcionamento do corpo caloso) com outras bastante batidas e clich√™s (dissec√ß√£o da palavra melancolia, uma men√ß√£o de que Arist√≥teles achava que o c√©rebro serviria para “esfriar” o sangue proveniente do cora√ß√£o – n√£o seriam os pulm√Ķes?) e o excesso de cita√ß√Ķes, algumas um pouco fora de contexto (n√£o nos deixando jamais esquecer que Giannetti lan√ßou um livro s√≥ delas h√° 2 anos), fizeram a leitura um pouco laboriosa.

III


Libido Sciendi. Aqui o livro entra de cara no problema mente-cérebro e Giannetti se mostra um grande didático e autodidata. Coloca alguns problemas que já abordamos aqui, como nesta passagem:

“(…) n√£o √© coisa f√°cil para o ser humano apreender impessoalmente a si pr√≥prio e √† maneira como v√™ o mundo; percebi que fazer isso exigia uma postura distinta daquela a que estamos habituados na vida comum. Precisava de algum modo me afastar e recuar de mim mesmo, alcan√ßar um grau de distanciamento que me permitisse olhar-me de fora, o mais friamente poss√≠vel, com o mesmo esp√≠rito com que um bot√Ęnico coleta e examina variedades de orqu√≠deas ou um music√≥logo analisa a partitura de uma sonata.”

Ou seja, Rogozov. De importante, no cap√≠tulo 17 a men√ß√£o do riqu√≠ssimo conto machadiano “O Espelho” (ver uma boa an√°lise aqui) e a “teoria das duas almas” que ser√° usada ao longo de todo o livro. No cap√≠tulo 19, o confrontamento anunciado na “orelha” do livro e no seu dorso: Dem√≥crito vs S√≥crates. A partir do F√©don de Plat√£o e da narrativa da morte de S√≥crates, o narrador-personagem coloca a decis√£o deste em n√£o fugir e submeter-se √†s leis de Atenas como um conflito arquet√≠pico entre o fisicalismo e o mentalismo. Dem√≥crito de Abdera j√° foi taxado de materialista (tese de Marx), antinaturalista (tese de Cl√©ment Rosset) e fisicalista, este √ļltimo termo especificamente relacionado √† produ√ß√£o da mente pelo c√©rebro. Ele e seu mestre Leucipo, de quem pouco se sabe, resolveram o problema her√°clito-parmenidiano com o atomismo. Tudo flui na apar√™ncia, mas os √°tomos que constituem todo o universo, continuam iguais, unos e indivis√≠veis. O fisicalismo, por sua vez, sustenta que tudo o que existe est√° e √© sujeito √†s leis f√≠sicas o que implica que o que chamamos de “vontade”, “livre-arb√≠trio” e outras cositas s√£o v√≠cios de linguagem e, de fato, seriam apenas configura√ß√Ķes neuronais que se deixariam perceber pela consci√™ncia. O mentalismo √© a vis√£o de que a mente √© a real causa da vontade e que apenas a partir dela ocorrem os fen√īmenos in concert que determinam os comportamentos humanos (cobrir-se quando se tem frio, procurar comida quando se tem fome, etc). Tendo a decis√£o de S√≥crates de tomar a cicuta que lhe fora sentenciada sido interpretada atrav√©s dos mil√™nios como uma decis√£o moral – tipicamente mentalista – na p√°gina 107, escreve-se:

“A perspectiva fisicalista contesta a vers√£o mentalista do comportamento de S√≥crates e oferece uma explica√ß√£o alternativa. Os tr√™s componentes da a√ß√£o do fil√≥sofo de n√£o fugir mas aceitar a pena que lhe foi imposta precisam ser melhor analisados e devidamente entendidos. (…) E, por fim, como o ju√≠zo de valor e a vontade consciente – dois estados mentais – s√£o capazes de acionar e p√īr em movimento (neste caso em repouso) os m√ļsculos e tend√Ķes do fil√≥sofo – estados do corpo?”

E arremata:

“O homem moral socr√°tico, argumenta a filosofia fisicalista, n√£o passa de um subproduto fantasioso – e com forte componente narc√≠sico – do homem natural atomista. Um arco-√≠ris pr√©-newtoniano.”

Bonito, n√©? Mas isso joga a discuss√£o para o lado mais profundo e escuro do lago: o elo causal entre o pensar e o agir. H√° uma diferen√ßa entre pensar/querer e ter consci√™ncia de que se est√° pensando/querendo. O narrador cita ent√£o estudos de Benjamin Libet em “que a escalada de atividade neural – o evento f√≠sico no c√©rebro – precede no tempo n√£o apenas a a√ß√£o muscular, mas tamb√©m o evento mental, ou seja, a pr√≥pria consci√™ncia da decis√£o de agir” por uns parcos tr√™s d√©cimos de segundo. Mas, precede. O resto √© argumenta√ß√£o em cima disso e uma sensa√ß√£o de estarmos folheando uma revista, tantas as cita√ß√Ķes e cores com que se pintam o quadro.

IV

O tumor metaf√≠sico. N√£o √© √† toa que a terceira parte do livro come√ßa com uma cita√ß√£o de S√∂ren Kierkegaard. No cap√≠tulo 33, o narrador aventa a possibilidade de que o livro poderia ser um thriller e esse exato momento, seria o do crime. O cap√≠tulo 34 √© o dramalh√£o do narrador por acreditar em algo extremamente terr√≠vel e, pior, nas suas consequ√™ncias. Nesse meio tempo, tome William James: “meu primeiro ato de livre-arb√≠trio ser√° acreditar no livre-arb√≠trio”; pau no Dawkins (adorei essa, hehe): “para quem cren√ßas humanas s√£o d√≥ceis e podem ser ligadas e desligadas como interruptores de abajur”; al√©m de Bentinho e S√≥crates. Como consequ√™ncias da ideia e mais terr√≠veis do que ela pr√≥pria temos que: “√Č ilus√£o tomar como causa aquilo que sobe √† consci√™ncia como um ato de vontade, fruto da inten√ß√£o de agir” e principalmente esta:

“Um estado mental (“preciso almo√ßar”) nunca √© realmente produzido por outro estado mental (“estou com fome”); todos s√£o produzidos por estados do c√©rebro. Quando um pensamento parece suscitar outro por associa√ß√£o, n√£o √© na verdade um pensamento que puxa ou atrai outro pensamento – a associa√ß√£o n√£o se d√° entre os dois pensamentos, mas sim entre os dois estados do c√©rebro ou dos nervos subjacentes a esses pensamentos”.

Trocando “nervos subjacentes a esses pensamentos” por “n√ļcleos neuronais” ou coisa parecida, fica um pouco melhor. Segue-se um exerc√≠cio inapel√°vel de l√≥gica:

“A ideia √© tremenda, mas basta um silogismo para resumi-la. As leis e regularidades que regem o mundo s√£o independentes da minha vontade (premissa maior); a minha vontade √© fruto das mesmas leis e regularidades que regem o mundo (premissa menor); logo, a minha vontade √© independente da minha vontade (conclus√£o).”

Isso nos torna algo como aut√īmatos, ensopados de serotonina e dopamina, cujas concentra√ß√Ķes determinam minha vontade de transar com minha mulher hoje ou comer um pizza de calabresa. O narrador se apavora com isso e tamb√©m com o fato de que o m√©dico que o operou, n√£o est√° nem a√≠ para essa v√£s filosofias. O livro melhora substancialmente. Algumas tiradas geniais e cita√ß√Ķes bem colocadas, trazem o leitor de volta √† vida do personagem que fica, pasmem, bem mais interessante, no papel de roboz√£o. Talvez uma contradi√ß√£o mesma do livro.

V

Numa mistura de “O Mundo de Sofia” com “Trem Noturno para Lisboa” e pitadas de insanidade de “Zen e a Arte de Manuten√ß√£o de Motocicletas“, o livro tem um final interessante e uma provoca√ß√£o: ap√≥s mostrar que “lutar” contra o fisicalismo √© entrar em uma luta imagin√°ria, o narrador instiga o leitor a refut√°-lo. Tentarei discutir um pouco mais sobre isso nos pr√≥ximos posts e talvez se mostre o bom e o ruim, a dor e a del√≠cia, de discutir filosofia da mente.

Para um resumo de uma palestra de Giannetti sobre o livro ver aqui.

Atualização

Veja o excelente post no Amigo de Montaigne, sobre o “Erro de Giannetti”.

A Ilus√£o da Alma