Eu, Procarioto

Certa vez atendi uma paciente no ambulat√≥rio do hospital e solicitei a ela, entre outros exames, um protoparasitol√≥gico de fezes. No retorno, os resultados n√£o mostravam nada digno de nota, exceto a presen√ßa de Entamoeba coli¬†detectada no fat√≠dico exame. Como se sabe, esse protozo√°rio vive de forma amistosa no organismo humano e n√£o √© causador de doen√ßas (diferentemente de seu primo a Entamoeba histolytica). Disse a ela, ent√£o, que estava tudo bem e que poderia continuar com a medica√ß√£o atual. Ela, indignada, perguntou se eu n√£o iria tratar “aquilo”, apontando o exame com o indicador e uma cara de nojo. Eu repeti que n√£o era necess√°rio. Ela insistiu: “Dr. Eu n√£o quero¬†isso dentro de mim. Pode tratar…”

E. coli

Escherichia coli

Mal sabia ela – e eu tamb√©m – que h√° muito mais coisas nos intestinos – e no nosso organismo, de forma geral -, do que todo nosso conhecimento recente poderia supor. N√£o s√≥ amebas boazinhas, mas tamb√©m uma infinidade de bact√©rias vivem em n√≥s. Muitas bact√©rias. Ali√°s, mais bact√©rias que c√©lulas constituintes (sim, algu√©m j√° fez essa conta!): em um indiv√≠duo normal, existem aproximadamente 10 bact√©rias para cada c√©lula humana. Isso significa que 90% das c√©lulas presentes em nosso organismo pertencem a outro dom√≠nio biol√≥gico ou super-reino chamado procariotas. N√ļmero certamente suficiente para causar uma crise de identidade em minha “insegura” paciente e me fazer lembrar de Asimov no t√≠tulo do post.

Os estudos prosseguiram. A quantidade de bact√©rias abrigadas no corpo humano era t√£o supreendentemente gigantesca que os cientistas come√ßaram a utilizar o nome microbioma ou microbiota, aludindo a uma poss√≠vel intera√ß√£o ecol√≥gica entre os seres envolvidos e¬†isso virou um projeto do Instituto Nacional de Sa√ļde dos EUA em 2007. Ao estudar pessoas de v√°rios lugares do mundo, descobriu-se que os respectivos microbiomas tinham diferen√ßas significativas, tanto de pessoa para pessoa, como entre pessoas nas diversas regi√Ķes do globo. Isso lembrou os estudos “ecogen√īmicos” iniciados no final da d√©cada de 90. Ecogen√īmica, Gen√īmica Ambiental ou Metagen√īmica¬†foram nomes dados para o sequenciamento gen√©tico e identifica√ß√£o de microrganismos em seu habitat natural, permitindo a identifica√ß√£o de v√°rias esp√©cies que n√£o eram vistas nas culturas clonais realizadas at√© ent√£o.

A presen√ßa de um “meta-organismo” geneticamente distinto dentro de nosso organismo come√ßou a gerar perguntas sobre como seria a intera√ß√£o, leia-se troca de informa√ß√£o, entre os dois sistemas gen√©ticos bastante diferentes e passamos a ser considerados seres¬†metagen√īmicos (ou superorganismos, como preferem alguns autores) no sentido ecol√≥gico mesmo do conceito. Mas, se a “distin√ß√£o galtoniana entre a gen√©tica e o meio ambiente como mecanismos geradores de nossas caracter√≠sticas fenot√≠picas √© considerada hoje uma dicotomia simplista e (…) o meio ambiente e os genes podem interagir de m√ļltiplas maneiras diferentes desafiando a no√ß√£o de que possam agir indepententemente um do outro”, como afirma Joseph Loscalzo, editorialista do New England Journal, ent√£o, a presen√ßa desse riqu√≠ssimo material gen√©tico interagindo com o nosso deve provocar algum tipo resposta. Para descrever esse novo modo de intera√ß√£o, o modelo de rela√ß√£o hospedeiro/parasita j√° n√£o parece ser suficiente porque as mesmas bact√©rias que nos ajudam em determinados momentos, podem nos prejudicar em outros.

Surge ent√£o, um novo mecanismo fisiopatol√≥gico. Algo com o qual n√£o nos t√≠nhamos defrontado antes e que, para al√©m de quaisquer dualismos, reside na intera√ß√£o entre duas “for√ßas” viventes. Antes de vencer o inimigo √© preciso, agora mais do que nunca, aprender a conviver com ele.

 

Pflughoeft, K., & Versalovic, J. (2012). Human Microbiome in Health and Disease Annual Review of Pathology: Mechanisms of Disease, 7 (1), 99-122 DOI: 10.1146/annurev-pathol-011811-132421

Loscalzo, J. (2013). Gut Microbiota, the Genome, and Diet in Atherogenesis New England Journal of Medicine, 368 (17), 1647-1649 DOI: 10.1056/NEJMe1302154

Recomendo os textos do Meio de Cultura sobre o assunto. Superorganismos 1, 2 e 3. E o especial da Nature (em inglês, para assinantes).

Agradecimentos ao Luiz Bento do Discutindo Ecologia pela revis√£o do manuscrito.