Paris, Século XIX

Hotel_Dieux

Hotel Dieux, Paris, França (1860). Por trás, sim, ela mesma, a Catedral de Notre Dame.

Honor√© de Balzac – naquele que viria a ser o terceiro livro da primeira parte dos Estudos do Costume e o d√©cimo-primeiro volume de sua monumental Com√©dia Humana, o romance de nome “A Casa Nucingen” – inicia sua narrativa com uma conversa de quatro jornalistas em um restaurante parisiense. Em determinado momento da discuss√£o, que, a prop√≥sito, girava em torno da felicidade humana, Balzac coloca na boca de √Čmile Blondet a seguinte frase (em livre tradu√ß√£o): “A medicina moderna, cuja maior gl√≥ria √© ter, de 1799 a 1837, passado do estado conjectural ao estado de ci√™ncia positiva, muito pela grande influ√™ncia da escola analista de Paris, demonstrou, sem d√ļvida, que o homem periodicamente renova-se por completo”[1]. O livro foi escrito em 1837 e publicado, inicialmente, na forma de folhetim nos jornais da √©poca.

Deixemos – com Georges Canguilhem [2] – a quest√£o da tal “renova√ß√£o humana” de lado at√© porque, no livro de Balzac, tal observa√ß√£o n√£o deixa muito claro seus objetivos. Canguilhem, ele mesmo m√©dico e fil√≥sofo, tomou dois aspectos dessa frase de Balzac para analisar o que ele chama de “estatuto epistemol√≥gico da medicina”[2]: as datas e o sintagma “estado de ci√™ncia positiva”.¬†Balzac era um grande cronista de sua √©poca e n√£o escolheria tais datas gratuitamente. Canguilhem identifica ent√£o alguns acontecimentos marcantes: em 1799, aconteceu o Golpe de Estado do 18 Brum√°rio e a publica√ß√£o da “Nosographie¬†philosophique ou la¬†methode de l’analyse applique¬†√† la¬†m√©dicine” de Pinel. [lembrar que a obra m√°xima de Xavier Bichat foi publicada em 1799/1800:¬†Trait√© des membranes g√©n√©ral et de¬†diverses membranes en particulier].¬†Se, por um lado, 1837 n√£o tem nenhum fato pol√≠tico relevante, do ponto de vista m√©dico “√© o ano da publica√ß√£o do terceiro volume das ‘Le√ßons sur les phenomenes physiques de Ia vie’¬†de Magendie¬†e tamb√©m¬†da quarta edi√ß√£o do ‘Trait√© d’ auscultation¬†m√©diate’¬† de Laennec, revisado por Andral”. Entre as duas datas, ainda segundo Canguilhem, Xavier Bichat inventou a anatomia patol√≥gica, Pierre Louis instituiu as estimativas num√©ricas concernentes √† tuberculose (1825), febre tif√≥ide (1829) e aos efeitos do tratamento das pneumonias com sangria (1835), tudo isso sem esquecer que foi em 1830 que o primeiro dos seis volumes do “Curso de Filosofia Positiva” de Auguste Comte foi publicado.¬†Eu ainda apontaria, na frase de Balzac, um terceiro elemento que mereceria aten√ß√£o especial, apesar de Canguilhem n√£o o destacar em seu texto: “escola analista de Paris”. Por que Paris? As transforma√ß√Ķes radicais que a pr√°tica m√©dica sofreria nos anos seguintes √† Revolu√ß√£o Francesa n√£o foram ocasionadas por uma repentina descoberta cient√≠fica ou por um avan√ßo tecnol√≥gico s√ļbito, nem tampouco tiradas da cartola de ningu√©m.

A mudan√ßa radical ocorrida na medicina foi uma revolu√ß√£o conceitual. A Revolu√ß√£o Francesa (1789-1799) fechou todos os servi√ßos p√ļblicos de sa√ļde para reabr√≠-los posteriormente. O Hotel Dieu (acima) tinha depend√™ncias insalubres e abrigava at√© 5 pacientes para CADA LEITO! [3]. Pessoas convalescentes, misturavam-se com as doentes, pessoas vivas misturavam-se aos cad√°veres. Os quartos superlotados n√£o tinham ventila√ß√£o adequada. O p√≥s-operat√≥rio (ainda n√£o existia a¬†anestesia) era ao lado da ala psiqui√°trica onde “gritos eram ouvidos √† noite toda”, s√£o descri√ß√Ķes comuns da √©poca. Ap√≥s a reabertura dos hospitais n√£o foi permitido mais que um paciente por leito, mas a situa√ß√£o n√£o melhorou muito. As cl√≠nicas m√©dicas particulares foram praticamente extintas e os m√©dicos passaram a exercer suas fun√ß√Ķes nesses hospitais. Alguns recebiam sal√°rios dos pr√≥prios hospitais (muito baixos, diga-se de passagem), mas o movimento aumentou muito. Os m√©dicos tinham a oportunidade de ver centenas de pacientes nos ao inv√©s de alguns poucos em suas cl√≠nicas privadas. Com isso, houve uma mudan√ßa na rela√ß√£o m√©dico-paciente, com o primeiro ganhando poderes quase ilimitados sobre o segundo. Al√©m disso, o √≥rg√£o respons√°vel pela sa√ļde criado no per√≠odo revolucion√°rio e atuante tamb√©m depois dele –¬†Conseil G√©n√©rale d‚ÄôAdministration – centraliza e expande a Sa√ļde P√ļblica determinando o acesso de todos. Por meio desse √≥rg√£o, foi promulgada a ‚ÄúLei das Aut√≥psias‚ÄĚ (art. 25 do decreto de Marly) que cobrava uma quantia para enterrar pessoas falecidas nos hospitais que a grande maioria da popula√ß√£o n√£o tinha condi√ß√Ķes de pagar. Os corpos ent√£o iam para sala de aut√≥psias, permitindo “material” praticamente inesgot√°vel de estudo para os m√©dicos √°vidos de conhecimento. Tal situa√ß√£o levou muitos m√©dicos de outros pa√≠ses a estagiarem em Paris com objetivo de aprender as t√©cnicas de aut√≥psia e tamb√©m a nova Anatomia Patol√≥gica [3].

A reviravolta epist√™mica ocorrida nos mal-falados e escuros hospitais de Paris no s√©culo XIX repercute at√© hoje em todo o ed√≠ficio fulgurante da pr√°tica m√©dica contempor√Ęnea. No novelo complexo dessa reviravolta √© poss√≠vel destacar quatro fios-de-meada, quatro “vertentes fundacionais” de conceitos formadores (e tamb√©m deformadores, como veremos) do pensamento m√©dico atual. Vertentes que, de certa forma, j√° estavam presentes em dispersos¬†antecessores dos franceses e que, transformadas por estes, vieram tornar-se caudalosos rios nos quais os m√©dicos navegam hoje. Se conhecer a nascente de um rio talvez n√£o seja importante para naveg√°-lo, √© ao menos prudente estudar a geografia de seu leito para que saibamos onde (e como vamos chegar a sua foz). Tentarei mostrar nos pr√≥ximos posts de onde v√™m e para onde v√£o quatro das principais ideias surgidas na Paris de Balzac e Canguilhem.

 

[1] de Balzac H, de Carvalho A. A casa Nucingen. Companhia Nacional Editora; 1891. Fac-símile em francês no site da Biblioteca Nacional da França. A referida passagem se encontra na página 13 da obra.

[2] ResearchBlogging.orgCanguilhem, Georges (1988). Le statut epistémologique de Ia médecine. Hist. Phil. Life Sci., 10 (Suppl), 15-29.

[3] ResearchBlogging.org Waddington, I. (1973). The Role of the Hospital in the Development of Modern Medicine: A Sociological Analysis Sociology, 7 (2), 211-224 DOI: 10.1177/003803857300700204

Figuras retiradas do bonito blog Dittrick Museum.