DEK – Olhar e Ver Espelhos

Xadrez no Espelho

O que √© “olhar”? Literalmente, olhar √© “dar uma olhada”, um golpe d’olhos. √Č o movimento conjugado dos globos oculares em dire√ß√£o a algo ou algu√©m. Se, por um lado, quem n√£o olha fatalmente n√£o v√™, como √© sabido de todos, o inverso √© mesmo poss√≠vel, qual seja olhar de fato, sem nada ver. Por qu√™? “Ver”, assim como seu correlato “enxergar”, parecem conferir algo de interpretativo ao ato mesmo de olhar. A etimologia de “enxergar” √© classificada como “incerta” pelo Houaiss e pelo Dicion√°rio Etimol√≥gico da L√≠ngua Portuguesa, o que nos permite e(spec)ular (as raz√Ķes desses par√™nteses ser√£o esclarecidas abaixo). Em castelhano temos a palavra¬†envidia¬†que vem do latim invidere, sendo composta por “in-“¬†“p√īr sobre”, “ir para” e “videre”,¬†o pr√≥prio “ver”. Envidia significa, portanto, algo como “deitar o olhar sobre” e seria um √©timo poss√≠vel para nosso “enxergar”. Por outro lado, em latim ainda temos a palavra insecare, primeira pessoa do verbo inseco, que significa “cortar, divisar”. Foi sugerido [1] que a rela√ß√£o entre “cortar” e “saber”, que √© tamb√©m dada no voc√°bulo derivado do grego “an√°lise”, pudesse ter originado o “enxergar”. Incerto, de qualquer forma, mas plaus√≠vel e certamente aprovado ao menos por Michel Foucault[2].

E o que √© “ver”? A origem √© o latim¬†videre¬† como vimos e que, por sua vez, vem de uma raiz indoeuropeia¬†*weid-, comum, veja s√≥, √† palavra grega őĶőĻőīőŅŌā (eidos¬†= apar√™ncia, imagem) t√£o cara √† Plat√£o e que originou as palavras “androide”, “antropoide”, “ginecoide” e tantas outras com o significado de “assemelhado a” ou “na forma de”.¬†Interessante tamb√©m o fato de que, em bom ingl√™s, tal raiz tenha originado¬†wisdom¬†(sabedoria),¬†wise¬†(s√°bio),¬†wizard¬†(mago), todas palavras que de certa forma designam a capacidade que algu√©m tem de “ver mais longe”.

Peculiar √© o termo species¬†que tamb√©m significa “apar√™ncia”, “a(spec)to” (calma, j√° chegamos l√°) e “vis√£o” e deriva de uma raiz (spec)¬†(pronto!) que significa “olhar, ver”, raiz essa que pode ser encontrada tamb√©m em palavras como speculum, que n√£o significa apenas “espelho”, mas tamb√©m √© o nome que se d√° a um instrumento m√©dico utilizado para ver “interiores corp√≥reos”, muito utilizado em ginecologia (ali√°s, uma das “e(spec) ialidades” m√©dicas); spectrum, “imagem”, “fantasma”; specimen, “exemplo”, “signo”; spectaculum, “espet√°culo”. Raiz que, segundo Giorgio Agamben [3], se desdobra numa dial√©tica bastante interessante.¬†Species foi utilizado para traduzir para o latim o termo filos√≥fico¬†eidos (acima), derivando seu sentido para as ci√™ncias da natureza (esp√©cie animal ou vegetal) e para o com√©rcio, significando “mercadoria” e, mais tarde, o pr√≥prio dinheiro. Ainda segundo Agamben

“especioso” significa “belo” e, mais tarde, “n√£o verdadeiro”, “aparente”. “Esp√©cie” significa o que torna vis√≠vel e, mais tarde, o princ√≠pio de uma classifica√ß√£o de equival√™ncia. Causar esp√©cie significa “assombrar, surpreender” (em sentido negativo); mas que indiv√≠duos constituam uma esp√©cie nos traz seguran√ßa” [4] (it√°licos no original).

A esp√©cie √©, ent√£o, a imagem de uma coisa que se mostra ao olhar mas que, ao mesmo tempo, precisa ser fixada na pr√≥pria coisa para se constituir em uma identidade. Por isso, a f√≥rmula de Agamben √© t√£o promissora: “especial” √© o ser cuja ess√™ncia coincide com seu dar-se a ver, com sua esp√©cie.¬†Quando algu√©m diz que somos especiais, tal afirma√ß√£o pode constituir-se num elogio de autenticidade, mas tamb√©m numa cr√≠tica de impessoabilidade ou mesmo de insubstancialidade. “S√≥ personalizamos algo – referindo-o a uma identidade – se sacrificamos a sua especialidade” – diz Agamben.

E a coisa toda fica bem mais interessante quando observamos nossa pr√≥pria “esp√©cie” refletida num espelho. Isso porque o espelho √© o locus da descoberta de que nossa “esp√©cie”, nosso imago, n√£o nos pertence. E “entre a percep√ß√£o da imagem e o reconhecer-se nela h√° um intervalo que os poetas medievais denominavam amor“[5]. O espelho de Narciso √© essa experi√™ncia. “Se eliminarmos esse intervalo ou o prolongarmos indefinidamente, a imagem √© interiorizada como “fantasma”, e o amor recai na psicologia”[5], met√°fora para patologiza√ß√£o do Eu.

Nosso olhar seria então um meio pelo qual construimos um mundo e também reconhecemos os sujeitos que nele habitam. Entretanto, ao voltar-se sobre si e nos submeter ao escrutínio de seu recorte, um certo cuidado é preciso. Para que não comecemos a ver fantasmas onde eles jamais existiram.

 

[1] Takata, R. Personal communication.

[2] Foucault, M. Microf√≠sica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1984. “√Č que o saber n√£o √© feito para compreender, ele √© feito para cortar.‚ÄĚ p. 28.

[3] Agamben, G. Profana√ß√Ķes. Boitempo, 2007. Tradu√ß√£o e apresenta√ß√£o de Selvino J. Assmann. p. 52.

[4] Idem. p. 54.

[5] Idem. p. 53.