X-Doctor

Xavier no Cérebro

H√° um momento, nesse √ļltimo filme sobre a fic√ß√£o mutante dos X-Men, em que o jovem Charles¬†Xavier entra em seu aparato chamado C√©rebro e, vestindo um capacete futurista ligado por¬†interm√©dio¬†de tubos a uma m√°quina algo obsoleta, conecta-se com todos os mutantes do mundo. Tudo o que ele v√™ e sente √© sofrimento. Dor, incompreens√£o, viol√™ncia verbal e f√≠sica. Em um determinado momento, os rel√≥gios marcadores explodem e ele arranca¬†o capacete dizendo que n√£o consegue mais aguentar aquilo. √Č convencido a encarar seu destino quando lhe dizem que, na verdade, o que ele n√£o aguenta n√£o √© a dor dos outros, mas a sua pr√≥pria.

H√° algo muito m√©dico no comportamento de Charles Xavier.¬†N√£o se trata apenas do¬†acesso a¬†queixas e dos relatos de sofrimento as semelhan√ßas do professor com um habitus m√©dico. Pior. Trata-se de, ao tomar¬†conhecimento deles, consider√°-los¬†sua responsabilidade e acreditar que se pode¬†minimiz√°-los.¬†Digo “acreditar” porque nem sempre isso √© poss√≠vel, mas o m√©dico acha que, de alguma forma, sim, isso √© poss√≠vel! E vai tentar. E vai se arrepender de ter tentado isso e n√£o aquilo. E vai vacilar e tentar retroceder, para novamente ser impelido a ir¬†adiante.

E vai alternar momentos de felicidade e onipot√™ncia, com outros de miser√°vel culpa e remorso sabe-se-l√°-de-qu√™, sendo que os √ļltimos¬†ofuscar√£o progressivamente os primeiros fazendo surgir a humildade insolente que lhes √© peculiar. E vai envelhecer assim, ouvindo queixas em¬†m√ļltiplas vozes com¬†som digital est√©reo surround e agir sempre em contraponto com a sensa√ß√£o de ter deixado algo para tr√°s. Dormir√° cada vez menos. Falar√° cada vez menos de suas coisas e das coisas que viu e v√™, todavia¬†quando¬†resolver pronunciar-se, dobrar√° sua voz¬†como a de um instrumento com afina√ß√£o trocada,¬†scordatura¬†desafinada a princ√≠pio, sem sentido at√©, mas que √† escuta atenta soar√°¬†extremamente inusual e bela, como s√£o mesmo as coisas do decl√≠nio e da finitude, numes¬†de seu destino com os quais¬†ele, finalmente, se reconciliar√°.